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ORIGINAL PSICODIAGNÓSTICO: MODALIDADE

INTERVENTIVA NA PRÁTICA CLÍNICA

PSYCHO-DIAGNOSIS: INTERVENTIVE
MODALITY IN CLINICAL PRACTICE

Leonardo de Carvalho Rodrigues Puccinelli1


Irma Helena Ferreira Benate Bonfim2
1
Psicólogo pela Universidade de Fran-
ca. RESUMO: neste artigo, um caso clínico constituiu um campo vivencial para levantar
Docente do curso de Psicologia da
conjecturas sobre o caráter interventivo do processo psicodiagnóstico e até que ponto envolve
2

Universidade de Franca, Psicoterapeuta


e Supervisora de estágio em Psicologia uma modalidade de investigação. O presente trabalho tem como objetivo discutir os aspectos
Clínica/Psicodiagnóstico no serviço de
Psicologia Clínica oferecido na Clínica- psicológicos obtidos qualitativamente por atendimentos aos pais e a uma criança, utilizando-
Escola do curso de Psicologia da Uni- se instrumentos como entrevista semidirigida, anamnese, sessão lúdica e aplicação de testes
versidade de Franca. Especialista em
Psicanálise de Criança pelo Instituto projetivos, tendo como finalidade buscar subsídio teórico-prático para a verificação dos
Sedes Sapientiae e mestranda em Pro-
moção de Saúde.
benefícios e prejuízos proporcionados pelo processo psicodiagnóstico. Certamente, as
conclusões apresentadas referem-se aos sujeitos envolvidos no caso estudado. Este artigo
menciona, também, como o psicodiagnóstico contribui para a formação da atitude clínica
do estagiário de Psicologia.
Palavras-chave: psicodiagnóstico, processo interventivo, ludoterapia, atitude clínica.

ABSTRACT: in this study, a clinical case constituted a source of questions in order to make
conjectures about the interventive character of the psycho-diagnosis process and to what
extent it involves an investigation modality. The study aimed at discussing psychological
aspects which were qualitatively obtained through the attendance given to a child’s parents
using instruments such as: semi-directed interview, questionnaire, child therapy and
application of projective tests with the purpose of searching a practical and theoretical base
to observe the benefits and damages caused by the psycho-diagnostic process. Certainly, the
conclusions presented refer to the subjects involved in the studied case. This article also
mentions how the psycho-diagnostic process contributes to the formation of the clinical
attitude of a Psychology trainee.
Key words: psycho-diagnosis, interventive process, child therapy, clinical attitude.

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INTRODUÇÃO como queixa manifesta, mesmo sendo um pro-
cesso com um tempo pré-determinado.
O processo de psicodiagnóstico vem sendo
amplamente discutido pela psicologia quanto a sua Dessa forma, evidenciando-se o estudo dos
função e adequação à realidade. Neste sentido, pelo ‘benefícios e das perdas’2 neste processo, será pos-
presente estudo de caso, objetiva-se efetuar uma sível contribuir para a verificação no processo de
reflexão condizente à prática clínica atual. psicodiagnóstico, do que é proporcionado e
construído na relação analista/paciente.
De acordo com Ancona-Lopez (1995, p. 28-29),
“toda atuação psicológica é uma ação de intervenção Nota-se, por outro lado, que este processo
cujo significado será dado pelo campo relacional proporciona ao estagiário de psicologia possibili-
que se estabelece entre as partes e que é exclusivo dades de configuração de sua atitude clínica, na
e peculiar àquele momento e àquela relação”. medida em que é a primeira oportunidade que
Por um lado, tem-se a ação terapêutica do possui de atender a um paciente.
psicodiagnóstico no campo analítico, por outro,
torna-se importante para aquele que conduz a prá- MATERIAL E MÉTODOS
tica clínica considerar todo o universo em que a
Este trabalho derivou-se de um projeto de es-
criança está inserida, ou seja, conhecer as variáveis
tágio, que se constitui em uma avaliação
do contexto a ela relacionada, no qual se desta-
psicodiagnóstica de um paciente (criança). A partir
cam aspectos familiares, sociais e econômicos.
dessa oportunidade, verificou-se a necessidade de
Considerando o que foi sugerido, pressupõe entender quais os benefícios que o paciente obte-
que os lugares que a criança freqüenta influenci- ve com esse processo psico-avaliativo, pois ao final
am na formação de seu psiquismo. A partir disto, do mesmo o paciente já relatava melhora na quei-
resulta a importância em ter conhecimento do con- xa trazida.
texto social da criança possibilitando na prática clí-
Para tanto, fez-se um estudo de caso, empre-
nica um melhor estabelecimento do ‘campo
gando-se como método de compreensão uma aná-
bipessoal1’ para compreender o sintoma.
lise qualitativa.
Além deste aspecto referido acima, Dolto
Como fonte de estudo, selecionou-se uma cri-
(apud CAMERINI, 1998, p. 71) procura mostrar
ança do sexo masculino, com 9 anos de idade e
que “não são apenas os fatos reais vividos pela crian-
seus pais, os quais procuraram o serviço de Psico-
ça que terão importância significativa em seu
logia da Universidade de Franca, que obteve o
psiquismo, mas também o conjunto das percepções
consentimento livre esclarecido.
que ela tem deles e o valor simbólico registrado”.
Após a explicação dos objetivos e duração da
O pensamento da autora supracitada assinala
avaliação e do estudo de caso, foi assegurado aos
a importância da escuta das percepções e fantasias
pais e ao paciente o direito de participação e não-
do paciente, as quais são vivências intrapsíquicas
participação, sem implicações para a continuidade
que podem ser acessadas e exploradas pelo paciente.
do tratamento na clínica de psicologia, sendo man-
Esta dinâmica ocorrerá gradualmente na medida em
tido sigilo e respeito à integridade dos participan-
que o analista proporcionar um espaço vivencial e
tes. Ressalte-se, portanto, que os participantes es-
interventivo para a manifestação das mesmas.
tavam cientes dos objetivos deste estudo e em que
Sabe-se que este aspecto interventivo aconte- condições ele seria realizado.
ce na relação paciente/analista, inclusive no pro-
Para a realização do estudo de caso, utiliza-
cesso psicodiagnóstico, no qual o paciente encon-
ram-se os seguintes instrumentos: roteiro de
tra uma possibilidade de acolhimento e abertura
anamnese com os pais, caixa lúdica contendo brin-
para uma mudança na problemática apresentada
quedos, jogos e materiais didáticos (sulfite, lápis
1
Lisondo et al. (1996), coloca como útil o conceito de campo bipessoal de M. e W. Baranger
(1993). A situação analítica como um campo bipessoal pode ser entendido como uma 2
Entende-se como aspectos positivos e negativos proporcionados pelo psicodiagnóstico,
estrutura dinâmica resultante da interação consciente e inconsciente de analista/anali- ou seja, uma avaliação psicológica de caráter interventivo que promove ao paciente um
sando. espaço terapêutico, o qual deverá ser finalizado dentro de um breve período.

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preto e de cor, massa de modelar e guache) e testes nas inúmeras teorias que procuram conhecer e
projetivos (HTP e CAT) com a criança. compreender o homem”.
A aproximação do psicodiagnóstico à técnica
DISCUSSÃO psicanalítica possibilitou ao psicólogo maior auto-
nomia de idéias e práticas e, concomitantemente,
a) Psicodiagnóstico: delineando estórias de vidas
fortaleceu sua identidade profissional na medida
A prática de avaliação psicológica constitui-se em que estuda o intra-subjetivo.
numa das atividades mais antigas do psicólogo, Afirma-se que na práxis clínica, o processo de
contribuindo de maneira significativa para a for- psicodiagnóstico ainda é hoje trabalhado nos mol-
mação de sua identidade profissional. Durante um
des clássicos, respeitando-se uma avaliação siste-
longo período, o psicólogo delineou seu trabalho
matizada. No entanto, caminha para uma ampli-
utilizando o modelo médico, cujos termos foram
tude maior, na medida em que busca uma com-
consagrados pelo exercício da psicologia clínica.
preensão da psicodinâmica do cliente.
Atualmente, este modelo não mais exerce influên-
cia na prática da avaliação psicológica. E, justa- Deste modo, a flexibilidade deve estar presente
mente por não mais haver influência do modelo na atuação psicológica e na construção do campo
médico sobre a prática da psicoterapêutica, a psi- bipessoal. Bleger (1998, p. 16) ressalta que “toda
cologia clínica vem sendo alvo de críticas infundadas, conduta se dá sempre num contexto de vínculos e
sejam elas de natureza científica ou ideológica. relações humanas [...]”.
Ao delinear as concepções de diagnóstico de Sabe-se que a pureza ou imparcialidade na
personalidade, sente-se necessidade de se tecerem observação científica de fenômenos é algo muito
alguns comentários sobre o pensamento clínico. estreito, ainda mais que, as manifestações do ob-
jeto que estudamos dependem da relação que se
A respeito desta temática, é interessante repor-
estabelece com o psicoterapeuta.
tar-se aos processos de pensamento descritos por
Dewey (1933, p. 93 apud TRINCA, 1983, p. 96) b) Psicodiagnóstico como etapa anterior ao aten-
quando argumenta: dimento infantil
A realização do psicodiagnóstico como etapa anterior
Que todo pensamento reflexivo é subordinado a cin- à psicoterapia infantil apóia-se em duas justificativas:
co partes, logicamente diferenciadas entre si: a) exis- a primeira diz que o psicólogo deve obter a compre-
tência de uma dificuldade; b) sua localização e defini- ensão mais profunda e completa possível da persona-
ção; c) ocorrência de uma hipótese, ou sugestão de lidade do paciente para fornecer indicações terapêuti-
uma solução possível; d) desenvolvimento do raciocí- cas adequadas e a segunda argumenta que o
nio tendo em vista a sugestão ou hipótese; e) observa- psicodiagnóstico deve ser utilizado como instrumen-
ções, verificações e experiências posteriores, to para planejar, guiar e avaliar a intervenção terapêu-
conducentes a sua aceitação ou ao seu afastamento. tica (MONACHESI, 1995, p. 196).

O modelo de psicodiagnóstico utilizado, além Importante lembrar também que, anterior ao


de refletir-se num vértice de orientação psicanalíti- atendimento infantil, fazem-se atendimentos aos
ca, é semelhante às elucidações anteriores, sendo pais da criança, entrando-se em um campo de re-
constituído por uma coleta de dados sobre a qual lações imprevisíveis.
será organizado um pensamento clínico acerca da Fala-se do campo psicanalítico, entendido
queixa apresentada, para estabelecer se o paciente como resultante da interação consciente e incons-
se enquadra nas propostas de atendimento para, ciente da relação analítica, na qual estão presentes
posteriormente, ser encaminhado a um serviço de a transferência3 e a contratransferência4.
atendimento psicoterápico mais indicado. Aberastury (1982, p. 139) afirma: “o psicana-
Ancona-Lopez (1995, p. 28) esclarece que “o 3
Roudinesco e Plon (1998) atestam como um termo introduzido por Freud para designar
psicodiagnóstico é uma atividade que veio se de- um processo constitutivo do tratamento psicanalítico mediante o qual os desejos incons-
cientes do analisando concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da
senvolvendo paralelamente à própria Psicologia e relação analítica, na pessoa do analista.
à profissão de psicólogo, recolhendo suas práticas Laplanche e Pontalis (1998) citam como termo psicanalítico que designa o conjunto das
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reações inconscientes do analista à pessoa do analisando, mais particularmente, à trans-


ferência dele. Reações estas, que emergem da inter-relação existente com o paciente.

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lista de crianças enfrenta-se com duplo problema Desta forma, é muito freqüente na análise de
de transferência: do paciente e dos pais. Entramos crianças o surgimento de angústias que são desper-
com este tema num ponto fundamental da técnica tadas no psicoterapeuta, devido ao fato da necessi-
de crianças: o relacionamento com os pais e sua dade de lidar com seu mundo interno, bem como
inclusão no tratamento da criança”. também reviver o encontro da criança no adulto.
Quando se trabalha com crianças, o campo Freqüentemente, isso acontece pelo analista encon-
bipessoal não constitui mais uma dupla, mas uma trar dificuldade no conteúdo da comunicação com
tríade: psicoterapeuta-paciente-pais, sendo estes a criança.
últimos elementos importantes para contribuírem Bastos (1988, p. 566) afirma que “[...] a eficá-
no trabalho dos impasses emocionais da criança e, cia da comunicação verbal com a criança em aná-
muitas vezes, deles próprios. lise está estreitamente ligada à compreensão do sig-
Durante o decorrer do presente estudo de caso, nificado que a palavra tem para ela [...]”.
percebeu-se uma identificação 5 na relação Para alcançar tal eficácia, o psicoterapeuta deve
psicoterapeuta e pais, na qual pôde-se vivenciar utilizar estratégias na relação com a criança, como
um resgate de experiências emocionais passadas, a capacidade de simbolização das palavras.
tanto pelos pais quanto pelo analista. c) Ludoterapia em psicodiagnóstico: perdas e
O aparecimento da contratransferência como ganhos
turbulência emocional que se expressa na Ao longo do período de avaliação com a cri-
concretude da atuação prejudica o interjogo men- ança estudada, a relação psicoterapeuta/paciente
tal, principalmente quando “o pensamento verbal decorreu bem diferente das considerações
é submetido a contínuos ataques, além do excessi- supracitadas. A criança mostrou-se cada vez mais
vo uso de identificações projetivas que impedem motivada na criação de seu próprio espaço, com
de sintetizar e articular as impressões sensoriais” maior confiança naquele que lhe proporcionava
(BION, 1972, p. 62 apud TRINCA, 1983, p. 170). tal espaço (psicoterapeuta). Isto justifica sua inicia-
Ainda neste sentido, na relação estabelecida tiva em brincar e construir, demonstrando necessi-
com os pais houve a presença de ataques destrutivos dade em estar no setting analítico, o que mais tar-
inconscientes como tentativa de impossibilitar o de refletiu-se numa concordância com as impres-
pensar do psicoterapeuta e sua atitude como agen- sões trabalhadas na entrevista devolutiva, como a
te propiciador de insights. dor da separação, uma problemática decorrente do
Na relação transferencial com o analista, os encerramento do processo terapêutico com o
pais podem vivenciar a situação emocional com psicoterapeuta. Então, temos uma faceta
rivalidade, devido ao fato de quando em análise interventiva do psicodiagnóstico, apresentando um
os pais retomam a posição de filhos, revivendo as indicador visível de ‘ganho terapêutico6’ para o pa-
relações primitivas da própria infância. ciente, que se encontra em um processo com pro-
Então, dá-se grande importância em compre- pósitos de avaliação.
ender e valorizar tais acontecimentos como instru- Já com os pais, registraram-se fatos inespera-
mento para a aproximação do vínculo estabeleci- dos, ocorrendo uma relação turbulenta nos primei-
do entre paciente e psicoterapeuta. ros contatos para a realização da anamnese. Du-
Complementando a questão, Ferro (1995, p. rante o processo terapêutico do paciente, os pais
16) afirma: “na sessão estão em jogo emoções, ou experimentaram momentos de reflexão e depres-
melhor, estados de espírito muito primitivos que são7, pela oportunidade de estarem pensando so-
não tiveram ainda acesso à possibilidade de serem 6
Enquanto possibilidade de mudança e momentos de ressignificação das condutas
pensados [...]”. estabelecidas no repertório cotidiano do cliente.
7
O termo não se refere ao quadro clínico de depressão. O vocábulo empregado, conforme
5
Roudinesco e Plon (1998) discutem como um termo empregado em psicanálise para Segal (1975), indica uma maior integração psíquica, referente à posição depressiva de M.
designar o processo central pelo qual o sujeito se constitui e se transforma, assimilando ou Klein, na qual predominam os mecanismos de integração do ego e do objeto. Está presen-
se apropriando, em momentos-chave de sua evolução, dos aspectos, atributos ou traços te, também, o sentimento de culpa e a capacidade de reparação, ou seja, restaurar os
dos seres humanos que o cercam. objetos amados, internos e externos.

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bre a nova relação com a criança. Por intermédio d) Atitude clínica: relato de uma experiência
destes momentos, foi possível realizar uma pessoal
mensuração obtida dos relatos dos pais durante as O processo psicodiagnóstico propicia ao esta-
entrevistas com os mesmos. Estes se apresentaram giário envolvido um aprendizado que influencia
na entrevista final com um amplo repertório de sobre sua formação profissional na área clínica. O
melhora na relação com a criança, e também uma estagiário vivencia um período de conquista pelo
melhora da interação criança/escola. O paciente papel de psicólogo, aprendendo a discernir sobre
mostrou-se mais voltado para sua individualida- as possibilidades e limites que envolvem este pa-
de, ou seja, no exercício de suas capacidades inte- pel. E, desta forma, exerce a abertura de caminhos
lectuais e emocionais com mais autonomia. Além para a formação de sua identidade profissional
disso, os pais também relataram um maior respei- enquanto psicólogo.
to à privacidade da criança. Neste sentido, visualiza- Ainda no processo de psicodiagnóstico, o es-
se outro ganho terapêutico para o paciente. tagiário tem que lidar com momentos de conquis-
No entanto, temos uma outra faceta do pro- tas e conflitos, bastante freqüentes ao iniciar a con-
cesso: as perdas como uma atitude de fechamento duta clínica em psicologia. Após experimentar um
e interrupção do processo psicodiagnóstico; o pa- breve período de prática clínica, o estagiário finali-
ciente e aqueles que estão envolvidos mal conse- za o psicodiagnóstico por determinações do pro-
guem elaborar a separação do recente vínculo es- cesso. Neste sentido, o estagiário recém-iniciado
tabelecido com o psicoterapeuta. se depara com a frustração seguida do término de
Compreendendo o processo psicodiagnóstico seu atendimento, tendo que elaborar certas angús-
com objetivos específicos, tem-se clara a necessi- tias emergentes da prática clínica interrompida.
dade de uma avaliação quanti-qualitativa, referin- Dentro de um enfoque psicanalítico, sabe-se
do-se aos instrumentos metodológicos de avalia- que o principal instrumento de estudo e trabalho
ção utilizados como anamnese e testes projetivos, do analista é sua própria mente. Seguindo por esta
os quais mostraram indicadores importantes da via, as experiências do mundo interno do
personalidade do paciente, seus conflitos atuais, sua psicoterapeuta constituem os elementos que irão
socialização e o desenvolvimento do dinamismo influenciar na formação da atitude clínica do mes-
psicológico. mo.
Em nenhum momento, este trabalho teve Tsu (1983 apud AGUIRRE et al., 2000, p. 53)
como finalidade discutir a validade destes méto- define três fatores básicos necessários para a for-
dos. Pelo contrário, reforçou-se a sua prática sem mação da atitude clínica do estagiário de psicolo-
desprezar o contexto interventivo que o mesmo gia: “sua própria psicoterapia, seu conhecimento
proporciona, valorizando a demanda emocional teórico e sua prática clínica supervisionada”.
em questão. Ao pensar nestes três fatores básicos, volta-se
Desta forma, é o caso de se questionar se este para a atitude clínica do estagiário, proporcionada
será um processo de avaliação sistemática que tenha pela inter-relação destes três fatores, os quais
por premissa proporcionar melhoras concretas. internalizados pelos estagiários, tornam possível a
Contudo, quanto à denominação (investiga- utilização dos recursos pessoais (conhecimento te-
ção e intervenção), pode-se assegurar que é mera- órico e análise pessoal) para a escuta e interpreta-
mente didática, sendo que, na situação clínica ção do psiquismo do paciente.
vivenciada, as atuações realizadas dentro de um Nesta linha de pensamento, considera-se “que
“método sistemático” de investigação foram de a atitude clínica é uma experiência subjetiva que é
proporções interventivas bastante significativas, ofe- objetivada na relação com o cliente” (AGUIRRE
recendo espaço para a escuta e o acolhimento, os et al., 2000, p. 54).
quais constituem bases fundamentais na constru- Como experiência pessoal de um caso clíni-
ção de um campo bipessoal. co, tornam-se reais os argumentos supracitados na

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medida em que se vivencia emocionalmente a implica uma prática clínica interventiva, mesmo
constituição de um vínculo. tendo um breve número de encontros, como é o
Esta vivência prática no processo de caso do psicodiagnóstico.
psicodiagnóstico é supervisionada em grupo; a Em suma, o presente artigo empenha-se em
aprendizagem teórico-prática torna-se muito váli- esclarecer que o processo psicodiagnóstico não
da por dois motivos básicos: o primeiro refere-se apenas possui um caráter de investigação, mas en-
ao fato de um supervisor auxiliar na compreensão volve também um caráter de intervenção, o qual
da conduta clínica enquanto estagiário, levantan- estabelece um elo de ligação entre as pessoas en-
do questões sobre as próprias capacidades e limi- volvidas neste processo.
tações frente ao paciente, o que é importante em
um momento inicial como estagiário. Isto porque, REFERÊNCIAS
este se encontra desprovido de qualquer tipo de
experiência de prática clínica profissional. O segun-
do dá-se devido às contribuições dos demais esta- ABERASTURY, A. Psicanálise da criança: teoria e
giários presentes no grupo, que contribuem com técnica. Tradução de Ana Lúcia Leite de Campos.
diferentes percepções e posturas para a configura- Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.
ção de uma atitude clínica.
Esta atitude é desenvolvida principalmente AGUIRRE, A. .et al. A formação da atitude clínica
por elementos pessoais. No entanto, alguns ins- no estagiário de psicologia. Psicologia USP, v. 11, n.
trumentos são necessários para exercer a prática 1, p. 49-62, 2000.
clínica, como a técnica e o enquadramento do tra- ANCONA-LOPEZ, S. Psicodiagnóstico: proces-
balho, quando então se reforça a necessidade do so de intervenção? In: ANCONA-LOPEZ, M.
conhecimento teórico e de uma prática clínica su- Psicodiagnóstico: processo de intervenção. São Pau-
pervisionada como outra fonte de conhecimento e lo: Cortez, 1995. p. 26-36.
a vontade de estar com o paciente.
BASTOS, T. R. Comunicação em análise de cri-
CONCLUSÃO anças. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 22, n. 4, p.
553-569, 1988.
Consignando as ilações propostas, pensar no
processo de psicodiagnóstico composto também por BLEGER, J. Temas de psicologia: entrevista e gru-
um caráter interventivo é dar acolhimento àquele pos. 2. ed. Tradução de Rita Maria M. de Moraes.
que solicita ajuda, propiciando um espaço para São Paulo: Martins Fontes, 1998.
uma mudança de atitude mental com a realidade
CAMERINI, M. F. A. A criança e o sintoma: o
interna e externa.
contexto social e sua importância na condução clí-
Ressaltando esta temática, Monachesi (1995, nica. Psicologia Clínica: pós-graduação e pesquisa,
p. 198) relembra que, com o processo PUC-RJ, v. 9, n. 9, p. 69-81, 1998.
psicodiagnóstico, “[...] a compreensão diagnóstica
do cliente foi tão ampla que ‘a pesquisa de fatos, FERRO, A. A técnica na psicanálise infantil: a cri-
em torno de uma avaliação, está fora de questão e ança e o analista da relação ao campo emocional.
é praticamente inútil quando o método analítico Tradução de Mercia Justum. São Paulo: Imago, 1995.
não é usado’[...]”.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. Vocabulário da
Complementando o que foi sugerido, o pro- psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo:
cesso psicodiagnóstico, na medida em que permi- Martins Fontes, 1998.
te a entrada para um olhar e escuta de caráter ana-
lítico, demonstra a construção de um setting LISONDO, A. B. D. et al. Psicanálise de crianças:
terapêutico, possibilitando que o outro possa um terreno minado? Revista Brasileira de Psicaná-
ressignificar seu conteúdo psíquico. Desta forma, lise, v. 30, n. 1, p. 9-26, 1996.

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MONACHESI, Y. Reflexões sobre o uso do
psicodiagnóstico em instituições. In: ANCONA-
LOPEZ, M. Psicodiagnóstico: processo de interven-
ção. São Paulo: Cortez, 1995. p. 196-204.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psi-
canálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Maga-
lhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Kelin.
Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de
Janeiro: Imago, 1975.
TRINCA, W. O pensamento clínico em diagnóstico
da personalidade. Petrópolis: Vozes, 1983.

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA:


Rua Jonas Alcântara Vilhena, nº 540, Bairro Pq.
Três Colinas - Franca - SP - cep: 14.401-031
Tel: (016) 3722 8481
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