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Revista de divulgação

técnico-científica do ICPG
Vol. 3 n. 10 - jan.-jun./2007
ISSN 1807-2836 101

O LÚDICO E SUAS MÚLTIPLAS DERIVAÇÕES NA


REALIDADE DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Sandra Regina Nardis de Oliveira1
Renata Silva 2

Resumo

Este artigo tem como objetivo a reflexão dos professores que trabalham nos centros de Educação Infantil, considerando a
importância do brincar neste contexto educacional. A atividade lúdica não se reduz ao ato de brincar. O brinquedo, a brincadei-
ra e o jogo são atividades diferenciadas e muitas vezes confundidas pelos educadores. Neste artigo, abordar-se-ão os conceitos
destes instrumentos educativos de forma a auxiliar os educadores a reconhecer a diferença entre eles e sua importância no
desenvolvimento das crianças que freqüentam a Educação Infantil. Utilizou-se como fundamentação estudos de Piaget, Vygotsky,
Leontiev, Kishimoto e outros autores, que revelam, em suas obras, a importância da utilização da atividade lúdica como recurso
pedagógico. Considerando as informações coletadas, percebe-se a necessidade de refletir sobre a prática pedagógica no cotidi-
ano das instituições de Educação Infantil no que se refere ao ato de brincar e modificá-la.

Palavras-chave : Brincar. Educação Infantil. Contexto. Aprendizagem.

1 INTRODUÇÃO vida são as que marcam mais profundamente a pessoa. Quando


positivas, tendem a reforçar, ao longo da vida, as atitudes de
autoconfiança, de solidariedade e de responsabilidade. Entende-
Na infância, a imaginação, a fantasia e o brinquedo são ativi-
se a Educação Infantil como compromisso social e pedagógico
dades que não podem se caracterizar apenas pelo prazer que
por ser um espaço de produção de aprendizagens, pois se consi-
proporcionam, mas também como agentes auxiliadores do pro-
dera a capacidade de construção de conhecimentos pela criança
cesso ensino-aprendizagem. Compreender a importância da ati-
na sua interação com o meio físico e social, bem como nas trocas
vidade lúdica para o ser humano, principalmente para a criança
interativas com outros sujeitos e o mundo social.
que brinca, reconhecendo sua importância no processo de de-
senvolvimento da mesma, implica levantar questões bastante pro- Sendo a atividade lúdica um instrumento pedagógico e de
fundas no processo educativo, de modo especial da escola. utilização freqüente por educadores da Educação Infantil e com-
preendendo que a infância é a idade das brincadeiras e que o
Diante da necessidade de se apropriar do mundo, as crianças
brinquedo tem papel fundamental no processo ensino-aprendi-
se motivam a jogar e a brincar. “A promoção de atividades que
zagem, procurou-se aprofundar os conhecimentos sobre o tema
favorecem o envolvimento da criança em brincadeiras, principal-
com o estudo da problemática: Qual a diferença entre brinquedo,
mente a criação de situações imaginárias, tem nítida função pe-
brincadeira e jogo? A escolha deste tema fez-se basicamente pela
dagógica.” (OLIVEIRA, 1995, p. 67). Poucas pessoas sabem da
necessidade de se aprofundar o conhecimento sobre as teorias
importância do lúdico no desenvolvimento das crianças e que é
que revelam os diferentes conceitos que permeiam o lúdico na
por meio dele que elas adquirem experiências e desenvolvem seu
Educação Infantil.
conceito sobre o mundo que as cerca.
Os objetivos levantados terão como base teórica os livros de
A cada dia, a aprendizagem com o lúdico ganha novas cono-
diversos autores e de estudiosos da educação, como Piaget (1988),
tações e, aos poucos, evolui no sentido de significar um impor-
Vygotsky (1984), Leontiev (1988), Kishimoto (1996), entre ou-
tante mediador no desenvolvimento do ser humano, que possi-
tros, sendo uma oportunidade para o educador refletir sobre a
bilita torná-lo mais político, transformador e libertador.
maneira como o lúdico interfere no desenvolvimento integral da
A criança adora imitar os adultos e participar de pequenas
criança.
tarefas, devendo isto ser valorizado e estimulado pelas pessoas
que a cercam. O brinquedo não se limita à simples ação de brin-
car: contribui para a formação intelectual e social, principalmente 2 CONCEITUANDO BRINQUEDO, BRINCADEIRA E JOGO
quando se trata a espontaneidade da criança como algo inerente,
próprio de cada um que busca caminhos para a construção do
Os termos brinquedo, brincadeira e jogo são palavras difíceis
saber. de definir, pois quando se faz referência a brinquedo, dá-se a
A Educação Infantil é a primeira etapa da educação básica. idéia de objeto, enquanto que brincadeira é o ato do brincar e
Estabelece as bases da personalidade humana, da inteligência, jogo, a brincadeira atribuída de regras.
da vida emocional e da socialização. As primeiras experiências da Cada contexto social constrói uma imagem de jogo conforme

1 Especialista em Supervisão, Orientação e Gestão Escolar e Interdisciplinaridade na Educação Básica.


2 Mestre em Turismo e Hotelaria. E-mail: renata@criareconsultores.com
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seus valores e modo de vida. No Brasil, termos como jogo, brin- Enfim, o brinquedo não é somente uma forma de gastar ener-
quedo e brincadeira ainda são utilizados como sinônimos, de- gias. É um instrumento muito importante e necessário, que con-
monstrando a falta de conhecimento sobre tais definições, con- tribui para o desenvolvimento da criança, sendo um elo integra-
forme afirma Kishimoto (1996, p. 17): “termos como jogo, brin- dor entre os aspectos cognitivo, socioafetivo e psicomotor, por-
quedo e brincadeira, são empregados de formas indistintas, de- que é brincando que a criança ordena o mundo a sua volta, assi-
monstrando um nível baixo de conceituação deste campo”. Abor- milando experiências e informações e, sobretudo, incorporando
da-se, a seguir a visão de alguns estudiosos sobre estes concei- atividades e valores.
tos. Outras vertentes definem o brinquedo, segundo Beart (apud
KISHIMOTO, 1996, p. 07), “como suporte da brincadeira, quer
2.1 BRINQUEDO seja concreto ou ideológico, concebido ou simplesmente utiliza-
do como tal”. O sentido dessa definição mostra que não só o
brinquedo criado pelo mundo dos adultos para brincadeiras in-
Desde a sua origem, o brinquedo é um objeto do adulto para fantis, mas também aqueles que a criança cria ou incorpora nas
a criança. Brinquedos antigos, como a bola, a pipa, e as rodas, suas brincadeiras, como colheres, pratos, panelas, cabos de vas-
permitiam o desenvolvimento das fantasias infantis. Os brinque- soura, adquirem o sentido lúdico, como instrumentos musicais,
dos são, sempre, suporte das brincadeiras, colocam a criança na cavalo, chapéu, etc.
presença de reproduções e substituem objetivos reais para que a
Em outra dimensão, pode-se compreender, conforme afirma
criança possa manuseá-los.
Forougere (apud KISHIMOTO, 1996, p. 08), que “é a função lúdi-
Segundo Kishimoto (1996, p.7): ca que atribui o estatuto de brinquedo ao objeto fabricado pelas
indústrias de brinquedos”. Se um brinquedo for colocado como
O brinquedo é um suporte da brincadeira. Diferindo do jogo, objeto de decoração na sala de casa, funcionará como tal. Se este
o brinquedo supõe uma relação íntima com a criança, ou mesmo objeto for colocado em local apropriado de uma sala de
seja, a ausência de um sistema de regras que organizam sua
aula, já será um objeto simbólico, estimulante de brincadeira para
utilização. O brinquedo estimula a representação, a expres-
são de imagens que enfocam aspectos da realidade.
crianças.
A palavra brinquedo não pode ser reduzida à pluralidade de
sentimentos dos jogos, pois, para as crianças, tem uma dimensão
O brinquedo preenche uma atividade básica, ou seja, é motivo material, cultural e técnica. Existem registros de brinquedos in-
para a ação. A criança possui uma grande necessidade de satisfa- fantis provenientes de diversas culturas que remotam às épocas
zer seus desejos imediatamente. Durante a fase pré-escolar, as cri- pré-históricas, demonstrando, assim, que é natural ao homem
anças não conseguem ter todos os seus desejos e tendências brincar, independente de sua origem e do seu tempo. Hoje, a
atendidos. Portanto, deveriam ser usadas as atividades lúdicas de imagem da infância é enriquecida, também, com o auxílio de con-
livre exploração nas quais predomina somente brincar, e não a cepções pedagógicas que reconhecem o papel do brinquedo no
busca por resultados. Sendo assim, Souza (1982, p. 48) afirma: desenvolvimento e na construção do conhecimento infantil.

O brinquedo é ação livre, sentida como fictícia, que é


capaz de absorver a pessoa que brinca. É uma ação despo- 2.2 BRINCADEIRA
jada de toda utilidade. É trabalho e interação que colocam
em funcionamento a imaginação, desenvolvem a confi-
ança, o autocontrole, a cooperação, aperfeiçoam o corpo Os termos jogo e brincadeira geralmente acabam se tornando
e a mente, oferecem estabilidade emocional . sinônimos, embora o primeiro pareça se diferenciar do segundo
em alguns aspectos. A brincadeira se apresenta mais livre, mais
determinada a um fim próprio e se realiza apenas com um elemen-
O brinquedo não serve apenas para passar o tempo ou diver- to, enquanto que o jogo possui regras, pode ser utilizado como
tir as crianças, porque o brincar representa esforço e conquista. meio para chegar a um fim e geralmente envolve dois ou mais
Exerce grande influência no desenvolvimento de uma criança, participantes.
sendo por meio dele que se passa a agir numa esfera cognitiva,
dependendo das motivações e tendências internas. O brinquedo Vygotsky (1984) afirma a importância da brincadeira do ponto
dá à criança a oportunidade de dirigir seu comportamento em de vista cultural, social e, principalmente, pedagógico. Por meio
uma situação imaginária e de separar o significado da ação real. do brincar, a criança vê e constrói o seu mundo, bem como ex-
pressa aquilo que tem dificuldade de colocar em palavras.
Sendo assim, o brinquedo constitui um veículo educacional
muito importante, pois oferece inúmeras possibilidades educaci-
onais, favorece o desenvolvimento corporal e estimula a vida A brincadeira, como atividade dominante da infância, tendo
em vista as condições concretas da vida da criança e o
psíquica e a inteligência. É a forma de expressão por meio da qual lugar que ela ocupa na sociedade, é primordialmente a
a criança traduz informações, adquire conhecimentos, resolve forma pela qual esta começa a aprender secundariamente,
situações difíceis e dá vazão aos seus sentimentos. é onde tem início a formação de seus processos de imagi-
nação ativa e, por último, onde ela se apropria das normas
de comportamento que corresponde a certas pessoas.
Embora num exame superficial possa parecer que o brin- (WAJSKOP, 1995, p.34).
quedo tem pouca semelhança com atividades psicológicas
mais complexas do ser humano, uma análise mais apro-
fundada revela que as ações no brinquedo são subordinadas Nas brincadeiras, ao reproduzir situações da vida, a criança
aos significados dos objetos, contribuindo claramente para
tenta compreender seu mundo. Quando imita, a criança está ten-
o desenvolvimento infantil. (OLIVEIRA, 1995, p. 66).
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tando compreender o mundo, ressignificá-lo e se apropriar das das. Para Vygotsky:


normas de comportamento de outras pessoas. Quando a criança
brinca, cria uma situação imaginária. Nesta situação, ao assumir Há regras, não as regras previamente formuladas e que
um papel, a criança inicialmente imita o comportamento do adulto mudam durante o jogo, mas aquela que tem origem na
tal qual ela observa em seu contexto. própria situação imaginária. Portanto, a noção de que
uma criança pode se comportar em uma situação imaginá-
No sentido apontado, as brincadeiras assumem um papel fun- ria sem regras é simplesmente incorreta. (VYGOTSKY,
damental no desenvolvimento da criança em geral, tendo em vis- 1984, p.125).
ta que a mesma reproduz aquilo que viu outra pessoa fazendo.
Mesmo desconhecendo o significado dessa ação, cria novas
possibilidades e combinações, transforma seu comportamento. Entre os autores que discutem a natureza do jogo e suas
A brincadeira não pode ser considerada como uma atividade características, pode-se descrever a concepção de Huizinga (apud
qualquer, pois, ao brincar, a criança está construindo sua perso- KISHIMOTO, 1996, p. 23), que vê o jogo como uma produção do
nalidade. meio social e aponta as características de prazer, o caráter não
sério, a liberdade, a separação dos fenômenos do cotidiano, as
regras, o caráter fictício e a sua limitação de tempo e espaço.
A brincadeira é uma forma de atividade social infantil, cujas Contrapondo essa afirmação, encontra-se em Vygostsky (apud
características imaginativas são diversas do significado co-
tidiano da vida, e fornece uma ocasião educativa única para KISHIMOTO, 1996, p.23) que, nem sempre, o jogo proporciona o
as crianças. Na brincadeira, as crianças podem pensar e prazer, pois, muitas vezes, exige esforço e desprazer na conquista
experimentar situações novas ou mesmo do seu cotidiano, do objetivo que deseja alcançar. Quanto ao caráter não sério,
isentas das pressões situacionais. No entanto, é importante este não se refere ao fato da seriedade do jogo, e sim ao fato do
ressaltar que, pelo caráter aleatório, a brincadeira também
pode ser um espaço de reiteração de valores retrógrados e riso, da alegria de jogar. Já a liberdade é a capacidade de livre
conservadores, com os quais a maioria das crianças se con- escolha; a existência de regras é característico de todo jogo e,
fronta diariamente. (WAJSKOP, 1995, p. 30-31). finalmente, a limitação de tempo e espaço é uma conseqüência
própria da brincadeira.
Percebe-se a contradição desta atividade que pode ser en- Mas recentemente, Christie ( apud KISHIMOTO, l996) carac-
contrada e resolvida a partir de uma decisão pedagógica sobre teriza diferentemente o jogo, mencionando outros tipos de com-
os caminhos das crianças que se quer ampliar. É interessante portamento, como: a não-literalidade, em que a realidade interna
proporcionar brincadeiras que desenvolvam a função simbólica. predomina sobre a externa; a alegria de jogar, característica que
traz efeitos positivos aos aspectos corporal, moral e social da
Geralmente, em suas brincadeiras, a criança se transforma em
criança; e a flexibilidade que faz a criança tornar-se flexível e
adulto, imitando situações já vivenciadas, reproduzindo o com-
buscar alternativas de ação. Destaca, ainda, escolha e controle
portamento dos pais, professores e irmãos. Nesses momentos,
interno.
ela passa a repetir situações já vividas, às vezes à procura de
soluções para algumas situações. Segundo Kishimoto (1996, p.39), Kishimoto (1996) defende a idéia de que o jogo utilizado como
“as idéias e ações adquiridas pelas crianças provêm do mundo recurso pedagógico passa a denominar-se jogo educativo: “Quan-
social, incluindo a família e o seu círculo de relacionamento”. do as situações lúdicas são intencionalmente criadas pelo adulto
com vistas a estimular certos tipos de aprendizagens, surge a
As brincadeiras, além de contribuírem e influenciarem a for-
dimensão educativa.” (KISHIMOTO, 1996, p. 37).
mação da criança, possibilitando um maior crescimento mental,
integram-se ao mais alto espírito de uma prática pedagógica, pois A utilização dos jogos educativos nas instituições de Educa-
investem na produção do conhecimento. ção Infantil potencializa a aprendizagem e transporta para o cam-
po do ensino-aprendizagem o prazer, a capacidade de iniciação e
a ação ativa e motivadora.
2.3 O JOGO

3 AS ATIVIDADES LÚDICAS NA VISÃO DE PIAGET


O jogo é a principal estratégia de conhecimento no período
da Educação Infantil. É sua atividade principal. O conceito do
que realmente significa atividade principal é de fundamental im- Jean Piaget (1896-1980) nasceu na Suíça e iniciou seus estu-
portância no estudo do desenvolvimento da infância. O jogo é dos pela biologia e pela história natural. A partir das experiências
explicado por Leontiev (1988, p.69) “como sendo uma atividade realizadas com moluscos, convenceu-se de que os atos biológi-
que se caracteriza por ser aquela cujo desenvolvimento governa cos são atos de organização e adaptação ao meio ambiente. Pro-
as mudanças mais importantes nos processos psíquicos e nos curou estender essas perspectivas aos atos cognitivos, estabe-
traços psicológicos da personalidade da criança em certo está- lecendo a inteligência como uma forma especial de adaptação
gio de seu desenvolvimento.” biológica. As estruturas psicológicas surgiram, assim, gradativa-
mente, como resultados de fatores biológicos e empíricos. A teo-
Leontiev (1988) ainda define essa atividade como sendo aque-
ria genética de Piaget estabelece três grandes períodos de de-
la em que ocorrem as mais importantes mudanças no desenvolvi-
senvolvimento, divididos conforme as aquisições que lhes são
mento psíquico da criança, centro no qual se desenvolvem pro-
característicos: período sensório-motor, período operatório e
cessos psíquicos que preparam o caminho da transição da crian-
período operatório-formal.
ça para um novo e mais elevado nível de desenvolvimento.
Na visão piagetiana, as brincadeiras e os jogos favorecem o
Todo jogo envolve regras que se originam da própria situa-
desenvolvimento da criança a qual tem necessidade de brincar
ção imaginária, mesmo que não sejam formalmente estabeleci-
para crescer em equilíbrio com o mundo. Sua maneira de assimilar
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(transformar o meio para que este se adapte às necessidades) e Como no foco de uma lente de aumento, os brinquedos con-
de acomodar (mudar a si mesma para adaptar-se ao meio) deverá têm, de maneira condensada, todas as tendências do desenvol-
ser sempre por meio do jogo. (PIAGET, 1988). vimento, sendo ele mesmo uma grande fonte de desenvolvimen-
A utilização do brinquedo com objetivos se transforma em to. Para Vygotsky (1984, p. 134 – 135), “o brinquedo cria uma
recursos didáticos de grande aplicação no processo ensino-apren- zona de desenvolvimento proximal da criança. No brinquedo, a
dizagem, pois propiciam o desenvolvimento integral do educan- criança se comporta além do comportamento diária; no brinque-
do. Segundo Piaget (1988, p. 59), “os métodos da educação da do, é como se ela fosse maior do que é na realidade”. A criança
criança exigem que se forneça à criança material conveniente, a transforma as atitudes do cotidiano em brincadeiras e, ao mesmo
fim de que, jogando, ela possa assimilar as realidades intelectu- tempo, aproxima-se de sua realidade para compreendê-la.
ais, que, sem isso, permanecem exteriores à inteligência infantil”. O brinquedo faz com que a criança aprenda a agir numa esfera
Por meio das atividades lúdicas, a criança age ativamente, cognitiva, pois a criação de uma situação imaginária pode ser
questiona, reflete, descobre, torna-se social, cria e respeita re- considerada como um meio para desenvolver o pensamento abs-
gras. Com isso, ela está, explícita ou explicitamente, buscando trato. É por meio da brincadeira que a criança aprende a se conhe-
novos conhecimentos. O jogo, o brinquedo e a brincadeira repre- cer, a conhecer as pessoas que a cercam, a relação entre as pes-
sentam, na maioria das vezes, uma situação-problema a ser resol- soas e os papéis que as pessoas assumem. Por meio do jogo, ela
vida pela criança, devendo a solução ser construída por ela mes- aprende sobre a natureza, os eventos sociais, a dinâmica interna
ma, de forma criadora e inteligente, pois não são apenas uma e a estrutura do seu grupo. Com o brinquedo, ela também conse-
forma de entreter ou de lhe proporcionar desgaste físico e cansa- gue entender o funcionamento dos objetos e explorar suas ca-
ço, mas de possibilitar seu desenvolvimento intelectual, confor- racterísticas físicas.
me esclarece Piaget (1988, p. 59): “Os jogos não são apenas uma Os jogos de faz-de-conta e os brinquedos didáticos ou es-
forma de entretenimento para gastar energias da criança, mas portivos, além de desenvolverem os movimentos amplos e finos
meios que contribuem e enriquecem o desenvolvimento intelec- do corpo, levam a criança a vivenciar inúmeras funções intelec-
tual.” tuais, tais como cálculo, posição, velocidade e equilíbrio, bem
Segundo a teoria de Piaget, o período infantil passa por três como normas de cooperação social determinadas pelas regras do
sucessivos sistemas de jogos: a) jogo de exercício, que aparece jogo. Pelo jogo, o ser humano dá vazão ao seu impulso de criar
nos primeiros dezoito meses de vida, por meio da repetição de formas ordenadas, pois o jogo é uma forma de ordenação, a co-
ações e manipulações realizadas com prazer derivado das ativi- meçar pela ordenação de tempo e espaço, tendo como origem as
dades motoras; b) o jogo simbólico, que aparece por volta dos regras do coletivo que, por sua vez, também estão presentes nas
dois anos de idade, juntamente com a representação da lingua- situações imaginárias.
gem, quando a criança vai além da manipulação e assimila a rea- O que a criança aprende brincando é de grande valor para ela:
lidade externa do seu eu, ou seja, vai reconhecendo sua própria suas necessidades são atendidas, seu relacionamento com o meio
subjetividade e fantasia para sua satisfação e superação de con- torna-se melhor. Sendo assim, é de grande importância o brin-
flitos, sendo que, quanto maior a idade, mais caminha para a quedo na Educação Infantil.
realidade; e c) o jogo de regras, que marca a passagem da ativida-
de individual para a socialização, não acontecendo antes de 4
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
anos e predominando dos 7 aos 11 anos. Com o jogo de regras, a
criança interage com as outras crianças e com o grupo social.
(PIAGET, 1988). Como os educadores são os principais agentes pela inserção
Em síntese, pode-se concluir que a criança, ao nascer, já está de seus alunos no mundo do conhecimento, devem aproveitar
em contato com a ludicidade, a qual a acompanha ao longo de ao máximo a atividade lúdica durante o processo de ensino-apren-
seu desenvolvimento psíquico e social. dizagem, pois facilitarão a compreensão e a disponibilidade men-
tal para o aprendizado, possibilitando um ensino prazeroso e de
qualidade.
4 AS ATIVIDADES LÚDICAS NA VISÃO DE VYGOTSTY A utilização do lúdico no cotidiano escolar sugere reflexões e
questionamentos. Como o tema é abrangente, uma vez conscien-
Para os sociointeracionistas, o brinquedo não pode ser con- tes de sua importância, é necessário que os educadores constan-
ceituado só como uma atividade que proporciona prazer à crian- temente realizem estudos que lhes forneçam subsídios para a
ça. Por meio do brinquedo, a criança satisfaz certas necessidades utilização adequada desse instrumento em sua prática educativa.
de agir em relação não apenas ao mundo dos objetos, mas tam- O lúdico, no desenvolvimento infantil, ainda não encontrou,
bém em relação ao mundo mais amplo dos adultos. na prática das escolas, a repercussão que merece. Não se pode
negar que muitas escolas têm o hábito da pintura, do desenho,
O brinquedo torna-se o tipo principal de atividade devido da modelagem e do brincar, mas, nem sempre, essas práticas têm
ao fato de o mundo objetivo do qual a criança é conscien- a sua importância devidamente reconhecida. Portanto, é neces-
te, estar continuamente expandindo-se. Este mundo in- sário que haja uma reformulação desse paradigma, uma maior e
clui não apenas os objetos que constituem o mundo ambi- melhor utilização do lúdico para que ocorra um verdadeiro cresci-
ental próximo da criança, os objetos com os quais ela
pode operar e de fato opera, mas também os objetos com mento e desenvolvimento da criança por meio dessas atividades.
os quais a criança ainda não é capaz, por estar além de sua A elaboração deste artigo permitiu perceber a importância de
capacidade física. (LEONTIEV, 1988, p. 125). o educador conhecer e fundamentar suas atividades lúdicas em
sala de aula, modificar sua prática e trabalhar com a educação
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lúdica de maneira a alcançar resultados positivos para todos os


envolvidos no processo ensino e aprendizagem. Além disso,
considerando a contribuição dos estudos de Piaget e de Vygotsky
sobre a importância da atividade lúdica para o desenvolvimento
e aprendizagem da criança, esta abordagem procurou incentivar
a reflexão dos educadores que atuam na Educação Infantil e a
utilização do brinquedo, da brincadeira e do jogo como recursos
pedagógicos em suas salas de aula.

6 REFERÊNCIAS

KISHIMOTO, Tizuko Morchita. Jogos, brinquedo, brincadeira e


educação. São Paulo: Ed. Cortez, 1996.
LEONTIEV, Aléxis. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Ed.
Horizonte, 1988.
OLIVEIRA, Marta Kohn. Vygotsky: aprendizagem e desenvolvi-
mento - um processo sócio-histórico. 3 ed. São Paulo: Ed. Scipio-
ne, 1995.
PIAGET, Jean. Nascimento da inteligência na criança. Rio de
Janeiro: Ed. Zahar, 1988.
SOUZA, Ronaldo Pagnocelli. A criança, a família e a escola.
Porto Alegre: Ed. Globo, 1982.
WAJSKOP, Gisela. O brincar na educação infantil. Caderno de
Pesquisa, São Paulo, n° 92, p. 62-69, fev. 1995.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. São
Paulo: Livraria Martins Fontes, Ed. Ltda, 1984.

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