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Candomblé e o feminino ritualizado: reelaboração de dimensões religiosas e

culturais negras

A dimensão da circularidade, no Candomblé compreende uma ritualística


em que a dimensão de circularidade, dão informações das matrizes culturais
africana na religiosidade afro-brasileira, particularmente, nas danças sagradas
denominadas de Xire (mais a frente melhor retratada). Um aspecto da ritualizado da
cultura negra africana se fará presente na reelaboração da religiosidade afro-
brasileira. No Candomblé, por exemplo, quase todos os rituais, são realizados a
partir da constituição de um círculo. É no ato de “rodar”, “circular”, “girar” que se
estabelece a magia do encontro dos dois mundos: o visível e o invisível, o divisível e
o indivisível.
Conforme Sodré (2002):

Para os africanos, igualmente, a dança é um ponto comum entre


todos os ritos de iniciação ou de transmissão do saber tradicional.
Ela é manifestamente pedagógica ou "filosóficà', no sentido de que
expõe ou comunica um saber ao qual devem estar sensíveis as
gerações presentes e futuras. Incitando o corpo a vibrar ao ritmo do
Cosmos,

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Conforme quando existem pessoas que devem ser consagradas no culto de uma determinada
divindade e não existe um templo da divindade em questão na cidade natal da pessoa, a mesma é
encaminhada ao templo mais próximo desta divindade no país (Nigéria).
provocando nele uma abertura para o advento da divindade (o
êxtase), a dança enseja uma meditação, que implica ao mesmo
tempo corpo e espírito, sobre o ser do grupo e do indivíduo, sobre
arquiteturas essenciais da condição humana.

Essa reelaboração de circularidade possui uma característica não linear em


contraposição a linearidade ocidental. Oliveira (2003) ao tratar da cosmovisão
africana, observa que existe o movimento cíclico das danças no Candomblé que
ocorrem em formato de roda, que retratam a perspectiva de um movimento e sentido
da vida que está expresso nas ondas do mar.
Martins (2011) entrelaçando gênero e religiosidade, aponta em seu trabalho
que o papel da mulher, num contexto de liderança, é tido como um elemento
característico desta religião de matriz africana. O culto é profundamente ligada ao
culto à natureza e à ancestralidade. As mulheres nesses terreiros (igreja), se
desdobram em muitas funções, ora provendo sustento e comandando rituais, ora
preparando refeições, zelando pelos “iniciados no santo” e acolhendo os que
procuram ajuda espiritual.
Os laços familiares criados no candomblé através da iniciação no
santo não são apenas uma série de compromissos aceitos dentro de
uma regra mais ou menos estrita, como nas ordens monásticas e
fraternidades laicas, iniciáticas ou não; são laços muito mais amplos
no plano das obrigações recíprocas e muito mais densos no âmbito
psicológico das emoções e do sentimento. São laços efetivamente
familiares: de obediência e disciplina; de proteção e 32 assistência;
de gratificação e sanções; de tensões e atritos. Tudo isso existe
numa família e tudo isso existe no candomblé (LIMA, 2003, p.161).

2.1. O Xire das Yabas (mães): entre elemento do sagrado feminino no


Candomblé nas representações das mulheres

Um dos aspectos da diferença ritualística do Candomblé Ketu para a religião


originária tradicional yorùbá, está no ritual Xire, que é a parte pública das ritualísticas
empreendida de louvação aos Orixás. É formada uma reunião dos devotos, através
de grande roda em que começa a entoação de cânticos em louvação as divindades
africanas masculinas e femininas. A formação desse ritual, dá-se uma dança circular
que se dá após atividades internas de alguns dias começa a festa de invocação e
louvação das divindades africanas. O rito circular se encerra cânticos específico a
Xangô, momento em que ocorre o transe dos iniciados em Orixá. É o redemoinho
que
leva o encontro, a energia que une dois mundos (Órun e Aiyé – céu e terra),
ocorrendo a manifestação dos Orixás.
Essa festa, ocorre depois das atividades religiosas internas para
determinado Orixá, (essas atividades podem envolverem iniciações, obrigações
religiosas alusiva a tempo de santo e/ou homenagens anuais para determinadas
divindades). Assim, o Xirê é a festa pública, que caracteriza relativamente o término
da atividade religiosa que está sendo desenvolvida. É a festa, a comunhão, com
bem dimensiona o significada da palavra em yorùbá “Sire”, que significa brincar,
aludindo no Candomblé festa.
Zenicola (2014) em estudo confere que o xirê,
representa toda a estrutura simbólica da religião, momento em que
se nota a construção do pensamento religioso, a identidade do
grupo, as formas e organização hierárquica da estrutura social do
grupo e sua manutenção através da tradição ritualizada. Ou seja,
toda a representação de grupo está no xire (p. 67).

O círculo, na cultura afro-brasileira tem essa conotação de elo,


comunicação, o de incorporar o outro numa mesma roda. Seguira aqui, alguns
cânticos em yorùbá dirigidos a algumas Orixás femininas, evidenciando as
louvações nos cânticos que exaltam as suas qualidades, simbologias, seus feitos
e/ou o campo de poder dessas divindades, revelando a importância do sagrado
feminino no Candomblé de Nação Ketu.
O importante aqui a ser observado é como a maioria divindades femininas
sob os signos da maternidade e ligação com a agua, pois os seus nomes estão
relacionados a alguns rios africanos, tidos como rios sagrados. Nas cantigas rezas e
outras louvações, são marcados de referências as suas forças e campo de poderes.
Da mesma forma os mitos, fazem citações aos seus arquétipos, personalidade e
feminilidade, os seu poderes que possuem controle sobre campos e/ou fenômenos
da natureza dos estão suas forças energéticas, como também suas regências a
respeito de inferências na vida humana.
Não deve ser coincidência estes mitos terem resistido à travessia
transatlântica nas condições sub-humanas com que vieram,
resistindo ao regime de aniquilamento e terror racial, às investidas
do eurocentrismo cristão, à violência patriarcal, sendo preservados
(e, é claro, transformados, pois se trata de culturas vivas) na tradição
afrobrasileira do século XXI (2017, p. 78).
As cantigas parcialmente registradas aqui estão relacionadas ao uso
das mesmas no ritual de Xire do Candomblé. Os cânticos estão na língua
yorùbá, segundo a grafia e intepretação utilizada no contexto religioso afro-
brasileiro de tradição ketu.

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