Você está na página 1de 5

O ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM LAZER, RECREAÇÃO E

LUDICIDADE E O IMPACTO DA PANDEMIA DO COVID-19


Marcelo Sabbatini 1
1. Estudante do curso de Bacharelado em Educação Física do Centro Universitário Internacional
UNINTER

Grupo de trabalho: GT 2 - EDUCAÇÃO E NOVAS TECNOLOGIAS

RESUMO
O isolamento social imposto pelas precauções sanitárias decorrentes da pandemia do Covid-19
afetaram toda a sociedade e, particularmente, o âmbito educacional. Mais especificamente, uma
prática educativa fortemente ligada à presencialidade, como é o estágio curricular supervisionado,
precisou ser realizado de formas alternativas. Ao mesmo tempo, o setor do lazer, da recreação e da
ludicidade, também bastante relacionados com atividades presenciais e de natureza física viram
suas atividades reduzidas, dificultando ainda mais o “campo” para os futuros egressos das profissões
relacionadas, incluindo a Educação Física. Através de um levantamento da literatura científica,
realizamos uma revisão narrativa das experiências relatadas na implementação de estágios virtuais
neste contexto, com a identificação dos formatos e práticas utilizados como “solução”. A análise
destas ações numa perspectiva dialética nos serviu para a reafirmação ou contradição das diretrizes
curriculares vigentes, apontando para a possibilidade de uma ressignificação do estágio em termos
praxiológicos da formação universitária, visto sua materialização, dada condições de planejamento e
execução suficientes. Por outro lado, o desafio da exclusão/inclusão digital e educacional necessita
ser superado mediante o engajamento comunitário e o estabelecimento de relações de confiança e
entre a universidade e a sociedade que ela serve.

Palavras-chave: ensino remoto; formação em Educação Física; estágio virtual.

INTRODUÇÃO

Diante do impacto da pandemia do Covid-19, com a adoção de medidas de


distanciamento social afetando todas as esferas da vida cotidiana, nosso tema de
pesquisa é seu reflexo sobre a realização de estágios curriculares supervisionados
no campo do lazer, da recreação e da ludicidade mediante o uso das tecnologias
digitais de informação e comunicação, entendendo que esta etapa da formação
possui forte componente de interação social, de natureza presencial.
Em muitas carreiras universitárias este “estágio” consiste uma importante de
forma de articular teoria e prática, com a aplicação dos conhecimentos teóricos
construídos ao longo do curso num contexto do “mundo real”, em contextos da
atuação profissional. Seria assim uma etapa de transição entre a condição de
estudante e a condição de profissional, com a oportunidade de exercitar não
somente as competências e habilidades relacionadas ao conhecimento específico
de sua área, mas também atitudes e valores (PICONEZ, 2015).
Implícito a este contexto de realidade encontramos que o estágio curricular
supervisionado demanda que o discente “vá a campo”, ou seja, que através de sua
presença física entre em contato com as instituições onde ocorrerá o exercício desta
prática, como fica evidenciado nas normativas que o regulam, ao supor: “uma
relação pedagógica entre alguém que já é um profissional reconhecido em um
ambiente institucional de trabalho e um aluno estagiário (BRASIL, 2001, p.10).
Contudo a crise pandêmica iniciada em 2020 abalou toda a ordem social.
Com as recomendações dos órgãos de saúde foram implementadas medidas de
isolamento social; na Educação, vimos as aulas paralisadas visando proteger
professores, alunos e suas famílias, além de evitar a multiplicação do contágio
(SCHWARTZMAN, 2020). Atividades ligadas ao lazer, turismo e hospitalidade
também se viram reduzidas, levando à limitação da atuação em campo,
demandando metodologias alternativas. A emergência do chamado ensino remoto
baseado nas tecnologias digitais de informação e comunicação foi aplicado nas
atividades de docência, também nestes campos (LEI; SO, 2021).

METODOLOGIA

Como metodologia de pesquisa para alcançar o objetivo proposto, realizamos


uma revisão narrativa. buscando descrever e discutir criticamente o estado de um
determinado assunto a partir de um ponto de vista teórico e contextual, mediante a
análise qualitativa da literatura, contribuindo com um panorama de conhecimento
atualizado sobre uma temática (FERREIRA, 2002; ROTHER, 2007).
A partir desta revisão, com buscas realizadas em bases de dados científicas
e buscadores especializados, identificamos textos acadêmicos abordando a
problemática do estágio virtual de forma geral e, especificamente no campo do
lazer, recreação e ludicidade. A leitura profunda dos textos selecionados permitiu
então analisar as principais “soluções” para a realização do estágio curricular em
tempos de pandemia social, segundo uma perspectiva heurística. Finalmente, as
práticas de estágio curricular adotadas neste contexto foram analisadas numa
perspectiva dialética, em sua reafirmação ou contradição das diretrizes curriculares
de cursos relacionados ao lazer, à recreação e à ludicidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No âmbito da pandemia do COVID-19, com a transição das atividades


educativas do Ensino Superior para o ensino remoto, o estágio curricular
supervisionado foi desafiado em termos de viabilidade, demandando modelos de
acompanhamento específicos. Numa experiência em m Serviço Social e Direito, os
“estágios remotos alternativos” foram desenvolvidos para cada estudante em
particular. Os alunos mostraram-se “extremamente resilientes na disrupção de sua
experiência acadêmica”: a autonomia do trabalho remoto, a oportunidade de aplicar
conhecimentos e de tomar decisões independentes contribuíram para a avaliação
positiva. As sessões síncronas proporcionaram sentido de normalidade e de
estrutura à experiência. Já quando não puderam ser realizados, houve sentimentos
de frustração, de ansiedade e de preocupação em relação ao cumprimento deste
componente pedagógico (BIVENS; BYRD, 2020).
Assim como seus congêneres tradicionais, os estágios virtuais podem ser
classificados como “aprendizagem experiencial virtual”, proporcionando benefícios
similares ao do contexto presencial, como podem ser a aplicação do conhecimento
em situações reais, o desenvolvimento de habilidades técnicas e de habilidades
sociais. Para que isso aconteça, estas experiências precisam ser planejadas e
avaliadas num quadro referencial pedagógico (LEIF; MOORE; HEATH, 2021).
Já a etnografia virtual se apresenta como uma composição curricular capaz
de preservar a intencionalidade do estágio supervisionado em sua execução no
ensino remoto. Neste sentido, atividades relacionadas à pesquisa e extensão,
incluindo pesquisa de base documental, pesquisas autobiográficas, cartografias
docentes e projetos de extensão por meio de encontros virtuais com profissionais
comporiam blocos de atividades relacionadas à profissionalização, passíveis de
serem contempladas pelo estágio virtual. Ao reestabelecer a tríade professor
formador/professor supervisor/estagiário, seria possível preservar a materialização
do estágio, oportunizando a vivência no tempo/espaço virtual da aula remota
(SOUZA; FERREIRA, 2020).
Através de um estudo multicaso, Hora e colaboradores (2021) chegaram ao
resultado de que existe uma significativa variação no universo dos estágios vituais,
com uma camada de complexidade adicional acrescentada pelo virtual, em termos
de acesso, limites entre vida privada e trabalho e outros desafios profissionais
durante a pandemia do Covid-19.
Especificamente no campo do turismo, lazer e hospitalidade, os “estágios
virtuais” consistiram uma experiência de aprendizagem capaz de empoderar os
alunos e conectar os elementos teóricos com as habilidades práticas em situações
reais (PARK; JONES, 2021). Cabe considerar que as mudanças neste setor
econômico impactaram os programas de formação, trazendo potenciais implicações
para o estágio profissional na pós-pandemia (BILSLAND; NAGY; SMITH, 2020).
Park e Jones (2021) ressaltam que os estágios virtuais, se bem planejados
podem ser uma experiência capaz de capitalizar as habilidades práticas e a
aplicação de conhecimentos teóricos em situações reais. Para tanto, a supervisão
foi considerada como o fator mais importante para o êxito desta experiência, com
destaque para a qualidade da comunicação e do feedback por parte dos
professores orientadores, em termos de clareza, frequência, eficácia e eficiência. No
contexto de uma comunicação mediada tecnologicamente, a competência na
comunicação escrita, em formato digital, revelou-se mais relevante que a
comunicação oral e que a falta de contato pessoal. Já a “fadiga de
videoconferência”, o tempo prolongado de uso da tela, o quantitativo de mensagens
trocadas e o atraso em relação ao feedback mostram-se como desafios. Por outro
lado o estudo também evidenciou a incompatibilidade do estágio virtual para um
terço dos estudantes, dependendo de seus traços pessoais, da proficiência no uso
da tenologia e do tipo de trabalho realizado.
Numa outra avaliação, o uso das redes sociais foi identificado como uma
estratégia eficiente para estimular a motivação e para envolver estagiários e alunos
no processo de aprendizagem. Por outro lado, o “escasso apoio” oferecido pelos
professores orientadores e pela expectativa, não cumprida, de se encontrarem no
campo de prática em toda sua complexidade, o que inclui o contato pessoal com
crianças (no caso da Licenciatura), foi fonte de desmotivação para os discentes -
estagiários (ALMONACID-FIERRO et al., 2021).
Para Schwartzman (2020), a adversidade colocada pela situação pandêmica
e uma “resiliência socialmente responsável cultivam o fortalecimento dos laços
pessoais e comunitários através da preocupação e do cuidado” (p. 503). O autor
defende um projeto de poiese pedagógica, unindo a atividade do estágio ao
engajamento comunitário, de forma a construir confiança e parcerias entre a
universidade e a sociedade,incluindo enfrentar o desafio do abismo digital.

CONCLUSÕES

A partir de um levantamento das ações, em termos de formatos e


metodologias do “estágio remoto”, para denominá-lo de alguma forma, pudemos
compor um retrato (ainda inicial) das ações relacionadas a esta prática educativa no
contexto pandêmico. As potencialidades e os desafios encontrados nos apontam
elementos de base para planejar ações e mesmo reconceituar a prática do estágio
curricular supervisionado numa realidade pós-pandêmica, com o apoio das
tecnologias digitais de informação e comunicação e a partir de uma superação do
caráter provisório e contingente que caracteriza a modalidade de “ensino remoto”.
Como resultado, encontramos um posicionamento de questionamento na
literatura acadêmica, em relação não somente aos formatos adotados no estágio
curricular no campo do lazer, recreação e ludicidade, mas também em seus
significados mais profundos, com repercussões sobre a formação profissional.
Neste sentido, confirmamos nossa hipótese inicial que os desafios impostos
pela pandemia podem ser interpretados como “oportunidade”, por parte da
comunidade acadêmica, como forma de questionar e ressignificar os componentes
praxiológicos da formação universitária no campo do lazer, recreação e ludicidade,
nos quais o componente representado pelas tecnologias digitais de informação e
comunicação desempenharão um papel preponderante. Contudo, também é
fundamental considerar também a responsabilidade de proporcionar experiências
inclusivas e acessíveis para todos, em termos de necessidades especiais, pessoas
com deficiência e o próprio acesso às redes digitais, na superação das brechas da
indusão/exclusão digital e educacional.

REFERÊNCIAS

ALMONACID-FIERRO et al. Prácticas profesionales en tiempos de pandemia Covid-


19: desafíos para la formación inicial en profesorado de Educación Física. Retos,
Nuevas tendencias en Educación Física, Deporte y Recreación, n. 42, p. 162-
171, 2021.
BILSLAND, C.; NAGY, H.; SMITH, P. Virtual Internships and work-Integrated
learning in Hospitality and Tourism in a Post-COVID-19 World. International
Journal of Work-Integrated Learning, v. 21, n.4, p425-437 ,2020.

BIVENS, N. D.; SMITH, J. C, Navigating Internships and field experience in the wake
of a global pandemic: a qualitative examination of two undergraduate program
experiences. Journal of Education & Social Policy. v. 7, n. 3, 2020

BRASIL. Parecer CNE/CP 28/2001. Diário Oficial da União, 18/1/2002, seção 1, p.


31., 2002. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/028.pdf

FERREIRA, N. S. de A. As pesquisas denominadas “Estado da Arte”. Educação &


Sociedade, n. 79, p. 257-272, 2002.

HORA, M. T. et al. Exploring online internships amidst the COVID-19 pandemic


in 2020–2021: results from a multi-site case study (WCER Working Paper No. 2021-
5), University of Wisconsin–Madison, Wisconsin Center for Education Research,
2021.

LEI, S. I.; SO, A. S. I. Online teaching and learning experiences During the COVID-
19 pandemic – a comparison of teacher and student perceptions. Journal of
Hospitality & Tourism Education, v. 33, n. 3, p. 148–162, 2021.

LEIF, S., MOORE, K. & HEATH, J. Experiential learning During COVID-19: Did we
serve our students?. In ANGRAN, E.;ARCHAMBAULT, L. (ed.),In: Proceedings of
Society for Information Technology & Teacher Education InternaWtional
Conference . Waynesville Association for the Advancement of Computing in
Education (AACE), 2021.

PARK, M., JONES, T. Going virtual: the impact of COVID-19 on internships in


tourism, events, and hospitality education, Journal of Hospitality & Tourism
Education, v. 33, n. 3, p. 176-193, 2021.

PICONEZ. S. C. B. (Coord). A prática de ensino e o estágio supervisionado.


Campinas: Papirus, 2015.

ROTHER, E. T. Systematic literature review X narrative review. Acta Paulista de


Enfermagem, v. 20, n. 2, p. v-vi, jun. 2007.

SCHWARTZMAN, R. Performing pandemic pedagogy, Communication


Education, v. 69, n. 4, p.502-517, 2020

S
O
U
Z
A
,

E
.

Você também pode gostar