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Educação Unisinos

11(1):5-14, janeiro/abril 2007


© 2007 by Unisinos

A democracia na América, de Alexis


de Tocqueville: Uma leitura para a história
da educação1

Democracy in America, by Alexis de Tocqueville:


A reading for the history of education

Maria Helena Camara Bastos


mhbastos@pucrs.br
Eduardo Arriada

Resumo: O século XIX inaugura os estudos comparados; Tocqueville foi um comparativista,


situando-se nos diferentes níveis da realidade social – dos elementos micro ao macro, para
integrá-los finalmente em uma relação global. É considerado um pioneiro e igualmente um
clássico da sociologia comparada. Na área da educação e da história da educação, a obra de
Tocqueville é significativa para os estudos de educação comparada. O estudo apresenta o
autor e sua obra, e analisa alguns conceitos-chave para a compreensão da história da educação
no século XIX. Isto é, para a consolidação de um projeto de educação pública – educação
para todos, universal, gratuita, obrigatória, laica, em que o Estado assume o papel de educador,
buscando governar os espíritos por palavras e formas, especialmente através da escola.

Palavras-chave: século XIX, instrução pública, educação comparada, história comparada da educação.

Abstract: The 19th century inaugurates comparative studies. Tocqueville was a comparatist
and situated himself at the different levels of social reality – from the micro to macro
elements, in order to finally integrate these elements in a global relation. He is considered a
pioneer as well as a classic of comparative sociology. In the areas of education and history of
education the work of Tocqueville is significant for the studies of comparative education.
This essay presents the author and his work, and analyzes some key concepts for the
understanding of the history of education in the 19th century, i.e., for the consolidation of
a project of public education – universal, gratis, mandatory, lay education for all, in which
the state takes on the role of the educator, trying to govern the spirits by words and
forms, especially through the school.

Key words: 19th century, public education, comparative education, comparative history of education.

Introdução to, Alexis de Tocqueville (1805-1859) cido, na segunda metade do século


foi objeto de muitos estudos, confe- XX, há uma nova recepção de sua
Em 2005, ano em que se comemo- rências, colóquios e publicações. De- obra na França, especialmente no
rou o bicentenário de seu nascimen- pois de ficar por muito tempo esque- campo das ciências sociais. Consi-

1
Este estudo integra a linha de pesquisa “Educação Brasileira e Cultura Escolar: análise de discursos e práticas educativas (séculos XIX e XX)” e,
especialmente, a pesquisa “O Ensino Laico e a Liberdade do Ensino no Brasil: discursos e ações (1854-1889). O texto resulta, em parte, de pesquisa
realizada durante estágio como professora convidada do Service d’Histoire de l’Éducation/INRP-França (abril a junho de 2005).

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Maria Helena Camara Bastos, Eduardo Arriada

derado um dos “fundadores” da so- sua visão de história, “é que há contra- debate entre a ordem tradicional e o libe-
ciologia, Tocqueville será reconheci- dição e, no limite, incompatibilidade en- ralismo burguês, a inquietude é avivada
do pela primazia da política e, mais tre a liberdade e a democracia” pelo espetáculo do pauperismo urbano,
precisamente, do “fato democrático”, (Burguière, 1993, p. 747). que engendra obras desiludidas ou sis-
como “o primeiro politicólogo con- Ao longo do século XIX, a Europa temas utópicos. Paralelamente, como es-
temporâneo”, em que liberdade e e a França, em particular, são clarece Schnerb (1961, p. 11), “apresen-
igualdade não são opostas, mas com- onipresentes na América Latina, nos ta-se uma grande novidade técnica: o va-
patíveis (Lardinois, 2000, p. 89). discursos e no conjunto da esfera pú- por entra a serviço do Ocidente, e bene-
Muitos ainda ficam perplexos pelo blica. As elites intelectuais olham com ficia-o com comodidades e meios há pou-
fato da obra de Alexis de Tocqueville intensidade para a França, buscando co insuspeitos. Em conseqüência, a Eu-
continuar sendo editada, e, mais do que suporte para os regimes políticos, a le- ropa poderá atirar-se, com novo vigor, à
isso, lida. Alguns julgam a pertinência e gislação, a maneira de viver a religião conquista do mundo, enquanto os ame-
o interesse pelo autor, uma renovação ou a laicidade, a arte, a moda, as socia- ricanos concluirão a da América”.
das idéias liberais, o constante questio- bilidades e tantos outros elementos No início de 1848, de acordo com
namento e os estudos relativos à Revo- (Rolland, 2003, p. 13). Gradativamente, Hobsbawm (1988, p. 29), o eminente
lução Francesa, marcante no ano do seu os Estados Unidos da América também político francês Alexis de Tocquevil-
bicentenário. Para Boudon (1993, p. 6), passam a ser objeto de interesse da eli- le tomou a tribuna na Câmara dos De-
essa volta de Tocqueville2 se explica pela te brasileira, especialmente através de putados para expressar sentimentos
crise do marxismo e pela influência cres- um olhar francês dessa realidade (Bas- que muitos europeus partilhavam:
cente, nas últimas décadas do século tos, 2000; 2002). “Nós dormimos sobre um vulcão... os
XX, do pensamento liberal3. Hobsbawm (1988) considera o sé- senhores não percebem que a terra
No fim dos anos 1950, Raymond culo XIX como o século das revolu- treme mais uma vez? Sopra o vento
Aron o vê como um “sociólogo ções, transformações, mudanças. das revoluções, a tempestade está no
comparatista e liberal”; André Burguière Nada parece deter ou impedir o avan- horizonte.” Esse é o momento histó-
o vê como um homem de ação e de refle- ço avassalador das nações capitalis- rico vivido por Tocqueville.
xão sobre a especificidade política de tas. Século diríamos da definitiva su- Mélonio (1998, p. 190) descreve que
seu tempo. Nos anos de 1980, suas idéi- premacia humana sobre a natureza, a França, no século XIX, não se singu-
as passam a ocupar um lugar de desta- para o bem ou para o mal. As marcas lariza nem pela revolução industrial,
que com a crise dos paradigmas marxis- do movimento iluminista permane- mais precoce na Inglaterra, nem pela
tas. Lentamente, é metamorfoseado cem, embora a herança do Antigo reivindicação de igualdade de condi-
como o “profeta de uma esperança de- Regime e a ideologia de 1789 ainda ções. Para o autor, os franceses expor-
mocrática renovada” (Weil, 2005, p. 13). se façam presentes. Estamos em ple- tam suas revoluções e seus imortais
No final dos anos 1990, Tocqueville tam- na era das nações, do progresso, da princípios, mas importam a filosofia ou
bém tem sido retomado como o teórico ascensão plena da burguesia. o direito germânico, a economia políti-
da continuidade histórica, no amplo Mesmo após a era revolucionária e ca inglesa, a política americana, para
sentido do termo. Toda essa ebulição napoleônica, as formas de vida e pensa- melhor se renderem à humanidade.
em torno do autor remete à necessidade mento são ainda em grande parte herdei- No Brasil, a presença de Tocqueville
de ensaiar uma leitura cultural de sua ras de um passado não tão distante as- é rica e diversificada4. No século XIX,
obra, e quem sabe uma leitura para a sim. Assistimos a uma progressiva trans- sua influência é forte sobre os políticos
história da educação, e não somente formação nas técnicas de fabricação e (Vélez Rodriguez, 1999, p. 147). No sécu-
sociopolítica. A grande convicção que transporte. Os espíritos, perturbados pela lo XX, seu pensamento é objeto de estu-
domina sua obra e marca de certa forma grande comoção política e social, hesi- dos acadêmicos, sendo submetido a in-
o seu pessimismo e resignação frente à tam, e a reação prossegue. Continua o terpretações variadas5. Os políticos, es-

2
Société Tocqueville, fundada em 1976 (Canadá/França), com o objetivo de reunir os especialistas das diversas ciências sociais dos dois lados do
Atlântico, de forma a estimular a cooperação intelectual de observação recíproca na tradição de Tocqueville. Publica La Revue Tocqueville/The
Tocqueville Review, que está no volume 25, com dois números anuais. Também no Brasil é criada a Sociedade Tocqueville (Brasília/Rio de Janeiro),
em 1986, tendo como presidente e fundador José Osvaldo Meira Penna.
3
Sobre a tradição liberal, ver Losurdo (1998).
4
A obra De la démocratie en Amérique (1888) compõe o acervo de obras raras em francês do Centro de Informação e Biblioteca em Educação (CIBEC)

6 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) (Tourneau, 2005, p. 160).
5
No Brasil, Democracia na América é somente traduzido e publicado em 1962 (Itatiaia, 2 volumes), reeditada em 1977 (Itatiaia/EDUSP), com um
estudo introdutório de Neil Ribeiro da Silva. Até então, ficou quase ausente do meio intelectual e político brasileiro, tendo em vista a forte tradição
positivista. Outra edição, mais resumida, data de 1969 (Cia. Editora Nacional), com revisão de Anísio Teixeira (Vélez Rodriguez, 1999, p. 161). Em
1983, nova edição da obra pela Itatiaia, com reedição em 1987, 1998, com apresentação de Antonio Paim.

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A democracia na América, de Alexis de Tocqueville: Uma leitura para a história da educação

pecialmente do Segundo Império (1841- O presente artigo objetiva apresen- realiza viagens12. Em 1827, acompa-
1889), buscam nas doutrinas francesas, tar o autor e sua obra, analisar alguns nhado do irmão, vai à Itália, onde
notadamente em Guizot (1787-1874), im- conceitos-chave que possam contri- começa a observar e se interrogar
portantes elementos teóricos para a prá- buir para a história da educação, no sobre o despotismo, a liberdade, a
tica de um liberalismo conservador, que século XIX, isto é, para a consolida- aristocracia, o povo, que constitui-
constitui a referência dominante da cul- ção de um projeto de educação pú- rão seu objeto de estudo.
tura política do país. Tocqueville será, blica – educação para todos, univer- Em 2 de abril de 1831, realiza a via-
neste contexto, um contraponto liberal sal, gratuita, obrigatória, laica, em que gem aos Estados Unidos da América
ao conservadorismo dos doutrinários, o Estado assume o papel de educa- (EUA), acompanhado do amigo
particularmente no que concerne à defe- dor, buscando governar os espíritos Gustave de Beaumont, para estudar
sa da incondicional da liberdade diante por palavras e formas, especialmente o sistema penitenciário e “ver gran-
do Estado centralizador, e os conceitos através da escola. Que contribuições des cidades e belos rios, [...] exami-
de self-government, democratização do podemos tirar dessa obra, tendo nar em detalhe e também cientifica-
sufrágio, descentralização administrativa, como foco a construção de um proje- mente todos os locais dessa vasta
a luta contra a escravidão, a defesa das to para a educação brasileira na se- sociedade americana de que todos
minorias, a liberdade de imprensa, etc. A gunda metade do século XIX? falam e que ninguém conhece”
apropriação das idéias de Tocqueville, (Jardin, 1984, p. 100). O objetivo da
notadamente do modelo americano de Alexis de Tocqueville viagem é estudar a democracia ame-
sociedade, tem “dupla ação” – de (1805-1859): alguns ricana in loco, é a observação direta
instrumentalização e de adesão, tanto elementos biográficos da sociedade americana, considera-
pelos liberais de oposição (Tavares Bas- da um modelo novo de sociedade –
tos6, Tobias Barreto) como pelos liberais Nasce em Paris, em 29 de julho de “uma grande República”, e “das for-
conservadores (Paulino Soares de Sou- 1805, filho de família tradicional fran- ças que a ligam e a fazem mover”.
za/Visconde do Uruguay). Além desses cesa, pertencendo à antiga nobreza Além disso, como todo viajante eu-
políticos, também foram leitores7 de Toc- da Normandia. Faz a Faculdade de ropeu no Novo Mundo, as coisas
queville: José de Alencar, Rui Barbosa8, Direito em Paris, concluindo seus exóticas fazem parte do seu projeto.
Rangel Pestana9, Lourenço Filho10. estudos em 1825. Ingressa na Magis- A viagem totalizou 286 dias, com
O século XIX inaugura os estu- tratura como juiz-auditor, em chegada a Paris em março de 1832.
dos comparados; Tocqueville foi um Versalhes, onde seu pai era prefeito. Ao todo, foram 271 dias nos EUA,
comparativista, situando-se nos di- Em sua formação, vai ler os filóso- sendo que 140 deles em grandes ci-
ferentes níveis da realidade social – fos do século XVIII – Montesquieu, dades americanas. Compreendeu três
dos elementos micro ao macro, para Voltaire, Rousseau, Thiers –, expres- momentos: Nova York e adjacências,
integrá-los finalmente em uma rela- sivos na biblioteca de seu pai, que de 11 de maio a 30 de junho de 1831;
ção global. É considerado um pionei- provavelmente contribuíram para a Boston, Filadélfia e Baltimore, de 9
ro e igualmente um clássico da soci- elaboração de sua tese sobre a igual- de setembro a 22 de novembro de
ologia comparada. Na área da educa- dade das condições sociais. 1831; Washington e Nova York, de
ção e da história da educação, a obra Seguindo uma tendência em voga, 18 de janeiro a 22 de fevereiro de 1832.
de Tocqueville é significativa para os desde o final do século XVIII e início Também foi ao Canadá. Antes de
estudos de educação comparada11. do século XIX, Tocqueville também retornar à França, pensava passar

6
Quando lemos “A Província”, de Tavares Bastos, salta aos olhos a forte influência de Alexis de Tocqueville, em particular a questão da centralização e
descentralização. Em diversas partes, um dos autores mais citados é Tocqueville. Tavares Bastos ressalta a grande importância que os costumes e hábitos
do ponto de vista institucional poderiam ter sobre o “caráter nacional” de um povo. Deste modo, para Tavares Bastos, a obra A democracia na América
possui uma importância vital, ao frisar que as leis e o ordenamento político-administrativo podem moldar uma sociedade e operar mudanças numa nação.
7
Gondra (2000, p. 468) na análise que faz das teses defendidas pelos médicos no século XIX, lista os autores referenciados. Na tese do Dr. Brito, há
uma referência a Tocqueville.
8
Nos pareceres sobre o ensino primário, secundário e superior de Rui Barbosa (1882-1883) não se encontram referências explícitas a Tocqueville. Sobre
Rui Barbosa e a educação, ver Bastos, 1999; Machado, 2002.
9
Sobre Rangel Pestana, ver Hisldorf (2002).
10
Warde (2003, p. 159), no estudo sobre Lourenço Filho, faz uma análise sobre as influências que teve em sua formação: “os norte-americanos com
os quais mantinha relações diretas e a presença de Tocqueville na biblioteca dos seus conterrâneos lhe deram gazuas de fabricação americana. ‘A
democracia na América’ serviu de espelho europeu até para os próprios americanos se enxergarem”.
11
Em 1817, Marc-Antoine Jullien inaugura este gênero de estudo, na obra Esquisse et vues préliminaires d’un ouvrage sur l’éducation comparée, em
que é apresentado um modelo de estudo a ser seguido e questões que o observador deve se fazer ao pretender conhecer outro sistema de educação. 7
Sobre educação comparada, ver Nóvoa (1998 a, b), Frijhoff (1981) e Van Daele (1993).
12
Diferentemente das peregrinações, as viagens visam conhecer os novos sistemas de organização social e política, as regiões geográficas inexploradas
do globo, os povos e as culturas exóticas. Sobre o papel das viagens, ver Costa (2003).

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Maria Helena Camara Bastos, Eduardo Arriada

primeiro pela Inglaterra, pois acredi- gundo momento, compara França e ros, área em que sempre teve inte-
tava que essa estada permitiria com- Estados Unidos, para poder enten- resse, apesar de ter preferido o Mi-
preender melhor as raízes da demo- der e compreender os efeitos da des- nistério da Instrução Pública, entre-
cracia americana, mas um surto de truição antecipada da aristocracia, ou gue para Falloux.
cólera o impediu. seja, o impacto da revolução sobre a As questões de educação também
Na volta da viagem, Tocqueville sociedade francesa. Desse modo, o estiveram presentes nas falas e nos
e Beaumont redigem o relatório que dá aos Estados Unidos seu va- escritos de Tocqueville. Em janeiro de
Système pénitentiaire aux Etats- lor central, quanto à Inglaterra, é a 1844, pronuncia um discurso na Câ-
Unis et son application em France revolução democrática radical e, mara sobre a questão entre a Univer-
(1833), que dá aos seus autores uma quanto à França, uma democracia ra- sidade e a Igreja: “Tenho por cons-
certa notoriedade. dicalmente não revolucionária (Furet, tante que a educação laica é a garan-
De agosto a setembro de 1833, 1993, p. 1227). tia da liberdade de pensamento. Creio
empreende a viagem à Inglaterra, Como conclusão de sua viagem, firmemente que a Universidade deve
onde observa questões relativas à Tocqueville destaca que o povo ame- ser o lugar principal dos estudos, e
descentralização, o papel social da ricano, em conjunto, é não só mais que o Estado deve conservar os di-
religião e estabelece contato com esclarecido, mas o é assim pela edu- reitos de vigilância das escolas que
vários liberais. Na volta, começa a cação política, cuja prática é a mais não dirige” (carta de Tocqueville a
redação do livro Democracia da avançada. Para ele, educar a opinião Bouchitté, 4 de fevereiro de 1844, in
América, primeira parte, que é publi- pública é criar um espírito cívico para Gibert, 1977, p. 182). Paralelamente a
cado em janeiro de 1835 (Editora as leis. esse pronunciamento, também se
Gosselin), tendo grande repercus- A segunda parte de Democracia posiciona pela liberdade religiosa e
são, com uma tiragem de seis mil na América é publicada em 1840, mas pelo Estado laico, defende a liberda-
exemplares até 1839. Em 1848, a obra com uma característica mais abstra- de de ensino e uma pedagogia públi-
já está na sua décima segunda edi- ta, centrando-se na reflexão sobre o ca promovida pelo Estado. Jules Ferry
ção. Recebe prêmio da Academia homem democrático, tendo o exem- foi seu grande admirador.
Francesa. Também tem sucesso no plo americano como ponto de parti- É eleito membro da Academia de
EUA e na Inglaterra, tendo recebido da de uma análise sobre a emergên- Ciências Morais e Políticas (1838) e
uma resenha amplamente favorável cia e o futuro da sociedade democrá- da Academia Francesa. Também se
de John Stuart Mill, que o convida a tica. Stuart Mill a considera a primei- consagra à redação de diversos en-
colaborar na sua revista. ra grande obra de filosofia política saios. Sobre a pobreza, opõe-se à
A obra resulta das observações consagrada à democracia moderna visão moralista dominante e desen-
in loco, de ampla pesquisa e de lei- (Dubois, 1993, p. 12). volve a idéia de que resulta da in-
turas realizadas antes e depois da Ao longo de sua vida, empreen- dustrialização e sugere soluções co-
viagem. Não pretendeu escrever um de inúmeras outras viagens – Irlan- letivas, como a criação de associa-
livro sobre os EUA, mas mostrar um da, Alemanha, Suíça, Argélia. Tam- ções operárias visando organizar a
país democrático à França. Tinha bém exerce funções legislativas, sen- previdência. Em 1850, começa a re-
consciência de que a democracia do eleito deputado em 1839. A ativi- dação de suas memórias, publicadas
americana não poderia ser um exem- dade como deputado é marcada por somente em 1893, depois da aposen-
plo a ser imitado, tendo em vista o quatro projetos: o primeiro defende tadoria política dos principais prota-
problema da escravidão. a abolição da escravidão (1839), o gonistas. Em 1856, publica L’Ancien
A nação americana constitui, por- segundo preconiza o aprisionamen- Regime et la Révolution, em que
tanto, o terreno a partir de onde o to individual e a redução das penas, busca compreender a sociedade fran-
autor elabora um estudo comparati- e os outros dois tratam da questão cesa e a explosão revolucionária. É
vo em relação à França. Parece-nos da Argélia. Em 1847, elabora um ma- considerado um “estudo diacrônico”
claro que, antes mesmo de iniciar a nifesto, de grande ressonância soci- da democracia, enquanto Democra-
sua viagem, procurou analisar os Es- al, em que propõe a extensão pro- cia na América é o “estudo
tados Unidos através de um duplo gressiva do direito ao sufrágio, a sincrônico” (Dubois, 1993, p. 17).
jogo de comparações. Primeiro, utili- gratuidade da escola, a limitação da Tocqueville morre de tuberculo-
za a comparação Inglaterra-Estados jornada de trabalho, a ajuda pública se em Cannes, em 16 de abril de 1859.
8 Unidos para compreender a relação e a redução dos impostos em favor Buscando fazer um retrato objetivo
entre aristocracia e democracia, fora dos mais pobres. Em 1849, assume o e claro do autor, Guellec (1996) o apre-
do contexto revolucionário. Num se- Ministério dos Negócios Estrangei- senta como um pensador livre e

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A democracia na América, de Alexis de Tocqueville: Uma leitura para a história da educação

iconoclasta, um ardente defensor da mas não modelo. A França será sem- versos “produtos do espírito”, em
democracia. Seduzido pelo modelo pre a referência, o termo de compa- relação com a sociedade global.
político americano, interroga o seu ração obrigatório, para pensar o fu- A obra não faz somente uma lei-
tempo sobre o futuro da democracia turo do país. tura social dos costumes, da socie-
na França e analisa os seus funda- De acordo com Tocqueville, a dade política e da política da socie-
mentos. Coloca em cena o novo pa- principal finalidade da obra era fazer dade americana, mas também uma
pel político do cidadão. Se em teoria conhecer as leis dos Estados Uni- leitura cultural – arte, literatura, filo-
“todos os homens nascem livres e dos. Três coisas parecem concorrer sofia, ciências, religião – tudo mar-
iguais em direito”, a cidadania e o para a manutenção da democracia. cado pela democracia que cria não
espírito igualitário se adquirem, na Primeiro, a forma federal que os ame- somente uma cultura nova, mas tam-
realidade, ao preço de muitos com- ricanos adotaram, pois “permite à bém um tipo novo de homem (Gibert,
bates intermináveis. Mostra a pas- União gozar do poder de uma gran- 1977, p. 16). A igualdade dos costu-
sagem do indivíduo, submetido a um de república e da segurança de uma mes é para Tocqueville uma conquis-
regime feudal e absolutista, “ao ci- pequena”. Segundo, as instituições ta política e uma evidência social.
dadão responsável, livre e autor da comunais, “que, ao mesmo tempo, Desde a Revolução de 1789, a
vida democrática”. Tocqueville se moderam o despotismo da maioria, França passa por inúmeras revoltas
apresenta como um democrata de dão ao povo o gosto à liberdade e a políticas, e Tocqueville se propõe a
“cabeça”: “tenho pelas instituições arte de ser livre”. Por último, a estru- entender a idéia de democracia atra-
democráticas um gosto de cabeça, tura do poder judiciário – “Já mos- vés de um governo livre em que a
mas sou um aristocrata por instinto” trei como servem os tribunais para vontade do povo não pode ser
(Dubois, 1993, p. 13). corrigir os descaminhos da democra- desconsiderada. Suas estratégias
A obra completa de Tocqueville cia, e como, sem jamais poder deter discursivas traduzem um sistema de
compreende 13 tomos e 22 volumes, os movimentos da maioria, conse- dupla negação, com uso de concei-
que incluem os livros publicados em guem diminuir o seu ritmo e dirigi- tos antinômicos, pré-construídos do
vida, mais fragmentos e notas inédi- los” (Tocqueville, 1977, p. 221). discurso sobre o mundo social: aris-
tas sobre a Revolução Francesa, es- Tocqueville elabora um estudo tocracia x democracia, liberdade x
critos e discursos políticos, notas de metódico das instituições de outro igualdade, hierarquia x nivelamento,
viagens e correspondências (Paim, povo. Descreve e julga, tenta conci- patrão x operário, classes
1998, p. III). Deixou uma obra perma- liar a objetividade, fundada na razão, esclarecidas x povo, sociedades es-
nente, particularmente A democra- e a paixão pela liberdade. Busca táveis x mobilidade social, etc.
cia na América e O Antigo Regime e conceituar e observar a origem do (Lardinois, 2000, p. 86).
a Revolução. caráter liberal da democracia ameri- A seguir, apresentaremos alguns
cana, a partir de três focos, em or- conceitos-chave da obra Democra-
A democracia na dem de importância crescente: a si- cia na América tendo como objeti-
América: uma leitura tuação física, as leis (o federalismo, vo a contribuição para uma história
para a história da as instituições comunitárias, a cons- da educação no século XIX.
educação tituição do poder judiciário), as tra- Para Tocqueville, a democracia é
dições e costumes (conjunto das dis- uma nova forma de organização so-
Apesar dos objetos novos em que posições intelectuais que os homens cial, não só mudança de regime polí-
centrei minha atenção, durante minha aportam no estado social). tico. Resumidamente, para o autor, a
estada aos Estados Unidos, nenhum Na primeira parte da obra, apre- democracia consiste no “desenvol-
se destacou mais que a igualdade de senta os costumes e a sociedade vimento gradual e progressivo da
condições. americana; na segunda parte, apre- igualdade”, permitindo a todos e a
Tocqueville senta uma visão mais geral das soci- cada um, independentemente de di-
edades democráticas e busca anali- ferenças hereditárias e de desigual-
Democracia da América fixa a sar as conseqüências sociais de uma dade de fortuna, atingir o bem-estar
imagem de uma grande república – sociedade democrática. Preocupado comum, graças especialmente à aqui-
“a esperança do mundo”. Para em fornecer informações concretas sição de riquezas materiais (Gibert,
Mélonio (1998, p. 191), esse modelo da sociedade americana, analisa 1977, p. 17). É uma tensão entre a
americano é uma invenção france- detalhadamente as instituições so- busca da igualdade e o respeito à 9
sa, que deve ser lido com modera- ciais, o comportamento político dos liberdade – pública e privada. Para
ção, como receitas constitucionais, cidadãos, o conhecimento e os di- analisar a democracia como idéia-

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chave, Tocqueville assim descreve descentralização foi levada a um me, ela é um “estado social” novo.
o seu método: grau que nenhuma nação européia A igualdade fica aberta para todos
jamais suportaria. [...] Nos Estados e procura uma certa uniformidade
Pour me faire compreendre, je suis Unidos, entretanto, a centralização de comportamentos, costumes e ati-
sans cesse oubligé de prendre des états governamental existe no mais ele- tudes. “O social, se bem que parti-
extremes, une aristocracie sans vado grau” (Tocqueville, 1977, p. 74). do em uma infinidade de indivíduos
mélange de démocratie, une démocratie “Entre os americanos, a força que iguais, se reúne como tal: forma qua-
sans mélange d’aristocratie. Il m’arrive administra o Estado é bem menos se espontânea da soberania do
d’attribuer à l’un ou à l’ autre des deux
regulada, menos esclarecida, menos povo e na qual os costumes, a edu-
principes des effets plus complets
sábia, mas cem vezes maior que na cação, a religião, as leis, conjugam
que ceux qu’ils produisent em gene-
ral, parce qu’en general ils ne sont
Europa. Não há um país no mundo e redobram seus efeitos” (Furet,
pas seuls. Le lecteur doit discerner onde os homens façam, em definiti- 1993, p. 1228).
dans mes paroles ce qui est mon vo, tantos esforços para criar o bem- Nessa passagem de indivíduo a
opinion véritable de ce qui est dit pour estar social. Não conheço mesmo um cidadão, que na democracia norte-
la faire bien comprendre (in Dubois, povo que tenha chegado a fundar americana parece simples, é preci-
1993, p. 15). escolas tão numerosas e tão efica- samente para Tocqueville a ques-
zes; templos mais adequados às tão central dentro da democracia.
Em diversas partes de sua obra, necessidades religiosas dos habi- De acordo com Furet (1993, p. 1228-
Tocqueville comenta a situação na tantes; estradas comunais mantidas 1229), essa questão esteve presen-
França e na Inglaterra, para depois em melhores condições” (Tocque- te na filosofia européia desde
compará-la com a situação norte- ville, 1977, p. 77). Hobbes a Rousseau. Isso se deve
americana. Vejamos: “A França, sob A admiração que Tocqueville ao fato de que o homem democráti-
Luís XIV, viu a maior centralização nutria pelas instituições da Améri- co é um indivíduo separado de toda
governamental que já se pôde con- ca quanto à descentralização, não relação institucional preestabeleci-
ceber, pois o mesmo homem fazia as era o efeito administrativo delas, da com seus semelhantes, definido
leis gerais e tinha o poder de mas os seus efeitos políticos – por seus interesses particulares,
interpretá-las, representava a Fran- “Nos Estados Unidos, a pátria faz- isolado e auto-suficiente. Tocque-
ça no exterior e agia em seu nome. O se sentir por toda parte. É objeto ville, que muito estudou Rousseau,
Estado sou eu, dizia; e tinha razão. de anseios desde a aldeia até a partilha sua maneira de colocar a
Entretanto, sob Luís XIV, havia mui- União inteira. O habitante liga-se a questão da democracia, mesmo re-
to menos centralização administra- cada um dos interesses de seu país cusando sua “solução”. O homem,
tiva do que em nossos dias” (Toc- como aos seus próprios” (Tocque- isolado de seus semelhantes, apa-
queville, 1977, p. 73). Quanto à In- ville, 1977, p. 79). rece duas vezes na história univer-
glaterra, a centralização governa- Tocqueville também explicita sal, “nos dois extremos da civiliza-
mental é elevada a grau muito alto; como a democracia se faz acompa- ção”: primeiro como selvagem, em
em contrapartida, não tem centrali- nhar de um progresso do individua- seguida como homem democrático.
zação administrativa. “Pela minha lismo. Proclamados e reconhecidos Daí o retorno da velha questão, no
parte, não me seria possível imagi- os direitos individuais, o gosto pela segundo volume da Democracia, já
nar que uma nação pudesse viver, liberdade corrompe-se pela paixão que o primeiro não o exorcizou: “Em
nem prosperar, sem uma forte cen- pela igualdade, que favorece a difu- que condições a igualdade moder-
tralização governamental. Creio, po- são de um espírito majoritário e con- na dos indivíduos permite manter o
rém, que a centralização administra- formista. Por força de reclamar os vínculo social sem tocar na liberda-
tiva só serve mesmo para enfraque- mesmos direito para todos, os indi- de?” (Furet, 1993, p. 1229).
cer as nações que a ela se subme- víduos acabam por se contentar em Para Tocqueville, o futuro demo-
tem, pois tende incessantemente a reivindicar uma “igualdade” de con- crático tem uma exigência política e
diminuir entre elas o espírito de ci- dições sociais e de um modo de vi- também um dever moral: a aprendi-
dade” (Tocqueville, 1977, p. 74). Em ver (Tourneau, 2005, p. 160). zagem da liberdade (Guellec, 1996, p.
relação aos Estados Unidos, suas A nação americana possibilitou 11). À sua maneira, a democracia con-
observações apontam que não exis- uma nova visão para refletir sobre a siste numa igualdade de condições.
10 tia absolutamente centralização ad- questão da igualdade; sem um pas- Uma sociedade pode ser caracteriza-
ministrativa. “Achamos ali apenas sado aristocrático, portanto sem re- da de democrática quando não exis-
os vestígios de uma hierarquia. A volução para destruir o antigo regi- tem distinções de ordens e de clas-

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A democracia na América, de Alexis de Tocqueville: Uma leitura para a história da educação

ses, onde todos os cidadãos são cidadãos. Os verdadeiros conheci- trução nos Estados do Norte e nos
socialmente iguais, o que não signi- mentos nascem principalmente da do Sul.
fica que intelectualmente falando experiência, e se os americanos não Com uma perspicácia típica do
sejam iguais ou economicamente tivessem sido habituados pouco a autor, ao entrar no recinto de uma
iguais, o que para o autor, é impossí- pouco a governar-se por si mesmos, livraria dos Estados Unidos, narra:
vel. A igualdade implica a inexistência os conhecimentos literários que pos- “[...] quando se examinam os livros
de diferenças hereditárias de condi- suem de modo algum lhes seriam hoje americanos que enfeitam as suas
ções, ou seja, todas as profissões, um grande auxílio para ter êxito nes- prateleiras, o número de obras pa-
dignidades e níveis sociais são te particular” (Tocqueville, 1977, p. rece muito grande, ao passo que o
acessíveis a todos. Em suma, a gran- 234). dos autores conhecidos parece,
de tese levantada é que a liberdade Tendo permanecido um tempo pelo contrário, muito reduzido. En-
não pode estruturar-se na desigual- relativamente longo na América, contra-se, em primeiro lugar, uma
dade, deve sim, estruturar-se sobre pode com propriedade afirmar que infinidade de tratados elementares,
a realidade democrática da igualda- o habitante dos Estados Unidos destinados a dar as primeiras no-
de de condições, salvaguardada por não tirou dos livros esses conhe- ções dos conhecimentos humanos”
instituições cujo modelo parecia es- cimentos práticos e essas noções (Tocqueville, 1977, p. 355).
tar surgindo na América (Aron, 1987, positivas: “a sua educação literá- Tocqueville aprecia, em relação à
p. 209). ria pode prepará-lo para recebê-las, América do Norte, o caráter eminen-
Tocqueville, confrontado mas de modo algum lhas forneceu” temente prático. Dentro do espírito
com um novo mundo, considera (Tocqueville, 1977, p. 234). Con- da época, ressalta que
fundamental uma ciência nova que cluía que nos Estados Unidos, “o
permita assegurar a educação dos conjunto da educação dos homens nas sociedades democráticas, o in-
novos governantes. Em vários tre- é dirigido para a política; na Euro- teresse dos indivíduos, tal como a
chos da sua obra, afirma que “tive pa, a sua finalidade principal é pre- segurança do Estado, exige que a
ocasião de fazer notar aos leitores parar para a vida privada” (Tocque- educação do maior número seja cien-
tífica, comercial e industrial, antes
qual era a influência exercida pelos ville, 1977, p. 234).
que literária. O grego e o latim não
conhecimentos e pelos hábitos dos Tocqueville considera o papel da
devem ser ensinados em todas as
americanos sobre a manutenção família peça-chave da sociedade de- escolas; mas é importante que aque-
das suas instituições políticas. Na mocrática pela homogeneização dos les que, por natureza ou fortuna,
Nova Inglaterra, todo cidadão re- costumes. Se, por um lado, a demo- são destinados a cultivar as letras
cebe noções elementares dos co- cracia distende naturalmente as re- ou predispostos a apreciá-las, en-
nhecimentos humanos; aprende, lações sociais, por outro lado, es- contrem escolas onde se possam
além disso, quais são as doutrinas treita as relações naturais. Para o tornar perfeitamente senhores da
e provas da sua religião: são-lhe funcionamento de uma sociedade literatura antiga e imbuir-se inteira-
dados a conhecer a história de sua democrática, considera que deve ser mente do seu espírito. Algumas ex-
pátria e os traços principais da realizado um esforço constante e celentes universidades valeriam
Constituição”. Esclarece ainda que, pujante para melhorar, elevar, mora- mais, para alcançar esse objetivo,
que uma infinidade de maus colégi-
“quanto mais se avança para o oes- lizar as condições de cada um de
os, onde mal feitos estudos super-
te ou para o sul, mais diminui a ins- seus membros, para alcançar o me-
ficiais impedem fazer bem estudos
trução do povo” (Tocqueville, lhor com segurança, controlando necessários (Tocqueville, 1977, p.
1977, p. 232-233). todas as misérias humanas (Jardin, 360-361).
Para ele, não resta dúvida de que 1984, p. 348).
a instrução do povo nos Estados Em Boston, busca informar-se As lições de Tocqueville
Unidos serve poderosamente à ma- sobre a liberdade de ensino e tam-
nutenção da república democrática. bém sobre a ajuda que as coletivi- Estou em equilíbrio entre o passado e
“Creio eu que assim há de ser em dades dão para a organização e ma- o futuro, não me sinto natural e ins-
toda parte onde não se separe a ins- nutenção do ensino. A educação tintivamente ligado nem a um nem ao
trução que esclarece o espírito, da ministrada é cristã e se conforma outro, e não necessitei de muitos es-
educação que regula os costumes.” com a ordem moral que rege a soci- forços para ter olhares tranqüilos para
(Tocqueville, 1977, p. 234). Além dis- edade americana. Destaca que o os dois lados. (Carta de Tocqueville 11
so, “não basta ensinar os homens a povo é esclarecido e um povo reli- para seu tradutor inglês, em 1837, in
Guellec, 1996, p. 43).
ler e escrever para logo fazer deles gioso. Analisa as diferenças da ins-

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Maria Helena Camara Bastos, Eduardo Arriada

As obras do passado, conside- aos homens o exercício de uma liber- pensar e de viver, de modificar e ori-
radas muitas vezes como clássicas dade efetiva lhes dando a capacida- entar comportamentos” (Rossi,
aos leitores do presente, constitu- de de influir no percurso das coisas”. 2000, p. 12). As idéias centrais de
em um capital intelectual suscetível Pensador social, que analisa a socie- Tocqueville possibilitam que sejam
de serem redescobertas e instrumen- dade como uma totalidade; pensa- reinterpretadas com significados
talizadas segundo as lógicas con- dor político, que faz da liberdade novos, na perspectiva colocada por
temporâneas de diferenciação e de política uma das condições primor- Rossi (2000, p. 17): “A diferença de
oposição próprias do campo das ci- diais de base de todas as relações interpretação dos nossos predeces-
ências sociais e humanas. Nessa sociais; sociólogo liberal, que busca sores é em tudo e por tudo igual à
perspectiva, Tocqueville deve ser conciliar as necessidades individu- diferença das nossas interpretações
lido como um produto de seu tempo ais e coletivas em uma visão de soci- aos olhos dos nossos sucessores.”
e testemunha de um saber em cons- edade por sua vez estática e dinâmi- As idéias defendidas não são pen-
trução sobre o mundo social ca (Dubois, 1993, p. 32). samentos para serem cristalizados e
(Lardinois, 2000, p. 87). Ao analisar a atualidade da obra isolados em sua historicidade, mas,
A grande convicção que domina de Tocqueville, Benoît (2005, p. 27) ao contrário, abrem o diálogo entre
a obra de Tocqueville, e que em par- é mais sarcástico com o nosso tem- o passado e o presente, permitindo
te o distancia de outros liberais, é po, quando afirma que “permite jul- que nos coloquemos frente a frente
um certo pessimismo resignado a gar a mediocridade dos tempos pre- com a realidade histórica de produ-
uma visão histórica, “é que há con- sentes”. ção e apropriação de sentido para a
tradição e, no limite, incompatibili- Tocqueville, como todo pensa- concretização de uma sociedade de-
dade entre a liberdade e a democra- dor, também tem posições contra- mocrática.
cia” (Burguière, 1993, p. 747). ditórias. Ao mesmo tempo em que
Para Rémond (1977, p. 5), a atuali- defende a democracia na América, Referências
dade de Tocqueville reside na capa- recomenda a colonização da Argé-
cidade de “associar uma acuidade de lia e de outros países da África pela ARON, R. 1987. As etapas do pensamen-
observação, uma sagacidade para França, como uma “questão de to sociológico. São Paulo, Martins Fon-
discernir o essencial, uma lucidez na saúde pública e de honra nacional” tes; Brasília, Editora Universidade de
Brasília, 884 p.
pesquisa das causas que lhe darão (Plenel, 2005, p. 7). Também Said
BASTOS, M.H.C. 1999. Menezes Vieira
uma reputação científica, a uma re- (1995, p. 236) chama a atenção para
e Rui Barbosa: parceiros no projeto
flexão sobre o futuro das socieda- esse aspecto: “Alguns, como Toc- de modernização da Educação Brasi-
des”. Aspira a uma sociedade políti- queville, que criticou severamente leira. In: L.M. de FARIA FILHO
ca onde todos se submeterão à lei, a política americana em relação aos (org.), Pesquisa em História da Edu-
onde os movimentos serão regula- negros e aos índios autóctones, cação: Perspectivas de análise: Ob-
dos por ela, mas onde a lei ela mesma acreditava que o avanço da civili- jetos e Fontes. Belo Horizonte, HG
se conformará a uma justiça mais alta. zação européia exigia que se infli- Edições, p. 45-68.
BASTOS, M.H.C. 2002a. Leituras da ilus-
Em um mundo onde a violência pre- gissem crueldades aos indigènes
tração brasileira: Célestin Hippeau
valece sobre o respeito à regra do muçulmanos: a seu ver, a conquis- (1803-1883). Revista Brasileira de
direito, este apelo à liberdade não é ta total era equivalente à grandeza História da Educação, 3:67-112.
particularmente atual? A virtude das da França.” Comenta ainda que “os BASTOS, M.H.C. 2002b. Permuta de lu-
grandes obras é o segredo da sua intelectuais europeus tinham a pro- zes e idéias: As Conferências Pedagó-
universalidade, em que escritos de pensão de atacar os abusos dos im- gicas dos professores públicos primá-
conjunturas particulares têm a pro- périos rivais, enquanto atenuavam rios do Município da Corte (1873-
1886?). Porto Alegre, mimeo.
priedade de parecerem atuais, como ou desculpavam as práticas de seu
BASTOS, M.H.C. 2002c. Permuta de lu-
reflexo dos nossos problemas e es- país”. zes e idéias. As conferências popula-
pelho de nossas experiências. O estudo da obra Democracia na res da Freguesia da Glória (1873-
Para Dubois (1993, p. 4), a atuali- América e de algumas idéias de Toc- 1890). In: Congresso da Sociedade
dade do autor e sua obra é a queville, importantes para a compre- Brasileira de História da Educação, 2,
“pertinência de uma síntese aberta ensão do projeto liberal de educa- Natal, 2002. Anais... Natal, UFRN,
CD-ROM.
da diversidade das influências que ção, explicita o “peso das idéias na
12 atravessam a sociedade democráti- história, a capacidade que elas têm
BASTOS, M.H.C. 2002d. Luzes do futuro:
O Congresso de Instrução – Rio de Ja-
ca e a certeza que as tendências fun- (num tempo não necessariamente neiro (1883-1884). Ícone Educação,
damentais da evolução social deixam longo) de transformar os modos de 8(1/2):153-182.

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A democracia na América, de Alexis de Tocqueville: Uma leitura para a história da educação

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Maria Helena Camara Bastos, Eduardo Arriada

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Submetido em: 10/08/2006


Aceito em: 04/12/2006

Maria Helena Camara Bastos


PUCRS, Brasil
Eduardo Arriada
UFPel, RS, Brasil
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Educação Unisinos

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