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zação tecnológica \

COnTRAPOnTO
ISBN 978·85·85910·84·6
EDITOR A

~====~-----J~]]~]~I!~I.Il~UII= PUC R IO
O leitor tem em mãos um dos mais
importantes livros do final do sécu -
lo XX. Um livro erudito e polêmico,
que trata de um tema central para a
sobrevivência fisica e espiritual da hu-
manidade: a busca de uma ética para
a civilização tecnológica. A partir de
um ponto de vista ontológico, Hans
Jonas retoma as questões sobre a rela-
ção entre Ser e dever, causa e finali-
O PRH\tChP>~O RESPONSAB !LIDADIE
dade, natureza e valor. Busca ultrapas-
sar o subjetivismo dos valores para
fundamentar no Ser o dever do ho-
mem moderno.
Certas transformações em nossas
capacidades, ele diz, acarretaram uma
mudança na natureza do agir humano.
E, já que a ética tem a ver com o agir, a
natureza modificada do agir humano
também impõe uma modificação na
ética. A natureza qualitativamente no-
va de muitas das nossas ações descorti-
nou uma dimensão inteiramente nova,
não prevista nas perspectivas e nos câ -
nones da ética tradicional. A técni ca
moderna introduziu ações de uma tal
órdem inédita de grandeza, com tais
novos objetos e consequências que a
moldura da ética antiga não consegue
mais enquadrá-las.
No pensamento tradicional, a pre-
sença do homem no mundo era um
dado primário e indiscutível, de onde
partia toda idéia de dever referente à
conduta humana. Agora, essa presença
tornou-se, ela mesma, um objeto de
dever, o dever de conservar o mundo e
preservar as condições dessa presença.
!
I
I-Ians Jonas
I
PUC R IO

Reitor ~
Pe. Jesus Horta! Sán chez, S. ).

\'ice-Reitor
E SA A E
Pe. )osafá Carlos de Siqueira, S.).
Ensaio de uma ética
\'ice-Reitor para Ammtos Académicos pa ra a civilização tecnológica
Pro f. Danilo Marcondes de Souza Filho

Vice-Reitor para Assuutos Admiuistmtivos


Prof. Luiz Carlos Scavarda do Carmo

Vice-Reitor para Ammtos Comuuittírios


Pro f. Augusto Sampaio TRADUÇÃO DO OR I G I NAL A L EMÃO

Mnrijrme Lisbon
Vice -Reitor para Ammtos de Desetll'oil•imeuto Luiz Bnrros Montez
Pc. Francisco lvern , S.).

Dccmros '!
Prof.• Maria Clara Lucchctti Bingemer (CTCH )
1
Prof.• Gisele Cittadino (CCS) I
Prof. Reinaldo Calixto de Campos (CTC) I
Prof. Francisco de Paula Amarante Neto (CCBM) I
i
I
I

I
COOTP.A POOTO
J EDITORA

PUC R IO
l:l l nsd Ve rl ag Frankfurt am i\fain, 1979

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Rcl'i!tlo Debora Barros
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2• reimpressão, fe\'ueiro de 2015


Tiragem: 2.000 exemplares

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CII'·BRASIL CATAI OGAÇÃO-NA-FONTE


SINDICAl O NACIONAL DOS EDITORES DE li\'RO~. R)

J66p Jonas, Hans, 1903- 1993


O principio r~ sponsabil idade : ensaio d e uma tlicJ pJT:l a ci,·ili-
ução tecnológica I Hans Jonas; tradução do original Jlemlo ~ ! a ri­
'
jane Lisboa, Luiz Barros Montez. - Ri o de Janeiro: Contraponto: Ed.
P UC-Rio, 2006.
354p. ; 23 em

Tradução de: Das Primip Verorll\,·o r tung: \'ersuch einer ethic für
I
d ie Technologische zi~ilisali~
ISBN 978·85·85910·84-6
I
~
I. Responsabilidad e. 2. Tecnologia - Aspectos morais e tt icos.
3. ttica. !. Titulo.
CDD 170.42
06·2515 CDU 17
Sumário

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

I Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

I Capítulo I · A natu reza mod ifica da do agir humano

I. O exemplo da Antiguidade .... .. . .'.......... .. ..... . .. .. ........ .... ...... 31

I 1.
2.
Ho111e111 e natureza .. . . .. . . .. . . . .. .. . .. .. . . . . . . .. . . . .. .. . .. .. . .. .. .. . .. . .
A obra hu111ana da "cidade"............ . .... . ..... .. .. .. ......... .. . .. .
I!. Características da ética até o momento presente. ........... . .. . .... . ..
31
33

35

IJI. Novas dimensões da responsabilidade. . .... .... .. . .. ....... . ... ........ 39


1. A l'lilnembilidade da natureza .. .. .. .. . .. . .. .. . . .. .. .. . .. .. .. .. . .. . .. .. 39
2.O nOI'O papel do saber na 111oml .. .. .. .. .. . .. .. .. .. . .. .. .. .. .. . . .. .. .. . 41
J. U111 direito li/Oral próprio da natureza? . .. .. .. ... ....... .. .. ... .. ..... 41

IV. Tecnologia como "vocação" da humanidade .... . . . ..... . ... .. ..... . . . . 43


1. Homo faber aci111a do homo sapiens....... .. ................. . .... .. 43
2. A cidade 1111 Íl'ersal co111o segunda natureza
e o de11er ser do ho111e111 110 1111111do ................ .. .... .. ........ . .... 44

V. Velhos e novos imperativos .. .. .. .. .. . .. .. . .. .. .. . .. . .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. 47

VI. Antigas fo rmas da "ética do futuro" .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. . 51


1. Ética da consu111açiio 110 111ais-alélll .. . .. .. .. . .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 51
2. A respo11sabilidade do estadista CO/li o fu turo. .. .. . ...... .. .. ... .... . . 53
J. A utopia 111odema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54

VII. O homem como objeto da técnica .. .. . .. .. .. . .. .. . .. .. . .. .. .. . . .. .. .. . 57


1. Prolot~galllelllo da vida .. .. .. .. . .. .. . .. .. . .. .. .. .. . .. . .. . .. .. .. .. .. .. .. . 57
2. Controle de co111portallle11to.... .. ..... . .. . . . . ..... .. ..... . ...... ... .. . . 59
J. Manipulação ge11éticn . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

VIII. A dinâmica "utópica" do progresso técnico


e o excesso de responsabilidade .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. 63

IX. O vácuo ético .... .... .. . ..... . .. . .. .... . .. . .. .. . .... . ... ... . . ... . . . ..... .. .. 65
Capítulo li • Questões de p rincíp io e d e método 6. Dois dogmas: "nenh11111a l'erdade metafísica";
"n enhunr caminho do é pam o deve"... .... . . .... . ... ... ........ .. . ... 95
l. Saber id eal e saber real na "ética do futuro" ........ ........ . .. . . .. .. . . .
1· Sobre a necessidade da metafísica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
1. Prioridade para a questiío dos princípios .. ... ...... . . . .. .. . ...... .. . . .
2. Ciência factrwl dos efeitos distantes da açiio técnica ... . . ... ........ . V. Ser e deve r ... . . . ...... ... . . ... . ... . .. . . ..... . . . .... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
]. Contribuiçiío dessa ciência no saber dos princípios: 1. O dever-ser de algo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
~- - ---~
aJiermsttca do medC!._; .. . ....... . .. . ... .......... . . .... ...... .. . ... ..... . 70 2. A preferência do Ser diante do nada e o indivíduo. . .. .. .. . . ... .. .. .. 99
4- O "primeiro de11er" da ética do futuro: 3.· O sentido da pergunta de Leibniz
11isualizar os efeitos de longo prazo ............. ..... ...... . .. ... .... . .. 72 "Por que e.:..:iste algo em vez de rwda?". .. .. .............. .... .. .... .. .. 100
5- O "segundo del'er": mobilizar o sentimento 4· A questão de 11m possível dever-ser del'e
adequado à representaçiío . .. ......... . . ..................... .. . .. . ... . .. 72 ser respondida independentemente da religiiio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
6. A insegurança das projeções futuras .. ........ .. ....... ... .. .. ... ..... . 73 5. Voltando -se para a questão sobre o status do "l'alor" . ... . ... .. .. . . . . 102
1· O conhecimento do possí11el é heuristicamente
suficiente para a doutrina dos princípios .... ... ... . .. ... ....... . .. .. . . 73 Capítulo 111 · Sobre os fins e sua posição no Ser
8. O conhecimento do possíl'el é aparentemente inutiliuível
para o emprego dos princípios 11r1 política .... ....... ...... ... ....... .. I. O martelo .. ..... ... .... . .. ... ......... .... . .. .. . ... ... . ..... .. .......... .... . 109
74
- - -- - - I
1. Constituído a partir do fim. ... . ...... ..... .. .. . .. ......... ... . . .. ... . . 109
I!. Primazia do mau prognóstico sobre o boll1' . .. . ..... . .... .. . . . .. . . . .. . . 77 2. O lugar do fim niio está na coisa....... .. . ..... ...... ... .. .... . ...... . . 109
1.As pro/l(lbilidades 1ws apostas altas .... ... ...... .. ...... .. .. .... . . . ... . 77
2. A dinfimicn Clllltttlatil'a dos desenvolvimentos técnicos . .. . ... .... . .. 78 li. O trib unal . . .. .. . .. . . . . .. .. . . . .. . .. . .. .. . .. . . .. .. .. . . .. . . .. . .. . .. .. .. .. . . . .. . lll

J. A essência sacrossanta do sujeito da evoluçiio.. ... .. .... .... . . . . ... .. . 79 1. Iman ência do fim ......... . ... ... ...... .. ..... ..... .... ...... .. ..... . .. .. 111
2 . llll'isibilidade do fim no aparelho físico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112
III. O elemento da aposta no agir .. .. . .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. 83 3. O meio niio sobrevil'e à imanência do fim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . II3
1. Posso arriscar os i11teresses de outros em minha aposta? .. . .. ... . . ... 83 4· Indicnçiio do fim por meio de instnmrentos materiais.. . .. .... . ... . . 113
2. Tenho pennissiio para apostar a totalidade
5· Tribunal e nwrtclo: o homem corno a sede da finalidade. . ... .. .. . . . 114
dos interesses dos outros?... ..... .. .... .. ..... .. .. .. .. .. .. .. .. ........... 84
J. O 1nellwrismo niio justifica apostas totais..... ........ .. . . ... .. .. . .. . . 85 lll. O andar . . .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. . .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . . .. .. . . .. . 117
4· A humanidade niio tem direito ao suicídio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 1. Meios artificiais e naturais ................... . .......... ....... .. ...... . 11 7
5· A existência "do homem" niio pode ser objeto de aposta .. .. ... .. .. .. 86 2. A diferença entre meio e funçiio (uso) ......... .... .............. ... .. . 117
J. l:e rramenta, órgão e organismo .. . .. .. .. . . .. . . .. .. . . . . . .. .. . . . . .. . . . . .. 119
IV. O d ever para com o futuro.......... ....... .. .. .. .. .. .. .. .. . .. . .. .. . .. .. 89
4· O encadeamento subjetil'o de fins e meios no agir humano.. . .. .. . . 119
1. A extitrçiio da reciprocidade na ética do futuro ......... . .... . .. ... . .. 89
5· Di11isiio e mecânica objetil'a do encadeamento no agir animal..... 120
2. O de11er diante da posteridade..... .. ..... ... .. .... .. ...... ..... ... ... .. 89
6. O poder causal dos fins subjeti11os................. ... ... .. ......... .. .. 127
]. Dever de existir e do modo de existir da posteridade . . . . . . . . . . . . . . . . 90
a . É necessário justificar o dever de ter uma pos teridade?. .... . . . . 91 IV. O órgão d igestivo ... . . ... . .... . .. .. .. . . . . . . . .. .. .. .. . . .......... ... . . .... . . 129
b. Prioridade do dever da existê ncia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92 1. A tese do caráter puramente ilusório
c. O primei ro imperativo: que exis ta uma huma nid ade.. . . . ... . . . 93 da fi nalidade no organismo físico . .. . . .. ... . .. .. ... .. ....... .... ... . .. . 129

:~1.:. · Responsabilidade ontológica pela ideia do honrem. .... . . .. .. .. ..... . 94 2. A causalidade fi nal limita-se aos seres dotados de sr1bjetividade? . . 130
5. A ideia ontológica engendra wn a. A inter pretação dua lis ta . . . . ... . . . . . . . . . . . ... . _.. . .... . .. .. . . .. . ... .. 130
imperativo categórico, não hipotético.... ... .. ................. . .. .. ... 94 b. A teor ia mon ista da emergência ... _.. . ... . .. .. .. . . .. ... . . ... .. ... . . 131
J. Cnusnlidnde jinnl1w nnturezn pré-consciente..... ..... . .. ... .. . ..... 134 6. A responsabilidade livremente escolhida do /comem político . . . . . . . . 171
a. A abstinência das ciências naturais .. .. .. .. .. .. . . . . .. . . . .. .. . .. .. .. 134 1· Responsabilidade política e responsabilidade pnrentnl: contrastes.. 173
b. O caráter ficcional da abstinência
III. Teoria da responsabilidade: pais e homem
e sua autocorreção pela c""istência científica ....... .......... . .... 135 d e Estado como paradigmas eminentes......... ........... .... ......... 175
c. O conceito de fi nalidade mais além da subjetividade: 1. O primeiro objeto de respo11Snbilidnde são outros homens . . . . . . . . . . 175
compatibilidade com as ciências naturais.. ..... ..... .. . . . ..... ... 136 2. A existência dn hunwnidnde: o "primeiro imperntÍI'o" ...... ... .. .. . 176
d. O conceito de ftm para além da subjetividade: J. "Responsabilidade" do nrtistn peln sun obrn . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177
o sentido do conceito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 4· Pnis e homem público: n totnlidnde dn responsabilidade . . . . . . .. . . . . 179
e. O querer, oportunidade e ca nalização d a causalidade. ... .. ... .. 140 5· lntc1penetmção de nmbns ns responsabilidades no objeto........ ... 181

V. A realidade da natureza e a validade: ---11 6. Annlogins quanto no sentimento .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. 182

da questão do fim à questão do valor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 7. Pnis e homem público: continuidade.... ......... ... ........ ....... .. .. 185

1. Unil'ersn/idnde e legitimidade... ............. ............ ........ ... ... 143 8. Pnis e homem público: futuro ...... .. .................. .. ............... 186

2. Liberdade pnm negnr o decreto dn nnturezn.......................... 144 rv. Teoria da responsabilidade: o horizonte do futuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189
J. O caráter não comprol'ndo dn obrigação de nfirmnr o decreto .... ·. . 145 1. O objetivo dn educação: ser ndulto ...... ........ .......... ....... .. ... . 189
2. O devi r histórico não é comparável no dcl'ir orgânico. ........ ... ... 189
Capítulo IV· O b e m, o d e ver e o Ser: teoria da responsabilidade J. "J lll'en t 11 dc" e " ve1111ce
. " como metn~r. I . t' .
1 orns 11s oncns ... ... .... ... ..... . 191

I. Ser e dever . . .. .. .. .. .. .. . .. . . . .. .. . . .. .. . . .. . . .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .......... . 149


4. A ocasião histórica: reconhecimento sem prel'isão
"B em " e "mn l" rcln t'cvnmen te ct.. fi111(1 l'd (Filipe dn Macedônia)...... .... .......... .. .... .......... ... ............ 193
1. I ndC ... . . ..• . •.. . ... . .... • .... . . 149
2. A finnlidnde como bem em si .. ... .... . .. ... .. . ...... . .... ...... ....... . 5· O pnpel dn teor in nn prcl'isão: o exemplo de Lenin . . . . .. . . . . . . . . . . . . 193
150
6. Predição n pnrtir de 111n snber nnnlítico dns cnusns . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
J. A nuto-nfinnnção do Ser 11n fi nnlidnde. ................ . ......... .. .. . 151
. "dn vz'dn, 11m ((nno - " Cll;ntzco
,(/ . no nno-ser
- 1· A predição n pnrtir de umn teoria espewlntivn: o marxismo . . . . . . . 195
4· O ((sz111 . .. ....... ·.. ........ . . 151
8. A teor in nuto-renlizável e n espontaneidade dn nção......... ........ 197
5· Pnm o homem, o "sim" ontológico tem n forçn de um dever ... .... . 152
6. O caráter problemático de u1n del'er distinto do querer ......... ... . 153 V. Até onde se estende a responsabilidad e política no futuro? . . . . . . . . . . 201
7. "Vnlor" e "bem" ... . . ... .... ... ........ ........ ........ . ... ... ........... . 154 1. Todn nrte de gol'emnr é respoiiSfÍ I'el peln possibilidade
8. Fnzer o bem e o Ser do nge11te: n predomimíncin dn "cn usn" ....... . 156 de umn futum nrte de go vemnr ........................... .... .. ....... 201
9· O aspecto emocional dn mornlnn teorin éticn nté n ntunlidnde ... . 159 2. Horizontes próximos e distantes sob
a. O amo r ao "bem supremo" .... ..... .... ...... .... . ... ... ........ . . . 159 o domínio de umn mudmzçn con stante.. .. .............. ... .... .. ..... 202
b. Agir por agir . . .. . .. .. ......... ............... ... .. .. ..... ... . .. ...... . 160 J. A expcctatil'a do progresso téwico-científico ... ........ .... .. .. ... ... . 204
c. O "respeito à lei" de Ka nt ............ ........ .......... .. .......... . 161 4· O mnrco tempo m/ nmplindo dn responsabilidade coletiva ntunl . .. 206
d. O ponto de vista da invest igação seguinte .......... ......... .... . 163
VI. Por q ue a responsabilidade não esteve
I I. 'lêoria da responsabilidade: primeiras d istinções ... . ... ... . .. . ..... . . . 165 até hoje no cen tro da teoria ética? .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. . .. .. 209
I
Responsabilidade co1no imputnçiio cnusnl de ntos renlizndos .. . .... .
1. 165 1. O cirwito mnis estreito do snber c do poder:

2. Responsabilidade pelo que se fn z: o del'er do poder ... ... ......... . . . 167


I
1 o objetivo dn pennanêncin. ....... .... ...... .. ... . .. ... ... ... ...... ..... 209
. de fiormn zrresponsnve
J. O que sc.gm1;r;zca ((ngzr . ' 1"7.. ........... ..... ...... . 168 2 . A nusêncin de diiUímicn.. ...... .... .. ......... ...... .. ......... . ...... .. 210

4· Responsabilidade: u111n relação não-recíproca ... .. ...... ... .... ..... . 169 J. A orientação "verticnl" e não "horizontal"
~ Responsabilidade nnturnl e responsabilidade contrntunl . .. ........ . 170 dns éticas anteriores (Platão)...... ...... .. .... .......... ..... ...... .. .. 2 11
4· Knnt, Hegel, Marx: o processo llistórico como escntologin . . . . . . . 213 .IV. Exame concreto das possibilidades abstratas .. . . .... . . .. . . . .. .. ... . .. .
s. A inversrlo contemporânea do enunciar/o: 1. Moti\'(/çfio r/e lucro e incitaçrlo à mnximizaçrlo

"você pode, porque você deve" .. . . ..... ..... .... .. .. . ... .... ..... . .. . ... 215 no Estado nacional COIIIliiiÍsta . ... .. ... ...... ... ... .. .. .. . .. .. . ...... . . . 251
6. O poder rio homem: a miz do "rle11e-se" dn responsabilidade . . . . . . . 216 2 . 0 CO/nuniSIIIO 11111/lr/ialnflo é i11111ne
ao egoísmo econômico regional .. .. .. .. . .. .. . .. .. . .. . . .. .. . . .... .. . . . . .. 253
VI l. A criança: o objeto originário da responsabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
J . O w lto ria técnica no marxismo .. .. .. . .. .. .. .. .. . .. . . .. .. . .. . .. .. .. .. . 254
1. O "de11e-se" elementar no "é" do recém-nascido .. .... .. . . ... .. .. .. ... 219
4. A serluçrlo da utopia no marxismo.. .. .......... ...... .... . .. .... .. .... 256
2 . Os apelos menos urgentes r/e 11111 "dever ser".. . .. .... .. .. . ... ... . .. .. . 221
J. A evidência arqrtetípica do recém-nascido V. A utopia do "homem verdadeiro", o que está por vir .. . .. . . .. ... . 259
para a essência da responsabilidade........ .. . ... .. .. ... . .... .. .. ... . .. 223 1. O "super-homem" r/e Nietzsc/1e co1110 o futuro
homem verdadeiro . .. .. ... .. .. ... .. ... ........ .... . .... . ... .... . ..... .. . 259
Capítulo V· A respo ns a bilid ade hoj e: o fu turo ameaçado 2. A sociedade sem classes co1110 condição
e a ide ia d e progresso pnm o fritura homem 11erdadeiro ... ... ... ....... .... . ... ..... . .. ... .. .. 260
a. Superioridade cultural da sociedade sem classes? . . . .. .. 261
I. Futuro da humanidade e futuro da natureza .. .. . . .. .. .. . ... .. . .. . .. .. . 229
b. Superioridade moral dos cidadãos
1. Solidariedade r/e interesse com o m1mrlo orgânico .. . . ... .. . .. . ... .. . 229
em uma sociedade sem classes? .. .. .. . . . . .. . .. .. . .. .. . .. .. .. .. .. .. . 262
2. O egoísmo rins espécies e seu resultar/o sirnbiótico global ..... . .. . .. . 229
c. Bem-estar material como
J. A perturbaçrlo rio equilíbrio silllbiótico pelo homem .. . ... .. ... ..... . 230
condição causal da utopia marx.ista.. ... . .. . .. .. . .. .. . ...... . .. .... 263
4· O perigo re11eln o "nrio ao nrlo-ser" como nosso de 1'er primordial .. 231
VI. A utopia e a ideia de progresso .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. 265
ll. A ameaça tenebrosa contida no ideal bacon iano ... .. .. . .. .. .. ... . .. .. . 235
1. Necessidade r/e despedir-se do ideal utópico... .. . .. .. .. .. ... . . . ... . .. . 265
1. A ameaça de catástrofe decorrente rio êxito excessi11o . . . . . . . . . . . . . . . . 235
a. O perigo psicológico da promessa de bem-estar . . ... . .. . .... .. .. 265
2 . Dialética rio poder sobre a rwtureza e n compulsão de exercê-la ... . 236
b. Verdade e fal sidade do ideal e o dever dos responsáveis 266
J. A busca r/e 11m "poder sobre o poder" ... ... ........ . .... .. . .. . . ... . . .. . 237
2. A problemática do "progresso ético" . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267
IIJ. Capitalismo ou marx.ismo: quem está mais a. Progresso no indivíduo.. ........ .. .. .. . .. ... .. .. .. . .... ............. 267
bem preparado para enfre ntar o perigo?.. .. ..... .... ... .. .. ...... ...... 239 b. Progresso na civilização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269
1. O marxismo co1110 e.xew tor do ideal úaconiano ... ... .. . . . .. ... . ..... 239 3. Progresso na ciência e 11n téwica .. . .. ... .. ...... ...... .. .. . .... .. ...... 269
2 . Ma rxismo e industrializaçrlo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240 a. O progresso científico e o seu preço.. .. .... .. .. ...... . .. .... .. ... . 270
3. A1'alinção das possiúilirlarles r/e enfren tar o perigo tewológico 241 b. O progresso técnico e sua am bivalência ética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 271
a. Econo mia das necessidades versus economia do lucro: 4. Sobre n moralir/ar/e rias instituições sociais.. .... . .. . .. . ... . . .. . ... .. . . 273
burocracia l'erstiS livre empresa .. .. . .. .. .. .. . . . . .. . . .. . . . .. .. .. . .. . 242 a. Os efeitos desmoralizantes do despotismo . ...... . .. .. . . . . . .... . . . 273
b.' A va ntagem de um poder governamental total . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243 b. Os efeitos desmoralizantes da exploração económica .. .. .. ... .. 274
c. A vantagem de uma moral ascética das massas c. O "bom Estado": liberdade política e moralidade civil . . . . . . . . . 276
e a questão da duração do comunismo .. .. .. .. .. . .. .. .. . . . .. . . .. . 244 d. A natureza concessiva dos sistemas libertá rios .. . .. . . . .. .. . . . .. .. 280
d. Pode o entusiasmo pela utopia transmudar-se s. Sobre os tipos r/e utopia .. .. .. . .. .. .. . . .. .. . .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 281
em entusiasmo pela austeridade? (Política e verdade) . . . . . . . . . . 246 a. O Estado ideal c o melho r dos Estados possíveis . . . . . . . . . . . . . . . . 281
e. A va ntagem da igualdade para a disposição a sacrifícios . . . . . . . 248 b. A novidade da uto pia marxista .... ... .. ... ..... .. . .... ....... .... .. 282
4. Resultado provisório da co111pamção: n vantage111 rio rnarxisrno . . . 249
Capítulo VI ·A crítica da utop ia e a ética da responsab ilidade J . Outros conteúdos do lazer: as relações inter-/Huna1ws ........ .. .... . 329
l. Os condenados da Terra e a revolução mu ndial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 289
4· A natureza hu11ta1tizada . .. . .. .. .. .. .. .. .. . .. . .. .. . .. .. .. .. .. . .. . .. . . .. 333
1. Mudança da situação da "luta de classes" 5· Por que, runn l'ez refutada da concepção do f uturo,
por causa da 1101'(1 distribuição planetária do sofrimento . . . . . . . . . . . 289 ainda é necessária a crítica à concepção do passado . . . . . . . . . . . . . . . . . 336
a. A pacificação do "proletariado industrial" ociden tal . . ... . ... . .. 290 C. Terceiro passo: o contmste negativo do sonho,
b. A luta d e classes com o luta de n ações .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. . 292 ou a natureza provisória de toda a história precedente.... ... ... .. .. 337
2. Respostas políticas para a nova situação de luta de classes . ... .. ... . 294 1. A ontologia do "não ser ainda" de Emst Bloch . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 337
a. A poütica global no in teresse nacional . .. .. . .. .. . .. . . . .. .. . . . .. . .. 294 a. A d iferença entre esse "ainda não"
b. O apelo à violência em nome da utopia .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. . .. .. 295 e ou t ras doutrinas do Ser inacab ado .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. . 338
b. A "p refiguração do justo" e a "h ipocrisia" no passado . . . . . . . . . . 340
n. A crítica da utopia marxista ........ . ... .. .. ... ..... . .... .. . .. .. .. ... . .. . .. 299
2. O "já ali" do verdadeiro homem .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. . 343
A. Primeiro passo: as condições materiais, a. A ambivalência fa z p arte do homem .. .. .. .. .. . .. .. .. . .. .. .. . .. . . . 343
011 sobre a possibilidade da utopia ... ....... ... ... .... ... ... . .. ... . ... . 299
b. O erro a n trop oló gico da utopia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 344
1. '/\ recoiiStmção do planeta Terra" por meio
c. O passado co mo fonte do con hecimento sobre o homem . . . . . 345
da tecnologia liberada ... . .. ..... . ... .... .. .. .... ...... ... ... .. ... .. ... . . 299 d. A "n atureza" d o homem aber ta ao bem e ao mal . . . ... . ... .. .. .. 345
2 . Os limites de tolen1ncia da natureza: utopia e física .... .... . ... .... . 300
e. Melhora das condições sem o e ngodo da utopia. .. . ... .. .. .. . .. . 346
a. O problema d a a limentação .............. ... .... ......... ......... . 302 f. O fim em si de todo presente histó rico .... ..... ... . . .. ....... .. .. . 347
b. O problema das matérias- primas ....... ......... .. . ..... .. ... .... . 302
c. O problema en ergé tico ... . .. .. . . .. . . ... . .... .. .. . . .... . .. .... . . .. .. . 303 III. Da crítica da u topia à é tica da respo nsabilidad e . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 349
d. O problema térmico último . .. .. .... .... .... .. .. .. .. .. .. .. .. . .. .. .. 305 1. A crítica da utopia foi a crítica da técnica levada no extremo . . . . . . 349

J. A oferta permanente de uma economia de energia 2. O sentido prá tico da ref utação do sonho..... .. .. .. .. ... .. .. ... .... .. . 350

e seu veto à utopia ............. ...... ............. ........... .... . .. ... .. 306 J. A ética não-utópica da responsabilidade..... ... ... ..... .... ... ... .... 351
a. Progresso com precaução . . .. .. . .. . . . .. . .. ... .. .. . . .... ... . .' ... . . .. . 306 a. Medo , esp erança e responsabilidade .. . ......... .. ... .. .. .. . ..... .. 351
b. A modéstia dos fins versus o-excesso da utopia ... .. .. ... .. ... .. . 307 b. Preserva r a " imagem e se mell1an ça" . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 353
c. Por que é ainda necessária uma c rítica interna do ideal,
uma ve z d emonstrada a sua impossibilidade externa .. . . .. ... . . 308
B. Segundo passo: o sonho traduzido em realidade,
sobre o caráter desejável da utopia ... ... .... .... . ... .. .... .. .. . ... . 310
0 11

1. A determinação material do estado utópico ..... . .. ... .... . ... .... ... . 310
a. O reino da lib erdade de Karl Marx . . ... . . .... . ..... ... .. .. . .. . ... . 311
b. Ernst Bloch e o paraíso terrestre do lazer ativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 315
(i) "A feliz un ião com o espíri to" ...... .. .. ....... ....... ......... . . 316
(ii) O hobby e a dignidade huma na .. . .. ... .... . .. .. .... .. ... . .. . ..
2. Análise crítica do " hobby co1no vocaçcio" . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . .. . . . . . . . 322
a. Perda de espo nta neidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 322
b. Pe rda da liberdade .. .. .. . ...... .... .. ..... ...... .. .. .. . .. ....... ... .. . 324
c. Pe rda da realidad e e da dignidade hu ma na. .. . .. .... .. ... . ... .. .. 327
d. Sem n ecessidade não há libe rdade: a dignidad e do real.. .. .... . 328
APRESENTAÇÃO

Hans Jonas nasceu em 1903, em Mõnchengladback, na Alema nha. De ori-


gem judaica, deve boa parte de sua excelente e profu nda formação hu-
maníst ica à leitura atenta dos p rofetas da Bíblia hebraica. Sua intensa vida
intelectual apresenta três momentos ma rcantes de sua formação filosófica.
O primeiro tem início em 1921, quando, ai nd a recém -formado, frequenta
na Universid ade d e Freiburg as au las de um mestre então pouco conheci-
do, de nome Mar tin Heidegg<:_!·. Segundo Jonas, este foi, por muito tempo,
seu mentor intelectual. Em 1924, Heidegger transfere-se para a Universi-
d ade de Marburg, e Jonas o acompanh a. Lá conhece Rudolf Bultmann, e
sob sua o rientação elabora um a tese sobre a gnose no cr istianismo pri-
mitivo, que é apresentada em 1931 e publicada posteriormente. Em 1934,
Jonas se vê obrigado a abandonar a Alemanha por causa da ascensão do
nazism o ao poder.
O segu ndo grande momento na vida intelectual de Jonas ocorre em
1966, com a publicação de The Phcnomenon ofLife, T01vard a Pllilosophical
Biology. Nessa obra, estabelece os parâmetros de uma filosofia da biolo-
gia. Ab :·e um nov0 c<>.m inho de •·'!flexão sob re a precariedade da vida e
iüüstra o grande alcance filosófico dessa abordagem da biologia, pois re-
cond uz a vida a uma posição privilegiada e dista nte dos extremos do idea-
lismo irreal e do limitado material ismo. Apresenta o equívoco de isolar o
_!1om em do resto da natureza, imaginando-o desvinculado das outras for-
m as de vida. No epílogo dessa obra, estabelece uma ideia geral de seu pro-
jeto quando escreve que, com "a continuidade da mente com o organis-
mo, do organismo com a natureza, a ética torna-se pa r te da filosofia da
natureza [ ... ] Somente uma ética fundada na ampli tude do Ser pode ter
V ~gnificado."
O terceiro g rande momento intelectual d_<l tt~tória de Hans Jonas é
decor rência imediata do segundo. Ã l )usca das bases de ~n;-;-~0,;- étlCY
u~n~_~t ic:_a_ ~a ~esponsabilidade, torna-se sua principal meta. Em 1979, pu-
blica Das Prinzip \lerantwortung- \lersuch einer Ethic fiir die Technolo-
gische Zivilisation, traduzido para o inglês somente em 1984. Trata-se da
m o numen tal obra que o leitor tem agora entre as m ãos: O princípio res-
ponsabilidade. Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica.

I7
HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE APRESENTAÇÃO

Neste livro, Hans Jo nas propõe ao pensamento e ao com portam ento \>' \·'-,\F ·· Oppenheimcr que, após anos traba lhando em um laboratório na busca da
humano uma nova ética. A ética tradicio nal, segundo ele, fun dava-se e .... ' , .. fissão nuclear e observando sua apl icação em H irosh ima, teria assinalado
(.. '
acon tecia apenas den tro dos limites do ser huma no, não afetando a natu- que, naquele m omento, o cientista puro tomo u conhecimento do p ecado.
reza das coisas extra-humanas. A natureza não era objeto da resj)onsabiJi- \ · Desde então, a paz de consciência dos cientistas foi abalada em todos os
dad e humana,_pois cujda~a de:_ ~i-n~~~_1]~~ iti~a tit-;Jla-;-,~.~ penas ~o
A campos da investigação.
aqu i e o agora. Em substituição aos antigos imperativos éticos, entre os Por isso, Hans Jonas, no livro que ora apresentamos, defende a criação
q~g ~o kantian<i)_gue_s_~COJ1~i1J,Jj_tlO par~metro exen~pl~r- de uma teoria da responsabilidade. Esta estaria construída em torno das
'"( ''Age de tal m aneira que o princípio de tua ação se transfurme numa lei categorias de bem, de dever e de ser, e encontraria na relação pais-fllh os
1 .!lniv~r~~ Jonas propõe um novo imperativo: "Age de ta~·;q:; seu arquétipo prim ordial. A adequação entre o Ser e o "dever ser" tem sido
os efeitos de ~a ação sejam compatíveis com <!_permanência de um a vida tarefa primordial na história da humanidade desde seus primó rdios. Hans
~l!_111_ailã ~utênÚ.ça': o-u, fo rmu-l; do negaÚvam ente7'@1> P.onhas en1p~rl ­ Jonas apresenta então no seu livro o entrelaça mento dessas três categorias
go a continu idade indefinida da humanidade na Terra': com o base de configu ração da ética nova que propõe aos hom ens e mu-
Ao formular, então, o seu imper ativo de respo nsabilidade tornado lheres de seu tempo.
princípio, Jonas está p ensando m enos no perigo da pura e simples des- Ao aterrissar sua refl exão no m om ento em que vivia, o u seja, a segun-
truição física da humanidade, m as sim na sua morte essencial, aquela que da metade do século XX, o grande pensador procurará elabo rar, n o capí-
advém da des-construção e a aleatória reconstrução tecnológica do ho- tulo, 5~ o que seria uma teoria da responsabilidade hoje. Criticando luci-
mem e do ambiente. da mente o ideal tecnocrata e a uto pia m arxista, tom-;ndo distância de
Como pensador e pesquisador que é, aponta para a existência de uma paradigmas e m odelos que vigora ram até en tão p ara orientar o ser hu-
- - -- - - - '
- -----
- ~1teraçã~~1t1·<:. ~-r~quis~ ~ _QQ~r. Essa nova configuração da ciência ma no em sua aventura ética; estética e teórica, Hans Jo nas prepara o capí-
leva a um conhecimento anônim o que não é mais prod uzido para· o bede- tulo .§~ no q ual profeti zará o fim da utopia como p asso necessário à ética
cer à verdadeira função do saber durante toda a história da hu ma nidade: da responsabilidade.
a de ser incorporada nas consciências, na busca m editada c ponderada da A ética da resp onsabilidade de Jo nas terá como característica com ba-
q ual idade da vida hum ana. ter o defeito m ais for te e favo recer o lado menos beneficiado pelas cir-
Esse n ovo saber é depositado nos bancos de dados e usado de acordo cunstâncias. Nesse sentido, tal ética estará sem pre ao lado dos fracos con-
com os meios e as decisões dos que detêm o poder. Há um verdadeiro "sa- tra os fo rtes e dos q ue aspiram contra os que já possuem.
q ue" e expropriação cognitivos, não só entre os cidadãos, mas também Em tempos com o nos q ue vivem os, q uando vem os o ser hu mano e o
entre os cientistas, eles pró prios hiperespecializados e incapazes de do mi- planeta perigosamente ameaçados, a re flexão de Ha ns Jonas é extrem a-
nar o saber produzido. r ara que haja responsabilidade é preciso existir um m ente pertinente e iluminadora. Só uma ética q ue nos responsabilize a
sujeito consciente. Contudo, o i!11perat ivo tecno-lógico elimina a cons- todos pode cump rir o papel de apon ta r os valores e os fi ns a serem perse-
ciência, ~!i_mina Q_Ju~ito, elimina _a liberdade em proveito de um deter- guidos e utilizar os meios como aqui.lo q ue realmente são, sem transfor-
.<J..J minism o. A hiperespecialização das ciências mutila e desloca a--;1oção mes- m á-los em fins em si mesm os.
,.r;;:-..<IS'' '-' m a de ser hu ma no. Esse divórcio entre os avanços científicos e a reflexão A responsabilidade é princípio primo rdial e norteador deste mom en to
tly<} ética fez com qu e Jonas propusesse novas dimensões para a responsabili- da históri a de uto pias caídas e novos parad igm as levantados, no q ual o
y dade, pois ·~ técni <:::a mode!n~ intro.Q_u_ziu _2çõ~s de magnitudes tão dife- ser humano busca desesperadamente categorias que o ajudem a continuar
J·e~tes, CO!}J _~etiv~~ co nseq~tências tão imp_revisíveis, q ue os marcos da vivendo uma vida digna e q ue contuiue m erecendo o nom e de hum ana.
ética ~nter0rji~Jão m ais po d~.!_n ~<2!.1 ~- los".
A pergunta que Jonas fo rmula em seu livro é, pois: 'Q_que poderia sa- Maria Clara Lucchetti Bingemer
tisfazer m ais a uma busca consciente da verdade?': Recorda as palavr as de Decana do Cen tro de Teologia e Ciências H umanas da PUC-Rio

18 19
PREFÁCIO

I L - - - - - - - - - -- - - - - - ---:
10 Prometeu definitivamente desacorrentado\ ao qua l a ciência confere
forças antes inimagináveis e a economia o impulso infatigável, clama por
uma éti ca que, 1_:rõ flneio_je freios v~IUI~tá§, impeça o poder dos ho-
mens de se transformar em uma desgraça para eles mesmos. A tese de
_partida deste livro é g~_~romessa da tecnologia moderna~ con~
em ameaça, ou esta se assoc iou àq uela de forma indissolúvel. Ela vai além
da constatação da ameaça física. Concebida para a felicidade humana, a
submissão da natureza, na sobremedida de seu sucesso, que agora se es-
tende à própria natureza do homem, cond uziu ao m aior desafio já posto
ao ser huma no pela sua própria ação. Tudo aí é novo, sem comparação
com o que o precedeu, tanto no aspecto da modalidade quanto no da
m agnit ude: nada se equivale no passado ao que o homem é capaz de fazer
no presente e se ve rá imp ulsio nado a seguir fazendo, no exercício irre-
sistível desse seu poder. Toda sabedoria acumulada até então sobre o justo
comportamento esteve talhada para aquela eÀ-periência. Nenh uma ética
tradicional nos instrui, portanto, sobre as normas do "bem" c do "mal"
às quais se deve m subm eter as m odalidades inteiramente novas do poder
e de suas cr iações possíveis. O novo continente da práxis coletiva que
adentramos com a al ta tecnolÔgi·a ainda constitu i, para a~~oj·ia: ética, uina
terra de ninguém.
É nesse v<kuo, que simultan eam ente também é o vácuo do relativismo
de valores atual ue a presente pesqu isa assume posição. O que pode
servir como bússola? A previsão d~ p~. Antes de tudo nos seus re-
lâmpagos surdos e distantes, vindos do fut uro, na ma ni festação de sua
abrangência planetária e na profundi9ade de seu comprometimento h u-
mano podem revelar-se os princípios éticos dos quais se permitem dedu-
zir as novas obrigações do novo poder. Eu denomino isso "heurística do
',. medo" : somente então, com a~ntevisão da desfiguração do homem, che-
gamos ao conceito de homem a ser preservado. Só sabemos o que está em
jogo quando sabemos que está em jogo. Com.o se trata não apenas do des-
tino do homem, mas também da imagem do homem, não apenas de so-
brevivência física, mas tam bém da integridade de sua essência, a ética que
deve p reservar ambas precisa ir além da sagacidade e tornar-se uma ética
do respeito.

21
HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE PREFÁCIO

A justificativa de uma tal ética, que não mais se restringe ao terreno gos da humanidade, e agora parece também possuir na técnica os m eios
imediatamente intersubjetivo da contemporaneidade, deve estender-se até para transformar o sonho em empreendimento, o utopismo, o utrora inó-
a metafísica, pois só ela permite que se pergunte por que, afinal, homens cuo, tornou-se a mais perigosa das tentações - precisamente porque
devem estar no mundo: portanto, por que o imperativo incondicional idealista - da humanidade em nossos dias. À imodéstia de seus objeti-
destina-se a assegurar-lhes a existência no futuro. A aventura da tecnolo- vos, equivocada tanto em termos ecológicos como antropológicos (o que
gia impõe, com seus riscos extremos, o risco da reflexão e>.1rema. Tenta-se se pode provar no primeiro caso e demonstrar ftlosoficamente no se-
aqui estabelecer os seus fundam entos, na contramão da renúncia positi- gu ndo), Q Princípi~ Responsa~g~d_ade_ contrapõe a _t~efa ma_i:; mo.des~
vista-analítica própria à filosofia contemporânea. Serão retomadas, do que obriga ao temor e ao respeito: conservar incólume para o homem, na
ponto de vista ~gico, as antigas questões sobre a relação en tre ser e -persistente dubiedade de sua liberd ade que nenhuma mudança das cir-
dever, causa e finalidade, natureza e valor, de modo a fundamentar no Ser, cunstân"êi'ã'S"j)o derá supriinir,:sellmundÜesuaessência ~entra o~~
para além do subjetivismo dos valores, esse novo dever do homem, que Ck Sett pOde r. '""'""""=- •
acaba de surgir. Um "tmctntus teclmologico-ethiws", tal como ensaiado aqui, estabelece
No entanto, o verdadeiro tema do livro é o desse dever recém-surgido, ao leitor exigências não m enos rigorosas do que ao autor. O que de algu-
expresso no conceito de responsabilidnde. Embora não represente um fe- ma forma faz justiça ao tema assemelh-i-semites ao_~Ç~ qu~~~lgoai!_~!
nômeno novo para a moralidade, a responsabilidade nunca tratou de tal O que não fa lta na reflexão ética de nossos dias é o algodão das boas in-
objeto, e a teoria ética lhe concedeu pouca atenção. Tanto o conhecimen - tenções e dos propósitos irrepreensíveis, o declarar-se do lado do bem e
to quanto o poder eram por demais limitados para incluir o futuro mais contra o pecado, pela prosperidade e contra a destruição. T~nta-se ag~i 6-
distante em suas previsões e o globo terrestre na consciência da própria de algo mais duro e indispensável. A intenção é sistemática no seu con-
causalidade. Em vez de ociosamente desvendar as consequências tardias j~nto, e ~n1parte ãlguma hÕm].0iqt; e nenhuma m otivação (atual ou ex-
no destino ignoto, a ética concentrou-se na qualidade moral do ato mo- temporânea), por lo uvável que seja, poderá servir de desculpa para as in-
suficiências filosó ficas da argumentação. O todo é um argumento que se
mentâneo em si, no qual o direito do contemporâneo mais próximo ti-
desenvolve passo a passo - e espero que não canse o leitor - ao longo
Jlha de ser observado. Sob o signo da tecnologia, no entanto, a ética tem a
dos seis capítulos. Reconheço, no en tanto, a existência de pelo m enos uma
ver com ações (não mais de sujeitos isolados) que têm uma projeção cau-
sal sem preceden tes na direção do futuro, acompanhadas por uma cons-
la~no curso do desenvolvimento teórico: entre o terceiro e o quartõ
capítulo foi suprimida a i11vestigação sobre a "potência ou ií11j)ÜtêJ1cíã da
ciência prévia que, m esmo incompleta, vai muito além daquela o utrora
subjetivid_ad<:': nó qua l se aborda novamente o ~l~ ma psicofísico e re-
existente. Ajunte-se a isso a m agnitude bruta dos impactos de longo pra-
futa-se o determinismo naturalista da vida espiritual. Apesar de n ecessá-
zo e também, com frequência, a sua irreversibilidade:~füd~desloca a
rio em termos sistemáticos (pois com determinismo não há ética, ou sem
resp_Q!lsabilidade para o centro da ética, considerando-se ai os hori zo ntes
liberdade não há dever), decidiu-se excluir daqui esse tratado, pelo seu ta-
espaço-temporais que correspondam àqueles atos. Consoante isso, a teo- m anho, e publicá-lo mais tarde separadam ente.
ria da responsabilidade, até hoje ausente, representa o núcleo da obra. Essa ponderação também me levo u a reservar uma "parte aplicada"
A dimensão ampliada do futuro, imposta pela responsabilidade atual, anexa à investigação sistem ática, prevista para ser publicada no prazo de
conduz ao tema final: n 11topin. A dinâm ica do progresso tecnológico em um ano. Ela deve ilustrar o novo tipo de ques tões e obrigações éticas,
escala mundial oculta um utopismo implícito, senão quanto ao programa, escolhidas entre temas específicos bastante concretos. No presente não
pelo menos quanto à inclinação. E uma ética já existente, que abriga uma se poderia tentar nada m ais al{ m ªe u_ma casuística r-rovisória co mo esta.
visão de futuro global, o marxismo, em aliança com a téCJ~ica, elevou a Ainda não é tempo para um~ c!oJ~trina sistem ática do deve1: (a qu e, afinal,
~1topia à~ondiçã~~e finalidade explícita. Isso obriga a uma crítica por- se deveria aspirar), dado· q ue sua "matéria" se encontrâ-em processo de
menorizada do ideal utópico. Como tem a seu favor os sonhos mais an ti- .:.:~~ ~= (\,
22 23
HANS JONAS · O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE PREFÁCIO

,-
0 decisão de escrever este livro em alemão após décadas de escrita qua- casas de amigos em Israel e na Suíça que favoreceram a obra, repetidas
se exclusiva em inglês não se deu por motivos sentimentais, mas pela só- vezes, ao longo dos anos, quando a distância geográfica do cargo oficial
bria constatação da minha idade avançada. 1endo em vista que a mesma ofereceu a melhor proteção contra ab usos do professorado em férias e
formulação na língua adquirida custa-me sempre duas ou três vezes mais de licença.
tempo que aq uela na língua materna, considerei que dever ia, tanto em Na ded icatória menciono aqueles a quem devo mais do que agrade-
função dos limites da vida como da urgência do seu objeto, e após os lon- cimentos no que se refere a este livro.
gos anos de trabalho intelectual prévio, escolher o caminho mais rápido
para a sua redaçã ~ já por si suficientemente longo. Evidentemente, não Hans Jonas
passará despercebido ao leitor que o autor não acompanhou o desenvol- New Rochelle, Nova York, EUA
vimento da língua alemã desde 1933. Nas palestras n a Alemanha surgem Julho de 1979
com en tários por parte de amigos sobre o meu alem ão "arcaico': Quanto
ao presente texto, um mui benevolente leitor do manuscrito (de compro-
vado conhecimento estilístico) denominou certas passagens "francônio
antigo", aconselhando-me a permitir que outra mão o modernizasse. Mas
para tanto eu próprio não poderia ter me deixado levar, em vista da au-
séncia do fator tempo e da presença do colaborador ideal. Pois, como te-
nho consciência, assim como enfrento um o bjeto extremamente atual
com uma fuosofia nada atual, quase arcaica, também não m e parece ina-
dequado que uma tal tensão se expresse no estilo.
Ao longo dos anos em que este livro foi send_o_escri to,_yári~P-artcs _de_
diferentes capítulos já foram publicadas nos Estados Unidos em forma de
monografias. Respectivamente{ (ât cap llii&j}j'Technolog}' and Respon - ~
sibi lit}': Retlections on the New Tas s of Ethics", Social Research, 40/1, 1973; _:,,
(dóCãpít1ilQ~)) "Responsibility Today: The Ethics of an Endangered"Fu-
t~;~~", ibirl., 43/1, ~976; (do cãi)íiuTo4l_)'The Concept of Responsibili ty: An
Inquir}' into the Foundations of an Ethics for our Ages", em KnoiVIerlge,
\!alue anrl Belief, H. T. Engelhardt e D. Callahan, orgs., Hastings-on-

--
Hudson, Nova York, 1977. Agradeço às referidas publicações a permissão
para o uso de agora, que estava previsto desde o princípio.
Por fim, também agradeço às pessoas e instituições qu e promoveram
o surgimento desta obra por meio da criação de condições favoráveis. The
National Endowment for the Humanities e The Rockfeller Foundation
financiaram gene rosamente um ano de licença académica, no qual a re-
dação foi iniciada.' No belo retiro do Casarão Feuerring em Beth Jizchak
(Israel), que já albergou tantos trabalh adores intelectuais, pude escrever
os primeiros capítulos. À senhora Feuerring, generosa hospedeira em Je-
rusalém, fique consig nado publicamente um agradecimento. Com a mes-
m a gratidão m enciono aqui outras protegidas clausuras de trabalho em

24 25
CAPITULO I

A NATUREZA MOD~FICADA
DO AGIR HUMANO
Toda ética até hoje - seja como inj unção direta para faze r ou não fazer
certas coisas ou como determinação dos princípios de ta is injunções, ou
ainda como demonstração de uma razão de se dever obedecer a tais prin-
cípios- comparti lhou tacitamente os seguintes pressupostos inter-rela-
cionados: (1) a condição humana, conferida pela natureza do homem e
pela natureza das coisas, encontra-se fixada de uma vez por todas em seus
traços fundame ntais; (2) com base nesses fundamentos, pode-se determi-
nar sem dificuldade e de forma clara aquilo que é bom para o homem;
(3) o alcance da ação humana e, portanto, da responsabil idade humana
é definida de forma rigorosa. A argumentação que se segue pretende de-
monstrar que esses pressupostos perderam a validade e refletir sobre o que
isso significa para a nossa situação moral. Mais especificamente, creio
que certas transform ações em no'ssas capacidades acarretaram uma mu-
dança na natureza do agi r humano. E, já que a ética tem a ver com o agir,
a consequência lógica disso é que a natureza modificada do agir humano
também impõe uma modificação na ética. E isso não somente no sentido
de que os novos objetos do agir ampliaram materia lmente o domí.nio dos
casos aos quais se devem aplicar as regras de conduta em vigor, mas em
um sentido muito mais rad ical, pois a natureza qualitativamente nova de
muitas das nossas ações descortinou uma dimensão inteiramente nova
ele significado ético, não prevista nas perspectivas e nos cânones ela ética
tradicional.
As novas facu ldades que tenho em mente são, evidentemente, as da téc-
nica moderna. Portanto, minha primeira questão é a respeito do modo
como essa técnica afeta a natureza do nosso agi r, até que ponto ela torna
o agir sob seu do mínio algo dife rente do que existiu ao longo dos tempos.
Durante esses períodos, é claro, o homem nunca esteve desprovido de téc-
nica. Minha questão visa à diferença humana entre a técnica moderna e a
dos tempos anteriores.

29
I. O E}(EMPLO DA ANTIGU IDADE

Comecemos com uma antiga voz d iscursando sobre o poder e o fazer


h umanos, uma voz que, em um sentido arquetípico, já faz soar, por assim
dizer, uma nota tecnológica - o fa m oso canto do coral da A11tígo11a, de
Sófocles.
Numerosas são as maravi lhas da natureza, mas de todas a maior é o ho-
mem! Singrando os mares espumosos, impelido pelos ventos do sul, ele
ava nça e arrosta as vagas imensas que rugem ao redor!
E Gea, a suprema divindade, que a todas mais supera, na sua eternidade,
ele a corta com suas charruas, que, de ano em ano, vão e vêm, fertilizando o
solo, graças à força das alimárias!
Os bandos de pássaros ligeiros; as hordas de animais selvagens e peixes
que habitam as águas do mar, a todos eles o homem engenhoso captura e
prende nas malhas de suas redes.
Com seu engenho ele amansa, igualmente, o animal agreste que corre li-
vre pelos montes, bem como o dóci l cavalo, em cuja nuca ele assentará o
jugo, e o infatigável touro das montanhas.
E a língua, e o pensamen to alado, e os sentimentos de onde emergem as
cidades, tudo isso ele ensinou a si mesmo! E também a abrigar-se das in-
tempéries e dos rigores da natureza! Fecundo em recursos, previne-se sem-
pre contra os imprevistos Só contra a morte ele é impotente, embora já te-
nha sido capaz de descobrir remédio para muitas doenças, contra as quais
nada se podia fazer outrora.
Dotado de intel igéncia e de talentos extraordinários, ora caminha em di-
reção ao bem, ora ao mal... Quando honra as leis da terra e a justiça divina
ao qual jurou respeitar, ele pode alçar-se bem alto em sua cidade, mas ex-
cluído de sua cidade será ele, caso se deixe desencam inhar pelo Mal.*

1. Homem e natureza

Essa angust iosa homenagem ao op ressivo poder humano narra a sua


irrupção violenta e violentadora na ordem cósmica, a invasão atrevida dos
diferentes domínios da natureza por meio de sua incansável esperteza; ao
mesmo tempo, narra o fato de que, com a facu ldade au to-adquirida do
discurso, da reflexão e da sensibilidade social, ele constrói uma casa para

~ Sófocles, Autígoua. Trad. }. B. Mello e Souza. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d. [N.T.]

31
HANS JONAS· O PRINCfP IO RESPONSABILIDADE CAPfTULO I· A NATUREZA t.\OD IF ICADA DO AGIR HUMANO

sua própria existência humana - ou seja, o artefato da cidade. A viola- ex torquir-lhe com sua astúcia para humaniza r sua vida; ao refl etir sobre
ção da natureza e a civilização do h om em caminham de m ãos dadas. Am - isso, assustava-se diante do p róprio atrevimento.
bas en frentam os elem entos. Uma, na medida em que ele se avent ura na
natureza e subjuga as suas criaturas; a o utra, na m edida em que erige no 2. A obra humana da "cidade"
refúgio d a cidade e de suas leis um enclave contra aquelas. O homem é o
criador de sua vida como vida humana. Am olda as circunstâncias co nfor-
m e sua vontade e necessidade, e nunca se encont ra desorientado, a não
ser diante d a morte.
I
I
I
I
O espaço q ue havia criado para si foi preenchido com a cidade d os ho -
mens - destinada a cerca r- se e não a expa ndir-se - , c por m eio disso
criou-se um novo equilíbrio dentro do equilíbrio m aior do todo. Q ual-
Pode-se ouvir, contudo, um tom reser vado e mesmo amedrontado nes- I quer q ue seja o bem ou o mal, ao qu al o homem se veja impelido em vi r-
se ca nto de louvor ao milagre do homem, e ninguém pode considerá-lo
um a fa n fa rronice im pe rtinente. O q ue ali não está d ito, mas que estava
II tude de sua arte engen hosa, eles ocorrem no interior do enclave humano,
sem tocar a natu reza das coisas.
implícito para aqu ela época, é a consciência de que, a d espeito de toda ~ A invulnerabil idade do to do, cuj as profundezas permanecem imper-
grandeza il imitada de sua engenhosidade, o homem, co nfrontado com os I t urbadas pela impertinência humana, o u seja, a imutabilidade essencial d a
elementos, continua peq ueno: é justam en te isso que torna as suas in cur- natureza como ordem cósmica foi de fa to o pano de fundo para todos os
sões naqueles elemen tos tão audaciosas e lhe permite tolerar a sua petu - .·' empreendi mentos do homem m ortal, inclu indo suas inge rências n aq uela
lância. Todas as liberdad es q ue ele se pen.11ite com os habitantes da terra, I própria ordem. Sua vida d esenvolveu-se en tre o qu e pe rmanecia e o q ue
do mar e do ar d eixam inalterada a n atureza abrangente d esses domínios mudava: o que permanecia era a na tu reza, o que mudava eram suas pró-
e não prejudicam suas forças gerado ras. Elas não sofre m dano real quan- prias obras. A maio r dessas obras era a cidade, à qu al ele podia emprestar
do, das suas gra ndes extensões, ele recorta o seu pequeno reino. Elas p er- um certo grau de permanência por m eios que inventava e aos qua is se d is-
duram , enquanto o s empreendimentos humanos perco rrem efêmeros tra- punha a obed ecer. Mas essa permanência, artificialmente prod uzida, não
jetos. Ainda que ele atormente ano após ano a ter ra com o arado, ela é oferecia nenhuma gara n tia d e lo ngo prazo. Na condição d e um artefato
perene e incansável; ele pode e deve fiar-se na paciência perseverante d a
terra e deve aj ustar-se ao seu ciclo. Igua lmente perene é o m ar. Nenh um
saque d as suas criaturas v i\'as pode esgotar-lhe a fertilidade, os navios q ue
l
f
vulnerável, a const rução cul tural pode esgotar-se o u d esencaminhar-se.
A desp eito de to da liberdade concedida à autodeter minação , nem mesmo
no interior do ambiente arti ficial o seu arbítrio poderá revogar algum dia
o cruza m não o dan ificam, e o lançam en to de rejeitas não é capaz d e con- as cond ições básicas da ex istência humana. Sim, a inconstância do fado
taminar suas profu ndezas. E, não impo rta para quantas doenças o homem t humano assegura a co nstância da condição h umana. O acaso, a so rte e a
ache cura, a mortalid ad e não se dobra à sua as túcia. ( estupidez, os grandes niveladores nos assuntos dos homens, atuam como
Tudo isso é válido, pois antes de n ossos tempos as interferências do um a espécie de entropia e permitem que todos os projetos desemb oq uem
ho mem na natureza, tal como ele próprio as via, eram essencialmente su- por fim na norma eterna . Estados erguem-se e caem, dominações vêm e
perficiais e impotentes para prejudicar um eq uilíbrio fir memen te assen- vão, fa mílias prosperam e degeneram - nenhum a mudança é para durar.
tado. (O retrospecto descobre que a verdade nem sempre foi tão ino- No final, na compensação recíproca d e todos os desv ios passageiros, a
fensiva.) Também não se pode enco ntrar no coral de Antígona nem em co ndição do ho mem permanece com o sempre foi. Assim, m esmo aqui, em
qu alquer outra parte uma alusão a q ue isso fosse então apenas um co me- seu próprio artefato, no mundo social, o controle do ho mem é pequeno,
ço, de q ue coisas ainda m aiores viessem a oco rrer em matéri a d e arte e 1. e sua natureza perma nente acaba po r se im por.
.I
poder - e que se co ncebesse o homem percorrendo uma trajetó ria de Ainda assi m, essa cidad ela de sua própria criação, claramente distinta
conquistas infinitas. Aq uele era o ponto máxim o que ele havia alcançado do resto das coisas e con fiada aos seus cuidados, forma o domíni o com -
na dom esti cação da necessidade, isso era tudo que ele havia aprendido a pleto e único da responsab ilidade huma na. A natureza não era objeto da

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HANS JONAS· O PRINcfPIO RE SPONSABILIDADE

responsabilidade humana - ela cuidava de si mesma e, com a persuasão 11. CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA
e a insistência necessárias, também tomava con ta do homem: diante dela ATÉ O MOM ENTO PRESENTE
eram úteis a inteligência e a inventividade, não a ética. Mas na "cidade':
ou seja, no artefato social onde homens lidam com homens, a inteligên-
cia deve casar-se com a moralidade, pois essa é a alma de sua existência. Tomemos do passado aq uelas características do agir hu mano sign ificativas
É nesse quadro intra-humano que habita toda ética tradicional, adap tada .para uma comparação com o estado atual de coisas.
às dimensões do agir humano assi m condicionado.
1.Todo o trato com o mundo e>-..i:ra-humano, isto é, todo o domin io da
techne (habilidade) era - à exceção da medicina - eticamen te neutro,
considerando-se tanto o objeto quanto o sujeito de tal agir: do ponto de
vista do objeto, porque a ar te só afetava superficialmente a natureza das
coisas, que se preservava como tal, de modo que não se colocava em ab-
soluto a questão de um dano duradouro à integridade do objeto e à or-
dem natural em seu conjunto; do ponto de vista do sujeito, porque a
tec/me, como atividade, compreendia-se a si mesma como um tribu to de-
terminado pela necessidade e não como um progresso que se au tojusti-
fica como fim precípuo da humanidade, em cuja perseguição engajam-se
o máximo esforço e a participação humanos. A verdadeira vocação do
homem en contrava-se alhures. Em suma, a atuação sobre objetos não hu -
manos não formava um domín io eticamente significativo.

2 . A significação ética dizia respeito ao relacionamento direto de homem


com homem, inclusive o de cada homem consigo m esmo; toda ética tra-
dicional é ant ropocêntrica.

3· Para efeito da ação nessa esfera, a entidade " homem" e sua condição
fundamental era considerada como constante quanto à sua essência, não
sendo ela própria objeto da teclllle (a rte) reconfiguradora.

4· O bem e o mal, com o qual o agir tinha de se preocupar, evidenciavam-


se na ação, seja na própria práxis ou em seu alca nce imed iato, e não re-
q ueriam um planejamento de longo prazo. Essa proximidade de objetivos
era válida tanto para o tempo quanto para o espaço. O alcance efetivo da
ação era pequeno, o intervalo de tempo para previsão, defin ição de ob-
jetivo e imputabilidade era curto, e lim itado o controle sobre as circuns-
tâncias. O comportamento correto possuía seus critérios imediatos c sua
consecução quase imediata. O longo trajeto das consequências ficava ao
critério do acaso, do destino ou da providência. Por conseguin te, a ética

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HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO I· A NATUREZI1 1.1001FICADA DO AGIR HUMANO

tin ha a ver com o aqui e agora, como as ocasiões se apresentavam aos ho- seja moral, para tanto não preciso de nenhuma perspicácia de longo al-
mens, com as situações recorrentes e típicas da vida privada e pública. O cance. Inexperiente na compreensão do percurso do mundo, incapaz de
homem bom era o que se defrontava virtuosa e sabiamente com essas oca- prep arar-me para os incidentes sucessivos do mesmo, ainda assim posso
siões, que cultivava em si a capacidade para tal, e que no m ais conforma- saber como devo agir em co nfo rmidade com a lei moral.'' 3
va-se com o desconhecido. Nenhum o utro teórico da ética foi tão longe na diminuição do lado
cognitivo do agir moral. Mas, mesmo qu ando este ganha um significado
s. Todos
os mandamentos e máximas da ética tradicional, fossem q ua is muito m aior, com o em Aristóteles, para quem o conhecimento da situa-
fossem suas diferenças de conteúdo, demonstram esse confinamento ao ção e daquilo que lhe convinha estabelece exigências consideráveis à ex-
círculo imediato da ação. "Ama o teu próximo como a ti m esmo"; "Faze periência e ao juízo, tal saber nada tem a \'er com a ciência teó rica. Ele
aos outros o que gostarias que eles fizessem a ti"; "Instrui teu fllho no ca- evidentemen te implicava um conceito universal do bem humano como
minho da verdade"; "Almeja a excelência por meio do desenvolvimento e tal, baseado em determinadas constantes da natureza e da situação hu-
da realização das melhores possibilidades da tua existência como homem"; mana, e esse conceito universal do bem poderia ou não ser desenvolvi-
"Submete o teu bem pessoal ao bem comum"; "Nunca trate os teus seme- do numa teoria própria. Mas a sua transposição para a prática exjgc um
lhantes como simples meios, mas sempre como fins em si m esmos"; e as- conhecimento do aqui e agora, e este é inteiramente não-teórico. Esse co-
sim por diante. Em todas essas mcl'l:imas, aquele que age e o "outro" de nhecimento próprio da virtude (o de saber onde, quando, a quem e como
seu agir são partícipes de um presente comum. Os que vivem agora e os se deve fazer o qué) prende-se às circunstâncias imediatas, em cujo con -
que de algum a forma têm trânsito com igo são os que têm algum a reivin - texto definido a ação segue o seu curso como ação do ator individual, nele
dicação sobre min ha conduta, na medida em que esta os afete pelo fazer encontra ndo igu«lmentc o ::;eu fim. St> uma ação é "boa" ou "m á", tal é
o u pelo om itir. O universo m oral consiste nos contemporâneos, e o seu inteiram ente decid ido no interior desse contexto de curto prazo. Sua au-
horizonte futu ro li m ita-se à e>.'tensão previsível do tempo de suas vidas. to ria nunca é posta em questão, e sua qualidade moral é imediatam en te
Com o ho rizo nte espacial do lugar ocorre algo semelhante, no qual o que inerente a ela. Ni nguém é julgad o responsável pelos efeitos involuntários
age e o outro se encontram como vizi nhos, amigos o u inimigos, como su- posteriores de um ato bem- intencionado, bem-refletido e bem -executad o.
perior hierárquico e su balterno, como o mais forte e o mais fraco, e em O braço curto do poder humano não exigiu qualquer braço comprido do
todos os outros papéis nos quais os homens tém a ver uns com os outros. saber, passível de predição; a pequenez de um foi tão pouco culpada quan-
Toda m oralidade situava-se dentro dessa esfera da ação. Segue-se daí qu e to a do o utro. Precisamente porque o bem humano, con cebido em sua ge-
o saber exigido ao lado da vontade moral, para afia nçar a moralidade da neralidade, é o m esm o para tod as as épocas, sua rea lização ou violação
ação, corresponde a esta del imitação: não é o conhecimento do cie ntista ocorre a qu alquer momen to, e seu luga r completo é sempre o presente.
ou do especialista, m as o saber de um tipo q ue se encontra ao alcance de
todos os homens de boa vontade. Kan t chegou a dizer que "em matéria
de moral a razão humana pode facilmente at ingir um alto grau de exati-
dã<? e perfeição mesmo entre as mentes mais simples': 1 Que "não é neces-
sária um a ciéncia ou fi losofia para se saber o que deve ser feito, para se
ser honesto e bom, e mesmo sábio e virtuoso.[ ... ] [A inteligência comum
pode J am bicionar alcança r o bem tão bem q uan to qualquer ftlósofo pre-
te nda para si." 2 "Para saber o que [ ... ] devo fazer para que m inha vo ntade

1 Frmdamwtaçiio da metafísica dos costumes, Prefácio.


1 Ibidem, Primeira parte. 3 Ibidem.

36 37
111. NOVAS DlfViENSÕES DA RESPOI\ISABILIDADE

Tudo isso se modificou decisivamente. A técnica moderna introduziu


ações de uma tal ordem inédita de grandeza, com tais novos objetos e con-
sequências que a moldura da ética antiga não consegue mais enquadrá-las.
O coro da A11tígona sobre o "Ungeheure", o fa ntástico poder do homem,
soaria bem diferente hoje, assumindo a palavra "fantástico" um outro sen-
tido; e não mais bastaria a advertência aos indivíduos para que respeitas-
sem as leis. Também já há mui to não estão mais aqui os deuses, cujos di-
reitos reconhecidos poderiam contrapor-se às fantásticas ações humanas.
Decerto que as antigas prescrições da ética "do próximo"- as prescrições
da justiça, da misericórdia, da honradez etc. - ainda são válidas, em sua
imediaticidade íntima, para a esfera mais próxima, quotidiana, da intera-
ção humana. Mas essa esfera torna-se ensombrecida pelo crescente domí-
nio do fazer coletivo, no qual ator, ação e efeito não são mais os mesmos
da esfera próx ima. Isso impõe à ética, pela enormidade de suas forças,
uma nova dimensão, nu nca antes sonhada, de responsabilidade.

1. A vuln erabilidade da natureza

Tome-se, por exemplo, como p rimeira grande alteração ao quadro her-


dado, a crítica vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção
técn ica do homem - uma vulnerabilidade que jamais fora pressentida
antes de que ela se desse a conhecer pelos danos já produzidos. Essa des-
coberta, cujo choque levou ao conceito e ao surgimento da ciência do
meio ambiente (ecologia), modifica inteiramente a representação que te-
mos de nós mes mos como fato r causal no complexo sistema das coisas.
Por meio de seus efeitos, ela nos revela que a natureza da ação humana
fo i modificada de facto, c que um objeto de ordem inteiramente nova,
nada menos do que a biosfera inteira do planeta, acresceu-se àquilo pelo
qual temos de ser responsáveis, pois sobre ela detemos poder. Um objeto
de uma magnitude tão impressionante, d ian te da qual todos os antigos
objetos da ação humana parecem minúsculos! A natureza como uma res-
ponsabilidade human a é seguramente um 1101'11111 sobre o qual uma nova
teo ria ética deve ser pensada. Que tipo de deveres ela exigirá? Haverá algo
ma is do que o interesse uti litário? É simplesmente a prudência que rcco-

39
HANS JONAS · O PRINC[PIO RESPOI'ISABILIDADE CAP[T ULO I ·A 1'/IITUREZA MODIFICADA DO AGIR HUMANO

menda q ue não se m ate a galin ha dos ovos de o uro, o u que não se serre o 2. O novo papel do saber na mora l
galho sobre o qua l se está se n tado? lvlas "este" que aqu i se sen ta e q ue tal-
vez caia no precipício - quem é? E qua l é o meu interesse no seu sentar Sob tais circunstâncias, o saber torna-se um dever p rioritár io, mais além
ou cair? de tudo o que anteriormen te lhe era exigido, c o saber deve ter a mesma
Enquan to for o destino do homem, d ependente da situação da ;lat ure- magnitude da dimensão causal do nosso ag ir. Mas o fato d e que ele real-
za, a principal ra zão que torna o interesse na manutenção da natureza um mente não possa ter a mesma magnitude, isto é, de que o saber previden-
interesse moral, ai nda se m an tém a o rientação antropocêntrica de toda te permaneça atrás do saber técnico que co nfere poder ao nosso agir, ga-
ética clássica. Mesmo assim, a diferença é grande. Desaparecem as delimi- nha, ele próp rio, significado ético. O hiato entre a força da previsão c o
tações de proximidade e simul ta neidade, ro mpidas pelo crescimento es- poder do agir prod uz um novo p roblema ét ico. Reconhecer a ignorância
pacial e o prolongamento temporal das seq uências d e causa e efeito, pos- torna-se, então, o outro lado da obrigação do saber, e com isso torna-se
tas em m ovimento pela práxis técnica mesmo quando empreendidas para uma parte da ética que deve instru ir o au tocont role, cad a vez mais neces-
fins próximos. Sua irreversibilidade, em conj unção com sua magnitude sá ri o, sobre o nosso excessivo poder. Nenhuma ética an ter ior vira-se obri-
co ndensada, introduz ou tro fator, d e novo tipo, na equação mora l. Acres- gada a considerar a cond ição global da vida h u mana e o futuro distante,
ça-se a isso o seu ca ráter cumulat ivo: seus efeitos vão se somando, d e inclusive a existência da espécie. O fato de que hoje eles estejam em jogo
modo que a situação para um agir e um existir posteriores não será mais exige, num a palavra, um a nova con cepção de direitos e deveres, para a
a mesma d a situação vivida pelo primeiro ator, mas sim crescentem ente qual nenh uma ética e metafísica antiga pode sequer oferecer os pri ncípios,
distin ta e cada vez mais um r esultado daqui lo que já foi fei to. Toda ética quanto mais uma doutrina acabada.
tradicional contava somen te com um comportam en to não cumulativo.4
A situação bás ica entre pessoas, na q ua l a virtud e tem de ser com pro- 3. Um direito mora l próprio da natureza?
vada e o vício desmascarado, pe rm anece sempre a m esm a. Com ela, todo
ato recomeça do ze ro. As ocasiões reco rre ntes, que, conforme a sua classe, E se o novo modo do agir humano significasse que devêssemos levar em
dispõem as suas alternativas d e <lÇão - coragem o u covardia, ponderação consideração mais do que somente o interesse "do ho m em", pois nossa
ou excesso, verdade ou mentira etc. - , restabelecem a cada vez as con- obrigação se estenderia para mais além, e que a limitação antropocêntrica
dições originárias. Estas são insu peráveis. Mas a autopropagação cumula- de toda ética antiga não se ria mais válida? Ao menos deixou de ser absur-
tiva da mudança tecno lógica do mundo ultrapass<l incessantem ente as do indaga r se a con dição da natureza extra- hum ana, a b iosfera no todo e
co ndições de cada um de seus atos contribuintes e transcorre em meio a em suas partes, hoje su bjugadas ao nosso poder, exatamente por isso não
situações sem preced entes, diante das quais os ensinamentos da experiên- se tornaram u m bem a nós confiados, capaz de nos impo r algo como uma
cia são impotentes. E a acumulação como tal, não contente em modifica r exigência mora l - n ão somente por nossa própria ca usa, mas também
o seu início até a desfiguração, pode até mes mo destruir a condição fu n - em causa própria e por seu próprio direito. Se assim for, isso requereria
dam ental de toda a sequência, o press upos to d e si m es ma. Tudo isso d e- alterações substanciais nos fun damentos da ética. Isso significaria procu-
veria esta r compreendido na von tade do ato singular, caso este d eva ser rar não só o bem humano, mas também o bem das coisas extra-humanas,
moralmente responsável. isto é, ampliar o reconhecimen to d e "fins em si" para alé m da esfera do
humano e incluir o cuidado com estes no co ncei to de bem humano. Ne-
4
Excetuando·se a autofonnação c a educação. Praticar a virtude, por exemplo, é também n h u ma ética anter io r (além da religião) nos preparo u para um tal papel
um exercício na vir tude: fortalece as força> morais e transforma a sua prática em hábito; de de fiel depositário - e a visão científica de natureza, menos ainda. Esta
forma análoga o vício. Mas a essência fu ndamental, nua e crua, pode sempre irromper: o
última recusa- nos até m esmo, peremptor iamen te, qualquer direi to teórico
mais vir tuoso de todos pode ser arrastado na destrutiva tempestade dn paixão, e o mais de-
pral•ndo pode l' i1•enciar o inverso. Ainda é possível a lgo assim nas muda nças cumulativJs de pensar a natureza como algo que devamos res peitar - u ma vez q ue
nas condições de existé ncia sedimentadas pela tecnologia no longo de seu caminho? ela a reduziu à ind iferença da necessidade e do acaso, despindo -a de toda

40 41
HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIOADE

dignidade de fins. Entretanto, um ap elo mudo pela preservação de sua IV. TECNOLOGIA COMO "VOCP.ÇÃO" DA HUMANIDAD E
integridade parece escapar da plenitude ameaçada do mundo vital. Deve-
mos o uvi-lo, recon hecer sua exigência como obrigatória- porque san-
cionada p ela natureza das coisas - , ou então devemos ver nele, pura e
simplesmente, um sentimento nosso, com o qual devemos transigir quan- 1. Homo faber acima do homo sapiens
do quisermos ou na medida em que pudermos nos dar ao luxo de fazê-
lo? A primeira alternativa, se tomada a sério em suas implicações teóri- Se retorna rm os às ponderações estritamente inter-humanas, há ainda um
cas, nos impeliria a estender a reflexão sobre as alterações mencionadas e outro aspecto ético no fato de que a technc, como esforço humano, tenha
ava nçar além da doutrina do agir, ou seja, da ética, até a doutrina do exis- ultrapassado os objetivos pragmaticamente delimitados dos tempos anti-
tir, ou seja, da m etafísica, na qual afinal toda ética deve estar fundada. gos. Àquela época, como vimos, a técnica era um tributo cobrado pela
Mais n ão pretendo tratar aqui desse objeto especulativo, a não ser dizen- necessidade, e não o caminho para um fim escolhido pela human idade-
do que deveríamos nos man ter abertos para a ideia de que as ciências na- um meio com um grau finito de adequação a fins próximos, claramente
turais não pron unciam toda a verdade sobre a natureza . definidos. Hoje, na forma da moderna técnica, a tecl111e transformou-se
em um infinito· impulso da esp écie para adiante, seu empreendimento
mais significativo. Somos tentados a crer que a vocação dos homens se
en contra no contínuo progresso desse empreendimen to, superando-se
sempre a si m esmo, rumo a feitos cada vez m aiores. A conquista de um
domínio total sobre as coisas e sobre o próprio homem surgiria como a
realização do seu destino. Assim, o triunfo do homo fnber sobre o seu ob-
jeto externo significa, ao mesmo tempo, o seu triunfo na constitu ição in-
terna do homo snpiens, do qual ele outrora costumava ser uma parte ser-
vil. Em outras palavras, mesmo desconsiderando suas obras objetivas, a
tecnologia assume um significado ético por causa do lugar central que ela
agora ocupa subjetivamente nos fins da vida humana. Sua criação cumu-
lativa, isto é, o meio ambiente artificial em expansão, reforça, por um con-
tínuo efeito retroa tivo, os poderes especiais por ela produzidos: aquilo que
já fo i feito exige o emprego inventiva incessante daqueles mesmos pode-
res para man ter-se e desenvolver-se, recompensando-o com um sucesso
ainda maior - o que contribui para o aumento de suas am bições. Esse
feedbn ck positivo de necessidade funcional e recompensa - em cuja di -
nâmica o orgulho pelo desempenho não deve ser esquecido - alimenta a
superioridade crescente de um dos lados da natureza huma na sobre to-
dos os outros, e inevitavelmente às custas deles. Não há nada melhor que
o sucesso, e nada nos aprisiona mais que o sucesso. O que quer que per-
tença à plenitude do homem fica eclipsado em prestígio pela extensão de
seu poder, de modo que essa exp ansão, na medida em que vincula mais e
mais as forças humanas à sua empresa, é acompanhada de uma cont ração
do conceito do homem sobre si próprio e de seu Ser. Na imagem que ele

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43
HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO I · A NATU REZA I.IODIFI CADA DO AGIR HUI.IA NO

conser va de si m esmo - na rep resentação programática que determina o humanidade digna desse nome (idcia tão convincente e tão inco mprová-
seu Ser atual tão bem q uan to o reflete - o homem atual é cada vez m ais vel como a asser tiva de que a existência de um m undo é sempre melhor
o produtor daq uilo q ue ele produziu e o feitor daquilo q ue ele pode fazer; do que a existência de nenhum); mas, como proposição moral, isto é,
m ais ainda, é o preparador daquilo que ele, em seguida, estará em condi- como uma obrigação prática perante a posteridade de um futuro distan -
ção de faze r. Mas quem é "ele"? Nem vocês nem eu: importam aqui o ator te, e como princípio de decisão na ação presente, a asser tiva é muito dis-
coletivo e o ato coletivo, não o ato r individual e o ato individual; e o ho ri- tin ta dos imperativos da ant iga ética da simultaneidade; e ela somente in-
zo nte relevante da responsabilidade é fornecido mui to mais pelo fut uro gresso u na cena moral com os nossos novos poder~s e o novo alcance da
indeterminado do q ue pelo espaço con temporâneo da ação. Isso exige im- nossa capacidade de previsão.
perat ivos de outro tipo. Se a esfera do produzir invadiu o espaço do agir A presença do homem no mundo era um dado primário e indiscutível
essencial, então a moralidade deve invad ir a esfera do produzir, da qual de onde partia toda ideia de dever referente à conduta hum ana: agora, ela
ela se mantinha afastada anteriormente, e deve fazê-lo na forma de políti- própria torno u-se um objeto de dever - isto é, o dever de proteger a pre-
ca pública. Nunca antes a política pública teve de lidar com ques tões de missa básica de to do o dever, ou seja, precisamente a presença de meros
tal abrangência e que demandassem projeções temporais tão longas. De ca ndidatos a um universo mo ral no mundo fís ico do futuro; isso signifi-
fato, a natureza modificada do agir humano altera a natureza fundamen- ca, entre outras coisas, conservar este mundo físico de modo que as con-
tal da política. d ições para uma tal presença permaneçam intactas; e isso significa prote-
ger a sua vu lnerabilidade diante de uma ameaça dessas condições. Um
2. A cidad e universal como segunda natureza exemplo poderá ilustrar a diferença que isso traz para a ética.
e o ciever ser do homem no mundo

Pois a fronte ira entre "Estado" (pólis) e "natureza" fo i su primida: a "cida-


de dos homens", o utrora um enclave no mundo não-humano, espalha-se
sobre a totalidade da na tureza terrestre e usurpa o se u l ugar. A diferença
entre o artificial e o natural desapareceu, o natural fo i tragado pela esfera
do artificial; simultaneamente, o artefato total, as obras do homem que se
transform aram no mundo, agindo sobre ele c por m eio dele, cria ram um
novo tipo de "natureza': isto é, uma necessidade di nâmica própria com a
qual a liberdade humana defronta-se em um sentido inteiramente novo.
Outrora se podia dizer fint iustitin, perent 11111/Uius - "que se faça jus-
tiça, mesmo que o mundo pereça " -, onde "mundo" sig nificava eviden-
temente o enclave renovável na total idade imperecível; essa frase não pode
mais ser empregada sequer retoricamen te, quando o perecer da totalida-
de se tornou uma possibil idade real por causa dos fei tos humanos, justos
ou injustos. Questões que nunca foram antes objeto de legislação ingres-
sam no circuito das leis que a "cidade" global tem de formu lar, para q ue
possa existir um mundo para as próximas gerações de ho mens.
Aceita-se facil mente, com o axioma universa l ou como um convincen-
te desejo da fantasia especulativa, a ideia de qu e tal mundo adequado à
habitação humana deva continuar a existir n o fu turo, habi tado por uma

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V. VELHOS E NOVOS 11\~PERATIVOS

1. O imperativo categórico de Kant dizia: "Aja de modo que tu também


possas querer que tua máxima se torne lei geral." Aqui, o "que tu possas"
invocado é aquele da razão e de sua concordância consigo mesma: a par-
tir da suposição da existência de uma sociedade de atores humanos (seres
racionais em ação), a ação deve existir de m odo que possa ser concebida,
sem contradição, como exercício geral da comunidade. Chame-se atenção
aqu i para o fato de que a reflexão básica da moral não é propriamente
moral, mas lógica: o "poder" ou "não poder" q uerer e>.:pressa autocompa-
tibilidade ou incompatibilidade, e não aprovação moral ou desaprovação.
Mas não existe nenhuma contradição em si na ideia de que a humanida-
r. de cesse de existir, e dessa forma também nenhuma contradição em si na
ideia de q ue a felicidade das gerações presentes e seguintes possa ser paga
com a infelicidade ou mesmo com a não-existência de gerações pósteras
-tampouco, afinal, como a ideia contrária, de que a existência e a felici-
dade das gerações futuras seja paga com a infelicidade e mesmo com a eli-
m inação parcial da presente. O sacrifício do f-ttturo em prol do presente
não é logicamente mais refutável do que o sacrifício do prese nte a favor
do futuro. A diferença está apenas em que, em um caso, a série segue
adiante e, no outro, não. Mas que ela deva seguir adiante, independente-
m ente da distribuição de felicidade e infelicidade, e até com o predomínio
da infelicidade sobre a felicidade, e mesmo com o da imoralidade sobre
a moralidade, 5 tal não se pode deduzir da regra da coerência no interior
da série, por maior ou menor que seja a sua extensão. Tra ta-se de um
mandamento de um tipo in teiramente d iferente, externo e prévio àquela
série, e cujo fundamento último só pode ser metafísico.

2. Um imperativo adequado ao novo tipo de agir humano e vo ltado para


o novo tipo de sujeito atuante deveria ser mais ou menos assim: "Aja de
m odo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a perm anência
de uma autêntica vida h umana sobre a Terra"; ou, expresso negativamen-
te: "Aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a

s Nesse ponto, o Deus biblico mudou seu ponto de vista para um abrangente "sim" após o
dilúvio.

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HANS JONAS · O PRI NCIPIO RESPONSAB ILIDADE CAPITULO I· A NATUREZA MODIFICADA DO AGIR HUMANO

possibilidade futura d e uma tal vida"; o u, simplesmente: "Não po nha em va, e sim o da constituição su bjetiva de minha autodeterminação. O novo
perigo as co ndições necessárias pa ra a conservação indefinida da huma- imperativo clama por o utra coerência: não a do ato consigo m esmo, mas
nidade sobre a Terra"; ou, em um uso novamente positivo: "Inclua na tua a dos seus efeitos finais para a continuidade da atividade h u mana no fu-
escolha prese nte a futura integ ridad e do homem como um dos objetos do turo. E a "universali zação" q ue ele visualiza não é hipo tética, isto é, a trans-
teu q uerer." ferência meramente lógica d o "eu" individual para um " todos" imaginá-
rio, sem conexão causal com ele ("se cada um fizesse assim"): ao contrário,
3· É fácil perceber que a infração d esse tipo de im perativo não conduz a as ações subordin adas ao novo imperativo, o u seja, as ações do todo cole-
nenhuma co nt radição. Eu posso querer o bem presente ao preço do sacri- tivo, assu mem a característica de universalidade na m edida real de sua efi-
fício d o bem futuro. Eu posso querer, assim como o meu próprio fim , cácia. Elas "totalizam" a si próprias na prog ressão de seu impulso, desem -
também o fim da humanidade. Sem cair em co ntradição, posso preferir, boca ndo forçosam ente na configuração universal do estado das coisas.
no m eu caso pessoal, bem como no da humanidade, um a breve queima Isso acresce ao cálculo moral o ho ri zonte temporal que falta na operação
d e fogos de artifício que permita a m ais completa auto- realização, à mo- lógica e instantânea do imperativo kantia no: se este último se estende so-
noto nia de uma continuação interminável na mediocridade. bre uma ordem sempre atual de compatibilidade abstrata, nosso impera-
Mas o novo imperativo diz que podemos arriscai· a nossa própria vida, tivo se estend e em direção a um previsível futuro concreto, que constitui
m as não a da humanidade; que Aquiles tinha, sim, o direito d e escolher a dimensão inacabada de nossa responsabilidade.
para si uma vida breve, cheia de atos gloriosos, em vez de uma vida longa
em uma segurança sem glórias (sob o pressuposto táci to de que haveria
uma posteridade que saberia contar os seus feitos); mas que nós não te-
mos o di reito de escolher a não-existência de fu turas gerações em função
da existência d a atual, ou mesmo de as colocar em risco. Não é fácil justifi-
car teoricamente - e talvez, sem religião, seja mesmo impossível - por
que não temos esse direito; por que, ao contrá rio, temos um dever d iante
daq uele que ainda não é nada e que não precisa exis tir como tal e que, seja
co mo fo r, nn co ndição d e não-existente, não reivi ndica existência. D e iní-
cio, o nosso imperativo se apresenta sem justifi cativa, com o um axioma.

4· Além disso, é evidente que o nosso imperativo volta-se muito mais à


política pública do que à conduta privada, não sendo esta última a dimen-
são causal na qua l podemos aplicá-lo. O im perativo categó rico de Kant
era voltad o para o indivíduo, e seu critério era momentáneo. Ele exortava
cad a um d e nós a ponderar sobre o que aco nteceria se a máxima de· sua
ação atu al fosse transform ad a em um princípio da legislação geral: a coe-
rência ou incoerência de uma tal generalização hipo tética transforma-se
na prova da minha escolha privad a. Mas em nenhuma pa rte d essa refl e-
xão rac ional se adm itia qu alquer probabilidade de qu e minha escolha pri-
vada fosse de fa to lei geral, ou que pudesse de alguma ma neira cont ribuir
para tal generalização. De fato, não estamos considerando em absoluto
co nsequências reais. O princípio não é aquele da responsabilidade objeti-

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I
I
VI. ANTIGAS FORMAS DA "ÉTICA DO FUTURO"

A esta altura pode-se argumentar que, com Kant, escolhemos um exem-


plo extremo da ét ica da convicção e de que é possível refutar nossa afir-
mação de que toda a ética anterior se orientava pelo presente, como uma
ética do simultâneo, usando diferentes formas éticas no passado. Podemos
considerar os três exemplos seguintes: a condução da vida terrena, a pon-
to de sacrificar sua felicidade, em vista da sah·ação eterna da alma; a preo-
cupação previdente do legislado r e do estadista com o futuro bem co-
mum; e a política da utopia, com a disposição de utilizar os que agora
vivem como simples meio para um fm1 que se encontra além deles ou
eliminá-los como obstáculos a esse fim - da qual o marxismo revolucio-
n ário é o exemplo proeminen te.

1. Ética da consumação no mais-a lém

Nesses três casos, o p rimeiro e o terceiro têm em comum a postulação do


futu ro como o luga r do valor absoluto, acima do presente, reduzindo este
último a uma mera preparação para aquele. Uma importante diferença é
que, no caso religioso, não se poderia atribuir ao agir do presente a cria-
ção de um estado fut uro; aquele agir só seria capaz de qualificar o indiví-
duo aos olhos de Deus, a quem a fé deve confiar a consumação do futuro.
A qualificação consiste em uma vida que agrade a Deus. Pode-se supor
que ela seja, por si mesma, a mel hor vida, a mais digna de ser vivida; por-
tanto, não precisa ser escolhida tendo em vista uma eventual felicidade
eterna. Fosse essa a mo tivação principal da escolha, o estilo de vida per-
deria algo de seu valor e até mesmo de sua qualificação; ele é tanto me-
lhor quanto menos intencional for. Mas quando se pergunta em que con-
siste tal qualificação, nos deparamos com normas de conduta semelhantes
às prescrições de justiça, amor ao próximo, sinceridade etc., que seriam
ou poderiam ser prescritas por uma ética imanente em estilo clássico. Por-
tanto, na versão "moderada" da crença na salvação da alma - como, por
exemplo, a dos judeus-, estamos m ais uma vez às voltas com uma ética
da simultaneidade e da imediaticidade; e o que pode ser u ma ética em um
caso particular não depende de seu fim transcendente- cujo conteúdo,

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HANS JON AS · O PRINCIPIO RESPONSABI LI DADE CAPITULO I· A NATUREZA r.lODIFICADA DO AG IR HUMANO

além do mais, é impossível de se imaginar - , mas de como se determ ina se egoísta e individualista, na qual, em momentos de il um inação espiri-
o conteúdo da vida que agrade a Deus, considerada condição para tal fim. tua l resultan tes de seus esforços, é possível até mesmo gozar da recom-
Pode ocorrer, contudo, que o conteúdo daquela condição seja determi- pensa eterna na vivéncia mística do absoluto.
nado de tal modo - e isso acontece nas formas "extremas" da crença na In SIIIIIIIW, na medida em que esse conjun to de orientações p ara um
salvação da alma -que a sua realização não possa ser vista como um va- fim transcenden te pertence à ética - como é particularmente o caso da
lor em si mesmo, mas exclusivamente como um lance em uma aposta, forma "moderada" de uma vida voltada para o agrado divino como con-
cuja perda - ou seja, não alcançar o ganho eterno - poria tudo a per- dição para a recompensa eterna, mencionada em primeiro luga r - , po-
der. Pois nesse caso de uma sinistra aposta metafísica, tal como postulado demos dizer que ele também confm na a nossa tese de que todas as éticas
por Pascal, o lance é a vida terrena inteira, com todas as suas possibilida- precedentes se orientavam em função do presente.
des de fel icidade e realização, cuja rem'mcia se torna condição para a sal-
vação eterna. A esse caso pertence toda forma de ascetismo radical, que 2. A responsabilidade do estad ista com o futuro
mortifica os sentidos e rejeita a vida, cujos praticantes teriam perdido
tudo em caso de insucesso de suas expectativas. Esse cálculo di fe re do cál- Mas o que dizer dos casos de éticas que falam de um fut uro imanente,
culo habitual, mundano e hedonista, com seus riscos e suas renún cias bem as únicas que pertencem realmente a uma ética racional? Havíamos men-
ponderadas, suas procrastinações periódicas, somente em virtude da to- cionado, em segundo lugar, a preocupação previdente do legislador e do
talidade de seu quiproquó e da desproporção da probabilidade diante da estadista com o bem fut uro da comunidade. A teo r ia ant iga nada nos diz
aposta. Mas precisamente essa desproporção desloca todo o empreendi- sobre o aspecto temporal que aqui nos interessa, mas esse silêncio é reve-
m ento do domínio da ética. Entre o finito e o infinito, o temporal e o eter- lador. Além da filosofia, podemos aprender algo nos louvores aos grandes
no não há com ensurabilidade, e por isso também nenhuma correlação legisladores como Sólon e Licurgo, ou na censura a u m estadista co mo
significativa (ou seja, não há sentido qualitativo nem quantitativo que tor- Péricles. Sem dúvida, louva-se o legislador também pela dura bilidade de
ne um dos termos preferível ao outro); quanto ao valor da finalidade, cujo sua criação, m as não por planejar previamente algo que só deve tornar-se
julgamento consciente deveria constituir uma parte essencial da decisão realidade para os pósteros, sendo inalcançável para os con temporáneos.
ética, não existe mais do que a afirmação vazia de que ele é justamente o Seu esforço consiste em criar uma estrutura política viável, e a prova da
valor absoluto. Falta também o elo causal, necessário ao pensamento éti- viabilidade está na duração, a mais inalterada possível, do que foi criado.
co, entre a ação e o resultado (esperado), já que este não é entendido como O melhor Estado, assim se imaginava, é também o melhor para o futuro,
resultado da renúncia do mundo do aqui-e-agora, mas apenas prometido pois o seu equilíb ri o interno atual garante o futuro; evidentemente, ele
como compensação em outro lugar. será também o melhor Estado no futuro, pois os critérios de uma boa
Quando se pergunta, portanto, por que a renúncia radical deste mun- ordem (entre os quais o da durabilidade) não se modificam, já que a na-
do é tão meritória a ponto de poder pretender aquela compensação ou tureza humana não se modifica. As im perfeições dessa natureza d evem
recompensa, uma resposta seria a de que a carne é pecadora, o prazer é estar incluídas na concepção de uma ordem política viável, feita pelo le-
mau e o mundo, impuro. Neste caso, assim como no caso ligeiramente di- gislado r sábio. Por isso, o legislador não propõe o Estado perfei to em ter-
ferente, em que a individuação como tal seja considerada má, o ascetismo mos ideais, mas o melh or em termos reais, isto é, o melhor Estado possí-
apresenta um agir instrumental autêntico e um caminho para aquela rea- vel, tão possível e tão ameaçado hoje quanto o será no futuro. Tal perigo,
lização interior almejada pela ação pessoal. Ele é o caminho da impureza que ameaça toda ordem com a desordem das paixões humanas, torna ne-
para a pureza, do pecado para a salvação, da servidão para a liberdade, do cessário que o estadista, no exercício do governo, exercite um a sabedoria
egoísmo para a renúncia de si; sob tais condi ções metafísicas, o ascetismo estável, para além da sa bedoria única c fundadora do legislador. 1v!as a
é a melhor forma de se viver. Com isso, no entan to, retornaríamos à ética censura de Sócrates à política de Péricles não se dá porque seus empreen-
da imediaticidade e da simultaneidade, à ética da autoperfeição, mesmo dimentos grandiosos falhassem m ais tarde, após a sua morte, m as porque

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HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO I· A NATUREZA 1.\0DIFICADA DO AGIR HUI.\ANO

ele, por meio de projetos grandiosos (junto com seus sucessos iniciais), já va m qu e o tempo havia chegado - com um último golpe de ação terre-
em sua época havia seduzido os atenienses e arruinado as virtudes civis. n a. No início dos tempos modernos, vários movimentos milenaristas che-
A infelicidad e de Atenas não era atribuída a uma falha qualquer daquela gam perto da política utópica, especialmente quando não se contentam
política, mas ao caráter nefasto da sua origem. Ela não teria se torn ado em anu nciar e preparar o caminho, m as começam a dar positivamente os
melhor mesmo na hipótese retrospectiva de que tivesse "sucesso': O bem primeiros passos no estabelecim ento do reino de Deus, cujo conteúdo eles
de então ainda hoje seria o bem e, com toda probabilidade, teria durado já podem propor. Na medida em que nessa concepção sejam importantes
até hoje. as ideias de justiça e de igualdade social, aí já se encontra também presen-
A previsão do estadista consiste na sabedoria e na moderação que ele te a motivação característica da moderna ética utópica. Mas não ainda o
devota ao presente: esse presente não está aí com vista a um futuro de abismo escancarado entre o ago ra e o mais tarde, entre m eio e fim, ação e
outra espécie, mas, na hipótese mais favorável, a um futuro que se man- objetivo, estendendo-se sobre gerações, que é a característica distintiva da
tém ig ual a ele e precisa justificar-se a si mesmo hoje, tanto quanto na- escatologia secular, isto é, do moderno utopismo. Continua sendo uma
quele futuro. A duração é um efeito secundário do bem atua l, válido para ética do presente, não do futuro. O homem verdadeiro ali se encontra, e
sempre. A ação política possui um intervalo de tempo de ação e de res- na pequena "comunidade dos santos" já se encontra também o reino divi-
ponsabilidade maior do que aquele da ação privada, mas, na concepção no a partir do momento em que eles começam a reali zá-lo em se u seio,
pré-moderna, a sua ética não é nada mais do qu e uma ética do presente,
conforme creem qu e possa e deva ser feito. O enfrentamento das forças
embora aplicada a uma forma de vida de duração mais longa.
mundanas que se opõem à sua expansão ocorre na expectativa de um mi-
lagre de Jericó, e não como um processo realizado com a m ediação da
3. A utopia moderna causalidade histórica. Ainda estava por ser dado o último passo em dire-
ção a uma ética da história que fosse imanente ao mundo e utópica.
a. Essa situação som ente se modifica quando consideramos o terceiro
exemplo, aquele que chamei de política da utopia, um fenômeno inteira-
c. Somente com o progresso moderno, como fato e ideia, surge a possibi-
mente moderno e que pressupõe uma escatologia dinâmica da histó ria,
lidade de se considerar que todo o passado é uma etapa preparatória para
desconhecida no passado. As escatologias religiosas do período an tigo ain -
o presente e de que todo o presente é uma etapa preparatória para o futu -
da n ão representa m esse caso, embora o prepa rem. O messianismo, por
ro. Q uando essa representação (que, sendo ilimitada, não privilegia ne-
exemplo, não impõe uma política messiânica; deixa a vinda do Messias a
critéri o de Deus. Considera o comportamento humano somente na m e- nhum estado com o defmitivo, deixando a cada um a imediaticidade do
presente) liga-se a uma escatologia secularizada q ue atribui ao absoluto,
dida em que este possa se tornar digno desse acontecimento por m eio da
obediência às normas que lhe foram impostas, m esmo sem tal persp ecti- definido em termos seculares, um lugar demarcado no tempo - a isso se
va. Aqui é pertinente na escala coletiva o que foi d ito antes na escala indi- acrescentando a concepção de uma dinâmica teleológica q ue conduz ao
vidual sobre a expectat iva do além-mundo: o aqui-e-agora é de fato so- estado definitivo - , então estão dados os pressupostos teóricos p ara a po-
brepujado pela expectativa do fim, m as não é incumbido de sua realização lítica utópica. "Edificar já o reino dos céus sobre a Terra" (Heine) pressu-
ativa. Ele se põe tanto m elhor a serviço desta quanto mais fiel permane- põe uma representação do que consisti ria um tal reino dos céus terreno
cer à sua própria lei, ditada por Deus, cuja realização depende inteiramen- (ou é isso o que se poderia esperar, mas aqui a teoria se ap resenta nota-
te dela m esma. velmente lacu nar). Em todo caso, m esmo na ausência de tal representa-
ção, pressupõe uma concepção sobre o acontecimento hu m ano que faz a
b. Certamente, também houve aqui uma forma extrema, na qual aqueles radical m ediação com tudo o que precede aquele reino dos céus, ou seja,
que queri am "apressar o fim" tomaram sua realização nas próprias mãos, qu e condena todo o passado como prov isório, despido de va lor próprio
pretendendo inicia r o reino messiânico ou milenar - para o qual acha- ou, no melhor dos casos, tran sforma- o em veículo para alcança r o fim

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HIINS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSAB ILIDIIDE

prometido que se aproxima, em meio para atingir o único objetivo futuro VI l. O HOMEM CO fVIO OBJETO DA TÉCNICA
qu e realmente vale a pena perseguir.
Aqui, de fato, há uma ruptura com o passado. Aquilo que dissemos-
de que a ética passada se orientava para a situação presen te e pressupu-
nha uma estabilidade da natureza humana- não se aplica mais à doutri - Nossa comparação se d eu com as formas históricas da ética da simul ta-
na que apresenta da forma mais límpida essa ruptura, a filosofia da histó- neidade e da imediaticidade, pa ra as quais a ética kantiana serviu de exem-
ria m arxista e sua respectiva ética da ação. O agi r ocorre em função de plo. O q ue está em questão não é a va lidad e delas no próprio domínio,
um futuro que não será usufruído nem por seus atores, nem por suas ví- mas a suficiência delas para as n ovas dimensões do agir humano, que lhes
timas o u contemporâneos. A obrigação para com o presente provém d e transcendem. Nossa tese é de que os novos tipos e limites do agir exigem
lá, e não do bem-es tar ou do mal-estar de seu mundo contemporâneo; e uma ética d e previsão e responsabilidade com patível com esses limites,
as normas do agir são tão provisórias e m esmo tão "inautênticas" quanto q ue seja tão nova q uanto as situações com as quais ela tem de lidar. Vi-
a situação que ele pretende superar. A ética da escatologia revolucionária mos q ue estas são as situações que emergem das obras do lwmo faber na
vê a si mesma como uma ética de transição, enquanto a ética autêntica, era d a técnica. Mas ainda não m encionam os a classe potencialmente mais
ainda essencialmente d esconhecida, só poderá vigorar depois que aquela funesta dessas obras de nova espécie. Situamos a techne apenas em sua
tiver criado as condições para tanto e, com isso, abolido a si própria. aplicação no d omínio não-humano. Mas o próprio homem passou a fi-
Portanto, já existe o caso de uma ética do futuro, o marxismo, com - gurar ent re os objetos da técnica. O ho111o faber aplica sua arte sobre si
portando u ma distância da previsão, uma extensão temporal da respon- mesmo e se habilita a refabrica r inven tivamente o inven tor e confecciona-
sabilidade assumida, uma ampliação tio obj('tO (tocla ;~ futura humani - dor de todo u re:slo. f::!>sa c.u~m i n<ição de :;eus poderes, que pode muito
dade) e uma preoc upação p rofu ncla (toda a essência futura do homem). bem significa r a subjugação do ho mem, .:";se mais recente en1p:·eg0 (1;, ;1.-to;>
E, acrescentemos agora, que considera seriamente os poderes da técnica sobre a natureza desafia o último esforço do pensamemu ético, q·..?.e :>.•Jt:es
- nada ficando a dever à ética que queremos defencler aqu i. Po r isso, nunca precisou visualiz.ar alternativas de escolha para o que se considera-
é importan te determin ar a relação entre essas duas éticas, que têm tantas va serem as ca racterísticas definitjvas da constituição humana.
respostas comuns, quando comparadas à ética pré-moderna, e qu e, n o ·
en tanto, no que diz respeito à situação moderna sem prececlentes e espe- 1. Prolongamento da vi ela
cialmente n o que diz respeito à tecnolog ia, são tão distintas entre si. Mas
essa comparação deve esperar até que ten hamos refletido um pouco mais Tom e-se como exemplo o m ais fundamental desses fatos, a mortalidade
sobre os problemas e as tarefas com os quais tem a ver a ética que aqui do hom em. Q uem alguma vez p recisou se decidir sobre qual seria a sua
temos em vista e que lhe são impostos pelo colossal progresso da técnica. duração desejável e opcional? Com relação à sua fronteira m ais elevada,
Pois os poderes da técnica sobre o destin o humano ultrapassaram o poder dos "setenta anos, e, quando muito, oitenta", não havia escolha . Sua irre -
do próprio comunismo, que, com o todos, pensava apenas servir-se deles. versibilidade foi objeto de queixa, de resignação ou d e ilusões ociosas, para
Por o ra basta indicar que enquanto ambas as "éticas" têm a ver com as não dizer tolas, sobre exceções possíveis - estranhamente, quase nunca
p ossibilidades utópicas dessa tecnolog ia, a q ue aqui se busca não é escato - de anuência. A fa ntasia in telectual d e u m G. B. Shaw e de u m Jonathan
lógica e é antiutópica, em um sentido que ainda precisa ser determinado. Swift especulou sobre o privilégio de não ter de morrer ou sob re a mal-
dição do não-poder- morrer (neste último tema, Swift foi o m ais pers-
picaz dos dois) . Mito e lenda brincaram com tais temas sob o inconteste
pano de fundo do imutável, fazendo com que o m a is sério dos h omens
rep etisse o salmo "ensina-nos a contar os nossos d ias para que ganhe-
mos um coração sábio". Nada disso estava no dom ínio do fazer e da deci-

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HANS JONAS · O PRINCIPIO HESPONSABILIDAOE CAPITULO I· A NATUREZA 1.\00IFICADA DO AGIR HUI!iANO

são efetiva. A questão era apenas a de como se comportar diante do que olhos novos, nem re\·iver o espanto (para Platão, o princípio da ftlosofia)
era dado. ou a curiosidade da criança, que raramen te se transmuda em ánsia de sa-
Hoje, porém, certos progressos na biologia celular nos acena m com a ber no adulto, até que ela ali se paralise. Esse eterno recomeçar, que só se
perspectiva de atuar sobre os p rocessos bioquímicas de envelhecimento, pode obter ao preço do eterno termina r, pode m ui to bem ser a esperança
ampliando a duração da vida humana, talvez indefin ida mente. A morte da humanidade, que a protege de mergul har no tédio e na rotina, sendo a
não parece mais ser uma n ecessidade pertinente à natureza do viven te, sua chance de preservar a espontaneidade da vida.
mas uma falha orgânica evitável; suscetível, pelo menos, de ser em prin- Também se deveria considerar o papel do memento m ori na vida de
cípio tratável e adiável p or longo tempo. Um desejo eterno da human i- cada indivíduo. Como ele seria afetado pelo fato de que o momento dessa
dade parece aproxjmar-se de sua realização. Pela pr imeira vez temos de mo rte possa se prolonga r indefinidamen te? Talvez todos nós necessitemos
nos pôr seriamente a ques tão: "Quão desejável é isto? Quão desejável para de um limite inelutável de nossa expectativa de vida para nos incitar a
o indivíduo e para a espécie?" Tais questões ta ngenciam nada menos do contar os nossos dias e fazer com q ue eles contem para nós.
que todo o sentido de nossa fi nitude, a postura diante da morte e o sig- Desse modo, seria possível que aqu ilo que pretendia ser um presente
nificado biológico geral do equilíbrio entre morte e procriação. Antes de ftlantrópico da ciência ao homem, a realização de um sonho acalentado
tais questões últi mas colocam-se as questões mais práticas de saber quem desde tempos imemoriais - escapar à maldição da mortalidade-, trans-
deve se beneficiar com a hipotética bênção: p essoas de valor e mérito es- forme-se em um malefício para ele. Aqui não pretendo especular sobre o
pecial? De em inência e importância social? Aqueles que podem paga r por fu turo ou emitir juízos de valor, embora a minha opinião a respeito seja
isso? Todos? A última opinião pareceria a única justa. Mas a conta ser ia eviden te. Minha tese é, simplesmente, de que a mera p erspectiva desse
paga na extremidade oposta, na fonte. Pois está claro que, na escala de- presen te já levanta questões que nu nca fo ram postas antes no âm bito da
mográfi ca, o preço por uma idade dilatada é um reta rda mento propor- escolha prática, e de que nenhum princípio ético passado, que tomava as
cional da reposição, isto é, um ingresso menor de vida nova. O resulta- constantes humanas como dadas, está à altu ra de respondê-las. Contudo,
do seria uma proporção decrescente de juventude em uma população essas questões devem ser encaradas, eticamente e conforme princípios, e
crescentemente idosa. Isso será bom ou ruim para a condição geral do ho- não sob a pressão de interesses.
mem? Com isso gan haria ou perderia a espécie? Em que medida seria jus-
to barrar o lugar da juventude, ocupando-o? Ter de morrer liga-se ao ter 2. Cont ro le de comportamento
nascido: mortalidade é apenas o outro lado da fonte du radoura da natali-
dade ( Gebiirtlichkeit, para utili zar uma expressão cunhada por Hannah O mesmo ocorre com todas as outras possibilidades quase utópicas que o
Arend t). As coisas sempre fo ram assim; mas agora o seu sentido deve ser progresso das ciências biomédicas em parte já disponibiliza - traduzido
repensado no domín io da decisão. em poderio técnico - e em parte acena como possibilidade. Entre elas,
Para se tomar o extremo: se aboli rmos a mor te, temos de aboli r tam- o controle de comportamento encontra-se consideravelmente mais pró-
bém a procriação, pois a últi ma é a resposta da vida à primeira. Então ximo do estágio de aplicação prática do que o caso, por enquanto ainda
teríamos um mundo de velhice sem juventude e de indivíduos já conheci- hipotético, que acabei de discutir; e as questões éticas que ele levanta são
dos, sem a surpresa daqueles que n unca eristiram. Mas talvez seja exata- m enos profundas, mas têm uma relação direta com a concepção moral do
men te esta a sabedor ia na severa disposição de nossa mortalidade: a de homem . Também aqui a nova espécie de intervenção ult rapassa as antigas
que ela nos oferece a promessa, con tin uamente re novada, da novidade, da categorias éticas. Estas, por exemplo, não nos prepararam para julgarmos
imediaticidade e do a rdor da juventude, e ao mesmo tempo uma penna- o controle psíquico por meio de agentes químicos ou pela intervenção di-
nen te oferta de alteridade como tal. Não há substituto para tanto numa reta no cérebro por meio da implantação de eletrodos - intervenções
acumulação maior de experiência prolongada: ela nunca poderá recon- que, suponhamos, sejam em preendidas com fi ns defensáveis e até mesmo
quistar a prerrogativa ún ica de se ver o mu ndo pela primeira vez e com louváveis. A mistura de possibilidades benfazejas e perigosas é cla ra, mas

58 59
HANS JONAS · O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO I · A NATUREZA t.IODIFI CADA DO AGIR HUI!.AN O

não é fácil traça r os lim ites. Liberta r doentes m en tais de si ntomas doloro- 3. Manipulação genética
sos e perturbadores p arece ser algo cla ram ente be n fazejo. tvfas uma dis-
creta transição leva d o alívio do paciente- um objetivo em total conso- A mesma exigência se impõe em gra u ainda mais alto com respeito ao úl-
timo objeto de uma tecn ologia aplicada ao homem - o controle gené-
nân cia com a tra di ção médica - a aliv ia r a sociedade da inco nveniência
tico d os homens futuros. Esse é u m assu nto gra nde demais para ser trata-
d e compo rta m entos individuais difíceis en t re seus membros. Isso signifi-
do superficialmente n estas considerações iniciais e merecerá um capítulo
ca a tra nsição d a aplicação m édica para a social e a bre um campo indefi-
pr óprio em um tra balho sob re "aplicações", q ue virá mais tarde. Aqui nos
n ível, que contém p o ten cialidades in quieta ntes. Os re niten tes p roble mas
con ten ta remos sim plesmen te e m indicar esse son ho am bicioso do Homo
da o rdem e da a n o mia na moderna sociedade d e massas tornam extrema -
faber, condensado n a frase de q ue o ho m em quer tom a r em suas mãos a
me nte sedutor a, p a ra os fins de manipulação social, a ap licação desses
sua pró pria evolução, a fim n ão m e ra me n te de conser var a espécie em sua
m étodos de cont role de forma não -m edicinal. Aq ui se leva nta m inúmeras
integridad e, mas de m elh o rá-la e m odificá-la segundo seu próprio proje-
q uestões de direitos do homem e dign id ade hum a na; o difícil problem a
to. Sabe r se tem os o direito d e fazê-lo, se som os q u alificado s para esse pa-
d a o posição entre assistê ncia com interdição tutelar o u com liberdade de
pel cr iador, tal é a pergun ta mais séria qu e se pode fazer ao homem que
movimen to urge po r respostas con cretas. Devemos induzir d isposições de
se encon tra subita men te de posse de u m poder tão gra nde d iante do des-
apre ndizagem e m cria n ças n a escola po r m eio da prescrição m aciça de tino. Q uem serão os criadores de " image ns': con forme q u ais modelos,
drogas, c assim contornar o apelo à motivação a utô n om a? Devemos su - com base em qual saber? Ta m bém cabe a pergunta sobre o direito moral
p era r a agressão po r m eio da p acificação eletrônica de regiões cerebrais? de fazer experimentos com seres huma n os futuros. Essas perguntas e ou-
D evemos p roduzir sensações d e felicidade o u ao men os d e prazer p ela es- t ras semelha ntes, que exige m uma respos ta antes q ue nos deixemos levar
ti mulação indepe ndente dos cent ros de prazer, quer dize r, indepen den tes em uma viagem ao d escon hecido, mostram de form a con tundente até que
dos o bjetos d a felicidad e e d o p razer e da sua ob tenção na vid a e no d e- ponto o nosso poder de agir nos remete para além dos conceitos de tod a
sempenho pessoal? As opções poderia m se multip lica r. Emp resas pode- ética anterior.
riam se interessa r por vá rias dessas técnicas, visa ndo a m elho ra r o d esem -
pe nho elos seus empregados. Indepe ndentemente da questão de coação o u
ad esão, e ta m bé m inde p endente me n te da q uestão de existire m efeitos co-
la terais indesejados, sempre que co n to rn a mos d essa maneira o caminho
huma no pa ra enfre nta r os problemas huma nos, substituind o -o p elo cur-
to -circuito de um m ecanismo impessoal, subtraímos algo da dignidade
dos indivíd uos e damos mais um passo à frente no caminho que n os con-
du z de sujeitos responsáveis a sistem as progra mados de conduta. A ft.m -
ciona lidade social, seja qual fo r a sua impor tá ncia, é apen as u m lado d a
coisa. D ecisiva é a questão sobre q ue tipo d e indivídu os torna m valiosa a
existência d e u m a socied ad e com o um todo. Ao lon go do ca m in ho da
crescente cap acidade d e manipulação social em detrimento da a uto nomia
indiv idual, e m algu m luga r se d everá colocar a questão do valor, do valer-
a- pena de todo e m p reend im ento h u m a no. Sua resposta deve busca r a
imagem do h om em , da qual n os se ntimos devedores. Devemos rep ensá-
la à luz elo que hoj e podemos fa zer com ela ou fazem os a ela e q ue nunca
pude mos faze r anter iormente.

60 61
VIII. A DINÂMICA "UTÓ PICA" DO PROGRESSO TÉC!\I!CO
E O EXCESSO DE RESPONSAB ILI DADE

A característica comum, eticamente importante em todos os exemplos


apresentados, é o que podemos chamar de traço "utópico", ou sua incli-
nação utópica (drift) inerente ao nosso agir sob as condições da técnica
moderna - quer atuemos sobre a na tureza humana ou não-humana,
quer a "utopia" a alcançar seja o u não planejada. Graças ao tipo e à m ag-
nitude dos seus efeitos de bola-de- neve, o poder tecnológico nos impele
adiante para objetivos de um tipo que no passado pertenciam ao dom í-
nio das utopias. Dito de outra forma, o poder tecnológico transformou
aquilo q ue costumava ser exercícios hipotéticos da razão especulativa em
esboços concorrentes para projetos executáveis. Na escoll1a entre eles de-
vemos escolher entre extremos de efeitos dista ntes, em sua maioria desco-
nhecidos. A única coisa que rea lm ente podemos saber sobre eles é o seu
e>.:trem ismo propriamente dito: que eles dizem respeito à condição geral
da natureza em nosso planeta e ao tipo de criaturas que devem ou não
habitá-lo. A escala inel utavelmente "utópica" da moderna tecnologia leva
a q ue se reduza constan temente a saud ável d istância entre objetivos quo-
tidianos e últimos, entre as ocasiões em que podemos utilizar o bom senso
ordiná ri o e aquelas que requerem uma sabedoria iluminada. Já que vive-
mos permanentemente à sombra de um utopismo indesejado, automáti-
co, qu e faz pa rte do fu ncionamento do nosso mundo, somos permanen-
temente confrontados com perspectivas fi nais cuja escolha positiva exige
a mais alta sabedoria - uma situação definitivamente im possível para o
homem em geral, po is ele não possu i essa sabedoria, e para o ho m em con-
temporâneo em particular, que até mesmo n ega a existência de seu obje-
to, ou seja, a existência de valo r absoluto e de verdade objetiva. Quando
m ais necessitamos de sabedoria é quando m enos acreditamos nela.
Quando, po is, a n atureza nova do nosso agi r ex.ige uma nova ética de
responsabil idade de longo alcance, proporcional à amplitude do nosso po -
der, ela então também exige, em nome daquela responsabilidade, uma
nova espécie de humildade - uma humildade não como a do passado,
em decorrência da pequenez, mas em decor rência da excessiva grandeza
do nosso poder, pois há um excesso do nosso poder de faze r so bre o nos-
so poder de prever e sob re o nosso poder de conceder valor e julga r. Em
vista do potencial quase escatológico dos nossos processos técnicos, o pró -

63
HANS JONAS· O PRINC[PIO RESPONSABILIDADE

prio desconhec imento das consequências últimas é motivo pa ra uma con - DL O VÁCUO ÉTICO
tenção respo nsável - a melhor alternativa, à fa lta da própria sabedoria.
Vale a pena mencionar o utro aspecto e justificativa da nova ética da
responsabilidade requerida pelo futuro distante: a dúvida quanto à cap a-
cidade do governo representativo em dar conta das novas exigências, se- Aqui me detenho e todos nós nos detemos. Pois exatamente o m es mo
gund o os seus princípios e procedimentos normais. Pois esses princípios movimento que nos pôs d e posse daq uelas forças cujo uso deve ser agora
e procedimen tos perm item que sejam ouvidos apenas os interesses at uais, regulamentado por norm as - o movimento do saber moderno na forma
que fazem valer a sua importância e exigem ser levados em consideração. das ciências naturais-, em virtude d e uma co mplementaridade forçosa,
Autoridades públicas devem-lhes prestar contas, e essa é a maneira pela erodi u os fundamentos sobre os quais se poderiam estabelecer normas
qual su rge co ncretamente o respeito aos direitos (à diferença de seu reco- e destruiu a própria ideia d e norma como t al. Por so rte, decerto que não
nhecimento abstrato). Mas o "futu ro" não está representado em nenhu- o sentimento pela norma e mesmo por determinadas n ormas; m as esse
ma instância; ele não é uma força que possa pesar na balança. Aquilo que sentimento começa a d uvida r de si m esmo q uando aquele suposto saber
não existe não faz nenhum lobby, e os não-nascidos são impotentes. Com o contradiz ou quando, no mínimo, lhe recusa qualquer apoio. De ma is
isso, os q ue lhes devem prestar contas não têm por ora nenhuma realida- a mais, esse sentimento enfrenta uma situação bastante difícil diante das
de política d iante de si no processo de tomada de decisão; quando aque- gritantes reivindicações da cobiça e do m edo. Atualmen te ele ainda tem,
les puderem reivindicá-la, nós, os responsáveis, não existiremos mais. ta mbém , de se en vergon har de si mesmo por ser algo infundado e não
Isso recoloca em to da a sua agudeza a velha questão do poder dos sá- passível de ser d emonstrado diante de um saber superior. Primeiro, esse
bios o u d a força das ideias no co rpo político, quando estas não se ligam a saber "neutralizou" a nat ureza sob o aspecto do valo r; em seguida foi a vez
interesses egoístas. Q ue força deve representar o futuro no presente? Essa do homem. Agora tremem os na nudez de um niilismo no qual o maior
é uma q uestão para a ftlosofia política. Sobre ela, tenho minhas próprias dos poderes se un e ao maior dos vazios; a maior das capacidades, ao me-
ideias, provavelmente quiméricas e seguramente impopulares. Mas pode- nor dos saberes sobre para que utilizar tal capacidade. Trata-se d e saber
m os deixá-las para mais tarde. Pois, antes que essa questão da implemen- se, sem restabelecer a catego ria do sagrado, destruída de cabo a rabo pelo
tação se imponha em termos práticos, a nova ética deve achar a sua teo- Aujkliinmg [Iluminismo] cient ífico, é possível ter uma ét ica qu e possa
ria, na qual se fundamentem d everes e proibições, em suma, um sistem a controlar os poderes extremos que hoje possuímos e que nos vemos obri-
do "tu deves" e "tu não deves'~ Ou seja, antes de se pergu ntar sob re que gados a seg uir conq uistando e exercendo. D iante de ameaças iminentes,
poderes representariam ou influenciariam o futu ro, devemos nos pergun- cujos efeitos ainda podem nos ating ir, frequentemen te o m edo co nstitui o
tar sobre qual p erspectiva ou qual co nhecimento valorat ivo d eve repre- melhor su bstituto para a verdadeira virtude e a sabedoria. Mas esse meio
sentar o futuro no presente. falha diante de um a perspectiva de longo alcance, o q ue importa parti -
cularmente nesse caso, po is a pequena magnitude das coisas em seus p r i-
mórdios faz com que elas nos pareçam , o mais das vezes, inocen tes. Ape-
nas o receio d iante da profanação do sagrado ind epende do cálculo do
medo e do consolo obtido graças à incerteza sobre as consequências dis -
tantes. Mas uma religião inexistente não pode desobrigar a ética de sua
ta refa; da religião pode-se dizer que ela existe ou não existe como fato que
influencia a ação h umana, mas no caso da ética é p reciso dizer que ela tem
de existir. Ela tem de existir porque os homens agem, e a ética existe pa ra
ordenar suas ações e regular seu poder de agir. Sua existência é tanto ma is
necessária, portanto, quanto ma iores fo rem os poderes do agir que ela tem

64 65
HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE

de regul ar. Assi m como deve estar adaptado à sua magnitude, o princípio CAPITULO 11
ordenador também deve adaptar-se ao tipo de ação que se deve regular.
Por isso, capacidades de ação de um novo tipo exigem novas regras da éti- QUESTÕES DE PRINClP!O IE DE MÉTODO
ca, e talvez mesmo uma ética de novo tipo. Foi dito "não matarás" porque
o homem tem o poder de matar, e frequentemente a ocasião e a inclina-
ção para isso - em suma, porque de fato se mata. É somente sob a pres-
são de hábitos de ação concretos, e de maneira geral do fato de que os ho-
mens agem sem que para tal precisem ser mandados, que a ética entra em
cena como regulação desse agir, indicando-nos como uma estrela-guia
aquilo que é o bem ou o permitido. Uma tal pressão provém das novas
faculdades de ação tecnológicas do homem, cuja utili zação está dada pelo
simples fato da sua existência. Se a natureza dessas capacidades for real-
mente tão nova como aqui supomos, e se realmente as suas consequên-
cias potenciais tiverem abolido a neutralidade moral, da qual gozava a an-
tiga interação da técnica com a matéria, então a pressão daquelas novas
capacidades significa procurar por algo novo na ética que possa guiá-las,
mas que possa, antes de mais nada, ser suscetível de afirmar teoricamente
o seu próprio valor diante daquela pressão. Até aqui demonstramos a per-
tinência das pressuposições: o nosso agir coletivo-cumulativo-tecnológi-
co é de um tipo novo, tanto no que se refere aos objetos quanto à sua
magnitude. Por seus efeitos, independentemente de quaisquer intenções
diretas, ele deixou de ser eticamente neutro. Com isso se inicia a tarefa
propriamente dita, a de buscar uma resposta.

66
I. SABER IDEAL E SABER REAL
NA " ÉTICA DO FUTURO"

1. Prioridade para a questão dos princípios

D uas questões se colocam quando iniciamos o trabalho teórico: quais são


os fundamentos de uma ética, tal como a exigida pelo novo agir? E quais
são as perspectivas de que a disciplina, que ela obriga, se imponha nas cir-
cunstâncias práticas do homem? A primeira questão per tence à doutrina
dos princípios da moral; a segunda, à doutrina de sua aplicação - em
n osso caso concernente ao agi r público, à teoria da política. Aqui, a ques-
tão prático-política é tanto mais importante na medida em que se trata
do bem ou da necessidade longínquos. Em comparação com o bem e a
necessidade próximos, é mais difíciJ dizer como o conhecimen to eventual
de algo mais afastado, parti.lhado por poucos, poderá infl uenciar a ação
de muitos. ?vfas, exatamente em função dessa influência, da qual em últi-
ma aná lise tudo depende, os defensores d esse saber têm de protegê-lo, em
primeiro luga r, da suspeita de arbítrio. Ele não pode estar co nfiado à emo-
ção; deve legitimar-se teoricamente a partir de um princípio inteligível.
(Ou ainda: a crença, sob re a qual talvez se baseie em última instância todo
saber de valor e suas exigências, deve ser uma crença muito bem refletida.)
Daí a prioridade da questão dos princípios, cuja melhor resposta possível,
independentemente do seu interesse teórico, tem importância prática em
função da autoridade que suas decisões podem estabelecer no confronto
de opiniões, e para a qual não basta mais a simples plausibilidade ou a
evidência emo ciona l de frases que afirmam que o futuro da human idade
e o do planeta devem tocar o nosso coração. Com todo o direito e sem
nenhuma suspeita d e frivolidade se pode fazer aqui a pergunta: "Por quê?'~
Se lhe ficarmos devendo uma resposta (mesmo incompleta), teremos pou-
co direito de falar de uma ética imperativa; poderemos, no máximo, con-
fiar na força de convencimen to dos nossos sentimentos. Essa força se tor-
na mais insuficiente quando avançamos do axioma básico - quase não
contestado e talvez adm itido com excessiva facilidade- de que deve ha-
ver de qualquer maneira um futuro (uma afirmação qu e parece dispensa r
toda e qualqu er persuasão, embora seja o ponto de partida ma is impo r-
tante dessa reflexão) e chegamos a proposições mais específicas de que
d eve haver, ou n ão haver, um futuro de tal ou tal feitio. Diante d essas pro-
I
j 69
HANS JO NAS · O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO 11 · QUESTÕES DE PRINCIPIO E DE IMTODO

posições se repetem cada vez com mais razão as perguntas: "Por quê? proteger e por que devemos fazê-lo: por isso, cont rariando toda lógica e
Como se justifica essa preferência em particular? Ou qualquer preferên- método, o saber se origina daquilo cont ra o que devemos nos proteger.
cia? O u mesmo qualquer determinação de uma maneira geral?" Portanto, Este aparece primeiro e, por meio da sublevação dos sentimentos, que se
aqui precede, a tudo mais, uma verdade que pode ser alcançada, objeto an tecipa ao con hecimento, nos ensina a enxergar o valor cujo contrário
do saber filosófico. nos afeta tanto. Só sabemos o que está em jogo quando sabemos que isto
ou aquilo está em jogo.
2. Ciência factu al dos efeitos d istantes da ação técnica Pois assim se dão as coisas conosco: o reconhecimento do mnlum é in-
finitamente mais fácil do que o do bo1111111; é mais imediato, mais urgente,
Logo em seguida chega a vez de um outro tipo de verdade que é objeto bem menos exposto a diferenças de opinião; acima de tudo, ele não é pro-
do saber científico, ou seja, a verdade re lacionada a situações futuras curado: o mal nos impõe a sua sin1ples presença, enqua nto o bem pode
extrapoláveis do homem e do mundo, que devem ser submetidas ao jul- ficar discretamente ali e co ntinuar desconhecido, destituído de reflexão
gamento daquelas primeiras verdades filosóficas, a partir das quais retor- (esta pode exigir uma razão especial). Não duvidamos do mal quando
namos às ações atuais, para então avaliá-las, como causas das suas conse- com ele nos depa ramos; mas só temos certeza do bem, no mais das vezes,
quências certas, prováveis ou possíveis no futuro. Portanto, esse saber real quando dele nos desvia mos. É de se duvida r que alguém, alguma vez, te-
e eventual, relativo à esfera dos fatos (que continua sendo teórico ), situa- nha feito o elogio da saúde sem pelo menos ter visto o esp etáculo da
se entre o saber ideal da doutrina ética dos princípios e o saber prático doença, o elogio da decência sem ter encontrado a patifaria, e o da paz
relacionado à utilização política, o qual só pode operar com os seus diag- sem conhecer a miséria da guerra. O que nós 11iio queremos, sabemos
nósticos hipotéticos relativos ao que se deve esperar, ao que se deve in- muito antes do que aquilo que queremos. Por isso, para investigar o que
centivar ou ao que se deve evitar. Há de se formar uma ciência da previ- realmente valorizamos, a fi losofia da moral tem de consulta r o nosso me-
são hipotética, uma "futurologia comparativa'~ do antes do nosso desejo. 1 E, embora aqui lo que mais tememos não seja
necessariamente o mais temlvel, e o seu contrário não seja, menos neces-
3. Contribuição dessa ciência ao saber sariamente ainda, o bem supremo (que pode ser inteiramente indepen-
dos princípios: a he urística do medo dente da oposição a um mal) - embora, portanto, a heurística do medo
não seja a última palavra na procura do bem, ela é uma palavra m uito útil.
Esse elo intermediário de união e concretização, que descreve as situações Sua potencialidade deveria ser plenamente utilizada, em uma área em que
futuras, não está separado da parte que se refere aos princípios fundamen- tão poucas palavras nos são dadas graciosamente.
tais; ao contrário, ele está presente nesses próprios princípios, de modo
heurístico. Assim como não saberíamos sobre a sacralidade da vida caso r Tanto quanto cu saiba, esse aspecto foi bem pouco considerado na fi losofia da moral. Na
não houvesse assassinatos e o mandamento "não matarás" não revelasse procura do conceito do bem, e isto é o que lhe importa, ela te ndeu a consultar o nosso de-
essa sacralidade, e não saberíamos o valor da verdade se não houvesse a sejo (sob o pressuposto socrático de que o que mais se deseja deve ser também o melhor),
embora o nosso temor fo sse um indicador melhor. O eros em Platão, o appetitrts em Agosti·
mentira, nem o da liberdade sem a sua ausência, e assim por diante - nho, que por natureza procura um borrrwr e em tí lt ima instáncia o borrum, são exemplos
assim também, em nosso caso, na busca de uma ética da responsabilidade dessa invocação do desejo. Em última análise, isso poderia ser correto para desejos inteira-
a longo prazo, cuja presença ainda não se detecta no plano real, nos auxi- mente conscientes e que, aliás, tenham pleno conhecimento de si. Mas como aprenderemos
a conhecer os nossos desejos? Na medida em que exam inamos o aparecimento dos desejos?
lia antes de tudo a previsão de uma deformação do homem, que nos re- Certamente, não. Qual dessas duas opções eu desejo m ais intensamente: que as minhas re-
vela aquilo que queremos preservar no conceito de homem. Precisamos feições diárias sejam saborosas ou que meu filho permaneça saudável? Não posso respon -
da ameaça à imagem humana - e de tipos de ameaça bem determinados der a essa questão, observando a pujança dos sentimentos presentes nesses dois desejos (um
dos quais se apresenta diariamente e o outro não tem a menor necessidade de se apresen-
-para, com o pavor ge rado, afirmarmos uma imagem humana autênti- tar) ou comparando-os. Mas quando tenho de temer pela saúde de meu filho, porque subi-
ca. Enquan to o perigo for desconhecido não se saberá o que há para se tamente há motivos para tanto, aí eu sei qua~ das d uas opções eu desejo mais.

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HANS JONA S · O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO 11 · QUESTOES DE PRINCIPIO E DE /.\~TODO

4 . O "primeiro dever" da ética do futuro: primeiro, que é o de, acima de tudo, produzir tal pensamento. Jnstruídos
visua li za r os efeitos de longo prazo por este, somos instados a evoca r o temor correspondente. É evidente que
o caráter obriga tó rio de ambos os deveres remonta a um p rincípio ético
Sim, lá onde aquela palavra não nos é fornecida gratuitamente, ou seja,
fundamental já conhecido e consentido, de m odo que eles possam ser re-
pelo medo presente, torna-se um dever buscá-la, porque também ali não
con hecidos como deveres dele derivados. Disso trata remos em seguida.
podemos dispensar a orientação do medo. Esse é o caso da "ética do futu-
ro" que estamos buscando: o que d eve ser temido aind a não foi experi-
m entado e talvez não possua analogias na experiência do passado e do 6. A insegurança das projeções futuras
presente. Po rtanto, o ma/um imagi nado d eve aq ui assum ir o papel do
Retornemos primeiramen te, mais uma vez, ao dever de pensar, que nos
ma/um experimentado. Como essa representação não acontece automati-
impusemos (desde que considerado de fato como um dever) . Dissemos
camente, ela deve ser produzida intencionalmente: portanto, obter uma
q ue a verdade nele b uscada seri a uma questão de conhecimen to científico:
projeção desse futuro torna-se um primeiro dever, por assim d izer intro-
pois, ass im como os empreendimen tos (cujas conseq uências posteriores
dutório, daquela ética que buscamos.
devemos con hecer pela e>..1rapolação) só se viabilizam por meio da ciên-
cia, da mesma forma essa eÀ1rapolação requer, no mínimo, o mesmo grau
5. O "segundo dever": mobi liza r o sentimento de ciência utilizado nos próprios empreendimentos. Entretanto , ela exige
adequado à representação d e fato um grau maior. Pois o que basta para um prognóstico de curto
Mas logo se vê que esse mnl11111 imaginado, não sendo o meu, não produz prazo, intrínseco a todas as obras d a civilização técnica, não pode bastar
o m edo da mesma forma automática como o faz o 111nl11111 que eu expe- para o prognóstico de longo prazo almejado na extrapolação requerida
rimento e que me ameaça pessoalmente. Isto é, da mesma forma como pela ética. A certeza de que desfruta a primeira, e sem a qu al a empresa
o temor diante do que deva ser temido, também a representação desse tecnológica intei ra não poderia funcionar, encontra-se para sempre recu-
temor não se instala automaticamente. Ela também tem de ser primei- sada à ou tra. Não precisamos nos estender aqu i sobre os mot ivos para
ramente "obtida': A coisa não é tão simples com o para Hobbes, que, em tanto; mencio ne-se apenas a complexidade das relações causais na ordem
vez do amor a um srmr11111111 bo1111111, também faz do próprio temor a um social e na biosfera, que desafia qualquer cálculo (incl usive o eletrônico);
51111111111111 111n/rrnr o ponto de partida da moral, isto é, o temor da morte o caráter essencialmente insondável do homem, que sem pre nos reserva
violenta. Esta é bem co nh ecida, perman entem ente p róxima, e provoca surpresas; e a im previsibilidade, ou seja, a incapacidade de prever as futu -
o ex tremo pavor como a reação mais espo ntânea e mais inevitável da ras invenções. Mais tarde trataremos disso. Em todo caso, a extrapolação
tendência à autopreservação inata à nossa natureza. O d estino imaginado requerida exige um grau d e ciência maior do que o que já existe no extm-
dos homens futuros, para não falar daquele do planeta, qu e não afeta nem polmrrfum tecnológico; e, considerando que este representa a cada vez o
a mim nem a qualquer outro que ai nd a esteja ligado a mim pelos laços opti11111111 da ciência existente, o saber exigido sem pre é, necessariamente,
do amor ou do convívio direto, não exerce essa mesma influência sobre um saber ainda não disponível no momen to e jamais disponível como
o nosso ânimo; no entanto, ele o "devia" fazer, isto é, nós devíamos con- conheci mento prévio; no m áx imo, so mente como saber retrospectivo.
ceder-lhe essa influência. Portanto, aqui não se pode tratar, como em
Hobbes, de um temor do tipo "patológico" (para usar termos kantianos), 7. O conhecimento do possfvel é heuristicamente
que nos acom ete de forma súbita diante do se u objeto, e sim d e um temo r suficiente para a d o utrina dos prin cípios
d e ti po espiritual, que, como resultado de uma atitude deliberada, é nossa
própria obra. A adoção dessa atitude, ou seja, a disposição para se deixar Isso não impede a projeção de efeitos finais p rováveis ou apenas possíveis.
afeta r pela salvação ou pela desgraça (ainda que só imaginada) das gera- E o m ero saber sobre possibilidades, certamente insuficiente para previ-
ções vindouras é o segundo dever "introdutório" da ética almejada, após o sões, é suficiente para os fins da casuística heurística posta a serviço da

72 73
HANS JONAS· O PRINC[PIO RESPONSABILIDADE CAP[TULO 11 ·QUESTÕES DE PRINC[PIO E DE IMTODO

doutrina ética dos princípios. Os seus recursos são experimentos de pen- girá. Nos casos que realmente importam, a ordem de grandeza dos efeitos
samento não som ente hipotéticos na aceitação elas premissas ("se tal coisa distantes indesejados é de ta l manei ra superior à dos efeitos próximos
é feita, então tal coisa sucede"), mas também conjecturais na dedução de desejados, que tal fato deve compensar muitas diferenças nos graus de cer-
um se para um então ("então tal coisa pode suceder"). É à luz do "então'~ teza. Contudo, o caráter "meramente possível" das projeções, que é inse-
que se apresenta à imaginação como possibilidade, como conteúdo e não parável da debilidade teó rica dos procedimentos d isponíveis de extrapo-
como certeza, que pela primeira vez os princípios da moral, até ali desco- lação, torna-se faci lmente mortal, pois evidentemente significa que outra
nhecidos, porque antes desnecessários, podem tornar-se visíveis. Aqui, a coisa também é possível- e quem não poderia dizer "iguahnente possí-
simples possibilidade fornece a necessidade, e a reflexão sobre o possível, vel"? Nessas circunstâncias, o interesse, a inclinação ou a opinião podem
plenamente desenvolvida na imaginação, oferece o acesso à nova verdade. escolher o prognóstico mais propício - entre todos os possíveis -para
Mas essa verdade pertence à esfera ideal, ou seja, é tanto objeto do saber o projeto da sua preferência, ou dispensá-los todos, com a decisão agnós-
filosófico como o era aquela do primeiro princípio fundamental; e sua tica de q ue não sabemos o suficiente para que renunciemos ao conhecido
certeza não depende do grau de certeza das projeções científicas que lhe em favor do desconhecido. Além disso, pode-se argumentar que nós (isto
forneciam o material paradigmático. Quer essa verdade encontre então é, os que virão) sempre teremos tempo para fazer correções ao longo do
sua última confirmação na evidência própria da razão, quer em um a camin ho, à medida que vejamos como nossos empreendimentos se desen-
priori da fé ou em uma decisão metafísica voluntária, suas sentenças são volvem. Mas, com isso, todas as eventua is intuições obtidas pela casuística
apodíticas, ao passo que aquelas dos experimentos hipotéticos do pensar não serão aplicadas no devido tempo, em fu nção da natureza inconclusiva
só podem, no m elhor dos casos, reivindicar probabilidade. Porém, isso é o dos seus prognósticos, fazendo com que os mais belos princípios perma-
bastante nesse caso em q ue elas não precisam servir de provas, m as apenas neçam ociosos, até que seja talvez tarde demais.
de ilustração. Trata-se aqui de uma casuística imaginativa que serve à in -
vestigação e à descoberta de princípios ainda desconhecidos (e não, como
a casuística habitualmente serve, no direito e na moral, ao exame de prin-
cípios já conhecidos). O aspecto sério da science fiction encontra-se exa-
tamente na construção de tais experimentos intelectuais bem embasa-
dos, cujos resultados plásticos podem comportar a função heurística aqu i
mencionada. (Veja, por exemplo, o Admirável mundo novo, de A. Huxley.)

8. O conhecimento do possível é aparentemente inutilizável


para o emprego dos princípios na política

Decerto que a incerteza das projeções sobre o futuro, inofe nsiva para a
doutrina dos princípios, torna-se uma fraqueza sensível ali onde elas têm
de assumir o papel de prognósticos, nomeadamente no emprego prático-
político (que, de m odo geral, com o veremos, é a parte mais fraca de todo
o sistema, n ão só em termos teóricos, mas também operativos). Pois sa-
bemos que ali o efeito final imaginado deve conduzir à decisão sobre o
que fazer agora e ao que renunciar, exigindo-se assim uma considerável
certeza da previsão, que justifique a renúncia a um desejável efeito próxi-
mo em favor ele um efeito distante, que de qua lquer modo não nos atin-

74 75
11. PR IMP.ZIA. DO MAU PROGNÓSTICO SOBRE O BOM

Essa incerteza que am eaça tornar inoperante a perspectiva ética d e uma


responsabilidade em relação ao futuro, a qual evidentem ente n ão se limi-
ta à profecia do m al, tem d e ser ela pró pr ia incluída na teoria ética e ser-
vir de m o tivo para um novo p rincíp io, que, po r seu turno, possa fun cio-
nar como uma prescrição prática. Essa p rescrição afirmaria, grosso modo,
q ue é 11ecessrírio dar mais Olll'idos à profecia da desgraça do que à profecia
da salvação. Os m o tivos para tanto serão resumidos a seguir.

1. As proba bilidades nas a pos tas a ltas

Em primeiro lugar, a probabilidade de que exp erimentos desconhecidos


tenham um resul tado feliz ou infeliz é, em geral, sem elhante àquela em
que se po de atingir ou errar o alvo: o acerto é apenas um a entre inúmeras
alternativas, q ue na m aior parte dos casos não passam, aliás, de tentativas
fracassadas; embora, em questões m eno res, possa mos nos permitir apos-
tar muito, tendo em vista uma chance ex trem am ente peq uena de sucesso,
em q uestões m aiores arriscamos bem menos. Em gr and es causas, q ue
atingem os fundamentos de todo emp reendimento humano e são irre-
versíveis, na verd ad e não d everíamos arr isca r nada. A evolução trabalha
com os pequenos d etalhes. N unca arrisca um t udo-ou -nad a. Por isso se
permi te com eter incontáveis "erros" individuais, dos qu ais seleciona, com
seu p rocedi m ento paciente e lento, os po ucos e igualmente pequenos
"acertos". O g rande emp reendimen to d a tec no logia moderna, q ue não
é nem paciente nem lento, comprime - como um tod o e em muitos
d e seus projetos singulares - os muitos passos min úscul os do desen -
volvimento natural em po ucos passos colossais, e com isso desp reza a
van tagem daquela m archa lenta da na tureza, cuj o tatea r é um a segu ran-
ça para a vida. À amplitude ca usal se acrescenta, portanto, a velocidade
causal das intervenções tecno lógicas na orga ni zação da vida. O fa to de
" to mar o seu desenvo lvi m ento em suas pró prias mãos': isto é, de substi-
tuir o acaso cego, que opera lentam en te, por um planejam en to consciente
e de rápida eficácia, fia ndo-se na razão, lo nge de o ferecer ao ho m em um a
p erspectiva ma is segura de uma evolução bem -suced id a, produ z uma in-
certeza e um p erigo to talmente novos. Estes aumentam na m esm a pro-

77
HANS JONAS · O PRIN CIPIO RESPONSABILIDA DE CAPITULO 11 ·QUESTÕES DE PRI NCIPIO E DE I.~ÉTODO

porção em que aumenta essa intervenção, reduzindo-se o tem po necessá- d u z a outra constatação: no tempo de que ainda dispomos, as correções
rio para alcançar os objetivos, po is esse tempo era necessário para corri- tornam-se cada vez mais difíceis, e a liberdade para realizá-las é cada vez
gir os erros q ue forçosa m ente oco rrem. Eles não serão menores agora do menor. Essas circunstâncias reforçam a obrigação de vigiar os primeiros
que os que ocorriam nas circunstâncias anteriores. No que tange à inevi- passos, concedendo p rimazia às possibilidades de desastre seriamente fun-
tabilidade dos erros, não se pode ignorar a substituição da longa duração da men tadas (que não sejam meras fantasias do m edo) em relação às es-
da evolução natural pelo prazo relativamente cu rto da ação humana pla- peranças - ainda que estas últimas sejam tão bem fundamentadas quan -
nejada; aquilo q ue para a evolução é um lapso de tempo muito curto, para to as primeiras.
o homem significa um lapso de tempo muito mais longo. En tra aq ui em
ação a mencionada impotência de nosso saber com respeito a prognós-
3. A essência sacrossanta do sujeito da evolução
ticos de lo ngo prazo. Se a isso se acrescentar a desproporção de probabi-
lidades antes m encionada, o resultad o é o mandamento de que nos as- Em terceiro lugar e em um nível menos p ragmático, deve-se pensar que
suntos dessas eventualidades capitais se dê mais peso à ameaça do que há a herança de uma evolução ante rior a ser preservada. Ela não pode ser
à promessa. É o m andam ento da po nderação em vista do estilo revolu- tão má, já que legou aos seus proprietários atuais a capacidade (que eles
cionário que assume a mecânica evolutiva do "este ou aquele" sob o signo atribuem a si própri os) de julgar sobre o bem e o mal. Mas essa herança
d e uma tecnologia, com suas apostas de "tudo-ou-nada': a ela imanentes pode se perder. Em uma situação absolutamente miserável pode-se acre-
e alheias à evolução. ditar que qualquer mudança constituiria uma mel hora; também se pode
(como na frase "o proletário não tem nada a perder a não ser os seus g ri-
2. A dinâmica cumulativa dos desenvolvi mentos técnicos lhões") arriscar tranquilamente o q ue existe por algo q ue, em caso de su-
cesso, somente poderia ser melhor, e em caso de fa lha não significaria
A essas co nsiderações gerais se acresce, em segundo lugar, o status bem g rande perda. Mas os d efensores do risco ut ópico não podem invocar essa
peculiar dos períodos que se seguem à adoção de uma tecnologia, q uan- lógica. Pois sua empresa é animada pelo orgulho que sentem em relação
do se acredi ta na possibilidade de realizar as retificações que se mostrem ao seu saber e à sua capacidade, os q uais, no entanto, só podem resultar
necessárias. A experi ência tem ensinado que os desenvolvimentos teCiw- do desenvolvimen to anterior. Portanto: ot_l eles desprezam tal desenvolvi-
lógicos postos em marcha pela ação tecnológica com objetivos de curto men to q uando se dispõem a rejeitar os seus resultados, considerados in-
prazo tende m a se autonomizar, isto é, a adq uirir sua própria di nâmica satisfatórios, mas assim desq ualificando-se eles próprios para um a tal ta-
compulsiva, com um crescimen to cspon táneo graças ao qual, como disse- refa de aperfeiçoamento, pois eles também são parte desse resultado; ou
mos, eles se tornam não só irreversíveis como também au topropulsiona- afirmam a sua qualidad e, sancionando então o seu pressuposto. 2
dos, ultrapassando d e muito aquilo q ue os agen tes quiseram e planejaram. Decerto, há uma terceira alternativa, a de renunciar simultaneamente
Aquilo que já foi iniciado rouba d e nossas m ãos as rédeas d a ação, e os ao desprezo e à reivindicação de qualidade e di zer simplesmente: já q ue
fatos consum ados, criados po r aquele início, se acumulam, torn ando -se a nada é sancionado pela natureza e, por isso, tudo é permitido, existe a li-
lei de sua continuação. Na hipótese de que tomem os "a nossa própria evo- berdade do jogo criador que se deixa conduzir somente pelos hu mores d a
lução em nossas mãos", então esta nos escapará exatamente por ter incor- pulsão lúd ica, nada reivindicando a não ser dom inar as regras d o jogo, ou
porado a si mesma esse impulso. Mais do qu e em qua lquer o utra parte, seja, a competência téc nica. Esse ponto de vista da liberdad e niilista, isen-
aplica-se aqui o provérbio de que temos liberdade para dar o primeiro
passo, m as nos tornamos escravos do segundo e de todos os passos sub- 2 Isso não é nada ma is do que uma versão difere nte do argumento de Desca rtes sobre um

sequen tes. Assi m, a constatação de q ue a aceleração do d esenvolvimento criador de nossa existência mau ou imperfeito (que, segundo o próprio Desca rtes, poderia
se substituído por uma natureza cega e alheia a \'alorcs), cujo arquétipo é evidentemente o
ali mentado tecnologicamente nos redu z o tempo para autocorreções con - antigo argumento do cretense que acusa todos os cretenses de serem mentirosos.

78 79
HANS JONAS · O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO 11 · QUESTOES DE PRINCIPIO E DE I.',HODO

ta de justificativa, não apresenta nenhuma contradição interna, mas não veria ser mais decisivo o prognóstico de desastre, desde que suficiente-
precisamos disc uti-lo, haja vista que não co nfiaremos o nosso destino à m ente plausível, do que um prognóstico alternativo de felicidade, ainda
declarada falta de responsabilidade. Necessitamos estabelecer alguma au- que este seja tão ou mais plausível que o an terior, pois se situa em um ní-
torid ade para d eterminar modelos e, a menos que professemos o dua - vel essencialmente inferior. A acusação d e "pessimismo" contra o s part i-
lismo, aceitando uma heterogeneidade absoluta da origem do sujeito do dários da "profecia da desgraça" pode ser refutada com o argumento de
con hecimento em relação ao mundo, essa autor idade só pode se apoiar que maior é o pessimismo daqueles que julga m o existente tão ruim ou
em uma substancial suficiência do nosso Ser, co mo ele se desenvolveu nes- sem valor a ponto de assum ir todo risco possível para tentar obter qual-
te mundo. Essa suficiência da natureza humana, que deve ser postulada quer m elhora potencial.
como o pressuposto de toda autorização para conduzir criativamente o
destino, e que nada mais é do que a suficiência para a verdade, o juízo d e
valor e a liberdade, é algo extraord inário no fluxo do devir do qual emer-
giu e do qual a sua essência transborda, mas pelo qual ela pode ser tam-
bém novamente engolida. Sua posse, na m edida em que nos foi co ncedi-
d a, significa que existe um infinito a ser preservado naquele fluxo, mas
também um infinito que pode ser perdido. Acima de tudo, a autorid ade
que esse infinito nos confere não pode jamais incl uir sua própria desfigu -
ração, de modo a ameaçá-lo ou "modificá-lo': Nen hum gan ho va le esse
preço, nenhuma expectativa de sucesso autoriza esse risco. No en tanto, é
exatamente esse elemento transcendente que está ameaçado de ser lança-
do também no cadinho da alquimia tecnológica, como se a precondição
de todo poder de rever também fizesse parte daquilo que é passível de ser
revisto. Abstraindo-se completamente o erro de cálculo ali contido, a in-
(
gratidão em relação à herança, daí resultante, d ificilmente combina com I'
o uso ex trem o de seu dom, presente nos riscos da revisão. Teremos mais a
dizer so bre gratid ão, piedade e temor como ingredientes d e uma ética que
deve protege r o futuro na tempestade tecnológica e que não poderá fazê-
lo sem o passado. Agora importa apenas constatar que entre as apostas
lançadas no jogo, em que pese toda a sua proveniência física, encontra-se
um estado de coisas metafísico, um absol uto que, como bem fiduciário do
valor mais alto e vu lnerável, nos impõe o mais alto dever de conservá-lo.
Esse d ever sobrepuja incomparavelmente todos os mandamentos e dese-
jos d e melhora em zonas periféricas. Onde ele vem ao caso, não se trata
ma is da ponderação entre oportunidades finitas de ganho e de perda, m as
do perigo, não ma is passível de qualquer ponderação, da p erda infinita
di ante da oportunidade de ganhos finitos. Para esse fenômeno central,
cuja integridade se deve manter a qualquer preço e qu e não deveria sofrer
nenhu m aperfeiçoamento no futuro, pois sua essência já é completa, de- li
I
I i
80 81 'j
111. O ELEMENTO DA APOSTA NO AG IR
I
I

Já falamos bastante sobre as razões dessa prescrição. Agora formulemos o


lt
!.

princípio ético que está por trás dela e do qual tam bém aquelas razões se
nut rem. Partimos do fato de que a incerteza dos prognósticos de longo I
t
\
prazo, em um contexto em que o equilíbrio entre as alternativas paralisa
a util ização dos princípios na esfera dos fatos, deve ser considerada, por
sua vez, um fato. Para lidar com ele corretamente, a ética deve dispor de
um p rincípio que não seja ele próprio também incerto. O que explicamos
até agora foi a prescrição prática no qual o princípio se expressa: a de que,
em assuntos de certa magnitude - aqueles com potencial apocalíptico
- , deve-se dar mais peso ao prognóstico do desastre do que ao prognós-
tico da felicidade. O pressuposto de toda ponderação foi o de que nós
hoje, e daqui em diante, teremos de tratar com ações dessa ordem de mag-
nitude, o que é um IIOVIIIII nos assun tos humanos. Esse fato novo torna
obsoleto o pon to de vista tácito de toda ética an terior, que, por causa da
impossibilidade do cálculo de longo prazo, considerava apenas aquilo que
nos é próximo, deixando que o fu turo cuidasse de si mesmo. Isso conti-
,.
I

I nua a valer para a esfera privada da ação, na qual as perspectivas de longo

I
prazo -atraentes ou ameaçadoras -não são mais do que fa ntasias oci-
osas, incapazes de afetar pragmática ou moralmente as decisões de curto
I
prazo. Ignorá-los, ou seja, ignorar esperanças e temores vãos, é aqui a úni-
ca prescrição adequada à incerteza, pois ·não permanecer especulando so -
bre o desconhecido é uma precondição da virtude capaz de agir. Na nova
dimensão da ação, porém, não se trata mais de fa ntasias ociosas; a proje-
I
ção de longo prazo faz parte de sua essência e de seu dever, e por isso uma
outra prescrição deve ir ao encon tro de sua incerteza. Conhecemos seu
con teúdo e aprendemos seu pr incípio quando refletimos sobre o aspecto
de jogo de azar ou de aposta contido em todo agir humano, concernente
ao seu resultado e aos efeitos colaterais, e quando nos interrogamos sobre
que lances poderíamos fazer, falando em termos éticos.

1. Posso arriscar os interesses de outros em minha aposta ?

Considerando a questão rigorosamente, não se pode apostar nada que não


se tenha (permanece em aberto a questão de se a alguém é permitido

83
HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO li ·QUESTÕES DE PRINCIPIO E DE METODO

apostar t udo o que lhe pertence). Mas co m essa resposta não se poderia existência d a nação no f·u turo, se algo realmente extremo estiver em jogo.
viver, pois no entrelaça mento indissolúvel dos assuntos human os, bem Assim surgem as decisões terríveis, mas mora lmente defensáveis, sobre
como de todas as coisas, não se pode evitar que o meu agir afete o destino guerra e paz: para o bem do futu ro, se aposta o próprio fu turo. Po rém,
de outros; logo, arriscar aquilo que é meu significa sempre arriscar tam- isso não d everia ocorrer porque o estadista sentiu-se tentado por um futu -
bém algo que pertence a outro e sobre o qu al, a rigor, não ten ho nenhum ro radiante, mas sim pela ameaça de um futuro terrível: não para conquis-
direito. Esse elem en to d e culpa d eve ser assum ido em todo agi r (sua omis- tar um bem maior (o que talvez. não passe de arrogância), mas apenas
são quietista não passa de uma variante); isso vale não só para a culpa que para afastar um mal extremo. A última consideração tem sempre a prima-
desconh ecem os e cuja in evitabilidade devem os supo r em geral, mas tam- zia, e som ente ela tem com o desculpa a necessidade, pois se pode viver
bém para a culpa conhecida e previsível. "O que age é sempre inconscien- sem o bem supremo, mas não com o mal e>..1remo. Nunca existe uma ra-
te", d isse Goethe. Com isso talvez qu isesse se referir a essa disposição para zão para apostar en tre ganhar ou perder tudo; mas pode ser moral mente
se tornar culpado. Determinar o quanto uma consciência ética superior justificado, ou até mesmo imperativo, tentar salvar o inalienável, correndo
pode tolerar de inconsciência, o u seja, até onde podemos ferir conscien- o perigo de perder tudo na tentativa. Portanto, por causa d essa sit uação, a
temente o u m esmo pôr em risco (nas apostas) interesses al heios aos nos- máxima de que a aposta jamais deveria incluir a totalidade d os interesses
sos p rojetos, é, em cada circunstância, uma tarefa para a casuística dares- alheios dos interessados deixa de ser incondicionalmente vá lida.
ponsabilidade, não p odendo ser definido, d e m odo geral, pela do utrina
dos princípios. Em princípio, deve-se rejeitar apenas o capricho e a levi- 3. O melhorismo não j ustifica apostas tota is
andade no risco da coisa al heia o u própria - ou seja, a inconsciência não
pode ser desatenta. Seria um capricho, por exemplo, arriscar algo signifi- Essa restrição- a de que somente a prevenção do mal maior e não a ob-
cativo em fun ção de objetivos fúteis. Mesmo en tão, a leviandade com o tenção do bem maior justitl.ca que, em certas circunstân cias, se arrisque a
p róprio bem-estar e mesmo com a própria vida não é um direito realmen- totalidade dos interesses alheios, no interesse deles mesmo - exclu i do
te con testável. O máximo que podemos d izer dele é q ue uma ob rigação âmbito dessa autorização os grandes riscos d a tecnologia. Porque estes não
oposta o restringe, m as não o suprime. Somente a inclusão de outros em são assumidos com a fin alidade de salva r o que existe ou abolir o insu-
minha "aposta" to rn a a leviandade inaceitável. portável, m as pa ra m elho rar permanen tem ente o já alcançado, isto é, para
o progresso, cuj a versão mais pretensiosa p retende construi r um pa raíso
2. Ten ho perm issão para apostar a totalidade terrestre. Assim, o progresso e suas obras situam -se antes sob o sig no da
soberba que d a necessidade. A ren úncia a algum as de suas promessas d iz
f
dos interesses dos outros?

I
respeito ao qu e excede o necessá rio, ao passo que sua realização poderia
Supondo então o cumprimento dessa condi ção no que concerne a arriscar afeta r o p róprio incondicionado. Aqui, onde a proteção do p rovisó rio é
o interesse alheio no jogo da incerteza, se poderia completar essa primeira insuficiente, en tra novamente em vigor a sentença de q ue meu agir não
resposta de um a forma precisa, afirmando que a aposta jamais poderia in- pode pôr em risco o interesse "total" de todos os ou tros também envolvi - t
cluir a totalidade dos in teresses de outros, principalmente as suas vidas. dos (que são, aqu i, os interesses das ge rações futuras).
Isso vale inco ndi cionalmente quando busco meu interesse egoísta, em
fu nção da desproporção ent re a parcialidade do interesse que persigo e a 4. A huma nidade não te m direito a o suicídio
totalidade dos interesses dos outros, que ponho em risco. Isso vale tam-
bém ali onde não se trata apenas de van tagem para mim, mas da minha Como úl tim o argumen to, consideremos que, no caso do progresso tecno-
vida. !vias, será que vale na persecução d e objetivos altruístas? Especial- lógico, "a totalidade" dos interesses arriscados no jogo possui um sent ido
m ente quando se perseguem os objetivos daqueles que fica m em risco por incomparavelmente mais amplo do que aquilo que no rmalmente se arris-
causa de nossa ação? Não se negará ao estad ista o di reito de pôr em risco a ca nas decisões humanas. Q uando, na hora fatídica, o líder político arrisca

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H ANS JONAS · O PRINCIPIO RESPONSABILI DADE CAPITULO 11 · QUES TÓES DE PRINCIPIO E DE 1.\~TODO

a existência inteira de seu clã, de sua cidade e de sua nação, ele sabe que ou de outra, ao que é comprovadamente falso. Aqui, ao contrário, para
mesmo após a eventual derrocada continuará existindo uma humanidade tomarmos uma decisão, deveríamos tratar como certo aquilo qu e é d u-
c um mundo da vida aqui na Terra. Só nos m arcos desse pressuposto vidoso, embora possível, desde que estejam os tratando de um determi-
abra ngente torna-se moralmente defensável, em casos extremos, o grande nado tipo de consequência. Seria também uma variante da aposta pasca-
risco ímpar. Mesmo para salvar sua nação fica proibido ao estadista utili- lina, descontado o seu caráter egoisticamente eudemônico e, em última
zar qualquer m eio que possa aniquilar a humanidade. Mas, agora, en tre instância, aético. Segundo Pascal, na aposta entre os prazeres breves e
as possíveis obras da tecnologia, há algumas que, por se us efeitos cumula- quest ionáveis da vida mundana, de um lado, e a possibilidade da eterna
tivos, têm precisamente essa abrangência e penetração globais, ou seja, felicidade ou da eterna danação no além, de outro, o puro cálculo obri-
têm o poder de pôr em perigo quer a existência inteira ou a essência in- ga ria a apostar nesta ültima possibilidade. Com efeito, uma comparação
tei ra dos homens no futuro. Em sua decisão fa tídica, o estadista pode das chances de ganho e de perda em ambos os lados resulta em que, na
idealmente supor que compreende aqueles pelos quais ele decide, na con- segunda alternativa, mesmo se o seu objeto (ou seja, a vida eterna) inexis-
dição de procurador. Mas não seria possível supor que a humanidade ti r, pouco se teria perdido além do elemento temporal, enquanto no ou-
que ainda está por vir possa concordar com sua própria inexisténcia ou tro caso o ganho teria sido infinito; ao passo que, com a alternativa que
desumanização; contudo, caso se queira supor essa hipótese (quase des- beneficia a vida temporal, o ganho teria sido pequeno no melhor dos
vairada), ela teria de ser repelida: pois existe (como ainda deve ser de- casos (isto é, caso não exista a vida eterna}, mas no outro caso a perda
monstrado} uma ourignçiio Íllcolldicionnl de ex.istir, por parte da huma- teria sido infinita. A esse tipo de aposta de tudo ou nada se pode objetar,
nidade, qu e não pode ser confundida com a obrigação condicional de entre outras coisas, que, em comparação com o nada, que aqui é assumido
existir, por parte de cada indivíduo. Pode-se discutir a respeito do direito entre outros riscos, qualquer coisa - m esmo a vida fugidia e passageira
individual ao suicídio, mas não a respeito do direito de suicídio por parte - torna-se uma grandeza infi nita; logo, também a segunda alternativa
da humanidade. (a aposta na eternidade possível com o sacrifício da temporalidade dad a)
sig nifica a possibilidade de perda infmita. Mais do que a simples possi-
5. A existência "do homem" não pode ser objeto de aposta bilidade, é necessário que uma fé sustente que a eternidade nos espera,
de modo que a opção por ela, então, não seja mais uma simples aposta.
Com isso finalm ente encontramos um princípio que proíbe certos "expe- Contudo, as certezas relativas do presente não podem compensar a in -
rim entos" de que a tecnologia se tornou capaz, e cuja expressão pragmá- certeza absoluta. O nosso princípio ético da aposta não admite essa pos-
tica é o preceito discutido antes: no processo decisório deve-se conceder sibilidade. Pois ele proíbe que nos arrisq uemos por nada, impede que este
preferência aos prognósticos de desastre em face dos prognósticos de feli- risco seja admitido em nossa escolha- em suma, proíbe a aposta do tudo
cidade. O princípio ético fundamental, do qual o preceito extrai sua vali- ou nada nos assuntos da humanidade. Ele também não confronta o ini-
dade, é o seguinte: a existência o u a essência do homem, em sua totalida- maginável com o imaginável, mas só o que é intei ramente inaceitável com
de, nunca podem ser transformadas em apostas do agir. Daí deduz-se o que é mais ou menos aceitável den tro da finitude. Mas, ac ima de tudo,
au tomaticam ente que a simples possibilidade desse ti po de situação deve ele é imperativo, recusa ndo o cálculo interessado de perdas e gan hos; essa
ser entendida como um r isco inaceitável em quaisquer circunstâncias. Vale imposição se faz a partir de um dever primár io com o Ser, em oposição
para a vida da humanidade (o que nem sempre deve valer para o pacien te ao nada.
individual) o princípio de que mesmo os paliativos imperfeitos são prefe- Esse princípio para o tratamento da incerteza não tem propriamente
ríveis à cura radical promissora, mas que pode m atar o paciente. Lidamos nada de incerto em si e nos obriga incondicionalmente, isto é, não apenas
aqui, portanto, com a inversão do princípio cartesiano da dúvida. Segun- como um mero conselho de prudência moral, mas como m anda mento ir-
do Descartes, para que possamos estabelecer o que é indubitavelmente recusável, na medida em que assu mimos a responsabilidade pelo que virá.
verdadeiro, deveríamos equiparar tudo o que for duvidoso, de uma forma Sob a óptica de tal responsabilidade, a prudência, virtude opcional em

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HANS JONAS ·O PRINCIPIO RES PONSABILIDADE

ou t ras circunstâ ncias, torna-se o cerne do nosso agir moral. Mas em to - IV. O DEVER PARA COM O FUTURO
das as disc ussões an ter iores supusemos impl icitamente, sem comprova-
ção, q ue somos de modo geral responsáveis. O princípio d a responsabili-
dade de m o do geral - o início da ética - ainda não foi d emonst rado.
Ded icar-nos-emas agora a essa tarefa, para a qual, no passado, se teria in- 1. A e>(t inção d a re ciprocidade ria ética do fu t uro
vocad o o auxílio dos céus, auxílio tão necessário, hoje mais do que nunca,
quando dele nada obtemos ao lhe dir igir o o lhar. Aq uilo q ue tem os de exigir do nosso princípio não po de ser ob tido pela
ideia tradiciona l de d ireitos c deveres - pela ideia baseada na recip roci -
dade - , segu ndo a qual o meu dever é a imagem refletida d o dever alh eio,
q ue por seu turno é visto com o imagem e semelhança de meu próprio
d ever, de mod o que, uma vez estabelecidos certos d ireitos do outro, ta m -
bém se estabelece o meu d ever de respeitá- los e, se possível (acrescen ta n-
do -se uma ideia de responsabil idade positiva), promovê-los. Esse esque-
m a não serve para o nosso objetivo. Pois reivi ndicação só surge daqu iJo
q ue reivindica - daquilo que, antes de t udo, é. Toda vid a reivindica vida,
e isso talvez seja um direito a ser respeitado. Aqu ilo que não existe não faz
reivindicações, e nem por isso pode ter seus d ireitos lesados. Q ue os te-
n ha quando existir, m as não os ten ha po r conta da possibilidade d e q ue
existirá algu m d ia. Acima de tudo, ele n ão tem o direito de existir de modo
gera l, an tes de existir de fato. A reivind icação de existência só se inicia com
o existir. Mas a ética almejada lid a exatamente com o que ainda n ão exis-
te, e o seu princípio da responsabilidade tem de ser independen te tan to
da idcia de u m direito q ua nto da id eia de uma reciprocidade - de ta l
m odo q ue não caiba fazer-se a pergu n ta b rincalhona, inven tada em vir-
tude daquela ética: "O que o fu turo já fez por mi m ? Será que ele respeita
os m eus d ireitos?"

2. O deve r di ant e da posteridade

Já existe na m oral tradicional u m caso de responsabilidade e obrigação


elementar não recíproca (que comove profundamen te o simples especta-
dor) e que é reco nhecido e praticad o espon taneamen te: a respo ns abi lid a-
de para com os fi lhos, q ue sucumbiriam se a p rocriação não prosseguisse
por m eio da p recaução e da assistência. Decerto, é po ssível q ue se espe re
deles uma recompensa pelo amo r e pelos esfo rços d espend idos, mas esta
não é p recondição para tal e, menos ainda, pa ra a respo nsabilidade reco-
nhecida para com eles, que, ao con trário, é incond icional. Essa é a úni ca
classe de comportamento in teiramente alt ruísta fornecida pela natureza.

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HANS JONAS · O PRINCIPIO RESPONSA BILIDADE CAPITULO 11 · QUESTÕES DE PRINCIPIO E DE M~TODO

Essa relação com a progenitura não-a utônoma, própria do fato biológico ver inclui o dever da reprodução (ainda que não necessariamente para
da procriação, e não a relação entre adultos autônomos (da qual certa- cada indivíd uo particular), e, assim com o esta última, esse dever não pode
m ente provém a ideia de direitos e deveres recíprocos), é a origem genuí- ser ded uzido como uma extensão do dever do autor em relação à existên-
na da ideia da responsabilidade; sua esfera de ação, com sua exigência con- cia da qual ele é a causa: se esse dever existe, como gosta ríamos de supor,
tinua, é o lugar m ais original de seu exercício. Sem esse fato e a relação ele ai nda não foi fundamentado.
sexual a ele ligada não seriam compreensíveis nem o surgi mento de cui-
dados preventivos nem a assistência desinteressada ent re seres racionais, a. É necessário justificar o dever de ter uma posteridade?
por mais sociais que estes sejam. (Mais tarde tiraremos proveito dessa ob- Nessa alt ura, poderíamos defender que é possível deixar de lado a questão
servação, à qual, a meu ver, a ft.!osofia moral nunca deu o devido valor.) sobre se existe tal dever, e com isso também a tarefa espinhosa de justifi -
Aqui se enco ntra o arquétipo de todo agir responsável, q ue por sorte não cá-lo, já que não precisamos temer pela continuidade da pulsão procria-
necessita deduzir qualquer princípio, m as que a n atureza plantou solida- do ra e porque outras causas externas de aniquilação (por exemplo, um
mente em nós (ou, pelo menos, na parte da humanidade que procria). Se, envenenamento fatal do meio ambiente) só poderiam ocorrer no caso da
contudo, como o exige a teoria ética, prestarmos atenção ao princípio éti- mais improvável das combinações das tolices humanas mais colossais -
co aqui vigente (e os que são do sexo masculino talvez devam ser lembra- cuja possibilidade, em que pese to do o respeito que temos pelas propor-
dos disso), verem os que o dever para com as crianças não é o mesmo da- ções da burrice ou da irresponsabilidade humana, não precisamos levar
quele para com as futuras gerações. O dever do cuidado com o filho que seriamente em consideração. Portanto, devemos supor a continuidade da
geramos e a í está pode justificar-se, m esm o sem o concurso do senti- existência e assim nos liberar para a reflexão, mais rica em conteúdo, so-
mento, com a responsabilidade de nossa autoria de sua existência e com o bre o segundo dever, o do modo de ser da futura humanidade, que tem a
direito que agora pertence a essa existência - portanto, apesa r da não- va ntagem de poder ser deduzido muito mais faci lmente de princípios co-
reciprocidade, com o princípio clássico dos direitos e deveres, ainda que nhecidos da ética e cuja observân cia auxilia, além d isso, a assegura r a exis-
ambos sejam aqui unilaterais. Mas algo diferente do dever resultante da tência pura e simples da humanidade, pressuposta nesse dever.
procriação, que reivindica o seu direito à existência, seria o dever de pro- Ambos os argumentos estão corretos. Pode-se dizer que os perigos que
criar, o dever de gerar crianças e de se reproduzir de m aneira geral: essa ameaçam o futuro modo de ser são, em geral, os mesmos que, em m aior
obrigação, se existe, é incomparavelmente mais difícil de se justificar, e em escala, ameaçam a existência; por isso, evitar os primeiros significa a for-
todo caso não a partir elo m esmo princípio; é impossível justificar um tiori evitar os outros. No que se refere à dedução ética a partir da. ideia de
direito de nascer aos não-nascidos (ou, mais exatamente, dos não-pro- direitos e deveres, ela poderia ser enun ciada assim: já q ue de qualquer
cri ados à procri ação). Portanto, aqui se trataria de um dever que não é a modo haverá futuramente homens, essa sua existência, que terá sido inde-
image m inversa de um direito alheio - a não ser que fosse o direito do pendente de sua vontade, lhes dará o di reito de nos acusar, seus antecesso-
Deus-c riador dian te de suas criaturas: ao lhes conceder a existência, Ele res, de sermos a causa de sua infelicidade, caso lhes tivermos arruinado o
também lhes confiaria a continuação de Sua obra. mundo ou a constituição humana com uma ação descuidada ou impru-
den te. Eles só poderiam considerar os seus progenitores diretos como res-
3. Dever d e existir e do modo de e>:istir d a poste ridade po nsáveis po r sua existência (e m esmo assim só teriam direito à quei..xa se
houvesse motivos específicos que pusessem em q uestão o d ireito dos seus
B de um dever desse tipo que se trata, no caso da responsabilidade em re- progeni tores à procriação), mas poderiam considerar os seus ancest rais
lação à humanidade futura. Em primeiro lugar, isso signi fica um dever d istantes como responsáveis pelas condições de sua existência ou, de ma-
para co m a ex istência da humanidade futura, independentemente do fato neira mais geral, como os causad ores iniciais dessas condições. Portanto,
de que nossos descendentes diretos estejam en tre ela; em segu ndo lugar, para nós, co ntemporâneos, em decorrência do direito daqueles que virão e
um dever em relação ao seu modo de ser, à sua condição. O primeiro de- cuja existência podemos desde já antecipar, existe um dever como age ntes

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HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO 11 ·QUESTÕES DE PRINCIPIO E DE /.I~TODO

causais, graças ao q ual nós assumimos pa ra com eles a responsabi lidade pica': podemos lhes subtrair a capacidade de cumprir esse dever e até mes:
por nossos atos cujas dimensões impliquem repercussões de longo prazo. mo a capacidade de se at rib uir esse dever. Zelar por isso, tal é nosso dever
básico para com o futuro da humanidade, a partir do qual podemos de-
b. Prioridade do dever da existência duzir todos os demais deveres para com os homens futuros. Esses deveres
Apesar de esse raciocínio ser correto e suficiente em termos práticos, ele substantivos podem então ser subordinados à ética da solidariedade, da
não basta para a teoria ética. Pois, em primeiro lugar, o pessimista cons- simpatia, da equidade e até mesmo da comiseração, de modo que, ao
ciencioso, diante de um prognóstico suficientemente sombrio, poderia transpor os nossos próprios desejos e medos, alegrias e tristezas, confe-
chamar de irresponsáveis aqueles que "apesar de tudo isso" levam adian te rimos a esses homens do futuro, numa espécie de simultaneidade fictícia,
a obra da procriação, recusando-se a assumir responsabilidade pelos fru- o direito que essa ética também concede aos contemporâneos e que so-
tos de uma irrespon sa bilidade da qual ele se abstém. Em outras palavras, mos obrigados a seguir, e cuja observáncia antecipada transforma-se aqui
partindo do ponto de vista de que não necessariamente deva haver ho- numa responsabilidade particular nossa, por causa da causalidade intei -
mens, ele pode fazer depender o caráter desejável c obrigatório da futura ramente unilateral do nosso papel de autores da sua condi ção. Trata-se
humanidade das condições presumíveis da sua existência, em vez de, ao ainda, portanto, como já fo i dito, de um dever que corresponde a um di-
contrário, fazer as condições serem ditadas pela obrigatoriedade incondi- reito "existente" no lado oposto, isto é, tido antecipadamente como exis-
cional de tal existência. (É uma ampliação do argumento que ouvi fre- ten te: o direito desses homens f11turos de existirem de um modo que con-
quentemente por parte de desesperados casais de emigrantes na época de sideramos valioso. Mas esse dever depende do dever, mencionado antes,
Hitler: não se teria o direito de "pôr crianças em um mundo assim':) de se gara ntir a existência de futuros sujeitos de direitos. Esse dever não
Em segundo lugar, há uma consideração mais decisiva: se a possível corresponde a nenhum direito; porém, ele nos concede, entre outras coi-
acusação de nossas vítimas futuras derivasse de uma presumível queixa sas c antes de tudo, o direito de trazer ao mundo seres como nós, sem que
pelo seu destino, tal acusação dei..'.:aria de existir caso elas est ivessem de estes nos tenham solicitado isso. O di reito em cada caso singular é conse-
acordo com esse destino, ou até mesmo se sentissem bem com ele. Mas quência aqu i do direito em geral, e não o contrário. E como o exercício
tal concordância é a última coisa que poderíamos desejar a uma futura desse direito atrai para si deveres particulares para com aqueles que trou-
humanidade, se o senti mento de bem -estar tivesse custado a dignidade e xemos ao mundo e cujo princípio já nos é familiar, tais deveres parti-
a vocação do homem. Portanto, teríamos de nos acusar se essa futura hu- culares, incluindo o seu princípio, dependem integ ralmente desse dever
lllanidade não nos acusasse de nada. A ausência de reclamação seria a primário que nos autoriza não tanto a conceder existência, de forma to-
maior das acusações, e o acusador não seria aquele que foi prejudicado, talmente unilateral, a todos os que virão depois de nós (o que não com-
mas nós mesmos. bina bem com u ma imposição), mas n a verdade a lhes impor uma exis-
O que isso significa? tência capaz de arcar com o ónus de perpet uar esse dever. Nós não lhes
Significa que nós não consultamos os desejos antecipados dos que vém perguntaríamos se eles também desejam esse encargo, a inda q ue pudésse-
depo is (que podem ser o produto de nós m esmos), e sim o seu dever ser, mos fazê-lo. Mas impô-lo pressupõe que não prejudiquemos a sua capa -
que não foi gerado por nós e que transcende a nós e a eles. Torna r-lhes cidade de suportá- lo. Esse é então o primeiro dever para com o modo de
impossível o seu dever ser é o crime em relação ao qual tod as as frustra- ser dos descendentes, que só pode ser deduzido do dever de fazê-los exis-
ções da vontade daqueles, não importa quão culpada ela seja, vêm em se- tir. Desse dever decorrem também os outros deveres para com eles, como,
gundo plano. Isso signiftca que temos de estar vigilantes não tanto em re - por exemplo, o dever para com as suas possibilidades de felicidade.
lação ao direito dos homens futuros - o seu direito à feli cidade, um
critério precário, dada a incerteza inerente ao conceito de felicidade - , c. O primeiro imperativo: que exista uma humanidade
mas em relação ao dever desses homens fut uros, ou seja, o dever de ser Portanto, não é verdade q ue possamos transferir a nossa responsa bilidade
uma humanidade verdadeira: com a alquimia da nossa tecnologia "utó- pela existência de uma humanidade futura para ela própria, dirigindo-nos

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HIINS JONAS ·O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO 11 · QUESTOES DE PRINCIPIO E DE tMTODO

simplesmente aos deveres para com aquela q ue irá existir, ou seja, cui- sobre este que e sobre o que deve existir. Para mim, esse imperat ivo é o
dando do seu modo de ser. Ao contrário, a primeira regra para o modo único ao qual realmente cabe a d eterminação kantiana de categórico, isto
de ser que buscamos depende apenas do imperativo do existir. Todas as é, da incondicionalidade. lvlas, visto que o seu princípio, como no caso
o utras se submetem ao seu critério, que não pode ser fornecido isola- kantiano, não é a concordância consigo mesma de uma razão que se im-
damente por nenhuma ética eudemonista e nem por uma ética da com- põe leis do agir, ou seja, uma ideia do fazer (o qual se supõe que ocorra
paixão. Esta tolera muitas coisas que aquele imperativo proíbe e recusa de uma ou outra forma), m as sim a ideia da existência substantiva de pos-
muitas que o im perativo lhes impõe. A primeira regra é a d e que aos des- síveis au tores em geral, nesse caso a ideia é ontológica, isto é, uma ideia
cendentes futuros da espécie humana não seja permitido nenhum modo do Ser. Daí resulta que o primeiro princípio d e uma "ética para o futuro"
de ser que contrarie a razão que faz com que a existência de uma huma- não se encontra nela própria, como doutrina do fazer (à qual pertencem
nidade como taJ seja exigida. Portanto, o imperativo de que d eva existir aliás todos os deveres para com as gerações futuras), mas na metafísica,
uma humanidade é o primeiro, enquanto estivermos tratando exclusiva- como doutrina do Ser, da qual faz parte a ideia do ho mem.
mente do homem.
6. Dois dogmas:"nenhuma verdade metafísica";
4. Responsabilidade ontológica pela ideia do homem "nenhum caminho do é para o deve"

Assim, em vi rtude d esse primeiro imperativo, a rigor não somos respon- A última afirmação contraria os dogm as mais arraigados do nosso tempo:
sáveis pelos homens futuros, mas sim pela ideia do homem, cujo modo o de que não existe verdade metafísica e o de que não se pode deduzir um
de ser exige a presença da sua corporificação no mundo. É, em outras pa- d ever do Ser. Esta última tese nun ca foi posta seriamente à prova e se
lavras, uma ideia ontológica que não garante a existência de seu objeto aplica apenas a um conceito de Ser para o qual, por causa da neutralização
desde já ao definir a sua essência, tal como supostamente a prova ontoló- antecipada de que foi objeto (por ter sido considerado como "isento d e
g ica crê fazê-lo com o concei to d e Deus - longe disso! - , mas q ue diz valor"), a impossibilidade de se deduzir d everes é um a consequência tau-
que deve haver uma tal presença; portanto, ela deve ser preservada, fazen- tológica. Expandir esse conceito de Ser em direção a um axioma universal
do com que nós, que podemos ameaçá-la, nos tornemos responsáveis por eguivale a afirmar que não seri a possível outro conceito de Ser, ou a afir-
ela. Esse imperativo ontológico da ideia do homem está por trás da proi- mar que o conceito que aq ui estamos adotando como premissa (tomado
bição da aposta no tudo-ou-nada, uma afirmação qu e não havia sido jus- de empréstimo, em última instân cia, às ciências naturais) já seria o con -
tificada antes. Assi m, a ideia do homem, na medida em que nos diz por ceito verd adeiro e completo do Ser. Portanto, a separação entre o Ser e o
que devem existir homens, nos diz também como eles devem ser. d ever, em virtude justamente da acei tação d e um tal conceito d e Ser, já re-
flete um a determinada metafísica que só pode alega r a seu favor, em com-
S. A ideia ontológica e nge ndra um paração com outros conceitos, a vantagem crítica (à maneira de O ckham)
imp erativo categórico, não hipotético de fazer a suposição mais econômica do Ser (e, por isso m esmo, também a
suposição m ais pobre no que tange à e>.:plicação dos fenôm enos; ou seja,
A distinção kantiana entre um imperat ivo hipo tético e um imperativo paga ndo um alto preço pelo seu próprio empobrecimento).
categórico, pró pria daqu ela ética da simultaneidade, também se aplica Mas se o dogma d e que nenhum caminho do Ser cond uz ao dever é
aqui a essa ética da respo nsabilidad e em relação ao futuro. O imperativo um enunciad o metafísico, em conformidade com o seu p ressuposto on-
hipo tético (do qual há muitos casos) diz: se houver ho mens no futuro - tológico, então ele cai sob a interdição do primeiro e mais fundam ental
o que depend e d a nossa procriação - , en tão valem para eles tais ou tais dos dogmas, o d e que não existe verdade metafísica. Essa sentença possui
deveres qu e devemos res peitar antecipadamente ... O categórico impõe o seu próprio pressuposto ao qual deve a sua validade. Assim como o dog-
simplesm ente que haja homens, com uma ênfase que recai igualmente ma do "Ser e d ever" pressupõe um d eterm inado conceito de Ser, a nega-

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liANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITU LO li • QU ESTÓES DE PRINCIPIO E DE M ~TODO

ção da verdade metafísica igualmente pressupõe um determin ado concei- perm anece r inviolada.) A fé pode fornecer fundamentos à ética, mas ela
to de saber para o qual ele também se aplica: a verdade "científica" não é própria não está disponível ali, e não se pode apelar ao ausente ou ao de-
alca nçável por m eio de objetos metafísicos- novam ente uma conclusão sacreditado mesmo com o mais forte argumento de necessidade. A m eta-
tautológ ica, já que a ciência tem a ver justamente com objetos físicos. En- física, ao contrário, desde sempre foi uma questão da razão, e esta pode
quanto não tiver sido demonstrado que a ciência esgota integralmente o ser acionada sob a instigação do desafio. Sem dúvida, é tão difícil criar
conceito de saber não terá sido dada a última palavra sobre a possibilida- uma metafísica válida a partir do rliktat de uma necessidade amarga quan-
de da m etafís ica. Mas, m esmo q ue assim fosse, adm itir essa contestação to criar uma religião; m as a necessidade pode nos ob riga r a buscá-la, c o
não constituiria um a objeção par ticular contra a ética que buscamos, pois filósofo secul ar, que se esfo rça por estabelecer um a ética, deve antes de
em q ualquer outra ética, mesmo naquela mais utilitári a, mais eudemo- tudo admi tir a possibilidade de uma metafísica racional, apesa r de Ka nt,
nista e m ais imanente, também se esconde implicitamente uma metafísi- desde que o elemento racional não seja determinado exclusivamente se-
ca (o "materialism o", por exemplo, seria uma). Portanto, nenhuma delas gundo os critérios da ciência positiva.
apresentaria qualquer vantagem em relação à nossa ética. O que há de par- Isso basta como justificativa para o ensaio que se segue. Som ente sabe-
ticular em nosso caso é apenas o fato de que a m etafísica nele presente m os duas coisas antecipadamente a seu resp eito: que ele tem de retornar
não pode permanecer oculta, tendo de vir à luz - o que se constitui uma à ültima (primeira) questão da metafísica, a qual não m ais admite respos-
desvan tagem para a pura empresa ética, mas que, para a causa da verda- ta, para que possa, talvez, extrair do sentido do Ser, do "algo como tal",
de, mostra-se, ao fim, com o um a vantagem . É a vantagem da obrigação que não se deixa fundamentar, o porquê do dever do Ser determinado; e,
de ter de prestar contas dos fundamentos metafísicos do dever. Pois se em segundo luga r, que a ética que possa ser eventualmente fundamenta-
também a tese negativa a respeito do "ser e dever" implica uma tese me- da a partir daqui não deveria estacionar no brutal antropocent rismo q ue
tafísica, o seu defensor pode se abandona r à ignorância metafísica parti- caracteri za a ética tradicional e, particularmente, a éti ca heleno-judaico-
lhada universalmente e refugiar-se na suposta superiorid ade metodológi- cristã do Ociden te: as possibilidades apocalípticas contidas na tecnologia
ca da suposição mínima, isto é, da negação sobre a afirmação. Esse refúgio m odern a têm nos ensinado que o excl usivismo an tro pocéntrico poderia
é negado à afirmação, e seu defensor deve apresentar, senão uma prova, ser um preconceito e que, em todo caso, precisaria ser reexaminado.
então ao menos um argumento ontológico racional para a sua suposição
mais exigente. Portanto, ele n ecessita do ensaio metafísico, recu rso do qual
pode se poupar o "minimalista", invoca ndo Ockh am .

7. Sobre a necessidade da m etafísica

Em todo caso, em função de nosso prin cípio primeiro - que deve nos
d izer por que os h o m ens do fut uro impo rtam na m ed ida em que nos
mostra q ue "o ho m em" importa - , não podemos nos poupar da ousada
incursão na o nto logia, m esmo se o terreno que alcançamos for tão inse-
guro quanto aquele onde a teo ri a pura tem de se deter, ainda que ele per-
m aneça eternamente suspenso sobre o abismo do incognoscível. Já demos
a entender que a fé religiosa possui aqui respostas que a fl.losofia ai nda tem
de buscar, com perspectivas incertas de sucesso. (Por exemp lo, pode-se
extrair da "ordem da criação" a ideia de que, segundo a vontade d ivina, os
hom ens devem estar ali à sua imagem e semelhança, e toda ordem deve

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f
..L
V. SER E DEVER

Nossa questão é: o homem deve Ser? Para colocá-la corretamente temos


primeiro de responder à p ergunta: o que significa isso, dizer que algo deve
Ser? Isso evidentemente conduz de volta à questão de saber se, de forma
geral, algo - em vez de nada - deve Ser.

1. O dever-ser de a lgo

Não é pequena a diferença entre ambas as questões mencionadas antes.


A primeira, relativa ao dever-ser deste ou daquele, pode ser respond ida,
até certo p onto, com a comparação das alternativas que se põem no in-
terior do Ser dado: como algo tem de Ser, então é melhor isto do que
aquil o; portanto, ele deve Ser. A segunda alternativa, n a qual a alternativa
não é um outro Ser, mas pura e simplesmente um não-ser, só pode ser
respondida em termos absolutos, por exemplo, que o Ser é "bom" em si,
I pois o nada não permite graus de comparação: portanto, a existência

I como tal "deveria" ser preferida em relação ao seu oposto contraditório


(e não "contrário").
I A diferença do ponto de vista ético ent re a resposta a uma o u outra
questão pode ser facilmente demonstrada com o exemplo da questão ini-
cial a respeito do homem. Uma característica do homem pode ser consi-

I derada melhor do que outra, e com isso se constitui r em uma obrigação a


escolher; mas, dia nte de ambas as possibilidades, poderia ser escolhido o
t não-ser do homem, que se encontra livre de todas as objeções às quais
ambas as alternativas da escolha anterior se encontravam sujeitas (isto é,
t sendo intrinsecamente perfeito, o não-ser encontra-se livre de todas as
imperfeições presentes em toda elegibilidade positiva). Assim, como afir-
mei antes, o não-ser pode ser escolh ido, em vez de qualquer alternativa
do Ser, quando não se reconh ece uma primazia absoluta do Ser diante do
nada. Portanto, é de significativa importância pa ra a ética responder a essa
questão mais geral.
!
'I
!

2. A p refe rência do Ser d iante do nada e o ind ivíduo

O reconhecimento daquela primazia, e com isso de um dever em favor do


Ser, não significa evidentemente, em termos éticos, que o indivíduo sin-

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HANS JONAS · O PRINCfPIO RESPONSABILIDADE CAPfTULO 11 · QUESTOES DE PRINCfPIO E DE MÉTODO

g ui ar deve se decidir sempre, em quaisq uer circunstâ ncias, pelo prolonga- ta causal de que a potência do poder-faze r trazia consigo autom atica -
men to da su a vida cont ra uma morte possível ou certa, isto é, que deva mente o ato (o que condena ria a seq uê ncia inteira à cr ua facticidade), m as
agarrar-se à sua vida. O sacr ifício da própria vida pa ra salvar out ros, pela sim de q ue Ele quis cria r o mundo co m o algo " bom" (veja, por exemplo,
pátria ou por uma causa da humanidade é uma opção para o Ser, não para Gênesis e o Ti111et1 de Pla tão) . Mas t emos então de dizer que o fato de
o n ão-ser. Também o suicídio premeditado visando a preservar sua pró- julgá-lo bom era coisa do ju lgam en to divino, e não d e um querer cego.
pria di g nidade humana diante de uma humilhação extrema (como o sui - Ou seja, devemos dizer q ue Ele qu is o mundo porque sua existência é boa,
cídio estoico, que sempre é também uma ação "pública") ocorre em últi- e não que este é bom porq ue Ele assim o quis (embora esta ú ltima tenha
ma a n álise em fu n ção da sobrevivência da dignidade humana co mo tal. sido a perturbadora opin ião de D un Scotus). E ntão, por mais que o reli-
O que vale p ara ambos os casos é que "a vida não é o b em supremo". Mes- gioso esteja inclinado a dar razão ao julgamento divino em que acredita,
mo o direito de escolher o auto-aniquilamento em virtude do desespero mais p o r u ma questão de piedade do q ue pelo in telecto, ta l julgamento
ind ividual, embora e tica mente contestável, mas concedido pela com pa i- também deve ser alca nçado d e modo independente (fidcs quacrens in-
xão, não n ega o primado do Ser com o tal: é uma con cessão à fr aqueza no tellectulll). Em outras palavras, a questão do dever-ser de um mundo pode
caso individual, uma exceção à regra universal. Ao cont rá rio, a possibili- ser separada de qualquer tese sobre sua autoria, justamente por se supor
dade de escolh er o desaparecimento da hum a nidade implica a questão do que um dever-ser confo rm e ao conceito do bem teria sido o mo tivo da
dever-ser "do h omem", e esta necessariamente nos conduz de volta à ques- sua criação: o Criado r assim o quis po rque achava que ele assim deveria
tão sobre se algo efetiva mente deve existir em vez de nada. ex.istir. Pode-se m es mo afirma r que a p e rcepção de valor no m undo é uma
das motivações para que se conclua p ela existência de u m autor divino
3 . O sentido da pergunta c:ie Le ibniz (a ntigamente fo i até mesmo uma das "provas" da existência d e D eus) , e
"Por que e>:iste a lgo em vez c:ie nada?" n ão, ao contrário, que a pressuposição do au to r seja o motivo pa ra con-
ceder valor à sua criação. i
Este, aliás, é o único sentido aceitável para a questão fundamental da me- Nosso argumento não é, porta n to, o de que fo i somen te com o desa - I
I
I
tafísica leibniziana, que de outro modo pa receria ociosa: por que existe parecimen to d a fé que a metafísica teve de assumir a tarefa que antes a
·i
"algo e n ão o nada"? Pois o po rquê aqui questionado n ão pode visar à teologia vinha dese mpenhando à sua ma neira, mas sim que essa tarefa
causa precedente, já que ela própria pertence ao qu e já existe; esse questio- sem pre foi sua, somente sua - tanto sob as condições da fé qu anto da
name nto não pode ser feito, sem cair em contradição, em relação à totali- incred ulidade, pois a presença o u ausência d a fé em nada afeta a nature za
dade do que existe o u ao fato do existir como tal. Esse fato lógico também da tare fa. A ún ica coisa que a metafísica pode aprender da teologia é uma
não pode ser alte rado pela d ou trina da c riação, que explica o mundo co- radicalidade no questionamento, desconhecida no passado, o que pode ser
mo con sequ ênc ia da ação d ivina, mas que com isso faz surgir novamente ilust rado pelo fato de que na filosofia antiga teria sido impossível uma
a pergunta sobre a pró pria existência de Deus. A isso a teologia racional pergunta como a de Leib niz.
fornece, como sabemos, a resposta da cnusa sui, da autocausação. Mas o
co nceito é questionável em termos lógicos, para d izer o míni mo. E o re- 4 . A quest ão de um possível dever-ser deve
co nhecimento de uma fé a rdente - "Tu és D eus d e eternidade em eterni - se r re spondida independente m e11te da religião
dade"- presta antes um testemunho veem en te à última contingê nc ia ló-
gica de um facttnn bmtutn, que reclam a sua per pét ua reafir mação, do que Retorna ndo novamente ao porquê presente na célebre pergun ta funda ..
a uma inegável n ecessidade do pensamen to. Deixemos essa questão por menta l "por que há a lgo?", havíamos concluído que compreendê-la no
aqui. Pois m esm o com a suposição, necessária ou a rbitrá ria, de um Cri a- sentido de uma proveniência ca usal tornava a questão absurda pa ra o Ser
dor levanta-se novamente a pergun ta, relativa ao mundo que nos concer- em sua tota lidade, mas a sua compreen são no sen tido de uma no r ma jus-
ne, sobre o "porquê" da nossa criação. A resposta religiosa não é a respos- tificadora ("va le a pe na existir?") lhe em presta sentido e, sim ultaneamen-

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HANS JONAS· O PRINCIPIO RESPONSABILIDADE CAPITULO 11 · QUESTÕES DE PRINCIPIO E DE M~TODO

te, a libera de qua lquer relação com um autor, e com isso com a religião. de que existem va l01·ações subjetivas atuando pelo mundo - que haja
Por isso, o sentido da q uestão sobre por que há algo em vez de nada deve avidez e medo, ambição e resistência, esperança e temor, prazer e sofri-
ser o seguinte: por que algo deve existir de preferência ao nada, seja q ual m ento, coisas desejadas e coisas indesejadas, coisas apreciadas e coisas de-
for a causa que o tenho feito existir. O que importa aqui é apenas o senti- preciadas, ou seja, que por toda parte haja querer e em todas as escolhas
do desse "deve': se expresse a vontade do próprio Ser, indicando sua presença no mundo
Com ou sem fé, a questão de um possível dever-ser torna-se então- em virtude dessas valoraçôes subjetivas, com tudo isso ainda não se terá
ao menos hipoteticamente - a tarefa de um julga mento independente. obtido nada para a teoria radical, e nada ainda terá sido subtraído aos nii-
Torna-se, pois, objeto da filosofia, relacionando-se então, imediatamente, listas. Pois nessa altura ainda poderíamos nos perguntar se todo esse dra-
com a questão do conhecimento do valor em ge ral. Po is o valor ou o ma cansativo e horrendo valeria a pena, se esse grande espetáculo não pas-
"bem ", se é que isso existe, é a única coisa cuja simples possibilidade rei- sa de um grande engodo. É sempre possível faze r o cálculo das alegrias
vindica imedi atamente a sua existência (ou, caso já exista, reivindica legi- e das tristezas: conhece-se o seu resultado pessimista - quer seja o pes-
timamente a continuação da sua existéncia) - e, portanto, justifica uma simismo vulgar ou o schopenhaueriano - , e, ainda que se careça de pro-
reivind icação pelo Ser, pelo dever-ser, transformando-a em obrigação do vas, é muito difícil refutá-lo a partir da evidência dos fe nômenos sub-
agir no caso em que o Ser dependa da livre escolha desse agir. Deve-se jetivos. Ao contrário, é possível acusar de superficial toda tentativa de
notar que com a simples atribuição de valor ao q ue existe, não importan- contradizer tal julgamento. Mesmo na ausência de um resultado final,
do o quanto haja desse valor, já se decide sobre a primazia do Ser sobre o deveríamos reconhecer o tormento do querer propriamente dito (e tam-
nada - pois a este último é impossível atribuir algo, seja va lor o u não- bém o da vontade de poder invocada para substituir a metafísica decaída)
valor. Em virtude da possi bilidade de atribui r valor ao Ser, nen huma pre- em face do qual o não-querer e mesmo o nada representariam uma salva-
ponderância do mal sobre o bem na somatória das coisas- temporária ção. Ass im, a própria intensidade do sentir, a potência extrema do desejo
ou m esmo permanente - pode abolir essa prim azia, ou seja, diminuir a pode se tornar um argumento contra a sua sedução. Nu ma palavra, nada
sua infinitude. A suscetibilidade para a atribuição de valor constituiria nas emoções que ali se encon tram em ação protege o grande espetáculo
a d istinção decisiva, q ue não poderia fi car sujeita a nenhuma gradação. de ser classificado como um vazio e "sotmd muf [111/' na "idiot's tnle", e
A facu ldade para o valo r é ela 1nesma um va lor, o va lo r de todos os valo- nada no fato da sua exibição impede os atores involuntários de procura-
res, inclusive a faculdade para o não-valor, na medida em que a m era aber- rem refúgio no nada.
tura para a distinção entre valor e não-valor já asseguraria sozinha a prio - Portanto, é necessário, em se tratando de ética e dever, aprofundar-se
ridade absolu ta de escolha d o "Ser" em comparação com o nada. Portanto, na teo ria dos valores, ou melhor, na teoria do va lor como tal, pois somen-
primeiramente não um valor eventual, mas a possibilidade de valo r como te de sua objetividade se poderia deduzir um dever-ser objetivo e, com ele,
ta l, ela própria um valor, reclama existéncia e responde à questão de por um compromisso com a preservação do Ser, uma responsabilidade relaci-
q ue deve existir algo que possua tal possibilidade. Mas essa argumen tação onada ao Ser. Nossa questão ét ico -metafísica sobre o dever-ser do homem,
só será vál ida quando o conceito de valor estiver assegurado. num mundo que deve ser, transforma-se na questão lógica sobre o status
dos valores como tais. Na situação atualmente precária e confusa da teo-
5. Voltando-se para a questão sobre o status do "va lor" r ia do valor, com o seu ceticismo em (Jitima análise niilista, esse não é um
empreendimen to promissor. Mas ele tem de ser empreendido, ao menos
Toda essa questão converge para a pergunta se há mesmo algo como "o em função da clareza. A essa tarefa nos voltamos agora.
valor" como tal, não como algo real aqui c agora, mas como algo COII-
ceplttnhnente possível. Po r isso é inquestionável a necessidade de se esta-
belecer o status on tológico e epistemológico do valor de um modo geral e
explorar a questão de sua objetividade. Pois, com o mero e indiscutível fato

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