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Marcos Garcia Scarabello

CORPO E ARTE

Programa Rede São Paulo de Formação Docente – REDEFOR

Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes da UNESP


São Paulo
2011

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Marcos Garcia Scarabello

CORPO E ARTE

Monografia apresentada ao Programa de Pós-


Graduação da Universidade Estadual Paulista -
UNESP, como parte dos requisitos para obtenção
do título de Especialista em Artes.

Orientador: Prof. Dr. Milton Terumitsu Sogabe

Programa Rede São Paulo de Formação Docente – REDEFOR

Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes da UNESP


São Paulo
2011

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RESUMO

Para entendermos as relações entre corpo e arte com os avanços tecnológicos e as


possibilidades proporcionadas aos experimentos artísticos é preciso entender o corpo em
suas potencialidades como matéria e suporte na arte. O artigo enfoca especificamente as
questões relacionadas ao corpo humano e arte-tecnologia para questionarmos até que
ponto o uso de mídias digitais ou de materiais com novas propriedades possibilitam a
criação artística. Neste estudo, a obra objeto de pesquisa é do artista performático
australiano Stelarc, intitulada “Prosthetic Head”, a cabeça do artista reprojetada que
conversa com o público. Na atualidade é impossível não interagir com as tecnologias
contemporâneas e a arte acaba centralizando o corpo nas suas múltiplas representações
escultóricas ou pictóricas, levantando questionamentos que transbordam o próprio corpo e
suas concepções ao longo da história da arte.

Palavras-chave: Corpo. Suporte. Materialidade. Arte-tecnologia. Prosthetic Head

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RESUMEN

Para comprender las relaciones entre el cuerpo y el arte con los avances
tecnológicos y las posibilidades proporcionadas a los experimentos artísticos es necesario
entender el cuerpo y sus potencialidades mientras materia y soporte en el arte. El artículo
enfoca específicamente las cuestiones relacionadas al cuerpo humano y arte-tecnología
para que cuestionemos hasta qué punto el uso de medios digitales o de materiales con
nuevas propiedades posibilita la creación artística. En este estudio, la obra objeto de
investigación es del artista performático australiano Stelarc, titulada “Prosthetic Head”, la
cabeza del artista proyectada que conversa con el público. En la actualidad, es imposible no
interactuarse con las tecnologías contemporáneas y el arte termina por centralizar el cuerpo
en sus múltiples representaciones escultóricas o pictóricas, planteando cuestionamientos
que transbordan el propio cuerpo y sus concepciones a lo largo de la historia del arte.

Palabras Clave: Cuerpo. Soporte. Materialidad. Arte-tecnología. Prosthetic Head

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SUMÁRIO

Introdução ................................................................................................................................. 6
1. Concepção de corpo e suas representações na arte ................................................... 6
2. O corpo como suporte e materialidade na arte. ............................................................. 8
3. Arte-tecnologia................................................................................................................... 10
3.1 Arte, criação e Tecnologia de Stelarc.......................................................................... 12
Considerações Finais ........................................................................................................... 16
Referências............................................................................................................................. 17

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Introdução

Muitas são as definições de arte por parte de teóricos nas diversas áreas de
conhecimento a que se referem à filosofia, à arte e à ciência. O corpo humano dentro deste
aspecto está intimamente relacionado ao contexto social e cultural da história da arte. O
surgimento da arte-tecnologia no século XX caracteriza um tempo de grandes
transformações tecnológicas. No campo da arte, podemos citar mudanças radicais no que
se trata à recepção da obra pelo público por diferentes meios e processos, principalmente
nas criações intermídia que envolvem os campos artísticos entre arte-tecnologia, através
das novas mídias. Dessa maneira, a presente pesquisa trata da investigação de uma das
possibilidades de construção do corpo humano na sociedade ocidental atual, encontrada em
processos artísticos que discutem e experimentam o corpo e suas relações com a arte-
tecnologia.
Ela parte das definições de termos utilizados com a fundamentação de teóricos e
estudiosos da linha de pesquisa citada destacando Lúcia Santaella e Arlindo Machado, entre
outros autores. Primeiramente, para a concepção de corpo, do corpo como suporte e
matéria na arte e, posteriormente, para a análise de uma obra de arte que apresenta como
objeto de estudo o próprio corpo do artista. O texto se dá por pesquisa bibliográfica, pela
leitura de vários artigos já publicados sobre o assunto e por pesquisas em sites da Internet.
Neste estudo, a obra objeto de pesquisa é a do artista performático australiano
Stelarc, pseudônimo de Stelios Arcadiou (19 de junho de 1946, Limassol, Chipre) intitulada
“Prosthetic Head”, onde uma projeção em larga escala da cabeça do artista conversa, em
inglês, com o público. Suas obras concentram-se fortemente no futurismo e na extensão das
capacidades do corpo humano. Como tal, a maioria de suas peças está centrada em torno
do conceito de que o corpo humano é obsoleto. As performances idiossincráticas de Stelarc
frequentemente envolvem robótica ou outras tecnologias relativamente modernas integradas
de algum modo com seu corpo. A intenção desta pesquisa está centrada nas possibilidades
do corpo como suporte e materialidade na arte e o uso da arte-tecnologia ao encontro com
as suas potencialidades, em sua subjetividade e pela evolução das técnicas ao longo dos
tempos.

1. Concepção de corpo e suas representações na arte

O corpo desde a pré-história vem evoluindo e suas transformações estão ligadas a


vários aspectos: físicos, sociais e culturais. No corpo estão presentes todas as regras,
normas e valores de uma sociedade específica, por ser ele o contato direto do indivíduo com

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o meio em que o cerca. Trazemos no corpo alguns comportamentos sociais assim que
nascemos como, por exemplo, andar e falar, a forma de dormir, as necessidades de sono e
de alimentação entre outras que ao ponto de vista de Kofes (1985) vem afirmar que o corpo
é expressão da cultura, portanto, cada cultura vai se expressar por meio de diferentes
corpos. DaMatta (1987, p. 76) chega a afirmar que “(...) tudo indica que existem tantos
corpos quanto há sociedades” e Daolio (1995) já afirma que o corpo humano não é um
dado puramente biológico sobre o qual a cultura impinge especificidades e que o corpo é
fruto da interação natureza/cultura. As transformações e concepções de corpo e a própria
performance humana se estabelecem pelas mudanças e Santos (1990) critica os que
propõem a volta a um suposto corpo natural não atingido pela cultura. Segundo ele, não se
pode esquecer a natureza necessariamente social do corpo, sendo possível somente pensar
em novos usos do corpo, já que a cultura é passível de reinvenções e recriações. Neste
contexto Rodrigues (1986, p.64) afirma que “(...) nenhuma prática se realiza sobre o corpo,
sem que tenha a suportá-la, um sentido genérico ou específico”.
As representações do corpo na arte e representações da arte no corpo não têm a
intenção de discutir o conceito de arte, mas sim refletir sobre os processos artísticos que
junto com as tecnologias desenvolveram-se através de interações com o corpo humano. Ao
percorrer a história da arte, percebe-se que o corpo humano sempre foi alvo da atenção dos
artistas: na antiguidade clássica, especificadamente na Grécia, a representação do corpo
perfeito na escultura e explorado com sacralidade através de sua religião. Porém, segundo
Santaella, apesar de recorrente nas obras de arte ao longo da história, o corpo nunca foi tão
explorado e das mais diversas maneiras, como nas vanguardas do século XX, e ao tratar
das interações entre o corpo e a arte ao longo da história, afirma:

Não obstante sua aparição constante particularmente nas artes do


Ocidente, nada pode ser comparável à crescente centralidade do corpo nas
artes a partir das vanguardas estéticas no início do século passado. Além
de onipresente, no decorrer do século XX até hoje, o corpo foi deixando de
ser uma representação, um mero conteúdo das artes, para ir se tornando
cada vez mais uma questão, um problema que a arte vem explorando sob
uma multiplicidade de aspectos e dimensões que colocam em evidência a
impressionante plasticidade e polimorfismo do corpo humano. É o corpo
como algo vivo, na sua vulnerabilidade, seu estar no mundo, suas
transfigurações, que passou a ser interrogado. (SANTAELLA, 2004, p.65)

Quando Foucault (2010) repensa o corpo, ele o faz trazendo à tona uma reflexão
sobre o saber. Para esse filósofo, o saber é um poder que se instaura sobre o nosso corpo
tendo implicações políticas e sociais que, muitas vezes, não se mostram claramente aos
nossos olhos. A individualidade de cada um é construída dentro de determinados
saberes/poderes aos quais podemos corroborar ou não. As explorações do corpo no século
XX contaram com muitos fatores de forma a transgredir as representações desenvolvidas
até então. Para Santaella (ibid.) estão entre estes fatores a crise do determinismo científico,
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trazido por Einstein e seus contemporâneos; as investigações relativas às práticas culturais,
sociais e de poder tratadas por teóricos como Foucault que afirma que (...) “não é o
consenso que faz surgir o corpo social, mas a materialidade do poder se exercendo sobre o
próprio corpo dos indivíduos” (FOUCAULT, 2010, p.146); a psicanálise freudiana; a crise do
sujeito a partir de Derrida e Deleuze; entre outras questões, foram determinantes para a
centralização do corpo em processos artísticos e de forma mais contundente e múltipla, nas
discussões entre os artistas do século XX. Porém, em todas as situações, as experiências
com o corpo na arte estiveram e ainda estão diretamente ligadas ao uso de tecnologias
associadas ao corpo e a autora ainda coloca a arte como capaz sim de criar discussões que
talvez ainda não sejam tão explícitas em outras áreas culturais afirmando que:

(...) são os artistas que conseguem dar forma a interrogações humanas que
as outras linguagens da cultura ainda não puderam claramente explicitar.
(...) em tempos de mutações que se intensificam, como é o caso desde o
final do século XIX, há que se prestar atenção ao que os artistas fazem,
pois, com suas antenas ligadas a uma sensibilidade pensante, sinalizam os
rumos do projeto humano. (SANTAELLA, 2004, p.67)

Portanto, há muito tempo a arte representa o corpo em seus processos e estes


deixaram cada vez mais de simplesmente explorar representações do corpo e passaram a
explorar por inúmeras formas o próprio corpo. Na atualidade, é impossível não interagir com
as tecnologias contemporâneas e a arte acaba centralizando o corpo nas suas múltiplas
representações escultóricas ou pictóricas, levantando questionamentos que transbordam o
próprio corpo que em outros momentos não se mostravam tão explícitos, no caso do corpo
humano em relação às interferências artificiais.

2. O corpo como suporte e materialidade na arte.

Segundo Weibel (2002 apud Santaella, 2010, p.252) a partir da dissolução da


pintura, através da fotografia, a representação do corpo na arte entra em crise quando esta
passou a dar conta de uma representação da realidade visível do mundo, os pintores
proclamaram a auto-dissolução da pintura e condicionaram aos poucos seus elementos
como independentes. O deslocamento dos elementos históricos da pintura desenvolvidos
pelos próprios artistas determinou a retirada da imagem do espaço pictórico. A cor, a
superfície, o suporte e a moldura tornaram-se o objeto da representação.

A partir de então, as telas mesmas podiam ser rasgadas. Por fim, só as


molduras vazias ou as costas dos quadros foram apresentadas até a
substituição da superfície da tela pela superfície da pele. A pintura como

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arena da ação (action painting) tornou-se ato corporal na tela, terminando
em uma pintura no próprio corpo humano, uma ação sem tela, até o limite
do corpo em si, encenando seja lá o que for mesmo a inércia, se
transformar em arte. SANTAELLA (2010, p. 252, 253)

Pensamento focado na crise da pintura como um dos pressupostos para a


centralização do corpo na arte e que traz à tona a exploração do corpo humano
essencialmente por pintores, quando não de seus próprios corpos em suas manifestações
artísticas como é o caso de um dos trabalhos do artista francês Marcel Duchamp (1987-
1968) que se apropriou do próprio corpo junto a sua produção pictórica. Sobre duas obras
de Duchamp:

(...) Em 1921, Marcel Duchamp barbeou seu cabelo na forma de uma


estrela, revelando que o artista e sua obra se fundem em uma mesma
realidade e que o artista ele mesmo tem uma presença estética. Pouco
depois, em um gesto mais ousado, personificou-se como mulher, Rrose
Sélavy (Eros c’esta vie), transformando em arte a experiência da encenação
do sexo oposto. (SANTAELLA, ibid. p.353)

Para a autora, essas manifestações foram fundamentais para o desenvolvimento de


outras manifestações artísticas e que se apropriam do corpo como suporte e matéria da
obra de arte. A partir destes manifestos, o pintor norte americano Jackson Pollock (1912-
1956), depois de algumas décadas, apresentou seu corpo imerso na tela através da ação
pictórica e por suas palavras definia a técnica apresentada:

"...Prefiro atacar a tela não esticada, na parede ou no chão... no chão fico


mais à vontade. Me sinto mais próximo, mais uma parte da pintura, já que
desse modo posso andar em volta dela, trabalhar dos quatro lados, e
literalmente estar na pintura... Quando estou em minha pintura, não tenho
consciência do que estou fazendo." (POLLOCK, 1947, Enciclopédia Itaú
Cultural de Artes Visuais. Disponível em www.itaucultural.org.br – ver Action
Painting Acesso em 30/06/2012.

Nascia assim, inaugurada por Pollock, a action painting, termo batizado pelo crítico
norte-americano Harold Rosenberg, em 1952. Potencializando o corpo na obra e
direcionando assim outros artistas a estender a arte gestual das telas para a performance.
Isso implicou na centralização do corpo na arte.

Nos dois últimos anos da década de 60 e nos primórdios dos anos 70, a
performance refletiu a rejeição pela arte conceitual, de materiais tradicionais
como a tela, o pincel ou o cinzel, e os performers se voltaram para seus
próprios corpos como material artístico, exatamente como Klein e Manzoni
haviam feito poucos anos antes. Porque a arte conceitual implicava a
experiência do tempo, do espaço e do material, e não sua representação
em forma de objetos, e o corpo se tornou o mais direto meio de expressão.
(GOLDBERG, 2006, p.142)

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Assim, alguns artistas exploraram a materialidade do corpo, discutindo-o como um
elemento no espaço. Bruce Newman, em 1968, trabalhou essa vertente da arte corporal. A
autora comenta uma de suas apresentações que exploraram o espaço através do corpo:

O artista californiano Bruce Newman, por exemplo, realizou obras como


andando de maneira exagerada ao redor do perímetro de um quadrado
(1968), que tinha relação direta com sua escultura. Ao caminhar ao redor do
quadrado, ele podia vivenciar em primeira mão o volume e as dimensões de
suas obras escultóricas, que também lidavam com o volume e a colocação
dos objetos no espaço. (GOLDBERG, 2006, p.149)

Ainda sobre a representação do espaço, através do corpo, em sua expressividade,


sua materialidade, tem como ponto de partida e de chegada o próprio corpo. Aparecendo de
forma oculta, e não tão explícita, a “matéria corpo” se traduz em tintas, palavras,
modelagens, acordes musicais que pela experiência humana encarnada se revela em
tristezas e alegrias. É preciso que o artista em contato com a matéria, com as ferramentas e
com as tecnologias, possa relacionar-se com a criatividade e suas potencialidades durante o
ato de criação. Matéria e criador precisam estar em perfeita sintonia, em um único
pensamento, uma única vontade. A matéria transformada reflete as metamorfoses interiores
do próprio artista e a obra nada mais é do que a materialização simbólica deste gesto
criador. Assim, o artista, pintor, escultor ou musicista, impede o próprio corpo de se
expressar e imprimir em uma matéria exterior a si – ao seu corpo – algo que possa ser visto
e apreciado por outros. E “o que é a arte pura segundo a concepção moderna? É criar uma
magia sugestiva contendo ao mesmo tempo o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista
e o próprio artista” (BAUDELAIRE, 1991, p.71). Desse modo, podemos pensar que toda
obra de arte é sempre um processo inacabado, que transmuta o tempo de sua criação e de
sua subjetividade.

3. Arte-tecnologia

A história da arte está intimamente relacionada à história da técnica, em seu


significado etimológico, arte é uma derivação da palavra latina ars ou artis, que em grego
significa tékhne. O filósofo Aristóteles se referia à palavra arte como póiesis cujo significado
era semelhante a tékhne e em seu sentido amplo significa o meio de fazer ou produzir
alguma coisa de modo a não desprezar os seus aspectos materiais.

(...) Nenhuma leitura dos objetos culturais recentes ou antigos pode ser
completa se não se considerar relevantes, em termos de resultados, a

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“lógica” intrínseca do material e os procedimentos técnicos que lhe dão
forma. A história da arte não é apenas a história das idéias estéticas, como
se costuma ler nos manuais, mais também e sobretudo a história dos meios
que nos permitem dar expressão a essas idéias. Tais medidores, longe de
configurarem dispositivos enunciadores neutros ou inocentes, na verdade
desencadeiam mutações sensoriais e intelectuais que serão, muitas vezes,
o motor das grandes transformações estéticas. (MACHADO, 1993. p.11)

A palavra técnica tem sua origem no grego tékhne que passou para o latim ars,
artis e para o português arte. Na Antiguidade, sobretudo entre os gregos, arte era entendida
como tékhné que abrangia qualquer prática produtiva inclusive a produção artística,
acentuando o aspecto de execução da obra de arte.

Os gregos não faziam qualquer distinção de princípio entre arte e técnica e


esse pressuposto atravessou boa parte da história da cultura ocidental até
pelo menos o Renascimento. Para um homem como Leonardo da Vinci,
pintar uma tela, estudar a anatomia humana e a geometria euclidiana e
projetar o esquema técnico de uma máquina constituíam uma única
atividade intelectual. (MACHADO, 1993, p.24)

Nesta concepção ela aparece na língua portuguesa somente no século XIX e passa
a substituir parcialmente a palavra arte. O português, o francês, o italiano, o alemão e o
russo têm estabelecido uma distinção entre técnica e tecnologia. No inglês essa distinção é
mais tênue e o termo technology engloba muito do que entendemos como técnica. A palavra
tecnologia tem origem no grego tekhnologia (tecno + logos) e significa o conhecimento
científico das operações técnicas ou da técnica. Tecnologia, assim como técnica, tinha
ligação com a arte até o século XIX.
Os artistas produzem suas obras e inovam suas técnicas e procedimentos de
acordo com as suas necessidades, respeitando o período da história da arte a que
pertencem, como por exemplo, na Grécia Antiga, as esculturas em mármore ou bronze, as
cerâmicas em argila, ou com a tinta a óleo e o uso da perspectiva no período renascentista,
a fotografia e as suas possibilidades de captação de imagens na segunda metade do século
XX, etc. Os meios e as técnicas provocam mudanças na percepção humana, afetando a
nossa maneira de conhecer o mundo, as nossas formas de representar esse conhecimento
e as nossas maneiras de transmitir essas representações (LÉVY, 2003).
Até o século XIX, os objetos artísticos eram produzidos artesanalmente, momento
em que, com a revolução industrial e a invenção da câmara fotográfica é chegada o início
das artes tecnológicas. Enquanto a técnica consiste em um conjunto de habilidades do
saber fazer por um indivíduo, a tecnologia vai além das técnicas e do saber intelectual. A
tecnologia está onde quer que se tenha um aparelho eletrônico ou não ou uma máquina que
tenha a capacidade de encarnar, fora do corpo humano, um saber técnico ou conhecimento
científico com habilidades técnicas específicas. Dentro desta definição, considera-se arte
tecnológica, a produção da obra de um artista, através da mediação de dispositivos que

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materializam um conhecimento científico, isto é, que já têm certa inteligência corporificada
neles próprios (SANTAELLA, 2003, p.153).
O termo Arte-Tecnologia como modalidade de arte surge no século XX
caracterizando um tempo de grandes transformações tecnológicas. No campo da arte,
podemos citar mudanças radicais no que se trata à recepção da obra pelo público por
diferentes meios e processos, principalmente nas criações intermidiáticas que envolvem os
campos artísticos entre arte-tecnologia. De forma que sempre estejam relacionadas na
história da arte, tecnologia, arte e ciência provocam leituras diferenciadas pelo receptor que,
em contato, pode interacionar-se ou não com as produções. Relação que não é nova, mas
que sem dúvida é problematizada de forma aguda no contexto atual, em que a arte busca
uma revitalização e acha nas tecnologias emergentes um campo de experimentação. Hoje,
a arte contemporânea em frente à evolução tecnológica, tanto das técnicas como do
pensamento artístico, passa por uma dissolução de fronteiras, que poderíamos chamar de
“Fronteiras Líquidas”, termo utilizado no Currículo de Arte do Estado de São Paulo pela
Secretaria de Estado da Educação ao tratar-se de hibridismo, referindo-se à mistura de
linguagens artísticas.

3.1 Arte, criação e Tecnologia de Stelarc

Na contemporaneidade os artistas voltados para estudos e pesquisas em arte-


tecnologia buscam o uso de mídias digitais ou de materiais com novas propriedades. A
relação da materialidade com suportes inusitados são características interessantes em se
tratando das poéticas de artistas contemporâneos. As novas tecnologias, presentes no
cotidiano doméstico e inseridas na cultura atual, vêm se integrando ao ambiente e revelando
um novo cotidiano diante de sistemas operacionais. Muitos artistas utilizam-se da
cibercultura utilizando-se destas novas tecnologias a fim de estimular nossos sentidos, seja
das artes visuais, das instalações multimídia, das performances, ou mesmo através do
próprio corpo humano utilizado como interface. É apresentada nesta questão a obra de
Stelarc, que vem questionando de forma ousada a arte contemporânea e o corpo humano
que é suporte de suas criações.
A obra de Stelarc, pseudônimo de Stelio Arcadiou, artista performático australiano,
é um dos mais destacados artistas cibernéticos, de performance eletrônica e de body art
(arte do corpo). Realiza suas performances utilizando-se de interfaces com próteses e
computadores, sistemas de realidade virtual e robótica. Em sua obra “Prosthetic Head”,
uma projeção em larga escala da cabeça do artista conversa, em inglês, com o público, que
digita suas perguntas por meio de um teclado. As respostas ficam contidas em um banco de
dados O software que controla o diálogo é baseado no mecanismo de A.L.I.C.E. (Artificial

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Linguistic Internet Computer Entity). O objetivo da obra é demonstrar que, com o advento de
novas tecnologias, a diferença entre humanos e máquinas não é mais um problema de
identidade, mas, de interface.
Sobre esta obra, disponível no site do artista é possível encontrar um texto do
mesmo sobre suas intenções e que por uma tradução livre, pôde-se entender que:

O objetivo era construir um sistema automatizado, de animação e


razoavelmente informado artificialmente que fala com a pessoa que o
interroga. Acena com a cabeça que se inclina e gira, bem como altera o
olhar de forma a contribuir para a personalidade do agente e das pistas não-
verbais que podem proporcionar. Tem embutidos algoritmos que lhe
permitem gerar poesia, romance e canto. Há também um sistema de
sensores ultra-som que, de certo modo, faz alertá-lo da presença do
usuário, permitindo-lhe iniciar uma conversa. (Disponível em:
http://stelarc.org/?catID=20214 - acesso em 16/11/11)

Fig.1

Fig. 2

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Fig 3.

Fig. 1, 2 e 3: The PROSTHETIC HEAD, Stelarc.


Processo de criação da obra.
Disponível em: http://stelarc.org/?catID=20214 –
acesso em 16/11/11

Além de artista, é atualmente pesquisador titular do Performance Arts Digital


Research Unit da The Nottingham Trent University, em Nottingham. O australiano tem vindo
a trabalhar nos últimos 20 anos na junção entre corpo e tecnologia, com próteses robóticas
e sistemas eletrônicos diversos. As suas primeiras experiências aconteceram em 1968,
quando construiu os primeiros ambientes de imersão virtual pelo que se trata a história da
arte: pequenos cubos chamados "Compartimentos Sensoriais" nos quais o espectador
entrava e, usando um capacete com lentes especiais que dividiam o espaço num labirinto de
imagens sobrepostas, era atacado por luzes, movimentos e sons.

Longe de se apropriar dos dispositivos tecnológicos como simples meios ou


mesmo como prolongamentos sensoriais, os artistas levam às últimas
consequências seu caráter de próteses corpóreas e mentais expansivas,
capazes até mesmo de transmutar nosso sistema nervoso, sensório e
cognitivo. Nasce daí uma arte para ser vivida em tempo real por sujeitos-
agentes que recebem e, no ato, transformam o que foi proposto pelo artista,
ao provocar eventos disponibilizados pelas possibilidades que os ambientes
simulados abrem para situações emergentes, comutativas, em constante
devir, fluxo e metamorfose. (SANTAELLA, 2010, p.180)

A poética do artista, ou seja, o seu estilo e suas intenções durante a criação, estão
ligadas diretamente à obra, como parte integral da relação “criador e criatura”, refletindo
suas potencialidades na materialidade e nos suportes midiáticos. O artista fala sobre
estratégias pós evolucionistas para reprojetar o corpo humano biologicamente mal equipado
para enfrentar seu novo ambiente extraterrestre:

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“É hora de se perguntar se um corpo bípede que respira, com visão
binocular e um cérebro de 1.400cm³ é uma forma biológica adequada. O
corpo é uma estrutura nem muito eficiente, nem muito durável. Com
freqüência ele funciona mal e se cansa rapidamente; sua performance é
determinada por sua idade. É suscetível a doenças e está fadado a uma
morte certa e iminente. Seus parâmetros de sobrevivência são muito
limitados - o corpo pode sobreviver somente semanas sem comida, dias
sem água e minutos sem oxigênio.” (STELARC apud DOMINGUES, 1997,
p54).

Muitos artistas que trabalham com interatividade, muitas vezes incluem os


visitantes de uma exposição como elementos que compõem a obra. Deste modo, a obra é
de autoria das pessoas que a vivenciam e que há uma necessidade de não ser
definitivamente concluída. A cada interação, algo de verdadeiro se dá ou se produz algo de
diferente, de efêmero que se utiliza desse relacionamento invisível existente entre o
espectador e a criatura virtual.

Stelarc se encontra entre os artistas que compreendem claramente que o


objeto a ser controlado não precisa estar presente no campo visual, pois a
manipulação à distância e o controle remoto criam uma nova situação para
performance, robótica e arte interativa. (KAC, E., 1998, p.12) – Disponível
em: http://www.ekac.org/kac2.html. Acesso em 14/11/11

O título da obra nos remete ao termo “prótese”, ou a ideia de uma cabeça


siliconizada e que pode ser considerada como um membro artificial do corpo humano. O
termo deriva do grego prothesis (adição) e que, relacionada a este sentido e na integridade
da obra, seria a projeção da cabeça do artista que conversa com o público de forma a ligar a
técnica utilizada pelo artista e o corpo biológico estabelecendo entre estes uma nova
linguagem. O objetivo inicial do artista era construir um projeto animado que falasse com as
pessoas. A obra que em tempo real apresenta sincronia nos lábios, voz e expressões
faciais, acenos, inclinações, olhos que contribuem para uma personalidade quase que
humana bastando apenas interrogá-lo. . Apresenta um sistema de sensores ultra-som que
capta a presença do público, a obra é acionada e a cabeça estimula uma conversa, dizendo
um “olá”, ou “qual é o seu nome”. Logo, uma interface é utilizada para o início do diálogo,
por meio de um teclado onde as pessoas podem escrever, em inglês, suas perguntas,
comentários, que também são projetados no telão. A obra permite assim o início de uma
conversa interativa que comove pelas sensações de realidade. Uma suposta
problematização com a obra, seria o aumento de sua base de dados tirando a total
responsabilidade do artista no que a “cabeça” diz. No futuro, com incrementos no sistema,
Stelarc fará com que essa obra seja capaz de detectar não só a roupa que o usuário está
vestindo como o de analisar o seu comportamento
O artista tem como objeto de estudo o corpo e o seu próprio corpo como suporte
em experimentações que interligam possibilidades múltiplas, através de suas performances.

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De fato, o corpo vivo do artista como suporte da arte dominou a cena
artística do século XX por várias décadas. Outro aspecto não tão nítido,
mas que deve ser notado,é o da expansão nas formas de tratamento do
corpo e seu descentramento do corpo do próprio artista com o surgimento
das artes interativas. (SANTAELLA, 2010, p.271)

A performance na contemporaneidade apresenta intensos vestígios do corpo em


seu hibridismo com o teatro e com a dança, nas intervenções, instalações e com a própria
tecnologia já existente na videoarte, surgida na década de 60, como meio artístico na qual
os artistas procuravam uma arte contrária à comercial. As novas tecnologias exigem
reflexões sobre sua representação, no que diz respeito ao plano epistemológico e requerem
de certo modo “novos” conceitos estéticos. Estas reflexões implicam em questões sobre a
recepção estética que condizem com as práticas e a criação de obras interativas, de
simulação e inteligência artificial em resposta da arte à tecnologia. O artista procura atribuir
um novo sentido à obra, para além da sua finalidade técnica, justificando seus critérios de
eficácia. Para Arnheim (1980), “a criação da arte não pode ser eficaz se não se tem uma
ideia correta de para que serve a arte e sobre o que versa”.

Considerações Finais

As narrativas apresentadas neste estudo trouxeram algumas reflexões sobre as


várias concepções de corpo desde a história da arte na antiguidade à atual ideia da que
temos sobre o corpo em relação à arte-tecnologia. Vimos que para Stelarc o corpo humano
é absoleto, embora, pelo seu potencial e subjetividade é materialidade e suporte nas
experimentações artísticas.
O corpo estará sempre evoluindo e suas transformações estarão sempre ligadas
aos valores culturais e à própria natureza em que se encontra. Alvo de artistas
contemporâneos, a partir do século XX, por sua expressividade, sua materialidade e pela
evolução das técnicas pós-revolução industrial.
Arte e tecnologia sempre estiveram relacionadas assim como a história da arte à
história da técnica, a matéria em relação à forma-conteúdo, quer seja na obra de Stelarc
como apresentamos ou, nas futuras intenções de artistas performáticos ou não, que fazem
do corpo sua criação poética.

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Referências

ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo:
Pioneira, 1980.

BAUDELAIRE, Charles. Escritos sobre arte. São Paulo: Edusp, 1991.

COSTA, Cláudia Cristina. Corpos híbridos: a construção do corpo humano na modernidade


a partir da arte e da tecnologia. Dissertação apresentada à Universidade Tecnológica
Federal do Paraná. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Curitiba, 2009.

DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. São Paulo: Rocco,


1987.

DAÓLIO, Jocimar. Da cultura do corpo. Campinas, SP: Papirus, 1995.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 28ª. ed. Reimpressão. Organização e tradução


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Marcos Garcia Scarabello

Possui graduação em Educação Artística - Habilitação em Desenho pela UNIFADRA Faculdades de


Dracena-SP (2002), pós-graduação em Artes e Letras - (Latu Sensu) - UNIFADRA (2008).
Atualmente é professor efetivo da rede Estadual de São Paulo no Ensino Fundamental e Médio e
Professor Coordenador da Oficina Pedagógica de Artes na Diretoria de Ensino da Região de
Adamantina-SP. Professor no Ensino Superior nas disciplinas correlatas da arte (Artes Cênicas,
Escultura e Modelagem, Plástica, Cultura Popular, Fundamentos da Linguagem Visual, Fundamentos
da Arte, Práticas de Ensino, Dança e Expressão Corporal) na UNIFRADA -(Faculdades de Dracena).
Tem experiências na área de Artes, com ênfase em Interpretação Teatral, atuando principalmente
nos seguintes temas: arte, pintura e escultura, teatro, educação, desenho e intertextualidades entre
as Linguagens da Arte. Contato: skarabellus@yahoo.com.br

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