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As categoria de gênero e cor: as multiplicidades envolvidas para tratar o

contexto de vivências das mulheres negras

Gênero segundo Scott (1989) :


[...] é uma maneira de se referir às origens exclusivamente
sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres.
O gênero é, segundo esta definição, uma categoria social
imposta sobre um corpo sexuado” (p. 3).
As feministas norte-americanas, a utilizou para destacar o caráter social das
distinções a partir do sexo, contrapondo ao determinismo biológico, afirmando o
“aspecto relacional das definições normativas de feminilidade”.
Contudo, Nascimento (2003, p. 117), aborda sobre a complexidade em
tratar dessa construção de gênero, sem pensar a questão racial.
No Brasil, a distinção de gênero não pode ser compreendida de
modo adequado sem considerar-se a questão racial. Na hierarquia
da renda, o primeiro fator determinante é a raça, depois o gênero. As
mulheres brancas mantem uma posição nitidamente privilegiada em
relação aos homens negros, e as afro-brasileiras estão no mais
baixo degrau da escala de renda e emprego. Os homens brancos
recebem mais de três vezes o que ganham as mulheres afro-
brasileiras, que por sua vez ganham menos da metade do valor da
renda mediana da mulher branca.

De fato em nossa realidade de mulheres negras, o mote racial não está


deslocado da questão de gênero. Deve-se considerar essa relação no contexto das
desigualdades produzidas em decorrência da diferença sexual, a cor/raça constitui
mais um dos elementos que irá definir o grau e as especificidades de vivencias e
subjetividades particulares sentidas pelas mulheres negra.
Nesse sentido, Carneiro (2003), reflete que as imagens de gênero
estabelecida a partir do trabalho enrudecedor, da degradação da sexualidade e da
marginalização social, produziram até os dias atuais por exemplo, a desvalorização
social, estética e cultural das mulheres negras, em detrimento da supervalorização
no imaginário social das mulheres brancas, sulbalternizando gênero conforme a
cor/raça da mulher.

Os grupos de mulheres negras e grupos de mulheres indígenas


possuem demandas específicas que, essencialmente, não podem
ser tratadas, exclusivamente, sob a rúbrica da questão de gênero se
esta não levar em conta as especificidades que definem o ser mulher
negra, branca ou indígena (CARNEIRO 2003, p. 119).

Silva (2013, p. 109), apresenta questões importantes a serem discutida


nas relação gênero e raça.
As discriminações de raça e gênero produzem efeitos imbricados,
ainda que diversos, promovendo experiências distintas na condição
de classe e, no caso, na vivência da pobreza, a influenciar seus
preditores e, consequentemente, suas estratégias de superação.
Neste sentido, são as mulheres negras que vivenciam estas duas
experiências, aquelas sempre identificadas como ocupantes
permanentes da base da hierarquia social.

No campo sobre trajetória profissional e mobilidade social, os estudos sobre


a relação gênero e raça têm demonstrado que em várias áreas do contexto social
em que o homem negro estará em situação de desvantagem em relação à mulher
branca, que, por sua vez, estará em desvantagem ao homem branco e a mulher
negra em situação desfavorável tanto em relação ao homem branco, à mulher
branca e ao homem negro. Com isso, estamos afirmando que as meninas e
mulheres negras passam por escalas de discriminações e desigualdades, a racial e
de gênero, ainda, conforme a condição social.
No contexto de mulheres negras abordar gênero e cor/raça tem questões
que duplamente inferem na sua construção de identidade, isso implica,
inevitavelmente, discutir as formas subjacentes do racismo e a discriminação de
gênero para pensar as experiências das mulheres negras.
Ao observar sobre a necessidade de pensar essa questão, por uma
perspectiva de interseccionalidade para a análise das múltiplas nuances que
envolve as categorias como identidades - de gênero, racial, de classe, e orientação
sexual etc. na realidade de indivíduo ou grupo, aqui particularmente falando dos/as
negros/os. Por isso (DAVIS, 1997, p. 8) entende que
Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que
gênero é a maneira como a classe é vivida. A gente precisa refletir
bastante para perceber que entre essas categorias existem relações
que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir
a primazia de uma categoria sobre as outras.

Para Bairros (1995, p. 6) na verdade existe referências significativas


relacionada a produções vividas pelas mulheres negras nas américas que constitui
“um conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres afro americanas
que oferecem um ângulo particular de visão do eu e da comunidade e da sociedade,
que envolve interpretações teóricas da realidade de mulheres negras.”
É na construção social e histórica que esses os espaços de
“empoderamento” como quilombos, religiões de matriz africana, atividades e
lideranças em variados espaços constituíram um refazer e reelaborar de
identidades além de instrumentos
de afirmação e para subverter a lógica racista e patriarcal.
A discussão aqui proposta, não deixa de ter uma interface com os
aspectos socioculturais que envolve a presença negra na cultura nacional.
Daí, a nossa busca de compreender como as mulheres percebem a
dimensão feminina no campo da religiosidade de culto aos Orixás.

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