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ANÁLISE CRÍTICA DO MORAR CONTEMPORÂNEO

Quinta Monroy e Casa 7x37

1) Dados gerais dos projetos

Quinta Monroy (2003)


Iquique, Chile
Terreno de 5.000 m²
Área construída de 3.000 m²
Arquiteto Alejandro Aravena, Elemental

Casa 7x37 (2013)


São Paulo, Brasil
Terreno de 259 m²
Área construída de 185 m²
Arquitetas Clara Reynaldo e Cecília Reichstul, CR2 Arquitetura

2) Contexto histórico e geográfico

QUINTA MONROY
O projeto Quinta Monroy, desenvolvido pelo escritório de arquitetura chileno Elemental, é um
projeto de habitação social destinado a uma comunidade que ocupava ilegalmente um local de
mesmo nome. A sua construção foi finalizada em 2004, com um total de 100 unidades
residenciais de habitação coletiva.
A ocupação do local se deu em meados de 1960, no que era uma região ainda periférica e rural
da cidade de Iquique, no Chile, onde cerca de 100 famílias se instalaram em um loteamento
denominado Quinta Monroy. Por volta de 1990, devido à valorização imobiliária da região, os
proprietários do terreno iniciaram uma disputa judicial com os moradores, requerendo a
propriedade de volta. A administração do município tinha inicialmente a intenção de remover os
moradores, realocando-os para uma nova área. Apenas em 2001, através da implementação
de um programa governamental que estabeleceu um subsidio para a construção de moradias
para populações abaixo da linha de pobreza, se estabeleceu que as novas construções seriam
feitas no mesmo local do antigo assentamento.
A ideia de manter os moradores na área que já ocupavam se deu principalmente pela sua
ótima localização, com facilidade de acesso a equipamentos urbanos e empregos, elementos
estes fundamentais para a garantia de segurança familiar e permanência da população no
local.
O escritório de arquitetura Elemental, entretanto, deveria utilizar o subsídio não apenas para a
construção das moradias, como também para a aquisição do terreno. Desta forma, era
necessário definir o melhor edifício para abrigar as 100 famílias, dentro do orçamento
disponível e incluindo os gastos da habitação e do terreno.
A solução encontrada foi construir inicialmente apenas metade das habitações, garantindo a
qualidade e as condições mínimas de habitabilidade necessárias e, ao mesmo tempo,
oferecendo uma solução arquitetônica que permitisse a ampliação futura das unidades por
parte dos moradores.

CASA 7X37
A construção da Casa 7x37 surgiu da vontade de um casal paulistano de construir um refúgio
de lazer dentro da própria cidade de São Paulo. A casa seria seu abrigo nos finais de semana,
dispensando a família de horas de viagem e de trânsito, além de eventualmente servir como
hospedagem para seus clientes. Esta casa também deveria se adequar a uma moradia
permanente, caso no futuro os proprietários decidissem vendê-la.
O terreno de construção, localizado a pouco mais de 1km da atual residência dos proprietários,
abrigava uma antiga escola de natação, que ocupava 100% do lote. Como estava localizado
em um bairro tombado pela vegetação, optou-se pela demolição total da construção antiga, a
fim de garantir uma vista privilegiada das copas das árvores.
3) Inserção local do projeto

QUINTA MONROY
O terreno de implantação das residências se encontra em uma área bem servida de
equipamentos urbanos. Ele está inserido em uma quadra e faz divisa em duas laterais com a
malha urbana já edificada. Nas outras duas laterais situam-se vias, sendo uma delas um dos
principais eixos de circulação da cidade, o que oferece grande acessibilidade a área.
Segundo o autor, o projeto foi concebido de forma a não fechar os limites do terreno, criando
pátios abertos para as ruas e permitindo o acesso de pedestres, porém, com nichos em forma
de U, que facilitam o controle de entrada e a visualização do ambiente. Está característica faz
com o conjunto se integre com o entorno imediato, que acaba se incorporando as edificações.
Por se tratar de um terreno plano, não foram necessárias grandes intervenções topográficas,
favorecendo a economia e facilitando o acesso.

CASA 7X37
A dimensões do terreno, 7x37 m, inspiraram o nome do projeto. Ele está inserido em uma
quadra e faz divisa em três de suas faces com lotes de edificações vizinhas. A face frontal está
voltada para uma rua local, situada a uma distância aproximada de 200 m de um dos eixos de
circulação de São Paulo. A interface do lote com a rua é feita por um portão ripado,
parcialmente vazado, o que confere certa permeabilidade entre o lote e a cidade. A própria
disposição de uma das sacadas, junto a fachada, confere vista privilegiada da rua a partir de
uma das suítes.
O acesso ao lote se dá pela frente, onde é previsto recuo para o estacionamento de veículos. O
acesso, entretanto, se dá por um corredor lateral, que também propicia acesso aos fundos e ao
conjunto de jardim e piscina. Todas as áreas sociais da residência estão voltadas para o centro
do lote (jardim e piscina), espaço onde ocorrem as principais ações da casa. Isto é, por mais
que o projeto permita uma certa permeabilidade visual com a rua, todo o projeto é voltado para
o interior do lote, criando uma experiência de isolamento por meio do distanciamento físico da
rua.

4) Questões técnicas do projeto

QUINTA MONROY
Como o valor orçamentário disponível permitia, além da aquisição do terreno, apenas a
construção de metade das residências (cerca de 30 m²), a solução técnica deveria prever
condições que permitissem a auto expansão das moradias, até sua área total, a partir da
iniciativa dos moradores.
A solução encontrada foi misturar uma casa individualizada, que pode ser ampliada de forma
horizontal, com o edifício coletivo, que permite a expansão vertical: o resultado foi um projeto
com unidades de 5 moradias em forma de tríplex, 2 no térreo e outras 3 no segundo e terceiro
andares. Esta solução formal atende uma densidade demográfica mínima, o que rentabilizou o
terreno e permitiu as expansões sem que houvesse superlotação.
O projeto previa a construção dos espaços mais difíceis de serem executados pelos
moradores, como o banheiro, a cozinha, a escadas e as salas/dormitórios. Era necessário que
as moradias pudessem funcionar, mesmo que minimamente, antes das expansões. As paredes
externas foram construídas de blocos de concreto, com lajes em concreto armado. As laterais
da edificação, onde são previstas expansões, são feitas de madeira, que pode ser facilmente
removida. Considerando o programa a ser atendido, o projeto conseguiu criar áreas de
permeabilidade, permitindo boa ventilação e insolação dos edifícios, através dos pátios internos
em forma de U que abrigam grupos de cerca de 20 casa cada.

CASA 7X37
Como as dimensões do lote de implantação da residência são limitadas, a solução foi pautada
na racionalidade do canteiro de obras, o que conduziu a adoção de estruturas metálicas como
sistema construtivo. Tanto as vigas como os pilares chegavam prontos para serem montados
em poucos dias. As lajes e as vedações internas, com soluções de painel wall e dry wall
respectivamente, permitiram a construção rápida e com pouca geração de resíduos. Nas
fachadas foram empregados painéis de vidro, que permitem a integração e a continuidade dos
espaços externos e internos e facilitam a iluminação natural e a ventilação da edificação.

5) Questões estéticas do projeto

QUINTA MONROY
As unidades habitacionais são pautadas na flexibilidade, tendo em vista que devem permitir
sua expansão por parte dos moradores. Esta flexibilidade e capacidade de expansão permite
que sejam atendidas as necessidades individuais e, ao mesmo tempo, que a moradia expresse
a identidade das famílias.
A parte construída inicialmente é predominantemente neutra, com linhas retas e fachadas
retangulares. Já nos vazios, onde se prevê as ampliações das unidades, os moradores podem
adaptar a fachada ao seu gosto. Assim, garante-se a heterogeneidade do conjunto, o que
afasta sua massificação, ao mesmo tempo que permite uma apropriação do espaço através do
estabelecimento de uma identidade local genuína, feita pelos próprios residentes.

CASA 7X37
A Casa 7x37 aparenta ter uma área muito maior do que seus 185 m², como resultado da
integração dos ambientes, o emprego de grandes vãos e da continuidade visual de seus
espaços internos com o jardim e a piscina através da ampla utilização do vidro como elemento
de vedação. Em um dos muros do jardim, ao longo da piscina, há um painel elaborado com
elementos circulares dispostos de maneira aleatória, concebido como uma homenagem a toda
a arquitetura modernista brasileiro. Os revestimentos escolhidos são de fácil limpeza e o
mobiliário é bastante versátil, o que torna os ambientes flexíveis.

6) Questões funcionais do projeto

QUINTA MONROY
Cada lote possui dimensão de 9x9m, e comporta 5 unidades habitacionais (2 térreas e 3
duplex). As unidades térreas possuem dimensão inicial de 6x6m (36 m²) e área lateral de
expansão com 3x6m (18 m²), totalizando ao final 54 m². As unidades duplex, posicionadas
sobre as unidades térreas, possuem dois andares com dimensão inicial de 3x6 m² cada (36
m²), além de área lateral de expansão também de dois níveis com dimensão de 3x6 m² cada
(36 m²), totalizando ao final 72 m². O pé direito de cada andar é de 2,50 m.
As residências da Quinta Monroy foram pensadas para serem ampliadas, portando possuem
plantas livres, contendo apenas sua área de implantação e as áreas molhadas delimitadas.
Como padrão, todas as unidades possuem um banheiro com área de 2,70 m². As demais
áreas, como quartos e salas podem ser ajustadas conforme as necessidades das famílias
residentes. As unidades duplex, por exemplo, podem comportar até 3 dormitórios individuais e
banheiro no 2º pavimento, além de sala de estar, sala de jantar conjugada com a cozinha e
varanda no 1º pavimento, o que corresponde a uma residência típica de classe média.

CASA 7X37
A casa 7x37 é constituída de duas edificações, sendo a principal de 2 pavimentos e a
secundária térrea. A edificação principal possui comprimento de 15 m e largura de 6,3 m. O
pavimento térreo comporta a área de serviços, com dependência de empregada, banheiro,
lavabo e cozinha, além dos espaços sociais, como sala de jantar e estar e cozinha extra, que
são bastante flexíveis. O andar superior abriga duas suítes, cada uma com sua varanda. A
edificação do fundo, com 5,1x5,2m, é composta de apenas um espaço de estar, e é interligada
pelo jardim, através de um deck, até a edificação principal. O jardim pode ser considerado o
principal elemento de articulação da casa. Para ele estão voltados todos os espaços de lazer e
uma das suítes do projeto.
7) Análise crítica

Em ambos os casos apresentados é possível perceber a influência da condição social, cultural


e econômica do público alvo no estabelecimento das principais diretrizes projetuais. É obvio
que, principalmente do ponto de vista econômico e social, as realidades locais e condicionantes
são bastante distintas. No projeto Quinta Monroy, viabilizar a permanência das famílias no
terreno que já era ocupado por elas traria inúmeros benefícios a comunidade (segurança
familiar e acesso a serviços e equipamentos urbanos) o que é altamente desejável para
estabilização de comunidades frágeis. Contudo, em presença de um orçamento limitado, toda
solução foi pautada em se construir “metade das residências”, com o mínimo necessário para
que pudessem ser habitadas, e que fornecessem condições para que pudessem ser ampliadas
até sua dimensão final posteriormente, além de garantir flexibilidade, de modo que pudesse
acomodar famílias com diferentes exigências.
No projeto da Casa 7x37, a flexibilidade dos espaços também surgiu como necessidade básica:
servir como refúgio de lazer para uma família, hospedar eventuais clientes ou familiares ou
servir como residência permanente, caso a propriedade fosse vendida. O maior orçamento
deste projeto permitiu o emprego de sistemas construtivos e materiais mais caros, maior
padrão de acabamento e a entrega de uma edificação completa, atendendo a todas as
solicitações dos proprietários de imediato.

Abordagens diferentes foram adotadas em cada projeto em função do orçamento disponível, o


que conduziu ao emprego de diferentes materiais, sistemas estruturais, sistemas construtivos e
acabamentos, bem como na definição do tamanho dos cômodos. Porém, dadas as diferenças
de proporção e orçamento, os dois atendem ao programa de necessidades proposto e as
necessidades do público ao qual foram destinados.

No quesito entorno e fluidez urbana, há diferenças consideráveis entre ambos. O projeto Quinta
Monroy foi concebido de modo a não fechar os limites do terreno, criando pátios com acesso
público que incentivam o desenvolvimento de atividades coletivas e estabeleçam, desta forma,
a integração do conjunto com as vias adjacentes. O projeto da Casa 7x37 não nega totalmente
o entorno imediato, à medida que a escolha de materiais e formas do portão permitem certa
permeabilidade visual. Porém, todo o projeto e a disposição de espaços são voltados para o
espaço interior do lote, onde se situam o jardim e a piscina, centro das ações na casa. Da
mesma maneira, o estilo arquitetônico da fachada destoa das adjacentes, não havendo
nenhuma uniformidade e até mesmo destoando do entorno imediato.

Em se tratando dimensões dos espaços internos, o projeto Quinta Monroy precisa ser avaliado
em duas etapas. A situação inicial (meia habitação) deve ser entendida como provisória, com
ambientes escassos para comportar uma família com mais de duas pessoas. Neste caso há
necessidade de que ambientes assumam dupla função, como sala de estar servir como quarto.
Uma vez finalizado, a quantidade de ambientes das unidades duplex, por exemplo, é bastante
generosa, podendo ser comparada a uma habitação de classe média, com 72 m² e até 3
quartos. Os espaços exclusivos de circulação são escassos, estando diluídos dentro dos
próprios ambientes, cujas áreas são satisfatórias, e possuem fluxos internos bastante racionais,
simples e diretos.
Na casa 7x37, as áreas internas dos espaços social e íntimo são mais generosas, enquanto o
setor de serviços é mais compacto e bastante compartimentado. Porém, o dimensionamento
atende as necessidades do público alvo. Os setores são bem delimitados, com fluxos racionais
e diretos. O espaço interno quase não apresenta regiões exclusivas de circulação, estando
estas diluídas nos ambientes, o que não atrapalha nos fluxos.

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