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UNIVERSIDADE DE BELAS

FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E ECONÔMICAS


CURSO DE PSICOLOGIA CLÍNICA

DEPRESSÃO PÓS-PARTO EM ADOLESCENTES E JOVENS


COM IDADES COMPREENDIDAS ENTRE 15 AOS 20 ANOS,
DA MATERNIDADE LUCRÉCIA PAIM, DE 2018 A 2021

TRABALHO DE FIM DE CURSO

DIONÍSIA MARIA FERREIRA SANTA ROSA ERNESTO

LUANDA,2021
UNIVERSIDADE DE BELAS
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E ECONÔMICAS
CURSO DE PSICOLOGIA CLÍNICA

DEPRESSÃO PÓS-PARTO EM ADOLESCENTES E JOVENS


COM IDADES COMPREENDIDAS ENTRE 15 AOS 20 ANOS
DA MATERNIDADE LUCRÉCIA PAIM DE 2018 A 2021

TRABALHO DE FIM DE CURSO

Autor: Dionísia Maria Ferreira Santa


Rosa Ernesto
Orientadora: Dra Deolinda Van-Dunem

TRABALHO DE FIM DE CURSO


APRESENTADO À FACULDADE DE
CIÊNCIAS SOCIAIS E ECONÔMICAS
DA UNIVERSIDADE DE BELAS COM
REQUISITO PARA OBTENÇÃO DO
GRAU DE LICENCIADA EM
PSICOLOGIA CLÍNICA

LUANDA,2021
FICHA CATALOGRÁFICA

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por


qualquer meio convencional ou eletrônico para fins de estudo e pesquisa desde que
citada a fonte.

Dionísio Maria Ferreira Santa Rosa Ernesto

Data________/_________/________

Dionísio Maria Ferreira Santa Rosa Ernesto

PSICOLOGIA CLÍNICA

Trabalho de fim de curso apresentado à Faculdade de Ciências Sociais e


Econômicas da Universidade de Belas como requisito para obtenção do grau de
Licenciado em Psicologia Clínica.

Orientador:
N‫ ﹿ‬Página:
Tipo de Letra:
Palavra Chave:
Dionísio Maria Ferreira Santa Rosa Ernesto
PSICOLOGIA CLÍNICA

Trabalho de fim de curso apresentado à Faculdade de Ciências Sociais e


Econômicas da Universidade de Belas como requisito para obtenção do grau de
Licenciado em Psicologia Clínica.

Aprovado,_______/_______/_______

BANCA EXAMINADORA

Presidente do Júri

______________________________________

1˚ Vogal

______________________________________

2˚ Vogal

______________________________________

Secretário

______________________________________
AGRADECIMENTO
Dedico este trabalho primeiramente a deus por ser responsável da minha Vida
do meu destino, por me dar saúde e inteligência, pois é graças a ele que hoje me
encontro aqui a defender, segundo lugar ao meu Marido que além do incentivo
apoiou-me em todas as vertentes para a realização do nosso sonho, nosso porque
sei que neste momento também te sentes realizado por me desejares o mesmo
crescimento profissional que atingiste.
A Dra Deolinda que desde o primeiro encontro até aqui mostrou-me sempre
disponibilidade para orientar-me em qualquer dúvida ou dificuldade que encontrar-se
ao longo da elaboração do trabalho, e a minha mãe que desde cedo preocupou-se
com a minha formação.
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a todas as mulheres por terem em sua posse o dom de
gerar vidas, dedico também, a aquelas mulheres que ao longo do processo difícil da
gestação não têm apoio dos parceiros e familiares, dedico ainda este trabalho em
particular a aquelas mulheres que sofrem com a depressão pós parto, e as que
conseguiram superar esta fase que pode não parecer mais que é muito difícil.
EPÍGRAFE
RESUMO
ABSTRACT
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
Segundo (Masterline, 2012, p. 7) A palavra depressão pode significar tanto
um estado afetivo normal, quanto um sintoma, uma síndrome ou uma doença.
Pode estar associada a reações normais diante de determinados sofrimentos e
sentimentos de perda ao longo da vida de um indivíduo. Já como uma síndrome ou
doença inclui alterações do humor, cognitivas, psicomotoras e vegetativas.
Em angola Segundo (Bernardo, 2019) O Hospital Psiquiátrico de Luanda
registou em 2018 cerca de 60 casos de depressão, dos quais 30 por cento em
mulheres diagnosticadas com depressão pós-parto, provenientes de várias
unidades sanitárias da capital, disse o director clínico e chefe do Banco de
Urgência, Jaime Sampaio. No mesmo período, segundo dados do “Relatório
Médico 2018/2019” do Hospital Psiquiátrico de Luanda, em Abril de 2018, foram
registados em consultas externas 68 casos de depressão pós-parto em mulheres
com idades entre os 15 e 24 anos.
Em Abril de 2019, o relatório indica uma baixa nos resultados com cerca de
53 casos em mulheres da mesma faixa etária. Em declarações ao Jornal de
Angola, o director clínico e chefe do Banco de Urgência da Psiquiatria de Luanda,
Jaime Sampaio, disse que, dos 100 casos registados, em média, 70 são
provenientes das maternidades Lucrécia Paim, Augusto Ngangula, Cajueiros,
Samba e Capalanca. Neste trabalho particularmente em estudo nos
concentramos nos dados da maternidade Maternidades Lucrécia Paim, de 2018 a
2021, onde semanalmente, o Hospital Psiquiátrico de Luanda recebe da
Maternidade Lucrécia Paim, em média, cinco a seis casos de mulheres com
depressão depois do parto e da Maternidade Augusto Ngangula, três a quatro
casos.
O nascimento de um bebê tem sido associado a situações de estresse em
algumas famílias, diante das mudanças nas rotinas diárias relativas à gravidez, ao
parto e ao pós-parto. A ocorrência da depressão materna, após o nascimento de
um bebê, de acordo com Sotto-Mayor e Piccinini (2005), pode ser preocupante
tanto para a mãe e para a criança, como também para a família, uma vez que esse
período tem sido enfatizado como propício para o surgimento de problemas
emocionais nas mães, destacando-se os transtornos psicoafetivos.
Para entender a depressão na etapa puerperal, torna-se necessário enfocar
o sofrimento psíquico, enquanto mal-estar moderno, um transtorno reativo
amplamente identificado em vários perfis humanos. Particularmente, a depressão
feminina estudada neste artigo concentra-se no sofrimento materno após o
nascimento de um bebê, incluindo seus principais sintomas e fatores associados, a
indicação da sua prevalência, além dos instrumentos para o diagnóstico deste
transtorno psicoafetivo, com ênfase nas repercussões da dor psíquica na vida
familiar.

1
Delimitação do Tema: De uma forma meramente docente nos limitamos em
abordar sobre depressão pós-parto em jovens com idade compreendida entre 15 a
20 anos da Maternidade Lucrécia Paim de 2018 a 2021.
JUSTIFICATIVA: Por ser uma doença que silenciosamente vai fazendo suas vítimas
e se não tratada precocemente pode evoluir a psicose que é o estado mais crítico da
doença. Por outro lado, a falta de conhecimento sobre essa doença muitas mulheres
perdem a vida cometendo o suicídio por causa da depressão e ainda colocando em
risco a vida e o futuro da criança.
Problema Científico: -Porque que a depressão pós-parto é uma doença que aos

poucos vai alargando o seu número de vítimas (Jovens e adolescentes), e quais

métodos ou mecanismos deve-se utilizar para que a depressão pós-parto não

impacte na relação de mãe para o filho?

HIPÓTESE:-
O apoio familiar, o acompanhamento psicologico durante a gestação e pós-parto...

2
Objectivo Geral: Compreender a variação de humor em mulheres em diferentes
fases no processo da gestação causado pela depressão pós-parto.
Objectivo específicos:
- Identificar as causas da depressão pós-parto.
-Avaliar o impacto social que a depressão pós-parto provoca a nível Familiar e
Social.
-Melhorar a compreensão sobre a depressão pós-parto.
-Propor metodologias que contribuem na redução da depressão pós-parto em
adolescentes e jovens.
-Aplicar medidas que possam contribuir para a identificação precoce da depressão
pós-parto em adolescentes e jovens.
-Descrever a Importância do Psicólogo no Tratamento da depressão pós-parto.

Fundamentação Teórica:
A DPP acomete em mulheres que estão no período gestacional e no
pós-parto que normalmente começam a demonstrar os primeiros sinais em 48
horas após o parto, onde são mais frequentes o choro, a ansiedade, o
comprometimento da concentração, o desânimo, a irritabilidade, o sono
prejudicado e a fadiga. Além destes citados a mãe vai expressar grande
incapacidade para cuidar do seu bebe, essas manifestações podem levar
algumas semanas ou até meses para chegar ao fim (TOWNSEND,2017).

De acordo com a Classificação Internacional de Doença (CID 10),


deve-se levar em consideração critérios como, espaço de tempo de no mínimo
duas semanas do episódio; não ter tido surtos em outra época da sua vida e
não estar relacionado ao uso abusivo de substâncias psicoativas. Os cinco
sintomas que devem estar presentes para ajudar no diagnóstico da depressão
é o humor depressivo, a melancolia intensa e a incapacidade de gozar da
alegria ou do prazer, a inibição de fadiga e fadiga aumentada. O episódio
depressivo é dividido em leve, moderado e grave (MATROROSA, PENHA,
2014).

3
Em se tratando da população adolescente, está a gravidez assume uma
outra repercussão, pois na adolescência este evento envolve questões
psicossociais, que poderão gerar conflitos sociais, emocionais, culturais,
psíquicos e sexuais, e questões como desespero, insegurança, medo,
desorientação e a solidão serão comuns no momento de descoberta da
gestação. Além de toda cobrança social, desta forma esta mulher necessitará
de um suporte emocional e familiar para tornar-se mãe (RODRIGUES, 2017).

No entanto, em muitos casos esse apoio não acontece e a mãe


apresentará sinais de depressão nos primeiros períodos da gestação e no
pós-parto, juntamente com as mudanças que ocorrem na adolescência que vão
envolver as sensações e emoções características desta etapa (RODRIGUES,
2017).

Muitas destas não se sentem parte do processo de dar à luz e se veem


rejeitadas após o nascimento dos seus filhos, pois as atenções e os cuidados
estarão voltados diretamente ao recém-nascido (RN). Situação essa em que os
distúrbios depressivos vão interferir automaticamente no binômio mãe e filho, o
que se torna preocupante devido à dependência que o RN tem para com a mãe
(LORENA,2010).

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Caracterização da área de estudo: lucrecia Paim
Metodologia:
A presente pesquisa é de natureza descritiva, exploratória com uma abordagem
qualitativa e quantitativa complementada com os métodos descritos em
continuidade:
Segundo Andrade (2010) a pesquisa visa construir um novo conhecimento
intelectual e não produzir simplesmente o que já se sabe sobre um determinado
assunto. Utilizando métodos científicos que tem como objetivo encontrar respostas e
soluções para o problema exposto. Desta forma, a pesquisa representa um caminho
cujo destino é a produção de conhecimentos.
A pesquisa descritiva descreve as características de determinada população,
fenômeno ou estabelecimento entre relações variáveis. A característica mais
significativa está na utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados, tem
como objetivo estudar as características de determinado grupo definido por: idade,
sexo, nível de escolaridade, renda familiar, estado de saúde física, mental e outros
(Fernandes, 2013).
No que se refere à pesquisa exploratória, Minayo (2010) relata que tem como
objetivo promover um maior conhecimento sobre o tema ou o problema exposto,
desde a criação do projeto até a coleta em campo, principalmente quando o tema é
pouco explorado dificulta a criação de hipótese específica.

Segundo (Freitas, 2011, p. 24) o conceito de metodologia é:


“Uma discussão epistemológica sobre o “caminho do pensamento” que o
tema ou o objeto de investigação requer, uma apresentação adequada e
justificada dos métodos, das técnicas e dos instrumentos operativos que
devem ser utilizados para as buscas relativas às indagações da
investigação; e uma “criatividade do pescador”, ou seja a sua marca pessoal
e específica na forma de articular teoria, métodos, achados experimentais,
observacionais ou de qualquer outro tipo específico de resposta às
indagações científicas.”

As pesquisas qualitativas utilizam dados não quantitáveis, coletam e


analisam matérias menos estruturadas e narrativas, porém necessitam de um
envolvimento máximo do pesquisador. (FIGUEREDO e SOUZA, 2010, p.107).

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Tipo de Estudo: ?
População e amostra:

Livro( 1280b357c) Gil (2003) afirma que a população é um conjunto de elementos da


qual podem colher dados e descrever um grupo de interesses que se desejam tirar
conclusões. Já a amostra é obtida de uma população específica homogênea por um
processo aleatório, para que a amostra seja representativa da população.

Jovens dos 15 aos 20 anos de idade do hospital


Critérios de inclusão:

Critério de Exclusão: As medidas de restrições e de seguranças impostas pelo


Ministério da saúde devido a COVID-19, o desejo explícito da puérpera em não
participar da pesquisa; a recusa da responsável em aceitar a participação da
puérpera menor de idade; idade menor que 15 anos ou maior que 20 anos;

Método a utilizar: ?

Procedimentos e instrumentos ou técnicas para coleta de dados: Instrumentos


para coleta de dados temos questionários;
Procedimentos de dados:

6
Capítulo I Variação de Humor- Depressão

1.1 Depressão
Antes de adentrarmos no conceito de depressão pós-parto, é necessário que
se faça uma breve introdução à ideia de depressão propriamente dita, não apenas
como aquela que ocorre com as mulheres que deram à luz, mas ao conceito de
depressão como um todo, que acomete homens e mulheres em idades, épocas e
condições de vida variadas desde o início dos tempos. Julgo que esta inclusão
torna-se necessária para que possamos compreender o que está em jogo quando
um indivíduo é tomado pelo sol negro, para que saibamos se é possível relacionar a
depressão em geral com a ocorrida com as jovens e adolescentes que são sujeito
deste estudo.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão é um


transtorno mental que afeta cerca de 340 milhões de pessoas em todo o mundo
(Freitas, 2011, p. 18).

A WHO (World Health Organization, 2010) reconhece a depressão como um


transtorno mental comum, caracterizado por tristeza, perda de prazer ou interesse,
sentimentos de culpa ou baixa autoestima, distúrbios no sono ou no apetite, pouca
energia e concentração prejudicada. Tais distúrbios podem se tornar crônicos ou
recorrentes, extremamente incapacitantes quanto à habilidade de lidar com a vida
diária. Conforme o grau de severidade, a depressão pode levar ao suicídio, uma
fatalidade trágica associada à perda de 850.000 vidas cada ano. A maioria dos
casos de depressão pode ser tratada através de medicamentos ou de psicoterapia.

De acordo com (Coutinho, PPD, 2008, p. 733)., a doença depressiva é um


aumento exagerado das sensações diárias que acompanham a tristeza, consistindo
numa perturbação do humor, de gravidade e duração variáveis, que é

7
frequentemente recorrente e acompanhada por uma variedade de sintomas físicos e
mentais, que envolvem o pensamento, os impulsos e a capacidade crítica.

No início da era psiquiátrica a família do portador de transtorno mental não


participava do tratamento, não o acompanhando e sendo totalmente ausente e sem
interesse na vida que o familiar enfrentava. O afastamento da família era levado em
conta pelos preceitos estipulados pela sociedade com relação à exclusão do doente.
Esse afastamento era compreendido como uma forma de tratamento da doença, o
que é diferente nos dias de hoje. A participação da família no tratamento é
fundamental para uma boa recuperação. Essa visão da presença do familiar
começou a mudar com o Movimento da Reforma Psiquiátrica, onde princípios foram
mudados e evoluíram com o decorrer da história (SPADINI; SOUZA, 2006).

1.2 Gravidez e suas Transformações.

A gravidez representa um momento marcante na vida de uma mulher e


envolve transformações no seu organismo, no seu psiquismo e no seu papel social e
familiar (Beretta et al., 2008 ; Camacho et al., 2006; (Kim, 2014, p. 20)).

A lembrança de ter sido um bebê e de ter sido cuidada pode ajudar ou


atrapalhar sua experiência como mãe (Winnicott, 1994). De Felice (2006) relata
sobre a influência da relação com a mãe internalizada sobre os sentimentos e
atitudes da mulher no puerpério. Nesta experiência atuam vários fatores da
realidade psíquica da mãe que podem ou não favorecer o desenvolvimento de uma
maternidade mais saudável e gratificante.

Desde a infância, a menina é treinada para ser uma mulher capaz de


sacrifícios, ser amável e feminina. Espera-se um modelo de mãe perfeita numa
imagem romanceada da maternidade e ditada pela cultura. Desta forma, surge o

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conflito entre a maternidade idealizada e a vivência que pode originar um grande
sofrimento psíquico (Iaconelli, 2005; Azevedo & Arrais, 2006).

(Fernandes, 2013) Aborda que gravidez é um período de mudanças e


expectativas, durante esse curto-longo período da gravidez de nove meses, a
mulher fica mais sensível e apreensiva, por ser um período cheio de surpresas e
mudanças, assim, é importante o cuidado tanto no aspecto físico como no
psicológico. A alteração hormonal nesse período é comum e ainda ocorrem algumas
mudanças no estado emocional, fazendo com que a mulher grávida torne-se
sensível e emotiva com tudo que ocorre no seu dia a dia.

De acordo com Zoller (2008), essas mudanças são causadas pelo aumento
dos hormônios que têm um papel fundamental para a mãe e para o desenvolvimento
fetal. Os quatros hormônios responsáveis por essas mudanças são: estrogênio;
progesterona; gonadotrofina coriônica; somatomamotropina coriônica humana. O
débito cardíaco aumenta cerca de 30 a 50%, iniciando por volta das 16 semanas, o
aumento do débito cardíaco acarreta o aumento da frequência urinária, isso faz com
que a mulher tenha que esvaziar várias vezes a bexiga, causando alguns
desconfortos.

Logo no primeiro trimestre a taxa metabólica aumenta de 10 a 25%


acelerando todas as funções do corpo, assim, acontecem algumas mudanças
biológicas que são ocasionadas pelas divisões celulares que ocorrem no período
gestacional. É nesse período que a placenta é formada, e ocorre a formação dos
principais órgãos do bebê. É bem provável que comece alguns movimentos do feto.
Nesse período é preciso ficar atenta, essa é uma fase bastante critica para o aborto
e malformação decorrente de doenças e deficiência nutricional materna (LUI, 2011).

9
No segundo trimestre é um período mais tranquilo, embora a barriga
encontra-se maior, aumenta o débito urinário fazendo com que acorde várias vezes
durante a noite, tendo em vista que o feto estar completamente formado, já é
possível identificar o sexo, embora o feto esteja formado ele ainda necessita de
ganhar peso e tamanho (GRAVIDEZ... 2007).

O terceiro trimestre é marcado por ser a última fase da gestação, embora em


alguns casos os sintomas acompanhem durante toda a gravidez, é nessa fase que
aumenta o desconforto aumentando o cansaço físico e as dores nas costas. É mais
complicada para a gestante porque se encontra com a barriga bem maior e mais
pesada, logo no final deste trimestre a mulher já está pronta para dar à luz a seu
bebê (AS ETAPAS..., 2013).

1.3 Puerpério

Depois do parto, ocorre o período conhecido como puerpério, que vai desde o
nascimento do bebê, até seis semanas após o parto. É a volta do organismo da
mulher para o estado anterior da gravidez, durante esse período a puérpera
atravessa uma série de transformação de várias naturezas, seu corpo vai
recuperar-se do parto, sendo normal ou cesárea, e das modificações ocorridas
durante a gestação, logo precisa adaptar-se para a chegada de um novo membro da
família, enfrentar um mundo de novas sensações e necessidades, é um período que
precisa ser compreendido não só por si própria, mas por quem faz parte do seu
cotidiano (Fernandes, 2013, p. 9).

O puerpério tem seu início logo após a dequitação, saída da placenta,


estendendo-se cerca de 6 semanas, quando o organismo materno retorna às suas
condições pré-gravídicas, segundo (Freitas, 2011, p. 15). O puerpério se divide em
três estágios:
● Puerpério imediato (inicia-se da dequitação até 2 horas após o parto)
● Puerpério mediato (da 2ª hora ao 10º dia do pós-parto)
10
● Puerpério tardio (que se segue do 11º dia até o reinício dos ciclos menstruais
nas que não lactam e até 6ª-8ª semana nas lactantes).

Nas primíparas o puerpério pode se estender devido à somatização da


inexperiência com a ansiedade, medo e outros sentimentos, que geram uma
instabilidade maior que o natural.

Para Cantilino et al (2010) o puerpério, por ser um período no qual a mulher


tende a ficar emocionalmente mais frágil, é importante que tanto os profissionais da
saúde como os familiares fiquem atentos a qualquer tipo de mudanças que envolva
o estado emocional da paciente, para que possa ser notado é diagnosticado com
antecedência sinais de depressão.

Quando há alguma intercorrência no puérpera precisa-se de atendimento


especializado, e a enfermagem tem papel importante no que se refere ao puerpério,
por ser um profissional com qualificação teórica e prática capaz de prestar
assistência necessária e de identificar precocemente o transtorno e poder dar início
ao tratamento adequado ou encaminhar para um profissional capacitado para
atender e lhe proporcionar melhor recuperação (PRETTO et al, 2010).

De acordo com Merighi, Gonçalves e Rodrigues (2006) o puerpério é:

“o período no qual a autoconfiança da mulher encontra-se em crise.


Tornar-se mãe é um ritual de transição e envolve uma reorganização de
todos os papéis que integram o autoconceito da mulher. Comentam que
diversos sentimentos estarão se mesclando no decorrer dos dias; entre eles
pode-se colocar a euforia, o medo, o alívio, a ansiedade, entre outros.”
Gonçalves e Rodrigues (2006)

Strapsson e Nedel (2010) definem o pós-parto como sendo o período


caracterizado por sentimentos ambivalentes como: euforia, alívio pelo o nascimento
do filho; aumentando da autoconfiança; desconforto físico (decorrente do trabalho de
parto); medo de não conseguir amamentar; sentimentos de decepção com o filho

11
(pelo sexo, aparência física ou por não nascer saudável); medo de não ser capaz de
cuidar e responder as necessidades do bebê e não ser uma boa mãe.

2.1 Psicose pós-parto

Embora casos desta doença tenham sido relatados já desde o despoletar da


medicina, a psicose puerperal ainda não é compreendida atualmente na sua
totalidade. Assim, nos dias de hoje, a maioria dos investigadores considera-a como
forma de depressão maníaca, com surtos de euforia hiperactiva, seguidos de
episódios de desespero (Amorin, 2010).

O facto é que os sintomas maníacos estão particularmente presentes na


psicose puerperal, quando comparada com a psicose que ocorre noutras alturas da
vida da mulher (Brokckington cit. in Canavarro 2001).

A psicose pós-natal ou puerperal corresponde a um estado excepcional,


sendo considerada como a mais grave de todas as formas de insanidade mental, de
acordo com psiquiatras e segundo Feinenmann (2001). Assim, a psicose puerperal
tem sido definida como uma perturbação que exige intervenção emergente, devido
ao risco de suicídio ou infanticídio, sendo descrita como inesperada, com
sintomatologia psicótica e de predomínio raro.

Ainda e de acordo com a Oliveira et al (2004), a psicose puerperal apresenta


uma incidência de 0,1% a 0,2%, sendo a sua forma de apresentação de predomínio
afectivo, maníaca ou depressiva, caracterizando-se sintomatologicamente por
alteração de humor, ideias delirantes, alucinações, desorientação, agitação,
sensação de poder infinito, capacidade de controlar situações sem reflexão crítica. É
ainda comum a presença de pensamentos delirantes, tais como sobre a morte do
bebé, negação da gravidez e manifestações de necessidades de matar o bebé.

12
Para além disto, segundo (Duarte 2009), esta alteração pode ocorrer durante
as primeiras duas semanas ou um a três meses após o parto. Todavia, alguns
autores como (Oliveira et al 2004), referem o seu aparecimento nos primeiros dias
ou semanas a seguir ao parto, resolvendo-se entre um a três meses com o
tratamento adequado.
Ainda nesta ordem de ideias, estudos empíricos desenvolvidos em torno
desta temática, indicam que, em nenhum dos casos estudados o início se verifica
antes do terceiro dia e depois da quarta semana do puerpério (Klompenhouwer cit.
in Canavarro 2001).

Para além destes factos, são descritos como fundamentais para o diagnóstico
de psicose puerperal, a presença dos seguintes sintomas: a hiperatividade, pouca
necessidade de descanso, dificuldade de concentração, discurso muito rápido, a
tropeçar nas palavras, irritabilidade e alucinações (Feinenmann 2001).

Em termos de tratamento e tendo em conta que, a presente patologia assume


o papel de condição grave, é quase sempre necessária a hospitalização da mãe.
Torna-se evidente na literatura consultada que, uma das condições que
complementa o tratamento ideal seria a possibilidade do bebé acompanhar a mãe
na mesma unidade de internamento, dadas as consequências nefastas da
separação, uma vez que a relação entre a mãe e o bebé ainda se está a organizar
(Sousa, 2006).

Estudos científicos recentes sustentam a hipótese de que a mulher portadora


de psicose puerperal que comete infanticídio, necessita mais de tratamento e
reabilitação do que de punição legal, a fim de se evitarem outras fatalidades
decorrentes da gravidade do quadro. A educação familiar também estaria presente
nesse tipo de intervenção (Spinelli, 2004).

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Deste modo, o importante para estes investigadores (Steiner e Tam, 1999) é
distinguir a psicose de outras perturbações psicopatológicas, pois embora a psicose
tenha sido relacionada com diferentes perturbações psicopatológicas, na mesma
têm sido destacados fundamentalmente sintomas maníacos (variações abruptas no
estado de humor e disponibilidade para o contacto com a realidade), sendo
distinguida, desta forma das restantes perturbações.

Deste modo, o importante para estes investigadores (Steiner e Tam, 1999) é


distinguir a psicose de outras perturbações psicopatológicas, pois embora a psicose
tenha sido relacionada com diferentes perturbações psicopatológicas, na mesma
têm sido destacados fundamentalmente sintomas maníacos (variações abruptas no
estado de humor e disponibilidade para o contacto com a realidade), sendo
distinguida, desta forma das restantes perturbações.

2.2 Depressão Pós-Parto

De acordo com (Kim, 2014) a Décima Revisão da Classificação Internacional


de Doenças e Problemas de Saúde Relacionados (CID-10, 1993), a depressão
pós-natal e a depressão pós-parto estão classificadas como Transtornos mentais e
de comportamento associados ao puerpério, não classificados em outros locais (F
53) no subitem Transtornos mentais e de comportamento, leves, associados ao
puerpério, não classificados em outros locais (F 53.0). Devendo ser usada apenas
para transtornos mentais associados ao puerpério e iniciando dentro de 6 semanas
após o parto e que não satisfaçam os critérios para os outros transtornos
classificados em outros locais do CID-10 devido à insuficiência de informações
disponíveis e por considerar os aspectos clínicos adicionais especiais presentes.

Possível classificar os transtornos mentais associados ao puerpério pelo


código do capítulo V (F) e indicando o tipo específico de transtorno mental,
geralmente transtornos de humor (afetivo) (F30 – F39) e pelo código O99.3 de

14
transtornos mentais e doenças do sistema nervoso complicando gravidez, parto e
puerpério que inclui condições em F00 (Demência em doença de Alzheimer), F99
(Transtorno mental, sem outra especificação) e G00 – G99 (Doenças do sistema
nervoso) (CID-10, 1993).

Para a depressão, o CID-10 estabelece diferenças entre episódios


depressivos leve, moderado e grave de acordo com o número, tipo e gravidade dos
sintomas.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, na sua 4ª edição,


texto revisado (DSM-IV-TR, 2002) da Associação Psiquiátrica Americana tem
finalidades clínicas, de pesquisa e de ensino apoiado por ampla base empírica e de
uso multiprofissional.

Esse manual utiliza o especificador “com início no pós-parto” que pode ser
aplicado ao Episódio Depressivo Maior, Episódio Maníaco ou Episódio Misto atual do
Transtorno Depressivo Maior, Transtorno Bipolar I ou Transtorno Bipolar II ou ao
Transtorno Psicótico Breve, se o início ocorrer no período de quatro semanas após o
parto. Tem a mesma sintomatologia dos Episódios de Humor que não ocorrem no
pós-parto (DSM-IV-TR, 2002). O risco de recorrência parto subsequente varia entre
30 % e 50%. As mulheres com histórico familiar de Transtornos Bipolares também
podem ter um risco aumentado (DSM-IV-TR, 2002).

Segundo o DSM-IV-TR (2002), o Transtorno Depressivo Maior é caracterizado


por um ou mais Episódios Depressivos Maiores e está dividido em:

● Transtorno Depressivo Maior Episódio Único


● Transtorno Depressivo Maior Recorrente.

15
Os sintomas são os mesmos do Episódio Depressivo Maior, além de não
haver Episódio Maníaco, Episódio Misto ou Episódio Hipomaníaco, não estar
sobreposto a Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação, bem como o Episódio Depressivo
Maior não é mais bem explicado por Transtorno Esquizoafetivo. Uma vez satisfeitos
os critérios, especifica-se a condição clínica e/ou característica, no caso deste
estudo, com início no Pós-Parto.

As mulheres com Episódios Depressivos Maiores no pós-parto podem


apresentar ansiedade grave e ataques de pânico. As atitudes maternas são
variáveis e podem incluir desinteresse, medo de ficar a sós com o bebê, ou excesso
de intrusão, o que atrapalha o descanso adequado do bebê (DSM-IV-TR, 2002).

A diferença entre os episódios de humor e a tristeza pós-parto (baby


blues)
A diferença entre os episódios de humor e a tristeza pós-parto (baby blues),
que afeta em torno de 70% das puérperas nos dez dias após o parto, é que a
tristeza pós-parto é transitória e não prejudica o funcionamento (DSM-IV-TR, 2002).

Estudos demonstram que os sintomas de humor e ansiedade durante a


gravidez e a tristeza pós-parto, bem como o histórico prévio pessoal e histórico
familiar de Transtorno de Humor aumentam o risco de um Episódio Depressivo
Maior no pós-parto. Os fatores de risco, as taxas de recorrência e os sintomas dos
Episódios de Humor com início no pós-parto são similares àqueles que não são do
período pós-parto. O período pós-parto é singular devido às alterações
neuroendócrinas e ajustamentos psicossociais, ao planejamento do tratamento
devido à influência na amamentação e às implicações no planejamento familiar
futuro (DSM-IV-TR, 2002).

16
No CID-10, a depressão pós-parto é classificada como transtorno mental e de
comportamento, leve, associado ao puerpério e devendo ser usada apenas para
transtornos mentais associados ao puerpério e iniciando dentro de seis semanas
após o parto.

Em relação ao DSM-IV-TR, que utiliza como especificador o termo “com início


no pós-parto”, quando o início é dentro do período de quatro semanas após o parto
e persistindo por, no mínimo, duas semanas para todos os episódios de humor, a
classificação da DPP fica associada ao período em que inicia e perdura, sem estar
associada ao puerpério em si. Para a classificação da DPP no CID-10, o parto é o
fator desencadeante, enquanto no DSM-IV-TRpode abranger outro fator
desencadeante, não relacionado ao parto, mas com início no período pós-parto.

As diferenças existentes entre o CID-10 e o DSM-IV-TR podem interferir no


diagnóstico. Por exemplo: uma mulher com histórico de depressão anterior à
gravidez, está feliz com o seu bebê, porém seus sintomas depressivos retornam
quatro semanas após o parto. Como esta puérpera seria diagnosticada? Segundo o
CID-10, o diagnóstico seria transtorno depressivo. Segundo o DSM-IV-TR, o
diagnóstico seria episódio depressivo com início no pós-parto. Neste exemplo há
diferença de diagnóstico.

Outra diferença é em relação à gravidade da depressão. No caso de uma


puérpera, cujo fator desencadeante é o nascimento do bebê, apresentar sintomas de
depressão grave ou de depressão com sintomas psicóticos, como ela seria
diagnosticada? O CID-10 considera a DPP como transtorno mental e de
comportamento, leve, associado ao puerpério, portanto esta puérpera não seria
diagnosticada como DPP. No entanto, seria diagnosticada como episódio depressivo
maior no pós-parto pelo DSM-IV-TR.

17
O CID-10 e o DSM-IV-TR consideram a DPP após o parto, não considerando
a continuidade da depressão gestacional durante e após o parto. Estas e outras
diferenças podem causar dúvidas no diagnóstico da DPP.

No entanto, o DSM-V2 (2013) esclarece que o especificador pode ser


aplicado mesmo que não atenda a todos os critérios do episódio depressivo maior,
se os sintomas ocorrerem durante a gravidez ou dentro de quatro semanas após o
parto. Os episódios de humor podem surgir tanto durante a gravidez como no
pós-parto. Também esclarece que entre 3% e 6% das mulheres podem ter episódios
de depressão maior durante a gestação ou em semanas ou meses após o parto.
Cerca de 50% dos episódios de depressão maior no pós-parto começam no parto e
são especificados como episódios com início no pós-parto.

2.1 DEPRESSÃO PÓS-PARTO: ELEMENTOS CAUSAIS

Segundo (Gomes, 2015, p. 15) a depressão pós-parto é uma condição que


afeta 10% a 15% das mulheres no pós-parto e atinge tanto a saúde da mãe quanto o
desenvolvimento de seu filho. A manifestação desse quadro acontece, na maioria
dos casos, a partir das primeiras quatro semanas após o parto, alcançando
habitualmente sua intensidade máxima nos seis primeiros meses. A sintomatologia
mais comumente apresentada consiste em desânimo persistente, sentimentos de
culpa, alterações do sono, ideias suicidas, temor de machucar o filho, diminuição do
apetite e da libido, diminuição do nível de funcionamento mental e presença de
ideias obsessivas ou supervalorizadas. Os autores Lai e Huang em um estudo
realizado no ano de 2004 apontaram diversos pontos para esta multifatorialidade,
foram eles:

● Pouca idade da mãe;


● O fato da mãe não estar casada;
● Parceiro desempregado;

18
● Grande número de filhos;
● Baixo peso do bebê;
● Gravidez indesejada;
● Alimentação do bebê direto na mamadeira;
● Desemprego após a licença maternidade;
● Morte de pessoas próximas;
● Separação do casal durante a gravidez;
● Antecedentes psiquiátricos anteriores ou durante a gravidez;
● Tristeza constante, especialmente na parte da manhã e/ou à noite;
● Sensação de que não vale a pena viver e de que nada de bom vem pela
frente.

Embora seja um transtorno de etiologia multifatorial a DPP apresenta diversos


fatores de risco que sinalizam uma propensão para o desenvolvimento do
transtorno, são estes:
● Fatores biológicos,
● Fatores hereditários'
● Fatores sociais,
● Estressores e outros.

No entanto, cabe ressaltar que propensão não significa determinação, ou


seja, existe uma propensão que não determina o surgimento do transtorno.

Com isso e mediante os diversos estudos encontrados, observa-se que


aparecem com maior frequência como motivos ligados a causalidade questões
relacionados a mulheres com episódios passados de DPP pós-parto, vida cheia de
acontecimentos estressantes, episódios passados de depressão, história de
distúrbio do humor na família, ausência de apoio social em geral do pai da criança,
humor deprimido durante a gravidez, ansiedade, relacionamento conjugal
insatisfatório, apoio social insuficiente, depressão durante a gravidez, mau

19
relacionamento com a mãe, falta de um confidente, condições psicossociais
desfavoráveis, história familiar de DPP, gravidez não desejada, gravidez na
adolescência, mães solteiras, pobreza relativa, dificuldade financeira, dificuldade
profissional, amamentação, número de filhos, paridade, dificuldades obstétricas, o
tipo de parto, síndromes de alterações mentais maternas transitórias e autolimitadas
que ocorrem durante o início do puerpério com sintomas semelhantes ao da DPP
(tristeza pós- parto).

2.2 TRANSTORNOS ASSOCIADOS À DEPRESSÃO PÓS PARTO

Segundo (Gomes, 2015) Os transtornos associados a depressão pos-parto


podem ser destacados da seguinte forma como veremos em continuidade:

● Disforia puerperal
● Depressão pós parto
● Psicose pós parto
● Transtorno ansioso
● Transtorno da ansiedade generalizada
● Fobia social
● Transtorno obsessivo compulsivo
● Transtorno do Pânico
● Transtorno de estresse traumático

Disforia puerperal
Na década de 1960, pesquisadores descreveram uma condição chamada
disforia puerperal (maternity blues ou postpartum blues). Eles observaram que, após
alguns dias do parto, grande parte das mulheres apresentava choro com facilidade e
que esse choro não tinha relação com sentimento de tristeza. Notaram que essas
mulheres apresentavam empatia exacerbada e ficavam com sensibilidade excessiva
à rejeição.

20
A disforia puerperal é considerada a forma mais leve dos quadros puerperais
e pode ser identificada em 50% a 85% das puérperas, dependendo dos critérios
diagnósticos utilizados. Os sintomas geralmente se iniciam nos primeiros dias após
o nascimento do bebê, atingem um pico no quarto ou quinto dia do pós-parto e
remetem de forma espontânea em no máximo duas semanas. Seu quadro inclui
choro fácil, labilidade afetiva, irritabilidade e comportamento hostil para com
familiares e acompanhantes. Algumas mulheres podem apresentar sentimentos de
estranheza e despersonalização e outras podem apresentar relação. Mulheres com
disforia pós-parto não necessitam de intervenção farmacológica.

A abordagem é feita no sentido de manter suporte emocional adequado,


compreensão e auxílio nos cuidados com o bebê.

Depressão pós-parto (DPP)

Apesar de a psicose pós-parto ser familiar à maioria dos clínicos já no final do


século XIX, foi a partir da década de 1950 que começaram a aparecer estudos
incluindo quadros moderados de transtornos de humor. Um dos primeiros estudos foi
o realizado por Brice Pitt em 1968. Ele descreve o quadro clínico de 33 mulheres
com depressão no pós-parto e propõe classificá-la como “depressão atípica”, por ter
encontrado uma porcentagem delas com escores altos para neuroticismo.

A maioria dos pesquisadores do assunto utiliza o termo depressão pós-parto


(DPP) para designar qualquer episódio depressivo que ocorra nos meses que se
seguem ao nascimento do bebê, havendo estudos que consideram dois meses, três
meses, seis meses, e até um ano.

Geralmente, o quadro inicia-se entre duas semanas até três meses após o
parto, ocorrem humor deprimido, perda de prazer e interesse nas atividades,

21
alteração de peso e/ou apetite, alteração de sono, agitação ou retardo psicomotor,
sensação de fadiga, sentimento de inutilidade ou culpa, dificuldade para
concentrar-se ou tomar decisões e até pensamentos de morte ou suicídio.

No quadro clínico da depressão nessa época da vida são observadas


algumas peculiaridades, dentre elas a alta probabilidade de comorbidade com
sintomas ansiosos e obsessivo-compulsivos, a menor incidência de suicídio e a
resposta terapêutica mais demorada e requerendo mais de uma medicação. As
mulheres com DPP têm mais chance de apresentar episódios depressivos
posteriormente e principalmente novos episódios de DPP.

A prevalência da DPP varia entre 10% e 20%; essa taxa pode variar
dependendo da cultura, do período e do método utilizado no diagnóstico.

Dez estudos estimaram a prevalência da DPP no Brasil. Foram encontradas


taxas de 7,2% a 43%. Essa grande variação, provavelmente, deve-se a fatores
culturais e aos instrumentos utilizados para o diagnóstico. A maioria dos estudos
utilizou a Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), uma escala de
rastreamento largamente encontrada em pesquisas de DPP.

Os fatores de risco fortemente associados à DPP são história pessoal de


depressão, episódio depressivo ou ansioso na gestação, eventos de vida
estressantes, pouco suporte social e financeiro e relacionamento conjugal
conflituoso. Outros prováveis fatores de risco são histórico familiar de transtornos
psiquiátricos e episódio de maternity blue, características de personalidade, padrões
de cognição negativos e baixa auto estima. Também estão associados complicações
obstétricas, parto prematuro, fatores culturais, história de abuso sexual ou de
relação conflituosa com a mãe e gravidez não desejada.

22
São considerados fatores de proteção o otimismo, elevada auto estima, boa
relação conjugal, suporte social adequado e preparação física e psicológica para as
mudanças advindas com a maternidade.

A DPP pode causar significativas repercussões na qualidade de vida, na


dinâmica familiar e na interação mãe-bebê. Mães com DPP, quando comparadas às
mães não deprimidas, gastam menos tempo olhando, tocando e falando com seus
bebês e apresentam mais expressões negativas que positivas. Elas se expressam
menos face a face e são menos efetivas na interação com o bebê. Mães deprimidas
podem interromper a amamentação mais precocemente e lidar com seus bebês de
forma indecisa, pouco afetuosa e confusa por lhes faltarem habilidades de resolução
de problemas ou a persistência necessária para estabelecer interações afetivas com
suas crianças. Outro aspecto desse relacionamento diz respeito à amamentação,
momento de forte interação e intimidade entre a mãe e o bebê. Um estudo brasileiro
avaliou a associação entre depressão pós-parto e lactação. Foi um corte de 429
bebês acompanhados a partir do 20º dia de nascimento no Rio de Janeiro que
observou um risco maior de interrupção do aleitamento materno exclusivo no
primeiro e segundo meses após o parto para aquelas crianças cujas mães estavam
deprimidas. Quando os sintomas depressivos já são intensos no início do período
puerperal, parece haver chance ainda maior de suspensão do aleitamento.

Os bebês são vulneráveis ao impacto da depressão materna, porque


dependem muito da qualidade dos cuidados e da responsividade emocional da mãe.
Quanto mais grave e persistente for a DPP materna, maior a chance de prejuízos na
relação mãe-bebê e de repercussões no desenvolvimento da criança. Bebês de
mães deprimidas quando comparados aos de não deprimidas exibem menos afeto
positivo e mais afeto negativo, têm menor nível de atividade e menos vocalizações,
costumam distanciar o olhar, apresentam mais aborrecimentos, protestos mais
intensos, mais expressões de tristeza e raiva, menos expressões de interesse e uma
aparência depressiva com poucos meses de idade. Os bebês se aconchegam

23
pouco, têm pouca reciprocidade com suas mães e expressões emocionais
diminuídas são irritadas e choram mais, têm mais problemas de alimentação e sono
e menor desenvolvimento motor. Estudos de follow-up com crianças de mães com
DPP demonstram que essas crianças têm menos segurança afetiva, apresentam
maior incidência de distraibilidade, alterações de comportamento, atraso no
desenvolvimento cognitivo e transtornos afetivos.

Estudos têm sugerido que a queda rápida dos hormônios gonadais que ocorre
no pós-parto está implicada na exacerbação e precipitação dos transtornos de
humor, pois o estrogênio e a progesterona estão associados à regulação de diversos
sistemas de neurotransmissão, incluindo o serotonérgico. Outros hormônios
neuroreguladores também têm sido estudados, como prolactina, ocitocina, cortisol,
hormônios tireoidianos, com resultados não conclusivos.

Psicose pós parto

A psicose pós parto é o transtorno mental mais grave que pode ocorrer no
puerpério. Ela tem prevalência de 0,1% a 0,2% (sendo esse percentual maior em
casos de mulheres bipolares), usualmente é de início rápido e os sintomas se
instalam já nos primeiros dias até duas semanas do pós-parto. Os sintomas iniciais
são euforia, humor irritável, logorreia, agitação e insônia. Aparecem, então, delírios,
idéias persecutórias, alucinações e comportamento desorganizado, desorientação,
confusão mental, perplexidade e despersonalização.

O quadro psicótico no pós-parto é uma situação de risco para a ocorrência de


infanticídio. Um estudo feito na Índia com mulheres internadas com quadros
psicóticos no pós-parto revelou que 43% delas tinham ideias infanticidas. O
infanticídio geralmente ocorre quando ideias delirantes envolvem o bebê, como
ideias de que o bebê é defeituoso ou está morrendo, de que o bebê tem poderes
especiais ou de que o bebê é um deus ou um demônio. Devem ser sempre

24
investigados nos quadros de psicose pós-parto comportamento negligente nos
cuidados com o bebê e ideias suicidas e infanticidas.

Entre os fatores de risco para psicose puerperal, estão a primiparidade,


complicações obstétricas e antecedentes pessoais ou familiares de transtornos
psiquiátricos, sobretudo outros transtornos psicóticos.

Quanto ao prognóstico, observa-se que cerca de 20% têm remissão completa


do quadro e não apresentam recorrências. Estudos sugerem que há recorrência de
novo episódio de psicose pós-parto em 18% a 37% das mulheres e que pode haver
episódios subsequentes, fora do pós-parto, de algum transtorno psicótico ou afetivo
em 38% a 81% das mulheres.

Como o quadro da psicose pós-parto é grave, geralmente é necessária


internação hospitalar. Causas orgânicas devem ser excluídas e o tratamento deve
ser o mesmo que o recomendado para transtornos psicóticos agudos.

Transtornos ansiosos

O pós-parto tem sido identificado como um período de precipitação ou


exacerbação dos transtornos ansiosos. Num recente estudo realizado em Recife,
onde 400 puérperas foram entrevistadas com a MINI (Mini International
Neuropsychiatric Interview), foi observado que cerca de 30% delas apresentaram
pelo menos um transtorno de ansiedade. Os mais prevalentes foram o transtorno de
ansiedade generalizada (16,5%), a fobia social (11,2%) e o transtorno
obsessivo-compulsivo (9,0%).

25
Transtorno de ansiedade generalizada (TAG)

O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) ainda tem sido pouco


estudado no pós-parto. Em uma pesquisa nos Estados Unidos, 68 puérperas com
oito semanas de pós-parto foram entrevistadas utilizando-se a SCID (Structured
Clinical Interview for DSM-IV Disorders) e foi observada taxa de prevalência de 4,4%
de TAG. Outro estudo do mesmo grupo, usando metodologia semelhante, mas desta
vez com 147 mulheres examinadas, encontrou prevalência de 8,2%. Parte
considerável desses casos pode ser desencadeada especificamente no pós-parto.
Um estudo australiano conduzido com 408 puérperas encontrou incidência de 1,9%
a 3,1% nesse período, utilizando a Diagnostic Interview Schedule (DIS). Sugere-se,
inclusive, que eventualmente pode haver uma prevalência maior de TAG em
puérperas do que na população geral.
O quadro clínico envolve a presença persistente de ansiedade ou
preocupações excessivas. As preocupações envolvem diversos eventos e atividades
de vida e são acompanhadas de sintomas como inquietação, fadigabilidade,
dificuldade para se concentrar, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono.
Um estudo mostrou que, somadas as taxas de TAG com critérios cheios e de TAG
subsindrômica, se chega a percentagem de 32,3%. Desse modo, diferenças nas
taxas de prevalência podem ser encontradas, dependendo do rigor na aferição dos
critérios diagnósticos em diferentes instrumentos utilizados.

Fobia social
A fobia social no período perinatal também foi pouco estudada. Um estudo de
prevalência de ponto na oitava semana de pós-parto estimou a taxa de fobia social
entre 4,1% e 15,0%, dependendo do critério utilizado. No estudo realizado por
Cantilino, a prevalência foi de 11,2%. Esse dado nacional é compatível com o
encontrado na literatura e mais um pouco acima do encontrado em contexto fora do
pós-parto, como num estudo brasileiro que mostrou prevalência de 7,9%. É

26
compreensível que o puerpério seja um agravante para as portadoras desse
transtorno ou para mulheres com quadros subsindrômicos, já que nesse período
elas têm de lidar com um aumento de contatos sociais. Profissionais de saúde
diversos, familiares do parceiro e pessoas presentes em sua residência para ajudar
nos cuidados com o bebê são algumas das exposições que podem levar as
mulheres a ficarem embaraçadas e temerosas de críticas.

Transtorno obsessivo compulsivo (TOC)

Há vários estudos retrospectivos que têm verificado que o puerpério é o


principal evento de vida relacionado ao desencadeamento ou à exacerbação do
transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), provavelmente devido às alterações
hormonais e psicossociais próprias desse período. Mas ainda poucos estudos
estimam a prevalência do TOC especificamente no pós-parto. Wenzel et al.,
avaliando mulheres com oito semanas de pós-parto, encontrou prevalência de TOC
em 2,6% delas.

O conteúdo das obsessões e compulsões no pós-parto comumente envolve o


bebê. São frequentes pensamentos obsessivos agressivos contra o recém-nascido,
tais como medo de deixar o bebê cair no chão, impulso de jogar água fervendo
sobre o bebê, de jogá-lo contra a parede, pensamento intrusivo de colocar o bebê no
forno, imagens recorrentes do bebê morrendo sufocado no berço, sendo picado por
insetos ou sofrendo um acidente ou sangrando. É necessário salientar que a
ocorrência de pensamentos obsessivos agressivos contra o bebê não está
relacionada com comportamentos infanticidas. Pensamentos obsessivos são
intrusivos, não reconhecidos como pensamentos que se esperaria ter, causam
ansiedade e desconforto e a pessoa tenta resistir a eles, ignorá-los ou neutralizá-los.

Transtorno do pânico

27
O transtorno do pânico, ao longo da gravidez, tem seu curso variável, com
alguns autores sugerindo uma diminuição dos seus sintomas, enquanto outros
relatam que não há modificação. Durante o pós-parto, no entanto, não parece haver
dúvida de que ocorre exacerbação dos sintomas do transtorno preexistente e
também alta taxa de aparecimento dos sintomas pela primeira vez. Num estudo com
a participação de 64 mulheres portadoras de transtorno do pânico, verificou-se que
10,9% delas tiveram o início da sintomatologia nas primeiras 12 semanas de
pós-parto. Essa taxa é consideravelmente maior do que a esperada para um período
outro qualquer de 12 semanas, cerca de 0,92%. Cantilino observou prevalência de
3,3%. Admite-se que a maior emergência de crises de pânico durante o puerpério
não seja simplesmente uma coincidência. Entre mulheres com história de transtorno
do pânico anterior à gravidez, aumento significativo da gravidade ou da frequência
dos ataques durante o pós-parto parece ser um achado consistente; isso tende a
ocorrer em cerca de 31% a 63% dessas mulheres. Numa série de 22 casos de
portadoras de transtorno do pânico estudadas prospectivamente, observou-se que a
exacerbação de sintomas nesse período pode ocorrer mesmo naquelas mulheres
que ficam livres de sintomas durante a gravidez. Algumas mulheres podem já
apresentar certo aumento sintomatológico no final da gravidez. Uma vez que
alterações fisiológicas associadas à gestação podem resultar em ocasionais
taquicardias, sudorese, tonturas e encurtamento da capacidade para inspirar, elas
podem interpretar esses sintomas de maneira catastrófica e ter crises de pânico
completas ou incompletas.

Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

Apenas recentemente o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) tem


sido relacionado ao pós-parto. O DSM-IV define evento traumático como um “evento
catastrófico envolvendo morte ou lesão real ou ameaçada, ou ameaça à integridade
física de si mesma, sendo caracterizada por intenso medo, impotência ou horror”.
Assim, advoga-se que partos em que a mulher vivencia situações como dor intensa

28
e prolongada, procedimentos obstétricos de urgência, experiência de ter sido
humilhada pela equipe médica, medo de morte ou morte do feto ou recém-nascido,
percepção de anomalia congênita no bebê, entre outras, podem ser considerados
fatores traumáticos que eventualmente podem desencadear o TEPT.

A prevalência relatada de TEPT causada por eventos do periparto varia de


1,5% a 5,6%. O pico de prevalência parece ocorrer na sexta semana de pós-parto,
havendo uma diminuição das taxas ao longo dos cinco meses seguintes. Os casos
de TEPT no pós-parto obviamente não se devem exclusivamente a eventos
relacionados ao periparto. Um estudo recente com puérperas pesquisou outros
eventos de vida além dos eventos relacionados à gravidez, ao parto e ao puerpério e
observou que os primeiros pareciam ainda mais frequentemente relacionados aos
sintomas. De qualquer modo, o TEPT no pós-parto pode afetar a decisão da mãe
quanto a ter outros filhos no futuro, além de interferir na lactação e no
desenvolvimento do vínculo mãe-bebê. Sendo assim, precisa ser revestido de mais
atenção tanto por parte dos clínicos como dos pesquisadores. Sugere-se que
apareçam no Brasil estudos pesquisando o TEPT no pós-parto secundário a
experiências de violência doméstica e também urbana durante a gravidez
comparando-o com o ocorrido fora do período perinatal, já que a mulher tende a
vivenciar esse período com mais vulnerabilidade emocional.

4 A importância do diagnóstico e tratamento precoces

O infanticídio e o suicídio estão entre as complicações mais graves


decorrentes de transtornos puerperais sem intervenção adequada. No entanto, a
existência de transtornos psiquiátricos não só no puerpério, como também na
gestação, pode levar a outras consequências graves (Carifete, 2009).

Mulheres com diagnóstico de esquizofrenia e depressão major, apresentam


um elevado risco para complicações na gravidez, trabalho de parto e período

29
neonatal. Entre essas complicações, há anormalidades placentárias, hemorragias e
sofrimento fetal. Mulheres com esquizofrenia apresentam risco elevado para
descolamento prematuro da placenta e, mais frequentemente, tiveram filhos com
baixo peso ao nascer. Essas crianças também apresentam malformações
cardiovasculares e menor circunferência encefálica do que os filhos de mães
saudáveis (Jablensky et al., 2005).

Seng et al., (2001), constataram que mulheres portadoras de transtorno de


stress pós-traumático apresentavam risco elevado para gravidez ectópica,
abortamento espontâneo, hiperemese gravídica, contracções uterinas prematuras e
crescimento fetal excessivo.

O relacionamento mãe-filho também demonstrou ser prejudicado quando


foram avaliadas 507 mães e seus filhos, aos 3 meses de idade. Os filhos de mães
que apresentavam diagnóstico de depressão pós-parto tinham dificuldades para
dormir e para se alimentar, prejuízo de interacção corporal com o ambiente e sorriso
social diminuído. Essas pacientes queixavam-se com muita frequência de cansaço
excessivo, que acabava reflectindo-se de forma negativa no relacionamento com os
seus filhos e, por consequência, no desenvolvimento deles (Riguetti-Veltema et al.,
2002).
Deve, portanto, avaliar-se cada caso com especial atenção, a fim de
estabelecer a melhor estratégia de tratamento para cada situação em particular, de
maneira mais precoce possível.
4 A depressão pós-parto e a criança

4.1 Implicações da depressão pós-parto na Interação mãe e filho


Segundo (Carvalho, 2019, p. 21) A depressão pós-parto é caracterizada por
um transtorno no funcionamento emocional, comportamental, físico e cognitivo da
mulher, ocorrendo na segunda ou terceira semana do puerpério.

30
Durante o período gestacional e puerpério, a mãe costuma ficar muito
chorosa, irritável, com falta de motivação e energia, desinteresse sexual,
sentimentos de medo e insegurança de ser mãe, sente-se incompetente em exercer
a maternidade e prestar cuidados ao próprio filho (SOUSA; PRADO; PICCININI,
2011).

A mulher que está em depressão pós-parto, normalmente, amamenta pouco e


não cumpre o calendário vacinal dos bebês. Pois a depressão pós-parto interfere na
amamentação, quanto mais cedo ocorre o episodio de depressão, menor é o tempo
de amamentação, pois as mães com sintomas de depressão pós-parto (DPP)
podem apresentar desânimo para amamentar seus bebês, recorrendo muitas vezes
à inserção das formulas infantis para substituir o aleitamento materno, causando o
desmame precoce dos bebês (VALENÇA; GERMANO,2010).

Quando as mães se sentem deprimidas elas estabelecem seus sentimentos


em elementos psicoafetivos, repercutindo de maneira negativa para o vínculo e
relacionamento com o bebê, as intensidades das manifestações desses sentimentos
são variáveis, o que torna a depressão um fator que dificulta o estabelecimento do
vínculo afetivo, podendo interferir na qualidade dos laços afetivos no futuro
(ALVARENGA et al., 2018).

Para que a mãe tenha uma boa comunicação com seu bebê, é preciso que
ela esteja no limiar de si mesma para conseguir captar os sinais emitidos por seu
filho, se a mãe estiver deprimida não conseguirá perceber os sinais que o bebê
emite, não exerce a preocupação materna, essa mãe estará ou dispersa, ou irritada
e, muitas vezes, sequer vai conseguir descobrir quando o choro do bebê é sinal de
dor, fome ou sono (CARLESSO; SOUZA; MORAES, 2014).

31
Esse vínculo emocional está relacionado com as necessidades fisiológicas,
bem como as necessidades de proteção e conforto do bebê pela mãe, pelo qual ele
tem uma base segura para explorar o ambiente sem correr perigo. As mães que
interagem de forma menos sensíveis e apáticas aos sinais e demandas do lactente
tendem a dificultar comportamentos exploratórios e a formação de vínculos por parte
da criança (ALVARENGA et al., 2018).

Nessa perspectiva, ao explorar a interação entre mães e bebês, Carlesso et


al., (2014) apresentam alguns resultados que apontaram que as mães deprimidas,
quando comparadas com mães não deprimidas, gastam menos tempo olhando,
tocando e falando com seus filhos, apresentando mais expressões negativas do que
positivas, demonstrando menos responsividade, menos espontaneidade e menores
níveis de atividade.

Apesar de alguns autores mencionarem que o estresse materno pode


acarretar atrasos no desenvolvimento cognitivo e psicomotor do bebê nos primeiros
anos de vida (ALVARENGA et al., 2018), existem autores com a hipótese de que os
efeitos da DPP está relacionado com a disponibilidade materna e o sexo da criança,
os meninos estariam mais relacionados aos sintomas depressivos e estressores que
as meninas, o que dificultaria o relacionamento mãe-filho (BROCCHI; BUSSAB;
DAVID, 2015).

Sousa; Prado; Piccinini (2011) apontam o temperamento do bebê como um


dos motivos para a precipitação da depressão pós-parto. Para esses autores, as
mães quando estão diante de bebês mais difíceis percebem a si mesmas como
desempenhando uma maternagem mais pobre. Nessas circunstâncias, as mães
deprimidas definiram-se como menos competentes, menos ligadas emocionalmente
às suas crianças, mais dependentes e isoladas socialmente e menos confiantes e
satisfeitas, ao desempenhar o papel materno.

32
Quando ocorre a rejeição da mãe, o recém-nascido geralmente é cuidado por
outras pessoas e ele deixa de ser amamentado por ela, esse distanciamento durante
a amamentação prejudica ainda mais os laços afetivos, pois quando o bebê volta a
estar novamente com sua mãe, devido a esse distanciamento, frequentemente
desvia o olhar, apresentando pouca interação com sua genitora, a pouca interação
com a mãe desregula o bebê e dificulta no alcance dos seus objetivos, de interagir
socialmente, e explorar o ambiente a sua volta, levando posteriormente a
sentimentos de raiva, senso de desamparo e desconfiança, pois ele é capaz de
perceber as mínimas deficiências no comportamento materno (ALVARENGA et al.,
2018).

Desse modo, o bebê fica mais propenso a desenvolver depressão e


problemas comportamentais, por isso é muito importante haver a afetividade, pois
ela é essencial para o desenvolvimento psicológico do bebê. Nesse sentido, a
regulação emocional e a forma como ele interage com o mundo a sua volta depende
muito da maneira que a relação é estabelecida com a mãe (ALVARENGA et al.,
2018).

De um modo geral, segundo (Carifete, 2009, p. 150) as principais repercussões


da DPP no desenvolvimento infantil podem ser sintetizadas da seguinte forma:

● Problemas comportamentais – os filhos de mães deprimidas, são mais


propensos a problemas comportamentais, como perturbações de sono,
ataques de raiva, atitudes agressivas, défices de atenção e hiperatividade.
● Atraso no desenvolvimento cognitivo – as crianças podem aprender a falar e
a andar mais tarde que o habitual. Podem também apresentar outras
dificuldades a nível da aprendizagem escolar
● Problemas de socialização – as crianças podem revelar dificuldade em
estabelecer relações afectivas estáveis. Frequentemente é difícil fazer amigos
na escola e podem mesmo ser excluídos socialmente.

33
● Problemas emocionais – os estudos têm demonstrado que estas crianças
tendem a ter uma baixa auto-estima, são mais ansiosas e medrosas, passivas
e dependentes.
● Depressão – o risco de desenvolver um episódio depressivo major cedo na
vida é particularmente alto para os filhos de mães com depressão pós-parto.

A consulta de enfermagem durante e pós-gestação mostra-se muito importante


na detecção precoce dos sinais de Depressão pós-parto (DPP), visto que a doença
traz implicações para a saúde da mãe, bebê, e a relação entre os dois, e o
enfermeiro por ter mais contato com a gestante durante o pré-natal pode ter uma
facilidade de realizar a triagem, observando os possíveis sinais da depressão na
gestante, auxiliando na melhoria dos sintomas, abreviando o sofrimento materno,
minimizando os impactos na saúde da mãe e do bebê (VALENÇA; GERMANO,
2010).

É importante que na assistência deva ser avaliado o aspecto físico e psíquico da


mulher, deve-se observar seu estado geral, como a integridade da pele, mucosas,
presença de edema, exame das mamas, condições do útero, períneo e genitais
externos, assim como verificar possíveis intercorrências como alterações emocionais
e observação da formação do vínculo entre a mãe e o bebê (VALENÇA; GERMANO,
2010).

5 Diagnóstico e Tratamento da depressão pós-parto

A depressão pós-parto é diagnosticada pelo médico psiquiatra que tem apoio


do psicólogo, porém a consulta realizada pelo enfermeiro no pré-natal pode ser
muito importante para a identificação dos principais sinais e sintomas da DPP.
Portanto o enfermeiro é fundamental para o diagnóstico precoce do quadro
depressivo apresentado no período do puerpério. (LEÔNIDAS; CAMBOIM, 2016).

34
O diagnóstico deve facilitar para os clínicos definirem o tratamento e os
resultados, mas nem sempre o transtorno mental significa que irá necessitar de
tratamento medicamentoso fica a critério médico que leva em conta a gravidade dos
sintomas principalmente no caso de pensamentos suicidas, sofrimento do paciente,
ou se o paciente se sentir incapaz devido aos sintomas apresentados. (AMERICAN
PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al.,2014). É utilizado critérios diagnósticos por
meio dos sintomas que estejam presentes por pelo menos duas semanas, por meio
de escutas e queixas do paciente ou por busca ativa onde muitas vezes os sintomas
são passados despercebidos. Dentre as perspectivas, as classificações diagnósticas
são (CID-10) Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à
Saúde e (DSM-5]) Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
(BARCELLOS et al.,2017).
Os profissionais de enfermagem especialistas em saúde materna que
acompanham mulheres no período gestacional precisam estar cientes das situações
de dificuldades que elas possuem em se adequar a maternidade. Proporcionar
assistência, atender as necessidades psicossociais e realizar intervenções
promotoras de saúde mental, através de programas psicoeducacionais para que
haja maior compreensão dos fatores de risco. (GUERRA et al., 2014).

Intervenções para prevenção de DPP.


● Identificação precoce dos fatores de risco.
● Estabelecimento de uma relação de confiança com o enfermeiro especialista
de saúde materna e obstétrica.
● Preparação para o desempenho do papel materno.
● Identificação da rede de suporte social.
● Incentivar o envolvimento do pai na vigilância da gravidez e nos cuidados à
criança.
● Realização de cursos de preparação para a parentalidade em grupo.
● Realização de visitas domiciliárias no puerpério.

35
Tratamento
A revisão de literatura de Santos et al. (2009) mostra que o tratamento da
DPP baseia-se em métodos semelhantes aos utilizados em transtornos depressivos
tais como farmacologia, psicoterapia, eletroconvulsoterapia e terapias alternativas
(acupuntura, massoterapia, exposição à luz). Tanto no uso de Terapia
Cognitiva-Comportamental (TCC), quanto no atendimento a grupos de puérperas
foram detectadas melhoras significativas em puérperas.

A terapia familiar e de casal tem se mostrado eficiente no tratamento da DPP,


uma vez que a mulher com sintomas leves para moderado de depressão prefere
tratamento psicoterapêutico aos riscos da exposição do bebê ao tratamento
medicamentoso na amamentação (Meltzer-Brody, 2011).

A psicoterapia interpessoal (IPT), uma modalidade de psicoterapia breve, e a


TCC aliviam os sintomas depressivos ao ajudar as pacientes a melhorar as relações
interpessoais e focando a assistência social, mudanças ocorridas na vida da
paciente, fatores estressantes e relação marido-mulher (Pearlstein, 2008).

Para o manejo preventivo é importante detectar os fatores desencadeantes da


DPP e/ou identificar as mulheres com risco elevado para DPP que poderão
participar de grupos focais, acompanhamento terapêutico e reunião de equipe
(Sampaio Neto & Alvarez, 2013).

6 Papel do Psicólogo

Ocorrem hoje avanços na área de obstetrícia no que se refere ao conhecimento


científico em relação ao conceito de abordagem integral da mulher, proporcionando
habilidades fundamentais a enfermeiros e médicos, atendendo, assim, às
necessidades mais específicas “das mulheres no período gravídico-puerperal”.

36
Portanto, hoje não é possível mais pensar apenas nos aspectos biológicos
ao se discutir a depressão pós-parto. Pensando assim, na estrutura e funcionamento
de uma equipe interdisciplinar e na amplitude das vivências e emoções de uma
gestante, é de fundamental importância o trabalho do psicólogo para auxiliar a
equipe no manejo dos aspectos emocionais envolvidos na DPP segundo (Guerra,
2029, pag 30).

Com o olhar nesta direção, o papel do psicólogo na equipe, vai propiciar a busca
de uma visão panorâmica dos processos que influenciam e são influenciados pela
doença, ou seja, o psicólogo diante de um caso de DPP irá buscar, junto ao
paciente, o sentido daquela doença para ele.

Como afirmou (Guerra, 2029, pag 26) “O psicólogo não dirige a vida do
paciente, mas dirige o tratamento”, assim terá o papel fundamental de, em conjunto
com a assistência do médico, buscar caminhos que contribuam na busca da mulher
acometida pela DPP em encontrar a sua autoconfiança, compreensão e elaboração
dos sentimentos vivenciados.

Essas referências enfatizam que o profissional de saúde mental não deve ter
uma visão de rótulos da doença, e nem se colocar em posição de dizer o que pode
ser certo e errado para o paciente, ele deve sim ter conhecimento metodológico dos
processos psíquicos envolvidos no adoecer, proporcionando uma escuta que
permita ao paciente elaborar sua doença por meio da fala, que por si só já produz
efeitos terapêuticos. Sendo assim, é importante também olhar para os aspectos
subjetivos, intrínsecos e individuais nas manifestações físicas e psíquicas da
puérpera, que podem, muitas vezes, ir além do que está manifesto naquela situação
clínica.

Segundo (Barbosa, 2011, pag 10 ) Para Winnicott, no período puerperal a


mulher entra em um estado especial, denominado de “preocupação materna
primária”, em que ocorre um contexto de sensibilidade aumentada, cujo objetivo é

37
capacitar a mulher a se preocupar com seu bebê. Nesse momento, a mãe precisa
desenvolver uma identificação com seu bebê, para que possa imaginar o que ele
precisa e daí colocar-se em seu lugar e, dessa forma, conseguir cuidar do bebê e
atender a sua demanda de cuidados e necessidades físicas e psíquicas. O psicólogo
nesse momento poderá contribuir para que a mulher encontre em si essa
capacidade e que elabore o novo papel de mãe. Esse movimento implica em
mudanças psíquicas importantes, que pode necessitar de intervenção psicológica
para elaboração do processo e também acolhimento desses sentimentos diversos.

Sendo a etiologia da DPP multifatorial, é importante a visão preventiva dessa


entidade. Pensando nesse modelo, seria possível o psicólogo trabalhando junto ao
médico em atividades preventivas no pré-natal, para que nesse momento já seja
possível detectar fatores desencadeantes da DPP. Pacientes, então identificadas
como “de risco elevado para DPP”, poderão ser submetidas a estratégias, como
grupos focais, acompanhamento terapêutico e reunião de equipe, que são fatores
que poderão contribuir para o manejo preventivo da DPP, afastando o
desenvolvimento do quadro ou permitindo novas possibilidades terapêuticas.

Ademais, frente ao diagnóstico já estabelecido de DPP, o psicólogo será o


profissional responsável pelo tratamento psicoterápico, podendo ser na forma de
psicoterapia breve, utilizando-se das várias técnicas descritas para essa
modalidade, que será aplicada à paciente com o objetivo de recuperar sua
integridade psíquica e emocional, fundamental para essa fase da vida que a mulher
está vivenciando. Outra possibilidade diante do quadro de DPP é a busca junto à
paciente, do saber o que fazer frente a esta condição depressiva, de forma que esse
momento possa ser, também, uma vivência de crescimento pessoal e
ressignificação de sua condição atual, ajudando na travessia desse processo de
adoecimento.

38
Capitulo II impactos da depressão no contexto gestacional e no pós-parto

39
40
41
Capitulo III

42
CONCLUSÂO

43
RECOMENDAÇÂO

44
BIBLIOGRAFIA

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Organização Mundial da Saúde. CID 10 – Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados a Saúde. São
Paulo: EDUSP; 2008. v. 1.

46
ANEXOS

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48

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