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O Estudo da Arte

Stanley Fish – How to Reconize a Poem When You See One


Aulas nº 9 e 10

Stanley Fish faz parte de uma polémica, ao contrário de Wittgenstein, que parte
de uma convicção. Esta polémica é contra os ideias de uma corrente chamada “New
criticism”, cujos seus seguidores “New critics”, defendiam princípios que tinham
como fim proteger a ideia do texto e as intenções principais do autor que nele
residem; e que muitas vezes o intérprete (leitor) destrói o texto, começando por
parafraseá-lo, retirando-lhe/fazendo-o perder certas palavras incluindo a intenção
que já reside no texto. Isto resultava na consequência de o leitor ficar sem “um
ponto de partida” de análise, pois este segundo o “New criticism” não é relevante,
nem mesmo a sua opinião. A opinião do leitor é descartada como forma de “proteger”
a opinião do autor.
O texto impõe uma certa interpretação sob o leitor, ou é o interprete que impõe uma
certa interpretação ao texto, independentemente da intenção do autor e do contexto da
obra?
Fish vai tomar uma posição de defesa do intérprete, de que é impossível não parafrasear
o texto pois é o próprio leitor “que faz o texto”, através da interpretação.
“Então e se eu me enganar? Não há enganos, tudo vale!”

O que Fish chama de interpretação acontece no seio duma comunidade


interpretativa, e ele mostra um exemplo disto quando refere que mostrou um poema que
este tinha criado, para duas turmas diferentes. Uma destas turmas possuía bases
especificamente literárias, habituados com o esquema poético-religioso da poesia
inglesa do século XVII. A partir do momento em que estes alunos perceberam que se
tratava de um poema, utilizaram os seus conhecimentos/bases para decifrar/interpretar o
poema como se fosse uma “receita”- se for um poema, segue assim; vê-o assim. // Isto
instrua-os no que devem procurar num poema , como um padrão; a complexidade; a
linguagem; etc.
Para se saber interpretar, temos de ter conhecimento sobre o que vamos
interpretar - “É uma questão de saber como produzir, o que é constatado estar no
texto”- interpretação não é a arte de descobrir o significado, mas a arte de
construirmos o significado. Intérpretes não descodificam poemas, eles próprios “os
fazem”. Criam o significado/interpretam.
Aquilo que está a ser feito interpretativamente é, nada mais nada menos, que um ato
comunitário de propor um significado para uma palavra/verso e haver uma confirmação.
Argumento de Fish: enquanto comunidade interpretativa, os alunos chegaram a uma
interpretação estabelecida; temos um ato interpretativo que na realidade decorreu sem
texto. Se nos deixarmos persuadir pelo texto somos levados a acreditar que a
interpretação acontece mesmo que não haja um texto. No extremo do argumento, se
interpretar funciona-se assim, tornava-se completamente num ato arbitrário.
O problema (a força do argumento do Fish) é que começou como um ato arbitrário e
transformou-se rapidamente numa discussão interessante com mais de uma pessoa, que
levou a mais de uma interpretação e depois à sua confirmação (fixar uma
interpretação)- isto já não é arbitrário porque depende do que vem para trás.
A primeira intuição contra este argumento é, se isto funcionaria sempre - o exemplo
dele é a exceção, não é a norma.
As pessoas estão habituadas a interpretar não através de coisas arbitrárias, mas através
da norma. Seria possível eu ensinar alguém a interpretar da maneira que o Fish fez?
Não se poderia tornar a norma, porque tem como base algo arbitrário. A prática não
teria estabilidade e era impossível ter confiança para começar.
O exemplo do Fish não pode descrever uma prática (geral); não posso ensinar uma
prática sem primeiro explicar tudo o que faz parte dessa prática.
Agora, poderia aquilo que Fish acaba de descrever, constituir um ponto de partida para
se ensinar uma pessoa uma prática? Não. Seria muito difícil para uma pessoa aprender
a ler sonetos sem ser com os próprios sonetos.

A certo ponto Fish diz que os intérpretes não descodificam os poemas, eles
criam-nos. Mas há uma grande falha no argumento dele: não é por se ver complexidade
nalguma coisa (mesmo que seja porque somos nós que estamos à procura dela, e não
porque ela lá esteja efetivamente) que ela se torna efetivamente complexa, que ela se
torna um poema. Para além disso, o argumento entra em conflito consigo mesmo - o
hábito, na concessão aristotélica, implica o processo de aprendizagem que, já vimos,
não poderia ser arbitrário.

No fundo, o que Fish diz é que uma definição de poesia funciona como uma
receita: gera ações; e os seus alunos estavam a seguir os passos da receita e acabaram
por interpretar algo que não era um poema. Disto ele deduz que qualquer coisa se pode
tornar num poema se se aplicar esta receita, mas isto não é bem assim - a definição pode
falhar, mas disto não se segue que a prática não tenha estabilidade.

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