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Psicologia: Teoria e Prática

1999, 1(2) : 33-36

O LUGAR DOS SENTIMENTOS NA CIÊNCIA DO


COMPORTAMENTO E NA PSICOTERAPIA
COMPORTAMENTAL.
Sueli Galego de Carvalho
Universidade Presbiteriana Mackenzie

Resumo: Este artigo mostra uma breve reflexão acerca da valorização dos sentimentos no contexto da
terapia comportamental. Discute-se também algumas considerações gerais sobre as idéias de Skinner a
respeito das explicações mentalistas do comportamento humano, procurando-se analisar teoricamente
como os eventos “encobertos” têm sua parcela na determinação dos comportamentos expressos.
Palavras-chave: sentimentos, comportamento encoberto, mentalismo, terapia comportamental
cognitiva.

THE PLACE OF THE FEELINGS IN THE BEHAVIORAL SCIENCE AND


IN THE BEHAVIORAL PSYCHOTHERAPY.

Abstract: This article presents a brief reflection about the valorization of the feelings on the
behavioral psychotherapy context. It is also discussed some general considerations about the
significance given by Skinner for the mind explications of the human behavior, attempting to analyse
theoretically how covered events have an important relevance in determination of the express
behaviors.
Keywords: feelings, covered behavior, mentalism, cognitive behavior therapy.

O objetivo deste artigo é o de O papel dos sentimentos e de


evidenciar uma breve reflexão conceitual outros “estados subjetivos” foram tema
acerca de alguns rótulos inadequados em de grande parte dos escritos de Skinner. O
relação ao trabalho clínico que é sentimento é um tipo de ação sensorial,
desenvolvido sob a abordagem como ver ou ouvir (Skinner, 1982).
comportamental. Discriminar aquilo que sentimos e falar
Esperamos que este espaço seja sobre isso (sentimentos) são
de fácil acesso aos leitores que tenham comportamentos aprendidos, produtos da
interesse, ou melhor, curiosidade, em comunidade verbal que nos ensina a
“descobrir” se um terapeuta descrever o que fazemos, o que pensamos
comportamental possui ou não, em seu e o que sentimos (Skinner, 1991).
consultório, um “liberador de choques” As críticas de Skinner (1982) em
e/ou uma barra que solta pequenas balas relação ao papel dos sentimentos foram
de goma, quando adequadamente direcionadas aos mentalistas dizendo que
pressionada. as explicações mentalistas acalmavam a
É muito comum se ouvir que curiosidade, porém, na verdade nada
sentimentos e emoções não são explicavam . Baum (1999) concordando
considerados pelos comportamentalistas e com Skinner ilustra o seguinte exemplo:
que estes negam que as pessoas pensam e suponha que você pergunte a um amigo
sentem. Pretendemos que a exposição a por que ele comprou um par de sapatos e
seguir contribua para uma melhor a resposta seja “comprei por impulso”, ou
compreensão da abordagem “comprei porque quis”. Embora essas
comportamental na área clínica. afirmações soem como explicações, em

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Sueli Galego de Carvalho

relação à pergunta, na verdade nada acabam buscando “explicações


esclarecem. Essas “não explicações” são mentalistas” dentro de suas práticas
exemplos de mentalismo em relação ao clínicas. Esta é uma importante discussão
qual Skinner era contrário. Porém, ele não que foge da proposta inicial deste artigo e
rejeitou pensamentos e sentimentos. merece um trabalho específico para esse
Skinner (1967) critica o uso de fim.
constructos hipotéticos, temendo que De acordo com o senso comum, o
especulações sobre processos mentais objeto de estudo de Skinner é o
impedissem a pesquisa de meios práticos comportamento observável, mas, ao
de mudança de comportamento (isto é, contrário dessa crença popular,
previsão e controle); receando, ainda, que pensamentos e sentimentos também foram
os cientistas acreditassem que tinham considerados por Skinner que os
explicado o comportamento quando, na denominou de comportamentos
verdade, apenas desenvolveram um encobertos. Estes comportamentos
constructo. continuam sendo estudados e são objeto
Uma diferença relacionada entre o de muita análise e discussão entre os
caminho científico de Skinner e o de comportamentalistas.
outros é que em vez de desenvolver um Na Psicoterapia Comportamental,
constructo, Skinner sempre defendeu a que se baseia nos princípios da Análise do
observação sistemática e paciente das comportamento, frases do tipo: “sinto um
contingências ambientais até que se medo muito grande”/“fiquei feliz por ...” /
conhecesse o bastante para demonstrar o “estou ansioso...” / “tenho a intuição
controle experimental do comportamento. que...” / “sonhei que ....” são exemplos
Na linguagem coloquial, as mais de relatos acerca de comportamentos
diferentes “coisas” são classificadas como encobertos. Tais comportamentos são
mental - pensamentos, sentimentos, atividades de um organismo. Pensar,
sensações, emoções, alucinações e assim sentir, sonhar, ... são comportamentos, já
por diante. Mental é um adjetivo que o indivíduo emite determinadas
derivado de mente. Baum (1999) respostas em função dos mesmos, e sendo
questiona: o que todas as coisas assim não precisam ser considerados e
classificadas como mental têm a ver com entendidos como eventos mentais.
a mente? O autor afirma que a noção de De acordo com Skinner (1967) o
mente é problemática para uma ciência do comportamento é uma interação entre
comportamento porque a mente não é um indivíduo e ambiente. A unidade básica de
objeto natural. Um cirurgião ao abrir o análise do comportamento é a
crânio de uma pessoa, certamente contingência de três termos. A formulação
encontrará dentro dele um cérebro. Este das interações entre um organismo e seu
poderá ser retirado, manuseado, pesado e meio ambiente para ser adequada, deve
medido. Nada disso poderá ser dito de sempre especificar:
nossa mente... Este debate a respeito de
1) a situação em que a resposta
se aceitar ou não “explicações
ocorreu;
mentalistas” mereceria ampla discussão
visando o entendimento profundo da 2) a própria resposta; e
“função da mente” dentro de um processo 3) as conseqüências de tal
psicoterapêutico. E até que ponto
resposta. As relações entre estes três
exatamente os terapeutas aspectos constituem as contingências de
comportamentalistas cognitivos não reforço. Analisando-se as contingências

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O Lugar dos Sentimentos na Ciência do Comportamento
e na Psicoterapia Comportamental

da vida do indivíduo, da vida da espécie, e condição básica para a eficácia do


do grupo cultural, podem-se criar processo terapêutico. Assim, o terapeuta é
condições de discriminação, um facilitador que sinaliza as
aprendizagem e ampliação de repertório contingências do comportamento de seu
dos indivíduos. Para os problemas cliente permitindo que este se torne um
clínicos efetua-se uma análise do observador mais acurado de seu próprio
comportamento externo e encoberto para comportamento, já que os
identificar as variáveis das quais o comportamentos encobertos são menos
comportamento é função. Em seguida, acessíveis e geralmente ficam sob
propõem-se intervenções que se supõe controle de contingências freqüentemente
sejam de alta probabilidade de provocar desconhecidas pelos indivíduos. A partir
mudanças de comportamento. do momento que adquire esta habilidade,
Hayes (1987) argumenta que o indivíduo estará mais apto para decidir
como os comportamentos encobertos não se quer ou não modificar seu
podem ser manipulados diretamente, não comportamento.
são vistos como iniciando outras ações, Lettner e Rangé (1988) afirmam
mas podem entrar nas seqüências causais. que parte da sintomatologia de um
Skinner (1982) já assinalava que os paciente pode ser atribuída à
relatos do mundo interior, o qual é sentido incompreensão do que lhe acontece. Lipp
e observado introspectivamente, são (1995) defende ser fundamental, seja
pistas: 1) para o comportamento passado e como compromisso ético, seja como
as condições que o afetaram; 2) para o elemento de vínculo terapêutico, seja
comportamento atual e as condições que o como respeito a seus direitos como
afetam; e 3) para as condições cidadão e cliente, seja como já parte do
relacionadas com o comportamento processo de mudança, uma explicação
futuro. detalhada da lógica da Terapia
Em termos de psicoterapia, dada a Comportamental Cognitiva e da
natureza do contexto, a maioria dos compreensão possível, até o momento, da
relatos envolvem os comportamentos problemática trazida pelo paciente. A
encobertos. Os clientes freqüentemente terapia baseia-se na idéia de que
vêm com a certeza de que seus problemas pensamentos podem gerar os sentimentos
são causados por sentimentos, e os comportamentos que constituem a
pensamentos, etc, isto é, as pessoas queixa do paciente. Rangé (1995) atesta
acreditam que os comportamentos ser a identificação desses pensamentos
encobertos são as causas de seus durante a sessão um ponto crucial para
problemas. Assim, uma das principais uma adequada demonstração das
metas do terapeuta comportamental é distorções cognitivas em ocorrência.
conseguir levar seus clientes a perceber e Fazendo com que o paciente, para aliviar
identificar como seus comportamentos seu sofrimento, aprenda a detectar por si
encobertos são apenas um dos elos da mesmo os pensamentos e os sentimentos
contingência tríplice a ser analisada e como um primeiro passo para também
como eles se relacionam a outros eventos aprender a manejá-los e compreender
do mundo interno e externo. como se relacionam mutuamente para
A competência do terapeuta deve produzir um determinado comportamento.
proporcionar a criação de condições para Finalizando, apesar do tema
a discriminação das contingências que merecer uma discussão mais detalhada e
controlam os comportamentos, pois é a profunda, esperamos que o conteúdo

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Sueli Galego de Carvalho

exposto tenha evidenciado a importância SKINNER, B.F.(1982) Sobre o


dos sentimentos no processo Behaviorismo. São Paulo: Cultrix.
psicoterapêutico comportamental. Os SKINNER, B.F. (1991) Questões
clientes/pacientes que se submetem a uma recentes na Análise do
terapia comportamental se comunicam e Comportamento. Campinas: Papirus.
se relacionam com seus terapeutas da
mesma forma que os clientes de qualquer
outra abordagem: se alegram, se
entristecem, ficam com raiva, contam
sonhos, ficam em silêncio, etc... Delitti
(1993:45) define: “ o terapeuta
comportamental é um decifrador de
códigos, um pesquisador em busca de
hipóteses”. E principalmente um ser
humano sensível ao “sofrimento” de seu
cliente/paciente, que como qualquer outro
terapeuta, busca explicações e
procedimentos sempre visando a
melhoria da qualidade de “vida
psicológica” do indivíduo que está sob
seus cuidados.

Referências Bibliográficas.

BAUM, W.M. (1999) Compreender o


Behaviorismo: ciência,
comportamento e cultura.Porto
Alegre: Artes Médicas.
DELITTI, M. (1993) O uso de encobertos
na terapia comportamental. Temas
em Psicologia. No. 2.
HAYES, S.C. (1987) A contextual
approach to therapeutic change. In N.
JACOBSON. Psychotherapist in
Clinical Practice: Cognitive and
Behavior Perspectives. New York:
Guilford.
LETTNER, H. & RANGÉ, B. (1988)
Manual de Psicoterapia
Comportamental. São Paulo:
Manole. Contatos: Universidade Presbiteriana Mackenzie
LIPP, M.N. (1995) Ética e Psicologia Faculdade de Psicologia
Departamento de Psicologia Geral e
Comportamental. In RANGÉ, B. Comportamental
Psicoterapia Comportamental e Rua Itambé, 145 – Prédio 14 - 1° andar
Higienópolis – São Paulo – SP
Cognitiva. São Paulo: Editorial Psy. 01239-902
SKINNER, B.F. (1967) Ciência e e-mail: psicologia@mackenzie.br
Comportamento Humano. São Paulo:
Martins Fontes.
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