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Índice

Ficha Técnica .................................................................................................... 1.

Prefácio ................................................................................................................ 2.

Capítulo um: Elaiô Vavío ............................................................................... 3.

Capítulo dois: Victório Fróes ....................................................................... 8.

Capítulo três: Valentine .............................................................................. 12.

Capítulo quatro: Petter Levi ....................................................................... 16.

Capítulo cinco: Piranha Fudida ............................................................... 20.

Capítulo seis: Ralph Duccini ..................................................................... 24.

Capítulo sete: Alma Flora ........................................................................... 30.

Capítulo oito: Tali Ifé .................................................................................... 36.

Autores/Poetas ................................................................................................ 41.


Ficha técnica

Idealização:
TransPoetas Coletivo

Designer gráfico/Artes:
Victório Fróes

Diagramação:
Valentine Pimenta

Assistente de Produção:
Vic Guimarães

Apoio:
Essa zine foi realizada com o apoio da
Secretaria de Estado de Cultura e Economia
Criativa do Rio de Janeiro (SECEC-RJ) por
meio do Edital Cultura Presente nas Redes
(2020).

1
PREFÁCIO

Transpoetas
Poetas em transmutação
Transcendência
e transformação
Afeto, amor e constatação
Contra indicados na sua civilização
Escritos de vivências de corpo, mente e tesão
Imaginários autodidatas de busca e perdição
Confundindo suas expectativas e
provocando reflexão
Poetas
Transpoetas
Pessoas poéticas numa literal, ou literária
revolução

— Tom Grito
(@tomgritopoeta)

2
ELAIÔ
VAVÍO

3
ETER NA TRANS IN ÇÃO
Somos um círculo dentro de um círculo
Sem um início e sem um fim
Somos raízes formamos florestas
Somos os frutos de nós mesmas.

Somos Dandara
Somos Matheusa
Somos as almas de nossas corpas
Somos a vida, sobrevivemos a morte
Somos eternas
Somos a luz.
Somos as trevas
Somos as travas
Somos a Marsha
Somos Lacraia
Somos quimeras de mil primaveras
Somos antigas como o Sol.

Somos esferas, atravessamos eras


Somos as Evas que já chamaram de Adão
Somos Daniele
Somos Marcinha
Somos as filhas de corpas Trans.
Somos as mais caras
Somos treinadas
Somos rajada de lacração
Somos mulheres
Somos Suellen
Somos a eterna transição.

Somos a água, ar, fogo e terra


Somos o espírito em união
Somos as pioneiras
Somos certeiras

Somos
Éter
em
TRANSIÇÃO
4
ENTRE O SURTO E A SOLIDÃO.

tantos outros flutuando no espaço virtual


tantos gostos e desgostos desse mundo ao final
afinal foi eu quem disse que não ia me abandonar.

eu falei e depois chorei


mas não sei como voltar
e se eu voltar
também não sei como me reconciliar
ainda quero me sentir, me ouvir e me tocar.

comecei esse processo e um dia quero terminar


quero olhar para mim mesma e conseguir me ajudar
quero ter a certeza que o espelho reflete
a mulher que estou a olhar.

tantos outros, tantos rostos


tanta saudade e frustração
tanta fala, tanta queixa
tanta dor e reclamação
e esses outros que se olham e não olham para eu?
porque até aqui no meu poema tem mais espaço do que eu?

eu que sinto, eu que passo


eu que sofro e que não falo
eu que morro, eu que luto
eu que corro e no fim calo
tão calada
que cilada que eu fui me enfiar?!
tenho língua, tenho boca e me recuso a gritar

o grito seco de garganta com sufoco e lamentação.


são os ecos da minha alma que se perdem sem razão
tantos outros, tantas vozes
tantos sim e tantos não.
qual é o fim dessa disputa entre o surto e a solidão?

5
SER BRUXA
Vocês acham que ser bruxa é fácil?
Você acha que é fácil fazer o que eu faço?
Você acha que é fácil ser sempre a estranha?
Acha que é fácil passar por várias mudanças drásticas
desde a infância?
Acha que é simples ser a responsável por vários tipos
de demandas energéticas?
Acha que é fácil nascer com a certeza que nunca será a
mesma e que vai ter que reaprender a todo ciclo a ser
uma nova?
Acha que é fácil ser tão mutável que nem sua aparência
é a mesma no passar dos dias?
Acha que é fácil esperar sua Lua pra poder relaxar,
porque nas outras você tem que trabalhar.
E ainda há as que assim como essa, eu ainda trabalhe.
Acha que é tranquilo saber que as forças invisíveis na
sua vida sempre vão te acompanhar e que isso quer
dizer que você tem mais de um plano pra se preocupar?
Acha fácil dominar o corpo/mente/espírito e ainda sim
ter tempo pra trabalhar/estudar/socializar?
Vocês acham muito fácil falar que é bruxa
mas vocês sabem o que é ser bruxa?
Ser bruxa é acordar com a certeza que NUNCA é só mais um
dia.
Que todos os momentos são eternos e que você faz parte de
cada partícula de crescimento e vida.
Ser bruxa é ser responsável por você, seus Deuses, a Terra,
a Vida, o Cosmos e quem te segue.
Ser bruxa é ter certeza.
Ser bruxa é saber.
Ser bruxa é transceder.
Ser bruxa é ser a eterna aprendiz do silêncio, do infinito.
Ser bruxa é não caber em uma caixa e usar ela pra fazer um
pentagrama invertido e pendurar na porta de entrada da
casa.
Ser bruxa é ter sido a criança que adivinhava o futuro,
tinha sonhos vividos, aconselhava os mais velhos,
transmutava os ambientes e sabia que sempre podia ir
além.
6
Ser bruxa é ser corajosa.
E não ter medo de ter medo.
Ser bruxa é gostar do que ninguém gosta
É se apaixonar por quem ninguém te apresentou mas você
sabe que existe.
Ser bruxa é viver a vida que se foi dada com um único
propósito:
Evoluir o espírito, transceder a matéria e elevar a mente!
Ser bruxa é ser poder.
Bruxa é poder.

7
VICTÓRIO
FRÓES

8
OBSERVO
Serra elétrica
Um pingo de suor me cai da testa
O tempo passa e eu não escolho.

Há vida lá fora
Meu mundo cá dentro
Ainda fora só enxergo pelos meus olhos
O tempo passa, eu não escolho.

Escuto, às vezes sem ver


É um pouco do pouco que sei
Ou quase,
Nada, as escolhas que são
Passos, direção?

O tempo passa e eu
Sentado
Ouvindo a vida acontecer
Pela janela do meu quarto
Que não é meu,
É daqui
E eu, que não sou,
Não sei de onde vim
Para onde vou
O tempo passa
Eu não
Escolho.

Martelada, buzina, turbina, passos, construção


O calor de um forno
Do fogo
Num cômodo pequeno
O tempo passa, tenso
O mundo ebulindo
Eu fervendo
O calor subindo do chão do sol que bateu de manhã

O tempo passa
E eu observo.
9
PARDO

Eu tô quase morrendo e
parece que me deixo morrer
tão quase me matando e
parece que eu mesmo
me jogo para debaixo do tapete
cavo minha
cova para
poupar o trabalho deles
de quem só diz “e daí?”

Escrevo essas coisas porque


(de repente) percebi
que se eu não fizer
o que preciso para
me manter vivo e viver bem
não há quem faça por mim
e por nenhum outro pardo,
sem raça, sem povo.
por nenhum outro homem de buceta…
talvez só aqueles que veem o que vi.

10
TRANS
Transsexualidade.
Transgeneridade.
Transmitir meu ser para a sociedade,
Transpor o entendimento
E me tornar inteiro sentimento.

Transparecer meus conflitos


Por não caberem em mim
E mostrar que como humano os enfrento
Como o jardineiro ao jardim

Transportar uma carcaça


Que não me suporta
E aprender a ajustá-la
Para que eu possa transitar entre as hortas,
Pelas as órbitas,
Por onde eu quiser marcar minha história.

Transcrever minhas loucuras


Para autoconhecimento,
Translucidar a confusão
Num fugaz momento.
Transcender pensamentos retrógrados,
Transmutação do literal ao alegórico,
Onde transformo o ódio em figuras poéticas.

Transpassar a dor
E repousar na paz de encontrar mais
De quem sou.

Transpassar a dor e seguir viagem,


(Re)criando coragem
De resistir quem sou.

11
VALENTINE

12
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16,
17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29,
30, 31, 32, 33, 34, 35...

Eu gostaria de continuar contando mas eu


não consigo
porque no Brasil é só até os 35
que vivem as mulheres trans e travestis
e ainda chamam isso de expectativa de vida...

Será mesmo que quem vive só até os 35


tem alguma expectativa?

13
Ainda carrego dúvidas e medos
que meu sorriso esconde
todas as manhãs
lembro dos erros dos homens de meu sangue
a cor
intensifica
a tóxica dor
penso na maldição que carregam
mulheres como eu
e atravesso o espelho em busca de respostas
mas elas nunca estão lá
a única coisa que encontro é sempre ela
no mesmo lugar
em seu pedestal
feito milimetricamente pra ela
alva e cis
homens louvam a ela todos os dias
enquanto rezam ao nosso lado

Quando EU alcançarei a glória?


Quando serei EU a imaculada?

14
Por quê?

Me diga o por que


de você me endemonizar
quando pra você
eu deveria ser Deusa.

Pois você sabe muito bem


que quem manteve
sua "família" unida
nunca foi o seu deus

Sempre fui EU!

Afinal

Será que você conseguiria


dar pra sua "família"
um domingo de alegria

Se na mesma semana
você não tivesse se deitado
várias vezes
em minha cama?

15
PETTER
LEVI

16
IMACULADA TRAVADA DOR

Ainda que andasse pelo vale das sombras de mim


Não esqueceria quem fui ou sou.
Quem sou ou quero ser
Quem não deveria ter sido
O que não deveria ter dito
O que deixei de dizer.

Ainda que mentisse com rosto de expressões de fé


Veria a imaculada travada dor
Rezada de terço em terço.
Pra cada pedra um desejo
Deixar de ser o que não pedi pra ter.
Deixar de ver o que não pedi pra ser.

Ainda que derramasse toda lagrima em


oração
Que fizesse do choro, canção
Que minhas preces levitassem do chão
Que minha voz não tivesse em construção.
Ainda seria eu contra mim mesmo.
Luta diária, corpo despejo.

Ainda que o medo fosse meu maior inimigo


Que a musica fosse meu melhor amigo
Que o silencio fosse meu pior ruído
Que por dentro tivesse destruído.
Não temeria mal algum, pois não ando sozinho.
Não ando só

17
SUFICIENTE

Nada era suficiente,


A fala, expressões, gestos, ações...
Não era suficiente,
Sentir, medir, fazer, mostrar...
Suficiente?
Deixar, estar, sonhar, calar?
Suficiente!
Insuficiente...
Não ser suficiente.

Não medi suficiente.


Meu sentir, teu sentir...
Minha dor, tua dor...
Meu silêncio, tua fala...
Meu afago, tua falha...
Minha falha, tua morada...
Insuficiente, não-suficiente...

Não chorei suficiente.


Não guardei suficiente
Não me fiz suficiente
Não disse, disse...
Não tive, tive...
Suficiente.

Não há dor suficiente?


Não amou suficiente?
Suficiente pra quem?
Suficiente pra que?

Tão suficiente quanto insuficiente.


Pra você, pra mim
Sentir-se suficiente, insuficiente.
Ter tempo suficiente
Pra me amar suficiente
Me bastar suficiente.
Mais que suficiente!
Suficiente.

18
TUDO QUE SE QUER
O que se quer?
Sentir mil vezes cores
Ouvir mil vezes sons.
Nadar correntes intermináveis
Entender que nada pra gente vem fácil.
Tudo que se quer dizer
Que palavras dizer quando vocabulários não são suficientes.
Tudo que se quer sentir
E quando os sentires são
Só vibrações não traduzidas por mentes?
Tudo que se quer permitir
Quando o permitir perpassa
Um passado movido por dor renitente.
Tudo que se quer admitir
Quando assumimos não estarmos prontos
Pra seguir em frente.
Tudo que se quer ouvir
Quando a necessidade da escuta
Transpassa a necessidade da fala.
Tudo que se quer descobrir
Quando pra permitir sentir,
Precisa deixar o que é árduo e te abala.
Você esta preparado?
Pra sentir correr em seu corpo
O nuance do abalo sistemático.
Pra poder não estar sossegado?
Confiante que pra ter mais que almeja
É preciso sentir-se tocado
Você quer ser tocado?
Tocado por tons em tons que não pode ser explicado?
Você quer ser amado?
Ou quer viver de canções lamentando o que perdeu pro
passado?

Você quer ser notado?


Ou quer andar sem rumo numa rota de barco encalhado?
Você quer ser achado...
Mas precisa encontrar a si mesmo antes que seja forçado.

O que você quer...


O que eu quero...
É tudo que ser quer...
Tudo que se quer.
19
PIRANHA
FUDIDA

20
Marginalidade
Afeto
Carinho afiado na navalha
Tapa na cara
de cada passageiro
que ouve
a conversa legalizada
das mina que compartilha
a vivência no papo RETO
Enquanto recebem olhares
tORToS
quase mortos
de tanto cansaço
mas pra oprimir tão
sempre preparados
sem dar conta
que expremidos
na lata de sardinha
com destino a
JAPERI

Mas sempre tem


uma pedra no caminho
falando mais alto
que eu não sou mulher
e sim menino.
Revoltado
que não vai ganhar
o dizimo daqui

NÃO VAI GANHAR


O DIZIMO!

21
Uma lágrima maior que o olho
uma gota maior que o mar
carrega em si todas elas
bruta na sua delicadeza
precisa na sua incerteza
Ah! bruta flor
plantada na areia
regada de água salgada de amar
E ela flor
dor em suas amarguras
gotejando

água de chuva
encontro das águas
doce mulher salgada
ombros, costas,

NADEGAS PURO SAL.

Ela é arte
eu sou uma intervenção
subvertendo
a norma social padrão
falando calmamente
Travesti não é só prostituição.

Somos todos farinha do mesmo saco


e no sapato
eles que controlam
a maquina
dão gargalhadas
já que o plano deu certo
e somos todos
 ̶ig̶u̶ai̶ s̶
RIVAIS
vocês querem ser eles
eles riem de nos
enquanto vocês riem de mim
e de quem mais tiver comigo!

22
Uma travesti andando de dia
Que anormal
o certo é andar de madrugada
fazendo o salário
na calçada comendo cú
e chupando pau
Mas lá em ela
travesti intervenção
subvertendo a norma social

falando bem alto...


E
U

S
O
U

M
U
L
H
E
R

D
E

P
E
I
T
O

P
A
U
23
RALPH
DUCCINI

24
BEIJA-FLOR
Eu também vi,
nós vimos
as melhores mentes
nossa geração
destruída pela loucura
levantados um a um
como flâmulas estiradas no céu
(eu também vi)

Teu sorriso:
estrela

Grito incandescente
poucos minutos antes,
tráfego beijo na boca

Saliva diz:
boa noite, passáro.

Boa noite,
e levanta vôo
que o corpo não consegue
acompanhar o ritmo;
descompassa, coração,
mas fica aqui mais um pouco
(por favor,
só mais um pouquinho
que ela já vem.
lá de longe ela vem)
Você
sonhava acordada
um jeito (qualquer jeito)
de não sentir dor.
Mas não prende o choro.
Desaguapeitoaberto,
cachoeira.
Pássaro do efêmero
impulso átimo da vida;

Em quantos voos ligeiros


não te perdi mais que perto?
25
Mais que aqui
mais que agora
Para um nãomaisnuncamais
De sílabas engasgadas num pano de estrelas
E estatela, passarinho,
desfaz o ninho
dos nossos abraços
E vai de boca em boca
cheia de tesão
até o asfalto lavado
e fode com essa cidade:
A cidade incenidária
A cidade cinza-helicóptero-gavião
A cidade província que você jurou jamais sair.
E cala,
o violão já calado
grande vazio dentro do peito.

Leva o nosso assunto


chá-das-cinco-bebedeira

O jantar com prato faltando


mesa vazia que nunca aconteceu

Porque você não estava lá..

E leva, murmurinho,
esse uivo de dor
nos muros estandarte da privatização
Na corpacidade que se fecha
e mistura as línguas rompidas
em tinta sangue-seco.
Por que, Beija-flor?
Pixo não é glamour
E a vida (aqui) não tá pra todes.

26
PAPO DE AMOR
"Quando o abraço apertado
Se encaixa é como se o mundo
Parasse alí, é como se a vida
Acabasse. Sei lá..."
Mãos estendidas
Pintadas de vermelho
Roxo de vinho
Anunciação
Dos olhos que se cruzam
E param e ficam
E vão e vem no vento do hálito
Desejo
De conhecer
Sem falar
Até o momento
O mergulho
No infinito do seu
Universo
No deslize das linhas da sua cintura
No papo reto
Da sua saia,
Tua calça
Aberta
Na escada
SAGRADA
Às vistas do céu
No chá das 5 em Porto Alegre.
O beijo na pele
(Leite com caramelo-claro)
Que se confunde com o vão aberto
Pelos lábios no não dito das nossas bocas
Até o sincero
Eu te amo,
Que jorra do corpo
No movimento
Sinuoso dos quilômetros
Até os dedos que se traçam
E enlaçam caminhos
Galgados no ar,
Irrompendo fronteiras
Recriando maneiras de amar.
27
VIDA E MORTE TRANSEVERINE
Imagina:
Coração arrancado
Peito boca aberta
Ocó rondando na esquina
Teu sangue vertendo
Sanguessugas no asfalto
Severina,
A faca feita farta
Com teu membro cravado
Erguido no cabo
E uma santa enterrada na sua vagina
É essa tua sina
Pescoço aberto
Degolado no motel
Por um adé fontó
Que sem coragem de dar o fiofó
Prefere
Enfiar a lâmina no ventre
Da sua vontade,
Calando o grito
No teu silêncio de boy;
Travessia transloucada
Retirante colocada na existência
À toda prova: Resistência.
Resiliente sentido
Que dá Vida
A partir de um princípio
De negação.
Quem sabe seu nome?
Cadáver Severine que a terra
Não cansa de engolir
Quem sabe seu nome?
Colorê esquecida na calçada
Perdide sem língua
Numa terra vetada ao pajuba
Não recomendade
Corpo
Palavra
Amor
Vontade
Ter no peito um alvo
Para cisnormativa artilharia...
28
Mas quem sabe seu nome?
Vida e morte nessa pátria
De Ser-tão asassinade
Mais que em qualquer outro lugar
Que nesse globo se ilumina
Mas quem sabe seu nome, Severina?
Quando vem a mão branca da proibição
Porta do banheiro,
Porteira de casa
O grito de horror, confusão
Na vista de quem não entende
Mas quem sabe seu nome?
Dandara, Soren, Bruno, Thiago, Beatriz
Direito a ti tão negado
Que até no túmulo é velado
E de tão seu se trava
Enterrado abaixo da língua
À sete palmos
Nessa Morte e Vida
Severine.

29
ALMA
FLORA

30
ECDISE

Acho que minha pele sempre foi muito generosa comigo


tive poucas espinhas na puberdade
quase não tive cravos
sempre suei pouco
minha pele nunca foi oleosa
sempre elogiaram a minha pele
mas eu nunca liguei muito para isso
hoje eu cuido dela com hidratantes, creme para olheiras
borra de café, água de arroz e até mesmo
passando aquela parte gosmenta e peluda da casca da manga
essas são ótimas receitas caseiras de skincare
mas eu não vim aqui para falar de corpo
não é sobre corpo
não é sobre genital
não é sobre roupa
não é sobre disforias
até porque elas não são uma regra para todes nós
apesar de muitos acharem que somos quem somos
porque temos problemas psicológicos
quando eu falo de pele, falo de identidade
quando eu falo de pele, falo de expressão
e eu usei por muito tempo uma pele velha, seca, sem vida
sem brilho e cheia de parasitas externos
minha muda ou ecdise como eu prefiro chamar
demorou para acontecer
foram 22 anos agonizantes, inquietantes
revoltantes, maçantes, tenebrosos

aquela pele pinicava


aquela pele coçava
aquela pele me adoecia
aquela pele estava me matando aos poucos
mal sabia eu que tinha uma camada de pele
muito mais viçosa, forte, saudável
grossa e cheia de vida por baixo
já estive bem perto da morte
e quase me joguei em seus braços
mas tive a sorte de conseguir encontrar uma cura no veneno
e minha salvação chegou na forma do antídoto mais saboroso
que já experimentei em toda a minha existência
e foi quando precisei transmutar
para salvar a minha própria vida
31
sou viciada em cura
sou viciada em antídotos
sou viciada em mudanças
sou viciada em transmutações
sou viciada em transcendências
sou mutável
sou uma mutante
e eu quero transmutar cada vez mais
eu quero transcender cada vez mais
evoluir tanto ao ponto de eu não me reconhecer
ao me olhar no espelho

uma vez em um ambiente de trabalho


ouvi um comentário de um funcionário para o outro
“por que ele é assim? parece até um mutante”
ele estava certo
eu sou uma mutante
sou uma não humana
sou uma ser com pele de cobra
sou pura mudança.

32
LAR
É sobre afeto
É sobre acolhimento
É sobre abraço
É sobre carinho
É sobre empatia
É sobre apoio
É sobre ter onde se abrigar
É sobre ter pra onde correr
É sobre ser aceita
É sobre dias de chuva prazerosos
É sobre noites de frio calorosas
É sobre se sentir um peixe dentro d’água
É sobre tribos
É sobre bandos
É sobre laços
É sobre conexões
É sobre irmandade
É sobre curas
É sobre curar uma a outra
É sobre curar um ao outro
É sobre curar ume ao outre
É sobre fios que nos ligam
É sobre fios indestrutíveis
É sobre dizer que está junte sem precisar dizer
É quase como se comunicar por telepatia
É abraçar usando apenas o brilho no olhar
É sobre olhar nos olhos de outre
E conhecer sua dor, seus calos, suas feridas
É sobre saber onde dói sem te examinar
É quase como saber tudo sobre você sem precisar te conhecer
Usando apenas o poder da mente
Porque nós já nos conhecemos
A gente já se conhece há milênios
A gente já se conhece de outras batalhas
A gente já se conhece de outras guerras
A gente já se conhece de outras gerações
A gente já se conhece de outras vidas
E isso tudo é sobre correntes
É sobre correntes
É sobre coletivos
É sobre alianças
33
É sobre proteção
É sobre lar
Não é sobre casa
É sobre ninhos
É sobre calor
É sobre raizes
É sobre família
Não é sobre sangue
É sobre lar
Não é sobre casa
É sobre apoiar
É sobre entender
É sobre abraçar
É sobre proteger
É sobre amar
É sobre matar e morrer por você
É sobre matar e morrer com você
É sobre lar
É sobre isso que eu quero falar!

34
PARAÍSO PARTICULAR
Eles nos encaram como se fossemos
animais selvagens que fugiram da jaula
seríamos capazes de lhes fazer algum mal?
ficávamos sempre na mira das suas armas
até estarmos na mira de seus chicotes
o dia do caçador parece nunca chegar
o dia da caça parece durar pra sempre
acho que rugir não adianta muito
se deixar ser capturada é nossa única escapatória nesse momento
nunca pensei que me tornar uma fonte de entretenimento
seria minha única maneira de sobreviver nesta selva de humanos.

Sou a atração principal deste circo


deitar, rolar, dar a patinha
parecer inofensiva para não ser chicoteada
fugir para uma ilha deserta e escondida
nunca me pareceu uma ideia tão genial
não seria perfeito encontrarmos um paraíso perdido feito só
para nós?
onde pudéssemos andar sem medo
das armas, das lanças e dos caçadores.

Seria nosso paraíso particular


poderíamos andar sem medo
não precisaríamos mais nos esconder
não precisaríamos mais lutar, ferozes em defesa do nosso
bando
eu consigo imaginar o quão perfeito esse paraíso poderia ser
quase utópico
um paraíso perdido
particular, feito só para nós
ele estava sempre à nossa espera
aqui podemos ser felizes
aqui podemos ser livres
aqui podemos simplesmente ser.
Não precisa mais ter medo
não precisa mais fugir
você não tem mais do que fugir
não existem caçadores aqui
não existem domadores aqui
não tem armas aqui
você não está mais enjaulada
você pode correr agora
estamos libertas!
35
TALI IFÉ

36
PAIXÃO SOLAR
Eu sou um menino apaixonado e eu descobri que a culpa é do sol.
Deixa eu tentar explicar:
Eu não sei o que acontece direito, mas me parece que o sol faz uma
prece pra mim, e antes que eu me apresse em virar o rosto, já foi.

Você já reparou como o sol iluminando o rosto das pessoas é a coisa


mais linda?
Contornando a curva do lado da boca daquele sorriso filho da...
Você já viu o brilho dos olhos dela, quando o sol entra pela janela
tocando a pele, o cabelo, a boca, e antes que eu perceba minha
cabeça já ficou louca.
Eu tenho queda por sóis: o que tá no céu, o que me aquece, o que te
toca, o que tá nos olhos, o que tu carrega...

É tanto sol, tanto rosto, tanta luz, que já me parece uma cruz, ter
tanta paixão solar.
Veja bem, o problema não é me apaixonar.
É que os dias andam tão difíceis, e o medo anda tão amigo, e a gente
tão endurecido, que parece que o espetáculo do sol no rosto, é uma
tela que só eu consigo enxergar.
Então, eu me apaixono sozinho, porque as pessoas não entendem
mais essa mania de achar essa luz tão bonita, de olhar no fundo do
olho sem desviar, escrever poesia, fazer companhia, lembrar de tu
e sem pensar, falar

Mas nada desse papo de amor líquido, nosso medo é sólido, assim
como os socos que tomamos na rua, em casa ou no bar.
Eu sei que é pra garantir a sobrevivência que não olhamos mais
pro sol, não olhamos mais pra cima, andamos com medo demais,
olhando pros lados de punhos fechados, só querendo chegar.
Eu sei que a gente gasta tempo demais tentando sobreviver e se
fechar, que fica difícil respirar, quem dirá olhar pro sol, quem
dirá se apaixonar.

Mas eu, sou um menino apaixonado e a culpa é do sol.


Eu nem sei explicar, como minha cabeça fica virando de um lado
pro outro, pra cima, pra baixo, e tem o sol, tem o rosto, tem a rua,
tem o medo, então eu deixo em segredo.
Eu não sei como cabe, tanto medo, tanta dor, tanto sol, e tanto amor
num só peito.
É que eu tenho queda por sóis, e quando eu ando do alto do meu
medo, o sol no rosto dela vem me derrubar.
37
Pra quem já tá cansado de cair no soco com uns babacas na rua, o
rosto dela parece um bom lugar pra descansar.
E a culpa é do sol, porque ela tem medo da rua à noite
Então eu só encontro ela quando o sol pode nos encontrar,
Depois de passar o dia descansando no rosto dela, nos meus
caminhos de volta eu confesso que ainda troco soco nas ruas, nas
praças ou no bar...mas já descansado do amor dela, fica mais fácil
de brigar.
É que veja bem: eles batem por ódio, e por medo também, não se
deixe enganar!
E eu? Eu bato por vontade de continuar a ver o sol, por vontade de
continuar a me apaixonar.

38
ENTRE A PONTA E O CALCANHAR
Às vezes eu me sinto preso,
a essa busca por liberdade,
que me faz ter medo
de quem eu vou me tornar.

É que, pensa comigo,


ao mesmo tempo
em que eu vou encontrar abrigo,
eu me torno mais passivo de ser
confundido com quem agride.

Procuro então
me manter na corda bamba,
como quem samba
hora na ponta
hora no calcanhar.

Encontrar um lugar na periferia


do homem que eu posso ser...
menos firme, mais poesia.

Sendo menos força e mais tecnologia,


criando maneiras e construindo vias,
de ser eu, sem ser quem me oprimia.

Assim quem sabe um dia,


ser um homem do qual
a mulher que eu fui irá se orgulhar.

De barba e peito,
força e mansidão ao falar,
confundindo tudo que for pré conceito,
fazendo a sociedade surtar
como eu surtei um dia.

Questionar tudo que automaticamente


se dizia: que ser homem pode ser
muito mais do que essa baixaria,
de achar que ser grande em corpo,
vale mais do que ser grande no sentir,
no pensar e no amar.

Um homem que eu nunca vi,


mas não desisti de me tornar...

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CORPO ESTRADA
Carregar um corpo estrada, estranho em quase todo
lugar, e ainda assim me sentir em casa.

Encontrar 1996 marcadores sociais que me foram


colocados, e ironicamente me cobrir de marcadores,
escolhidos por mim passo a passo.

Não posso me livrar das marcas, das placas, das tarjas


de não recomendado, e nem quero, reitero, não
recomendo!

Tenho milhares de contraindicações,


admito e exponho minhas contradições.

Não tenho certezas, sou plena dúvida, e tá beleza.

To escancarado, marcado de meus não lugares, e na


minha experiência, a única coisa que se sustenta,
é não ficar parado.

Conheço a estrada e meu único mapa me diz: Capricórnio


e sagitário,o resto não sei ler...

Apesar de poeta, tenho muito pouca intimidade com a


palavra escrita, prefiro qualquer coisa que dança, mexe
ou grita.

A palavra dita é a democracia da poesia.

Sigo, cavalo, flecha, chifre, pata e ironia.

Às vezes meio poeta, às vezes meio poesia.

Incerto de quem sou, mas certo de quem quero ser.

Marcas, tarjas, contraindicações, atenção na estrada que


é meu corpo.

Repito: não sou bom, não sei ao certo de quase nada, não
acredito nas placas, carrego as marcas e me recuso a ler.

Entre o certo é o errado, apenas sou.

Não encontrei quase nenhuma resposta,

Mas já sei quais as perguntas que eu quero fazer.


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Autores/Poetas
Elaiô Vavío
Elaiô Vavío (@elaiovavio), mulher Trans Negra moradora do
Morro do Palácio (Niterói), Redutora de Danos da Saúde Mental
pública, Terapeuta Holística e pessoa de religião de Matriz
Africana. É artista, ativista, cantora, compositora e poetisa,
atualmente atuando na área do Rap, com dois trabalhos
lançados.

Victório Fróes
Victório Fróes (@vicfroesab instagram e medium) 1998, artista
multimídia, videomaker e designer freelancer. Cria do Vidigal e
do teatro Nós do Morro, onde foi introduzido ao mundo da arte.
Pesquisa e produz conteúdo sobre decolonialidade e
transgeneridade, do ponto de vista de uma corpa transmasc e do
“não-lugar” racial.

Valentine
Valentine (@poetavalentine) é escritora, poeta, atriz, cantora, e
slammer. Se tornou destaque na cena do slam carioca em
2019. Foi a primeira mulher trans slammer do RJ, e foi também a
primeira mulher trans a representar o RJ em um Slam Nacional,
no Flup Slam Nacional 2019, onde a artista foi vice-campeã da
competição. Participou da Batalha do Slam no Rock In Rio 2019.

Petter Levi
Petter Levi (@petter.levi) é poeta e escritor por amor! Respira e
transpira espiritualidade, música e magia sinestésica! É
consultor de mídia social, faz parte do movimento coletivo
TransPoetas e possuí uma página chamada
@thefantastictransworld onde convida corpas transvestigeneres a
contarem suas histórias afim de fazer de si mesmes suas
próprias referências.

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Autores/Poetas

Piranha Fudida / Bruna Andrade


Cineasta da baixada Fluminense, Bruna Andrade
(@piranhafudida) de 22 anos utiliza o audiovisual como
ferramenta política. Recriando através das nossas corpas-
narrativas memórias ancestrais y sementes de futuros.

Ralph Duccini
Ralph Duccini (@odekasa), 28 anos, cria da baixada. Poeta, ator,
diretore teatral e ilustradore. É artista multimídia, membro do
grupo de teatro Uivo Coletivo (@uivocoletivo), gestore da sede
cultural Casa Uivo e autore dos livros "Nas Margens do Azul" e
"Dissonância Subjetiva ou o ser e a fumaça". Faz parte do coletivo
TransPoetas (@transpoetas) e do Slam da Rampa.

Alma Flora
Alma Flora (@___almaflora), 22 anos, Mulher trans, carioca,
bruxa natural e sagitariana. Sou performer, escritora e poetisa.
Viciada em provocar catarses e pensadora desde nascença, gosto
de falar sobre libertação, escapismos e cura.

Tali Ifé
Tali Ifé (@ife_tali) - Transviado, poeta, arteiro, curador e
produtor cultural.Nos meus trabalhos provoco reflexões e
questionamentos, e busco poucas respostas, nenhuma
certa.Mergulhando em processos de morte e vida, falo sobre a
relação do corpo com o mundo, com o sagrado, com o profano e
principalmente com a estrada.Brincando com as palavras e
falando sério com a vida, trato sobre uma espiritualidade que tá
mais na terra do que no céu, e que habita corpos que
estranhos.Estranho eu, qualquer coisa que acredita que normal é
bom, estranho todos os dias a mim mesmo, para não cair na
mesmice, para não acomodar o corpo, a mente e o espirito.
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