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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T.

da Silva

1. Acidente do trabalho
De acordo com a legislação previdenciária brasileira (INSS), que regulamenta as questões
referentes a acidente do trabalho, doenças ocupacionais e a respectiva seguridade social referente aos
casos que geram incapacidade para o trabalho, através da Lei 3.048/99 (Regulamento da Previdência
Social) e Instrução Normativa 45/2010:

Art. 346. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício da atividade a serviço da empresa ou pelo
exercício do trabalho do segurado especial, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que
cause a morte ou a perda ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

Art. 347. Consideram-se acidente do trabalho:


I - doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho
peculiar a determinada atividade, conforme relação constante no Anexo II do Regulamento da
Previdência Social;
II - doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições
especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação que
trata o Anexo II do Regulamento da Previdência Social.

§ 1º Não são consideradas como doença do trabalho:


I - a doença degenerativa; (Ex. diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e da coluna vertebral,
câncer, Mal de Alzheimer, reumatismo, esclerose)
II - a inerente a grupo etário; (faixa etária ou de idade)
III - a que não produza incapacidade laborativa (Ex. hipertensão, diabetes);
IV - a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo
comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela natureza do
trabalho (Ex. acometimento de malária, por trabalhador na região amazônica).

§ 2º Em caso excepcional, constatando-se que a doença não incluída na relação prevista no Anexo II
do RPS, resultou das condições especiais em que o trabalho é executado e com ele se relaciona
diretamente, a Previdência Social deverá considerá-la acidente do trabalho.

Art. 348. Equiparam-se também ao acidente do trabalho:


I - o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única, haja contribuído
diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda da sua capacidade para o trabalho, ou
produzido lesão que exija atenção médica para a sua recuperação;
II - o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho, em conseqüência de:
a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou companheiro de trabalho;
b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa relacionada ao trabalho;
c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de companheiro de trabalho;
d) ato de pessoa privada do uso da razão; e
e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes de força maior.
III - a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no exercício de sua atividade; e
IV - o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário de trabalho:
a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da empresa;
b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar prejuízo ou proporcionar
proveito;
c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando financiada por esta dentro de seus
planos para melhor capacitação da mão-de-obra, independentemente do meio de locomoção utilizado,
inclusive veículo de propriedade do segurado; e
d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o meio
de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado.

Para a caracterização do acidente como ocupacional ou do trabalho, a empresa deve emitir a


CAT – Comunicação de Acidente do Trabalho até o dia útil seguinte à ocorrência, ou de imediato (Art.
359). Em muitos casos de doenças, a CAT não era emitida por a empresa não concordar que o
adoecimento ocorreu por motivo relacionado ao trabalho, ficando o trabalhador (por ser a parte mais

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frágil), sem a devida assistência. Com o advento do Nexo Técnico Epidemiológico, onde o CNAE
(código de atividade econômica) da empresa é cruzado com o CID de afastamento (classificação
internacional de doenças), alguns casos segundo tabela pré-estabelecida pela Previdência Social,
automaticamente passaram a ser considerados de natureza ocupacional (independente da emissão da
CAT) e, cabendo a empresa contestar caso a caso.

2. Conceito e importância da higiene ocupacional


Segundo a ACGHI (American Conference of Governmental Industrial Hygienists), Higiene
Ocupacional é a ciência e arte do reconhecimento, avaliação e controle de fatores ou tensões
ambientais originados do, ou no local de trabalho e que podem causar doenças, prejuízos para a
saúde e bem-estar, desconforto e ineficiência significativos entre os trabalhadores ou entre os
cidadãos comuns.”
A Higiene Ocupacional tem caráter fundamental na preservação da integridade física dos
trabalhadores, por atuar em caráter preventivo e complementar à medicina do trabalho, cujo foco está
predominantemente no indivíduo, por vezes já atingido pela nocividade das condições ambientais. Ao
contrário, a higiene prevê uma intervenção deliberada no ambiente de trabalho, através do
reconhecimento, avaliação e controle dos riscos.

Ambiente Exposição Trabalhador Ambiente Exposição Trabalhador


insalubre doente insalubre doente
Diagnóstico Reconhecimento
Tratamento Avaliação
Alta Cura Controle
Retorno Trabalhador Ambiente Trabalhador
saudável saudável saudável

Figura 01 – Exposição ocupacional em ambiente insalubre, cura e retorno. Figura 02 – Exposição ocupacional em ambiente insalubre. Ação na causa
Ação no efeito (trabalhador) do problema e não na causa (ambiente). do problema (intervenção no ambiente).

2.1. Antecipação
A fase de antecipação tem por finalidade identificar os riscos que poderão ocorrer no ambiente
de trabalho, ainda em sua fase de projeto de novas instalações, métodos ou processos de trabalho, ou
modificação dos já existentes, para introduzir medidas de proteção para a sua redução ou eliminação.
Trata-se de uma análise prévia e qualitativa, podendo ser empregadas técnicas modernas de análise
de riscos.
Embora não esteja contemplada na definição de higiene ocupacional da ACGIH, a antecipação
é considerada a fase preliminar de atuação do bom profissional de Segurança e Saúde Ocupacional,
por possibilitar a resolução de problemas antes que eles de fato, se tornem problemas.

2.2. Reconhecimento
O reconhecimento dos riscos inclui (quando aplicáveis): a sua identificação; a determinação e
localização das possíveis fontes geradoras; a identificação das possíveis trajetórias e dos meios de
propagação dos agentes no ambiente de trabalho; a identificação das funções e determinação do
número de trabalhadores expostos; a caracterização das atividades e do tipo de exposição; a obtenção
de dados existentes na empresa, indicativos de possível comprometimento da saúde decorrente do
trabalho; os possíveis danos relacionados aos riscos identificados disponíveis na literatura técnica; a
descrição das medidas de controle já existentes, conforme NR 9.3.3.
Trata-se de uma análise prévia e extremamente importante, considerando-se que os riscos não
reconhecidos não podem ser avaliados nem tampouco controlados. Os dados referentes ao
reconhecimento de riscos servirão de base para avaliação e a implantação de medidas de controle.

2.3. Avaliação
Nesta etapa, aprofunda-se mais a análise do ambiente, de modo a se ter uma referência das
prioridades de implantação de medidas de controle. A avaliação pode ser qualitativa (observação,
visual) ou quantitativa (mensurável). Segundo a NR 9, item 3.4, “a avaliação quantitativa deverá ser

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realizada sempre que necessária para: comprovar o controle de exposição ou a inexistência de riscos
identificados na etapa de reconhecimento; dimensionar a exposição dos trabalhadores ou ainda
subsidiar o equacionamento das medidas de controle”.
Esta etapa da Higiene Ocupacional está diretamente relacionada à NR 15 (atividades e
operações insalubres), onde são estabelecidos parâmetros de avaliação, limites de tolerância para
exposição ocupacional (na exposição a riscos que demandam análise quantitativa) e quais atividades
necessitam apenas de avaliação qualitativa (a insalubridade é caracterizada através de laudo de
inspeção, elaborado por Engenheiro de Segurança do Trabalho ou Médico do Trabalho).
É importante mencionar que a NR 15 estabelece os critérios para o recebimento do adicional
de insalubridade, porém a avaliação deve ser criteriosa (independente do direito ao respectivo
adicional), pois ela é que vai evidenciar as prioridades de controle, a fim de resguardar a saúde e a
integridade física do trabalhador.

2.4. Controle
A etapa de controle, refere-se à tomada de decisões e ações efetivas (com base nas fases de
reconhecimento e avaliação), tendo em vista manter os agentes de risco dentro de padrões
considerados “aceitáveis”. A NR 9, em seu item 3.5, determina: “deverão ser adotadas as medidas de
controle necessárias e suficientes para eliminar, minimizar ou controlar os riscos ambientais nas
situações de identificação de risco potencial à saúde (quando na implantação de projetos, novos
métodos ou processos), risco evidente à saúde (fase de reconhecimento) ou quando os resultados das
avaliações quantitativas da exposição dos trabalhadores excederem os valores limites previstos na
legislação”.
Embora no texto acima, se estabeleça a obrigação legal de intervenção em ambientes de
comprovada nocividade, todos os ambientes de trabalho devem sofrer algum tipo de intervenção na
forma de controle dos riscos, conforme a complexidade da situação de trabalho assim o exigir.

3. Risco, perigo e exposição ocupacional


Perigo: Fonte, situação ou ato com potencial para provocar danos em termos de lesões,
ferimentos ou danos para a saúde, ou uma combinação destes (OHSAS 18001).
Trata-se de uma característica intrínseca, que é indissociável do agente e/ou situação (Ex.
característica inflamável de um solvente).
Risco: Combinação da probabilidade de ocorrência e da(s) conseqüência(s) de um
determinado evento perigoso (OHSAS 18001).
Refere-se à possibilidade real ou potencial capaz de causar lesões, ferimentos e/ou morte
(riscos ocupacionais), danos ou perdas patrimoniais, interrupção de processo de produção (riscos
financeiros) ou de afetar a comunidade ou o meio ambiente (riscos ao meio ambiente). É comumente
representado pela expressão:
RISCO= PROBABILIDADE x GRAVIDADE

É importante que fique clara a diferença entre risco e perigo. Existe perigo na manipulação de
determinados produtos químicos ou biológicos (características intrínsecas da atividade), porém o risco
dessa atividade pode ser considerado baixo se forem observados todos os cuidados necessários e
utilizados os equipamentos de proteção adequados.
Exposição ocupacional: a situação e/ou condição de um trabalhador ou grupo de
trabalhadores que está exposto a determinado agente de risco, em função de suas atividades
profissionais.

4. Introdução ao gerenciamento de risco


Podemos definir o gerenciamento de riscos como o processo de seleção e implementação de
medidas para alterar a magnitude do risco (diminuindo a probabilidade de ocorrência do evento, e/ou
amenizando a gravidade das lesões).

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Exemplo:
Situação de risco Perigos potenciais Medidas de gerenciamento de risco
Armazenamento - Intoxicação - Rotulagem (escrita e visual, desenho)
de produto tóxico - Envenenamento - Armazenar longe do alcance de crianças
- Morte (Ex. no alto de um armário)
- Restringir o acesso (armário trancado)

Note-se, que no exemplo acima, embora possam ser gerenciadas as possibilidades do risco se
concretizar em um dano, não é possível eliminar totalmente as suas possibilidades (há ainda o risco de
envenenamento proposital). Isto ocorre, devido às características perigosas do produto tóxico, que são
indissociáveis, intrínsecas.
Nos ambientes ocupacionais, o princípio aplicado é o mesmo, devendo ser seguida a
hierarquia de medidas de controle, com a seguinte ordem de prioridade:

o medidas de controle, tais como substituição de materiais/processos e/ou medidas de


engenharia, que visem a eliminação das fontes de emissão de risco, ou a redução da
emissão ou dispersão de agentes nocivos no ambiente de trabalho, de forma a garantir a
proteção coletiva (ação na fonte emissão);

o medidas administrativas de caráter complementar, tais como treinamento, mudanças nos


procedimentos ou práticas de trabalho, redução do tempo de exposição, etc. e/ou medidas
que previnam a liberação ou disseminação dos agentes no ambiente de trabalho (ação no
meio de propagação ou meio de trabalho);

o equipamentos de proteção individual, adequados à situação de risco, também de caráter


complementar ou adotados quando as medidas preventivas de caráter coletivo estão em fase
de implantação ou não são tecnicamente viáveis (ação no trabalhador);

5. Riscos ambientais
Quando nos referimos aos riscos ambientais, estamos falando de situações potencialmente
capazes de causar um dano em determinado ambiente. Especificamente com relação aos ambientes
de trabalho, que são objeto de nossos estudos, temos como referência principal, a definição dada pela
NR 9, item 1.5, que conceitua: “são considerados riscos ambientais os agentes agressivos físicos,
químicos e biológicos existentes nos ambientes de trabalho que, em função de sua natureza,
concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde do
trabalhador”.
Portanto, estes agentes agressivos podem ter caráter determinante para o adoecimento no
meio ambiente laboral, em virtude das particularidades do trabalho executado e fatores, como:

o Natureza do agente: potencial do agente em causar danos (características como toxicidade,


carcinogenicidade, teratogenicidade, etc.)
o Concentração ou intensidade: quantidade do agente nocivo presente no meio.
o Tempo de exposição: tempo em que o trabalhador está efetivamente exposto ao agente
nocivo (quanto maior o tempo de exposição, maior o risco de ocorrência do dano).
o Susceptibilidade individual: características pessoais que tornam um indivíduo mais
susceptível que outros à determinada influência do meio.
o Histórico do trabalhador: histórico de saúde do trabalhador, acometimento de doenças
anteriores que possam interferir e/ou influenciar no adoecimento, uso de medicamentos,
drogas, etc. Exposições ocupacionais anteriores, também podem efeito determinante no
acometimento de doenças ocupacionais.
o Medidas de controle: o que está sendo feito para preservar a integridade física do
trabalhador? As medidas de controle tomadas têm sido eficazes?

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6. Riscos físicos
São as diversas formas de energia a que possam estar expostos os trabalhadores, tais como
ruído, vibrações, pressões anormais, temperaturas extremas, radiações ionizantes, radiações não-
ionizantes, bem como o infra-som e o ultra-som (NR 9.1.5.1). Os riscos físicos se caracterizam por:
a) Exigirem um meio de transmissão (em geral o ar) para propagarem sua nocividade.
b) Agirem mesmo sobre pessoas que não têm contato direto com a fonte do risco.
c) Em geral ocasiona lesões crônicas, mediatas (tardias).

6.1. Ruídos
Som ou ruído é o nome dado a qualquer vibração que ocorre em um meio elástico, geralmente o
ar, que é perceptível ao ouvido humano, portanto um pressão sonora capaz de ser “captada” pelo
homem. De maneira geral reserva-se o nome de ruído ou barulho aos sons desagradáveis,
indesejáveis e de som à uma sensação prazerosa, desejada, como a produzida pela música. O som ou
ruído possui duas características principais:

o Intensidade: indica a quantidade


de energia transmitida por uma
onda sonora emitida por uma
máquina, equipamento ou grito de
uma pessoa que, quanto maior,
mais nociva para a audição. Como
o ouvido humano pode detectar
uma gama muito grande de
pressão sonora, que vai de 20 μ Pa
até 200 Pa (Pa = Pascal), seria
totalmente inviável a construção de
instrumentos para a medição da
pressão sonora. Para contornar
esse problema, utiliza-se uma
escala logarítimica de relação de
grandezas, o decibel (dB).

o Freqüência: é o número de vezes


que a oscilação é repetida numa
unidade de tempo, ou o número de
vibrações sonoras produzidas em
um segundo. É dada em Hertz
(Hz). As freqüências baixas são
representadas por sons graves,
enquanto as freqüências altas são
representadas por sons agudos.

Figura 03 – Ilustração com os valores típicos em dB.


Fonte: Técnicas de Avaliação de Agentes Ambientais, manual SESI.

O ouvido humano responde a uma larga faixa de freqüências (faixa audível), que vai de 16-20
Hz a 16-20 KHz. Fora dessa faixa, o ouvido humano é insensível ao som correspondente. Estudos
demonstram entretanto, que o ouvido humano não responde linearmente às diversas freqüências, ou
seja, para certas faixas de freqüência ele é mais ou menos sensível.

6.1.1. Tipos de ruído


O ruído contínuo é o que permanece estável com variações máximas de 3 a 5 dB(A) durante

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um longo período. Ex. torno mecânico em funcionamento.


O ruído intermitente é um ruído com variações, maiores ou menores de intensidade. Ex. serra
circular em funcionamento, realizando o corte de madeiras.
O ruído de impacto apresenta picos de energia com duração inferior a 1 segundo, a intervalos
superiores a 1 segundo. Ex. equipamento de bate-estacas em funcionamento.

6.1.2. Estrutura do ouvido humano


O sistema auditivo é composto de 3 compartimentos:
o ouvido externo: formado pela orelha e o canal auditivo (local onde às vezes acumula cera) que tem
a função de facilitar a captação do som e o amplifica nas freqüências mais altas. Este fato é uma das
principais razões do porque embora o ruído predominante nas fábricas tenha freqüência entre 1000 e
2000 hz, a lesão observada no trabalhador compromete primeiro a audição de sons de 3000 a 6000
hz. O ouvido externo funciona como um amplificador para freqüências altas, chegando a aumentar a
pressão sonora na freqüência de 3000 Hz em até 20 decibéis;
o ouvido médio: composto pela membrana timpânica (o tímpano) e de 3 ossículos (ossos pequenos)
chamados de estribo, martelo e bigorna e dois músculos, um chamado estapedio e o outro tensor do
tímpano. Os 3 ossos tem a função de facilitar a transmissão da energia sonora que chega na
membrana para o interior de canais
cheios de líquido, onde a energia
sonora é convertida em hidráulica. A
maneira como eles estão
organizados tem a função de
compensar a perda de energia que
ocorre quando a energia passa do ar
para um meio líquido. Os dois
músculos, quando estimulados, se
contraem, tendo a função de proteger
o ouvido contra efeito de som muito
elevado;
o o ouvido interno: formado pela
cóclea que contém os elementos
sensoriais para a audição e o sistema
vestibular responsável pelo nosso
equilíbrio (este, quando alterado a
pessoa pode apresentar vertigens, Figura 04 – Anatomia do ouvido humano

como ocorre na labirintite).

6.1.3. Percepção dos sons


A onda sonora atinge a cabeça, penetra no canal auditivo e atinge a membrana timpânica,
vibrando-a. Esta membrana ao vibrar pela pressão dos sons, movimenta os 3 ossinhos que
pressionam um líquido que existe dentro de canais chamados escalas, que fazem parte da cóclea.
Este líquido pressionado, se movimenta e estimula as células ciliadas existentes numa estrutura da
cóclea, chamada órgão de Corti, que transformam a energia mecânica da onda sonora em impulsos
elétricos e os transmitem ao cérebro, através do nervo acústico, informando da chegada de um
determinado som. Isto ocorre, por exemplo, quando algum barulho ocorre inesperadamente perto de
nós. Se um cão late, o ouvido capta a energia sonora emitida pelo latido, processa a energia e informa
o cérebro, que aprendeu desde criança, que aquele é o som de um cão, de maneira a identificar
rapidamente não apenas a existência do som, mas sua localização e até quem o produziu.

6.1.4. Efeitos do ruído na audição


A exposição a níveis elevados de pressão sonora, pode alterar a capacidade de audição dos
indivíduos. Um trabalhador exposto ao longo dos anos à um ambiente com ruído elevado, que supera
a capacidade de defesa e de recuperação do ouvido, acaba por desenvolver, progressivamente,
lesões no ouvido interno e diminuindo sua sensibilidade auditiva.
Diferentemente das infecções mais comuns na infância (onde ocorre lesões no tímpano e
geralmente são tratadas com medicamentos ou cirurgias, ou das lesões devido a otoesclerose, que

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melhoram com uso de aparelhos ou cirurgias), as lesões induzidas pelo ruído são irreversíveis e até o
momento não tem tratamento. O ruído lesa as células que existem no interior da cóclea (localizada
numa estrutura chamada Órgão de Corti), perdendo a capacidade transmitir ao cérebro as informações
dos sons que chegam. Quando um trabalhador com audição normal começa a trabalhar num ambiente
barulhento e nele fica durante vários anos, veja o que pode ocorrer:
o Nas primeiras semanas pode sentir dor de cabeça, tontura, zumbido nos ouvidos e diminuição
reversível da audição;
o Posteriormente ocorre uma certa adaptação e estes sintomas desaparecem após alguns
meses;
o Com o passar dos anos, dependendo do nível do ruído, ele começa a ter dificuldade de ouvir
sons agudos como o barulho do relógio e dificuldade de entender as palavras, quando várias
pessoas conversam juntas;
o E, com a progressão da lesão, começa a ter dificuldade para ouvir de maneira geral,
comprometendo a comunicação. Passa a não ouvir adequadamente o que uma outra pessoa
fala e em muitos casos reaparece o zumbido ou chiado que dura muitos anos ou a vida toda.

À perda progressiva da audição induzida pelo ruído, dá-se o nome de hipoacusia ou disacusia
neurosensorial e é mais grave quanto maior for o tempo de exposição a ruído e quanto mais intenso
ele for, podendo evoluir até à surdez completa. A exposição a níveis elevados de ruído tem sido
relacionada ao aumento do número de acidentes de trabalho, a aumento da incidência de hipertensão
arterial, de gastrite e úlcera gástrica, a alterações do sono e neuropsíquicas.

6.2. Calor
A exposição ao calor ocorre em muitos tipos de atividades industriais e têm profunda influência
sobre a quantidade e qualidade de trabalho que o homem pode realizar, como também sobre a forma
em que possa fazê-lo.
O corpo humano também produz calor através de seus processos metabólicos. Tais processos
estão concebidos de forma que possam funcionar somente entre margens bastante estreitas. Para que
o organismo atue eficientemente é então necessário que o calor produzido se dissipe tão rapidamente
como se produz. Além disso, o organismo possui um conjunto de mecanismos termostáticos de
atuação rápida e sensível, que tem como missão controlar o ritmo dos processos reguladores de
temperatura.
Desta forma, podemos concluir que a sobrecarga térmica no organismo humano é resultante
de duas parcelas de carga térmica: uma carga externa (ambiental) e outra interna (metabólica). A
carga externa é resultante das trocas térmicas com o ambiente e a carga metabólica é resultante da
atividade física que exerce.

6.2.1. Tipos de trocas térmicas

CONDUÇÃO: Troca térmica entre dois corpos em contato, de temperaturas diferentes, ou que ocorre
dentro de um corpo cujas extremidades encontram-se a temperaturas diferentes. Para o trabalhador,
essas trocas são muito pequenas, geralmente por contato do corpo com ferramentas e superfícies.

CONVECÇÃO: Troca térmica realizada geralmente entre um corpo e um fluido, ocorrendo


movimentação do último por diferença de densidade provocada pelo aumento da temperatura.
Portanto, junto com a troca de calor existe uma movimentação do fluido, chamada de corrente natural
convectiva. Se o fluido se movimenta por impulso externo, diz-se que se tem uma convecção forçada.
Para o trabalhador, essa troca ocorre com o ar à sua volta.

RADIAÇÃO: Todos os corpos aquecidos emitem radiação infravermelha, que é o chamado “calor
radiante”. Assim como emitem, também recebem, havendo o que se chama de troca líquida radiante.
O infravermelho, sendo uma radiação eletromagnética não ionizante, não necessita de um meio físico
para se propagar. O ar é praticamente transparente à radiação infravermelha. As trocas por radiação
entre o trabalhador e seu entorno, quando há fontes radiantes severas, serão as preponderantes no
balanço térmico e podem corresponder a 60% ou mais das trocas totais.

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EVAPORAÇÃO: Evaporação é a mudança de fase de um líquido para vapor, ao receber calor. É a


troca de calor produzida pela evaporação do suor, por meio da pele. O suor recebe calor da pele,
evaporando e aliviando o trabalhador. O mecanismo da evaporação pode ser o único meio de perda de
calor para o ambiente, na indústria. Porém, a quantidade de água que já está no ar é um limitante para
a evaporação do suor; ou seja, quando a umidade relativa do ambiente é de 100%, não é possível
evaporar o suor, e a situação pode ficar crítica.

6.2.2. Reações do organismo ao calor


À medida que ocorre a sobrecarga térmica, o organismo dispara certos mecanismos para
manter a temperatura interna constante, sendo os principais a vasodilatação periférica e a sudorese.

VASODILATAÇÃO PERIFÉRICA: A vasodilatação periférica permite o aumento de circulação de


sangue na superfície do corpo, aumentando a troca de calor para o meio ambiente. O fluxo sangüíneo
transporta calor do núcleo do corpo para a periferia. Como a rede de vasos aumenta, pode haver
queda de pressão (hidráulica aplicada).

SUDORESE: A sudorese permite a perda de calor por meio da evaporação do suor. O número de
glândulas ativadas pelo mecanismo termorregulador é proporcional ao desequilíbrio térmico existente.
A quantidade de suor produzido pode, em alguns instantes, atingir o valor de até dois litros por hora. A
evaporação de um litro por hora permite uma perda de 590 kcal nesse período.

6.2.3. Principais Efeitos do Calor


O calor pode produzir efeitos que vão desde a desidratação progressiva e às cãibras até
ocorrências bem mais sérias, como a exaustão por calor e o choque térmico. Os grandes candidatos a
incidentes mais sérios são as pessoas não aclimatadas, ou seja, os “novatos” no ambiente
termicamente severo.

6.2.3.1. Golpe de Calor (Hipertermia ou Choque Térmico)


Quando o sistema termorregulador é afetado pela sobrecarga térmica, a temperatura interna
aumenta continuamente, produzindo alteração da função cerebral, com perturbação do mecanismo de
dissipação do calor, cessando a sudorese. O golpe de calor produz sintomas como: confusão mental,
colapsos, convulsões, delírios, alucinações e coma, sem aviso prévio, parecendo-se o quadro com
uma convulsão epiléptica.
Os sinais externos do golpe de calor são: pele quente, seca e arroxeada. A temperatura interna
sobe a 40,5°C ou mais, podendo atingir 42°C a 45°C no caso de convulsões ou coma. O golpe de calor
é freqüentemente fatal e, no caso de sobrevivência, podem ocorrer seqüelas devido aos danos
causados ao cérebro, rins e outros órgãos.
O golpe de calor pode ocorrer durante a realização de tarefas físicas pesadas em condições de
calor extremo, quando não há a aclimatação e quando existem certas enfermidades, como o diabetes
mellitus, enfermidades cardiovasculares e cutâneas ou obesidade. O médico deve ser chamado
imediatamente e o socorrismo prevê que o corpo do trabalhador deve ser resfriado imediatamente.

6.2.3.2. Exaustão pelo Calor


A síncope pelo calor resulta da tensão excessiva do sistema circulatório, com perda de pressão
e sintomas como enjôo, palidez, pele coberta pelo suor e dores de cabeça.
Quando a temperatura corpórea tende a subir, o organismo sofre uma vasodilatação periférica,
na tentativa de aumentar a quantidade de sangue nas áreas de troca. Com isso, há uma diminuição de
fluxo sangüíneo nos órgãos vitais, podendo ocorrer uma deficiência de oxigênio nessas áreas,
comprometendo particularmente o cérebro e o coração. Essa situação pode ser agravada quando há a
necessidade de um fluxo maior de sangue nos músculos devido ao trabalho físico intenso.
A recuperação é rápida e ocorre naturalmente se o trabalhador deitar-se durante a crise ou
sentar-se com a cabeça baixa. A recuperação total é complementada por repouso em ambiente frio.

6.2.3.3. Prostração Térmica por Desidratação


A desidratação ocorre quando a quantidade de água ingerida é insuficiente para compensar a
perda pela urina ou sudação e pelo ar exalado. Com a perda de 5% a 8% do peso corpóreo ocorre a

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diminuição da eficiência do trabalho, sinais de desconforto, sede, irritabilidade e sonolência, além de


pulso acelerado e temperatura elevada. Uma perda de 10% do peso corpóreo é incompatível com
qualquer atividade, e com uma perda de 15% pode ocorrer o choque térmico ou golpe pelo calor.
O tratamento consiste em colocar o trabalhador em local frio e fazer a reposição hídrica e
salina.

6.2.3.4. Prostração Térmica pelo Decréscimo do Teor Salino


Se o sal ingerido for insuficiente para compensar as perdas por sudorese, podemos sofrer uma
prostração térmica. As pessoas mais suscetíveis são as não aclimatizadas.
A prostração térmica é caracterizada pelos sintomas: fadiga, tonturas, falta de apetite, náuseas,
vômitos e cãibras musculares.

6.2.3.5. Cãibras de Calor


Apresentam-se na forma de dores agudas nos músculos, em particular os abdominais, coxas e
aqueles sobre os quais a demanda física foi intensa. Elas ocorrem por falta de cloreto de sódio,
perdido pela sudorese intensa sem a devida reposição e/ou aclimatação.
O tratamento consiste no descanso em local fresco, com a reposição salina por meio de soro
fisiológico (solução a 1%). A reposição hídrica e salina deve ser feita com orientação e
acompanhamento médico.

6.2.3.6. Enfermidades das Glândulas Sudoríparas


A exposição ao calor por um período prolongado e, particularmente, em clima muito úmido
pode produzir alterações das glândulas sudoríparas, que deixam de produzir o suor, agravando o
sistema de trocas térmicas e levando os trabalhadores à intolerância ao calor. Esses trabalhadores
devem receber tratamento dermatológico e em alguns casos devem ser transferidos para tarefas em
que não haja a necessidade de sudorese para a manutenção do equilíbrio térmico.

6.2.3.7. Edema pelo Calor


Consiste no inchaço das extremidades, em particular os pés e os tornozelos. Ocorre
comumente em pessoas não aclimatizadas, sendo muito importante a manutenção do equilíbrio
hídrico-salino.

6.2.4. Aclimatação
A aclimatação é a adaptação do organismo a um ambiente quente. Quando um trabalhador se
expõe ao calor intenso pela primeira vez, tem sua temperatura interna significativamente elevada, com
um aumento do ritmo cardíaco e baixa sudorese. Além de suar pouco, pode perder muito cloreto de
sódio nesse suor. O indivíduo aclimatizado transpira mais, consegue manter a temperatura do núcleo
do corpo em valores mais baixos e perde menos sal no suor, mantendo também os batimentos
cardíacos. A aclimatação ocorre por intermédio de três fenômenos:

o Aumento da sudorese;
o Diminuição da concentração de sódio no suor (4,0 g/l para 1,0 g/l), sendo que a quantidade de
sódio perdido por dia passa de 15 a 25 gramas para 3 a 5 gramas;
o Diminuição da freqüência cardíaca, por meio do aumento do volume sistólico, devido ao
aumento da eficiência do coração no bombeamento em valores mais aceitáveis. A aclimatação
é iniciada após quatro a seis dias e tende a ser satisfatória após uma a duas semanas. É o
médico que deve avaliar se a aclimatação está satisfatória;

6.2.5. Correlação entre as trocas térmicas e as variáveis do ambiente


Para saber a respeito da sobrecarga térmica que pode estar ocorrendo numa exposição
ocupacional, temos que conhecer as trocas térmicas envolvidas. Entretanto, essa medida direta é
difícil ou pouco prática na maioria dos casos.

Faz-se necessário, correlacionar tais trocas com as variáveis mensuráveis no ambiente e com
o conhecimento da tarefa realizada.

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

Parâmetro / Temperatura do Velocidade do Carga radiante do Umidade relativa


Troca ar ar ambiente do ar
Convecção X X – –
Radiação – – X –
Evaporação X X – X
Metabolismo (*) – – – –
X – interfere na troca – não interfere na troca
(*) O metabolismo se relaciona diretamente com a atividade física da tarefa

6.3. Radiações
São ondas eletromagnéticas ou partículas que se propagam com alta velocidade e portando
energia, eventualmente carga elétrica e magnética, e que, ao interagir podem produzir variados efeitos
sobre a matéria. Elas podem ser geradas por fontes naturais ou por dispositivos construídos pelo
homem. Possuem energia variável desde valores pequenos até muito elevados (ver ilustração abaixo).
As radiações eletromagnéticas mais conhecidas são: luz, microndas, ondas de rádio AM e FM,
radar, laser, raios X e radiação gama.
Em física, radiação é definida como a propagação da energia. As radiações podem ser
identificadas:

o Pelo elemento condutor de energia:


Radiação eletromagnética - fótons.
Radiação corpuscular - partículas (prótons, nêutrons, etc.)
Radiação gravitacional - grávitons.

o Pela fonte de radiação:


Radiação solar - causada pelo Sol.
Radiação de Cerenkov - causada por partículas com a velocidade superior a da luz no meio.
Radioatividade - núcleos instáveis.

o Pelos seus efeitos:


Radiação ionizante - capaz de ionizar moléculas.
Radiação não ionizante - incapaz de ionizar moléculas.

Figura 05 – Freqüências das radiações ionizantes e não ionizantes

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

6.3.1. Radiações ionizantes


Radiação cuja energia é superior à energia de ligação dos elétrons de um átomo com o seu
núcleo; radiações cuja energia é suficiente para arrancar elétrons de seus orbitais.
A interação das radiações ionizantes com a matéria é
um processo que se passa em nível atômico. Ao
atravessarem um material, estas radiações transferem
energia para as partículas que forem encontradas em
sua trajetória. Caso a energia transferida seja superior à
energia de ligação do elétron com o restante da
estrutura atômica, este é ejetado de sua órbita. O átomo
é momentaneamente transformado em um íon (átomo
ou molécula que se torna eletricamente carregado)
positivo. A introdução de pares de íons (positivo e
negativo) na matéria recebe o nome de ionização.
Figura 06 – Estrutura atômica

6.3.1.1. Efeitos das radiações ionizantes no organismo


Considerando que as moléculas biológicas são constituídas, principalmente, por átomos de
carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, os elétrons que provavelmente serão arrancados de um
átomo, no caso de irradiação de um ser vivo, serão elétrons de átomos destes elementos. Para que
ocorra ionização em um material biológico a energia da radiação deve ser superior ao valor da energia
de ligação dos elétrons ligados aos átomos destes elementos. A transformação de uma molécula
específica (água, proteína, açúcar, DNA, RNA, etc.) pela ação das radiações leva a conseqüências
que devem ser analisadas em função do papel biológico desempenhado pela molécula atingida. O
efeito desta transformação deve ser acompanhado nas células, visto serem estas as unidades
morfológicas e fisiológicas dos seres vivos. Da mesma maneira, a geração de novas entidades
químicas no sistema também deve ser analisada considerando seu impacto na célula irradiada.

Figura 07 – Ação das radiações ionizantes no DNA

Figura 08 – Codificações do DNA podem gerar efeitos diversos, ou nenhum efeito

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

6.3.2. Radiações não ionizantes


Diferem das radiações ionizantes, por sua incapacidade em produzir a ionização da matéria.
Todavia, mesmo assim, possuem propriedades e energia suficiente para produzir danos à saúde e
serem consideradas riscos ambientais significativos. As radiações não ionizantes são ondas
eletromagnéticas. As ondas são definidas por sua freqüência ou seu comprimento de onda.

Figura 09 – Espectro de radiações não ionizantes.


Fonte: Técnicas de Avaliação de Agentes Ambientais, manual SESI.

6.3.2.1. Tipos de radiação não ionizantes

o Radiofreqüência e Microondas: a primeira “família” em termos de comprimentos de onda


decrescentes é a que se denomina radiofreqüência e microondas, tomando a faixa que vai de
muitos quilômetros a alguns milímetros. As ondas nessa região são utilizadas em muitas
formas de telecomunicação, de pesquisa e prospecção espacial, bem como para usos
militares, mas também possuem usos industriais e médicos.

Efeitos à Saúde: são predominantemente térmicos, ou seja, aquecimento por absorção da


radiação pelos tecidos. A intensidade do aquecimento depende da potência da fonte, da
distância da fonte ao indivíduo, do tempo de exposição e das características dielétricas e de
dissipação térmica dos tecidos expostos.

o Radiação Infravermelha: a radiação infravermelha é o chamado calor radiante e se situa na


faixa de comprimentos de onda que vai de alguns milímetros a 0,78 micrometro. A radiação é
muito pouco penetrante (alguns milímetros) e sua absorção causa basicamente o aquecimento
superficial (pele). Está considerada nos problemas de calor industrial, pois a carga radiante das
fontes é medida pelo termômetro de globo no índice IBUTG. Todavia, a radiação também pode
causar efeitos oculares, independentemente da questão do aquecimento do corpo inteiro nos
estudos de calor. As fontes infravermelhas são os corpos aquecidos e incandescentes,
chamas, arcos, material em fusão. A quantidade irradiada será tão maior quanto mais alta a
temperatura da fonte e sua área de emissão.

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

Efeitos Oculares: o efeito de uma exposição não protegida à radiação infravermelha é uma
das doenças ocupacionais mais antigas, relacionando uma ocupação a uma moléstia. Trata-se
da “catarata do vidreiro”, reconhecida há milênios como parte do destino dessa ocupação, se
houver exposição excessiva e sem a devida proteção. Deve-se ressaltar que esse é um efeito
crônico, que pode levar muitos anos para se desenvolver. Evidentemente, toda exposição não
protegida a fontes infravermelhas significativas, por tempo prolongado, poderá produzir o
mesmo efeito que nos vidreiros.

o Luz: a luz visível também é uma radiação não ionizante, a qual tem a peculiaridade de
impressionar a visão. Em outras palavras, nossos olhos são capazes de perceber a radiação
não ionizante (ondas eletromagnéticas) na região de 400 nanometros a 780 nanometros. A
iluminação deve ser avaliada para se verificar a adequação das condições ambientais do
trabalho, por ocasião da Análise Ergonômica do Trabalho, conforme NR 17.

o Radiação Ultravioleta: a radiação ultravioleta ocupa o espectro na região que vai de 400
nanometros a aproximadamente 100 nanometros. Está subdividida em bandas, como mostrado
a seguir:
Faixa Bandas e designações Região espectral em nanômetro
UVA Ultravioleta próximo ou do luz negra 400 – 315
UVB Eritemática 315 – 280
UVC Germicida 280 – 220
Ozônio 220 – 180
Absorção 180 – 100

Ocorrência e Fontes de Radiação Ultravioleta


a) Sol, fonte natural, ao nível do mar, em que recebemos radiação que vai até os 290 nm
aproximadamente.
b) Todos os tipos de arcos elétricos, com especial atenção a todos os tipos de solda. As
modalidades de maior emissão UV são as protegidas com o gás Argônio (MIG, TIG, MAG).
c) Lâmpadas especiais (lâmpadas de luz negra, lâmpadas germicidas, lâmpadas de vapor de
mercúrio – sendo as de maior risco aquelas de maior pressão e bulbo transparente – lâmpadas
na indústria gráfica, heliografia, cura de resinas).
d) Corpos incandescentes a temperaturas acima dos dois mil graus Celsius.

Efeitos da Radiação Ultravioleta: a radiação ultravioleta é muito pouco penetrante; dessa


forma, seus efeitos serão sempre superficiais, envolvendo a pele e os olhos. Os efeitos agudos
são, em geral, retardados de 6 a 12 horas, e essa é uma característica típica da radiação. Não
existe sensação no momento da exposição e por isso doses elevadas podem ser recebidas
sem qualquer advertência sensorial.

Na pele, a radiação produz o eritema ou “queimadura solar”. A pele exposta tende a se


pigmentar, e o aumento da pigmentação protegerá a pessoa de novos eritemas.
Evidentemente, aqui existe um papel importante representado pelo tipo de pele, ou seja, uma
maior ou menor facilidade de pigmentação. Nos olhos, produz-se uma querato-conjuntivite
(inflamação fotoquímica da córnea e da conjuntiva ocular) muito dolorosa e granulosa (os
atingidos têm a sensação de areia nos olhos). Esse efeito é incapacitante, cedendo em um ou
dois dias e não produzindo, em regra, nenhuma seqüela.

o Laser: trata-se de uma sigla, que quer dizer “Amplificação de Luz por Emissão Estimulada de
Radiação”. Não é portanto, uma outra radiação, mas sim uma forma de emissão das radiações
conhecidas. Por essa razão, não aparece no espectro não ionizante de forma individualizada,
pois qualquer radiação do espectro pode, em princípio, ser emitida na forma LASER (luz,
infravermelho, microonda, UV). A radiação é monocromática (um único comprimento de onda é
emitido) e pode ser focada ou colimada, de forma a concentrar toda a energia do feixe em uma

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

área tão pequena quanto a tecnologia permitir. Essa é uma das características notáveis e úteis
da radiação, ou seja, a capacidade de se produzir uma densidade de energia extremamente
elevada (por exemplo, centenas de watts em alguns micrometros quadrados).

Efeitos Nocivos: basicamente, o risco é o de queimadura e destruição de tecidos. No caso do


olho, queimaduras de retina podem ocorrer em frações de segundo, mesmo com LASER de
muito baixa potência (alguns miliwatts).

6.4. Pressões anormais


Pressão atmosférica é a pressão que o ar da atmosfera exerce sobre a superfície do planeta.
Essa pressão pode mudar de acordo com a variação de altitude, ou seja, quanto maior a altitude
menor a pressão e, consequentemente, quanto menor a altitude maior a pressão exercida pelo ar na
superfície terrestre.
A respiração dos seres vivos tem íntima relação com a pressão atmosférica, pois o ar
atmosférico somente penetra nas vias respiratórias e chega aos alvéolos pulmonares por diferença de
pressão (o centro respiratório estimula a compressão do músculo diafragma e conseqüente elevação
das costelas, acarretando o aumento do diâmetro longitudinal torácico e tornando a pressão interna
menor). Portanto, quanto maior a diferença de pressão, maior a quantidade de ar que será inalada.
Ao nível do mar, a pressão atmosférica é de 760 mmHg (miligramas de mercúrio) ou também
indicado pela unidade 01 atm (atmosfera).

6.4.1. Pressões anormais – trabalhos em condições hiperbáricas


O trabalho sob condições hiperbáricas, refere-se às atividades exercidas sob ar comprimido
(em ambientes onde o trabalhador é obrigado a suportar pressões maiores que a atmosférica e onde
se exige cuidadosa descompressão, de acordo com parâmetros obrigatórios) e trabalhos submersos
(qualquer trabalho realizado ou conduzido por um mergulhador em meio líquido)
O maior fator de risco relacionado a estas atividades é a descompressão (retirada dos gases
que estão dissolvidos no sangue). Em altas pressões, um maior número de partículas de gases
consegue se dissolver no sangue e se há uma mudança muito brusca da pressão externa, os gases
que estão dissolvidos no sangue tentarão sair do corpo.

Figura 10 – Câmara hiperbárica para descompressão, sistema Figura 11 – Câmara hiperbárica para descompressão, sistema
monopaciente. multipaciente.

Existem diversas patologias relacionadas diretamente com o trabalho em condições


hiperbáricas dentre elas:

o Barotraumas: quando o indivíduo é submetido a uma diferença de pressão ambiente, os


efeitos serão sentidos nas cavidades recheadas de ar, como os pulmões e os ouvidos (o
volume de um gás é inversamente proporcional à pressão), daí a ocorrência de alguns efeitos,
como os sentidos na descida de uma serra ou mergulhando em uma piscina (sensação de ter
os ouvidos "abafados", que indicam que a pressão está aumentando sobre nosso corpo).

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

o Barotraumas de ouvido médio: para funcionar corretamente, o ouvido médio trabalha como
uma caixa acústica (mantêm-se cheio de ar, com espaço para a vibração da membrana do
tímpano). Por estar desta forma, esta região é vulnerável a variação de pressão. À medida que
o mergulhador afunda, a pressão da água aumenta e empurra o tímpano para dentro,
provocando dor; se o mergulhador não tomar nenhuma atitude, o tímpano poderá se romper,
causando barotrauma do ouvido médio.

o Barotrauma pulmonar: além do ouvido e outros espaços corporais que contém ar, em
condições hiperbáricas, ocorrem mudanças na composição de gases dos pulmões. No caso do
oxigênio, por exemplo, quanto maior a pressão deste gás no pulmão, maior quantidade será
absorvida pelo sangue e dissolvida em todos os líquidos do corpo. Uma estrutura rígida, a
traquéia, vai se ramificando em ramos cada vez menores até que bronquíolos terminam de
formar os sacos alveolares. Estes mantêm grande quantidade de ar no tecido pulmonar, que é
bastante elástico. Na pressurização o pulmão é comprimido, se o indivíduo estiver com a
respiração contida (apnéia) e a pressão for excessiva, podem ocorrer lesões ao pulmão,
caracterizando o barotrauma pulmonar.

o Embolia Traumática pelo ar: no mergulho com equipamento ou em câmaras hiperbáricas, o


ar deve ser inspirado na mesma pressão que o ambiente, permitindo que o tórax e os pulmões
tenham pressão suficiente para sua movimentação, vencendo a pressão que a água ou ar-
comprimido faz sobre o peito. Se o indivíduo, nestas condições, respirar ar ou oxigênio sob
pressão e conter a respiração em apnéia, no caso de ocorrer uma despressurização súbita
(como no mergulho, em uma subida muito rápida à superfície), o pulmão será submetido a uma
expansão súbita, com grande aumento de sua pressão interna. Isto poderá ocasionar uma
ruptura de alvéolos, entrando ar no espaço pleural. Neste caso pode haver um colapso do
pulmão (pneumotórax), entrada de ar na membrana que reveste o coração
(pneumomediastino) ou mesmo abaixo da pele do tórax e pescoço (enfisema subcutâneo).
Este acidente, muito grave, é denominado embolia traumática pelo ar.

6.4.2. Pressões anormais – trabalhos em condições hipobáricas


O trabalho sob condições hipobáricas refere-se a situações em que a pressão é menor que a
pressão atmosférica. Como o ar entra com muito menos pressão no pulmão, há imediatamente um
reajuste na freqüência respiratória que aumentará, elevando também a freqüência cardíaca e a
pressão arterial (também aumentam), afim de que haja um aumento do fluxo sangüíneo. O organismo,
também como mecanismo de controle, ampliará o número de hemáceas no sangue, de modo a
promover melhor aproveitamento do oxigênio absorvido.
Este tipo de ocorrência é comum em áreas de elevada altitude. Por exemplo, em La Paz a
pressão atmosférica é de aproximadamente 95 mmHg, apenas. Nessa pressão, o organismo tende à
hipóxia (baixo teor de oxigênio).
A exposição ocupacional às condições hipobáricas podem ocorrer nas atividades de aviadores,
astronautas e montanhistas. Algumas das patologias relacionadas com o trabalho em condições
hipobáricas são:

o Doença descompressiva: ocorre com a gaseificação de substâncias dissolvidas no sangue


(nitrogênio), formando bolhas na circulação e nos tecidos.

o Mal das montanhas: geralmente manifesta-se por volta de 06 a 12 horas após ascensão
rápida acima de 2500m. Apresenta sintomas como cefaléia, falta de apetite, náusea ou
vômitos, fadiga, tontura e dificuldade em dormir. Estes sintomas são inespecíficos e devem ser
analisados em conjunto.
o Edema pulmonar agudo de altas altitudes: se iniciam em geral 2 a 3 dias após chegada a
altitude (a ascensão rápida pode abreviar este tempo). Se caracterizam por falta de ar,
inicialmente aos exercícios e posteriormente mesmo em repouso, podendo evoluir até o coma
e morte. Os sinais precoces incluem aumento significativo das freqüências respiratória e
cardíaca, febre baixa e crepitação nas porções inferiores dos pulmões.

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

6.5. Vibrações
A vibração pode ser definida como qualquer movimento que o corpo executa em torno de um
ponto fixo. Esse movimento pode ser regular, do tipo senoidal ou irregular, quando não segue nenhum
movimento determinado, como no sacolejar de um carro andando em uma estrada de terra.
Como todo corpo com movimento oscilatório, um corpo que vibra descreve um movimento
periódico, que envolve em deslocamento, um certo tempo, o que resulta uma velocidade, bem como
uma aceleração desse movimento. Dessa forma, o movimento pode ser descrito por qualquer um
desses parâmetros: deslocamento, velocidade ou aceleração. Outro fator importante é a freqüência
desse movimento, isto é, o número de ciclos (movimentos completos) realizado num período de tempo.
No caso de ciclos por segundo, utiliza-se a unidade Hertz (Hz).

6.5.1. Vibrações de corpo inteiro: são


vibrações transmitidas ao corpo com o
indivíduo sentado (reclinado ou não), em
pé ou deitado. Normalmente ocorrem em
trabalhos com máquinas pesadas
(tratores, caminhões, ônibus, aeronaves,
máquinas de terraplanagem, grandes
compressores, máquinas industriais, etc).

6.5.2. Vibrações localizadas: são


vibrações que atingem certas regiões do
corpo, principalmente as mãos, braços e
ombros. Normalmente ocorrem em
operações com ferramentas manuais
vibratórias (marteletes, britadeiras,
rebitadeiras, compactadores, politrizes,
motosserras, lixadeiras, peneiras
vibratórias, furadeiras, ferramentas
Figura 12 – Esquema de frequência de vibrações no corpo humano.
pneumáticas, etc). Fonte: Técnicas de Avaliação de Agentes Ambientais, manual SESI.

6.5.3. Efeitos das vibrações no homem


Para uma melhor compreensão de como o corpo humano reage de forma mais ou menos
sensível a determinadas faixas de freqüências, de acordo com segmentos corporais, utiliza-se um
modelo mecânico simplificado, que mostra as faixas de freqüências naturais de partes importantes do
corpo, conforme ilustrado acima.
Os efeitos da vibração no homem dependem, entre outros aspectos, das freqüências que
compõem a vibração (número de vezes de um ciclo completo de um movimento durante um período de
um segundo). As baixas freqüências são as mais prejudiciais (de 1 até 100 HZ).
As vibrações localizadas podem produzir um quadro degenerativo neurovascular nas mãos,
conhecida inicialmente como “Síndrome de Raynaud de origem ocupacional” e, mais tarde,
simplesmente como “Síndrome das Vibrações”. A exposição produz preliminarmente apenas
formigamento ou adormecimento, algo que é desprezado pela pessoa e não é facilmente vinculado à
exposição, pois não ocorre necessariamente nem durante nem logo após essa situação. Prosseguindo
a exposição, começarão os ataques de “branqueamento” de dedos, inicialmente apenas a ponta de um
ou mais dedos, mas, com o passar do tempo (anos de exposição), todo o dedo e todos os dedos da
mão poderão ser atingidos, podendo progredir para a palma.

6.6. Frio
O frio é um dos agentes físicos capazes de causar estresse e perturbações ao organismo
humano, por interferir na temperatura interna do corpo (que deve ser mantida em torno de 37ºC, afim
de que as características funcionais orgânicas sejam preservadas). Esta temperatura corresponde à
soma do calor produzido internamente (metabolismo), mais o ganho ou perda de calor do ambiente,

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

sendo que no caso de perda de calor por um corpo deveremos chamá-la de taxa de resfriamento.
Uma grande diversidade de ocupações pode levar a exposições ocupacionais ao frio, tais como
trabalho a céu aberto em regiões frias, trabalho em câmaras frias ou navios frigorificados, trabalho de
embalagem e armazenagem de carne, frutas, sorvetes, pesca, mergulho e muitas outras ocupações
profissionais. Alguns fatores que mais contribuem para a hipotermia e as ulcerações causadas pelo
frio, são as exposições ao vento e à umidade. Condições de saúde podem piorar os efeitos do frio,
como alergias, problemas vasculares, fumo, bebidas alcoólicas e utilização de certos medicamentos. A
ocorrência de acidentes por queda tem maior probabilidade de acontecer em ambientes frios.
A umidade causa efeito prejudicial ao corpo em ambientes frios em razão da perda de calor. A
água é 25 a 30 vezes mais condutiva de calor que o ar, significando que o trabalhador em tempo
úmido pode perder de 25 a 30 vezes mais calor do corpo do que se tivesse seco. O vento também é
um fator importante, que aumenta a suscetibilidade do indivíduo à hipotermia devido à sua capacidade
de causar perda de calor por convecção e evaporação. Este efeito é denominado de “Fator de
Resfriamento pelo Vento”. A tabela abaixo, apresenta o efeito do resfriamento equivalente entre a
temperatura e a velocidade do ar.

6.6.1. Efeitos do frio sobre o organismo


As doenças e ferimentos causados pelo frio ocorrem quando a perda de calor do corpo excede
a produção do calor. As lesões produzidas pela ação do frio afetam principalmente as extremidades e
áreas salientes do corpo, como pés, mãos, face e outras. As principais doenças dermatológicas
causadas pelo frio são:

o Ulcerações: ocorrem quando a temperatura do tecido cai abaixo do ponto de congelamento e


resulta em danos ao tecido. Os sintomas incluem as mudanças de cor da pele para o branco
ou amarelo acinzentado, surgimento de dores e, posteriormente, bolhas. Normalmente, as
pessoas acometidas por estas lesões não sentem os efeitos, até que alguém as chame a
atenção pela palidez de sua pele. É comum estas ulcerações ocorrerem quando o rosto ou as
extremidades são expostos ao vento frio;

o Frostbite: corresponde a lesões que atingem predominantemente as extremidades, devido à


intensa vasoconstrição periférica e à deposição de microcristais nos tecidos quando a região
exposta entra em contato com temperaturas abaixo de -2°C.

o Fenômeno de Raynaud: é um dano causado pelo frio, mas pode estar associado a outras
patologias como esclerose sistêmica. O fenômeno de Raynaud também pode ocorrer pela
exposição à vibração, em operadores de marteletes pneumáticos, lixadeiras e outros.

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

o Pé de imersão: ocorre em trabalhadores com os pés expostos à água fria ou ambientes


úmidos, sem a proteção adequada, por longos períodos.

o Enregelamento de membros: é uma lesão comum causada pela exposição ao frio intenso ou
contato com objetos extremamente frios. Ocorre quando a temperatura do tecido cai abaixo de
0°C. Os vasos sanguíneos podem ficar lesados gravemente e de maneira irrecuperável, e a
circulação sanguínea pode se interromper no tecido afetado. Nos casos mais leves, o sintoma
é uma inflamação da pele (bolhas), seguida por uma dor leve. A pele enregelada é suscetível à
infecção, podendo chegar à gangrena.

o Hipotermia: em ambientes frios, a temperatura interna do corpo geralmente não cai mais do
que 1°C a 2°C abaixo da temperatura normal de 37°C em virtude da facilidade do corpo de se
adaptar. No entanto, no frio intenso sem a proteção adequada, o corpo é incapaz de
compensar a perda de calor, e sua temperatura interna diminui. A sensação de frio, seguida de
dor nas partes expostas do corpo, é o primeiro sinal de estresse pelo frio. Quando a
temperatura do corpo cai abaixo de 35°C, ocorrem fortes tremores e isto deve ser considerado
como aviso de perigo para os trabalhadores. Situação pior ocorre quando o corpo fica imerso
em água fria. Conforme o frio aumenta ou o período de exposição se prolonga, a sensação de
frio e dor tende a diminuir por causa da perda de sensibilidade que o frio causa. Em seguida, o
trabalhador sente fraqueza muscular e adormecimento. Isto é chamado de hipotermia e
normalmente ocorre quando a temperatura central do corpo cai abaixo de 33°C. Outros
sintomas de hipotermia incluem a percepção reduzida e pupilas dilatadas. Quando a
temperatura do corpo atinge 27°C, o trabalhador entra em coma. A atividade do coração pára
ao redor de 20°C e, a cerebral, a 17°C. A vítima de hipotermia deve ser aquecida
imediatamente, sendo removida para ambientes quentes ou por meio de cobertores. Abaixo,
quadro representativo dos sinais clínicos progressivos da hipotermia.

TEMPERATURA
INTERNA (ºC) SINAIS CLÍNICOS PROGRESSIVOS DA HIPOTERMIA
37,6 Temperatura retal "normal"
37 Temperatura oral "normal"
36 Aumento da taxa metabólica para compensar a perda de calor
35 Tremor máximo
34 Vítima consciente e respondendo com pressão sangüínea normal
33 Severa hipotermia abaixo desta temperatura
32 Consciencia nublada, dificuldade de obter a pressão , pupilas dilatadas mas reagindo à
31 luz, cessação dos tremores
30 Progressiva perda da consciencia, aumento da rigidez muscular, pulso e pressão difíceis
29 de obter, decréscimo da taxa respiratória
28 Possível fibrilação ventricular com irritabilidade miocardial
Cessam movimentos voluntários, pupilas não-reativa à luz, reflexos de tendões e
27 superficiais ausentes
26 Vítima raramente consciente
25 Fibrilação ventricular pode ocorrer espontaneamente
24 Edema pulmonar
22
21 Risco máximo de fibrilação ventricular
20 Parada cardíaca
18 Vítima de hipotermia acidental mais baixa
17 Eletroencefalograma isoelétrico
9 Paciente de hipotermia induzida artificialmente mais baixa

6.7. Umidade
Entendemos por umidade o conteúdo de água em uma substancia ou material. No caso da
umidade do ar, a água esta misturada com o mesmo de forma homogênea no estado gasoso, ou seja,
a umidade do ar é a concentração de vapor de água (água no estado gasoso) na atmosfera.

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

Trata-se de um fenômeno natural, ligado ao ciclo biogeoquímico da água, onde o vapor


resultante da evaporação das águas dos mares, rios e lagos, sobretudo pela ação do calor solar, sobe
à atmosfera e passa a fazer parte de sua composição. Devem-se ao vapor de água diversos
fenômenos relevantes na vida de animais e plantas, como a chuva, neve, etc. Como qualquer outra
substancia o ar tem um limite de absorção, este limite se denomina saturação. Abaixo do ponto de
saturação (ponto de orvalho) o ar úmido não se distingue do ar seco ao simples olhar sendo
absolutamente incolor e transparente. Acima do limite de saturação a quantidade de água em excesso
se precipita em forma de neblina ou pequenas gotas de água (chuva). A quantidade de água que o ar
absorve antes de atingir a saturação depende da temperatura e aumenta progressivamente com ela.
Desta forma, o termo umidade relativa do ar nada mais é que uma porcentagem do valor
máximo admissível de vapor de água que o ar consegue absorver (100%). Este valor depende da
temperatura ambiente.
Os valores da umidade relativa do ar normalmente encontrados próximo à superfície da terra
estão em torno de 60%; já em um deserto, onde a temperatura sobe, por vezes, a valores maiores que
45 Graus Celsius, a umidade relativa é de apenas 15%. Para efeito de conforto os valores
considerados ideais estão em torno de 40 a 50%.

6.7.1. Efeitos da umidade sobre o organismo


A umidade relativa é fundamental para proporcionar um ambiente adequado, pois a umidade
relativa alta interfere no controle térmico do organismo humano, de modo que o suor custa mais a
evaporar (ar saturado), razão pela qual a sudorese, ainda que abundante, não provoca resfriamento
sensível no corpo (uma sudorese muito menor em ambiente de ar seco permite, ao contrário, uma
evaporação rápida do suor e uma conseqüente diminuição de temperatura corporal). Além disso,
algumas problemas de ordem ambiental podem ocorrer, como bolor, odores, fungos, oxidação, ácaros
e problemas de saúde (alergias e reumatismos). Por outro lado, ambientes com umidade relativa baixa
(ar seco), podem acarretar alergias respiratórias, irritações nos olhos e garganta, mal-estar, como
frequentemente ocorre nas grandes metrópoles pela ausência de chuvas e poluição.
A exposição do trabalhador à umidade pode acarretar ainda, doenças do aparelho respiratório,
quedas, doenças de pele, doenças circulatórias, entre outras. Para o controle da exposição do
trabalhador à umidade podem ser tomadas medidas de proteção coletiva (como o estudo de
modificações no processo do trabalho, colocação de estrados de madeira, ralos para escoamento) e
medidas de proteção individual (como o fornecimento do EPI - luvas de borracha, botas, avental para
trabalhadores em galvanoplastia, cozinha, limpeza etc).
As atividades ou operações executadas em locais alagados ou encharcados, com umidades
excessivas, capazes de produzir danos à saúde dos trabalhadores, podem ser caracterizadas como
atividades insalubres, enquanto as atividades em locais com umidade relativa do ar são avaliadas
mais em função de conforto térmico, durante a realização da Análise Ergonômica do Trabalho (NR
17.1.2).

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

7. Riscos químicos
São as substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar no organismo pela via
respiratória, nas formas de poeiras, fumos, neblinas, névoas, gases ou vapores, ou que, pela natureza
da atividade de exposição, possam ficar em contato ou ser absorvidas pelo organismo através da pele
ou por ingestão (NR 9.1.5.2).
Riscos químicos, podem ser definidos como os riscos causados pelas substâncias químicas
presentes no ambiente de trabalho, os quais, em função das condições de utilização, poderão entrar
em contato com o corpo humano, interagindo em ação localizada, como no caso de queimadura ou
irritação da pele, ou em ação generalizada, quando for levado pelos fluidos internos, chegando aos
diferentes órgãos e tecidos do organismo.

7.1. Classificação dos agentes químicos


Os agentes químicos podem ser classificados de diversas formas, segundo suas
características tóxicas, estado físico, etc.

7.1.1. Classificação segundo os seus efeitos sobre o organismo

a. Grupo I - Substâncias de ação generalizada sobre o organismo: correspondem aos agentes


químicos cujos efeitos, no organismo dos trabalhadores, dependem da quantidade de substâncias
absorvidas, estando representados pela maioria das substâncias relacionadas no Quadro 1 do
Anexo 11 da NR 15, aos quais se aplica o limite de tolerância média ponderada (ex.: cloro,
chumbo, dióxido de carbono, monóxido de carbono e nitroetano).

b. Grupo II - Substância de ação generalizada sobre o organismo, podendo ser absorvida,


também por via cutânea: correspondem aos agentes químicos que, além de exporem os
trabalhadores, através das vias respiratórias, também exigem a proteção individual para os
membros superiores e outras partes do corpo possíveis de propiciarem a absorção cutânea do
agente químico (ex.: anilina, benzeno, bromofórmio, fenol, percloretileno, tetracloreto de carbono e
tolueno).

c. Grupo III - Substâncias de efeito extremamente rápido: correspondem aos agentes químicos
que têm indicados limites valor teto, os quais não podem ser ultrapassados, em momento algum
durante a jornada de trabalho (ex.: ácido clorídico, dióxido de enxofre e formaldeído).

d. Grupo IV - Substâncias de efeitos extremamente rápidos, podendo ser absorvidas, também


por via cutânea: correspondem a apenas quatro substâncias: álcool n-butílico, m-butilamona,
monoetil hidrazina e sulfato de dimetila, as quais, além de apresentarem limite de tolerância valor
teto, que não pode ser ultrapassado em nenhum momento da jornada de trabalho, podem ser
absorvidas pela pele, exigindo necessariamente, a utilização do equipamento de proteção
individual (EPI).

e. Grupo V - Asfixiantes simples: são representados por alguns gases em altas concentrações no
ar, atuam no sentido de deslocar o oxigênio do ar, sem provocar efeitos fisiológicos importantes.
Entende-se por asfixia o bloqueio dos processos tissulares, pela falta de oxigênio (ex.: acetileno,
argônio, hélio, hidrogênio, metano).

f. Grupo VI - Poeiras: são substâncias químicas sólidas provenientes da segregação mecânica das
substâncias no estado sólido; podem ser altamente nocivas, dependendo da sua dimensão,
podendo causar pneumoconiose. A NR 15, em seu Anexo 12, prevê três agentes: asbestos
(amianto), manganês e seus compostos e sílica livre.

g. Grupo VII - Substâncias cancerígenas: correspondem àquelas que cientificamente comprovado,


podem causar câncer ao trabalhador ou induzir câncer em animais, sob determinadas condições
experimentais (ex.: cloreto de vinila, asbestos, benzidina, beta-naftalina, 4 nitrodifenil, 4-
aminodifenil e, ultimamente, o benzeno).

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

7.1.2. Classificação segundo as suas características de dimensão físico-química

a. Gases: substâncias que em condições normais de temperatura e pressão (25ºC e 760 mmHg),
encontram-se no estado gasoso, podendo ser liquefeito por resfriamento ou aumento de pressão
(ou ambos). Ex. monóxido de carbono, dióxido de carbono, nitrogênio.

b. Vapores: substâncias que em condições normais de temperatura e pressão (25ºC e 760 mmHg),
encontram-se no estado líquido ou sólido, passando ao estado gasoso por modificações de
temperatura ou pressão (ou ambos). Ex. benzeno, tolueno, acetona.

Fisiologicamente, do ponto de vista de sua ação sobre o organismo, os gases e vapores


podem ser classificados em: irritantes, anestésicos e asfixiantes. Embora se saiba que um mesmo
agente químico pode ser, simultaneamente, irritante, anestésico e asfixiante, o seu enquadramento em
apenas um desses grupos considera o maior efeito nocivo. A seguir, são apresentadas as seguintes
definições:

I. Gases e vapores Irritantes: são substâncias que produzem inflamação nos tecidos com os
quais entram em contato direto, tais como a pele, a conjuntiva ocular e as vias respiratórias. O
modo de ação é determinado principalmente, por sua solubilidade (mais solúveis em água
atacam principalmente o nariz e a garganta; menos solúveis, efeito mais sentido nos pulmões).
Podem ser subdivididos em:

I.I. Irritantes primários: são aqueles cuja ação principal sobre o organismo é a irritação local e que,
de acordo com o local de ação, distinguem-se em:

o Ação sobre as vias respiratórias superiores: substâncias da mais alta solubilidade em


água, localizando sua ação sobre a garganta e o nariz. Ex: ácido sulfúrico,amônia e soda
cáustica;

o Ação sobre os brônquios: substâncias com moderada solubilidade em água que, quando
inaladas, penetram mais profundamente no sistema respiratório concentrando seu ataque
nos brônquios. Ex: anidrido sulfuroso e cloro;

o Ação sobre os pulmões: substâncias que apresentam baixa solubilidade em água,


alcançando os alvéolos pulmonares. Ex: gases nitrosos e fosgênio.

o Irritantes atípicos: substâncias que, apesar da baixa solubilidade ocasionam ação irritante
também nas vias respiratórias. Ex: acroleína e gases lacrimogênios.

I.II. Irritantes secundários: substâncias que, apesar de possuírem efeito irritante, têm uma ação
tóxica generalizada sobre o organismo. Ex: gás sulfrídico.
II. Gases e vapores anestésicos: substâncias que devido à sua ação sobre o sistema nervoso
central, apresentam efeitos anestésicos; algumas destas substâncias, transferidas dos pulmões
para a corrente sanguínea e, a partir daí, para os outros órgãos internos, podem penetrar através
da pele. Os gases e vapores anestésicos podem ser classificados em:

II.I. Anestésico primário: substâncias que não produzem outro efeito além da anestesia, mesmo
que o trabalhador seja submetido a exposições repetidas, em baixas concentrações. Ex:
aldeídos, cetonas, ésteres e os hidrocarbonetos alifáticos – butano, propano, eteno e outros.

II.II. Anestésico de efeitos sobre as vísceras: substâncias que podem acarretar danos ao fígado e
aos rins dos trabalhadores expostos. Ex: hidrocarbonetos clorados – tricloroetileno, tetracloreto
de carbono e percloroetileno.

II.III. Anestésico de ação sobre o sistema formador do sangue: substâncias que se acumulam,
preferencialmente, nos tecidos graxos, medula óssea e sistema nervoso. Ex: benzeno, tolueno e

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

xileno). Vale ressaltar que o benzeno é a substância com maior ação nociva; sua exposição
prolongada, mesmo a baixas concentrações, pode ocasionar anemia, leucemia e câncer.

II.IV. Anestésico de ação sobre o sistema nervoso: substâncias que devido à sua alta solubilidade
em água, apresentam eliminação lenta pelo organismo; daí, a sua manifestação mais acentuada
no sistema nervoso. Ex: álcool etílico e metílico.

II.V. Anestésico de ação sobre o sangue e o sistema circulatório: substâncias em especial aquelas
pertencentes ao grupo dos nitrocompostos de carbono, que, em decorrência de sua utilização
industrial, podem ocasionar alteração na hemoglobina do sangue. Ex: nitrotolueno, nitrito de etila,
nitrobenzeno e anilina.

c. Aerodispersoídes: o termo aerodispersóide aplica-se a uma dispersão de sólidos ou líquidos no


ar, na forma de partículas de tamanho reduzido geradas e projetadas no ambiente de trabalho
mediante diversos processos industriais, e que pode se manter em suspensão por um longo
tempo, permitindo a inalação do contaminante pelos expostos. Subdividem-se em:

o Poeiras: são partículas sólidas produzidas pelo rompimento mecânico de sólidos, como
ocorre em processos de moagem, atrito, impacto etc., ou por dispersão secundária, como o
arraste ou agitação de partículas sedimentadas, como, por exemplo: poeira de sílica,
carvão, talco, farinha etc.

o Fumos: são partículas sólidas produzidas por condensação ou oxidação de vapores de


substâncias sólidas em condições normais, como por exemplo: fumos de soldagem, fumos
presentes em fundições, processos de spray metálico a quente.

o Névoas: são partículas líquidas produzidas por ruptura mecânica de líquidos, como, por
exemplo: névoas de água, de ácido sulfúrico, alcalinas, de pintura, névoas de lagoas de
aeração forçada no tratamento de efluentes.

o Neblinas: são partículas líquidas produzidas por condensação de vapores de substâncias


que são liquidas à temperatura normal.

o Fibras: são partículas sólidas produzidas por ruptura mecânica de sólidos, que se
diferenciam das poeiras porque têm forma alongada, com um comprimento de 3 a 5 vezes
superior ao seu diâmetro.

Exemplos: animal – lã, seda, pêlo de camelo


Vegetal – algodão, linho e cânhamo
Mineral – asbestos, vidros e cerâmicas

7.2. Noções de toxicologia ocupacional


A toxicologia ocupacional estuda os efeitos nocivos causados por substâncias químicas
presentes no ambiente de trabalho, procurando essencialmente, prevenir o desenvolvimento das
lesões tóxicas ou de doença profissional.
Com o crescimento acelerado da indústria e o constante aumento do uso de produtos
químicos, nenhum tipo de ocupação está inteiramente livre da exposição a uma variedade de
substâncias, capazes de produzirem efeitos indesejáveis sobre os sistemas biológicos. A fase de
exposição é fundamental para a ocorrência do fenômeno toxicológico, pois representa a
disponibilidade dos agentes químicos no ambiente de trabalho. As exposições ocorrem pela presença
de substâncias químicas no local de trabalho, quando os compostos químicos são utilizados como
matérias-primas, como produtos intermediários ou finais de processos industriais, ou quando originam
sub-produtos.
Devemos levar em consideração, que nem sempre as exposições são planejadas, pois a
ocorrência de acidentes como o rompimento de uma tubulação ou o derramamento de produtos,

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

determinam exposições excessivas. Outras vezes, desconhecidas impurezas estão presentes nos
produtos químicos, ou são produzidos diferentes compostos na atmosfera por decomposições ou
interações.
A intensidade da exposição depende, entre outros fatores, da concentração do agente tóxico
no local de trabalho, do tipo e intensidade de trabalho, da duração diária de exposição ao longo da vida
profissional, da frequência da exposição pelo trabalhador e das condições ambientais (umidade,
ventilação e temperatura). Algumas possíveis características dos efeitos tóxicos:

o Efeito tóxico agudo: é o que ocorre ou se desenvolve rapidamente após uma única
administração (ou múltipla em 24 horas) de um agente químico.

o Efeito tóxico crônico: é o que decorre de exposições prolongadas, mas a baixas doses do
agente químico. Os efeitos tornam-se perceptíveis somente dias, meses ou mesmo anos após
cessada a exposição.

o Efeito tóxico local: é o que ocorre no sítio do primeiro contato entre o organismo e o agente
químico.

o Efeito tóxico sistêmico: é o que requer absorção e distribuição do agente químico, para um
sítio distante da sua via de penetração, onde produzirá o efeito nocivo.

7.2.1. Vias de exposição


Ocorrendo a exposição, o agente químico poderá ser introduzido no organismo através de uma
ou mais vias, ou seja, via respiratória, via cutânea ou via digestiva.

7.2.1.1. Via respiratória


A via respiratória, é a via de maior relevância do ponto de vista da Higiene Ocupacional, por
algumas características:

o Estado físico dos agentes químicos mais comumente


encontrados no ambiente de trabalho (gases, vapores,
partículas em suspensão, etc);

o Constante contato que o sistema respiratório mantém com


o meio ambiente externo, durante a respiração. Um volume
de ar considerável alcança as vias respiratórias: 5 a 6
litros/minuto, estando o organismo em repouso, e até 30
litros/minuto, dependendo da atividade e esforço físico do
trabalhador, facilitando assim, a introdução do agente
químico no organismo por esta via;

o Pela extensa área pulmonar, com cerca de 90 m2, e


superfície alveolar de aproximadamente 70 m2;

o Por ser permeável e ricamente vascularizada, permitindo


rápida e eficiente absorção;
Figura 14 – Sistema respiratório humano.

o Pela ocorrência de retenção de agentes químicos nas vias


aéreas superiores;
o Pelo fato de que o agente químico absorvido pode atingir centros vitais, como o sistema
nervoso central e outros órgãos, sem passar pelo sistema hepático;

7.2.1.2. Via cutânea


Quando nos referimos ao tecido cutâneo, podemos considerar toda a camada que recobre o
corpo, como as membranas mucosas e semimucosas, tais como, lábios, conjuntiva ocular, canal

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Introdução à Higiene Ocupacional – Sandro T. da Silva

auditivo externo, mucosa gengival e bucal, mucosa do reto e da vagina, além dos anexos pêlos e
unhas.
O tecido cutâneo representa 16% do peso corporal, com uma área de 1,80 m2 e espessuras
que variam desde 0,15 mm nas pálpebras, até 0,8 mm nas palmas das mãos e 1,4 mm nas plantas
dos pés. A via cutânea é constituída principalmente pela epiderme e derme.
A epiderme corresponde à região
mais externa e possui uma cobertura
hidrolipídica, composta por água e eletrólitos
(suor), secretados pelas glândulas
sudoríparas e por gordura, constituída
principalmente por ácidos graxos, secretados
pelas glândulas sebáceas. A camada córnea
constitui-se na principal barreira à penetração
de agentes químicos. Esta proteção pode ter
suas características alteradas por agentes
químicos que interferem nesse mecanismo de
formação das ligações.
Após a epiderme, situa-se a derme,
que é constituída pelo tecido conjuntivo,
encontrando-se neste local as glândulas
sudoríparas e sebáceas, folículos pilosos, Figura 15 – Sistema tegumentar (estrutura da pele).
vasos sanguíneos e linfáticos.
A permeabilidade cutânea pode ser alterada por uma série de fatores e condições, dentre as
quais destacamos:

o Propriedades físico-químicas do agente químico, como hidrossolubilidade, lipossolubilidade,


peso molecular, tamanho molecular;
o Sudorese;
o Presença de tensoativos (substâncias que diminuem a tensão superficial, ou influenciam a
superfície de contato entre dois líquidos);
o Espessura do tecido;
o Temperatura ambiental;
o Circulação periférica;
o Idade;
o Integridade da barreira;
o Capacidade dos agentes químicos de se ligarem aos constituintes teciduais;
o Potencial de biotransformação do tecido cutâneo.

A rica vascularização da derme permite uma rica absorção dos agentes químicos que
conseguem chegar até ela. O tecido subcutâneo (situado após a derme) é rico em lipídios, e além de
servir como reserva energética, funciona como amortecedor de choques. Do contato do agente
químico com o tecido, quatro efeitos podem ocorrer:

o A epiderme, com a película de gordura e suor, atua como barreira efetiva, e o agente químico
não é capaz de altera-la ou danifica-la.
o O agente químico reage com a superfície cutânea, provocando irritações;
o O agente químico penetra, reage com proteínas teciduais e produz sensibilização, reação
alérgica; e
o O agente químico se difunde na epiderme, glândulas sebáceas, sudoríparas, folículos pilosos,
e ingressa na corrente sanguínea para posterior ação sobre os sistemas;

7.2.1.3. Via digestiva


A terceira via de exposição (de menor relevância para a Higiene Ocupacional), é a via
digestiva. Geralmente, é associada com condições inadequadas de higiene e limpeza, como hábitos
de comer, beber ou fumar, no próprio local de trabalho, ou ainda a não higienização das mãos antes
das refeições, fazendo com que os agentes químicos sejam introduzidos no trato gastrointestinal.

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Os riscos decorrentes deste tipo de ingestão costumam ser menores, devido à:

o baixa absorção na corrente sanguínea;


o pH ácido do estômago (pH= 1 a 2);
o pH alcalino da secreação pancreática, no intestino
delgado;
o ação de enzimas digestivas;

Deve ser considerada ainda, fatores como a diluição dos


agentes químicos com água e alimentos e conseqüente
formação de sub-produtos menos solúveis; a seletividade
na absorção gastrointestinal; e por alcançarem o sistema
hepático, submetendo-se aos processos de
biotransformação, antes de serem distribuídos.

É importante lembrar, entretanto, que a via digestiva é


uma via complementar de introdução dos agentes
Figura 16 – Tubo digestivo humano e órgãos anexos.
químicos o organismo, não devendo os seus efeitos serem
desprezados.

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