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rdo Martelotta Conceituação A lingüística é definida, na maioria dos manuais especializados, como a

disciplina que estuda cientificamente a linguagem. Essa definição, pouco elucidativa por sua
simplicidade, nos obriga a fazer algumas considerações importantes. Primeiramente, precisamos
determinar o que estamos entendendo pelo termo "linguagem", que nem sempre é empregado com o
mesmo sentido. Precisamos também delimitar o que significa estudar cientificamente a linguagem. Além
disso, não podemos esquecer que existem outros ramos do conhecimento que, à sua maneira, também se
interessam pelo estudo da linguagem. Isso nos leva a estabelecer alguns contrastes entre a lingüística e
algumas ciências ou disciplinas afins, de modo a delimitar seu campo de atuação. A partir de agora
tentaremos desenvolver algumas observações sobre os conceitos de linguagem e de língua, estabelecendo
o que há de científico nos estudos elaborados na área da lingüística. Além disso, buscaremos estabelecer
diferenças entre essa disciplina e outros ramos do conhecimento que também se interessam em
compreender a linguagem, bem como apresentar algumas áreas de aplicação das teorias lingüísticas.
Linguagem e língua O termo "linguagem" apresenta mais de um sentido. Ele é mais comumente
empregado para referir-se a qualquer processo de comunicação, como a linguagem dos animais, a
linguagem corporal, a linguagem das artes, a linguagem da sinalização, a linguagem escrita, entre outras.
Nessa acepção, as línguas naturais, como o português ou o italiano, por exemplo, são formas de
linguagem, já que constituem instrumentos que possibilitam o processo de comunicação entre os
membros de uma comunidade. Entretanto, os lingüistas - cientistas que se dedicam à lingüística -
costumam estabelecer uma relação diferente entre os conceitos de linguagem e língua. Entendendo
linguagem como uma habilidade, os lingüistas definem o termo como a capacidade que apenas os seres
humanos possuem de se comunicar por meio de línguas. Por sua vez, o termo "língua" é normalmente
definido como um sistema de signos vocais1 utilizado como meio de comunicação entre os membros de
um grupo social ou de uma comunidade lingüística. Quando falamos, então, que os lingüistas estudam a
linguagem, queremos dizer que, embora observem a estrutura das línguas naturais, eles não estão
interessados apenas na estrutura particular dessas línguas, mas nos processos que estão na base da sua
utilização como instrumentos de comunicação. Em outras palavras, o lingüista não é necessariamente um
poliglota ou um conhecedor do funcionamento específico de várias línguas, mas um estudioso dos
processos através dos quais essas várias línguas refletem, em sua estrutura, aspectos universais
essencialmente humanos. A lingüística, como ocorre com outras ciências, apresenta diferentes escolas
teóricas que diferem na sua maneira de compreender o fenômeno da linguagem. Em uma tentativa de
apresentar uma visão mais geral e, sobretudo, imparcial em relação a essas escolas, propomos que a
capacidade da linguagem, eminentemente humana, parece implicar um conjunto de características.
Vejamos algumas delas: a) Uma técnica articulatória complexa Quando falamos em técnica articulatória,
nos referimos a um conjunto de movimentos corporais necessários para a produção dos sons que
compõem a fala. Esses movimentos envolvem desde a expulsão de ar a partir dos pulmões - através dos
brônquios, da traqueia e da laringe - até sua saída pelas cavidades bucal e nasal. A sutileza que caracteriza
esses movimentos e, sobretudo, a particularidade que distingue os vários sons e sua função no sistema da
língua fazem com que o domínio desse processo de produção vocal seja uma tarefa de complexidade tal
que apenas a espécie humana parece ser capaz de realizar. No que diz respeito à produção sonora dos
elementos fonéticos, vejamos, por exemplo, a distinção entre /b/ e /p/. Ambos são oclusivos, bilabiais,
orais. A única diferença entre eles é que /b/ é sonoro e /p/ é surdo. Ou seja, na pronúncia do /b/ a glote
(espaço entre as cordasvocais) estásemifechada, fazendo com que o ar, ao passar, ponhaas cordasvocais
em vibração. No caso de /p/, aglote está aberta, o que faz com que o ar passe sem dificuldade e sem
causar a vibração das cordas vocais. Essa diferença articulatória é um traço distintivo no sistema da língua
portuguesa, pois a troca de /p/ por /b/ (e vice-versa) leva a uma mudança de significado das palavras,
como em "bote" e "pote". A esse fato está associado o domínio que o falante tem sobre complexos
fenômenos de ordem fonológica que caracterizam o uso diário de uma língua. Nesse sentido, são
interessantes fatos como a troca de lei por /i/, por exemplo, que na oposição entre "pera" e "pira" causa
uma modificação de sentido, mas na oposição entre Imeninol e Imininol não. Esses fenômenos
demonstram que o uso da linguagem implica o domínio de um conjunto de procedimentos bastante
complexos, associados não apenas à produção e percepção dos diferentes sons da fala, mas também aos
efeitos característicos da distribuição funcional desses sons pela cadeia sonora. b) Uma base
neurobiológica composta de centros nervosos que são utilizados na comunicação verbal Um exemplo que
ilustra bem essa relação entre a linguagem e nossa estrutura neurobiológica pode ser visto nas afasias, que
se caracterizam como distúrbios de linguagem provenientes de acidentes cardiovasculares ou lesões no
cérebro. Desde meados do século xix, a partir dos estudos de cientistas como Paul Broca e Karl
Wernicke, ficou estabelecido que lesões ou traumatismos em determinadas áreas do cérebro provocam
problemas de linguagem. Broca propôs que, se as lesões ocorrem na parte frontal do hemisfério esquerdo
do cérebro, elas causam, nas pessoas afetadas, uma articulação deficiente e uma séria dificuldade de
formar frases sem que, no entanto, sua compreensão daquilo que as outras pessoas falam seja
comprometida. Diz-se que os pacientes que apresentam esse problema sofrem de afasia de Broca.
Wernicke, por sua vez, percebeu que pacientes com lesão na parte posterior do lóbulo temporal esquerdo
apresentavam problemas de linguagem diferentes dos descobertos por Broca. Embora conseguissem falar
fluentemente, com boa pronúncia e com frases sintaticamente bem formadas, esses pacientes perdiam a
capacidade de produzir enunciados com significado, assim como a capacidade de compreender a fala de
outras pessoas. Costuma-se caracterizar essa deficiência como afasia de Wernicke.1 A partir de então
vêm sendo desenvolvidos estudos acerca da interface entre cérebro/mente/linguagem, caracterizando uma
área de pesquisa normalmente chamada de neurolinguística ou afasiologia. Descobriu-se, por exemplo,
que as áreas de Broca e de Wernicke são conectadas por um feixe de fibras chamadofasciculus arcuatus,
cuja lesão gera um terceiro tipo de afasia chamado de afasia de condução. O que queremos demonstrar
com essas informações sobre as relações entre linguagem e estrutura neurobiológica é que o
funcionamento da linguagem, tal como ocorre, está relacionado a uma estrutura biológica que o veicula.
c) Uma base cognitiva, que rege as relações entre o homem e o mundo biossocial e, consequentemente,
asimbolização ou representação desse mundo em termos lingüísticos Associado a essa base
neurobiológica está o que poderíamos chamar, para usar uma expressão simplificada, dt funcionamento
mental, ou seja, os processos associados à nossa capacidade de compreender a realidade que nos cerca,
armazenar organizadamente na memória as informações conseqüentes dessa compreensão e transmiti-las
aos nossos semelhantes em situações reais de comunicação. Podemos dizer que o termo cognição se
relaciona a esse funcionamento mental e que, em lingüística, existem diferentes teorias que descrevem
esse funcionamento. Para formarmos uma idéia bem geral de como a lingüística trata esses fenômenos, é
interessante traçarmos um breve histórico do modo como os lingüistas compreenderam a relação entre o
uso da linguagem e o funcionamento da mente ao longo da evolução dos estudos lingüísticos.
Começaremos da chamada hipótese do relativismo lingüístico, que pode ser vista nas idéias apresentadas
no início do século xx por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf.3 Segundo essa hipótese, cada língua
segmenta a realidade de um modo peculiar e impõe tal segmentação a todos os que a falam. Isso significa
que a linguagem é importante não só para a organização do pensamento, como também para a
compreensão e categorização do mundo que nos cerca. Vejamosum exemplo de como isso
ocorre.Algumas línguas indígenas apresentam o mesmo termo para designar o sol e a lua. Isso significa,
segundo essa teoria, que os falantes dessas línguas identificam esses dois objetos celestes como
pertencentes aumamesmacate- goria de coisas. Em nossa cultura, isso não acontece: temos nomes
distintos para designá- los: "sol" e "lua". Isso se dáporque acreditamos setratarde duas coisas de
naturezadiferente. Assim, a linguagem determinaria a percepção e o pensamento: as pessoas que falam
diferentes línguas veem o mundo de modos distintos. Por sua vez, as diferenças de significados existentes
numa língua são relativas às diferenças culturais relevantes para o povo que usa essa língua. Os autores
procuram mostrar, portanto, a importância que a linguagem tem na compreensão e na construção da
realidade. Essa forma de ver a linguagem foi mais tarde severamente criticada por Noam Chomsky e
pelos lingüistas gerativistas (ver o capítulo "Gerativismo"), os quais propõem uma visão de que o
pensamento humano apresenta uma espécie de organização interna e universal, que, pelo menos em sua
essência, pouco tem a ver com questões de caráter sociocultural. Por sua vez, os lingüistas
sociocognitivistas (ver o capítulo "Lingüística cognitiva") retomam a proposta relativista, atribuindo-lhe
argumentos mais modernos: adotam a hipótese de que existem universais conceptuais que apenas
motivam os conceitos humanos, mas que não têm a capacidade de prevê-los de modo definitivo. Segundo
essa visão, os universais conceptuais não determinam o pensamento humano, pois sofrem a influência de
fatores socioculturais. Não é nosso objetivo, no momento, entrar nos detalhes associados às discussões
sobre a natureza da estrutura cognitiva humana, e sim registrar o fato de que a capacidade da linguagem
implica um tipo de organização mental sem a qual ela não existiria ou, pelo menos, não teria as
características que tem. d) Uma base sociocultural que atribui à linguagem humana os aspectos variáveis
que ela apresenta no tempo e no espaço A linguagem é um dos ingredientes fundamentais para a vida em
sociedade. Desse modo, ela está relacionada à maneira como interagimos com nossos semelhantes,
refletindo tendências de comportamento delimitadas socialmente. Cada grupo social tem um
comportamento que lhe é peculiar e isso vai se manifestar também na maneira de falar de seus
representantes: os cariocas não falam como os gaúchos ou como os mineiros e, do mesmo modo,
indivíduos pertencentes a um grupo social menos favorecido têm características de fala distintas dos
indivíduos de classes favorecidas. Além disso, um mesmo indivíduo em situações difere...
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 Mário Eduardo M
exibições ,12 página
O 60.8 MB

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 MANUAL DE L
5813 exibições ,50 p
O 10.6 MB

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 Linguística. Már
Linguística5 exib
O 3.9 MB

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 Estruturalismo. M
Linguística9 exib
O 3.5 MB

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 Mário Eduardo M
exibições ,250 págin
O 57.4 MB

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 Manual de Lingu
lib.org)208 exibiçõ
O 48.3 MB

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 ALENCASTRO
exibições ,8 páginas
O 723.8 KB

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 Les comparatifs
O 2.5 MB

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 4.Fascismo e pol
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 FASPEC _ REG
EMBAIXADOR
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 Martelotta, M.E.
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vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv rdo Martelotta Conceituação A lingüística é definida, na maioria dos
manuais especializados, como a disciplina que estuda cientificamente a linguagem. Essa definição, pouco
elucidativa por sua simplicidade, nos obriga a fazer algumas considerações importantes. Primeiramente,
precisamos determinar o que estamos entendendo pelo termo "linguagem", que nem sempre é empregado
com o mesmo sentido. Precisamos também delimitar o que significa estudar cientificamente a linguagem.
Além disso, não podemos esquecer que existem outros ramos do conhecimento que, à sua maneira,
também se interessam pelo estudo da linguagem. Isso nos leva a estabelecer alguns contrastes entre a
lingüística e algumas ciências ou disciplinas afins, de modo a delimitar seu campo de atuação. A partir de
agora tentaremos desenvolver algumas observações sobre os conceitos de linguagem e de língua,
estabelecendo o que há de científico nos estudos elaborados na área da lingüística. Além disso,
buscaremos estabelecer diferenças entre essa disciplina e outros ramos do conhecimento que também se
interessam em compreender a linguagem, bem como apresentar algumas áreas de aplicação das teorias
lingüísticas. Linguagem e língua O termo "linguagem" apresenta mais de um sentido. Ele é mais
comumente empregado para referir-se a qualquer processo de comunicação, como a linguagem dos
animais, a linguagem corporal, a linguagem das artes, a linguagem da sinalização, a linguagem escrita,
entre outras. Nessa acepção, as línguas naturais, como o português ou o italiano, por exemplo, são formas
de linguagem, já que constituem instrumentos que possibilitam o processo de comunicação entre os
membros de uma comunidade. Entretanto, os lingüistas - cientistas que se dedicam à lingüística -
costumam estabelecer uma relação diferente entre os conceitos de linguagem e língua. Entendendo
linguagem como uma habilidade, os lingüistas definem o termo como a capacidade que apenas os seres
humanos possuem de se comunicar por meio de línguas. Por sua vez, o termo "língua" é normalmente
definido como um sistema de signos vocais1 utilizado como meio de comunicação entre os membros de
um grupo social ou de uma comunidade lingüística. Quando falamos, então, que os lingüistas estudam a
linguagem, queremos dizer que, embora observem a estrutura das línguas naturais, eles não estão
interessados apenas na estrutura particular dessas línguas, mas nos processos que estão na base da sua
utilização como instrumentos de comunicação. Em outras palavras, o lingüista não é necessariamente um
poliglota ou um conhecedor do funcionamento específico de várias línguas, mas um estudioso dos
processos através dos quais essas várias línguas refletem, em sua estrutura, aspectos universais
essencialmente humanos. A lingüística, como ocorre com outras ciências, apresenta diferentes escolas
teóricas que diferem na sua maneira de compreender o fenômeno da linguagem. Em uma tentativa de
apresentar uma visão mais geral e, sobretudo, imparcial em relação a essas escolas, propomos que a
capacidade da linguagem, eminentemente humana, parece implicar um conjunto de características.
Vejamos algumas delas: a) Uma técnica articulatória complexa Quando falamos em técnica articulatória,
nos referimos a um conjunto de movimentos corporais necessários para a produção dos sons que
compõem a fala. Esses movimentos envolvem desde a expulsão de ar a partir dos pulmões - através dos
brônquios, da traqueia e da laringe - até sua saída pelas cavidades bucal e nasal. A sutileza que caracteriza
esses movimentos e, sobretudo, a particularidade que distingue os vários sons e sua função no sistema da
língua fazem com que o domínio desse processo de produção vocal seja uma tarefa de complexidade tal
que apenas a espécie humana parece ser capaz de realizar. No que diz respeito à produção sonora dos
elementos fonéticos, vejamos, por exemplo, a distinção entre /b/ e /p/. Ambos são oclusivos, bilabiais,
orais. A única diferença entre eles é que /b/ é sonoro e /p/ é surdo. Ou seja, na pronúncia do /b/ a glote
(espaço entre as cordasvocais) estásemifechada, fazendo com que o ar, ao passar, ponhaas cordasvocais
em vibração. No caso de /p/, aglote está aberta, o que faz com que o ar passe sem dificuldade e sem
causar a vibração das cordas vocais. Essa diferença articulatória é um traço distintivo no sistema da língua
portuguesa, pois a troca de /p/ por /b/ (e vice-versa) leva a uma mudança de significado das palavras,
como em "bote" e "pote". A esse fato está associado o domínio que o falante tem sobre complexos
fenômenos de ordem fonológica que caracterizam o uso diário de uma língua. Nesse sentido, são
interessantes fatos como a troca de lei por /i/, por exemplo, que na oposição entre "pera" e "pira" causa
uma modificação de sentido, mas na oposição entre Imeninol e Imininol não. Esses fenômenos
demonstram que o uso da linguagem implica o domínio de um conjunto de procedimentos bastante
complexos, associados não apenas à produção e percepção dos diferentes sons da fala, mas também aos
efeitos característicos da distribuição funcional desses sons pela cadeia sonora. b) Uma base
neurobiológica composta de centros nervosos que são utilizados na comunicação verbal Um exemplo que
ilustra bem essa relação entre a linguagem e nossa estrutura neurobiológica pode ser visto nas afasias, que
se caracterizam como distúrbios de linguagem provenientes de acidentes cardiovasculares ou lesões no
cérebro. Desde meados do século xix, a partir dos estudos de cientistas como Paul Broca e Karl
Wernicke, ficou estabelecido que lesões ou traumatismos em determinadas áreas do cérebro provocam
problemas de linguagem. Broca propôs que, se as lesões ocorrem na parte frontal do hemisfério esquerdo
do cérebro, elas causam, nas pessoas afetadas, uma articulação deficiente e uma séria dificuldade de
formar frases sem que, no entanto, sua compreensão daquilo que as outras pessoas falam seja
comprometida. Diz-se que os pacientes que apresentam esse problema sofrem de afasia de Broca.
Wernicke, por sua vez, percebeu que pacientes com lesão na parte posterior do lóbulo temporal esquerdo
apresentavam problemas de linguagem diferentes dos descobertos por Broca. Embora conseguissem falar
fluentemente, com boa pronúncia e com frases sintaticamente bem formadas, esses pacientes perdiam a
capacidade de produzir enunciados com significado, assim como a capacidade de compreender a fala de
outras pessoas. Costuma-se caracterizar essa deficiência como afasia de Wernicke.1 A partir de então
vêm sendo desenvolvidos estudos acerca da interface entre cérebro/mente/linguagem, caracterizando uma
área de pesquisa normalmente chamada de neurolinguística ou afasiologia. Descobriu-se, por exemplo,
que as áreas de Broca e de Wernicke são conectadas por um feixe de fibras chamadofasciculus arcuatus,
cuja lesão gera um terceiro tipo de afasia chamado de afasia de condução. O que queremos demonstrar
com essas informações sobre as relações entre linguagem e estrutura neurobiológica é que o
funcionamento da linguagem, tal como ocorre, está relacionado a uma estrutura biológica que o veicula.
c) Uma base cognitiva, que rege as relações entre o homem e o mundo biossocial e, consequentemente,
asimbolização ou representação desse mundo em termos lingüísticos Associado a essa base
neurobiológica está o que poderíamos chamar, para usar uma expressão simplificada, dt funcionamento
mental, ou seja, os processos associados à nossa capacidade de compreender a realidade que nos cerca,
armazenar organizadamente na memória as informações conseqüentes dessa compreensão e transmiti-las
aos nossos semelhantes em situações reais de comunicação. Podemos dizer que o termo cognição se
relaciona a esse funcionamento mental e que, em lingüística, existem diferentes teorias que descrevem
esse funcionamento. Para formarmos uma idéia bem geral de como a lingüística trata esses fenômenos, é
interessante traçarmos um breve histórico do modo como os lingüistas compreenderam a relação entre o
uso da linguagem e o funcionamento da mente ao longo da evolução dos estudos lingüísticos.
Começaremos da chamada hipótese do relativismo lingüístico, que pode ser vista nas idéias apresentadas
no início do século xx por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf.3 Segundo essa hipótese, cada língua
segmenta a realidade de um modo peculiar e impõe tal segmentação a todos os que a falam. Isso significa
que a linguagem é importante não só para a organização do pensamento, como também para a
compreensão e categorização do mundo que nos cerca. Vejamosum exemplo de como isso
ocorre.Algumas línguas indígenas apresentam o mesmo termo para designar o sol e a lua. Isso significa,
segundo essa teoria, que os falantes dessas línguas identificam esses dois objetos celestes como
pertencentes aumamesmacate- goria de coisas. Em nossa cultura, isso não acontece: temos nomes
distintos para designá- los: "sol" e "lua". Isso se dáporque acreditamos setratarde duas coisas de
naturezadiferente. Assim, a linguagem determinaria a percepção e o pensamento: as pessoas que falam
diferentes línguas veem o mundo de modos distintos. Por sua vez, as diferenças de significados existentes
numa língua são relativas às diferenças culturais relevantes para o povo que usa essa língua. Os autores
procuram mostrar, portanto, a importância que a linguagem tem na compreensão e na construção da
realidade. Essa forma de ver a linguagem foi mais tarde severamente criticada por Noam Chomsky e
pelos lingüistas gerativistas (ver o capítulo "Gerativismo"), os quais propõem uma visão de que o
pensamento humano apresenta uma espécie de organização interna e universal, que, pelo menos em sua
essência, pouco tem a ver com questões de caráter sociocultural. Por sua vez, os lingüistas
sociocognitivistas (ver o capítulo "Lingüística cognitiva") retomam a proposta relativista, atribuindo-lhe
argumentos mais modernos: adotam a hipótese de que existem universais conceptuais que apenas
motivam os conceitos humanos, mas que não têm a capacidade de prevê-los de modo definitivo. Segundo
essa visão, os universais conceptuais não determinam o pensamento humano, pois sofrem a influência de
fatores socioculturais. Não é nosso objetivo, no momento, entrar nos detalhes associados às discussões
sobre a natureza da estrutura cognitiva humana, e sim registrar o fato de que a capacidade da linguagem
implica um tipo de organização mental sem a qual ela não existiria ou, pelo menos, não teria as
características que tem. d) Uma base sociocultural que atribui à linguagem humana os aspectos variáveis
que ela apresenta no tempo e no espaço A linguagem é um dos ingredientes fundamentais para a vida em
sociedade. Desse modo, ela está relacionada à maneira como interagimos com nossos semelhantes,
refletindo tendências de comportamento delimitadas socialmente. Cada grupo social tem um
comportamento que lhe é peculiar e isso vai se manifestar também na maneira de falar de seus
representantes: os cariocas não falam como os gaúchos ou como os mineiros e, do mesmo modo,
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