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EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) FEDERAL DA __ª

VARA FEDERAL DA SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DE CURITIBA

Pedido de Justiça Gratuita

Gelson Luiz de Paula, brasileiro, agricultor familiar, casado, portador do RG nº


6.284.811-1-SSP/PR, inscrito no CPF sob o n. 017.312.729-01, com endereço
residencial no Povoado de Arroio Grande - Irati/PR;

Nelson José Macarroni, brasileiro, agricultor familiar, casado, portador do


RG nº 63779580-SSP/PR, inscrito no CPF sob o n. 990.058.089-84, com endereço
residencial no Povoado Góes Artigas - Inácio Martins/PR;

Roberto Carlos dos Santos, brasileiro, agricultor familiar, casado, portador do


RG nº 5317482-5-SP/PR, inscrito no CPF sob o n. 931.705.309-25, com endereço
residencial na Localidade de Arroio Grande - Irati/PR;

Por intermédio de suas advogadas que esta subscrevem, com escritório à Rua
Ébano Pereira, 44, Conj. 905, Centro, Curitiba, onde receberão as intimações, vêm, com
fundamento nos arts. 186 e 927 do Código Civil, bem como no art. 5º, X, da
Constituição Federal e demais dispositivos legais aplicáveis à espécie, respeitosamente,
perante Vossa Excelência, propor

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS

Em face da UNIÃO, pessoa jurídica de direito público interno, representada pela


Advocacia-Geral da União, sediada à Rua Pres. Faria, nº 240, Centro, Curitiba - PR,
CEP 80020-290 ou endereço conhecido da Secretaria deste Juízo.
I. DO OBJETO DA AÇÃO

A ação visa a reparar as graves violações, de âmbito material e moral,


suportadas por Gelson Luiz de Paula, Nelson José Macarroni e Roberto Carlos dos
Santos, agricultores familiares dos municípios de Irati e Inácio Martins, interior do
Estado do Paraná, em decorrência da Ação Penal nº 5046695-70.2013.4.04.7000, fruto
da denominada “Operação Agrofantasma”, a qual foi imbuída de erro judiciário, prisão
ilegal, abuso de autoridade e má fé no processo criminal, conforme fatos narrados e
fundamentos a seguir aduzidos.

II. DO PRAZO PRESCRICIONAL

O recebimento da denúncia dos autores data de 02 de dezembro de 2013,


conforme ofício nº 700002939771 (ANEXO 5). A sentença proferida pela 13ª Vara
Federal de Curitiba da Subseção da Justiça Federal de Curitiba, datada de 06 de
dezembro de 2016, entendeu por bem absolver os réus (ANEXO 6).

Transcreve-se teor da referida sentença a quo:


"...Ante todo o exposto, julgo improcedente a denúncia apresentada nos
autos e absolvo os réus Adilson dos Santos, José Aparecido de Oliveira,
Lafaete Jacomel e Valmor Luiz Bordin, Carlos Brandalize, Elenice
Lachouski, Gelson Luiz de Paula, Nelson José Macarroni, Odair
Rodrigues Lopes, Roberto Carlos dos Santos e Wilson Damião Portela das
imputações feitas pelo Ministério Público Federal, com fundamento no
art. 386, VII do CPP...." (grifo nosso)

Por conseguinte, a data do trânsito em julgado da sentença para o Ministério


Público Federal em relação aos acusados é 14 de dezembro de 2016, já para os acusados
difere-se entre grupos, para Gelson e Roberto, 01 de março de 2017, e para Nelson
data-se 06 de junho de 2017.

Haja vista o tema repetitivo do Superior Tribunal de Justiça, nº 533, ao


qual aplica-se o prazo prescricional quinquenal para as ações ajuizadas contra a Fazenda
Pública, considera-se tempestiva a presente ação1.

1
Tema Repetitivo 553 - “Aplica-se o prazo prescricional quinquenal - previsto do Decreto 20.910/32 -
nas ações indenizatórias ajuizadas contra a Fazenda Pública, em detrimento do prazo trienal contido
do Código Civil de 2002.” (REsp 1251993/PR).
Logo, o prazo prescricional final para Gelson Luiz de Paula e Roberto Carlos
dos Santos data-se 01 de março de 2022, e para Nelson Nelson José Macarroni 06 de
junho de 2022. Destarte, tempestiva a presente demanda.

III. DOS FATOS

Os agricultores familiares Gelson Luiz de Paula, Nelson José Macarroni e


Roberto Carlos dos Santos sofreram extensos danos morais e materiais decorrentes de
procedimentos e atos arbitrários e ilegais na Ação Penal nº 5046695-70.2013.4.04.7000,
que tramitou no Juízo Federal da 13ª Vara Federal de Curitiba da Subseção da Justiça
Federal de Curitiba.

O processo judicial é fruto da “Operação Agrofantasma”, que investigou


supostos desvios na gestão de recursos e distribuição de alimentos do Programa de
Aquisição de Alimentos - PAA, programa do governo federal vinculado ao programa
Fome Zero, criado pelo art. 19 da Lei nº 10.696/2003 e regulamentado pelo Decreto nº
7.775/2012, os quais não foram comprovados no deslinde da ação penal.

O PAA tinha duas principais finalidades: a promoção do acesso à alimentação e


o incentivo à agricultura familiar. Para alcançar esses objetivos o programa compra
alimentos produzidos pela agricultura familiar, com dispensa de licitação, e os destina
às pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional e àquelas atendidas pela
rede socioassistencial, pelos equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional
e pela rede pública e filantrópica de ensino. A execução do programa pode ser feita por
meio de seis modalidades, dentre elas a Compra com Doação Simultânea e Compra
Direta. O programa é executado por estados e municípios em parceria da Companhia
Nacional de Abastecimento (Conab)2.

A empresa pública (Conab) é encarregada do gerenciamento de políticas


agrícolas e de abastecimento, para assegurar o atendimento das necessidades básicas da
sociedade, preservando e estimulando os mecanismos de mercado. Seus objetivos estão
elencados no parágrafo único do artigo 19 da Lei nº 8029, de 12 de abril de 1990.

2
MDS. Programa de Aquisição de Alimentos. Disponível em:
http://mds.gov.br/assuntos/seguranca-alimentar/programa-de-aquisicao-de-alimentos-paa.
Na época dos fatos, a regulamentação do art. 19 da Lei nº 10.696, de 2 de julho
de 2003 se dava pelo Decreto nº 7.775, de 4 de julho de 20123. Este estabelecia, em seu
art. 19, o seguinte limite financeiro para pequenos produtores: para pequenos
produtores (limitada a operação em R$ 4.500,00 por produtor, por ano, na modalidade
de compra com Doação Simultânea ou R$ 8.000,00 em na modalidade de Compra
Direta, que devem ser organizados na forma de cooperativa ou associação).

Os autores da presente ação são agricultores familiares e integravam a


Associação dos Grupos de Agricultura Ecológica São Francisco de Assis, com sede
no município de Irati, estado do Paraná, organização que, entre outros projetos de
fomento a agricultura familiar, fornecia alimentos para o PAA, com a finalidade de
doação simultânea de alimentos saudáveis à famílias com baixa renda
socioeconômica, hospitais, restaurantes populares, bancos de alimentos, cozinhas
comunitárias, escolas, creches e asilos. Além disso, o fornecimento dos alimentos
pelos agricultores compunha fonte de renda garantida pela comercialização direta.

O processo, do qual decorre esta ação, versa exatamente sobre o processo de


comercialização e distribuição dos alimentos agroecológicos desses agricultores,
sobretudo na coordenação da Associação São Francisco de Assis, responsável pelo
fornecimento.

Para comercialização via PAA, a organização dos fornecedores deve entregar,


consoante Manual de Operações da CONAB, à Superintendência Regional da CONAB
diversos documentos, dentre eles a “Proposta de Participação” (proposta de
participação, na qual detalha, dentre outros, a quantidade e tipos de alimentos a serem
entregues), “Declaração de Aptidão ao PRONAF” de cada agricultor, nota fiscal de
venda à CONAB, etc. (ANEXO 7).

A formalização da participação no programa se dá com base na Cédula de


Produto Rural (CPR – Doação), desde que a organização dos fornecedores se encontre
adimplente no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal
(CADIN). O valor da CPR - Doação é calculado pela quantidade de produto a ser
adquirida, multiplicada pelo preço ratificado pela CONAB. A liberação dos recursos se
dá por meio de depósito em conta específica da organização dos fornecedores do valor

3
O qual foi alterado posteriormente, parcialmente, pelos Decretos nº 9.214, de 29 de novembro de 2017 e
nº 10.150, de 2 de dezembro de 2019.
(parcela) correspondente à prestação de contas das entregas realizadas, isto é, a
liberação dos recursos ocorria após a prestação de contas pela associação. Uma vez
depositados, os valores podem ser retirados livremente (itens 8, 9, 10, 11 e 12 - ANEXO
7).

Estabelece-se também que a quantidade de produtos a ser entregue deve ser


previamente estipulada na Proposta de Participação, podendo sofrer ajuste nos
seguintes casos: necessidade de substituição de produtos originalmente pactuados,
resultado de aplicações financeiras, variação da qualidade indicada na classificação dos
produtos e alteração de preços do produto (item 15 - ANEXO 7).

O Comunicado ainda estipula a documentação exigida na entrega do produto:


nota fiscal de venda, termo de recebimento e aceitabilidade e relatório de entrega. A
liquidação da CPR - Doação se dá com o cumprimento da referida documentação.

No caso em tela, o Ministério Público Federal denunciou os agricultores


familiares (ANEXO 7) com fundamento na suposta prática dos crimes descritos nos
arts. art. 171, §3º, 288, 297 e 299 do Código Penal, que constituem, respectivamente, as
condutas de estelionato em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de
economia popular, assistência social ou beneficência; associação criminosa; falsificação
de documento público e falsidade ideológica.

A denúncia (ANEXO 7) apontava, em síntese, supostas fraudes e desvios de


recursos públicos em transferências de recursos entre a Companhia Nacional de
Abastecimento – CONAB, empresa pública federal, e associações e cooperativas rurais
no âmbito do PAA – Programa de Aquisição de Alimentos - Compra da Agricultura
Familiar com Doação Simultânea municípios de Fernandes Pinheiro, Irati, Inácio
Martins, Rebouças e Teixeira Soares, todos no Paraná.

A alegação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal era de que


estariam ocorrendo irregularidades no momento da entrega dos alimentos às entidades
da rede conveniadas ao PAA, como hospitais, restaurantes populares, bancos de
alimentos, cozinhas comunitárias, escolas, creches e asilos.

Mesmo com a denúncia, o MPF não solicitou a prisão dos autores, Gelson Luiz
de Paula, Roberto Carlos dos Santos e Nelson José Macarroni, o que foi feito apenas
pela autoridade policial.
No entanto, à época, o então magistrado, da 13ª Vara Federal de Curitiba,
decretou a prisão preventiva de ao menos dez agricultores de quinze municípios do
Paraná, os quais ficaram presos de 60 (sessenta) a 90 (noventa) dias.

Com base na alegação de risco à ordem pública e à instrução criminal, com


base no artigo 312 do CPP, O Exmo Juiz decretou a prisão preventiva de Gelson Luiz
de Paula, Roberto Carlos dos Santos e Nelson José Macarroni, ora requerentes,
caracterizados como “principais responsáveis pelos crimes no âmbito da Associação
Assis”.

Autorizou-se, ainda, o uso de algemas na efetivação da prisão ou no transporte


dos indiciados, nos seguintes termos: “Caso as autoridades policiais imediatamente
responsáveis pelos atos específicos reputem necessário, sendo impossível nesta decisão
antever as possíveis reações, devendo, em qualquer caso, ser observada, pelas
autoridades policiais, a Súmula vinculante n. 11 do Supremo Tribunal Federal”.

Quanto às buscas e apreensões foi decidido que, “Quanto ao quadro


probatório acima apontado é mais do que suficiente para caracterizar causa provável a
justificar a realização de busca e apreensão, a serem cumpridos durante o dia nos
endereços investigados e entidades e empresas envolvidas, especificamente: [...]
Endereço residencial de Gelson Luiz de Paula, Roberto Carlos dos Santos e Nelson
José Macarroni”.

O juiz, à época, estabeleceu como objeto das busca e apreensões a coleta de


provas relativas à prática pelos investigados de crimes, especialmente estelionato
qualificado e prevaricação, relacionados aos Programa Aquisição de Alimentos -
Compra Direta com Doação Simultânea, especificamente:

a) documentos de qualquer natureza que digam respeito à


celebração, execução e prestação de contas relativamente ao programa
em questão, como notas fiscais relacionadas ao programa, termos de
recebimento e aceitabilidade, relatórios, fiscalizações, prestações de
contas, correspondências e mensagens eletrônicas trocadas entre os
investigados ou entre agentes da Conab, inclusive documentos que
possam indicar o destino de recursos pecuniários ou de produtores
rurais desviados;
b) documentos ou instrumentos relativos à falsificação de
contratos, prestações de contas, relatórios, incluindo documentos,
como notas fiscais, em branco, desde que relacionadas ao programa;
c) documentos relativos à evolução patrimonial dos investigados,
incluindo investimentos financeiros, matrículas de imóveis,
documentos de propriedade de veículos de embarcação ou outros
bens de elevado valor econômico;
d) documentos relativos ao pagamento de vantagens indevidas a
agentes públicos e relativos à ocultação e dissimulação do natureza de
pagamentos ou transferências bancárias;
e) HD’s, laptops, pen drives, arquivos eletrônicos de qualquer
espécie, agendas manuscritas ou eletrônicas, dos investigados ou se
suas empresas, quando houver suspeita que contenham material
probatório relevante, como o acima especificado;
f) valores em espécie em moeda estrangeira ou em reais de
valor igual ou superior a R$ 30.000,00 ou USD 30.000,00, e desde
que seja apresentada prova documental cabal de sua origem lícita; e
g) veículos de elevado valor, acima de noventa mil reais, por
suspeita de que se trata de produtos dos crimes. (grifos nossos).

A execução do mandado de prisão (ANEXO 4) ocorreu no dia 24 de setembro


de 2013, a partir das 05h da manhã, nos municípios de Irati e Inácio Martins, com a
prisão dos três ex-presidentes da Associação Assis, Sr. Nelson, Sr. Gelson e Sr.
Roberto, ora requerentes.

Entre 2013 até 2020, a operação apresentou oito ações penais, conduzidas pelo
Ministério Público Federal, tendo como acusados cerca de 50 pessoas, entre pequenos
agricultores de associações e cooperativas e funcionários da Companhia Nacional de
Abastecimento (Conab). Ao grupo Carlos Brandalize, Elenice Lachouski, Gelson Luiz
de Paula, Nelson José Macarroni, Odair Rodrigues Lopes, Roberto Carlos dos
Santos e Wilson Damião Portela, foi atribuído como tipificação penal as condutas do
art. 288, 297, 299 e art. 171, §3º, todos do Código Penal (ANEXO 7). Todas as oito
ações da operação foram concluídas até 2020, com absolvição de todos os acusados.

Na sentença do último processo da operação, expedida em fevereiro de 2017,


pela juíza Gabriela Hardt, fica constatada a ausência probatória para as acusações:
“diante do panorama apresentado, reputo que não restou comprovada a
materialidade dos crimes narrados na denúncia, sendo a absolvição dos acusados
medida que se impõe” (ANEXO 6). A Operação Agrofantasma chegou ao fim, assim,
depois de quase sete anos, com todos os acusados absolvidos.

O Ministério Público não recorreu de nenhuma sentença. Mais ainda: o


próprio Ministério Público Federal, em alegações finais, pugnou pela absolvição
dos acusados, sob o argumento de que não restou comprovado prejuízo
patrimonial à entidade pública federal (ANEXO 9).

A prova testemunhal coligida na instrução processual demonstra


cabalmente que houve, de fato, irregularidade documental nas notas
fiscais e termos de recebimento e aceitabilidade e dos relatórios de
entrega.
(...)
Todavia, os mesmos depoimentos, aliados a outros tomados nos autos,
indicam que o preenchimento da documentação contendo tal
irregularidade não teve dolo de fraude, tampouco foi demonstrado
que daí houve desvio de recursos em prejuízo ou benefício da
CONAB, dos agricultores ou das entidades beneficentes que
recebiam os produtos. (...)
As testemunhas (Evento 652) Anice Bebber, coordenadora do abrigo
“Associação Santos Inocente” (VIDEO3), Eva Borchoski (VIDEO 5)
e Eva Portela, da Pastoral da Criança e APAE (VIDEO 6) foram todas
taxativas ao informar que recebiam os alimentos normalmente, em
quantidade e qualidade adequada.
Também não há notícia por parte dos agricultores de que não
tenham recebido o valor devido, salvo pontualmente em um
período em que o programa esteve suspenso.
Verossímeis, portanto, as afirmações dos acusados de que, dada a
sazonalidade da atividade rural, bem como ante sua sujeição a
intempéries, nem sempre os produtos previstos eram aqueles
entregues, mas sempre havia compensação por outros disponíveis
em valor equivalente.
Também guarda lógica com o contexto e com a prova produzida as
alegações dos interrogados, em especial da ré ELENICE, de que a
grande quantidade de notas a preencher, bem como a dificuldade
técnica dos agricultores de realizarem essa tarefa por si a
sobrecarregava na tarefa contábil, e por isso havia simplificação do
procedimento mediante preenchimentos concentrados em
determinados agricultores de cada grupo de associados,
alternadamente, em cada período (ANEXO 10 - evento 660 - Processo
criminal n. 5046695-70.2013.4.04.7000/PR).
(...)
4. CONCLUSÃO
Em face do exposto, o Ministério Público Federal pugna
ABSOLVIÇÃO dos denunciados ADILSON DOS SANTOS, JOSÉ
APARECIDO DE OLIVEIRA, LAFAETE JACOMEL e VALMOR
LUIZ BORDIN, CARLOS BRANDALIZE, ELENICE
LACHOUSKI, GELSON LUIZ DE PAULA, NELSON JOSÉ
MACARRONI, ODAIR RODRIGUES LOPES, ROBERTO
CARLOS DOS SANTOS e WILSON DAMIÃO PORTELA em
relação aos fatos imputados na denúncia. (grifos nossos).

Na Operação Agrofantasma houve violações claras de garantias processuais,


dos princípios do devido processo legal e do processo justo, o que coloca em questão a
imparcialidade do juiz.

Assim, a absolvição em si, por mais elementar que seja, não afasta os danos
morais e materiais infligidos à vida pessoal e financeira dos autores Sr. Gelson, Sr.
Nelson e Sr. Roberto, além da fragilização da organização regional da Associação de
Agricultores Ecológicos São Francisco de Assis, que gerava diretamente incremento na
renda familiar de centenas de agricultores familiares da região pela distribuição de
produtos oriundos da agricultura familiar, tal como garantia a segurança alimentar e
nutricional de inúmeras famílias carentes, escolas, creches, asilos, e etc.

Ressalte-se que a Associação Assis coordenava o PAA em cinco municípios:


Fernandes Pinheiro, Irati, Inácio Martins, Rebouças e Teixeira Soares, através da
modalidade de compra da agricultura familiar com doação simultânea (Cédula do
Produtor Rural - CPR - Doação). Entre 2009 a 2013, a operacionalização dos projetos
do PAA executou os seguintes valores:

“Em Inácio Martins, CPR nº 41.1.0321, no valor de R$ 78.000,00; em


Irati, CPRs nº 41.10322 e 41.1.0558, no valor total de R$ 196.000,00;
Fernandes Pinheiro, CPR nº 41.1.0372, R$ 80.000,00; Rebouças,
41.1.0368, R$ 27.000,00; e por fim, no município de Teixeira Soares,
nº 41.1.0323 e 41.1.0561, R$ 70.000,00” (ANEXO 7).

Ou seja, valores significativos para gerar uma renda mínima para os


agricultores e agricultoras familiares. Foi mediante o PAA que a agricultura familiar
alcançou um salto na produção, comercialização e geração de renda no campo. O
programa promoveu a diversificação produtiva, o aumento da produção de alimentos
para atender ao consumo familiar e as necessidades da rede socioassistencial
local/regional, além de valorizar os hábitos alimentares locais, o associativismo rural e a
autoestima dos agricultores, propiciando novas alternativas de comercialização da
produção, melhorando as condições de reprodução social desses agricultores no meio
rural.

Os agricultores familiares não só puderam suprir a renda e o sustento com o


trabalho na lavoura, mas também conseguiram se estruturar coletivamente. A região
centro-sul do estado do Paraná, que abrange os municípios dos autores, é repleta de
agricultores que deixaram de plantar fumo, com alta aplicação de agrotóxicos, e
converteram o plantio convencional para o agroecológico, assim como, puderam
sobreviver do trabalho na terra, com a produção de alimentos diversificados.

As posturas arbitrárias, abusivas e até mesmo ilegais adotadas pelos agentes


policiais e pelo Magistrado da 13ª Vara Federal de Curitiba geraram danos extensivos
aos agricultores familiares, que sofreram medidas absolutamente desproporcionais,
desarrazoadas e injustificadas que até o presente momento ecoam nas vidas pessoais e
profissionais dos autores.

Tais danos serão individualizados nos pontos a seguir. Mas antes é necessário
explicar a forma de organização associativa que traça o elo entre os três autores,
injustificadamente presos provisoriamente, em 2013, vez que os três foram ex-
presidentes da Associação Agroecológica São Francisco de Assis.

IV. DA FORMA DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DOS


AGRICULTORES PARA OPERAÇÃO NO PROGRAMA DE AQUISIÇÃO DE
ALIMENTOS - ASSOCIAÇÃO AGROECOLÓGICA SÃO FRANCISCO DE
ASSIS - PROCEDIMENTOS DE FISCALIZAÇÃO INTERNA E EXTERNA -
FUNÇÃO DOS PRESIDENTES DA ASSOCIAÇÃO

Os autores da presente demanda foram presos, denunciados e posteriormente


absolvidos por se enquadrarem em posições decisórias da Associação Agroecológica
São Francisco de Assis. A Associação surgiu em 2002 com 15 (quinze) famílias
associadas, chegando a 125 (cento e vinte e cinco) famílias associadas antes da
operação Agrofantasma, em 20124.

4
Ver comparativo entre o Anexo 15 (Cartilha de Agroecologia de 2010 da Associação São Francisco de
Assis, p. 08) e Anexo 16 (DAP Jurídica da Associação de 2021).
A Associação Assis se inscreveu nas chamadas públicas dos primeiros editais
do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) em 2003, logo que o programa surgiu
no país. O programa foi central para a associação comunitária, para a articulação das
famílias camponesas, para produção e distribuição de alimentos, para a geração de renda
e para a segurança alimentar das famílias mais vulneráveis.

A atuação dos presidentes, assim como de toda a diretoria da associação era


voluntária. A presidência da Associação tinha um caráter de alternância. Conforme
disposição estatutária, às/aos presidentes eram conferidas atribuições próprias do cargo,
como a presidência de assembleias, a responsabilidade legal e a assinatura de
documentos em nome da associação. A atuação dos autores na organização dos grupos
comunitários agroecológicos pode ser observada através das fotos anexas à essa petição
(ANEXO 18).

Além do cargo administrativo da presidência da associação, os agricultores


eleitos, como foi o caso dos autores, permaneciam realizando a manutenção das suas
próprias hortas e lavouras, haja vista que eram sua principal fonte de renda.

As eleições para novos presidentes da Associação ocorrem a cada dois anos,


com possibilidade de reeleição do mesmo presidente por mais dois anos: durante os
anos de 2006 a 2010 Gelson Luiz de Paula assumiu a presidência, de 2010 a 2012
assumiu Roberto Carlos dos Santos e em abril de 2012 Nelson José Macarroni , até
a data da prisão preventiva, em 24 de setembro de 2013.

Todas as atividades da presidência da Associação possuíam mecanismos de


fiscalização interna, especialmente pelo Conselho Fiscal e pelos próprios associados,
que discutiam as ações em reuniões de grupos agroecológicos regionais (ANEXO 15.1).

Já o processo desde a produção até a comercialização e entrega dos alimentos e


pagamento dos agricultores engendra um controle interno rigoroso da associação. A
cada dois meses, com o Instituto Equipe5, havia uma reunião com as Comissões de Ética
dos grupos e diretoria6. Ainda, a Rede Ecovida7 é a organização responsável pela

5
O Instituto Equipe de Educadores Populares é uma ONG, entidade jurídica de direito privado, sem fins
lucrativos, com sede e foro na cidade de Irati. Criado em 10/08/1994 a partir do anseio de associações de
agricultores, assalariados urbanos, pastorais sociais e representantes de movimentos sociais, que
buscavam fortalecer sua representação e assessoria na região.
6
Reuniões realizadas pela comissão com a diretoria, podem ser observadas nas fotos do ANEXO 18.
avaliação da conformidade orgânica e validação dos alimentos produzidos no âmbito da
administração da Associação Assis. A Comissão de Avaliação da Rede Ecovida utiliza
o Termo da Comissão de Ética, que é uma exigência da Certificação Participativa em
Rede (CPR) e do programa, assinado após a realização das visitas na produção
(ANEXO 15.2).

Já no que se refere à fiscalização externa, especialmente do PAA, as operações


de aquisição e destinação de alimentos somente eram iniciadas após a aprovação da
Proposta de Participação pelo Ministério do Desenvolvimento Social. Todos os
procedimentos eram informados aos fornecedores e entidades envolvidas e, também, à
instância de controle social, para que o procedimento fosse público e transparente.

Para controle no PAA, no ato da entrega dos produtos era assinado o Termo de
Recebimento e Aceitabilidade, gerado pelo Sistema de Informações do PAA (SISPAA)
a partir das informações previamente inseridas. Os alimentos entregues eram
acompanhados de documento fiscal, conforme artigos 14, 15 e 16 do Decreto nº
7.775/2012. Por fim, era emitida a nota fiscal, contendo o nome completo e CPF do
beneficiário fornecedor cadastrado no SISPAA. Ela é uma nota de venda desse
beneficiário fornecedor ao MDS.

Com relação a efetuação dos pagamentos havia um rígido controle interno.


Para que o pagamento fosse processado, a documentação fiscal deveria ter sido
aprovada, e expedidos o Termo de Recebimento e Aceitabilidade, bem como o Termo
de Ateste de Notas Fiscais. Os pagamentos eram realizados diretamente aos
beneficiários fornecedores por meio de crédito em cartão bancário gerado pelo PAA e
disponibilizado na agência bancária indicada pela Unidade Executora no ato da

7
A Rede Ecovida de Agroecologia e a Associação Ecovida de Certificação Participativa são formadas
por grupos e por núcleos regionais, que reúnem membros de uma mesma região com características
semelhantes para promover a troca de informações, certificação participativa e a dinamização do
comércio justo. A Ecovida possui coordenações estaduais e uma coordenação de toda a Região Sul,
porém, todas têm um papel secundário quando comparadas aos grupos e núcleos. Por isso,
organizativamente, as ações da Ecovida estão baseadas numa rede multidirecional, com processos
decisórios horizontalizados e descentralizados. Além da articulação em rede, a Ecovida esforça-se em
construir um processo diferente de certificação denominado “Certificação Participativa em Rede” (CPR)
que contrapõe ao modelo mais comumente realizado de auditoria por inspeção externa. Na certificação
por auditoria, um inspetor de uma empresa terceirizada vai até a propriedade rural checar se as normas
estão sendo seguidas. Na participativa, formam-se as chamadas Opacs (Organismo Participativo de
Avaliação da Conformidade), uma espécie de certificadora, porém composta pelos próprios agricultores,
técnicos e consumidores de um grupo.
vinculação dos beneficiários fornecedores. Eram os coordenadores dos grupos
agroecológicos os responsáveis de repasse dos valores aos agricultores e agricultoras8.

Todos os trabalhos administrativos eram bastante complexos e foram


devidamente executados pelos agricultores familiares associados, sem qualquer
vantagem pessoal ou individual, conforme se verificou na Ação Penal n. 5046695-
70.2013.4.04.7000.

Todavia, após a deflagração da operação Agrofantasma e a prisão dos


agricultores ex-presidentes, a companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) em
cerca de 3 (três) dias devolveu o projeto à União, e esta devolutiva resultou no não
recebimento dos valores correspondente às últimas entregas realizadas pelas
famílias, correspondente ao montante de R$ 98 mil reais (noventa e oito mil reais).

A Associação Assis perdeu 124 (cento e vinte e quatro) associados, que


deixaram de participar dos editais de projetos da agricultura familiar. Devido à operação
houve portanto uma grave desistência de participação e ingresso na Associação Assis,
chegando a zero número de associados. Somente no ano posterior, em 2014, houve
reinício na participação das atividades associativas, no entanto, mantendo uma média de
10 famílias associadas por extenso período. Além disso, houve uma perda de 300
pessoas cadastradas antes da Operação para 30 pessoas depois da Operação no
Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (OPAC) da Rede Ecovida.O
prejuízo financeiro e social da Associação pode ser conferido pela Declaração de
Aptidão ao Pronaf, que comprova a queda de associados e o comparativo com o
documento da Associação de 2010 (Anexo 15.2 e Anexo 16).

Porém, os danos morais e materiais mais contundentes referem-se à


criminalização antecipada e desproporcional justamente dos agricultores que estavam à
frente da associação representativa dos camponeses, suportando todo o ônus
administrativo, organizativo, decisório e posteriormente de exposição, perseguição e
julgamento antecipado. Cabe, portanto, individualizar tais danos aos três autores.

V. DOS DANOS MORAIS MATERIAIS SUPORTADO PELOS AUTORES

8
MDS. Manual Operativo modalidade compra com doação simultânea do Programa de Aquisição de
Alimentos - PAA. Disponível em < versao_2014.indd (mds.gov.br)>.
Os três autores relatam que, após a prisão provisória e o curso processual
arbitrário, sofreram incontáveis danos materiais e morais, seja de forma
individual/pessoal, de forma reflexa por seus familiares e de forma coletiva com a
incursão da associação em descrédito público regional.

Nas cidades em que moravam, houve perda de confiança política e social,


perda de cargos de confiança, desânimo no exercício das suas profissões de agricultores
e animadores dos espaços coletivos de organização, além do impacto aos familiares.

Após a soltura dos ora autores, os mesmos relatam uma série de transtornos
traumáticos, entre eles quadros associados à ansiedade, à dificuldade de dormir e
excessiva sensibilidade, afetando a auto-estima e a moral.

Ademais, houve impactos às relações de cooperação, perda das relações de


sociabilidade, abalo da honra, haja vista que os agricultores moram na zona rural de
uma cidade pequena onde todos se conheciam, gerando situação de isolamento social,
além das relações familiares que se fragilizaram, com relação às esposas que se
abalaram com o ocorrido, os episódios de bullying que os filhos/filhas sofriam na
escola, e os traumas decorridos do abuso policial que causou transtornos depressivos
em todos, inclusive nas crianças.

Detalharemos a seguir os danos morais e materiais suportados a cada um dos


autores, desde o momento da deflagração da prisão preventiva, até as posteriores
consequências na vida em sociedade e no âmbito financeiro com o deslinde do processo
criminal conduzido de forma abusiva pelas autoridades competentes.

a) DOS DANOS SUPORTADOS PELO AUTOR GELSON LUIZ DE PAULA

Gelson Luiz de Paula, até os 23 anos de idade (2001), trabalhou com


fumicultura na propriedade rural familiar. Entre 2001 a 2003 o autor fez o curso Terra
Solidária junto ao ensino fundamental e ao final se formou como agente de
desenvolvimento social. Após a conclusão, começou a participar do Instituto Equipe e
em meados de 2002-2004, com a saída do antigo presidente, se tornou o novo presidente
do Instituto9.

9
No início da Associação quem ajudou a escrever os projetos e executá-los foi o Instituto Equipe.
Antes da prisão cautelar deflagrada na Ação Penal 5046695-
70.2013.4.04.7000/PR, Gelson, ao tempo que participava das atividades associativas da
Associação Assis, liderava o grupo de agricultores ecologistas Renascer, do município
de Irati.

A família de Gelson é composta por Claudete Ivanski Rudniak de Paula, sua


esposa, atualmente com 47 anos, e pelos seus dois filhos, Letícia, à época dos fatos com
17 anos, e Luan Vitor com 06 (seis) anos.

No dia 24 de setembro a Sra. Claudete acordou às 06h00min da manhã e avistou


cerca de seis policiais acompanhados do Delegado ao lado de fora de sua casa.

No momento da operação, Gelson não se encontrava em casa, mas na sede da


Associação em Irati. Ao adentrar na propriedade de Gelson e posteriormente na
residência da família, os policiais federais apenas informaram que possuíam mandado
de busca e apreensão em face de Gelson. Quando questionados sobre o motivo da
presença, os policiais não expressaram respostas e apenas perguntaram onde se
encontravam os bens de luxo, cédulas de dinheiro, carros, embarcações marítimas e
documentos e computadores. No momento da ação policial, a Sra. Claudete, esposa
do Sr. Gelson, relata que os policiais buscavam despertar todos na casa, inclusive o
filho pequeno Luan Victor que é surdo, a justificativa era de que todos deveriam
ver/participar da ação policial na residência.

Entretanto, Gelson possuía apenas como bem aquele terreno agrícola com duas
casas rurais simples, sendo que uma delas era dos seus pais. Buscando localizar o
agricultor, os policiais foram até a área próxima, casa do sogro do Sr. Gelson e de seus
primos, perguntando se alguém havia o avistado. Toda a operação de cumprimento do
mandado de prisão caracterizou constrangimento pela situação exposta aos familiares e
vizinhos.
Casa residencial rural de Gelson Luiz de Paula e familiares.

Sem sucesso ao encontrar Gelson em sua residência, os policiais se deslocaram


até a sede da Associação Assis, na cidade de Irati, a cerca de 22 km. Adentraram a sede
pela porta dos fundos, onde encontraram as pessoas que haviam passado a noite na
associação, que contava com alojamento, em razão de reunião interna da entidade, vez
que o deslocamento da zona à rural é distante. A prisão de Gelson ocorreu às 06h30 na
sede da associação.

Gelson buscou dialogar com os policiais, a fim de saber o motivo da presença,


mas a conversa foi interrompida com a informação de que os três ex-presidentes da
associação iriam ser conduzidos para a Polícia Federal em Curitiba e solicitaram que o
mesmo juntasse seus documentos e roupas, pois possivelmente seria preso.

A viagem até Curitiba foi extremamente penosa, com tratamento vexatório e


desproporcional. A viatura seguiu com a sirene ligada e em alta velocidade, que chegou
ao ponto de Gelson bater a cabeça e resultar em corte.

Quando chegaram na Polícia Federal, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, os


policiais, que antes haviam mencionado que Gelson poderia se manter em silêncio e
falar somente com o advogado, fizeram vários questionamentos sem mencionar os
motivos e supostos fatos que ensejaram a prisão.

Gelson, durante o período que esteve preso, passou por problemas intestinais
não conseguindo se alimentar adequadamente, chegando a perder 9 (nove) quilogramas
(kg) corporais.
Os familiares dos autores relatam que ficaram uma semana sem notícias sobre
o paradeiro de Gelson e somente semanas depois da prisão é que conseguiram agenda
para visitá-lo. Gelson ficou preso por 48 (quarenta e oito) dias na Polícia Federal, e
durante esse período enfrentou uma série de dificuldades no acesso à visita pelas
famílias. Cerca de um mês após a prisão, o pai de Gelson saiu de Irati até Curitiba, com
objetivo de visitar seu filho e não lhe foi permitida a entrada.

Outrossim, os seus familiares sofreram abalos morais e psicológicos com a


prisão. A filha do Sr. Gelson, Letícia, não suportava ir à faculdade sendo insultada por
colegas que vociferavam que seu pai era “ladrão”. Ainda, passou o dia de seu
aniversário de 18 anos em uma visita ao pai preso. O outro filho, Luan Victor,
apresentou abalos decorrentes da ação policial, além das referências que a criança fazia
entre os noticiários televisivos sobre polícia e o fato ocorrido em sua casa e com seu pai.

Já detidos, os autores Gelson e Roberto foram realocados na mesma cela na


sede da Polícia Federal em Curitiba, onde havia duas beliches, para quatro pessoas.
No entanto, nos quase 50 dias em que esteve encarcerado, houve momentos com a
convivência de 10 a 15 pessoas no espaço, com sequer espaço hábil para locomoções
básicas.

Durante o período que Gelson esteve preso, sua avó, com quem tinha forte
ligação, viera a falecer, todavia só ficou sabendo do falecimento dias depois, vez que
parte da família não queria a sua presença, por eventualmente comparecer algemado e
sob escolta policial ao velório, situação que lhe gerou grande desalento. A prisão do Sr.
Gelson abalou toda a família, como é relatado em entrevista concedida ao jornalista
Marcelo Auler em agosto de 2018:

“Minha filha que estava fazendo faculdade na época em que fui preso,
abandonou o curso. Não teve condição de continuar. Minha avó, que
estava bem, sofreu muito com a minha prisão. Ela sempre perguntava
por mim. Queria saber quando eu ia sair. Durante o período em que
passei preso, ficou doente e faleceu 15 dias antes de sermos
libertados”.
O autor, quando saiu da prisão, retomou suas atividades na Associação Assis,
mas tal decisão gerou desconfortos, falta de confiança perante alguns associados, o
município e mesmo desacordo familiares, pelas apreensões diante de todo o ocorrido.

Após sua soltura, Gelson relata uma série de transtornos traumáticos, entre eles
quadros associados à ansiedade, dificuldade de dormir e excessiva sensibilidade. Ainda
assim, após o ocorrido, o autor continua trabalhando na perspectiva de fortalecimento da
Associação São Francisco de Assis que foi estruturalmente enfraquecida, com a
exclusão de inúmeros associados, projetos e mesmo no trabalho pessoal em sua
propriedade familiar com a produção de alimentos saudáveis.

b) DOS DANOS SUPORTADOS PELO AUTOR ROBERTO CARLOS DOS


SANTOS

Roberto Carlos dos Santos é agricultor familiar na comunidade rural Arroio


Grande. Foi presidente da Associação São Francisco de Assis entre 2010 a 2012, em
razão de seu compromisso de liderança com as pautas de proteção à saúde, meio
ambiente e direitos dos camponeses. Com personalidade pacata, Roberto recebeu com
surpresa a informação da prisão por supostas irregularidades dos trabalhos
administrativos da associação.

No momento da prisão, cerca de 6h10 da manhã, Roberto estava em sua


comunidade Arroio Grande e passaria na comunidade de Faxinal dos Antonios e em
Pirapó, todas em Irati, para coleta dos alimentos em uma caminhonete. Foi abordado
sozinho na estrada pelos policiais federais, estes com armas em punho, alguns
dentro das viaturas e outros em frente da sua casa, com mandado de prisão alegando que
Roberto estaria com equipamentos eletrônicos em sua casa e que obteria os dados e
informações sobre a gestão do projeto.

O autor e os policiais retornaram, portanto à casa rural e durante todo o trajeto,


os agentes federais permaneceram com armas em punho. Durante a revista na casa -
extremamente simples - de Roberto, os policiais perguntavam sobre “iates” e “carro do
ano”.
Sem sucesso nas buscas, Roberto recebeu ordens para recolher roupas e
documentos e foi informado que possivelmente permaneceria encarcerado em Curitiba.
Em nenhum momento os policiais reportaram o autor acerca dos motivos da
condução. Ao revés, foi o próprio Delegado Federal que acompanhava a Operação que
questionou o agricultor se o mesmo sabia das razões da prisão.

Sem nunca ter estado em uma delegacia ou qualquer experiência com processos
jurídicos, Roberto recebeu a informação de que o inquérito tardava 30 dias para ser
apurado. Só após esses 30 dias conseguiu receber visitas de familiares, em Curitiba.

Casa residencial rural de Roberto Carlos dos Santos e familiares em 2013.

Roberto permaneceu 48 (quarenta e oito) dias preso na Justiça Federal em


Curitiba e cumpriu todas as obrigações dentro da penitenciária. Presenciou brigas e
rebeliões no complexo, acompanhando ações que jamais presenciou em toda a sua vida
como agricultor familiar no interior do Estado do Paraná.

As sequelas emocionais ao autor foram extensas. Até a presente data, o


agricultor se expressa sobre o processo prisional com emoções e lágrimas afloradas.

O autor retrata que ainda hoje é estigmatizado e considerado “culpado” em


setores e espaços públicos, mesmo após a sentença absolutória. O impacto da prisão do
agricultor na comunidade de Arroio Grande gerou posicionamento de desprezo e
restrição à Roberto.
A família de Roberto também foi impactada com as consequências da ação
abusiva e violenta da polícia federal. Sua filha Eunice, que à época tinha 13 anos e
cursava a 8ª série, teve sérios problemas de saúde, como síndrome do pânico e quadro
depressivo, além de sofrer bullying na escola. O próprio autor, após a soltura, necessitou
de acompanhamento psicológico em sua escola e posteriormente com o núcleo de
psicologia da Unicentro, em decorrência do sofrimento causado pela prisão.

Roberto aponta, ainda, que após a operação houve uma grande perda econômica
para as famílias agricultoras, inclusive a sua. Após 6 (seis) meses várias famílias
abandonaram a entrega de alimentos, pela perda dos projetos pactuados, de forma que
voltaram a exercer o plantio da fumicultura ou se mudaram para as periferias das
cidades, ocupando postos de trabalho precários.

c) DOS DANOS SUPORTADOS PELO AUTOR NELSON JOSÉ


MACARRONI

Nelson José Macarroni, residente do município de Inácio Martins, sempre


trabalhou com atividade agrícola familiar. Realizou o curso de empreendedor rural em
Irati no ano de 2006 e a partir do curso se interessou em coordenar grupos
agroecológicos de agricultores familiares. Dessa maneira, criou o Grupo de Agricultores
Ecologistas Água Viva de Inácio Martins e com apoio de Gelson, realizaram
intercâmbios entre os agricultores de Irati e Inácio Martins, a fim de fortalecer o grupo e
o trabalho que vinha sendo desenvolvido pela Associação São Francisco de Assis.

O autor começou a participar mais ativamente das atividades da Associação a


partir da inscrição e aprovação do primeiro projeto do PAA, em 2009, e, em maio de
2012, assumiu a presidência.

Sem jamais ter se envolvido com qualquer atividade ilícita, Nelson também foi
surpreendido com a ação da Polícia Federal na data de 24 de setembro de 2013
(ANEXO 12).

Os agentes federais estiveram presentes na residência rural de Nelson às


06h00min. Contudo, o ora autor se encontrava na sede da Associação São Francisco de
Assis, onde posteriormente foi encontrado pelos policiais, vez que participava de
seminário na sede associativa.

Na casa de Nelson, à data da operação, estavam presentes a esposa Alzira e três


crianças, duas delas filhas do casal, Emanuele Naiara e Henrique Daniel, além de Sônia,
colega de sua filha. No momento da abordagem todos já se encontravam despertos. Os
agentes federais revistaram toda a casa, perguntando à Sra. Alzira se havia matrículas de
imóveis, barco, dinheiro em grande quantidade, dólares e documentos. Os policiais
também reviraram a horta que havia no quintal da casa. Sem qualquer sucesso, os
agentes policiais informaram, em atitude de extrema má-fé, à família do agricultor
que a acusação se tratava de tráfico e que estavam à procura de drogas ilícitas.
Nenhum pertence da família ou de Nelson foi apreendido.

Constrangida pela situação exposta frente aos familiares e vizinhos, Alzira


sofreu de choque emocional e incredulidade ao ser informada de um suposto
envolvimento do marido com drogas, vez que a família é religiosa e o marido nunca
sequer utilizou qualquer substância ilegal.

Residência rural de Nelson José Macarroni e família.

Após o episódio traumático na residência de Nelson, o comboio policial se


dirigiu à sede associativa, com armas de fogo de cano longo em punhos.

Na sede da Associação, a Polícia Federal, sem diálogo com os presentes na


sede da entidade, revirou todos os documentos da secretaria, computadores, papéis,
deixando o espaço completamente desordenado. Da sede da associação, Nelson foi
conduzido algemado pela cintura e sequer foi avisado sobre o direito de permanecer
em silêncio ou para o local que se dirigiriam. Os integrantes do Instituto Equipe
presenciaram a abordagem excessiva.

Os autores Nelson e Gelson assinaram nota de culpa, conforme o artigo 306, §


2º, do CPP. No momento em que permaneceu na viatura policial, conduzido à
penitenciária, Nelson foi pressionado psicologicamente pelos agentes federais com
questionários e acusações: “você sabe muito bem pelo que você está sendo preso”,
“você sabe sim”, “você tem dinheiro para pagar advogado né?”. Somente durante o
trajeto foi informado que estava sendo levado para Guarapuava para prestar
depoimento.

Durante o momento de sua condução, os policiais estacionaram as viaturas no


Hotel Cisne Branco, porém os policiais tardaram a autorizar que Nelson utilizasse o
banheiro. O autor permaneceu em jejum forçado durante o dia, sem qualquer
alimentação oferecida pelos agentes. O comboio chegou apenas às 16h30 na
Delegacia da Polícia Federal em Guarapuava e somente às 18h30 o autor pode se
alimentar, já na 14ª subdivisão policial em Guarapuava.

Na delegacia Nelson presenciou questionamentos dos agentes como “cadê a


mídia? Cadê a mídia?”, e acompanhou o desenrolar da operação na Televisão. Entre a
saída da sede da associação às 08h30, até o fim do depoimento às 17h30, Nelson
permaneceu algemado com as duas mãos presas no cinto da calça por todo o trajeto e,
por possuir problemas na coluna, teve o corpo lesado e dolorido.

Nelson permaneceu preso na na 14ª subdivisão policial em Guarapuava 64


(sessenta e quatro) dias, de 24 de setembro de 2013 a 28 de novembro de 2013. O
local chegou a abrigar 19 (dezenove) pessoas num espaço com dimensões retangulares
de 12 m², sendo 3 metros de largura por 4 metros de comprimento (3x4m). Durante
todos os dias em que esteve em encarceramento não foi autorizado a tomar banhos de
sol. Permaneceu sem acesso dos familiares nos primeiros 15 (quinze) dias.

Mesmo sem nenhum antecedente criminal, Nelson dividiu a cela com


presos considerados de alto risco, que cometeram crimes contra a dignidade sexual.
Presenciou, ainda, rebelião na unidade penitenciária, cujo episódio ensejou que os
agentes carcerários atiraram várias vezes contra o teto para cessar a movimentação dos
detentos.
Durante os 64 (sessenta e quatro) dias em que esteve preso, Nelson vivenciou
os piores dias da sua vida, convivendo com violência e drogas, situações e elementos
que nunca havia convivido até então. Ademais, teve sérios problemas com alimentação,
em razão dos danos psicológicos e físicos, que o deixaram sem comer por uma semana.
Portanto, emagreceu demasiadamente neste período.

As consequências psicológicas, morais e materiais da prisão de Nelson foram


diversas. O autor teve crises de choro, ansiedade, pesadelos constantes e depressão.
Os sintomas psíquicos acarretaram em problemas corporais e físicos, com dores
crônicas, obrigando-o a ingerir duas vezes ao dia por 8 (oito) meses remédio controlado
antidepressivo Cloridrato de Amitriptilina.

VI. DOS DANOS MATERIAIS SUPORTADO PELOS AUTORES

Os autores suportaram danos materiais concomitantes, sejam individuais ou


coletivos, relacionados às perdas da colheita de suas safras no período em que
estavam presos, perda de função pública e perda da participação nos editais do
Programa de Aquisição de Alimentos. Cada prejuízo é verificado de forma diversa
para cada autor, e por consequência, os devidos valores da indenização material.

Quanto a Gelson Luiz de Paula, aos quase 50 dias da prisão sucederam


prejuízos financeiros, perda de renda e a possibilidade de trabalho posterior. O período
em que o autor esteve preso era época de plantio do ciclo de verão, como mandioca,
feijão, milho, batata-doce, abóbora, cenoura, beterraba, pepino, abobrinha (setembro a
novembro de 2013). Todavia, em razão da sua ausência no trabalho com a lavoura, não
logrou safra e, por consequência, perdeu possibilidade de renda com a venda dos
produtos, o que resultou no endividamento do autor. Logo, sua família (composta de
quatro pessoas) ficou sem renda, que provinha essencialmente do trabalho do autor
Gelson, restando apenas como fonte de subsistência o Benefício de Prestação
Continuada (BPC) do seu filho com deficiência auditiva e o pouco que sua esposa
retirava na venda de hortaliças. Devido à apatia e ao desânimo decorrentes dos danos
morais enfrentados pela prisão do autor, teve dificuldades em construir significativas
lavouras (na terra que era arrendada do pai) comparadas ao que se produzia
anteriormente, à vista disso por cerca de um ano sofreu perdas consideráveis de renda,
deixando de arrecadar R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais) valor médio/ano com
o resultado do não trabalho na agricultura e comercialização dos seus produtos.

Para mais, na mesma semana em que foi preso foi exonerado do cargo de
assessor técnico da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de
Irati/PR, ao qual recebia mensalmente o salário de R$ 1.700,00 (um mil e
setecentos reais). O cargo de confiança de Gelson no mandato do prefeito de Irati-PR
em 2013 havia começado de iniciar, haja vista que a gestão iniciara em 2013 e iria até
2016. Logo, com apenas 06 (seis) meses de ocupação do cargo foi exonerado em virtude
da prisão arbitrária e deixou de receber os benefícios salariais por 42 (quarenta e dois)
meses (correspondente ao final do mandato). Calculado dano material de R$
71.400,00 (setenta e um mil e quatrocentos reais). Este valor se refere aos lucros
cessantes, ou seja, o prejuízo que envolve o valor que o autor deixou de ganhar por
conta do dano.

Roberto Carlos dos Santos, por estar na mesma região e com culturas agrícolas
de safra e cultivo semelhantes, também perdeu a época de plantio no período em que
esteve preso, não logrou safra e logo, não obteve renda com a comercialização dos
produtos do ciclo de verão, como mandioca, feijão, milho, batata-doce, abóbora,
cenoura, beterraba, pepino, além do forte da propriedade, as frutíferas como pêssego e
ameixa.

Após a prisão, devido aos sérios problemas psicológicos enfrentados, e os


estigmas sociais, Roberto não teve mais ânimo para trabalhar na lavoura e manter sua
vida no campo e decidiu após 1 (um) ano, trabalhar em serviços na cidade de Irati - PR.
Apenas a esposa e a filha ficaram na propriedade rural e começaram a trabalhar com
panificados, doces e geleias. Roberto trabalhou em 2015 numa madeireira; depois,
trabalhou por 5 (cinco anos) em uma floricultura (entre 2016 a 2021), e atualmente está
trabalhando numa associação. Ressalte-se que em todos os serviços o ganho mensal
obtido era de apenas um salário mínimo, valor inferior ao que obtinha com a
produção de alimentos e comercialização por meio das políticas públicas.
Entretanto, o autor relata que não almeja permanecer exercendo o trabalho atual, mas ter
condições para a produção e comercialização dos alimentos cultivados em sua
propriedade, desde que consiga sobreviver e sustentar sua família.
Logo, por cerca de um ano, após a operação, sofreu perdas consideráveis de
renda, deixando de arrecadar uma média anual de R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil
reais) com o resultado do não trabalho na agricultura e comercialização dos seus
produtos.

Nelson Macarroni, em situação semelhante a dos demais autores, tampouco


obteve renda no ano e se endividou. Não conseguiu pagar o financiamento adquirido
nos anos de 2014 e 2015 e paga o valor da dívida até os dias atuais. Assim, no período
em que o autor passou preso, sua família ficou carente de renda, a qual provinha
essencialmente do trabalho de Nelson. Ainda, após a prisão, enfrentou em diversas
situações traumas psicológicos que traziam o sentimento de bloqueio e incapacidade de
trabalhar na lavoura, acarretando a perda das safras de 2013 e 2014. A renda média do
autor antes da prisão era em torno de R$ 2.000,00 (dois mil reais) por mês,
totalizando uma renda anual de R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais) já que por
conta da sua atividade como presidente - que ocupava boa parte de seu tempo - não
tinha condições de produzir em maior quantidade na roça e na horta. Ressalte-se que a
atividade de presidente na associação sempre foi voluntária, sendo dada apenas ajuda de
custo para gasolina.

Cabe ressaltar que os próprios autores vendiam seus produtos da agricultura para
as chamadas públicas do PAA, e com a suspensão dos editais para a Associação
Agroecológica São Francisco de Assis por 7 (sete) anos, passaram, por igual período,
sem a comercialização dos seus produtos e logo sem angariar renda, haja vista que o
PAA era o principal meio de saída das mercadorias.

Portanto, avalia-se como danos materiais suportados pelos autores os seguintes


valores: à Gelson Luis de Paula R$ 95.400, 00 (noventa e cinco mil e quatrocentos
reais), somando-se os danos materiais decorrentes da não renda obtida através da
agricultura por cerca de um ano e da exoneração do cargo de assessor técnico da
Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Irati/Pr, por 42 meses; à
Roberto Carlos dos Santos R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais) referente aos danos
materiais decorrentes da não renda obtida através da agricultura por cerca de um ano; e
à Nelson José Macarroni R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais) também pelos danos
materiais decorrentes da não renda obtida através da agricultura por cerca de um ano.
VII. DAS ILEGALIDADES, ARBITRARIEDADES E ABUSOS
COMETIDOS DURANTE A INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

Os danos morais e patrimoniais que impactaram os autores decorreram de


posturas arbitrárias, abusivas e ilegais adotadas pelos agentes policiais e pela 13ª Vara
Federal de Curitiba na condução processual criminal. Como apontado, os agricultores
familiares sofreram medidas desproporcionais, desarrazoadas e injustificadas que
até o presente momento ecoam nas vidas pessoais e profissionais dos autores.

Aponta-se, em especial: a) a ilegalidade da prisão preventiva; b) o erro


judiciário; c) o abuso e excesso policial. Todos ensejam responsabilização objetiva da
União pelos danos causados aos autores. Veja-se:

a) DA ILEGALIDADE DA PRISÃO PREVENTIVA

A prisão preventiva, para ser legal, deve estar calcada em indícios suficientes
de materialidade, ou quando o investigado pode colocar em risco a investigação ou a
ordem pública, conforme preceitua o art. 312 do Código de Processo Penal. No caso em
tela, nenhum dos elementos se aplicava na prisão dos agricultores, configurando,
portanto, ilegalidade na prisão preventiva.

Na decisão que decreta a prisão preventiva (ANEXO 4), o então Juiz Federal
opta pela medida extrema ainda que o próprio Ministério Público Federal tenha
entendido que as prisões poderiam ser substituídas por medidas cautelares
alternativas:

Pleiteou a autoridade policial a decretação da prisão preventiva e a


prisão provisória de grande número de investigados.
O MPF entendeu que as prisões poderiam ser substituídas por
medidas cautelares alternativas, com o afastamento dos
empregados públicos envolvidos e a proibição dirigida a
representantes de associações e de cooperativas de exercerem
determinadas atividades.
Ora, cf. exposto nos tópicos anteriores, encontram-se presentes os
pressupostos necessários para a decretação da prisão preventiva,
cf. artigo 312 do CPP, prova da materialidade dos crimes e
indícios suficientes de autoria. Lesionando os cofres públicos,
pequenos produtores rurais e entidades educacionais, assistenciais
e beneficentes.
Resta verificar a presença dos fundamentos da prisão preventiva.
Foi colhida prova relevante no sentido de que os investigados, na
prática de seus crimes, para viabilizar os crimes, especialmente de
estelionato qualificado, falsificaram grande número de documentos,
notas fiscais de produtos rurais , além de outros.
Diante do histórico dos investigados, de fraudes probatórias e de
intimidação de terceiros, inclusive possíveis testemunhas, presente
risco concreto à investigação e à instrução do processo caso os
investigados sejam mantidos em liberdade, pelo menos aqueles de
participação mais relevante. A normalidade da investigação e da
instrução depende, portanto, que seja interrompido o ciclo de
produção de documentos falsos, de intimidação de terceiros e de
instigação de testemunhas a mentirem, o que exige que sejam
mantidos na prisão durante a investigação e a instrução [...]
Também é preocupante a probabilidade de reiteração da conduta
criminosa caso os investigados sejam mantidos em liberdade, como
argumentou a autoridade policial. (grifos nossos).

O erro judiciário está presente, porque ora, o “histórico dos investigados” como
mencionado pelo magistrado é vazio e não há exemplificação de qual histórico se trata.
Aliás, os autores não possuem histórico que apresenta qualquer risco, todos não
possuem qualquer antecedente criminal (ANEXO 12), pelo contrário, são reconhecidos
como pessoas que dedicaram e dedicam a vida para a organização comunitária e
regional, para a produção de alimentos saudáveis e a justa distribuição e
comercialização desses alimentos, como também destacado nas cartas enviadas aos
autores durante o período que estiveram presos (ANEXO 13).

As fraudes probatórias alegadas pelo magistrado, especialmente no que se


refere a falsificação dos documentos, como notas fiscais de produtos rurais, relatórios de
entrega e termos de recebimento e aceitabilidade também é de igual modo, errônea. Não
houve qualquer demonstração de irregularidades no preenchimento das documentações,
tampouco que houve intenção de fraude desses documentos. O que houve fora
substituição de produtos, adequando-se à época de plantio e clima com substituição
prevista por um procedimento formal, conforme normas da CONAB (título 30, itens 15
e 20, Manual de Operações CONAB). Ainda, os produtos foram entregues por diversos
produtores numa única nota, como se apenas um produtor tivesse feito uma grande
entrega, era realizado na verdade por vários agricultores com diversas entregas
menores10.

Por mais que agricultores tenham adequado as entregas, não houve qualquer
prejuízo patrimonial à CONAB, entidade pública federal, aos agricultores ou às
entidades beneficentes que recebiam os produtos.

É justamente neste ponto que o magistrado cita a conduta dos autores em


“intimidação de terceiros”, que, erroneamente, nada mais é baseada em uma única
prova testemunhal, ao qual descreve: “Que muitas vezes Roberto chegava na entidade
e pedia para a declarante assinar as notas” (ANEXO 4, p. 18). Na própria decisão da
prisão preventiva (ANEXO 4), o Exmo. Juiz, aponta que em fiscalizações realizadas em
abril de 2010 em escolas de Teixeira de Freitas os coordenadores afirmaram não ter
irregularidades:

“Que então constavam quantidades maiores de produtos nos termos


que a depoente assinava, como se recorda de um caso de feijão; Que
algumas vezes o pessoal dizia que era necessário substituir os
produtos; Que o programa é muito bom para escola, pois as crianças
da escola se alimentam com estes produtos; (...) Que algumas vezes o
pessoal da Assis solicitava que a depoente assinava os termos de
recebimento e aceitabilidade de forma rápida, no meio da rua, sem
conferir os produtos, porque alegavam que precisavam mandar
rapidamente para a CONAB (p. 18-19 ANEXO 4).

É despropositado indicar “intimidação de terceiros” quando se faz referência a


pedidos de assinaturas de relatórios e notas exigidos por protocolos formais do
programa. É igualmente despropositado induzir que os autores poderiam instigar tais
coordenadores beneficiárias dos alimentos recebidos em mentir e que, por tais motivos,
deveriam ser mantidos presos durante a investigação e instrução do processo.

Comparou-se o caso ainda, na decisão, com a prática de crimes de colarinho


branco. Veja:
“Afinal, o fato de tratarem-se de crimes contra a Administração
Pública, ou seja, crimes comumente qualificados como crimes de
‘colarinho branco’ não exclui o risco à ordem pública. Crimes de
colarinho branco podem ser tão ou mais danosos à sociedade ou a
terceiros como crimes praticados nas ruas, com violência como já

10
As entregas de alimentos às escolas são registradas através das fotos constantes no ANEXO 18.
apontava o sociólogo Edwin Sutherland (1883-1950) em seu clássico
estudo, White-Collar Criminality, de 1939”.

É ilógica e insensata a comparação realizada pelo magistrado de que as


atividades organizativas da Associação Assis se equiparam às práticas de colarinho
branco. Há desproporcionalidade abissal ao utilizar da mesma “régua” para todos os
acusados no âmbito da Operação Agrofantasma - desde servidores públicos como os
funcionários da CONAB, por exemplo, aos pequenos agricultores familiares, sem
qualquer atenção devida aos fatos.

Vale ressaltar, tratam-se de pequenos agricultores familiares, que vivem em


comunidade da zona rural dos municípios de Irati e Inácio Martins, interior do Paraná,
que plantam e produzem alimentos para subsistência e renda familiar e são lideranças
sociais que promovem, por meio de uma associação, sem finalidade lucrativas, o acesso
à editais, dentre eles de comercialização de alimentos saudáveis aos quais beneficiam
famílias e instituições carentes. É extremamente irreal, danoso e vexatório comparar
a atuação social desses sujeitos com a prática dos crimes de colarinho branco e
ainda ser esta uma das razões para a prisão preventiva.

O Magistrado limita a prisão preventiva ao “grupo criminoso de participação


mais intensa nos crimes”, ainda que fosse a medida mais extrema, alegando que: “A
imposição de medidas cautelares substitutivas não seria suficiente para prevenir o risco
concreto de interferência nas investigações e na instrução, diante do histórico de
falsificação de provas e do risco de retaliação a terceiros. Entendo que a respeitável
posição adotada pelo MPF, ao reputar suficiente as medidas alternativas, deixou de
considerar a especial vulnerabilidade das vítimas, os pequenos produtores rurais e as
entidades educacionais, assistenciais e beneficentes prejudicadas pelos crimes.
Medidas mais drásticas são necessárias para protegê-las, evitando que sejam
pressionadas a corroborar as fraudes e coibir retaliações, com a privação delas de
acessos aos recursos aos programas” (ANEXO 4).

A falta de apuramento, ou ainda a sua realização com interpretações dos fatos


diversa da realidade, não permitiu identificar que a “vulnerabilidade das vítimas, os
pequenos produtores rurais [...]” são também os próprios autores desta demanda. Os
danos decorrentes, portanto, da ilegalidade da prisão preventiva seriam evitados com
uma séria e comprometida investigação e apuração dos fatos colhidos.
Destaca-se que na suposta reavaliação da prisão preventiva garantida pelo
magistrado no inquérito, o Magistrado, no decorrer de 12 páginas, se restringiu a
“reanalisar” seus argumentos (ANEXO 11, evento 3 - Processo Criminal n. 5046695-
70.2013.404.7000/PR):

Estando entre os fundamentos da preventiva, além do risco à ordem


pública, o risco à instrução, ressalto que ele não se encerra com o
inquérito, pois há a instrução da ação penal a ser desenvolvida,
devendo ser coibida a possível interferência, com novos documentos
falsos ou com instigação de testemunhas a mentirem, como ocorreu na
fase de fiscalização administrativa pela Conab, por parte dos acusados
no processo.
Portanto, com base nos fundamentos já expedidos na decisão de
decisão de 13/08/2013, ANEXO 4, do processo 5002656-
67.2013.404.7006, e considerando que as investigações e denúncia
apenas reforçaram os pressupostos e fundamentos da preventiva,
mantenho a prisão cautelar de Valmor Luiz Bordin, Gelson Luiz de
Paula, Roberto Carlos dos Santos e Nelson José Macarroni (p. 11).

Isto é, apontou-se, equivocadamente, os autores como perigo para instrução, sem


os fundamentos mínimos de diligência que cabe ao judiciário na decretação da prisão,
como lapso probatório o relato de uma só testemunha. Não há a exposição do fato
criminoso com as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos
pelos quais se possa identificá-lo e a classificação do crime, desclassificando indícios
mínimos de autoria e prova de materialidade, evidenciando os elementos extremamente
frágeis e simples que não ensejam evidentemente os elementos para a prisão preventiva.

Ainda, a denúncia do MPF (ANEXO 7) se restringe a qualificar a atuação dos


autores em poucas linhas, tanto é que se posicionou pela adoção de medidas cautelares
alternativas e não a prisão preventiva dos ora autores:

Quanto à síntese da atuação dos denunciados responsáveis pela


execução do Programa nos municípios (ANEXO 7, p. 84-88):

Relativo à Gelson:
“Responsável, segundo ELENICE, pela elaboração do projeto.
Presidente da Associação no período de 2009 a 2010, segundo
NELSON (fls. 6 do Evento 262 –Anexo 10).
Segundo ELENICE, GELSON “era quem coordenava todas as
atividades” e quem dava a última palavra (fls. 7 do Evento 262 –
Anexo 4). Afirmou ainda que era GELSON quem conferia as
mercadorias que constam nas listas dos produtores rurais e que
embasavam o preenchimento das Notas Fiscais dos Produtores Rurais.
GELSON, segundo os produtores ouvidos, colhia as assinaturas nos
TERMOS DE RECEBIMENTO E ACEITABILIDADE.” (ANEXO
7, p. 86 e ANEXO 9, p. 6).

Relativo à Nelson:
Por ocasião de seu interrogatório, afirmou que “no período em que foi
presidente assinava os documentos, conferia se os produtos descritos
nos termos de recebimento e aceitabilidade, bem como nos relatórios
de entrega destes programas, estavam sendo entregues pelos
produtores nas entidades nas quantidades especificadas nos
documentos” (Evento 262-Anexo 10). Bem como, afirmou que seus
contatos, na CONAB, “são VALMOR, “superintende geral” e
GLADIS, “encarregada geral” (fls. 11 do Evento 262 – Anexo 10),
com quem mantém contato por telefone e e-mail. Presidente da
Associação a partir do ano de 2012. Coordenador do grupo de
produtores, composto de 10 famílias, da comunidade de Gois Artigas,
em Inácio Martins/Pr.

Segundo ELENICE, NELSON “era o tesoureiro de um dos grupos de


agricultores de Fernandes Pinheiros ou de Inácio Martins, não se
recordando exatamente de qual dos dois;” (fls. 7 do Evento 262 –
Anexo 4).

Relativo à Roberto:
Presidente da Associação de abril de 2011 a abril de 2012, segundo
NELSON (fls. 6 do Evento 262 – Anexo 10).
Segundo ELENICE, ROBERTO CARLOS “era o tesoureiro da
associação e era o responsável pelo pagamento aos produtores” (fls. 7
do Evento 262 – Anexo 4). Apontou-o, também como o responsável
pelo saque dos recursos do programa no banco (fls. 13 do Evento 262
– Anexo 4).

A peça acusatória imbuída de fragilidade material e formal para a denúncia, bem


como a posterior decisão do magistrado (ANEXO 4) pela prisão preventiva dos autores,
evidenciam não só a ilegalidade da prisão preventiva, mas a desproporcionalidade da
decisão e elementos persecutórios a pequenos agricultores familiares, que realizam tão
somente a organização e comercialização de alimentos saudáveis para famílias e
instituições carentes no interior do Paraná.
Ademais, durante a fase investigatória, ou seja, antes do cumprimento do
mandado de prisão dos agricultores, não houve qualquer notificação à direção da
Associação São Francisco de Assis para a apresentação de documentos e eventual
averiguação de irregularidades. De acordo com a própria modalidade de
comercialização do PAA pela Cédula de Produto Rural – CPR Doação, ocorrendo
impropriedades e/ou irregularidades na execução do compromisso, a CONAB se
obrigava a notificar, de imediato, o dirigente da associação/cooperativa, a fim de
proceder ao saneamento requerido ou cumprir a obrigação em 15 dias:

“...a) quando não houvesse comprovação da correta aplicação de


recursos, na forma da legislação cabível, inclusive mediante
procedimentos de fiscalização local, realizados periodicamente pela
CONAB ou por órgão competente do Sistema de Controle Interno do
Poder Executivo Federal; b) quando verificados atrasos não
justificados no cumprimento das etapas ou fases programadas, práticas
atentatórias aos princípios fundamentais da Administração Pública nas
contratações e condições estabelecidas nesta CPR – Doação e c)
quando a associação/cooperativa descumprisse quaisquer das
condições estabelecidas na CPR – Doação, principalmente quanto à
destinação dos produtos....” (ANEXO 7 ).

Os autores foram presos preventivamente por cerca de 60 (sessenta) dias, sem


qualquer proporcionalidade da medida. Se tratavam de agricultores familiares e réus
primários, que inclusive sequer tinham estado em qualquer delegacia antes dos fatos11
(ANEXO 12 - Antecedentes Criminais dos autores).

Não se ostentava motivo legal suficiente ao enquadramento em uma das


hipóteses cabíveis para a prisão cautelar. Afinal, a conversão em prisão preventiva seria
cabível somente diante dos requisitos dos arts. 312 e 313 do CPP, situações que não se
verificaram no quadro, vez que sequer presentes indícios de que os autores em liberdade
colocariam em risco a instrução criminal, a ordem pública ou risco à ordem econômica.

Como aponta o art. 321 do CPP, “ausentes os requisitos que autorizam a


decretação da prisão preventiva, o juiz deverá conceder liberdade provisória, impondo,
se for o caso, as medidas cautelares previstas no art. 319 (...)”. Ou seja, a prisão

11
Cartas de apoio de outros agricultores e familiares podem ser verificadas no Anexo 13, comprovando
os bons antecedentes sociais dos autores e a incredulidade ante a medida de prisão adotada.
preventiva será mantida somente quando presentes os requisitos e não for cabível a sua
substituição por outra medida cautelar, conforme clara redação do art. 282, §6º do CPP.

A propósito, a prisão preventiva tem caráter cautelar diante da manutenção das


circunstâncias que a fundamentam, presentes no art. 282 do CPP, como a necessidade e
adequação da medida. Tais requisitos devem estar presentes não somente no ato da
prisão, mas durante todo o lapso temporal de sua manutenção, o que não se manteve
de sobremaneira durante o período que os autores ficaram presos.

Todavia, considerando que a prisão ocorreu, não permaneceu qualquer risco à


investigação ou instrução criminal, desfazendo-se qualquer periculum libertatis que
pudesse fundamentar a continuidade da prisão. Deste modo, a prisão só deve ser cabível
e mantida quando o perigo da liberdade está posto, do contrário esta não deve ocorrer,
conforme decidiu o STJ:

“Sabe-se que o ordenamento jurídico vigente traz a liberdade como


regra. Desse modo, antes da confirmação da condenação pelo Tribunal
de Justiça, a prisão revela-se cabível tão somente quando estiver
concretamente comprovada a existência do periculum libertatis, sendo
impossível o recolhimento de alguém ao cárcere caso se mostrem
inexistentes os pressuposto autorizadores da medida extrema, previsto
na legislação processual penal.” (HC 430.460/SP, Rel. Ministro
ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, DJe
16/04/2018.)

Portanto, ausentes os requisitos que pudessem motivar a manutenção da prisão


cautelar, tem-se a configuração de ABUSO DE AUTORIDADE e ILEGALIDADE da
medida adotada. Assim, ilícita e abusiva a manutenção da prisão decretada, uma vez
que não subsistiam motivos à sua manutenção, conforme precedentes sobre o tema.

A prisão ilegal foi movida por erro judiciário, prisão ex officio decretada pelo
magistrado e absolvição posterior que reforçou a inexistência de indícios de delito e,
menos ainda, de provas condenatórias, o que torna necessária a reparação do Estado
para com os autores desta ação.

A prisão indevida revela ofensa à honra, à imagem, mercê de afrontar o mais


comezinho direito fundamental à vida livre e digna. A absolvição futura revela a
ilegitimidade da prisão pretérita, cujos efeitos deletérios para a imagem e honra do
homem são inequívocos (notoria non egent probationem”. O que, como nos aponta a
jurisprudência dos tribunais superiores, “dispensa prova de sua existência pela
inequivocidade da ilegalidade da prisão” (REsp 427.560/TO, Rel. Ministro LUIZ
FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 05/09/2002, DJ 30/09/2002, p. 204).

Nas palavras de Aury Lopes Junior, dada a gravidade da restrição da liberdade


do cidadão, bem como pela irreparabilidade de seus efeitos, as prisões cautelares
exigem o fumus commissi delicti:

A existência de sinais externos, com suporte fático real, extraídos dos


atos de investigação levados a cabo, em que por meio de um
raciocínio lógico, sério e desapaixonado, permita deduzir com maior
ou menor veemência a comissão de um delito, cuja realização e
consequências apresentam como responsável um sujeito concreto12.

Não bastando simples indícios para a decretação de prisão preventiva, ainda


mais tratando-se de réus primários, com inegável prestígio social na comunidade em
que estavam inseridos.

Conforme leciona Eugênio Pacelli, a prisão preventiva é a última das medidas


cautelares, devendo ser necessária, adequada e proporcional, sempre com respeito à
vedação dos excessos para preservar a máxima efetividade dos direitos fundamentais:

A regra deverá ser a imposição preferencial das medidas cautelares,


deixando a prisão preventiva para casos de maior gravidade, cujas
circunstâncias sejam indicativas de maior risco à efetividade do
processo ou de reiteração criminosa. Esta, que em princípio, deve ser
evitada, passa a ocupar o último degrau das preocupações com o
processo, somente tendo cabimento quando inadequadas ou
descumpridas aquelas (as outras medidas cautelares).13

No caso em tela, nenhuma outra medida cautelar sequer foi arbitrada e


muito menos descumprida antes de ser decretada a prisão dos autores. Na verdade,
no momento da prisão os agricultores familiares sequer tinham conhecimento das
investigações da “Operação Agrofantasma”.

Subentende-se que as medidas extremas adotadas, como as prisões preventivas,


tinham o condão de midiatização do processo e condução política e parcial das

12
Prisões cautelares / Aury Lopes Jr. – 5. ed. rev., atual. e ampl. – São Paulo: Saraiva, 2017.
13
PACELLI, Eugênio. Curso de Processo Penal. São Paulo: Atlas, 2012, p. 498.
investigações. Isto é, pouco importava o resultado efetivo da medida cautelar aplicada
para a busca da verdade material do processo penal, mas a utilização abusiva dos meios,
que se mostrou ineficaz, desproporcional e abusiva com a sentença absolutória na 13ª
Vara Federal de Curitiba.

b) DO ERRO JUDICIÁRIO

Vislumbra-se caso concreto de erro judiciário que gerou irreversíveis danos aos
autores e familiares. Para isto deve haver a justa responsabilização do Estado e a devida
indenização, isto é, garante-se a reparação ao indivíduo condenado por erro judiciário.
Observe os seguintes dispositivos legais:

Art. 5º, inc. LXXV (CF/88): “o Estado indenizará o condenado por


erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na
sentença”.
Art. 630 do Código de Processo Penal: O tribunal, se o interessado o
requerer, poderá reconhecer o direito a uma justa indenização pelos
prejuízos sofridos.
§1º: Por essa indenização, que será liquidada no juízo cível,
responderá a União, se a condenação tiver sido proferida pela justiça
do Distrito Federal ou de Território, ou o Estado, se o tiver sido pela
respectiva justiça.

A doutrina estabelece que as principais causas do erro judiciário são: a) erro ou


ignorância; b) dolo, simulação ou fraude; c) erro judiciário decorrente da culpa; d)
decisão contrária à prova dos autos; e) erro provocado não imputável ao julgador; f)
errada interpretação da lei; g) erro judiciário decorrente da aplicação da lei14.

O erro judiciário deve ser entendido como ato jurisdicional equivocado e


gravoso a alguém, tanto na órbita penal como cível, e configura-se como o ato emanado
da atuação judicial do magistrado no exercício da função jurisdicional. Para identificar o
erro é preciso uma decisão contrária à lei ou à realidade fática, como por exemplo o
indevido exercício da jurisdição, motivada por dolo, fraude ou má-fé.

14
HENTZ, Luiz Antônio Soares. Indenização do erro judiciário e danos em geral decorrentes do serviço
judiciário. São Paulo: Leud, 1995.
Desse modo, não compete às partes suportar os danos decorrentes de condutas
dolosas e culposas praticadas pela autoridade judiciária, em claro intuito de ofender a
autoridade que lhe é investida, agindo com abuso de direito e desvio de função15.

Assim, só será possível reconhecer a injustiça da condenação, segundo a dicção


do art. 630 do CPP, quando for intencional ou decorra de desídia ou equívoco
inescusável.

O erro ao qual se refere no sentido genérico a Constituição está relacionado a


qualquer tipo de prisão, seja definitiva, seja decorrente de sentença, seja, ainda,
preventiva, cautelar ou provisória. A Carta Magna refere-se ao erro judicial in genere e
não apenas ao erro judiciário decorrente da aplicação da lei, isto é, ao erro substancial e
inescusável, plasmado no dolo, na fraude ou na culpa stricto sensu, que poderá
empenhar responsabilidade do estado por erro judiciário.

O entendimento de Manoel Gonçalves Ferreira Filho quando preleciona é nesse


sentido: "É razoável que se indenize quem sofreu erro judiciário. A sociedade deve-lhe
reparação pelo dano material ou moral que tenha sofrido. Ao Estado cabe, nesse caso,
a responsabilidade objetiva, pois é ele quem representa a sociedade como um todo16”.

A responsabilidade do Estado por ato de seus juízes ocorre no erro judiciário ou


nas demais hipóteses previstas na Constituição, tais como a prisão indevida e a prisão
além do tempo fixado na sentença. É diante do caso de prisão indevida que se trata a
presente demanda.

É claro que tais circunstâncias lhes ocasionaram dor e sofrimento pelo


constrangimento suportados em grave abalo moral. Desta forma, mostra-se inequívoco o
dano moral sofrido pelos autores, pois se viram presos, com seus nomes em registros
policiais e autos penais, bem como em veículos de comunicação de abrangência
nacional, sem qualquer justificativa plausível e em decorrência da desídia na
investigação e ação penal, sendo causa suficiente para ensejar o dever de indenizar do
Estado.

15
ALMEIDA, V. L. A responsabilidade civil do Estado por erro judiciário sob a ótica do sistema
lusófono Análise nos ordenamentos jurídicos português e brasileiro. Revista de Informação Legislativa.
Brasília a. 49 n. 196 out./dez. 2012.
16
Comentários à Constituição Brasileira de 1988, 2/ ed., São Paulo, Saraiva, 1997, vol. I, p. 83
A esse respeito, o Supremo Tribunal Federal já decidiu sobre a absolvição futura
e ilegitimidade da prisão pretérita, logo a indenizabilidade por erro judiciário:

PROCESSO CIVIL. ERRO JUDICIÁRIO. ART. 5º, LXXV, DA CF.


PRISÃO PROCESSUAL. POSTERIOR ABSOLVIÇÃO.
INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS.
1. A prisão por erro judiciário ou permanência do preso por tempo
superior ao determinado na sentença, de acordo com o art. 5°, LXXV,
da CF, garante ao cidadão o direito à indenização.
2. Assemelha-se à hipótese de indenizabilidade por erro judiciário,
a restrição preventiva da liberdade de alguém que posteriormente
vem a ser absolvido. A prisão injusta revela ofensa à honra, à
imagem, mercê de afrontar o mais comezinho direito fundamental
à vida livre e digna. A absolvição futura revela da ilegitimidade da
prisão pretérita, cujos efeitos deletérios para a imagem e honra do
homem são inequívocos (notoria non egent probationem).
3. O pedido de indenização por danos decorrentes de restrição ilegal à
liberdade, inclui o "dano moral", que in casu, dispensa prova de sua
existência pela inequivocidade da ilegalidade da prisão, duradoura por
nove meses. Pedido implícito, encartado na pretensão às "perdas e
danos". Inexistência de afronta ao dogma da congruência (arts. 2°, 128
e 460, do CPC).
4. A norma jurídica inviolável no pedido não integra a causa petendi.
"O constituinte de 1988, dando especial relevo e magnitude ao status
lebertatis, inscreveu no rol das chamadas franquias democráticas uma
regra expressa que obriga o Estado a indenizar a condenado por erro
judiciário ou quem permanecer preso por tempo superior ao fixado
pela sentença (CF, art. 5º, LXXV), situações essas equivalentes a de
quem submetido à prisão processual e posteriormente absolvido." 5. A
fixação dos danos morais deve obedecer aos critérios da solidariedade
e exemplaridade, que implica na valoração da proporcionalidade do
quantum e na capacidade econômica do sucumbente.
6. Recurso especial desprovido.
(REsp 427.560/TO, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA,
julgado em 05/09/2002, DJ 30/09/2002, p. 204). - grifos nossos.

Na mesma toada decidiu o Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso do


Sul, arbitrando o quantum indenizatório por erro judiciário no valor de R$ 30.000,00
(trinta mil reais) em razão de danos morais:

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS


– RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO ESTADO – ERRO
JUDICIÁRIO – CONFIGURADO. DANO MORAL. PRESUMIDO.
DANOS MATERIAIS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO.
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. A absolvição criminal
por meio de ação de revisão criminal caracteriza o erro judiciário.
A responsabilidade civil do Estado por erro judiciário é objetiva.
Precedentes do STF. É presumido o dano moral causado pela
condenação criminal posteriormente desconstituída em ação
revisional. [...]. Recurso parcialmente provido para condenar o
Estado de Mato Grosso do Sul ao pagamento de indenização por
danos morais no valor de R$ 30.000,00 (trinta mil reais).
(Apelação n. 0802699-43.2013.8.12.0008 – Corumbá, 4ª. Câmara de
Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul, Rel.
Des. Odemilson Roberto Castro Fassa, j. 09.12.2015). - grifos nossos.

Isto é, a posterior absolvição de todos os quase 50 acusados, entre eles os autores


desta ação, evidencia a ausência de indícios da decretação da prisão preventiva, que não
se enquadram, V. Exa., em nenhum dos três requisitos: a) materialidade e indício de
autoria, b) perigo na liberdade do agente e c) cabimento. Portanto, o erro judiciário
provoca danos materiais e morais aos autores, sendo crucial a responsabilização do
Estado com a determinação do dever de indenizá-los.

c) DO ABUSO DE AUTORIDADE E EXCESSO POLICIAL

Outrossim, a abordagem policial no curso do cumprimento do mandado de busca


e apreensão está comprovadamente caracterizada por excesso e despropósito. Os autores
merecem reparação de danos em razão de abuso de autoridade e violência policial que
implica responsabilidade civil objetiva do Estado com base no art. 37, §6º, Constituição
Federal. Os danos e nexos causais são comprovados pelo abalo pós-traumático dos
familiares e uma geral associação de grave criminalidade ao Autores pelos munícipes
em decorrência destes fatos.

O abuso de autoridade se configura sempre que, de posse do poder conferido


por lei para o exercício de uma função pública, o agente desvia a finalidade almejada e
comete abuso em seus atos, conforme expresso na Lei n. 13.869/2019:

Art. 1º. Esta Lei define os crimes de abuso de autoridade, cometidos


por agente público, servidor ou não que, no exercício de suas funções
ou a pretexto de exercê-las, abuse do poder que lhe tenha sido
atribuído.

No presente caso, conforme relatado, o abuso configura-se por uma soma de


ações por parte dos agentes policiais: a) constranger os autores e seus familiares, ao
adentrar as residências acordando todos, inclusive crianças e pessoas com deficiência;
b) ao desferir calúnias contra os autores na presença das esposas e filhos, inclusive com
falsa imputação de denúncia de tráfico de drogas; c) ao utilizar-se violência e algemá-
los sem qualquer resistência ou ameaça - inclusive utilizando-se de algemas na cintura
de Nelson Macarroni durante todo o percurso até a delegacia; d) ao lhes privarem do
uso do banheiro e de refeições durante todo o dia da condução coercitiva; e) ao
incitarem os autores falarem mesmo diante do direito de permanecer em silêncio.

No que tange ao uso desnecessário das algemas, haja vista que os autores não
apresentavam perigo a integridade física ou alheia, cabe rememorar o Enunciado da
Súmula Vinculante 11 do Supremo Tribunal Federal, o que foi alertado inclusive no
próprio mandado de busca e apreensão (ANEXO 4):

Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado


receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia,
por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por
escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do
agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a
que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.

Além disso, salienta-se a abordagem vexatória realizada na residência dos


autores, sobretudo na casa de Nelson Macarroni. Conforme já exposto nos fatos, os
agentes policiais revistaram toda a casa, a horta e em atitude de extrema má-fé (ou
atitude caluniosa), informaram à família do agricultor que a acusação se tratava de
tráfico e que estavam à procura de drogas ilícitas.

A esposa de Nelson Macaroni, Sra. Alzira, ficou extremamente abalada


emocionalmente ao ser informada sobre o suposto envolvimento do marido com drogas,
uma vez que a família é religiosa e nunca havia utilizado qualquer substância ilícita.
Percebe-se que a falsa acusação pelos agentes policiais, além de causar intensa
humilhação, também poderia incorrer como prática caluniosa, uma vez que Nelson não
estava sendo investigado em momento algum por tráfico de drogas, como preceitua o
art. 138 do Código Penal Brasileiro.
Os agentes policiais federais, ao atuarem no exercício de suas funções, devem
observância aos limites e exigências legais, sendo a atividade policial, por sua natureza
social e situacional, essencial ao cumprimento das funções de segurança pública.
Quando se realiza uma ação que excede ao poder policial, como o uso de algemas
desnecessárias e a humilhação às quais os autores e seus familiares foram submetidos,
há extrapolação na competência dada pela lei para o cumprimento correto das normas
sociais.

Nos dizeres de Carvalho Filho, o “excesso de poder é a forma de abuso própria


da atuação do agente fora dos limites de sua competência administrativa"17. De acordo
com Cretella Jr.,18 a faculdade repressiva não é ilimitada. Está sujeita a limitações
jurídicas, “aos quais cabe mencionar: dos direitos do cidadão, as prerrogativas
individuais e liberdades públicas asseguradas na Constituição e nas leis”.

Assim, considerando a abusividade no referido ato de forma ilegal, bem como o


constrangimento público em que os autores foram submetidos sem a observância do
devido processo legal, tem-se configurado o abuso de autoridade conforme precedentes
sobre o tema.

Nas primeiras horas da manhã, diversos policiais chegaram em cada residência


familiar, com armas de grande porte, invadiram as residências, revirando todos objetos,
documentos, desferindo acusações desqualificadas do caso, que abalam a moral dos
autores, bem como causam traumas aos familiares, submetendo assim, toda a rede
familiar, inclusive filhos com deficiência a uma abordagem descabida e
desproporcional.

A dignidade da pessoa humana é um dos princípios fundamentais da


Constituição Brasileira devendo ser preservada em toda e qualquer tipo de situação, seja
ela prisão ou outras formas de confronto.

O abuso de autoridade gera dano moral, sem a necessidade de comprovar


prejuízo concreto. Os transtornos, a dor, o sofrimento, o constrangimento e o vexame
que a vítima experimenta dispensam qualquer outra prova além do próprio fato, é assim
que decidiu o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará:

17
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de direito administrativo. 32. ed. rev., atual. e ampl.
São Paulo: Atlas, 2018, p. 108.
18
CRETELLA JÚNIOR, José. Curso de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Forense, 1977, p. 601.
REMESSA NECESSÁRIA E APELAÇÃO CÍVEL.
RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. INDENIZAÇÃO POR
DANOS MORAIS CONFIGURADOS. ABORDAGEM DE
POLICIAL. ABUSO DE AUTORIDADE. APELAÇÃO CONHECIDA
E PARCIALMENTE PROVIDA. 1 - O Estado responde objetivamente
pelo ilícito praticado pelo agente público no exercício da função ou em
razão dela. Inteligência do art. 37, § 6º, da CF. 2 - A abordagem com
excesso feita por policial, constitui abuso de autoridade, configurando o
denominado dano moral, situação que dispensa a prova de prejuízo
concreto, uma vez que os transtornos, a dor, o sofrimento, o
constrangimento e o vexame a que o autor foi exposto prescindem de
qualquer outra prova, além do próprio fato. 3 - A fixação do quantum
indenizatório deve sopesar critérios objetivos como a condição
econômica das partes, a gravidade do dano, o grau de culpa, atendendo,
especialmente, para o caráter punitivo-pedagógico inerente a
indenização em tais casos, sem acarretar o enriquecimento ilícito da
vítima. 4 - O valor da reparação deve compreender, dentro do possível,
a compensação pelo dano infligido à vítima, ao mesmo tempo servindo
de freio, de elemento inibidor e de sanção ao autor do ato ilícito, a fim
de que não o volte a repetir. Hipótese em que deve ser reduzido para R$
40.000,00, por apresentar consentâneo aos parâmetros de fixação desta
Corte. 5 - Recurso Apelatório conhecido e parcialmente provido para
minorar o valor da condenação em danos morais para R$ 40.000,00,
fixando a verba honorária em R$ 1.000,00 (um mil reais), com base no
art. 20, § 4º, do CPC" (fl. 138). (TJ-CE, Apelação Cível
2000.0133.0219-2/1; APELANTE: ESTADO DO CEARÁ;
APELADO: JOSÉ WALTER CAVALCANTE DA SILVA; ÓRGÃO
JULGADOR: 3a CÂMARA CÍVEL; RELATOR: DES. CELSO
ALBUQUERQUE MACÊDO, 16.12.2009).

No mesmo sentido:

AGRAVO INTERNO. APELAÇÃO CÍVEL. Indenizatória. Abuso de


poder perpetrado por policiais militares. Autor que foi
indevidamente preso e algemado, tendo a abordagem policial
excedido os limites da lei e da razoabilidade. Depoimentos
testemunhais que corroboram as alegações autorais de agressão e
excesso no cumprimento do dever policial. Responsabilidade do
Estado. Violação da liberdade e da dignidade da pessoa humana,
bens tutelados constitucionalmente. Dano moral configurado.
Quantum indenizatório corretamente fixado em R$ 30.000,00, que
se mostra justo e adequado, atendendo aos critérios de
razoabilidade e proporcionalidade. Verba honorária devidamente
arbitrada, em consonância com o disposto no art. 20, § 4º do CPC.
Reforma parcial da sentença apenas com relação aos juros moratórios,
devendo ser aplicado o art. 1º -F da Lei 9.494/97, contudo, em sua
redação originária, considerando a declaração de inconstitucionalidade
por arrastamento do artigo 5º da Lei n.º 11.960/2009 pelo STF, no
julgamento da ADI 4425/DF. Decisão monocrática mantida. Insurge-
se o agravante para que a matéria seja apreciada pelo Órgão
Colegiado. RECURSO IMPROVIDO. (TJ-RJ - APL:
00153392720108190007 RIO DE JANEIRO BARRA MANSA 3
VARA CIVEL, Relator: PEDRO SARAIVA DE ANDRADE
LEMOS, Data de Julgamento: 08/10/2014, DÉCIMA CÂMARA
CÍVEL, Data de Publicação: 16/10/2014) - grifos nossos

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA.


RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. AUTORES
INDEVIDAMENTE EXPOSTOS À IMPRENSA COMO
CRIMINOSOS. ABUSO DE DIREITO DOS AGENTES POLICIAS.
DANOS MORAIS. Legitimidade passiva do Estado, eis que a causa
de pedir é a conduta policial consistente em apresentar os autores à
imprensa, imputando-lhes a indevida pecha de meliantes. Ilegalidade
da prisão dos autores (pai e filho) robustamente demonstrada.
Ilicitude da conduta dos agentes policiais, consistente em divulgar
para a imprensa as prisões ilegais, obrigando os autores a
posarem para fotografias e filmagens, tachando-os de criminosos.
Franco abuso de direito por parte dos agentes estatais. Policial que
admite ter contatados os repórteres. Patente ilegalidade da conduta de
exibir cidadãos sob a custódia estatal, presos ilegalmente, à imprensa
para execração pública, denegrindo sua honra. Humilhação sofrida ao
ser exposto como marginal pelos policiais. Danos morais. Ofensa à
honra, à imagem e à dignidade da pessoa humana, que não exige a
comprovação dos seus reflexos, os quais emergem in re ipsa. Verba
indenizatória. Parâmetros. Intensidade do sofrimento da vítima,
reprovabilidade do ato do causador do dano e caráter punitivo da
reparação. Valor de R$ 10.000,00, fixado pela sentença, que se mostra
parco. Quantia de R$ 15.000,00, que guarda observância aos
princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Precedentes do
TJRJ. PARCIAL PROVIMENTO DO PRIMEIRO RECURSO E
DESPROVIMENTO DO SEGUNDO.
(TJ-RJ - APL: 01185868120068190001 RIO DE JANEIRO
CAPITAL 10 VARA FAZ PUBLICA, Relator: CELIA MARIA
VIDAL MELIGA PESSOA, Data de Julgamento: 24/08/2010,
DÉCIMA OITAVA CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação:
30/08/2010) - grifos nossos.

Ademais, a busca e apreensão na Sede da Associação deu-se sem a devida


autorização judicial (ANEXO 4, fls. 42). As buscas foram autorizadas apenas na sede
da “COANA - Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária Avante Ltda” e nas
residências dos investigados.

É flagrante a ilegalidade da ação das forças policiais ao revirarem documentos e


computadores na secretaria da Associação dos Grupos de Agricultura Ecológica São
Francisco de Assis, caracterizando grave ofensa aos princípios constitucionais da ampla
defesa, do contraditório e do devido processo legal.

Restou demonstrado, portanto, o excesso na atuação dos policiais da Polícia


Federal, os quais atenderam ao mandado de busca e apreensão em absoluto
descabimento. Deste modo, deve a União ser responsabilizada pela conduta de seus
agentes, com a devida condenação desta à indenização dos Autores por danos morais,
decorrente de abuso de poder na operação policial mencionada, com fixação de juros
moratórios a contar do evento danoso.

d) DA QUEBRA DO DEVER DE IMPARCIALIDADE E DA BOA-FÉ


PROCESSUAL

No caso em tela, configura-se a má-fé processual nos elementos contraditórios,


desproporcionais e irrealistas empregados no decurso da ação processual,
exemplificados nos atos e vícios executados.

A má-fé processual é reprimida veementemente pelo Código de Processo Civil,


fortalecendo escopo protetivo do Estado em prol do detentor do direito, como se verifica
nos artigos 79 a 81 do CPC:

Art. 79. Responde por perdas e danos aquele que litigar de má-fé
como autor, réu ou interveniente
Art. 80. Considera-se litigante de má-fé aquele que:
I – deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato
incontroverso;
II – alterar a verdade dos fatos;
III – usar do processo para conseguir objetivo ilegal;
IV – opuser resistência injustificada ao andamento do processo;
V – proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do
processo;
VI – provocar incidente manifestamente infundado;
VII – interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório.
O Código de Processo Civil também determina, em seu artigo 5º, que todos os
partícipes do processo procedam com lealdade e boa-fé. O Magistrado também deve ser
considerado como partícipe fundamental no processo:

A boa-fé aplica-se, também, ao magistrado. O magistrado deve velar


para que os atos processuais se celebrem com a máxima pontualidade
e para que os processos a seu cargo sejam solucionados em um prazo
razoável, reprimindo toda e qualquer iniciativa dilatória ou atentatória
à boa-fé processual, consoante estabelecido no artigo 20 do Código de
Ética da Magistratura Nacional (CEMN).
Através do referido dispositivo pode-se inferir que cabe ao juiz
fiscalizar o processo, de modo a garantir seu funcionamento regular. É
nessa função de supervisão do processo que o magistrado deve zelar
para que as partes atuem de acordo com a boa-fé. 19

A boa-fé objetiva implica sobretudo imparcialidade e equidistância das partes,


conforme dispõe o art. 139, I, do CPC, segundo o qual o juiz dirigirá o processo,
assegurando às partes igualdade de tratamento. A imparcialidade também é conduta
obrigatória no Código de Ética da Magistratura Nacional (CEMN):

O CEMN, em seu artigo 9º veda expressamente que o magistrado, no


desempenho de sua função, dispense qualquer forma de injustificada
discriminação entre as partes, definindo, no artigo 8º, o magistrado
imparcial como aquele que busca nas provas a verdade dos fatos,
com objetividade e fundamento, mantendo ao longo de todo o
processo uma distância equivalente das partes, e evitando todo tipo
de comportamento que possa refletir favoritismo, predisposição
ou preconceito. Não deve, portanto, tão somente se posicionar-se de
forma equidistante das partes, mas buscar compensar a
hipossuficiência de uma das partes, se necessário à garantia do
equilíbrio processual, dando razão a quem lhe é de direito, seja
este o poderoso ou o vulnerável. 20

A violação da imparcialidade pode, inclusive, caracterizar-se como ativismo


judicial. A imparcialidade é garantia que corresponde à posição de terceiro que o Estado

19
LIMA, Jessica Paola Perez. A boa-fé do magistrado no processo de conhecimento à luz do novo código
de processo civil. Escola da Magistratura do Rio de Janeiro, 2018.
20
Idem.
ocupa no processo, por meio do juiz, atuando como órgão supraordenado às partes ativa
e passiva. Mais do que isso, exige uma posição de estar alheio aos interesses das partes
na causa, ou, não significa que ele está acima das partes, mas que está para além dos
interesses delas21.

A decisão judicial pela prisão preventiva dos autores (ANEXO 4) ante a


manifestação do MPF sobre a adequabilidade de imposição de medidas cautelares
alternativas apresenta evidentemente o comprometimento da imparcialidade do juiz.

Verifica-se, em tela, a prevalência da figura do juiz-instrutor ou mesmo


inquisidor, ao decretar desproporcionalmente – de ofício – a prisão preventiva.
Assume o juiz uma postura incompatível com aquela exigida pelo sistema acusatório e,
principalmente, com o afastamento que garante a imparcialidade.

Tais manobras processuais indicam cabalmente que as prisões decretadas foram


fruto do espetáculo judicial, que objetivava mais a midiatização do processo, com
condenações sociais antecipadas, do que a devida instrução e produção probatória.

Verifica-se, com base no deslinde processual e no impacto midiático, que a


Operação Agrofantasma foi deflagrada com objetivo claramente político, inclusive com
diversas declarações de representantes do sistema de justiça de forma precipitada, com o
fim de ensejar comoção popular.

Com base em pesquisa simples pelas partes autoras, verifica-se ao menos 98


notícias, sendo que 65 destas notícias ou reportagens tendenciosas foram publicadas no
ano de 2013, cobrindo, portanto, a denúncia e a prisão, e somente 33 foram publicadas
após a absolvição em 2016. Demonstra-se também que a cobertura da imprensa foi
bastante ampla ao caso, com atuação de diversos canais de mídia, tendo sido possível
identificar matérias em 62 diferentes canais.

Nota-se que somente em 2013, ano em que a Operação Agrofantasma foi


deflagrada, no mínimo 65 matérias foram publicadas por 39 fontes de repercussão
nacional como a Folha de São Paulo, o Estadão, a Revista Veja, o Canal Rural, o Uol, o
Valor Econômico, a Revista Istoé e a Tribuna-PR (ANEXO 17).

21
COUTINHO, J. N. de M. O papel do novo juiz no processo penal. In: Crítica à Teoria Geral do Direito
Processual Penal, Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 11.
Algumas das manchetes contam com entrevistas e depoimentos de agentes do
sistema de justiça, que utilizam de sua posição para “condenar” antecipadamente os
agricultores familiares:

A matéria acima conta com depoimento do então Sr. Delegado da Polícia


Federal no Paraná, Maurício Todeschini, com trechos como: “Não pegamos nem
metade” ao se referir aos agricultores presos, além de elastecer o rol de supostos delitos
cometidos, “De acordo com a polícia, entre os principais crimes cometidos pela
quadrilha estão falsidade ideológica, estelionato, peculatos culposo e doloso e
prevaricação – que é o ato de retardar, deixar de praticar ou praticar indevidamente
uma ação para interesse próprio”.

Em matéria publicada pela Revista Veja assim que deflagrada a Operação, o


colunista utiliza termos pejorativos e acusações contra os alvos da investigação:
Destacam-se alguns trechos da matéria, como “Não é bacana? Como se nota,
enfiar a mão em grana, nesse meio, significa literalmente, roubar comida da boca das
criancinhas e dos miseráveis.’’ e ‘’É claro que os pobres brasileiros precisam da ação
assistencial do estado. Mas de qual? Do que se deixa infiltrar por gente que,
literalmente, tira a comida da boca dos infantes?’’

Após ampla divulgação pela imprensa, os agricultores familiares relataram que


se isolaram do convívio na comunidade rural em que moravam.

Assim, mesmo sendo apenas investigados, a imagem que Gelson Luiz de Paula,
Nelson Macarroni e Roberto Carlos dos Santos passaram a ter nos meios em que
frequentavam, é a de pessoas criminosas, responsáveis por “tirar comida da boca de
crianças pobres”, afinal, tiveram amplamente divulgada uma investigação que, somente
depois de quase sete anos, foi concluída com a absolvição de todos os acusados.

Além disso, em contrapartida às matérias publicadas logo após a deflagração da


investigação, houve somente 33 publicações (ou seja, um terço das matérias totais
publicadas, com base na pesquisa realizada) após a sentença absolutória proferida pela
Exma. Juíza Federal Gabriela Hardt.

Isto é, o sentido da prisão cautelar, sem os devidos elementos probatórios e a


posterior absolvição dos autores tratam de dimensão objetiva da comprovação da
ausência de boa-fé na condução processual criminal, indicando politização do processo
via midiatização.

Como tais atos processuais foram arbitrários e de má-fé, com intento de causar
prejuízo aos autores, vez que a medida era explicitamente desproporcional e abusiva, é
devida indenização por danos morais aos autores:

DIREITO ADMINISTRATIVO - APELAÇÃO - AÇÃO DE


INDENIZAÇÃO - PRISÃO EM FLAGRANTE E DENÚNCIA -
CONDENAÇÃO EM PRIMEIRO GRAU E ABSOLVIÇÃO NA
SEGUNDA INSTÂNCIA - PRISÃO QUE PERDURA ATÉ A DATA
DA ABSOLVIÇÃO - EXERCÍCIO REGULAR DO DIREITO - MÁ-
FÉ E ARBITRARIEDADE - AUSÊNCIA DE PROVA - RECURSO
DESPROVIDO. - Para que o acusado na esfera criminal tenha o
direito de se ver indenizado por danos morais, não basta a
absolvição, sendo necessária a prova de que a prisão em flagrante
e a prisão provisória foram arbitrárias, ou de que a denúncia e a
condenação na primeira instância se fizeram de má-fé, com
deliberado intuito de causar prejuízo. V.v. - Não obstante a
reiterada omissão legislativa no que diz respeito à fixação do tempo da
prisão preventiva, parece óbvio que a garantia de um prazo razoável a
tal medida cautelar merece ser respeitada. - Nada pode justificar a
permanência de uma pessoa na prisão, sem culpa formada, quando
configurado excesso irrazoável no tempo de sua segregação cautelar,
considerada a excepcionalidade de que se reveste, em nosso sistema
jurídico, a prisão meramente processual do indiciado ou do réu (STF -
HC 95464, Relator: Min. CELSO DE MELLO Segunda Turma, j.
03/02/2009). - Não se verifica nenhuma excepcionalidade para
justificar que o autor tenha permanecido preso cautelarmente por
mais de um ano, para, ao final, ser declarado inocente,
configurando dano -- moral indenizável. - As pessoas jurídicas de
direito público e as de direito privado prestadoras de serviços
públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa
qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso
contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. Dicção do art. 37,
6°, da CF/88. (TJ-MG - AC: 10625090928007001 São João del-Rei,
Relator: Moreira Diniz, Data de Julgamento: 24/06/2010, Câmaras
Cíveis Isoladas / 4ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação:
09/07/2010). Grifos nossos.

Cabível, portanto, indenização aos autores por danos morais decorrentes de má-
fé e instrumentalização processual no âmbito da Ação Penal n. 5046695-
70.2013.4.04.7000.

VIII. DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA

O ponto central da presente demanda trata-se da Responsabilidade Objetiva do


Estado pelos danos causados por seus agentes, nos termos do art. 37, § 6º, da
Constituição Federal, in verbis:

Art. 37. §6º. As pessoas jurídicas de direito público e as de direito


privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que
seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o
direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa.

Assim, embora legítima a atividade estatal, quando lesiva ao particular enseja o


dever de indenização. Para Maria Sylvia Di Pietro, ao tratar da responsabilidade do
Estado, assevera:

Constituem pressupostos da responsabilidade objetiva do Estado: a)


que seja praticado um ato lícito ou ilícito, por agente público; b) que
esse ato cause dano específico (porque restringe apenas um ou alguns
membros da coletividade) e anormal (porque supera inconvenientes
normais da vida em sociedade, decorrentes da atuação estatal); c) que
haja um nexo de causalidade entre o ato do agente público e o dano”22.

Nesse sentido, ausente qualquer circunstância que afaste a responsabilidade


objetiva da Administração Pública, a demonstração inequívoca do nexo causal entre a

22
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo, 24ª ed. pg. 646.
falha e o dano gerado configura o dever de indenizar. Com esse enfoque, ensina Hely
Lopes Meirelles23:

O exame desse dispositivo revela que o constituinte estabeleceu para


todas as entidades estatais e seus desmembramentos administrativos a
obrigação de indenizar o dano causado a terceiros por seus servidores,
independentemente da prova de culpa no cometimento da lesão.
Firmou, assim, o princípio objetivo da responsabilidade sem culpa
pela atuação lesiva dos agentes públicos e seus delegados...

É do mesmo modo, o disposto no Código Civil: “Art. 43 - As pessoas jurídicas


de direito público interno são civilmente responsáveis por atos dos seus agentes que
nessa qualidade causem danos a terceiros, ressalvado direito regressivo contra os
causadores do dano, se houver, por parte destes, culpa ou dolo.”

Com relação ao tema de responsabilidade civil do Estado por prisão indevida, é


assim o entendimento jurisprudencial quanto à necessidade da indenização em
circunstâncias similares:

Apelação/reexame necessário. Direito administrativo. Ação


indenizatória. Responsabilidade civil do Estado do Rio de Janeiro.
Pretensão objetivando o pagamento de compensação a título de danos
morais. Erro judiciário. Prisão indevida. Não recolhimento dos
mandados de prisão acervo probatório suficiente. Sentença de
procedência, com a condenação do Estado em dano moral.
Recurso do réu. A hipótese é de responsabilidade civil do Estado
por erro judiciário, consubstanciado no não recolhimento dos
mandados de prisão, o que culminou na prisão indevida do autor.
Portanto, é indubitável que a indenização por danos morais é devida.
Responsabilidade objetiva. Art. 37, § 6º, da Constituição Federal.
Conduta, dano e nexo de causalidade devidamente comprovados.
Dever de indenizar decorrente do defeito do serviço público.
Inteligência do art. 9º e inciso nº 5, do Pacto Internacional de
Direitos Civis e Políticos. Danos morais, na forma do art. 5º, LXXV,
da CF. Valor da indenização que considerou o tempo de permanência
no cárcere, além da repercussão e da intensidade do dano causado pela
manutenção da prisão ilegal na vida do autor. Nas condenações não
tributárias impostas à Fazenda Pública, juros de mora e correção
monetária são contados como disposto no art. 1.º-F, da Lei 9.494/97,

23
MEREILLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 16. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,
1991 (p. 551).
consoante modulação dos efeitos do julgamento das ADI's 4.357/DF.
Manutenção da sentença. RECURSO A QUE SE NEGA
PROVIMENTO. (TJ-RJ - APL: 00581472620148190001 RIO DE
JANEIRO CAPITAL 5 VARA FAZ PUBLICA, Relator: JDS ANA
CÉLIA MONTEMOR SOARES RIOS GONÇALVES, Data de
Julgamento: 12/06/2018, NONA CÂMARA CÍVEL, Data de
Publicação: 14/06/2018) - grifos nossos.

Como se vê, o precedente prescreve que não há necessidade de demonstração de


culpa dos agentes públicos, bastando ao interessado comprovar a existência do erro da
máquina estatal, e dos danos dela advindos.

A regra geral considera a tese da irresponsabilidade do Estado por atos de


jurisdição, mas essa irresponsabilidade não se aplica se houver o erro judiciário e a
repercussão danosa, A configuração do dever de indenizar, neste caso, está comprovada
diante da relação entre o nexo causal e a ação administrativa e o dano sofrido pelas
partes-autoras, sendo dispensável a demonstração de culpa.

A qualificação do erro ocorre no plano objetivo, mediante o cotejo entre o fato e


o comportamento que o Estado adota em face dele, observados os ditames legais para
tanto.

No caso em comento, a ação indenizatória é decorrente de alegado erro


judiciário, vez que os autores foram presos preventivamente em fase investigativa de
forma ilegal, e processados criminalmente, com absolvição após cinco anos de
investigação criminal, por falta de provas, além do abuso do poder na condução dos
autores à delegacia.

O processo criminal com a prisão dos autores acarretou danos morais e materiais
aos mesmos e aos familiares, bem como desestruturou uma entidade associativa de
produção e comercialização de alimentos que beneficiava milhares de famílias na região
de Irati, no interior do estado. Ainda, os autores sofreram abalos psicológicos e ofensa à
honra que ensejou em quadros depressivos dos autores e familiares.

Pontes de Miranda aduz que a responsabilidade do juiz ocorre quando pratica


atos lesivos aos jurisdicionados de forma dolosa ou culposa24. No mesmo sentido, José
de Aguiar Dias chama a atenção para a necessidade de se encontrar solução de

24
Pontes de Miranda. Comentários ao Código de Processo Civil. Vol. I, p. 535 a 537.
equilíbrio entre a preocupação da equidade, que não tolera fique a vítima do erro
judiciário sem compensação, e o interesse público de não perturbar o funcionamento da
justiça. A questão cresce em se tratando da justiça criminal, quando estão em jogo
interesses individuais de relevo, como a honra e a liberdade. É aí que a equidade
reclama, com maior força, a reparação daqueles que, por erro judiciário, tenham ficado,
por algum tempo, privados de sua liberdade25.

A reparação do dano por ato jurisdicional, em realidade, está estreitamente


vinculada à existência de um erro judiciário. A decretação da prisão preventiva pelo
Exmo. Magistrado não esteve motivada em juízo limitado de deliberação quanto a
existência do crime e indício suficiente de autoria, por isso se caracteriza erro judiciário
e a responsabilidade do Estado. Novamente, pontua-se que a questão não é somente a
prisão preventiva e absolvição posterior, e repercussão danosa, mas sim a falta de
indícios a decretação da prisão preventiva e o caráter expressivo de indução
processual do Magistrado, que poderia de antemão ter auferido a verdade dos fatos,
que sem sombras de dúvidas teriam descaracterizado qualquer pretensão punitiva dos
autores ou medida cautelar extrema de prisão.

A prova formada nos autos aponta para a existência de erro judiciário. De tal
modo, se aponta a responsabilidade do Estado em razão da injusta prisão durante a
persecução penal, a existência de nexo de causalidade entre a conduta do Estado e a
prisão injusta, bem como a repercussão danosa na esfera material e moral.

Por outro lado, é preciso considerar, quando se fala em erro judiciário criminal,
que ele não se relaciona apenas com a condenação injusta, mas tem um sentido mais
amplo, alcançando também a prisão processual injustificada, e isso é plausível já no
processo anterior à decretação da prisão preventiva. Se tratava evidentemente de
associação de agricultores familiares do interior do Paraná que participavam de um
programa nacional de aquisição de alimentos.

A organização tinha cunho social e solidário desde a sua fundação,


comprometidos com a produção de alimentos saudáveis e a distribuição para as famílias
mais carentes da região, como pode se observar nos anexos a essa exordial. Em nenhum
momento, como aduzido nos fatos, houve comunicação à Associação ou a seus diretores
para esclarecimentos das entregas dos produtos alimentícios realizados, não houve
25
José de Aguiar Dias. Da Responsabilidade Civil, For., vol. II, p. 268.
qualquer possibilidade de entender e exercitar defesa prévia às acusações apresentadas
na investigação.

O processo foi conduzido em base de provas falhas e testemunhos enviesados.


Como salienta José de Aguiar Dias: “[...] É difícil ocorrer prisão preventiva que se
mostre de todo desautorizada; e, quando assim não aconteça, não é possível reconhecer
indenização ao prejudicado. Mas quando ela assume todos os característicos do erro
judiciário, a indenização é devida, porque o fundamento da reparação não é o ato
ilícito, mas o risco social, que, embora nem sempre se confesse, se insinua, como
expressão da consciência jurídica, na obra legislativa”26.

Como se verifica da sentença absolutória, em 2017, proferida pela Exma. Juíza


Federal Gabriela Hardt:

A questão é que, durante a instrução processual desta ação penal,


essas alegações foram confrontadas por indícios contrários, tanto
de natureza documental quanto depoimentos, não havendo como
se formar certeza suficiente de materialidade criminal. (ANEXO
6, p. 10).

Isto é, a própria sentença reconhece a insuficiência dos elementos probatórios e


contradições durante a instrução processual. Ademais, não se justificou em nenhum
momento da Ação Penal como as prisões cautelares ensejaram produção probatória ou
resguardaram qualquer interferência dos autores no processo.

IX. DA INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS EM


DECORRÊNCIA DE ERRO JUDICIÁRIO E ABUSO DE AUTORIDADE - MÁ-
FÉ NO PROCESSO CRIMINAL

A responsabilização por danos morais, de natureza extrapatrimonial é


assegurada pelo art. 5, incisos V e X da CF, é compensação econômica diante da dor e
sofrimento decorrentes da perda de bens da vida inestimáveis e insubstituíveis
decorrentes do evento danoso. A fixação de um valor pecuniário, portanto, é tarefa
complexa e penosa.

O conjunto de fatos apresentados e devidamente comprovados demonstram a


caracterização do dano moral. A intensidade do sofrimento dos ofendidos, a gravidade e

26
op. cit., p. 280, grifo nosso.
a natureza do dano, as consequências do ato, a possibilidade de reversão completa do
dano, a intensidade do dolo, as condições financeiras das partes, entre outros, são alguns
dos critérios que devem ser verificados para deliberar o quantum indenizatório.

Como visto, a jurisprudência vem seguindo entendimento de que nos casos em


que há erro judiciário e atos negligentes decorrentes da atuação do Estado que cause
sofrimento moral às partes, configura-se o dever de indenização.

No que tange ao arbitramento da prisão preventiva, mister registrar que a


reparação deve ter um conteúdo didático, visando tanto compensar a vítima pelo dano
como servir de advertência à conduta processual e policial, que se utiliza da estrutura de
Estado e do sistema jurídico de modo extremamente desproporcional e ilegal.

Uma das funções essenciais do Poder Judiciário é atuar no sentido de garantir


reparação integral de danos causados às vítimas de violações de Direitos Humanos,
sobremaneira quando tais danos foram causados por atos do próprio sistema de justiça.

Nesse sentido, reafirma-se que a reparação plena dos danos causados é crucial
para garantir que se faça justiça nos casos concretos. As reparações plenas devem tender
a ser medida suficiente para fazer desaparecer, ao máximo, o efeito dos danos causados,
bem como ensejar sua não-repetição. A reparação do dano ocasionado pela ofensa a
vários direitos fundamentais requer, sempre que seja possível, a plena restituição
(restitutio in integrum), que consiste no restabelecimento da situação anterior à
violação.

Deste modo, os autores devem ser indenizados em ao menos R$ 40.000,00


(quarenta mil reais) para cada um dos agricultores em razão dos danos morais sofridos.

Já o dano patrimonial é previsto no art. 186 do CC configurada por aquele que,


por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar
dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, e neste sentido tem a obrigação de
indenizá-lo, como determina o art. 927 do CC “Aquele que, por ato ilícito (art. 186 e
187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo”.

Cabe salientar que o dano material não vislumbra apenas a perda patrimonial, o
ressarcimento deve ocorrer não só pelo dano emergente, isto é o que os autores
efetivamente perderam, como também pelo lucro cessante, aquilo que se deixou de
receber. Paulo Nader explica didaticamente a noção de dano material:

“Integra a noção de dano material tanto os bens que, em decorrência


de conduta alheia antijurídica, passaram a desfalcar o patrimônio de
alguém quanto os que se deixou de ganhar. No primeiro caso, têm-se
os danos emergentes e, no segundo, os lucros cessantes. Aqueles
diminuem o acervo de bens; estes impedem o seu aumento. A perda de
chance, quando concreta, real, enquadra-se na categoria de lucros
cessantes, ou seja, danos sofridos pelo que se deixou de ganhar ou
pelo que não se evitou perder. (NADER, Paulo. Curso de Direito Civil
– Vol. 7 – Responsabilidade Civil, 6ª edição. Forense, 12/2015, p. 79).

No caso em tela, todos os autores eram agricultores familiares e recebiam renda


anual média no valor de R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais) com a comercialização
dos produtos agrícolas e a remuneração oriunda do pagamento em políticas públicas de
aquisição de alimentos nacionais e estaduais.

Todos os três autores foram presos durante o período de plantio (setembro de


2013) e permaneceram encarcerados por cerca de dois meses. A prisão ilegal
impossibilitou, portanto, a realização do trabalho primordial para a agricultura, vedando
também a colheita, vez que os produtos sequer foram plantados.

Ademais, os contratos do Poder Público com a Associação São Francisco de


Assis foram rescindidos, cessando a fonte de recursos planejada pelos agricultores
agroecológicos. A Associação somente se inscreveu novamente em programas públicos
de aquisição de alimentos no ano de 2021, perante à Secretaria de Agricultura e
Abastecimento do Estado do Paraná. Isto é, somente acessaram recursos públicos cerca
de 07 (sete) anos após a Operação Agrofantasma.

Após a prisão, portanto, os autores tiveram queda abrupta de renda, com


manutenção familiar de R$ 900,00 (novecentos reais) a R$ 1.000,00 (mil reais) por mês.
Ou seja, menos da metade do valor que obtinham antes dos fatos narrados.

Reconhece a jurisprudência que para a comprovação do dano material em casos


de prisões ilegais ou arbitrária basta o reconhecimento do período de encarceramento:
DIREITO PROCESSUAL CIVIL. INDENIZAÇÃO POR ERRO
JUDICIÁRIO. PRISÃO ILEGAL POR 9 (NOVE) ANOS DE
RECLUSÃO. CONDENAÇÃO DO AUTOR EM LUGAR DE
OUTRO. DANOS MATERIAIS. AUSÊNCIA DE PROVA
EFETIVA. IMPROCEDÊNCIA.
1. Não há violação do art. 535 do CPC quando o Tribunal de origem
resolve a controvérsia de maneira sólida e fundamentada, apenas não
adotando a tese do recorrente.
2. O aprisionamento ilegal do recorrente por 9 (nove) anos já faz
prova suficiente do dano material sofrido, uma vez que este ficou
impossibilitado de exercer qualquer espécie de trabalho, o que,
por consequência lógica, implica redução, ou não crescimento,
de seu patrimônio.
3. Assim, não há que se falar em violação do artigo 333, I, do
Código de Processo Civil, sendo o dano material presumido.
4. Em casos análogos, que cuidam de indenização material por dano
presumido decorrente de responsabilidade civil do Estado, a
condenação foi fixada também com base no pagamento de um
salário mínimo mensal, como no presente caso.
5. Recurso especial não provido.
(STJ - REsp 1030890/PR, Rel. Ministro CASTRO MEIRA,
SEGUNDA TURMA, julgado em 14/04/2011, DJe 27/04/2011)
(grifo nosso).

Assim, tendo em vista que os agricultores deixaram de obter renda pela ausência
de plantio na safra 2013/2014, tiveram recursos planejados cessados arbitrariamente e
permanecendo em situação de instabilidade financeira e pobreza após os fatos, cada
autor faz jus ao valor R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais) em razão dos danos
materiais sofridos.

Gelson Luiz de Paula, ademais, faz jus ao recebimento do valor de R$ 71.400,00


(setenta e um mil e quatrocentos reais) em razão de exoneração do cargo de assessor
técnico da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Irati/PR.

Cabível, portanto, indenização por danos morais e materiais suportados por


Gelson Luiz de Paula, Nelson José Macarroni e Roberto Carlos dos Santos, agricultores
familiares dos municípios de Irati e Inácio Martins, decorrentes de erro judiciário, prisão
ilegal, abuso de autoridade e má fé no processo criminal no âmbito da Ação Penal nº
5046695-70.2013.4.04.7000.

X. DA JUSTIÇA GRATUITA
Os autores fazem jus à concessão da gratuidade de Justiça, haja vista não
possuírem rendimentos suficientes para custear as despesas processuais e honorários
advocatícios em detrimento do seu sustento e de sua família, conforme as declarações
de hipossuficiência em anexo (ANEXO 2).

Destaca o dever estatal de prestar assistência gratuita a Constituição Federal,


em seu art. 5º LXXIV e no art. 98 e seguintes do Código de Processo Civil de 2015.

Os autores são agricultores familiares, obtendo a renda de suas lavouras que


subsidiam a alimentação familiar e venda de produtos agroecológicos e orgânicos em
feiras. Desta forma, os rendimentos mensais impedem o pagamento das custas
processuais sem que afete a subsistência familiar dos agricultores.

Com base na necessidade apresentada e nos documentos de hipossuficiência em


anexo a exordial, aguardam os autores o deferimento da justiça gratuita.

XI. DOS PEDIDOS

Diante do exposto, respeitosamente requer-se:

a) O recebimento e processamento da presente demanda;

b) A citação da União para, querendo, responder no prazo legal;

c) A concessão dos benefícios da Justiça Gratuita, assegurados pela Constituição


Federal, artigo 5º, LXXIV e artigo 98 e ss do Código de Processo Civil;

d) Seja condenada a União a indenizar os Autores em razão de dano moral em


valor a ser arbitrado segundo o prudente arbítrio do nobre julgador, embasado
nos critérios e fatores já mencionados, não inferior ao valor de R$ 40.000,00
(quarenta mil reais) para cada um dos agricultores;

e) Seja condenada a União ao pagamento de R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil


reais) para Gelson Luiz de Paula, Nelson José Macarroni e Roberto Carlos dos
Santos, a título de indenização por danos materiais pela perda da safra agrícola
2013/2014, devidamente corrigidos;
f) Seja condenada a União ao pagamento de 71.400,00 (setenta e um mil e
quatrocentos reais) para Gelson Luiz de Paula em razão de exoneração do cargo
de assessor técnico da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de
Irati/PR, a título de indenização por danos materiais, devidamente corrigidos;

g) A produção de todos os tipos de provas cabíveis, em especial a prova


documental (documentos em anexo à exordial), depoimento pessoal, oitiva de
testemunhas e outras provas cabíveis à instrução processual;

h) Ao final do processo, sejam julgados procedentes os pedidos dos Autores,


condenando-se a Ré União ao pagamento das custas, honorários advocatícios e
demais verbas decorrentes da sucumbência.

Dá-se a causa o valor de R$ 263.000,00 (duzentos e sessenta e três mil e


quatrocentos reais).

Nestes termos, pedem deferimento.

Curitiba, 22 de fevereiro de 2022.

NAIARA ANDREOLI BITTENCOURT JAQUELINE PEREIRA DE ANDRADE


OAB/PR 75.170 OAB/PR 102.902

CHARLOTTH BACK JUVELINO JOSÉ STROZAKE


OAB/RJ 166.014 OAB/SP 131.613

DAISY CAROLINA TAVARES RIBEIRO


OAB/PR 96.566
ANEXOS

ANEXO 1 - PROCURAÇÕES
ANEXO 2 - DECLARAÇÕES DE HIPOSSUFICIÊNCIA
ANEXO 3 - DOCUMENTOS PESSOAIS DAS PARTES
ANEXO 4 - PROCESSO N. 5002656-67.2013.404.7006/PR E OFÍCIO DE
TRÂNSITO EM JULGADO DA AÇÃO CRIMINAL.
ANEXO 5 - CARTA PRECATÓRIA Nº 700002784367
ANEXO 6 - SENTENÇA ABSOLUTÓRIA
ANEXO 7 – DENÚNCIA MPF - PROCESSO CRIMINAL N. 5046695-
70.2013.4.04.7000/PR
ANEXO 8 -ALEGAÇÕES FINAIS DO MPF - ABSOLVIÇÃO DOS ACUSADOS,
ENTENDENDO QUE NÃO RESTOU COMPROVADO PREJUÍZO PATRIMONIAL
À ENTIDADE PÚBLICA FEDERAL
ANEXO 9. ALEGAÇÕES FINAIS CONJUNTAS - CARLOS CESAR
BRANDALIZE, GELSON LUIZ DE PAULA, NELSON JOSÉ MACARRONI,
ROBERTO CARLOS DOS SANTOS, ELENICE LACHOUSKI, ODAIR
RODRIGUES LOPES E WILSON DAMIÃO PORTELA
ANEXO 10 - TERMO DE TRANSCRIÇÃO DE DEPOIMENTO DOS ACUSADOS
ANEXO 11 - DESPACHO JUIZ FEDERAL - MANUTENÇÃO DA PRISÃO
CAUTELAR PARA NELSON, GELSON E ROBERTO
ANEXO 12 - ATESTADOS DE ANTECEDENTES CRIMINAIS
ANEXO 12.1. CERTIDÕES CRIMINAIS NEGATIVAS
ANEXO 13 - CARTAS DE REFERÊNCIA A INOCÊNCIA E APOIO AOS
AUTORES DURANTE A PRISÃO
ANEXO 14 - MATÉRIAS SOBRE O IMPORTANTE PAPEL DESEMPENHADO
PELA ASSOCIAÇÃO ASSIS
ANEXOS 15 - ESTATUTO DA ASSOCIAÇÃO DOS GRUPOS
AGROECOLÓGICOS SÃO FRANCISCO DE ASSIS.
Anexo 15.1. Cartilha de Agroecologia - Balanços do PAA - Associação São
Francisco de Assis
Anexo 15.2. Abastecimento de Alimentos Ecológicos em Irati - Descrição de
produtos e entidades
Anexo 15.3. Informação da Associação Assis à CONAB de substituição de
produtos
Anexo 15.4. Produtos e Entidades beneficiárias
Anexo 15.5. Termo de Recebimento e Aceitabilidade CONAB
Anexo 15.6. Termo de Substituição de Mercadoria assinado pela escola
ANEXO 16 - DAP JURÍDICA ASSOCIAÇÃO SÃO FRANCISCO DE ASSIS 2022
ANEXO 17 - MATÉRIAS E REPORTAGENS MIDIÁTICAS TENDENCIOSAS
ANEXO 18 - FOTOS DA ASSOCIAÇÃO E DOS AGRICULTORES

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