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CULTURAL POR ADIÇÃO: UMA INDIGENIZAÇÃO DA TENOLOGIA?

Carlos Fausto
(PPGAS – Museu Nacional, UFRJ) 1
Abril 2006

Comparado a outras ex-colônias do continente americano, o Brasil é


relativamente pouco marcado pela presença indígena. A sociedade brasileira
contemporânea não recupera senão episodicamente um passado indígena, ao
contrário de países como México, Peru ou o Paraguai que constituíram sua
identidade nacional por inclusão desse passado, por sua reatualização pós-
colonial. Há razões histórico-culturais que podem explicar essa diferença, mas
não cabe discuti-las aqui.
O importante é marcar a exclusão das culturas indígenas em nossa idéia
dominante do que é a cultura nacional. O mundo indígena aparece, no mais
das vezes, como mero resíduo. De modo interessante, contudo, nos momentos
de mudança de paradigma cultural, algo indígena reaparece, e esse algo é
permeado por referências à antropofagia, e em particular à antropofagia dos
grupos tupi-guarani da costa brasileira quinhentista. É ela que serviu de mote à
Revista de Antropofagia e ao Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade,
assim como servira, sob outra roupagem, ao nativismo romântico do Gonçalves
Dias e seria reatualizada, a partir da releitura modernista, pelo tropicalismo e
pelo cinema novo. Em todos esses casos, porém, passado o momento de
radicalidade, a figura do canibalismo tende a desaparecer, submergindo na
“cultural normal”
É bem verdade que o nativismo do século XIX apropriou-se do tema do
canibalismo para neutralizá-lo, enquanto o modernismo tomou-o como signo de
radicalidade e como proposta teórico-estética. De qualquer modo, seja no
romantismo, no modernismo ou no tropicalismo, a reapropriação contínua do
tema não nasce de uma forte presença indígena junto às elites pensantes, mas
sim da impregnação das crônicas de viajantes dos séculos XVI e XVII. Esta
impregnação, por si só, já mereceria uma reflexão cuidadosa, bem como o
modo pelo qual essas crônicas serão lidas e relidas através do tempo. O
pensamento social brasileiro constituiu-se menos por meio de uma
aproximação etnográfica da realidade nacional, capaz de incorporar a
diversidade de práticas e concepções indígenas, e mais pelo acúmulo de
camadas de leituras dos textos dos nossos primeiros cronistas.
Eis porque o índio que inspirou nossos movimentos culturais é aquele
distante no tempo, figura do passado, moldada conforme os intuitos da elite
pensante nacional. É bom lembrar que em meados do século XIX, tempo dos
românticos, ou segundo quartel deste século, tempo dos modernos
antropófagos, havia inúmeros grupos indígenas, distantes no espaço, mas
próximos no tempo. Estes, porém, haviam desaparecido da consciência das
elites urbanas, ainda que o processo colonial interno não tivesse terminado.

1
Texto para a mesa-redonda sobre “Políticas Públicas para Produção Cultural Indígena”,
Mostra Vídeo nas Aldeias, Um Olhar Indígena. Centro Cultural Brasil-Espanha, Brasília, 19 de
abril de 2006.
Enquanto prosseguia a ocupação da Amazônia e as culturas indígenas
continuavam a sofrer os efeitos do avanço da sociedade nacional, nós
constituíamos nossa nacionalidade por meio da figura fantasmática dos Tupi
litorâneos. A antropofagia modernista, embora se anuncie como oposição
ferrenha ao nativismo romântico, refaz esse mesmo percurso, acrescentando
uma nova camada de interpretação às camadas anteriores.
Hoje, estamos diante da possibilidade de que essas leituras e re-leituras
se abram definitivamente ao olhar indígena e a uma nova produção cultural
indígena. Não se trata apenas de reconhecer e conferir valor às manifestações
culturais “tradicionais” dos povos indígenas, mas de oferecer instrumentos para
que eles possam “indigenizar” a nossa produção cultural. E para indigenizá-la,
efetivamente, os realizadores indígenas terão que adotar uma atitude
antropofágica. Assim como fizeram nossos modernistas ao buscar navegar
entre o nacionalismo regressivista e o mimetismo europeizante para construir
uma literatura nacional internacional, ao visar um nacional por adição, caberá
aos realizadores indígenas navegar entre o tradicionalismo e a indústria cultural
para produzir culturas indígenas por adição.
Mas para isso nós devemos admitir correr o risco de sermos
canibalizados. Para ser radical, um projeto de diálogo intercultural deve correr
este risco. Não podemos continuar pedindo aos índios que sejam apenas um
espelho para nossas ilusões românticas de um passado edênico; é preciso dar
a eles os instrumentos para quebrar esse espelho e para produzir uma cultura
outra, uma contra-cultura, realizando uma espécie de antropologia reversa que
não é senão um ato de antropofagia.
Para terminar essa minha brevíssima fala, permitam-me lembrar o
slogan máximo oswaldiano: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem.
Lei do Antropófago” (Manifesto Antropofágico).