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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR DESEMBARGADOR RELATOR DA 2ª

CÂMARA CRIMINAL DO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO


CEARÁ – RELATOR FRANCISCO JAIME MEDEIROS NETO.

RAZÕES DA APELAÇÃO

PROCESSO Nº 0052406-13.2020.8.06.0112
VARA DE ORIGEM: 1ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE JUAZEIRO DO NORTE/CE

APELADO: MINISTÉRIO PÚBLICO DO CEARÁ

APELANTE: JOSÉ JÚNIOR SANTOS PEREIRA

RAZÕES RECURSAIS

EXCELENTÍSSIMO DESEMBARGADOR RELATOR

A respeitável sentença recorrida deve ser reformada, em ato sucessivo, ser


analisada e, consequentemente, dar provimento ao recurso oferecido pelo apelante,
eis que a sentença ignorou os aspectos do direito material, em consonância com a
jurisprudência pátria e legislação vigente, existindo, pois, reparos à mesma.

Isto posto, passam-se às razões recursais.

1. SÍNTESE DOS FATOS

O apelado foi denunciado pelo Ministério Público em 29/06/2020 (págs. 1 -


6), pela suposta prática dos crimes tipificados nos artigos 157, § 2 °, inc. II e § 2°-A,
inc. I do Código Penal, artigo 244-B da Lei 8.069/90.

Defesa preliminar apresentada pela nobre Defensoria Pública (págs. 99 -


101), manifestando pela apresentação da tese no decorrer da instrução, sem
arrolamento testemunhal.

Termo de audiência (págs. 136 – 137).

Consoante, o RMP, pediu pela condenação do apelado em conformidade com


o tipificado na denúncia (págs. 142 - 147).

Apresentada alegações finais pela Defensoria, pugnando sua absolvição e


subsidiariamente, caso condenado, a participação de menor importância.
Posteriormente interposto recurso de apelação, mas que devido a provável
sobrecarga do aparelho estatal, não conseguindo apresentar no prazo legal.
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Sendo assim, conforme despacho exarado (pág. 198), nomeado como
defensor dativo para apresentar as razões da apelação.

A sentença condenatória culminou na pena de 11 (onze) anos, 03 (três)


meses e 05 (cinco dias) de reclusão e pagamento de 59 (cinquenta e nove) dias-
multa, em face da tipificação Art. 157, §2º, inc. II e §2º - A, inc. I do Código Penal
Brasileiro.

Fixando pena de 01 (um) ano, 10 (dez) meses e 05 (cinco) dias de reclusão,


sob tipificação do Art. 244-B da Lei 8.069/90, em regime inicial aberto.

2. ATIPICIDADE DA MAJORANTE

A sentença que condenou o Sr. José Junior Santos Pereira, ignorou fator
determinante na dosimetria da pena, especificamente, na terceira fase, a
inexistência da majorante da arma de fogo, sendo conduta atípica.

Tal majoração foi pedida desde a denúncia, porém não foi observado os
autos do processo, conforme laudo pericial (pág. 91 - 94), vejamos:

Conclusão que ainda que municiada, esta não seria capaz de lançar os
projéteis, ou seja, não teria potencialidade lesiva por avarias no sistema. Por
definição legal e diante o juízo de valor, não pode ser tipificada ou valorada
como arma de fogo, segundo fator que deve-se observar é ausência de
munição no auto de apreensão (pág. 16).

O princípio da legalidade, sendo o primogênito da base principiológica do


arcabouço material, inspirador de vários outros e sustentáculo do estado
democrático de direito. Logo, em respeito aos fatos históricos, século XVIII, este que
foi desde então, a proteção ao estado absolutista, as arbitrariedades do poder e as

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inseguranças. No momento presente, ganhou natureza complexa, mas ainda
continua sendo um imperativo categórico ao poder de punir, é objetivo.

A construção tipológica individualizadora, independente de qual substrato


do crime ou da pena, esta que individualiza e criminaliza tal conduta ou agrava
referida pena, deve estar em perfeita adequação, o fato da vida ao considerado
criminoso. O tipo, a tipicidade dever ser subsumidos de maneira total. As lacunas ou
encaixes do tipo, não podem e nem dever ser suprimidas no momento do fato, pois
estaríamos rasgando o princípio da legalidade, consagrado na Constituição Federal
e Código Penal.

A tipicidade é compreendida em dois sentidos: Formal, sendo a adequação ao


tipo penal, enquadramento a todos os núcleos do verbo do tipo penal. Por essa
primeira definição, não é típica. Não existe nenhum diploma legislativo definindo a
arma de fogo.

Entretanto, a definição do próprio controle estatal, materializado no controle


do Exército Brasileiro, responsável bélico nacional, assim o define, vejamos:

ARMA DE FOGO - arma que arremessa projéteis empregando a força


expansiva dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado
em uma câmara que, normalmente, está solidária a um cano que tem a
função de propiciar continuidade à combustão do propelente, além de
direção e estabilidade ao projétil.

A segunda compreensão da tipicidade é em sentido formal. O risco efetivo


que aquela conduta traz à realidade, obedecendo o princípio basilar da
fragmentariedade direito penal, não sendo suficiente apenas a adequação da figura
típica. No caso concreto, como já foi falado e exposto a arma ainda que municiada e
tentada, não haveria possibilidade pela sua avaria.

Consoante, por decorrência natural do princípio já referenciado, nascido o


princípio da reserva legal: nullum crimen nulla poena signe praevia lege. A defesa
técnica remete-se ao fato narrado desde a peça exordial acusatória (págs. 1 – 6), nos
memoriais (págs. 142 - 147) e na própria sentença (págs. 152 - 157), razão de ser
apelada.

Na dosimetria da pena, houve a majoração, observando o Código Penal:

Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem,


mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la,
por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
§ 2º-A A pena aumenta-se de 2/3 (dois terços):
I – se a violência ou ameaça é exercida com emprego de
arma de fogo;

Ao contrário das outras fases, aqui, na terceira a redução ou aumento podem


transpor os limites máximo e mínimo da pena-base, porque há quantificação
predeterminada em cada cláusula. Todas as causas gerais ou especiais de aumento
ou diminuição da pena são identificadas porque estabelecem uma referência
fracionária ou numeral a uma pena preexistente.

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Vê-se, assim, que diferentemente do que ocorre com as circunstâncias
judiciais e com as agravantes e atenuantes, para as causas de aumento ou de
diminuição o legislador prevê a respectiva quantidade de majoração ou minoração
punitiva. Outra dessemelhança entre elas é que para as causas de aumento e
diminuição a pena aplicada pode ultrapassar, respectivamente, o limite máximo e
mínimo cominado para o delito, o que não se verifica com as circunstâncias acima
indicadas.

Logo, observada a sentença condenatória, não haveria qualquer outra


majorante que elevasse a pena. Conforme a defesa técnica coloca, existe atipicidade,
portanto, requer que ser fixada conforme o cálculo até a segunda fase da dosimetria,
sendo de 06 (seis) anos, 9 (nove) meses e 03 (três) dias de reclusão.

3. DO DIREITO

Conforme o exposto, sem a intenção de mero devaneios ou colocações protelatórias.


Diploma legal já referido, o princípio da legalidade, fulcro na Constituição federal, artigo
5°, Inciso XXXIX, consoante com o artigo 1º, Código Penal:

XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem
prévia cominação legal;

A jurisprudência do STJ é homogênea no decorrer dos últimos anos nesse sentido,


vejamos:

[...] Esta Corte acumula julgados no sentido de que o uso de


arma de fogo reconhecida como ineficaz para efetuar disparos
não possui o condão de atrair a aplicação da majorante inserta
no art. 157, § 2º, inciso I, do Código Penal - CP. Isso porque o
elemento preponderante para a majoração da pena, in casu, é
a potencialidade ofensiva agravada pela arma de fogo, e não o
fator de intimidação que o artefato possa vir a ocasionar.
(HC 350711 / SP HABEAS CORPUS 2016/0058624-5/ Ministro
Relator: JOEL ILAN PACIORNIK, DJe 28/04/2016)

Esta Corte Superior de Justiça, no julgamento dos EREsp


961.863/RS, tenha pacificado o entendimento de que a
incidência da majorante prevista no inciso I do § 2º do artigo
157 do Código Penal independe da apreensão e perícia da
arma de fogo empregada no roubo, quando há nos autos laudo
que atesta a sua ineficácia e inaptidão para a produção de
disparos, mostra-se inviável o seu reconhecimento.
Hipótese em que o laudo pericial acostado aos autos atesta que
a arma utilizada no crime não é apta a produzir disparos, pelo
que se impõe a exclusão da causa de aumento prevista no
artigo 157, § 2º, inciso I, do Código Penal.
(AgRg no REsp 1532816 / AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO
ESPECIAL 2015/0115088-3 / Ministro REYNALDO SOARES DA
FONSECA / DJe 15/06/2018)

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4. DOS PEDIDOS

Por estas razões, REQUER:


A) O recebimento a presente razões da apelação, por tempestiva e cabível.

B) O reconhecimento da atipicidade e afastamento do majorante do artigo


157, § 2°-A, inc. I, Código Penal Brasileiro.

C) Reforma da dosimetria condenatória diante o pedido anterior.

Nestes termos, perde e aguarda provimento.

Juazeiro do Norte – Ceará, data do protocolo.

VINÍCIUS RAMOS DE SÁ SANTOS


OAB/CE 41.908
Assinatura eletrônica

VINICIO SEVERINO CANUTO


Matrícula/URCA: 20182116026
Estagiário

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