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Saúde pública e as bases de funcionamento do SUS


Publicado em 19 de março de 2021 Conteúdos relacionados

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Este é o segundo texto de uma trilha de conteúdos sobre Saúde pública no Brasil.
Confira os demais posts da trilha: 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6
Além do conceito ampliado de saúde trazido pelo SUS – que passou a se preocupar com
a prevenção de doenças, e não apenas com seus tratamentos – a idealização do
Sistema Único de Saúde apresenta dois conceitos importantes: sistema e unicidade.
Tais palavras resumem a forma como funciona nossa saúde pública.
A expressão “sistema” representa a interação entre várias instituições com um objetivo
em comum. Neste caso, o objetivo pode ser resumido em atividades de promoção,
proteção e recuperação da saúde. Tais instituições pertencem aos três níveis de
governo e também ao setor privado contratado e conveniado (que deve seguir as
mesmas normas dos serviços públicos).
Atrelada a isso está a ideia de unicidade do SUS, que nada mais é do que a
padronização de uma doutrina e de uma organização que devem ser comuns no Brasil
inteiro. Ou seja, os objetivos e o funcionamento do SUS devem estar de acordo um
modelo nacional de saúde pública levando em conta tanto as suas diretrizes como a
forma de agir. Esses e outros princípios foram definidos na Constituição de 1988 e
regem o funcionamento do sistema de saúde brasileiro desde então.
Leia mais: o que são e como funcionam as parcerias público-privadas?

QUAIS SÃO OS PRINCÍPIOS DO SUS?


As “ideias-padrão” do SUS podem ser separadas em duas categorias: doutrinária e
organizativa. A seguir, explicamos o que cada uma delas engloba.

Princípios doutrinários do SUS


Referem-se aos ideais do Sistema Único de Saúde. É a partir deles que as estratégias
de ação são pensadas. Assim, os princípios doutrinários são:
Universalidade: o Estado deve garantir que todos os cidadãos tenham acesso aos
serviços de saúde oferecidos, independente de quaisquer características sociais
ou pessoais – gênero, raça, profissão, entre outras.
Equidade: busca diminuir as desigualdades no atendimento e, ao contrário do que
parece, significa o respeito às diferenças e às distintas necessidades dos
pacientes. Seria “tratar desigualmente os desiguais”, focando esforços especiais
onde há maior carência. Um exemplo disso é o direito ao atendimento preferencial
de idosos acima dos 60 anos, devido à fragilidade de sua saúde;
Integralidade: políticas públicas, tais como educação e preservação ambiental,
para assegurar a garantia de qualidade de vida à população.

Princípios Organizativos do SUS


Os princípios organizativos são formas de concretizar os ideais do SUS na prática, por
meio de:
Participação Popular: como já vimos, a população teve um papel importante no
processo de elaboração do SUS. Justamente por isso, um dos princípios visa a
garantir a continuidade dessa participação por meio da criação dos Conselhos e
da realização das Conferências de Saúde. Tais espaços são destinados ao controle
e avaliação das políticas de saúde, assim como à formulação de novas
estratégias.
Descentralização e Comando Único: dispõe sobre a distribuição de poderes e
responsabilidades entre os três níveis de governo (municipal, estadual e federal)
de modo a oferecer um melhor serviço de saúde. No SUS, essa responsabilidade
deve ser descentralizada até o nível municipal, ou seja, o objetivo é que o
município – por si só – tenha condições técnicas, gerenciais, administrativas e
financeiras para oferecer os devidos serviços. O princípio da descentralização
resulta em outro princípio: o do mando único. O mando único permite a soberania
de cada esfera do governo para tomar decisões, desde que sejam respeitados os
princípios gerais e a participação social.
Regionalização e Hierarquização: é como o princípio da integralidade torna-se
real, já que dentro de uma determinada área geográfica os serviços de saúde
devem ser organizados conforme níveis crescentes de complexidade. Isso garante
a articulação entre os serviços existentes dentro dessa região de forma a cobrir os
diferentes graus de necessidade da população.
Adiante mostramos como ocorre essa hierarquização na prática, que acontece pela
divisão de responsabilidades entre os distintos postos de atendimento.
Você sabe o que cobrar do governo municipal, estadual e federal? Faça nosso quiz!

Hierarquia da saúde pública no Brasil


Para que garantir um melhor funcionamento dos serviços de saúde há uma
hierarquização dos serviços do SUS. Essa classificação é feita de acordo com a
complexidade do caso a ser atendido e é dividida em quatro níveis:
Atenção Básica: enbloba os atendimentos e ações de promoção, prevenção e
recuperação do estado da saúde,
contemplando consultas, vacinação e outras ações. Os atendimentos a famílias
também se encaixam aqui, como gestão materna, saúde do idoso, da criança e do
adolescente.
Atenção secundária: estágio em que alguma doença já foi identificada e demanda
acompanhamento especializado de oftalmologistas e cardiologistas, por exemplo.
Atenção terciária: para pacientes com um quadro mais grave, que precisam ser
internados para melhor acompanhamento (por exemplo, nas Unidades de
Tratamento Intensivo – UTI).
Reabilitação: seria uma quarta fase para casos em que o paciente teve alta, mas
ainda demanda um acompanhamento posterior – como fisioterapia, por exemplo.
Com base nessa classificação, o SUS definiu as unidades de atendimentos de saúde e
quais casos cada uma delas pode e deve atender. As principais opções são:
Posto de Saúde: presta assistência à população de uma determinada área (por
exemplo um bairro), com agendamentos de consultas ou não. O atendimento é
realizado por profissionais da saúde como enfermeiros e auxiliares e pode, ou não,
contar com a presença de um médico.
Unidade Básica de Saúde (UBS): realiza atendimentos de atenção básica e
integral, como curativos. Os atendimentos englobam especialidades
fundamentais, podendo também oferecer serviços odontológicos. A assistência
deve ser permanente e prestada por médico generalista ou especialistas nas áreas
oferecidas – o que pode variar de uma UBS para outra. Além dos médicos, os
enfermeiros também desempenham um papel fundamental. Confira aqui algumas
de suas funções.
Unidade de Pronto-Atendimento (UPA): consiste em unidades de urgência e
emergência abertas 24 horas. Por contar com mais recursos do que um posto de
saúde, é capacitada a atender serviços de média a alta complexidade, como casos
de pressão alta, infarto, fraturas ou derrame. Na UPA, é o grau de emergência que
define a ordem dos atendimentos.
Hospital (incluindo o hospital universitário): destinada ao atendimento dos casos
de atenção terciária. Geralmente os pacientes são encaminhados ao hospital
pelos níveis anteriores, ou ainda em ambulância. Por contar com maior quantidade
de recursos tecnológicos, também são responsáveis por atendimento clínico geral
em diversas especialidades. Os hospitais atendem casos de enfermidades que
ameacem a vida dos pacientes – como câncer – e realizam cirurgias, entre várias
outras funções.
A função dos postos de atendimento – em especial dos citados acima – deve estar
muito clara para a população. Afinal, as filas seriam reduzidas e o serviço médico
agilizado se os civis soubessem a qual forma de atendimento recorrer em cada ocasião.
É necessária a preocupação em educar a população, pois esse fator por si só já
auxiliaria na melhoria dos atendimentos públicos. Em Joinville, por exemplo ,a
prefeitura distribui uma cartilha que informa sobre as funções dos diferentes postos de
atendimento.
Além dos estabelecimentos destacados anteriormente, outros ainda integram a rede de
atendimento do SUS, como os hemocentros (bancos de sangue), os laboratórios – onde
são realizados exames – e os institutos de pesquisa, como a Fundação Oswaldo Cruz,
vinculado ao Ministério da Saúde.
Dentre tais serviços, as farmácias merecem um destaque. É nesses estabelecimentos
que acontece a distribuição de medicamentos básicos e essenciais – por meio do
Programa Farmácia Popular – que também engloba redes privadas de farmácias
parceiras – e medicamentos excepcionais, geralmente de alto custo, considerados
essenciais pela Política Nacional de Assistência Farmacêutica.
Além das farmácias, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) é de grande
importância para o funcionamento das complexas políticas públicas de saúde. Cabe a
esse serviço chegar rapidamente às vítimas em situação de urgência e emergência,
como aquelas envolvidas em acidentes de trânsito. O SAMU consiste em um serviço
pré-hospitalar que faz a conexão entre as vítimas e os recursos necessários para um
atendimento completo.

Profissionais que integram o Sistema Único de


Saúde
Você já percebeu que o sistema de saúde pública no Brasil é bem complexo e vai muito
além do diagnóstico de doenças. Como o SUS tem que lidar com uma série de questões
que, de forma direta ou indireta, dizem respeito à saúde, isso significa que é preciso
contar com uma gama muito variada de profissionais.
O artigo 13 da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990) destaca
algumas das atividades essenciais para o funcionamento do Sistema Único de Saúde:
Alimentação e nutrição;
Saneamento e meio ambiente;
Vigilância sanitária e farmacoepidemiologia;
Recursos humanos;
Ciência e tecnologia;
Saúde do trabalhador.
Por conta disso, para que uma equipe da saúde seja constituída, é necessário contratar
muito mais do que profissionais específicos de cada área , como médicos, enfermeiros,
parteiros, entre outros. Administradores, gestores, biólogos, assistentes sociais são
alguns dos vários profissionais essenciais para o funcionamento do Sistema Único de
Saúde.
Uma das maneiras de conseguir contratar mais profissionais é por meio da candidatura
dos postos de atendimento para bolsas oferecidas pelo Ministério da Saúde. São
exemplos dessas bolsas a Pró-residência em Saúde e a Pró-residência Médica. A
primeira inclui os profissionais de saúde, com a exceção de médicos, que se encaixam
na segunda categoria de bolsa.

Nesses dois programas, os requisitos para aplicação são decididos nos editais. Os
documentos informam sobre quais postos de atendimento podem se candidatar, assim
como quais as regiões prioritárias e as áreas de atuação dos profissionais a serem
contratados. Com base nisso, postos de atendimento especificam – em uma proposta
que é enviada para avaliação no órgão competente – quais as áreas e a quantidade de
profissionais que desejam contratar, entre outros detalhes exigidos.
Que tal entender 4 problemas da gestão pública municipal no Brasil?

QUAIS AS METAS DE SAÚDE QUE UM MUNICÍPIO


DEVE CUMPRIR?
Esse comando vem diretamente do Ministério da Saúde, que transfere o recurso e
decide em quais fins esse dinheiro será investido. Entretanto, tal estratégia apresenta
alguns problemas.
O primeiro deles acontece porque as metas – como o número de novas UPAs a serem
construídas em uma dada região – são determinadas com base na quantidade de
pessoas. Contudo, esse valor populacional é dado pelo IBGE e não reflete a realidade.
Essa falha acontece por razões como o constante dinamismo dos cidadãos, que se
mudam de um bairro para o outro de forma mais rápida do que o censo demográfico
consegue acompanhar. Além disso, é difícil prever o número de gestantes que uma
cidade terá em um ano. O mesmo acontece com a quantidade de idosos e de pessoas
com doenças crônicas – aquelas que se desenvolvem em um curto período de tempo.
Por conta desse cenário é possível compreender a importância de os municípios
realizarem os próprios censos e cadastramentos. Afinal, a gestão dos recursos enviados
ao município pode ser melhor se os governantes tiverem uma melhor noção do número
de pessoas que se encaixam em diversas categorias.
Agora que você já entendeu tudo sobre saúde pública e o funcionamento do SUS, assim
como sobre sua hierarquia, que tal refrescar a memória com um infográfico?

Para complementar os seus conhecimentos, que tal conferir este vídeo feito em
parceria com o mestre em Saúde Pública Paulo Sérgio?

Conseguiu entender quais são os princípios fundamentais e como funciona hierarquia


da saúde pública brasileira? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!
Referências:
Data SUS – Farmácia Popular
Governo de Brasília – Quando devo procurar uma UPA
Governo do Brasil – União, estados e municípios têm papéis diferentes na gestão do
SUS
Ministério da Educação – Programa de expansão amplia o número de bolsas
Ministério da Saúde – Princípios do SUS
Ministério da Saúde – Tipos de Estabelecimentos
Ministério do Planejamento – UPA
Notícias do Dia – Diferença entre os postos de saúde
Pense SUS

Pâmela Morais
Assessora de conteúdo no Politize! e graduanda de Relações Internacionais
pela Universidade Federal de Santa Catarina. Quer ajudar a tornar um
tema tido como polêmico e muito complicado em algo do dia a dia, como a
política deve ser!

7 comentários
Saúde pública e as bases de funcionamento do SUS - Segredos Políticos
[…] Continue lendo: Politize! (Fonte Oficial). […]

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