Você está na página 1de 2

Livro 2

Glaucon entra na conversa e passa a expôr suas opiniões. Em primeiro lugar, procura definir o que
se afirma ser justiça, sendo ela o meio termo entre o benefício causado a quem pratica a injustiça e o
malefício de quem a sofre. A justiça seria esse ponto intermediário, em que um não sobrepõe-se ao
outro. Assim, a justiça não é seguida por vontade própria, mas as pessoas são constrangidas a se
comportar dessa maneira, visto que a justiça não é vantajosa individualmente, mas sim para o
grupo. Por fim, Glaucon constata a dificuldade em se observar quem são os homens justos e
injustos, e qual deles levaria a melhor vida somente poderia ser afirmado se ambos deixassem
possuir qualquer coisa que não sua justiça ou injustiça. Nesse caso, o homem injusto tenderia a
levar a vantagem, obtendo poder e dinheiro, que o possibilitariam fazer mais sacrifícios aos deuses,
de forma que seriam mais queridos pelos deuses estes injustos. O benefício verdadeiro está em
parecer justo, mesmo não sendo. Em seguida entra Adimanto na conversa, e analisa alguns versos
de Homero, assim como outros versos populares, e observa como estes tratam o tema da justiça de
forma distinta, sempre com o pós-vida como fim. Entretanto, o que realmente conta, é parecer justo,
visto que aos próprios deuses, se não existirem, ou não se importarem com humanos, não faria
diferença. E caso se importem, os poetas deixam a entender que é o sacrifício e as preces que fazem
o ser humano cair na graça dos deuses. Por isso, a não ser uma pessoa muito sábia, todos são justos
pela aparência. Aqueles que se veem impossibilitados de cometerem injustiças, são os que a
condenam, mas se tiverem a possibilidade, serão extremamente injustos. Essa não é a opinião
pessoal de Adimanto, mas sua tentativa de explicar o raciocínio de Trasímaco. Depois, joga a bola
para Sócrates, pedindo que este exponha a razão do bem da justiça, e seus efeitos na vida das
pessoas, assim como o mal da injustiça e suas consequências. Sócrates propõe analisar a justiça no
âmbito da cidade, em vez da justiça individual, para então partir do maior ao menor. Começa por
constatar que as cidades surgem da necessidade que os seres humanos têm, por não serem auto-
suficientes. Surge então um sistema de divisão de trabalho, em que cada um produz a mais do que
necessita para si, para satisfazer as necessidades dos outros. Cada um desempenha uma única
função, pois a eficiência dessa organização é melhor do que se cada um tivesse de produzir tudo
para si. Conforme aumentam as necessidades, e a diversidade de produção, surge a necessidade de
comércio. Devido a isso, surge a necessidade de mercado e moeda. É a partir disso que se funda
uma cidade. Há ainda pessoas que, por seu baixo intelecto, mas força física desenvolvida, vendem
sua força e se tornam assalariados. Em uma cidade dessas, sendo ela da melhor forma possível,
haverá abundância de recursos e felicidade de seu povo, preenchendo as necessidades materiais e
espirituais. Devido às novas necessidades que tendem a surgir, e ao aumento de população, chega
um ponto em que o território da cidade pode não ser suficiente para suprir as demandas, de forma
que é necessário tomar de cidades ou áreas vizinhas. É daí que surge a guerra, fonte das maiores
desgraças das cidades. Por isso é necessário um exército, com homens que se dediquem à arte da
guerra. (Estaria aqui um princípio da ideia de que os governantes devem ser pessoas preparadas e
especialistas neste ofício, tal qual em todos os outros?) Sócrates então observa as qualidades físicas
e psíquicas que deve ter um bom guardião/soldado, que por sua valentia e ânimo, seria um homem
de temperamento difícil. Ao mesmo tempo, para ser brando e bom com os seus conhecidos, teria de
ter um pouco de filósofo em si, que, por ser amante do conhecimento, ama aquele que conhece (que
raciocínio maluco). Qual seria, então, a educação desses guardiões? Música (artes) e ginástica.
Deve-se ensinar algumas das fábulas e mitos, mas não todos, por exemplo a história que Cronos
comeu Zeus, ou que os deuses brigam igual crianças birrentas. Essas histórias não devem ser
contadas para que os jovens cidadãos não sejam ensinados a odiar e tratar da mesma forma os
outros. Quanto ao tratamento, no ensino, que se deve dar sobre a índole de Zeus, deve-se retratar o
bem, não o mal, como faz Homero. Quando alguém sofreu desgraças, sofreu por merecer, de forma
que é um benefício do deus (isso que eu chamo de alta qualidade argumentativa). Isso, para
Sócrates, é a forma de que garantir que uma cidade tenha boas leis. Os deuses são causa apenas do
bem. Sobre a ideia de que Zeus se metamorfoseia, Sócrates procura provar, pela razão, que é
impossível. A mentira seria abominada tanto por homens como deuses, e por isso, deuses não
mentem, e essas histórias seriam falsas. Nada desses aspectos negativos dos deuses deve ser
ensinado, para que os jovens, tementes aos deuses, emulem seu comportamento ideal. Resumindo:
as pessoas se espelham nos deuses, para agir. Visto que os deuses são um bando de crianças
birrentas e imaturas, os seres humanos são também, por isso deve-se contar histórias dos deuses
apenas como seres iluminados, bons e superiores, para que os seres humanos hajam da mesma
maneira (devemos projetar nos deuses a virtude que queremos em terra).

Você também pode gostar