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07/02/2020 O que é Desenho universal para a aprendizagem?

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O que é Desenho universal para


aprendizagem?
Publicado em 01/12/2017 por RODRIGO HÜBNER MENDES
Tornar a vida das pessoas mais simples. Esse foi o objetivo que inspirou um grupo de arquitetos dos anos 1970 a
criar um conceito chamado Desenho universal (https://diversa.org.br/educacao-inclusiva/por-onde-comecar/conceitos-fundamentais/desenho-
universal/).
Essa abordagem se baseia na visão de que o design dos ambientes e dos produtos pode ser previamente
pensado de forma a permitir o uso por parte do maior número possível de pessoas, sem que haja a necessidade
de adaptações posteriores.

É interessante frisar que a origem de tal concepção não decorre somente da busca de respostas para demandas
sociais de setores que reivindicavam a plena participação de todos. Havia também uma percepção de que
adaptações não planejadas voltadas à acessibilidade de prédios ou residências, às vezes chamadas de
“puxadinhos”, eram caras, esteticamente feias e reforçavam o rótulo de “incapacidade” das pessoas com
deficiência. Por outro lado, ficava evidente que tais ajustes acabavam beneficiando uma ampla gama de pessoas,
dos mais variados perfis e idades.

Anos mais tarde, esse movimento influenciou professores provocados pelo desafio de lecionar para turmas cada
vez mais heterogêneas e num ambiente pautado por altas expectativas de aprendizagem. Como garantir acesso
aos conteúdos curriculares para estudantes que se diferenciavam em termos de habilidades motoras, intelectuais e
sensoriais? Como as novas tecnologias poderiam contribuir para o endereçamento desse desafio? Surgia, então, o
Desenho universal para aprendizagem (DUA) (https://diversa.org.br/educacao-inclusiva/por-onde-comecar/conceitos-fundamentais/desenho-
universal/o-que-e-desenho-universal-para-a-aprendizagem/), creditado a um grupo de professores da Universidade de Harvard,

liderado por David Rose.

O Desenho universal para a aprendizagem


Resumindo, o DUA se trata de um modelo prático que visa ampliar as oportunidades de desenvolvimento de cada
estudante por meio de planejamento pedagógico contínuo (https://diversa.org.br/educacao-inclusiva/como-transformar-escola-redes-
ensino/estrategias-pedagogicas/#planejamento-pedagogico/o-que-significa-dizer-que-o-processo-de-planejamento-e-continuo/), somado ao uso de

mídias digitais. Seus autores apoiaram-se em extensivas pesquisas sobre o cérebro humano para estruturar o
modelo.

Tais investigações revelavam duas importantes constatações. Em primeiro lugar, a noção de que é fantasiosa a
ideia do “estudante regular”. Nossas categorizações são, na verdade, uma grossa simplificação que não reflete a
realidade e nos cega diante de uma gigantesca variedade de particularidades observadas em cada aluno.

Em segundo lugar, o fato de que a aprendizagem do ser humano ocorre por meio de um complexo processo,
sistematizado por esses estudos a partir de três redes cerebrais: uma rede de reconhecimento, especializada em
receber e analisar informações, ideias e conceitos; outra rede, chamada de estratégica, responsável por planejar,
executar e monitorar ações e uma terceira rede, denominada afetiva, que desempenha o papel de avaliar padrões,
designar significância emocional a eles e estabelecer prioridades.

Influência de Vygotsky e eliminação de barreiras


Curioso notar que as atividades dessas redes estão em consonância com os três pré-requisitos para a
aprendizagem (https://diversa.org.br/tag/aprendizagem) descritos pelo psicólogo russo Lev Vygotsky, grande influenciador da
educação contemporânea. Esses pressupostos são: o reconhecimento da informação a ser aprendida, a aplicação
de estratégias para processar essa informação e o engajamento com a tarefa de aprendizagem.

https://diversa.org.br/artigos/o-que-e-desenho-universal-para-aprendizagem/ 1/3
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Considerando que as três redes cerebrais estão simultaneamente envolvidas na aprendizagem, seria uma ilusão
querer tratá-las isoladamente. No entanto, elas podem nos ajudar a organizar o planejamento das aulas e
sistematizar a prática docente, tendo como premissa a busca pela eliminação das barreiras.

E onde estão essas barreiras? (https://diversa.org.br/artigos/educacao-inclusiva-barreiras-e-solucoes/) Podem


estar em todas as atividades relacionadas ao ensino. Na escolha do material didático, na definição das estratégias
pedagógicas, na eventual falta de conexão entre os conteúdos curriculares e o cotidiano dos estudantes, na
construção dos instrumentos de avaliação (https://diversa.org.br/tag/avaliacao) etc.

Os meios tradicionais explorados pelos educadores, por exemplo, estão tão cristalizados no modelo educacional
tradicional que raramente paramos para avaliá-los. Será que a fala, a lousa e o livro impresso são acessíveis para
todos os estudantes? Nem sempre. Isso fica mais óbvio para pessoas com impedimentos visuais, auditivos e
intelectuais. No entanto, vários outros perfis de alunos sentem dificuldade em se relacionar com essas mídias. Mas
então qual seria o caminho para uma pedagogia mais flexível?

Flexibilidade e mídias digitais


Com a intenção de contemplar as redes cerebrais citadas anteriormente e propiciar aos estudantes uma ampla
variedade de opções, os autores do Desenho universal para a aprendizagem sugerem que os educadores
trabalhem com múltiplos métodos de apresentação dos conteúdos curriculares, mediação da aprendizagem e
envolvimento dos alunos. Traduzindo em miúdos, eles propõem que os professores diversifiquem: os formatos dos
materiais didáticos (https://diversa.org.br/tag/material-pedagogico), as estratégias pedagógicas e as inter-relações entre o
conteúdo e a vida real do aluno. Essas recomendações traduzem, respectivamente, os três princípios do DUA.
As mídias digitais desempenham um papel muito significativo para quem pretende trabalhar a partir do Desenho
universal para a aprendizagem. Sua flexibilidade abre portas para diversos percursos de aprendizagem, na medida
em que viabilizam inúmeras combinações entre texto, fala, imagem e uma ressignificação do erro, que pode
passar a ser tratado como parte natural do processo de aprendizagem.

Isso gera uma paleta mais diversificada para a comunicação, capaz de acomodar as especificidades de cada
estudante. Os smartphones, os tablets, os notebooks e os livros digitais ilustram esse tipo de tecnologia
(https://diversa.org.br/tag/tecnologia), capaz de ampliar substancialmente os horizontes de desenvolvimento de cada

estudante.
Cabe citar que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), juntamente com um grupo de organizações
de vários países, como o Brasil, está investindo esforços para a criação de um protocolo internacional sobre como
se produzir livros didáticos acessíveis. Essa iniciativa orientará os editais de compra de livros de muitos ministérios
de educação e irá gerar um enorme impacto nas regras que ditam a indústria das editoras desse segmento.

Modelo imperfeito e inclusivo


Resumindo, o Desenho universal para aprendizagem é um exemplo de uma abordagem educacional mais
condizente com nossa convicção de que toda pessoa tem o direito de estudar (https://diversa.org.br/legislacao-inclusiva-direitos-
alunos-com-deficiencia-escola-comum/) e buscar o seu melhor como ser humano.
Ao mesmo tempo, dialoga com a proposta de ressignificação do papel do professor, enxergando-o como um
mediador do processo de aprendizagem. Ou seja, favorece a ruptura do formato tradicional de sala de aula,
caracterizado por fileiras de estudantes sentados diante de um professor a quem é delegada a missão de transmitir
o conteúdo e, posteriormente, verificar se o mesmo foi absorvido por meio de provas.

Como todo modelo, o Desenho universal para a aprendizagem é imperfeito por definição. No entanto, representa
uma interessante ferramenta para que as equipes pedagógicas planejem suas aulas de forma mais criteriosa,
almejando o acesso de todos ao conhecimento, e deem conta da crescente diversidade presente nas escolas.

Acredito que esse modelo pode colaborar muito para uma educação mais plural, mais atraente e que torne factível
nosso compromisso de não deixar ninguém para trás.

https://diversa.org.br/artigos/o-que-e-desenho-universal-para-aprendizagem/ 2/3
07/02/2020 O que é Desenho universal para a aprendizagem?

Rodrigo Hübner Mendes é fundador do Instituto Rodrigo Mendes (http://institutorodrigomendes.org.br/),


organização que desenvolve programas de educação inclusiva. É mestre em administração pela Fundação Getúlio
Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka.

Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 24/11/2017 e disponível em bit.ly/educacao-


para-diferencas (http://bit.ly/educacao-para-diferencas).

© Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5 (https://creativecommons.org/licenses/by-


nc-nd/2.5/br/). A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: creditar a obra

como de autoria de Rodrigo Hübner Mendes e licenciada pelo Instituto Rodrigo Mendes
(http://www.institutorodrigomendes.org.br/)e DIVERSA (https://diversa.org.br/).

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