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Aula 7º

As estratégias de construção
do texto falado

Objetivos de aprendizagem

Ao término desta aula, vocês serão capazes de:

• entender as estratégias do texto falado;


• diferenciar as estratégias do texto falado: reformulação, correção, repetição, adjunção, hesitação e inserção.
Estudo de Textos IV 34
Exemplo:
Seções de estudo
(?): mas e uma coisa que marcou você ou um susto grande que você
levou ou
Iran: Não, eu nunca... sei lá... teve..., não... não teve quase susto assim
não, nunca teve quase nada... eu nunca teve quase nada...É sério, nunca
1 - As estratégias de construção do texto falado tive.

(Excerto do ALMS)*

1 - As estratégias de construção do
texto falado Correção
A correção existe no texto falado por não ALMS: Atlas
se poder “apagar” como na escrita. Realiza- se, Linguístico
Mato Grosso
de

às vezes, ao repetir o dito ou o inadequado, do Sul.


sendo o uso do “não”comum antes do reparo.
A correção pode ser sugerida pelo interlocutor
e, nesse caso, já não é autocondicionada, isto é, a realizada
pelo falante, mas heterocondicionada.
1. Exemplo de correção autocondicionada:

Cada fase...o indivíduo dá de SI... aquilo que a fase está tendo como
Fonte: Acervo Pessoal. prepondeRANte... não existe isso... não existe... não não existe por exemplo
esse marco... que por exemplo se o indivíduo está numa fase... em que::...
Estudos como o de Koch & Souza e Silva (1992, éh:::... o organismo... em termos de :: sistema nervo/ sistema:: glandular...
1993) mostraram uma descrição das principais atividades é mais inTENso... a inteligência dele vai ser mais glandular (vamos dizer) vai
de construção do texto falado e, hoje, foram retomados por ter muito mais um desempenho... mais ligado ao organismo... então ele
Koch (2003, p. 83) como estratégias de processamento do vai (receber)...
texto falado. São elas:
(Excerto do NURC/SP)
Reformulação
A reformulação retórica, cuja função é interacional,
2. Exemplo de correção heterocondicionada:
faz-se por meio de repetições e parafraseamentos. Seu
objetivo principal é fortalecer a argumentação a qual Koch
denomina informalmente de “técnica Doc. É dona Célia?
da água mole em pedra dura”, uma O exemplo é parte Célia: descia e subia fogo, esse aí também era seguido - seguido ... era
do inquérito 62,
vez que contribui para o entendimento bobina 20 do Projeto uma invernada ...é ... e as pessoa falava que essa mulher ia lá ... e de
do(s) interlocutor(es) mediante a NURC de SP, também
encontrado em certo que ... como eu falei que ... o general dele ou marechal não sei o
“desaceleração do ritmo da fala”. Hilgert (2001:03).
que ele mandava mata ...
Exemplo: Doc. Marechal Rondom ... não é?
Célia: não ... não é ... o Marechal Lopes ... do Paraguai.
Doc. Como que é o nome dona Célia?
L1 - que nós nós que nós temos visto aí é que principalmente dentro Célia: é Marechal ... Marechal Lopes.
da área de investimentos ... eu tenho medo (Excerto do ALMS)
acompanhado aqui ...
o engenheiro está muito bem situado ...
ele está exercendo perfeitamente a ... a função Repetição
dele ... e exercendo:: a contento inclusive A repetição, que já foi desaconselhada no texto escrito,
... então .. eles estão ... sendo, hoje, empregada como estratégia da retórica, é
frequente no texto falado. Sua função é resolver problemas
(Excerto do NURC/SP)
percebidos em segmentos, ou seja, esclarecer o que o parceiro
não entendeu, evitando-se confusões ou mal-entendidos de
interpretações. Importante destacar, ainda, que a “repetição”
Quando há necessidade de efetuarem-se reparos com pode ser igual ao trecho do segmento em que foi detectado
a intenção de revolver as dificuldades encontradas pelo o problema ou com variações que podem ser em graus
locutor ou pelos parceiros em um segmento, recorre-se à menores ou maiores, chegando, inclusive, à paráfrase. Há
reformulação saneadora que pode concretizar-se mediante auto-repetição e repetição heterocondicionada, como se pode
correções, repetições, paráfrases ou adjunções. observar respectivamente em:
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Hesitação
1) Inf. (...) então nós vamos começar pela Pré-História... hoje exatamente É importante ressaltar, ainda, que a hesitação é, também,
pelo período... do paleolítico... a arte... no período paleolítico... o paleolítico estratégia de processamento do texto falado. Pode existir
é período período... da pedra lascada... como vocês todos sabem... não trecho de fala sem inserções ou reformulações, mas raramente
é?... e... tem uma duração de aproximadamente de seiscentos mil sem hesitações. Uma de suas características é que não pode
anos... ser controlada ou, eventualmente, pode, mas de forma parcial.
(Excerto do NURC/SP) As hesitações aparecem quando há dificuldades por parte do
locutor para conduzir o processo, mas não se pode esquecer
2) Doc. Seu filhos estão com que idade H?
que essas dificuldades podem ser “criadas” com a intenção
L2. com três e cinco anosDoc. Eles têm noção de ho::ras... noção de::
de mostrar ao ouvinte que o falante é uma pessoa cuidadosa,
horário?
atenta e reflexiva.
[
L2 . olha nós ( ) ...
( ) têm noção de horário ... porque eh eles ... lá lá em casa é tudo em
função de horário ...
Doc. ahn ahn L2. aprende-se mais... então ela acha que o:: que o bacana seria isso
mesmo entende?
(Excerto do NURC/SP)
L1. é são os... são as... reformas que estão existindo aí no no no ensino né?
... inclusive eu acho acho... uma forma de pensar... acho que discutindo a
Johnston (apud Koch, 2003, p. 126), explica a repetição coisa e não só ficando em termos de... da coisa... puramente:: expositiva...
como recurso para criar novos itens de forma a “assimilar L2. certo...
o que é novo ao que já é conhecido. Classifica a repetição -
estratégia de construção do texto falado – em quatro grupos (Excerto do NURC/SP)
de acordo com o objetivo das pesquisas: repetição como
recurso essencial da coesão; repetição como mecanismo
de retórica; repetição cujo alvo são os efeitos semânticos;
repetição como estratégia para “aquisição da linguagem, da Para finalizar é importante acrescentar que entre as
socialização linguística e para o ensino das línguas”. estratégias interacionais destacam-se as de “Preservação
A repetição que, muitas vezes, é menosprezada no texto das faces (facework) e/ou de representação positiva do
escrito, no texto falado apresenta funções e classifica-se em self ”, usadas para evitar dissabores, complicações e falta de
diversos tipos como significativas e marginais, além de outras. De compreensão durante o “intercâmbio linguístico”. O falante
acordo com Koch (2003, p. 126): faz uso de eufemismos, rodeios, marcadores de atenuação, ou
“A repetição é particularmente constitutiva do discurso seja, faz uso do grau de polidez para preservar a sua face e a de
conversacional, no qual os parceiros, conjuntamente e passo a seu interlocutor como se pode observar no exemplo seguinte:
passo, constroem o texto, elaboram as ideias, criam, preservam Excerto 18a:
e negociam as identidades, de tal forma que o texto, de maneira
icônica, vai refletir essa atividade de co-produção.”

Adjunção
Ocorre quando, na reconstrução do texto falado, o locutor
esqueceu-se de algum dado importante sobre o assunto tratado
e é necessário completar a ideia ou relembrar ao interlocutor
alguma coisa que já foi dita antes, contribuindo para melhor
compreensão. Trata- se de um acréscimo ou “adendo”.

L2. mas nós n/ nós não gostávamos::... tinha uma uma::... umas primas
que vovó criou:: desde pequenininhas
ficou sem mãe... (são duas) ((barulho de trânsito)) aí vovó comprava
para elas ... nós já íamos na rua Direi::ta... na ru::a Santa Ifigê::nia... que
comprávamos lá...
[
Inserção
L1. ( )
Sabe-se que o fluxo de informações no discurso pode se
L2. lá nós escolhíamos as roupas... porque tinha uma
desenvolver de maneira contínua quando a sequência temática
PARte... que vovó criou desde pequenina... duas...
flui naturalmente, sem obstáculos até a introdução do
e tinha outras que vieram de Jundiaí com mamãe queveio para cá
próximo tópico e de modo descontínuo quando há a ruptura,
também...
fenômeno responsável pela “quebra momentânea” do tópico.
Doc. Uhn uhn
Tal ruptura da unidade temática efetua-se pelo próprio falante
ou se pronuncia por intermédio do interlocutor. A primeira
(Excerto do NURC/SP) situação acontece quando o falante julga necessária uma
pausa que pode ter diferentes funções, o que caracteriza o
Estudo de Textos IV 36
reduzido planejamento local do texto falado e a preocupação
com a compreensão do interlocutor; a segunda denota a
manifestação de envolvimento interacional do interlocutor.
As inserções, estratégias responsáveis por essa ruptura ou
suspensão, definem-se, segundo Koch (2003, p. 110) como:
[...] segmentos discursivos de extensão
variável que provocam uma espécie de
suspen- são temporária do tópico em curso,
desempenhando funções interativas: explicar,
ilustrar, atenuar, fazer ressalvas, introduzir
avaliações ou atitudes do locutor etc.

Jubran (2002:127) afirma que entre os fenômenos de


descontinuidade, a inserção de informações que progridem
na mesma direção (paralelas) e que se subdividem em outras
Koch (2003a, 2003b) afirma que
áreas no tema da unidade do discurso (subsidiárias) nomeiam- Parâmetros
se como autocondicionadas, quando a intercalação no a inserção, estratégia do texto falado,
Curriculares Nacionais -

tema efetiva-se pelo próprio falante e heterocondicionadas, apesar de parecer conteúdo supérfluo
terceiro e quarto ciclos
do ensino fundamental
quando o falante, em função de um pedido ou sinalização do Introdução aos ou de menor importância, na maioria
Parâmetros
interlocutor, é conduzido a efetuar a intercalação ou encaixe. dos casos, não pode ser eliminada sem
Curriculares - 5ª parte.

Numa visão pragmática interativa, as inserções que haja prejuízo de sentido. Dois
autocondicionadas revelam-se, no discurso, por intermédio das são, segundo ela, os grandes blocos
denominadas frases hóspedes, ou seja, frases independentes de funções: o de função cognitiva que objetiva promover
– parênteses – e as heterocondicionadas manifestam-se por a captação de sentido(s) por parte do(s) interlocutor(es) e
meio de “sequências laterais” (JEFFERSON, 1972 apud o de função interacional que busca chamar a atenção do(s)
JUBRAN, 2002). interlocutor(es) para uma atitude de co-responsabilidade, de
Segundo Brown & Yule (1983, p. 73) tópico discursivo co-autoria.
é “aquilo acerca do que se está falando”. Trata-se, então, da Você entendeu como o texto falado é construído?
unidade discursiva que se constrói mediante a interação dos Observou as estratégias, diferenciando-as? Leia, então,
participantes no processo dialógico e explica-se pela centração o seguinte artigo para ampliar seus conhecimentos.
e organicidade. PRETI, Dino. A hesitação no discurso dos idosos. In:
Entende-se por centração o assunto abordado durante ______. Estudos de língua oral e escrita. Série Dispersos. Rio de
a interação, sendo que um tópico pode ser constituído por Janeiro: Lucerna, 2004. p. 47-54.
vários subtópicos que, por sua vez, poderão ser constituídos
de segmentos tópicos. Koch (2003, p. 82) afirma que, “diversos A hesitação no discurso dos idosos
subtópicos constituirão um quadro tópico; havendo ainda Os “idosos velhos” (acima de 80 anos), em virtude de suas
um tópico superior que englobe vários tópicos, ter-se-á um características psicofísicas decorrentes do envelhecimento
supertópico.” Quanto à organicidade, nota-se que ela se faz ou das pressões sociais que atua sobre essa classe de
pela conexão estabelecida em dois planos, ou seja, hierárquico falantes, socialmente marginalizada, nem sempre encontram
e sequencial que correspondem à progressão tanto no sentido interlocutores dispostos a participarem da interação verbal, ou
vertical como no horizontal. Tal processo organizacional mesmo simplesmente, ouvi-los. (Cf. Preti, 1991).
manifestar-se-á em maior ou menor grau em função do As gravações realizadas no Projeto de Estudo da Norma
interesse dos participantes pelo tema da conversação e a Linguística Urbana Culta de São Paulo (Projeto NURC/SP)
necessidade do “detalhamento” para maior compreensão. e no Projeto de Estudo da Linguagem dos Idosos velhos de
Existem duas modalidades de inserção: uma, de menor São Paulo (LIV/SP) demonstram que esses falantes em geral
extensão textual, que não gera outro tópico ou mudança de relegados ao silêncio pelas pessoas com as quais convivem
centração, permanecendo, em curso, o mesmo tópico, não (a “sua violência do silêncio”: referida por Winkin, 1981),
afetando a coerência e, outra, que apresenta maior extensão passam para um comportamento de grande loquacidade,
textual assim como “estatuto tópico”, uma vez que há mudança quando têm a oportunidade de se fazerem ouvir com atenção
de centração, provocando a divisão do tópico em destaque em pelos seus interlocutores.
segmentos, conforme mostram, respectivamente, os excertos Para entender por que o idoso se marginaliza na
do corpus estudado: conversação, é preciso ter em mente que o processo de
envelhecimento adiantado prejudica as habilidades de
comunicação, pois a conversação, como um jogo, possui regras
e convenções marcadas e, não raro, negociadas previamente
entre os interlocutores de acordo com os parâmetros culturais
de uma sociedade.
Uma das causas que colaboram para o desinteresse dos
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falantes de outras faixas etárias pelo discurso dos idosos é “como é que se diz?” ; “como é que chama esse negócio aqui::
que o envelhecimento se manifesta com intensidade sobre meu Deus do céu?”). Ele pretende o auxílio do ouvinte para a
as reações psíquicas, sobre o poder de reflexão e análise lembrança da palavra esquecida. Trata-se de um caso curioso
sobre a capacidade comunicativa e receptiva, gerando que bem demonstra como, às vezes, o falante, depois de tentar
uma natural lentidão no “idoso velho’: que impede o conservar o domínio da palavra, procura realizar uma entrega
processamento, recepção e compreensão das informações, de turno controlada, apenas para que o interlocutor colabore
numa velocidade compatível com os padrões conversacionais momentaneamente, o que pode nem chegar a ocorrer.
dos demais falantes. Helfrich (1979: 8) refere-se a estudos que Apesar de comum em todos os falantes, a hesitação
demonstram que “em idade avançada - 65 a 90 anos - as pausas ganha maior frequência no discurso dos “idosos velhos”,
tendem a aumentar; enquanto tempo de articulação tende a porque, conforme sabemos, o processo de envelhecimento
decrescer”. Nas sociedades urbanas, em especial, a sobrecarga prejudica gradativamente a memória (e, com mais intensidade,
das atividades reflete-se consideravelmente na pressa de a memória dos fatos recentes) e a audição.
comunicar, na necessidade de uma compreensão mais ágil e A hesitação pode manifestar-se de três formas:
rápida para poder interagir com eficiência na conversação. São 1. pela repetição de um mesmo vocábulo seguidas
características, em geral, ausentes nos “idosos velhos”, cujo vezes;
discurso é marcado pelo excesso de pausas, decorrente das 2. pelo alongamento de sílabas, seguido de pausas de
hesitações. menor ou maior duração;
O fenômeno da hesitação na linguagem faz parte, em pelos marcadores de hesitação: éh, éhn, ahn, uhn, agora,
maior ou menor intensidade, de qualquer tipo de falante, de digamos, mas, etc.
qualquer faixa etária, em qualquer situação de comunicação.
Quase sempre é um problema de Exemplo 4
memória, mas pode refletir o precário Exemplos retirados L1 meias de seda ... marca Aguia que eram as mais finas
do corpus NURC/SP,
domínio, pelo falante, do assunto publicado em Castilho & L2 uhn::: ...
Preti (1987). A linguagem L1 eram as mais finas ... e::: vestidos de ::: ... vocês usavam
desenvolvido na conversação. Assim, falada culta na cidade
vestidos para para para para baile de organdi... regra geral ...
podemos tomar, ao acaso, exemplos de São Paulo – Diálogos
entre dois informantes.
L2 éh::
de discurso de jovens ou de idosos: São Paulo: T. A. Queiroz:
FAPESP, v. II. L1 de organdi ... ou:: ... outros tecidos que desapareceram
Exemplo 1 como:: ... o:: ... digamos ... o::: ... o voile ... o voile de lã ...
L1 e::: sempre ... quem manda é:: ... (4 segundos) os (NURC/SP D2linhas 90-7, falantes com mais de 80 anos)
... a::: ... - como é que se diz? ... (5 segundos) especulação
Podemos observar, nesse exemplo, as hesitações que
imobiliária né? (NUC/SP, 343 D2, linhas 78-9, falante de 26
ocorrem pela repetição de preposições (para) e do artigo
anos, masculino)
(o); pelo alongamento de vogais do artigo (o:::), preposição
Exemplo 2 (de:::) e conjunção (ou:::); pelas pausas que se seguem a esse
L1 a ganga regra geral:: ... (2 segundos) é:: ... (3 segundos) alongamento; pela presença dos marcadores de hesitação (éh,
vemos ver se tem uma coisa que:: ... (2 segundos) era uma digamos). Em todos esses momentos, o falante está buscando o
espécie de de de de de de de de de:: - como é que se chama vocábulo esquecido na memória ou a forma de continuar sua
esse negócio aqui:: meu Deus do céu? (3 segundos) esta::: ... ( frase; enfim, ganhando tempo e mantendo o seu turno.
4 segundos) (NURC/ SP, 396 D2, linhas 734-37, falante de 81 Essas características influem sobre o andamento do
anos, masculino) discurso, cujo ritmo se torna desigual: às vezes, lento; outras
vezes, rápido em seus arrancos.
Exemplo 3 A hesitação pode também ser responsável pelo fenômeno
L2 aí já não sei já não entrei:: ... (2 segundos) porque lá da reformulação, muito comum na língua falada. O exemplo
es/ éh::: ... (2 segundos) tem os anterior pode, ainda, ser lembrado: “ ... e::: ... vestidos de:::
kren-akarore não sei mais o que mas são::: (2 segundos) ... vocês usavam vestido para para para para baile de organdi
tribos assim que têm mais .. :’ O esquecimento momentâneo do vocábulo organdi faz o
ou menos a mesma estrutura todos no no Alto Xingu falante abandonar o segmento que iniciara (“o vestido de:::
eu acho baixo não sei... (2 segundos) e ... (2 segundos) aí eu ... ) reformulando a frase, na qual o vocábulo aflora, ao final.
não entrei ... (NURC/SP 343 D2, linhas 750-55, falante de 26 A frequência da hesitação no discurso dos “idosos
anos feminina) velhos” revela, paralelamente, apesar das falhas da memória,
uma preocupação em manter o turno, o que nem sempre
Enquanto os dois primeiros exemplos refletem casos acontece. O interlocutor facilmente
típicos de falhas momentâneas de memória, o último mostra O engate ocorre,
interfere, toma a palavra ou, se for
quando o interlocutor,
o desconhecimento do assunto por parte da falante. Nos reconhecendo a seu desejo apenas colaborar, vale-se
três, os alongamentos de sílabas, as pausas de maior ou estrutura que está
sendo desenvolvida do recurso do engate para completar o
menor duração, as repetições contribuem para o processo de pelo falante que está
pensamento do falante que estava com
com a palavra, resolve
disfluência, em nível discursivo, e de ruptura dos segmentos, completá-la antes que a palavra:
ele o faça.
em nível sintático.
Os exemplos 1 e 2 revelam, ainda, o pedido de colaboração Exemplo 5
do falante (por meio da intercalação de uma parentética: L2 quando ficou viúva ... e::: mas você não pagava porque
Estudo de Textos IV 38
vovó tinha casas depois ... você cedeu a casa:: ... para o::: o:: ... posição na frase e 7% após o verbo ser, totalizando 38% das
[ hesitações:
L1 Macedo Soares
(NURC/SP 396 D2, linhas 1097-1100, falantes com Exemplo 7
mais de 80 anos) L2 tinha uma uma uma::: ... umas primas (NUC/SP,
idem, linha 764)
As hesitações podem conduzir, também, a outras
alterações em nível discursivo. Assim, nos assuntos que Exemplo 8
envolvem posições conflitantes entre os interlocutores são L1I rapaziada passeando não fazia muita questão de
comuns as repetições hesitantes, as pausas, os alongamentos, colete ... e:: nos no no no::::nos assustados nos BAIles nos
às vezes, em busca do eufemismo salvador. É o que ocorre, assustados não nos assustados não tinha qualquer toalete ...
quando os idosos interagem com jovens e precisam manifestar (NURC/SP, idem, linhas 61-4)
sua posição contrária à mudança dos costumes, por exemplo,
Exemplo 9
em particular, no campo da moral:
L1 mesmo essas essas::: ... firmas como La Saison e
Exemplo 6 outras ... (NURC/SP, idem, linha 891)
L1 o rapaz iria iria iria tirar uma moça ... ele estava sujeito
a levar uma tábua mesmo... Documentadora ((riso)) Exemplo 10
L1 estava sujeito a levar porque as moças ... eram L1 então o guarda cívico quase todos eles era/ eram
muito mais ... mais::: ... bom os costumes eram muito mal eram::: ... era:::: ... portugueses ... QUAse Todos eram
evidentemente portugueses ... (NURC/SP, idem, linhas 327-9)
[ 2. Após as preposições, interrompendo a construção do
Doc. é sintagma.
L1 muito mais Há 14% de ocorrências na gravação, com predominância
Doc. sei para a preposicão de:
L1 mais severos ... do que hoje ... e:::: ...
(NURC/SP, idem, linhas 269-80) Exemplo 11
L1 nunca frequentamos:: essas soirées assim de::... do
Neste fragmento, o falante procura um adjetivo que Clube Internacional ou desses clubes assim de... dos grã-finos
qualifique a moral de sua época, quanto às relações sociais
(NURC/SP, idem, linhas 508-10).
entre o homem e a mulher. Trata-se de um ponto da
conversação que lhe causa certo constrangimento, porque a Exemplo 12
Documentadora é jovem e, no fundo, há uma crítica velada L1 essa guarda-civil que existiu até há pouco tempo...
ao comportamento da mulher moderna. Ele mesmo dirá, foi feita exclusivamente para recepções... e teatros... não
em outro momento, ainda com certa hesitação, que “tinha ... tinha outra função... depois passou a... a a a exercer o::... a
algumas moças que::: ... que eram bem mais levianas ... mas era fiscalização de rua... (NURC/SP, idem, linhas 331-5).
muito raro ... muito raro ...”
O inquérito NURC/SP D2 396, que nos está servindo 3. Depois de conjunção, na complementação de um
de principal base para as considerações deste artigo, apresenta segmento do discurso ou no início de um novo tópico.
316 ocorrências de hesitação, assim distribuídas em relação ao No diálogo examinado, o predomínio é da conjugação
ponto em que ocorrem no discurso dos idosos: coordenativa e, num total de 15% para 19% de ocorrências
de conjunções.

Exemplo 13
L1 ... houve a::... a invaSÃO:: de São Paulo... por....
por por pessoas:: não só de fora... principalmente de fora...
cresceu muito depois da guerra... imigração.... e::::... e do norte
sobretudo do norte... (NURC/SP, idem linhas 621-5).

Neste trecho, com muitas hesitações, observa-se o


alongamento e pausa prolongada depois da conjunção e que
inicia a informação final que completa o tópico ou subtópico
que o falante vinha desenvolvendo.
Um dos momentos frequentes de hesitação com a
Esse quadro permite-nos concluir que o fenômeno da mesma conjunção ocorre na rememoração das datas em que
hesitação ocorre predominantemente nos seguintes pontos se deram os fatos:
do discurso:
1. Antes dos nomes (substantivos); ou antes dos adjetivos Exemplo 14:
em função predicativa. L1 o:::: sírios já foram modificando um pocadinho o::... o
Assim, 31 % das ocorrências se dão depois dos o::: sistema de negócios mas até mil novecentos e... e::: vinte::...
determinantes de nomes (artigos, adjetivos) em qualquer (NURC/SP, idem, linhas 672-4).
39
Exemplo 15
L1 por volta de mil novecentos e:::... talvez mil novecentos
As atividades referentes a esta aula estão disponibilizadas na
e::
ferramenta “Atividades”. Após respondê-las, enviem-nas por meio
L2 e vin::te...
do Portfolio - ferramenta do ambiente de aprendizagem UNIGRAN
[
Virtual. Em caso de dúvidas, utilize as ferramentas apropriadas para se
L1 e TRInta é que começou com:: como... passou a a a
comunicar com o professor.
a ter tecidos...
(NURC/ SP, idem, linhas 843-7).

A dificuldade em precisar o tempo passado causa a Vale a pena


hesitação que, às vezes, não se resolve nem com o “discurso a
dois”, isto é, com a colaboração do interlocutor.
Uma comparação entre as ocorrências em inquéritos
NURC/SP de 4 diferentes faixas etárias, acima de 80 anos
(“idosos velhos”, inquérito 396), de 60 a Vale a pena ler
80 (“idosos jovens”, inquérito 333) de 36 O Projeto NURC/SP
a 55 (inquérito 360), de 25 a 35 (inquérito só aborda 3 faixas PRETI, Dino. A hesitação no discurso dos idosos. In:
etárias: 25-35; 36-55;
343), veríamos que a média de hesitações acima de 56 anos. ______. Estudos de língua oral e escrita. Série Dispersos. Rio de
se revela bem mais alta no primeiro grupo: Janeiro: Lucerna, 2004. p. 47-54.

Minhas anotações

Poderia parecer, a princípio, que o fenômeno da


hesitação também interferiria na densidade das frases e
no volume de palavras empregado no discurso. Mas essa
constatação demandaria uma continuação deste estudo, com
um levantamento mais exaustivo de dados, compreendendo
inquéritos das várias faixas etárias.
Uma amostragem pequena tornou-se irrelevante neste
sentido, quando nos utilizamos de 3 inquéritos: 396 (acima de
80 anos), 360 (acima de 36 anos), 62 (26 anos):

Esse fato, talvez, pareça demonstrar que os idosos


possuem mecanismo compensatório em seu ritmo de fala,
isto é, momentos de lentidão se alternam com outros mais
rápidos, pois esses falantes, normalmente, costumam falar aos
arrancos.

Retomando a aula

Chegamos, assim, ao final da sétima aula. Esperamos


que agora tenha ficado claro o entendimento de
vocês sobre As estratégias do texto falado.

1 - As diferentes estratégias do texto falado

Caracterização.

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