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M e d it a ç õ e s

no E vangelho
d e M a teu s

J.C. RYLE

EDITORA FIEL da
MISSÃO EVANGÉLICA LITERÁRIA
MEDITAÇÕES NO EVANGELHO
DE MATEUS

Traduzido do Original em Inglês:


Expository Thoughts on the Gospels
M ATTHEW

Copyright © (Typesetting) Editora Fiel 1991

Segunda edição em português - 2002

Todos os direitos reservados. É proibida a


reprodução deste livro, no todo ou em parte,
sem a permissão escritas dos Editores.

Editora Fiel da
M issão Evangélica Literária
Caixa Postal 81
12201-970 São José dos Campos - SP
Prefácio

As Meditações no Evangelho de Mateus, de J.C.Ryle, têm sido


amadas e compartilhadas por várias gerações de crentes, desde sua
primeira edição em 1879. Elas contêm uma simplicidade e uma espi­
ritualidade que têm feito delas o comentário devocional clássico sobre
os evangelhos, na opinião de grande número de leitores.
Procurando pôr à disposição do leitor moderno uma forma mais
popular dessa obra, foram removidos os textos bíblicos (antes impres­
sos na íntegra), embora o leitor seja encorajado a ler cada passagem
selecionada do começo ao Em, antes de iniciar a leitura das próprias
meditações de Ryle. Também omitimos as notas de rodapé, nas quais
Ryle tratara a respeito de questões textuais de uma maneira mais crítica,
embora sem qualquer conexão direta com a exposição propriamente dita.
O texto usado é o da Edição Revista e Atualizada no Brasil, da Socie­
dade Bíblica do Brasil.
Os publicadores confiam que esta nova edição das meditações
devocionais de Ryle alcançará os mesmos alvos e propósitos aos quais
o autor se aplicou pessoalmente, a Em de que, “ com uma oração
fervorosa, possa promover a religião pura e sem mácula, ampliar o co­
nhecimento de muitos sobre a pessoa de Jesus Cristo, e ser um humilde
instrumento na gloriosa tarefa de converter e de edificar almas imortais” .

Os Publicadores
A Genealogia de Cristo
Leia Mateus 1.1-17

É com estes versículos que tem início o Novo Testamento.


Cumpre-nos lê-los sempre com sérios e solenes sentimentos. O livro
à nossa frente não contém a palavra de homens, e, sim, a própria Pa­
lavra de Deus. Cada versículo foi escrito sob a inspiração do Espírito
Santo.
Agradeçamos diariamente a Deus por haver-nos presenteado as
Sagradas Escrituras. O mais pobre brasileiro, que compreenda a sua
Bíblia, sabe mais sobre assuntos religiosos do que os mais sábios filó­
sofos da Grécia ou de Roma.
Não nos esqueçamos da nossa grande responsabilidade. Seremos
todos julgados, no último dia, de acordo com a luz que tivermos re­
cebido. Daquele a quem muito foi dado, também muito será requerido.
Leiamos nossas Bíblias com reverência e diligência, com a honesta re­
solução de dar crédito e de pôr em prática tudo aquilo que delas
aprendermos. Não é coisa de somenos importância a maneira como es­
tivermos usando esse livro. A vida ou a morte eterna dependem da atitude
com que nos utilizarmos dele. Acima de tudo oremos, com toda a hu­
mildade, rogando pela iluminação que nos é dada pelo Espírito Santo.
Somente Ele é capaz de aplicar a verdade aos nossos corações,
permitindo-nos tirar proveito daquilo que ali tivermos lido.
O Novo Testamento começa narrando a vida, a morte e a res­
surreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Nenhuma outra porção da Bíblia
é tão importante quanto essa, e nenhuma outra parte dela é tão plena
e completa. Quatro evangelhos distintos contam a história dos feitos
de Jesus Cristo e da sua morte. Por quatro vezes em seguida lemos as
preciosas narrativas de suas realizações e de suas palavras. Quão agra­
decidos nos deveríamos mostrar por causa disso! Conhecer a Cristo é
ter a vida eterna. Confiar em Cristo é desfrutar de paz com Deus. Se­
guir os passos de Cristo é ser um crente verdadeiro. Estar com Cristo
será o próprio céu. Ninguém pode ouvir falar demais sobre Jesus Cristo.
O evangelho de Mateus principia com uma longa lista de nomes.
6 Mateus 1.1-17

Dezesseis versículos ocupam-se com a genealogia desde Abraão até Davi,


e desde Davi até à família na qual nasceu o Senhor Jesus. Que ninguém
imagine que estes versículos são inúteis. Em toda a criação de Deus,
coisa alguma é inútil. Tanto o musgo mais insignificante quanto os
menores insetos servem a alguma boa finalidade. Por igual modo, coisa
alguma é inútil na Bíblia Sagrada. Cada palavra dela foi outorgada por
inspiração divina. Os capítulos e versículos que, à primeira vista, pa­
recem destituídos de proveito, foram todos dados com algum bom
propósito. Examine novamente aqueles dezesseis versículos e encontrará
neles muitas lições úteis e instrutivas.
Com base nesta lista de nomes, aprenda o fato que Deus sempre
cumpre a sua Palavra. Deus havia prometido que na descendência de
Abraão todas as famílias da terra seriam abençoadas. Deus havia pro­
metido levantar um Salvador, dentre os descendentes de Davi (Gn 12.3;
Is 11.1). Estes dezesseis versículos, por conseguinte, provam que Jesus
era o filho de Davi e o filho de Abraão, e que aquela promessa de Deus
teve o seu devido cumprimento. Pessoas ímpias, que não meditam nas
coisas, deveriam relembrar essa lição, e temer. Sem importar o que
elas pensem, Deus haverá de cumprir a sua Palavra. Se não se arre­
penderem, certamente perecerão. Aqueles que são crentes autênticos
deveriam relembrar essa lição, consolando-se nela. Seu Pai celestial
mostrar-se-á fiel a todos os seus compromissos. Ele asseverou que sal­
vará a todos os que confiarem em Cristo. Ora, se Ele afirmou isso,
então certamente cumprirá a sua Palavra. “ Deus não é homem, para
que minta” (Nm23.19). “ Ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma
pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2.13).
Em seguida, com base nesta mesma lista de nomes, podemos
aprender muito sobre a pecamtnosidade e a corrupção da natureza hu­
mana. Observemos quantos pais piedosos, nesta lista de nomes, tiveram
filhos ímpios e iníquos. Os nomes de Roboão e Jorão, de Amom e Je-
conias, deveriam ensinar-nos lições humilhantes. Esses quatro tiveram
pais piedosos. No entanto, eles mesmos foram homens malignos. A
graça de Deus não é hereditária. É preciso algo mais do que apenas
bom exemplo e bons conselhos, para que alguém se tome filho de Deus.
Aqueles que nascem do alto não nascem nem “ do sangue, nem da von­
tade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13).
Os pais dedicados à oração deveriam orar, dia e noite, para que os seus
filhos nasçam do Espírito.
Aprenda, finalmente, com base nesta lista de nomes, quão grande
é a misericórdia e a compaixão de nosso Senhor Jesus Cristo. Medite
sobre quão contaminada e impura é a nossa natureza; e então pense
sobre a condescendência de Cristo, por haver nascido de mulher e ter-
Mateus 1.1-17 7

-se feito “ em semelhança de homens” (Fp 2.7). Alguns dos nomes so­
bre os quais lemos nesta lista fazem-nos lembrar histórias tristes e
vergonhosas. Alguns são de pessoas nunca mencionadas em qualquer
outra porção das Escrituras. Porém, no fim da lista toda figura o nome
do Senhor Jesus Cristo. Embora Ele seja o Deus eterno, humilhou-se
ao tomar-se um ser humano, com a finalidade de prover a salvação aos
pecadores. Jesus Cristo “ sendo rico, se fez pobre por amor de vós”
(2 Co 8.9).
Deveríamos ler esta relação de nomes com um sentimento de gra­
tidão. Vemos ali que nenhum daqueles que compartilham da natureza
humana pode estar fora do alcance da simpatia e da compaixão de Cristo.
Os nossos pecados talvez tenham sido tão negros e graves como os pe­
cados de algumas pessoas mencionadas pelo apóstolo Mateus. Entretanto,
tais pecados não podem fechar o céu para nós, se nos arrependermos
e confiarmos no evangelho. Se Jesus não se envergonhou por nascer
de uma mulher cuja árvore genealógica continha nomes como de alguns
daqueles sobre quem pudemos ler hoje, então certamente não devemos
pensar que Ele haveria de envergonhar-se por chamar-nos irmãos e
conferir-nos a vida eterna.

A Encarnação e o Nome de Cristo


Leia Mateus 1.18-25

Estes versículos começam revelando-nos duas grandes verdades.


Eles nos informam como o Senhor Jesus Cristo assumiu a nossa natu­
reza ao tornar-se homem. Também nos informam que o nascimento dEle
foi miraculoso. Sua mãe, Maria, era virgem.
Esses são assuntos extremamente misteriosos. São profundezas
para as quais não há sondagem que as possam medir. São verdades
que nenhuma mente humana é abrangente o bastante para as entender.
Não procuremos explicar coisas que estão acima da nossa débil razão.
Contentemo-nos em crer com reverência, sem especular sobre questões
que não somos capazes de entender. Para nós, crentes, é suficiente sa­
ber que para Aquele que criou o mundo nada é impossível. Antes,
devemo-nos satisfazer com a declaração constante no credo dos após­
tolos: “ Jesus Cristo foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu da virgem
Maria” .
Observemos a conduta de José, descrita nestes versículos. Trata-
-se de um belo exemplo de piedosa sabedoria e de terna consideração
pelo próximo. Ele viu “ a aparência de mal” naquela que estava com­
8 Matem 1.18-25

prometida a casar-se com ele. Entretanto, José nada fez de precipitado.


Esperou pacientemente até perceber como lhe convinha agir, de acordo
com seu dever. Com toda a probabilidade, ele deixou a questão aos
cuidados de Deus, em oração. “ Aquele que crer, não foge” (Is 28.16).
A paciência de José foi graciosamente recompensada. Ele rece­
beu uma mensagem direta, da parte de Deus, sobre a razão da sua
ansiedade e, de uma vez para sempre, foi aliviado de todos os seus te­
mores. Quão bom é esperar em Deus! Quem, de todo o coração, deixou
os seus temores aos cuidados do Senhor em oração, para então vê-lo
falhar? “ Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as
tuas veredas” (Pv 3.6).
Notemos os dois nomes conferidos a nosso Senhor, nestes ver­
sículos. Um deles é Jesus, o outro é Emanuel. O primeiro desses nomes
descreve o seu ofício, o segundo, a sua natureza. Ambos são profun­
damente interessantes.
O nome Jesm significa “ Salvador” . Trata-se do mesmo nome
Josué, que aparece no Antigo Testamento. Foi dado a nosso Senhor
porque “ ele salvará o seu povo dos pecados deles” . Esse é o ofício
especial do Senhor Jesus. Ele nos salva da nossa culpa do pecado,
lavando-nos a alma em Seu próprio sangue expiatório. Ele nos salva
do domínio do pecado ao conferir-nos, no próprio coração, o Espírito
santificador. Ele nos salva da presença do pecado quando nos tira deste
mundo, para irmos descansar com Ele. E, finalmente, Ele nos salva
das conseqüências do pecado ao nos proporcionar um glorioso corpo
ressurreto, no último dia. O povo de Cristo é bendito e santo! Eles não
são salvos das tristezas, da cruz e dos conflitos. Porém, são salvos do
pecado, para todo o sempre. São purificados da culpa, mediante o san­
gue de Cristo. São habilitados para o céu mediante o Espírito de Cristo.
Nisso consiste a salvação. Mas, aquele que se apega ao pecado, ainda
não é salvo.
Jesus é um nome que infunde muita coragem aos que vivem so­
brecarregados de pecados. Aquele que é o Rei dos reis e o Senhor dos
senhores, poderia ter-se feito conhecido, com toda a legitimidade, por
algum título mais pomposo. Contudo, não quis fazê-lo. Os dirigentes
deste mundo com freqüência se têm chamado por títulos como “ grande” ,
“ conquistador” , “ herói” , “ magnífico” e outros semelhantes. Mas o
Filho de Deus contentou-se em chamar-se de “ Salvador” . As almas
que desejarem a salvação podem achegar-se ao Pai, com ousadia, tendo
acesso por meio de Jesus Cristo, com toda a confiança. Esse é o seu
ofício, e nisso Ele se deleita — mostrar-se misericordioso. “ Porquanto
Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo,
mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17).
Mateus 1.18-25 9

Jesus é um nome peculiarmente doce e precioso para aqueles


que são crentes. Com freqüência, esse nome os tem beneficiado, quando
o favor de reis e de príncipes teria sido ouvido por eles com pouco in­
teresse. Esse nome tem-lhes dado a paz interior que o dinheiro não pode
comprar. Esse nome lhes tem aliviado as consciências pesadas, confe­
rindo descanso a seus corações entristecidos. O livro de Cantares de
Salomão refere-se à experiência de muitos crentes, ao asseverar: “ como
ungüento derramado é o teu nome” (Ct 1.3). Feliz é a pessoa que con­
fia não meramente em vagas noções a respeito da misericórdia e da
bondade de Deus, mas no próprio “ Jesus” .
O outro nome, que aparece nestes versículos, de maneira alguma
é menos interessante do que aquele que já destacamos. Esse é o nome
conferido a nosso Senhor em vista da sua natureza, como “ Deus que
se manifestou em carne” . Ele é chamado de Emanuel, ou seja, “ Deus
conosco” . Devemos cuidar para que sejam bem claras as noções que
formamos sobre a natureza e a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo.
Esse é um ponto que se reveste da mais capital importância. Deveríamos
ter bem claro, em nossas mentes, que nosso Senhor é perfeito Deus
tanto quanto perfeito homem. Se chegamos a perder de vista esse fun­
damento da verdade, poderemos cair vítimas de temíveis heresias. O
nome “ Emanuel” , pois, é que se reveste de todo o mistério que o cir­
cunda. Jesus é o “ Deus conosco” . Ele assumiu a natureza humana igual
à nossa, em todas as coisas, excetuando somente a tendência para o
pecado. Mas, embora Jesus estivesse “ conosco” em carne e sangue
humanos, ao mesmo tempo Ele nunca deixou de ser o verdadeiro Deus.
Quando lemos os evangelhos, por muitas vezes descobrimos que
nosso Senhor era capaz de ficar cansado, de padecer fome e sede, como
também podia chorar, gemer e sentir dor como qualquer um de nós.
Em tudo isso podemos ver “ o homem” Jesus Cristo. Percebemos a
natureza humana que Ele tomou para Si mesmo ao nascer da virgem
Maria.
Entretanto, nesses mesmos quatro evangelhos, descobriremos que
nosso Salvador conhecia os corações e os pensamentos dos homens,
exercia autoridade sobre os demônios, podia fazer os mais espantosos
milagres apenas com uma palavra, era servido pelos anjos, permitiu
que um dos seus discípulos O chamasse de “ Deus meu” e, igualmente,
disse: “ Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58). E também: “ Eu
e o Pai somos um” (Jo 10.30). Em tudo isso, vemos “o Deus eterno” .
Vemos aquele que “ é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre.
Amém” (Rm 9.5).
Você deseja dispor de um seguro fundamento para a sua fé e es­
perança? Nesse caso, jamais perca de vista a divindade do seu Salvador.
10 Mateus 1.18-25

Aquele em cujo sangue você foi ensinado a confiar é o Deus todo-


-poderoso. Toda a autoridade foi dada a Jesus Cristo, no céu e na terra.
Ninguém poderá arrancar você da mão dEle. Se você é um verdadeiro
crente em Jesus, não permita que o seu coração se perturbe e atemorize.
Você deseja contar com um doce consolo nas ocasiões de sofri­
mento e tribulação? Nesse caso, nunca perca de vista a humanidade
do seu Salvador. Ele é o ser humano Jesus Cristo, que se deitou nos
braços da virgem Maria quando era um pequenino infante, e que co­
nhece os corações humanos. Ele deixa-se sensibilizar pelo senso das
nossas fraquezas. Ele experimentou, pessoalmente, as tentações lança­
das por Satanás. Ele precisou enfrentar a fome. Ele derramou lágrimas.
Ele sentiu dor. Confie nEle o tempo todo, em todas as suas aflições.
Ele nunca haverá de desprezá-lo. Derrame diante dEle, em oração, tudo
quanto estiver em seu ser, e nada Lhe oculte. Ele é capaz de simpatizar
profundamente com o seu povo.
Que estes pensamentos se aprofundem em nossas mentes. Ben­
digamos a Deus pelas encorajadoras verdades contidas no primeiro
capítulo do Novo Testamento. Esse capítulo nos fala de Alguém que
salva “ o seu povo dos pecados deles” . Porém, isso ainda não é tudo.
Esse capítulo revela-nos que o Salvador é o “ Emanuel” , o próprio Deus
conosco; Deus manifesto em carne humana, idêntica à nossa. Essas são
boas novas. São autênticas boas novas. Alimentemos os nossos corações
com essas verdades, por meio da fé, juntamente com ações de graças.

Os Sábios do Oriente
Leia Mateus 2.1-12

Ninguém sabe dizer quem foram esses “ magos” . Os seus nomes


e o seu país de origem nos foram ocultados. Somos informados somente
que eles vieram “ do oriente” .
Não sabemos dizer se eles eram caldeus ou árabes. Também não
sabemos dizer se eles aprenderam a esperar o Cristo, informados por
pessoas das dez tribos de Israel que foram para o cativeiro assírio, ou
por causa das profecias de Daniel. Todavia, pouco importa saber quem
foram eles. A questão que nos interessa mais são as riquíssimas instruções
que recebemos através do relato bíblico sobre eles.
Estes versículos demonstram que pode haver verdadeiros servos
de Deus nos lugares onde menos esperamos encontrá-los. O Senhor
Jesus conta com muitos servos “ secretos” , como aqueles sábios anti­
gos. A história deles sobre a terra talvez seja tão pouco conhecida como
Mateus 2.1-12 11

a história de Melquisedeque, de Jetro ou de Jó. Não obstante, os seus


nomes estão inscritos no livro da vida, e eles serão encontrados na com­
panhia de Jesus Cristo, por ocasião de seu glorioso retorno. Faríamos
bem em não esquecer isso. Não devemos olhar ao redor da terra, para
então dizermos, precipitadamente: “ Tudo é esterilidade” . A graça di­
vina não se limita a lugares e a famílias. O Espírito Santo pode conduzir
almas aos pés de Cristo, sem a ajuda de muitos meios externos. Os ho­
mens podem nascer em lugares distantes, como sucedeu àqueles sábios;
e, no entanto, eles podem tomar-se “ sábios para a salvação” . Neste
exato instante, há alguns que estão na jornada para o céu, e a respeito
dos quais a igreja e o mundo nada sabem. Eles vicejam em lugares se­
cretos, como os lírios que crescem entre os espinhos e “ desperdiçam
a sua fragrância no ar do deserto” . Porém, Cristo ama-os, e eles amam
a Cristo.
Estes versículos também nos ensinam que nem sempre são aque­
les que desfrutam dos maiores privilégios religiosos que mais honram
a Cristo. Poderíamos mesmo pensar que os escribas e os fariseus es­
tariam entre os primeiros que se apressariam a ir a Belém, assim que
se espalhou o rumor do nascimento do Salvador. Porém, não foi isso
que sucedeu. Alguns poucos estrangeiros, vindos de alguma terra longín­
qua, foram os primeiros, se não quisermos mencionar os pastores
referidos por Lucas, a se regozijarem ante o nascimento do menino Je­
sus. “ Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11).
Quão lamentável retrato da natureza humana temos aí! Com quanta fre­
qüência essa mesma atitude pode ser vista entre nós mesmos! Com quanta
freqüência as próprias pessoas que vivem mais perto dos meios da graça
divina são justamente aquelas que mais os negligenciam! Há uma pro­
funda verdade, contida naquele antigo provérbio, que afirma: “ Quanto
mais perto da igreja, tanto mais longe de Deus!” A familiaridade com
as realidades sagradas reveste-se de uma horrível tendência que leva
os homens a desprezarem-nas. Existem muitas pessoas que, por razões
de residência e de conveniência, deveriam ser as primeiras e as mais
empenhadas na adoração ao Senhor Deus. E, no entanto, são sempre
os últimos a fazê-lo. Por outro lado, há aqueles que esperaríamos que
fossem os últimos, mas que são sempre os primeiros.
Estes versículos ensinam-nos que pode haver um conhecimento
meramente intelectual das Escrituras, sem o acompanhamento da graça
divina no coração. Observe como o rei Herodes indagou dos sacerdotes
e dos anciãos dos judeus acerca de “ onde o Cristo deveria nascer” .
Note também com que prontidão eles lhe deram a resposta, mostrando
que estavam perfeitamente familiarizados com o teor das Sagradas Es­
crituras. Entretanto, eles mesmos nunca foram a Belém, em busca do
12 Mateus 2.1-12

Salvador que estava para nascer. Também não quiseram acreditar nEle,
quando Ele começou a ministrar entre o povo. Portanto, seus corações
não estavam tão despertos quanto a sua inteligência. Cuidemos para
nunca nos satisfazermos somente com um conhecimento mental. Esse
conhecimento é excelente, quando usado de forma correta. Não obstante,
uma pessoa pode ser possuidora de um profundo conhecimento intelec­
tual e, no entanto, perecer para sempre. Qual é o estado dos nossos
corações? Essa é a questão que realmente importa. Um pouco de graça
é melhor do que muitos dotes, que por si só não salvam a ninguém.
Mas, a graça divina nos conduz à glória.
A conduta dos magos, descrita neste capítulo, serve-nos de es­
plêndido exemplo de diligência espiritual. Quantas inconveniências e
canseiras devem ter-lhes custado a viagem, desde a sua pátria distante
até a casa onde o menino Jesus foi encontrado por eles! Quantos qui­
lômetros cansativos devem ter percorrido! As fadigas das viagens, no
antigo Oriente, eram muito maiores do que nós, da moderna civilização,
podemos compreender. O tempo que se perdia em uma viagem sem
dúvida era muito mais dilatado do que acontece em nossos dias. Os
perigos encontrados não eram poucos e nem pequenos. Nenhuma des­
sas coisas, entretanto, fez os magos desistirem. Eles resolveram, em
seus corações, que veriam aquele que nascera para ser o “ Rei dos ju­
deus” . E não descansaram senão quando O acharam. Assim,
demonstraram que aquele adágio popular encerra uma grande verdade:
“ Sempre que houver boa vontade, será descoberto o caminho” .
Quem dera que todos os crentes professos estivessem mais dis­
postos a seguir o bom exemplo dos magos. Onde está a nossa abnegação?
De que maneira nos temos preocupado com as nossas próprias almas?
Quanta diligência temos mostrado em seguirmos a Cristo? O que nos
tem custado a nossa religião? Essas são indagações seríssimas que me­
recem a nossa mais séria consideração.
Em último lugar, embora não menos importante, a conduta dos
magos serviu de um notável exemplo de fé. Eles confiaram em Cristo,
ainda que nunca O tivessem visto. Mas, isso não foi tudo. Creram nEle
mesmo depois que os escribas e os fariseus demonstraram a sua incre­
dulidade. Porém, nem mesmo isso foi tudo. Confiaram nEle quando
O viram como um pequeno menino, nos joelhos de Maria; e adoraram-
-No como a um rei. Esse foi o ponto culminante da sua fé. Não
contemplaram a qualquer milagre que pudesse convencê-los. Não ou­
viram a qualquer ensino que tentasse persuadi-los. Não foram
testemunhas de algum sinal de divindade ou de grandiosidade que os
deixasse atônitos. A ninguém mais viram senão a um menino ainda pe­
queno, fraco e impotente, necessitado dos cuidados maternos como
Mateus 2.1-12 13

qualquer um de nós. A despeito disso, quando viram aquele Menino,


creram estar diante do divino Salvador do mundo. E, “ prostrando-se,
o adoraram” .
Em todas as Escrituras, não encontramos fé mais robusta do que
a dos magos. A sua fé merece ser considerada no mesmo nível de fé
do ladrão penitente. Este viu a morte de alguém que fora crucificado
como se fosse um malfeitor; mas, a despeito disso, dirigiu-lhe o seu
apelo, chamando-O de “ Senhor” . Os magos viram um menino ainda
pequeno, no colo de uma mulher pobre; mas, não obstante, O adora­
ram, confessando ser Ele o Cristo. Verdadeiramente bem-aventurados
são aqueles que podem confiar dessa maneira!
Lembremo-nos de que essa é a espécie de fé que Deus deleita-se
em honrar. Podemos encontrar provas disso todos os dias. Onde quer
que a Bíblia Sagrada seja lida, a conduta daqueles magos torna-se co­
nhecida, sendo relatada em memória deles. Sigamos as suas pegadas
de fé. Não nos envergonhemos de confiar em Jesus e de confessar-nos
seus seguidores, mesmo que todas as pessoas ao nosso redor perma­
neçam na indiferença e na incredulidade. Não dispomos nós de mil
evidências mais do que os magos dispuseram, para que creiamos que
Jesus é o Cristo? Não há dúvida que temos. No entanto, onde está a
nossa fé?

A Fuga Para o Egito


e a Residência em Nazaré
Leia Mateus 2.13-23

Observe, nesta passagem da Bíblia, quão verdadeiro é o fato que


os governantes deste mundo raramente mostram-se amigáveis para com
a causa de Deus. O Senhor Jesus desceu do céu a fim de salvar os pe­
cadores e, logo em seguida, conforme somos informados, o rei Herodes
pôs-se a “ procurar o menino para o matar” .
A grandeza pessoal e as riquezas materiais servem de perigosa
possessão para a alma. Aqueles que as buscam não sabem o que estão
procurando. Essas coisas precipitam os homens em muitas tentações.
Elas são favoráveis para encher o coração humano de orgulho, agrilho­
ando as afeições dos homens às coisas terrenas. “ Não foram chamados
muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de
nobre nascimento” (1 Co 1.26). “ Quão dificilmente entrarão no reino
de Deus os que têm riquezas” (Lc 18.24).
Você tem invejado aos ricos e aos importantes? Você tem dito
14 Mateus 2.13-23

em seu coração: “ Oxalá eu estivesse no lugar deles, com a posição e


as riquezas que eles possuem?’’ Cuidado para não ceder diante desse
tipo de sentimento. As próprias riquezas materiais que você tanto ad­
mira podem estar fazendo afundar no inferno, gradualmente, aos seus
possuidores. Um pouco mais de dinheiro poderia decretar a sua ruína.
Você poderia acabar caindo em todo excesso de crueldade e de iniqüi-
dades, à semelhança de Herodes. Por isso, “ tende cuidado e guardai-vos
de toda e qualquer avareza” (Lc 12.15). “ Contentai-vos com as
cousas que tendes” (Hb 13.5).
Pensa você, por acaso, que a causa de Cristo depende do poder
e do patrocínio dos príncipes? Você está enganado. Eles raramente têm
feito qualquer coisa que realmente contribua para o avanço do cristia­
nismo. Com muito maior freqüência, eles têm-se mostrado inimigos
da verdade. “ Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens,
em quem não há salvação” (SI 146.3). Muitas pessoas existem cujas
atitudes parecem-se com as de Herodes. São poucos como o rei Josias,
ou como Eduardo VI da Inglaterra, os quais procuraram fomentar a
causa da religião.
Observemos como o Senhor Jesus foi um “homem de dores ”,
desde a mais tenra infância. As tribulações vinham ao seu encontro,
desde que Ele entrou neste mundo. Sua vida correu perigo, devido ao
medo e à ira de Herodes. José e a mãe de Jesus tiveram de levá-Lo
para bem longe, à noite. Foi assim que eles fugiram “ para o Egito” .
Porém, isso serviu somente de tipo e figura simbólica de toda a expe­
riência de Jesus neste mundo. As ondas da humilhação começaram a
bater contra Ele, desde que ainda era um nenê que se amamentava.
O Senhor Jesus é precisamente o Salvador de que necessitam aque­
les que padecem e vivem na tristeza. Ele sabe muito bem o que queremos
dizer, quando Lhe contamos, em oração, as nossas tribulações. Ele é
perfeitamente capaz de simpatizar conosco quando, sofrendo debaixo
de alguma cruel perseguição, clamamos a Ele. Não devemos esconder
dEle coisa alguma. Devemos fazer dEle um amigo íntimo. Derrame­
mos diante de Jesus os gemidos de nossos corações. Ele tem grande
experiência pessoal com as aflições.
Observemos como a morte pode remover deste mundo os reis,
como a quaisquer outros homens. Quando soa a hora de sua partida,
os dirigentes de milhões de criaturas humanas não são capazes de per­
manecer em vida. O assassino de crianças impotentes precisa enfrentar
a morte. Portanto, José e Maria acabaram recebendo a notícia de que
Herodes já havia falecido. Imediatamente regressaram com toda a se­
gurança para a sua terra natal.
Os crentes verdadeiros nunca deveriam deixar-se perturbar em
Mateus 2.13-23 15

demasia, diante das perseguições que lhes movem os homens. Os cren­


tes podem ser fracos, e seus inimigos poderosos; mas, apesar disso,
não deveriam mostrar-se medrosos. Antes, deveriam relembrar o fato
que “ o júbilo dos perversos é breve, e a alegria dos ímpios momentânea”
(Jó 20.5). Que sucedeu aos Faraós, aos Neros e aos Dioclecianos que
em sua época perseguiram ferozmente aos servos de Deus? Onde estão
alguns perseguidores mais recentes, como a sanguinária Maria da In­
glaterra ou como Carlos IX da França? Esses fizeram o máximo ao seu
alcance para lançar a divina verdade por terra. Mas a verdade tomou
a brotar, e continua vivendo; enquanto que os perseguidores estão mor­
tos e os seus corpos já se dissolveram no solo. Por conseguinte, que
não desmaie nenhum coração crente. A morte é uma poderosa nivela-
dora de todos os homens, podendo retirar qualquer montanha do caminho
da igreja de Cristo. ” 0 Senhor vive para sempre.” Os seus inimigos
são meros homens. A verdade sempre haverá de prevalecer.
Notemos, em último lugar, quão grande lição de humildade nos
é ensinada por meio do lugar onde residiu o Filho de Deus, quando
Ele esteve neste mundo. Ele vivia com sua mãe e com José, em uma
cidade chamada ‘‘Nazaré’’. Nazaré era uma pequena aldeia da Galiléia.
Uma localidade obscura e remota, que não é mencionada no Antigo
Testamento nem por uma única vez. Hebrom, Silo, Gibeom e Betei
eram cidades muito mais importantes. Não obstante, o Senhor Jesus
preteriu a todas elas, preferindo viver em Nazaré. Ele fez isso por hu­
mildade.
Em Nazaré, o Senhor Jesus habitou pelo espaço de trinta anos.
Foi ali que passou da infância para a meninice, da meninice para a adoles­
cência, até atingir a idade adulta. Pouco sabemos acerca de como Jesus
passou aqueles trinta anos. Somos expressamente informados, entretanto,
de que Jesus, ao descer para Nazaré em companhia de Maria e de José,
“ era-lhes submisso” . Que Ele trabalhava em companhia de José, na
carpintaria, também é algo altamente provável. Tão somente podemos
adiantar que cerca de cinco-sextos dos anos que nosso Salvador esteve
na terra foram passados entre os pobres deste mundo, em um retiro
quase absoluto. Na verdade, isso Ele fez por pura humildade.
Aprendamos a ser sábios, por intermédio do exemplo deixado
por nosso Salvador. Sempre nos mostramos por demais inclinados a
buscar coisas grandiosas neste mundo. Descontinuemos essa prática.
Obter uma boa posição profissional, um título e uma elevada posição
social não são coisas tão importantes como pensa a maioria das pessoas.
De fato, constitui um grave pecado ser cobiçoso, mundano, orgulhoso
e dotado de mentalidade carnal. Todavia, não é pecado ser pobre. Não
importa tanto onde residimos, e, sim, o que somos aos olhos do Se-
16 Mateus 2.13-23

nhor. Para onde estaremos indo, quando morrermos? Viveremos para


sempre nos céus? Essas são as coisas dotadas de peso real, às quais
deveríamos dar atenção.
Acima de tudo, porém, esforcemo-nos por imitar a humildade
demonstrada por nosso Salvador. O orgulho é o mais antigo e o mais
disseminado dos pecados. A humildade é a mais rara e bela de todas
as virtudes. Esforcemo-nos por ser humildes. O nosso conhecimento
pode ser insuficiente. A nossa fé pode ser fraca. As nossas forças po­
dem ser pequenas. Entretanto, se formos bons discípulos dAquele que
veio residir em Nazaré, então, seja como for, seremos humildes.

O Ministério de João Batista


Leia Mateus 3.1-12

Estes doze versículos descrevem o ministério de João Batista,


o precursor de nosso Senhor Jesus Cristo. Este é um ministério que
merece a nossa cuidadosa atenção. Poucos pregadores têm obtido tão
notáveis resultados quanto ele. "Saíam a ter com ele Jerusalém, toda
a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão” , conforme lemos em Ma­
teus 3.5. Nenhum outro pregador jamais recebeu tão grandes elogios
da parte do Cabeça da igreja. Jesus chamou João Batista de “ a lâmpada
que ardia e alumiava” (Jo 5.35). O grande Supervisor das nossas almas
declarou pessoalmente: "Entre os nascidos de mulher, ninguém apa­
receu maior do que João Batista” (Mt 11.11). Por conseguinte, estudemos
as principais características do ministério dele.
João Batista falava com clareza a respeito do pecado. Ensinava
a absoluta necessidade de “ arrependimento” , antes que alguém possa
ser salvo. Ele anunciava que o arrependimento precisa ser comprovado
através dos seus “ frutos” . Advertia aos homens que nunca dependes­
sem de meros privilégios externos ou da união externa com alguma igreja
ou religião.
E precisamente esse o ensinamento de que todos carecemos. Es­
tamos naturalmente mortos, somos cegos e dormimos no tocante às
realidades espirituais. Contentamo-nos com uma religião meramente
formal, lisonjeando-nos a nós mesmos com a idéia de que, se freqüen­
tarmos alguma igreja seremos salvos. É mister que alguém nos diga
que, a menos que nos arrependamos e nos convertamos, todos perece­
remos.
João Batista também falou com clareza a respeito de nosso Se­
nhor Jesus Cristo. Ele ensinou ao povo que Alguém “ mais poderoso”
Mateus 3.1-12 17

do que ele apareceria em breve, entre eles. João Batista não passava
de um servo; mas Aquele que viria era o próprio Rei. João Batista só
podia batizar “ em água” ; porém, Aquele que viria após João batizaria
“ no Espírito Santo e no fogo” , além disso tiraria pecados e, algum
dia, haveria de voltar para julgar ao mundo.
Novamente, esse é um ensinamento do qual a natureza humana
tanto precisa. Precisamos ser enviados diretamente a Jesus Cristo. No
entanto, estamos sempre inclinados a parar muito aquém desse alvo.
Queremos descansar nos vínculos com as nossas igrejas locais, gozando
regularmente os benefícios do ministério oficial. No entanto, devería­
mos entender a absoluta necessidade de estarmos unidos ao próprio
Cristo, mediante a fé. Ele é a fonte designada por Deus, onde encon­
tramos a misericórdia, a graça, a vida e a paz. Cada um de nós precisa
estabelecer um relacionamento pessoal com Ele a respeito de nossa alma.
O que sabemos acerca do Senhor Jesus? O que já obtivemos da parte
dEle? É de questões dessa ordem que depende a nossa salvação eterna.
João Batista manifestou-se claramente a respeito do Espírito Santo.
Ele pregou, asseverando que existe tal coisa como o batismo no Espírito
Santo. E ensinou que o ofício especial do Senhor Jesus é conferir o
Espírito aos homens.
Uma vez mais, esse é um ensinamento de que muito precisamos.
Devemos compreender que o perdão dos pecados não é a única coisa
necessária à salvação da alma. Ainda há uma outra coisa, a saber, o
batismo de nossos corações por parte do Espírito Santo. Não somente
precisa haver a operação de Cristo em nosso favor, mas também deve
haver a atuação do Espírito Santo em nós. Não somente devemos ter
o direito de entrar no céu, mediante o sangue vertido por Cristo, mas
também devemos ser preparados para o céu, por intermédio da atuação
do Espírito de Cristo. Jamais devemos descansar, enquanto não tiver­
mos experimentado algo da experiência do batismo no Espírito Santo.
O batismo em água é um grande privilégio nosso. Contudo, também
devemos procurar desfrutar do batismo no Espírito Santo.
João Batista falou claramente sobre o tremendo perigo que cor­
rem os impenitentes e os incréduios. Advertiu aos que o ouviam que
todos deveriam aguardar a “ ira vindoura” . Pregou sobre um “ fogo
inextinguível’ ’, onde a palha, algum dia, ficará queimando eternamente.
Novamente, esse é um ensino bíblico tremendamente importante.
Todos precisamos ser claramente advertidos de que essa não é uma
questão destituída de importância, como se nos pudéssemos arrepender
ou não. Pelo contrário, precisamos relembrar que existem tanto o in­
ferno quanto o céu, e que a punição eterna espera pelos ímpios, da mesma
maneira que a vida eterna destina-se aos piedosos. Somos incrivelmente
18 Mateus 3.1-12

inclinados a nos esquecer disso. Falamos sobre o amor e sobre a mi­


sericórdia de Deus, mas não destacamos de maneira suficiente a sua
justiça e a sua santidade. Devemos usar de grande cautela quanto a esse
particular. Não constitui gentileza autêntica disfarçar, diante das outras
pessoas, os terrores do Senhor. É bom que todos nós saibamos que é
possível às pessoas perderem-se eternamente, e que todos os que não
querem converter-se estão à beira do abismo.
Em último lugar, João Batista referiu-se claramente à segurança
de que desfrutam os crentes autênticos. Ele ensinou que existe um ce­
leiro onde serão recolhidos todos aqueles que pertencem a Jesus Cristo,
como o seu trigo, e que esses serão reunidos ali, quando o Senhor Jesus
vier pela segunda vez.
De novo, esse é um ensino de que a natureza humana precisa
desesperadamente. Os melhores crentes carecem de muito encoraja­
mento. Eles continuam vivendo em seu corpo. Vivem em um mundo
caracterizado pela impiedade. Com freqüência, são tentados pelo diabo.
De vez em quando, é mister que a memória deles seja despertada para
o fato que Jesus nunca os deixará e nem os abandonará. Ele haverá
de conduzi-los, com toda a segurança, nesta vida, e, finalmente, haverá
de encaminhá-los à glória eterna. Eles serão protegidos no dia da ira
do Senhor. Estarão tão seguros quanto Noé esteve na arca.
Que todas essas verdades lancem profundas raízes em nossos
corações. Vivemos em uma época em que os falsos ensinos vêm à tona
por todos os lados. Nunca nos deveríamos esquecer das principais ca­
racterísticas de um ministério evangélico fiel. Quão grande seria a
felicidade da igreja de Cristo se todos os seus ministros se parecessem
mais com João Batista!

O Batismo de Cristo
Leia Mateus 3.13-17

Temos aqui a narrativa do batismo de nosso Senhor Jesus Cristo.


Esse foi o primeiro passo, dado por Jesus, quando deu início ao seu
ministério terreno. Quando um sacerdote judeu começava a oficiar nessa
capacidade, com a idade de trinta anos, lavava-se com água. Quando
o nosso grande Sumo Sacerdote iniciou a grandiosa obra que veio re­
alizar neste mundo, foi publicamente batizado.
Nestes versículos, aprendamos a considerar com reverência a
ordenança cristã do batismo. Uma ordenança da qual o próprio Senhor
Jesus participou não pode ser tida como algo de somenos importância.
Mateus 3.13-17 19

Uma ordenança à qual o grande Cabeça da igreja se submeteu, sempre


deveria ser honorável aos olhos dos verdadeiros crentes.
Poucos pormenores da religião cristã têm sido alvo de tantas in­
terpretações distorcidas quanto o batismo. Poucos desses detalhes têm
requerido tanta defesa e esclarecimento. Armemo-nos, portanto, com
duas precauções de natureza geral.
Por uma parte, tenhamos o cuidado de não atribuir à água do
batismo qualquer valor supersticioso. Não podemos supor que a água
do batismo opere como se fora um encantamento. Não podemos espe­
rar que todas as pessoas que são batizadas recebam automaticamente
a graça de Deus, no momento do seu batismo. Afirmar que todos quan­
tos recebem o batismo obtêm um benefício idêntico e do mesmo nível,
não importando nem um pouco se recebem a cerimônia com fé e oração,
ou no mais completo desinteresse — sim, afirmar tais coisas é contra­
dizer as mais evidentes lições das Escrituras.
Por outra parte, devemos ter o cuidado de não desonrar a or­
denança do batismo. O batismo cristão é desonrado quando o tiramos
de cena, não permitindo que se evidencie na congregação local. Uma
ordenança que foi determinada pelo próprio Cristo não pode ser tratada
dessa maneira. A admissão de todos os novos membros à igreja visível,
quer jovens quer adultos, é um acontecimento que deveria suscitar um
vívido interesse em qualquer assembléia evangélica. Esse é um evento
que deveria invocar as mais fervorosas orações da parte de todos os
crentes dedicados à oração. Quanto mais profundamente convictos fi­
carmos de que o batismo e a graça divina não estão sempre ligados um
ao outro, tanto mais nos sentiremos impulsionados a orar coletivamente
em favor de todos aqueles que forem batizados.
O ato do batismo de nosso Senhor Jesus Cristo foi acompanhado
por circunstâncias que se revestiram de uma solenidade toda peculiar.
Um batismo como o dEle jamais ocorrerá novamente, por mais que
dure este mundo.
Lemos nas Escrituras acerca da presença de todas as três Pes­
soas da bendita Trindade. Deus Filho, tendo-se manifestado em carne
humana, foi batizado. Deus Espírito Santo desceu sobre a cena sob a
forma corpórea de uma pomba, adejando sobre Jesus. E Deus Pai falou
do céu, com voz audível. Em suma, encontramos ali a manifestação
ou presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sem dúvida, deve­
ríamos considerar esse fato como um anúncio público de que a obra
de Jesus Cristo era o resultado do conselho eterno de todas as três Pes­
soas divinas. Foram essas três Pessoas que, no começo da criação,
disseram: “ Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa se­
melhança” (Gn 1.26). Novamente, foi a Trindade inteira que, quando
20 Mateus 3:13-17

do início do evangelho, pareceu dizer: “ Salvemos ao homem” .


Lemos que se fez ouvir " uma voz dos céus”, por ocasião do ba­
tismo de nosso Senhor. Essa foi uma circunstância que se revestiu de
singular solenidade. Nenhuma outra voz do céu jamais se fizera ouvir
antes disso, exceto por ocasião da transmissão da lei mosaica, no monte
Sinai. Ambas essas ocasiões foram marcadas por uma importância ímpar.
Por conseguinte, pareceu conveniente, para o nosso Pai celestial, as­
sinalar ambas essas oportunidades com uma honra toda peculiar. Tanto
na introdução da lei quanto do evangelho o próprio Deus Pai falou.
Quão notáveis e profundamente instrutivas são as palavras de Deus
Pai! “ Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” . Por meio
dessas palavras, Ele declarou que Jesus é o divino Salvador, selado e
nomeado para isso desde toda a eternidade, a fim de realizar a obra
da redenção. Ele proclamou que aceitava a Jesus como o único Media­
dor entre Deus e os homens. O Pai parecia estar publicando ao mundo
que estava satisfeito com Cristo como a propiciação pelos nossos pe­
cados, como o nosso Substituto, como Aquele que pagaria o preço do
resgate pela família condenada de Adão, e como o Cabeça de um povo
remido. Em Cristo, Deus Pai via a sua santa lei magnificada e honrada.
Através dEle Deus pode ser “justo e o justificador daquele que tem
fé em Jesus” (Rm 3.26).
Convém que ponderemos cuidadosamente essas palavras! Elas
nos podem enriquecer extraordinariamente os pensamentos. São pala­
vras que transbordam de paz, de alegria, de consolo e de encorajamento
para todos aqueles que se refugiam no Senhor Jesus Cristo, entregando-
-Lhe as suas almas para serem salvos. Esses podem regozijar-se no
pensamento que, embora continuem pecadores em si mesmos, contudo,
aos olhos de Deus, são considerados justos. Deus Pai considera todos
eles membros de seu Filho amado. Não percebe neles qualquer mácula,
e, por causa de seu Filho, fica satisfeito (2 Pe 1.17).

A Tentação
Leia Mateus 4.1-11

Após o batismo de Jesus, o primeiro acontecimento a ser regis­


trado pelo apóstolo Mateus, na vida do Senhor, foi a tentação. Trata-se
de um assunto profundo e circundado de mistérios. Há muita coisa,
no relato bíblico a esse respeito, que não sabemos esclarecer. No en­
tanto, à superfície da narrativa há lições práticas perfeitamente claras,
que faríamos bem em dar atenção.
Mateus 4.1-11 21

Em primeiro lugar aprendamos que temos, no diabo, um inimigo


real e poderoso. Ele não temeu desfechar os seus ataques nem mesmo
contra o próprio Senhor Jesus. Por três vezes em seguida, ele tentou
ao próprio Filho de Deus. Nosso Salvador foi conduzido ao deserto
com o propósito de ser “ tentado pelo diabo” .
Foi por intermédio do diabo que o pecado entrou no mundo, no
começo da história da humanidade. Foi o diabo que oprimiu Jó, enga­
nou Davi e fez Pedro cair em perigoso pecado. A Bíblia intitula o diabo
de “ homicida” , “ mentiroso” e “ leão que ruge” . Aquele que é o ad­
versário das nossas almas, nunca dorme e nem cochila. É ele que, por
cerca de seis mil anos, vem realizando uma única obra nefanda — ar­
ruinar a homens e mulheres, atirando-os no inferno. Ele é um ser cuja
sutileza e astúcia ultrapassam a toda a compreensão humana, de tal ma­
neira que, com freqüência, ele parece ser um “ anjo de luz” (2 Co 11.14).
Cumpre-nos vigiar e orar diariamente, acerca dos perversos es­
tratagemas do diabo. Não existe inimigo pior do que aquele que nunca
pode ser visto e que nunca morre; que está sempre perto de nós, onde
quer que nos encontremos, e que vai conosco onde quer que formos.
Também não é coisa de somenos a maneira leviana e até humorística
com que os homens se referem ao diabo, de uma maneira tão genera­
lizada. Lembremo-nos a cada dia que, se quisermos ser salvos, não
somente teremos de crucificar a carne e vencer o mundo, mas também
teremos de fazer conforme as Escrituras nos recomendam: “ resisti ao
diabo” (Tg 4.7).
Em seguida, devemos aprender que todos nós não devemos en­
frentar a tentação como se fosse uma coisa estranha. “ Não é o servo
maior do que seu senhor” (Jo 15.20). Se Satanás atacou ao próprio
Jesus Cristo, então, sem dúvida alguma, também atacará aos crentes.
Como seria bom, para todos os crentes, se eles se lembrassem
dessa realidade. No entanto, tendemos muito por esquecer tal coisa.
Com freqüência, os crentes detectam maus pensamentos em suas men­
tes que eles poderiam afirmar que odeiam. Dúvidas, indagações e uma
pecaminosa imaginação são coisas que lhes são sugeridas, contra o que
se revolta todo o seu homem interior. Não devem permitir, no entanto,
que essas coisas destruam a sua paz e os furtem de suas consolações.
E necessário lembrar que o diabo existe, e não deveriam surpreender-se
ao descobrir que ele está sempre bem perto deles. Ser vítima das ten­
tações ainda não é incorrer em pecado. Pecamos somente quando
cedemos diante das tentações, dando lugar ao pecado em nossos corações,
algo que muito deveríamos temer.
Convém que aprendamos, em seguida, que a principal arma que
devemos usar para resistir a Satanás é a Bíblia. Por nada menos de
22 Mateus 4.1-11

três vezes o grande adversário das nossas almas apresentou tentações


diante de nosso Senhor. Por três vezes o oferecimento diabólico foi re­
pelido, sempre mediante o emprego de algum texto bíblico como
motivação: “ Está escrito” .
Essa é apenas uma, dentre muitas razões, pelas quais devemos
ser leitores diligentes das Sagradas Escrituras. A Palavra de Deus é
a espada do Espírito (Ef 6.17). Jamais estaremos combatendo, como
convém ao crente, enquanto não estivermos usando a Bíblia como a
nossa principal arma de ataque e defesa. A Palavra de Deus também
é lâmpada para os nossos pés. Jamais nos conservaremos no elevado
caminho do Rei, que leva ao céu, se não estivermos jornadeando ilu­
minados por essa luz. Com toda a razão podemos temer que, entre os
crentes, a Bíblia não é lida de maneira suficiente. Não basta possuirmos
as Escrituras. É necessário lê-las e orar a respeito de nós mesmos. A
Bíblia não nos fará nenhum bem se, tão-somente, ficar guardada em
nossos lares. Antes, precisamos estar familiarizados com o conteúdo
das Escrituras, com o seu texto armazenado em nossa mente e em nossa
memória. O conhecimento bíblico nunca pode ser adquirido por mera
intuição. Tal conhecimento só pode ser adquirido mediante a leitura
regular, trabalhosa, diária, atenta e desperta. Queixamo-nos do tempo
e do trabalho que isso nos custa? Se assim estivermos fazendo, então
isso será sinal de que ainda não estamos aptos para o reino de Deus.
Em último lugar, devemos aprender o quanto nosso Senhor Je­
sus Cristo é um Salvador que simpatiza conosco. ‘‘Pois naquilo que
ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que
são tentados” (Hb 2.18).
A simpatia de Jesus por nós é uma verdade que deveria ser par­
ticularmente valorizada por todos os crentes. Eles poderão descobrir
que essa é uma verdade que serve de mina de poderosas consolações.
Nunca deveriam esquecer-se de que eles contam com um poderoso Amigo
nos céus, o qual simpatiza com eles em todas as tentações e provações
por que tiverem de passar. Ele sente, juntamente com eles, as suas an­
siedades espirituais. São os crentes tentados, por Satanás, a desconfiarem
da bondade e dos cuidados de Deus por eles? Jesus também foi tentado
desse modo. São eles tentados à presunção, em relação à misericórdia
divina, arriscando-se desnecessariamente e sem garantias? Assim tam­
bém Jesus foi tentado. Eles são tentados a cometer algum grande pecado
particular, como se isso lhes oferecesse alguma vantagem? Essa tam­
bém foi uma das tentações que assaltou a Jesus Cristo. São eles tentados
a fazer alguma errônea aplicação das Escrituras, como justificativa para
a prática do mal? Outro tanto sucedeu a Jesus. Ele é exatamente o Sal­
vador de que precisam aqueles que são tentados. Por conseguinte, que
Mateus 4.1-11 23

os crentes se refugiem no Senhor, pedindo-Lhe ajuda e expondo diante


dEle todas as suas dificuldades. E então haverão de descobrir que Ele
está sempre preparado a simpatizar com eles. Jesus pode entender todas
as suas tristezas.
Oxalá todos nós reconhecêssemos, em nossa própria experiência
diáTia, o quanto vale um Salvador cheio de simpatia! Não há nada que
se lhe possa comparar, neste nosso mundo frio e enganador. Aqueles
que buscam encontrar a felicidade neste mundo e desprezam a religião
revelada nas Escrituras, não fazem a mínima idéia do verdadeiro con­
solo que estão perdendo.

Começo do Ministério de Cristo


e a Chamada dos Primeiros Discípulos
Leia Mateus 4.12-25

Nestes versículos encontramos o começo do ministério de nosso


Senhor entre os homens. Ele dá início aos seus labores entre uma po­
pulação ignorante e obscurecida. Ele escolhe os homens que serão seus
companheiros e discípulos e confirma o seu ministério através de mi­
lagres, os quais chamam a atenção de “ toda a Síria” e atraem grandes
multidões para ouvi-lo.
Observemos a maneira pela qual nosso Senhor deu início à sua
poderosa realização: “ passou Jesus a pregar” . Não existe outra ati­
vidade tão honrada como a de um pregador. Não há trabalho humano
tão importante para as almas dos homens. Esse é um ofício do qual
o próprio Filho de Deus não se envergonhou. Através desse ofício Ele
selecionou os seus doze apóstolos. Foi um ofício que o apóstolo Paulo,
já idoso, recomendou de maneira especial a Timóteo, quase que em
seu último alento: “ prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer
não” (2 Tm 4.2). Acima de qualquer outro, esse é o instrumento que
Deus se agrada em usar na conversão e edificação das almas humanas.
Os dias mais resplandecentes da igreja de Cristo sempre foram aqueles
em que a pregação do evangelho foi mais honrada. Enquanto que os
dias mais negros da igreja sempre têm sido aqueles em que a prédica
foi desvalorizada. Honremos as ordenanças e as orações públicas, nas
igrejas locais, e utilizemo-nos reverentemente desses meios da graça
divina. Porém, cuidemos em nunca permitir que essas práticas venham
a tomar o lugar que pertence à pregação do evangelho.
Prestemos atenção à primeira doutrina que o Senhor Jesus pro­
clamou ao mundo. Ele começou, afirmando: “ Arrependei-vos” . A
24 Mateus 4.12-25

necessidade de arrependimento é um dos grandes fundamentos que estão


à base do cristianismo. É mister pregarmos que toda a humanidade,
sem exceção, se arrependa. Importantes ou não, ricos ou pobres, todos
os homens têm caído no pecado e são culpados diante de Deus. Todos
precisam arrepender-se e converter-se, se porventura quiserem ser sal­
vos. O verdadeiro arrependimento não é alguma questão superficial.
Antes, envolve uma completa mudança do coração no que concerne
ao pecado, uma transformação que se demonstra mediante uma santa
contrição e humilhação, com uma sincera confissão dos pecados, diante
do trono da graça, e uma quebra total de hábitos pecaminosos, bem
como um ódio permanente a todo pecado. Tal arrependimento é o acom­
panhante inseparável da fé salvadora em Jesus Cristo. Devemos valorizar
grandemente essa doutrina. Ela se reveste da maior importância. Ne­
nhum ensino cristão pode ser considerado sadio se não puser sempre
em evidência “ o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Se­
nhor Jesus Cristo” (At 20.21).
Observemos também a classe de homens a quem o Senhor Jesus
escolheu para serem seus discípulos. Eles pertenciam às camadas mais
pobres e humildes da sociedade. Pedro, André, Tiago e João eram to­
dos “ pescadores” . A religião de nosso Senhor Jesus Cristo não visava
somente aos ricos e cultos; destinava-se ao mundo todo, e a maior parte
da humanidade sempre será pobre. A pobreza e a ignorância literária
excluíam milhares de pessoas da atenção dos orgulhosos filósofos do
mundo pagão. Mas isso não impede a ninguém de ocupar mesmo os
mais altos escalões do ministério cristão. Um certo homem é humilde?
Ele sente o peso dos seus pecados? Ele está disposto a ouvir a voz de
Cristo e a segui-Lo? Nesse caso, ele pode ser o mais pobre dos pobres,
mas, no reino dos céus haverá de ocupar uma posição tão importante
quanto qualquer outra pessoa. O intelecto e o dinheiro de nada valem,
sem a graça de Deus.
A religião de Cristo deve ter tido a sua origem no céu. Do con­
trário, nunca teria prosperado e se propagado por toda a terra, conforme
tem sucedido. É inútil aos incrédulos tentarem dar resposta a esse ar­
gumento. Ele não pode ser retorquido. Uma religião que não lisonjeia
aos ricos, aos grandes e aos bem instruídos, uma religião que não dá
margem às inclinações carnais do coração humano, uma religião cujos
primeiros mestres foram pobres pescadores, destituídos de riquezas ma­
teriais, posição social ou poder, uma religião como essa jamais teria
transtornado o mundo, se não procedesse de Deus. Por um lado, con­
templamos os imperadores romanos e os sacerdotes do paganismo, com
os seus esplêndidos santuários! Por outro lado, vemos alguns poucos
trabalhadores braçais, cristãos, sem grande instrução formal, mas anun­
Mateus 4.12-25 25

ciando o evangelho! Acaso, já houve outros dois grupos tão diferentes


um do outro? Os que eram fracos mostraram-se fortes; e os que eram
fortes mostraram-se fracos. O paganismo ruiu, e o cristianismo tomou
o seu lugar. Portanto, o cristianismo deve proceder de Deus.
Em último lugar, observemos o caráter geral dos milagres por
meio dos quais nosso Senhor confirmou a sua missão. Nesta passagem
bíblica, esses milagres são vistos em geral. Porém, um pouco mais
adiante, haveremos de vê-los descritos em particular. Mas, qual é o
caráter desses milagres? Eles foram alicerçados sobre a misericórdia
e a bondade. Nosso Senhor “ percorria... toda a Galiléia, ensinando
nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de
doenças e enfermidades entre o povo” .
Esses milagres tiveram por propósito ensinar-nos quão poderoso
é nosso Senhor. Aquele que era capaz de curar enfermos com um sim­
ples toque de mão e expelir demônios com uma palavra, também é
poderoso para “ salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus”
(Hb 7.25). Sim, Ele é o Todo-poderoso.
Esses milagres têm, igualmente, a finalidade de servir de símbolos
ou emblemas da habilidade de nosso Senhor como médico espiritual.
Aquele, diante de quem nenhuma enfermidade física mostrou ser in­
curável, é poderoso para curar cada um dos males que afligem as nossas
almas. Não há coração partido que Ele não saiba sarar. Não há ferida
de consciência que Ele não possa fazer cicatrizar. Todos nós somos
indivíduos caídos, esmagados, despedaçados e atingidos por alguma
praga, por causa do pecado. Mas Jesus, por meio de seu sangue e Es­
pírito, pode curar-nos inteiramente. Tão-somente devemos ir até Ele.
Esses milagres têm também o propósito de mostrar-nos o coração
de Jesus — o Salvador extremamente compassivo. Ele não rejeitava
a ninguém que viesse até Ele. Ele nunca rejeitou a quem quer que fosse,
por mais enfermo ou repugnante que estivesse. Os seus ouvidos esta­
vam dispostos a dar atenção a todos, e Ele estava sempre pronto a ajudar
a todos com um coração terno para com todos. Não existe bondade que
se possa comparar à sua. A compaixão de Jesus jamais falhará.
Nunca nos deveríamos esquecer de que Jesus Cristo “ ontem e
hoje é o mesmo, e o será para sempre” (Hb 13.8)! Exaltado nos céus,
à mão direita de Deus Pai, em coisa alguma Ele se modificou. Ele con­
tinua perfeitamente capaz de salvar, igualmente disposto a acolher-nos,
e da mesma maneira preparado para ajudar-nos, tal e qual fazia há quase
vinte séculos passados. Teríamos nós colocado diante dEle as nossas
petições naqueles dias? Façamos a mesma coisa hoje. Ele pode curar
“ toda sorte de doenças e enfermidades” .
26 Mateus 5.1-12

As Bem-aventuranças
Leia Mateus 5.1-12

Os três capítulos que têm início com estes versículos merecem


atenção especial da parte de todós os estudiosos da Bíblia. Esses ca­
pítulos contêm o que usualmente se chama de “ Sermão da Montanha” .
Cada palavra do Senhor Jesus deveria ser reputada como preciosa
pelos que se dizem crentes. É a voz do nosso supremo Pastor, a palavra
do grande Superintendente e Cabeça da igreja. É o Senhor quem está
falando. É a palavra dAquele que falava como ninguém jamais falou,
a voz dAquele por meio de quem seremos julgados no último dia.
Gostaríamos de saber que tipo de pessoa deveria ser o crente?
Gostaríamos de saber que caráter cristão deveria ser o nosso alvo? Gos­
taríamos de saber qual a conduta e os hábitos mentais que deveríamos
cultivar como seguidores de Jesus? Nesse caso, estudemos com
freqüência o Sermão da Montanha. Meditemos constantemente sobre
as sentenças de Cristo, e submetamo-nos à prova de acordo com elas.
Não devemos deixar de considerar a quem o Senhor Jesus chamou de
“ bem-aventurados” no começo do sermão. Aqueles que são abenço­
ados pelo nosso Sumo Sacerdote são verdadeiramente benditos.
Jesus chamou de bem-aventurados aos humildes de espírito.
Referia-se aos humildes, modestos quanto a seu auto-conceito, auto-
-rebaixados. Apontava para os que estão profundamente convictos de
sua própria pecaminosidade diante de Deus. Aqueles que não “ são sá­
bios aos seus próprios olhos, e prudentes em seu próprio conceito” (Is
5.21). Esses não se consideram “ ricos e abastados” (Ap 3.17); não
ficam fantasiando de que nada precisam. Antes, consideram-se infeli­
zes, miseráveis, pobres, cegos e nus. Todos esses são bem-aventurados!
No alfabeto do cristianismo, a humildade é a primeira letra. Devemos
começar bem por baixo, se quisermos atingir grandes alturas espirituais.
O Senhor Jesus também chamou de bem-aventurados àqueles que
choram. Com isso Ele quis dar a entender aqueles que se entristecem
por causa do pecado, e que também se lamentam diariamente por causa
das suas próprias falhas. São esses os que se preocupam mais por causa
do pecado do que por qualquer outra coisa na face da terra. A memória
dessas coisas deixa-os profundamente tristes. Tal carga lhes parece in­
tolerável. Bem-aventurados são todos os tais. “ Sacrifícios agradáveis
a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito não
o desprezarás, ó Deus” (SI 51.17). Algum dia, eles não mais derra­
marão lágrimas, “ porque serão consolados” .
Mateus 5.1-12 27

O Senhor Jesus também chama de bem-aventurados aos mansos.


Ele tinha em mente aqueles cujo espírito é paciente e satisfeito. Os que
se dispõem a serem com pouca honra neste mundo, capazes de sofrer
injustiças sem guardar ressentimentos. Os que dificilmente se deixam
irritar. Como Lázaro na parábola, eles estão contentes em esperar pelas
boas coisas que Deus tem para dar. Bem-aventurados são todos esses!
A longo prazo, eles nunca são os perdedores. Chegará o dia quando
eles “ reinarão sobre a terra” (Ap 5.10).
O Senhor Jesus chama de bem-aventurados os que têm fome e
sede de justiça, os que desejam acima de tudo ajustar-se à mente do
Senhor. Eles anelam não tanto por se tomarem ricos ou poderosos ou
eruditos, mas por serem santos. Bem-aventurados são todos os tais! Um
dia terão o suficiente do que desejam. Um dia acordarão revestidos à
semelhança de Deus e serão satisfeitos (SI 17.15).
Jesus chama de bem-aventurados aos misericordiosos, os que se
mostram compassivos para com os seus semelhantes. Eles têm com­
paixão de todos quantos sofrem, seja por causa do pecado ou de
adversidades, e desejam ternamente suavizar tais sofrimentos. Praticam
boas obras e esforçam-se por fazer o bem. Bem-aventurados são todos
os tais! Tanto nesta vida quanto na vindoura, terão uma rica colheita.
O Senhor Jesus também considerou bem-aventurados os que são
íimpos de coração. Ao assim dizer, Ele pensava naqueles que não al­
mejam apenas uma conduta externa correta, e, sim, a santidade interior.
Esses tais não se satisfazem com uma mera exibição externa de reli­
giosidade. Antes, esforçam-se por manter o coração e a consciência
isentos de ofensa, desejando servir a Deus com o espírito e com o ho­
mem interior. Bem-aventurados são todos esses! O coração é o próprio
homem. “ O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (1 Sm
16.7). Quanto mais a mente estiver voltada para as coisas espirituais,
maior comunhão terá o homem com Deus.
O Senhor Jesus chama de bem-aventurados aos pacificadores,
isto é, os que exercem a sua influência pessoal a fim de promoverem
a paz e o amor; tanto em particular como em público, em casa ou no
estrangeiro. São os que se esforçam para que todos os homens se amem
mutuamente, ensinando aquele evangelho que diz: “ o cumprimento da
lei é o amor” (Rm 13.10). Bem-aventurados são todos esses, pois, estão
realizando a mesma obra que o Filho de Deus iniciou, quando veio à
terra pela primeira vez, e que Ele terminará ém sua segunda vinda.
Por fim, o Senhor Jesus chama de bem-aventurados os persegui­
dos por causa da justiça, os que são alvos de zombarias e risos, os
desprezados e que sofrem abusos somente porque se esforçam por viver
como verdadeiros crentes. Bem-aventurados são todos os tais! Esses
28 Mateus 5.1-12

bebem do mesmo cálice de que o Mestre bebeu. Eles O estão confes­


sando perante os homens, e Ele, por sua vez, haverá de confessá-los
perante Deus Pai e os anjos no último dia. “ É grande o vosso galardão
nos céus.”
Estas são as oito pedras fundamentais que o Senhor Jesus lançou,
logo no começo do seu Sermão da Montanha. Oito grandes verdades,
oito grandes testes foram colocados diante de nós. Marquemos bem cada
uma delas, e assim aprenderemos a sabedoria!
Aprendamos quão Inteiramente contrários aos princípios deste
mundo são os princípios ensinados por Cristo. É inútil tentar negar esse
fato. São princípios diametralmente opostos entre si. O mundo menos­
preza as próprias virtudes que nosso Senhor Jesus exaltou. Orgulho,
falta de consideração, espírito de exaltação, mundanismo, formalismo,
egoísmo e falta de amor, que proliferam neste mundo por toda a parte,
são coisas que o Senhor Jesus condenou.
Aprendamos, da mesma forma, quão tristemente diferentes da
vida prática de muitos professos “cristãos” são os ensinos de Jesus
Cristo. Onde encontraremos, entre os que freqüentam os cultos nas igre­
jas locais, homens e mulheres que se esforçam por viver segundo os
padrões acerca dos quais acabamos de ler? Infelizmente, há muitas razões
para temer que um grande número de pessoas batizadas são totalmente
ignorantes acerca do que o Novo Testamento contém!
Acima de tudo, aprendamos quão santos e espirituais todos os
crentes deveriam ser. Jamais deveriam ter como alvo qualquer padrão
inferior ao do Sermão da Montanha. O cristianismo é eminentemente
uma religião prática. A sã doutrina é a sua raiz e fundamento, mas o
seu fluxo deveria sempre ser uma vida santa. E, se quisermos saber
o que é uma vida santa, consideremos então, com freqüência, quem
são aqueles a quem Jesus chamou de “ bem-aventurados” .

O Caráter dos Verdadeiros Crentes


O Ensino de Cristo e o Antigo Testamento
Leia Mateus 5.13-20

Nestes versículos, o Senhor Jesus trata de dois assuntos. Um de­


les é o caráter que os verdadeiros crentes precisam defender e manter
neste mundo. O outro é a relação entre as doutrinas que Ele ensinava
e os ensinos do Antigo Testamento. É muito importante termos uma
visão bem clara sobre ambos os assuntos.
Os verdadeiros cristãos devem ser neste mundo como o sai. Ora,
Mateus 5.13-20 29

o sal tem um sabor todo peculiar, diferente de qualquer outra coisa.


Quando misturado com outras substâncias, preserva da corrupção. O
sal transmite um pouco do seu sabor a tudo com o que é misturado.
Só é útil enquanto preserva o sabor, do contrário para nada mais presta.
Somos crentes verdadeiros? Atentemos para a nossa posição e nossos
deveres neste mundo!
Os verdadeiros crentes devem viver como luzes neste mundo. A
propriedade da luz é ser totalmente diferente das trevas. A menor cen­
telha em uma sala escura pode ser vista prontamente. Dentre todas as
coisas criadas, a luz é a mais útil. A luz fertiliza o solo. A luz guia.
A luz reanima. A luz foi a primeira coisa que Deus trouxe à existência.
Sem a luz, este mundo seria um vazio obscuro. Somos crentes verda­
deiros? Nesse caso, consideremos novamente a nossa posição e as nossas
responsabilidades!
Se estas palavras têm algum significado, então, certamente, Je­
sus intenciona nos ensinar, com estas duas figuras, sal e luz, que precisa
haver algo notório, distintivo e peculiar a respeito do nosso caráter,
se somos verdadeiros cristãos. Se desejamos ser reconhecidos como
pertencentes a Cristo, como o povo de Deus, jamais poderemos passar
a vida desocupados, pensando e vivendo como fazem as demais pessoas
neste mundo. Temos a graça divina? Então ela precisa ser vista. Temos
o Espírito Santo? Então deve haver o fruto. Temos uma religião sal­
vadora? Então deve haver uma diferença de hábitos e preferências e
também uma mentalidade diferente entre nós e aqueles que pensam se­
gundo o mundo. É perfeitamente claro que o cristianismo verdadeiro
envolve algo mais do que ser batizado e ir à igreja. “ Sal” e “ luz” ,
evidentemente, implicam numa peculiaridade, tanto no coração quanto
na vida diária, tanto na fé quanto na prática. Se nos consideramos sal­
vos, devemos ousar ser singulares e diferentes da humanidade em geral.
A relação entre o ensino de nosso Senhor e o ensino do Velho
Testamento foi esclarecida por Jesus mediante uma sentença incisiva:
“ Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para re­
vogar, vim para cumprir” . Estas são palavras dignas de nota. Elas foram
profundamente importantes quando proferidas, porquanto davam res­
posta à ansiedade natural dos judeus quanto a este assunto. São palavras
que continuarão sendo tremendamente importantes, enquanto este mundo
continuar, como um testemunho de que a religião do Antigo e Novo
Testamento forma um todo harmônico.
O Senhor Jesus veio a este mundo a fim de cumprir as predições
dos profetas, os quais desde os tempos antigos haviam profetizado que,
um dia, viria ao mundo um Salvador. E Ele veio para cumprir a lei
cerimonial, tornando-se o grande sacrifício pelo pecado, para o qual
30 Mateus 5.13-20

todas as oferendas da lei mosaica tinham sempre apontado. Ele veio


para cumprir a lei moral, prestando-lhe obediência perfeita, o que nós
mesmos jamais poderíamos ter feito. Ele também cumpriu a lei pagando
com o seu sangue reconciliador a penalidade pela nossa quebra da lei,
uma penalidade que nós jamais poderíamos ter pago. De todas essas
maneiras, Ele exaltou a lei de Deus, e fez a sua importância ainda mais
evidente. Em suma, Ele engrandeceu a lei e a fez gloriosa (Is 42.21).
Há profundas lições de sabedoria a serem aprendidas por meio
destas palavras de nosso Senhor. Portanto, meditemos cuidadosamente
sobre elas, entesourando-as em nosso coração.
Tomemos cuidado para não desprezar o Anttgo Testamento, sob
nenhum pretexto. Nunca demos ouvidos àqueles que recomendam pôr
de lado o Antigo Testamento, como se fosse um livro antiquado, ob­
soleto e inútil. A religião do Antigo Testamento é embrião do
cristianismo. O Antigo Testamento é o evangelho em botão; o Novo
Testamento é evangelho aberto em flor. O Antigo Testamento é o evan­
gelho brotando; o Novo Testamento é o evangelho já em espiga formada.
Os santos do Antigo Testamento enxergaram muitas coisas como que
por um espelho, obscuramente. Porém, todos contemplavam pela fé
o mesmo Salvador, e foram guiados pelo mesmo Espírito Santo que
hoje nos guia. Estas não são questões de pouca importância. O igno­
rante desprezo pelo Antigo Testamento dá origem a muita infidelidade.
Também devemos acautelar-nos em não desprezar a lei dos dez
mandamentos. Nem por um momento suponhamos que essa lei tenha
sido posta de lado pelo evangelho, ou que os crentes não têm nada a
ver com ela. A vinda de Cristo em nada alterou a posição dos dez man­
damentos, nem mesmo a largura de um fio de cabelo. O que ela fez
foi exaltar e destacar a sua autoridade (Rm 3.31). A lei dos dez man­
damentos é a medida eterna de Deus para o que é certo e o que é errado.
Através da lei é que vem o pleno conhecimento do pecado. Pela lei
é que o Espírito mostra aos homens a sua necessidade de Cristo e os
leva a Ele. Cristo deixou ao seu povo a lei dos dez mandamentos como
norma e guia para uma vida santa. Em seu devido lugar, a lei dos dez
mandamentos é tão importante quanto o “ glorioso evangelho” . A lei
não pode nos salvar. Não podemos ser justificados por ela. Porém, nunca
jamais a desprezemos. O menosprezo pela lei dos dez mandamentos
é um sintoma de ignorância e insanidade em nossa religião. O verda­
deiro crente autêntico tem “ prazer na lei de Deus” (Rm 7.22).
Em último lugar, cuidemos em não supor que o evangelho tenha
rebaixado o padrão de santidade pessoal, ou que o cristão não deva
ser tão estrito e cuidadoso em sua conduta diária quanto o eram os ju­
deus. Este é um terrível engano, mas que, infelizmente, é muito comum.
Mateus 5.13-20 31

Bem ao contrário, os santos do Novo Testamento deveriam exceder em


santidade aos santos dos tempos antigos, pois estes só tinham o Velho
Testamento para lhes servir de orientação. Quanto mais luz temos, maior
o nosso amor a Deus. Quanto mais claramente enxergamos nosso pleno
perdão em Cristo, tanto mais devemos trabalhar de coração para a sua
glória. Sabemos o quanto custou a nossa redenção, melhor do que os
santos do Antigo Testamento souberam. Já lemos o que aconteceu no
Getsêmani e no Calvário, mas eles só viram estas coisas indistinta e
obscuramente, como algo que ainda estava por acontecer. Que jamais
nos esqueçamos das nossas obrigações! O crente que se satisfaz com
um baixo padrão de santidade pessoal ainda tem muito a aprender.

A Espiritualidade da Lei
Comprovada por Três Exemplos
Leia Mateus 5.21-37

Estes versículos merecem a mais cuidadosa atenção por parte de


todos os leitores da Bíblia. Um correto entendimento das doutrinas que
eles contêm é fundamental ao cristianismo. O Senhor Jesus aqui explica
mais completamente o significado das suas palavras, “ não vim para
revogar a lei, vim para cumprir” . Ele nos ensina que o evangelho mag­
nifica a lei e exalta a sua autoridade. Ele nos mostra que a lei, conforme
Ele a tinha apresentado, era uma regra muito mais espiritual e capaz
de perscrutar o coração do que a maioria dos judeus imaginava. E isto
Ele comprovava selecionando três dos dez mandamentos, como exem­
plos para o que queria dizer.
Jesus expôs o sexto mandamento. Muitos israelitas pensavam es­
tar cumprindo esta parte da lei de Deus, simplesmente por não cometerem
homicídio na prática. O Senhor Jesus, entretanto, mostra que as exi­
gências desse mandamento vão muito além. Tal mandamento condena
até mesmo a linguagem iracunda e repleta de rancor, especialmente
quando utilizada sem motivo justificado. Salientemos bem esse ponto.
Podemos ser perfeitamente inocentes no que tange a tirar a vida de ou­
trem e, no entanto, podemos tornar-nos culpados de transgredir o sexto
mandamento.
Jesus apresenta o sétimo mandamento. Muitos supunham estar
cumprindo esta parte da lei de Deus, apenas por não praticarem adultério.
Mas, o Senhor Jesus nos ensina que podemos quebrar esse mandamento
em nossos pensamentos, em nosso coração e em nossa imaginação,
32 Mateus 5.21-37

mesmo quando a nossa conduta exterior é moral e correta. O Deus com


quem tratamos vê muito além de nossas ações. Para ele, até mesmo
um rápido lançar de olhos pode ser pecado.
Jesus, apresenta o terceiro mandamento. Muitos se iludiam pen­
sando estar cumprindo esta parte da lei de Deus, contanto que não
jurassem falsamente e cumprissem os seus votos. Mas o Senhor Jesus
proíbe toda e qualquer espécie de juramento vão. Todo o juramento
em nome de coisas criadas, mesmo quando o nome de Deus não está
envolvido — todo juramento que tome a Deus como testemunha, exceto
nas ocasiões mais solenes, é um grande pecado.
Tudo isso é muito instrutivo. Este ensinamento deveria fazer-nos
refletir com grande seriedade. Ele nos diz em alta voz, que sondemos
cuidadosamente os nossos corações. Mas, o que nos ensina?
Ele nos ensina a tremenda santidade de Deus. Deus é um Ser
puríssimo e perfeitíssimo, que percebe falhas e imperfeições onde os
homens não vêem coisa alguma. Deus lê os motivos dos nossos corações.
Ele observa não somente os nossos atos, mas também as nossas pala­
vras e os nossos pensamentos. “ Eis que te comprazes na verdade no
íntimo” (SI 51.6). Oxalá os homens considerassem esse aspecto do ca­
ráter de Deus muito mais do que costumam fazer! Então não haveria
lugar para o orgulho, para a justiça-própria e para a indiferença, se ao
menos os homens vissem a Deus “ conforme Ele é” .
Ele nos ensina a excessiva ignorância dos homens quanto às re­
alidades espirituais. Existem milhares e milhares de professos cristãos,
como é de temer, que não sabem mais a respeito dos requisitos da lei
de Deus do que os mais ignorantes judeus. Conhecem a letra dos dez
mandamentos suficientemente bem. Mas, à semelhança do jovem rico,
julgam-se guardadores da lei: “ tudo isso tenho observado, desde a mi­
nha juventude” (Mc 10.20). Para eles é inconcebível que se possa quebrar
o sexto e sétimo mandamentos mesmo sem praticar qualquer ato exte­
rior ou pecado explícito. E assim vão vivendo, satisfeitos consigo mesmos
e plenamente contentes com a sua mini religião. Felizes mesmo são
os que realmente compreendem a lei de Deus.
O sexto mandamento nos ensina a enorme necessidade do sangue
expiatório de Jesus Cristo para nos salvar. Qual o homem ou mulher
neste mundo que poderia apresentar-se diante de Deus e declarar-se “ ino­
cente” ? Há alguém que tenha atingido a idade da razão sem haver
quebrado os mandamentos milhares de vezes? “ Não há justo, nem se­
quer um” (Rm 3.10). Sem um Mediador poderoso, todos nós seríamos
condenados no dia do juízo. A ignorância do real significado da lei é
uma razão evidente por que tantas pessoas não dão valor ao evangelho,
contentando-se em viver um cristianismo mesquinho e formal. Eles não
Mateus 5.21-37 33

percebem o rigor e a santidade dos dez mandamentos da lei de Deus.


Se percebessem esse fato, não descansariam enquanto não estivessem
seguras em Jesus Cristo.
Em último lugar, esta passagem nos ensina a enorme importância
de se evitar tudo que possa dar ocasião ao pecado. Se nós realmente
desejamos ser santos, diremos como o salmista: “ Guardarei os meus
caminhos, para não pecar com a língua” (SI 39.1). Precisamos estar
prontos a resolver querelas e desacordos, para que tais coisas não nos
conduzam a pecados ainda mais graves: “ Como o abrir-se da represa
assim é o começo da contenda; desiste, pois, antes que haja rixas” (Pv
17.14). Precisamos nos empenhar em crucificar a nossa carne e mor­
tificar os nossos membros. Devemos estar dispostos a fazer qualquer
sacrifício, e até mesmo trazer sobre o corpo a incomodidade física, an­
tes do que dar lugar ao pecado. Devemos guardar os nossos lábios, como
que por um freio, e exercitar uma constante vigilância sobre nossas pa­
lavras. Que os homens nos chamem de “ muito restritos ” , se assim
desejarem. Que eles digam que somos “ por demais meticulosos” , se
isso lhes agrada. Não nos deixemos abalar com isso. Estamos apenas
fazendo aquilo que nosso Senhor Jesus Cristo nos manda, e, sendo as­
sim, não temos de que nos envergonhar.

A Lei Cristã do Amor


Leia Mateus 5.38-48

Encontramos neste trecho as normas de nosso Senhor Jesus Cristo


quanto à nossa conduta de uns para com outros. Os que desejarem saber
como deveriam agir e sentir, no tocante ao próximo, devem estudar
com freqüência estes versículos. Eles merecem ser escritos em letras
de ouro. Estes versículos têm sido elogiados até mesmo pelos adver­
sários do cristianismo. Observemos atentamente o que eles contêm.
O Senhor Jesus proibe qualquer coisa parecida com um espirito
vingativo, que não esteja disposto a perdoar. A inclinação por ressentir-
-se diante das ofensas, a prontidão em ficar ofendido, uma disposição
contenciosa e briguenta, a insistência em reinvidicar nossos direitos —
tudo isto é contrário à mente de Cristo. O mundo pode não perceber
nada de errado nestes hábitos da mente. Tais coisas, porém, não fazem
parte do caráter do verdadeiro cristão. Nosso Mestre disse: “ Não re­
sistais ao perverso” .
O Senhor Jesus nos manda cultivar um espirito de amor e be­
nevolência para com todos os homens. Devemos pôr de lado toda malícia.
34 Mateus 5.38-48

Devemos pagar o mal com o bem e a maldição com bênçãos. Jesus nos
disse: “ amai os vossos inimigos” . Outrossim, não devemos amar so­
mente de palavra, mas em verdade e de fato. Devemos negar a nós
mesmos e nos esforçar por sermos gentis e corteses. “ Se alguém te
obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.” Compete-nos tolerar
muita coisa, suportar muita coisa, ao invés de ofendermos ou prejudi­
carmos a outras pessoas. Em todas as coisas, devemos nos mostrar
altruístas. Nosso pensamento nunca deveria ser: “ Como é que as ou­
tras pessoas se comportam para comigo?“ Pelo contrário, deveria ser:
“ O que Cristo gostaria que eu fizesse?” .
Um padrão de conduta como esse poderia à primeira vista pa­
recer demasiadamente alto. Porém, nunca nos deveríamos contentar com
um padrão inferior. Precisamos observar os dois fortes argumentos com
que nosso Senhor reforça esta parte de seu ensino. Estes argumentos
merecem séria atenção.
Primeiramente porque, se não tivermos por alvo o espírito e a
atitude aqui recomendados, então não somos ainda filhos de Deus. O
nosso “ Pai que está nos céus” é bom para com todos. Ele envia chuvas
sobre bons e maus, igualmente. Ele faz o sol brilhar sobre todos os
homens, sem distinção. Ora, um filho deve ser como seu pai. Porém,
em que somos semelhantes a nosso Pai celeste, se não somos capazes
de demonstrar misericórdia e bondade para com todos? Onde estão as
evidências de que somos novas criaturas, se não temos amor? Estão
todas em falta. Isto é um sinal de que ainda precisamos ‘‘nascer de novo’’
(Jo 3.7).
Se não almejamos ter o espírito e a atitude aqui recomendados,
então, manifestamente ainda somos do mundo. Até mesmo os que não
têm nenhuma religião podem “ amar aos que os amam” . Eles podem
fazer o bem e mostrar gentileza, quando seus afetos e interesses os mo­
vem a tanto. Porém, o crente deveria ser dirigido por princípios mais
altos do que o interesse próprio. Estamos procurando evitar esse teste?
Achamos impossível praticar o bem em favor dos nossos inimigos? Se
esse é o caso, então podemos ter a certeza de que ainda não nos con­
vertemos. Enquanto isso prevalecer, ainda não teremos recebido “ o
Espírito que vem de Deus” (1 Co 2.12).
Em tudo o que já vimos, há muitas coisas que clamam em alta
voz pela nossa solene reflexão. Há poucas passagens nas Escrituras que
tão bem se prestam para despertar em nossas mentes tais pensamentos
de contrição. Temos aqui um amorável quadro do cristão, tal como ele
deveria ser. Observando-o, não podemos deixar de sentir alguma dor.
Todos devemos admitir que esse quadro difere largamente daquilo que
o crente geralmente é. Podemos depreender daí duas lições gerais.
Mateus 5.38-48 35

Em primeiro lugar, se o espírito destes onze versículos fosse mais


continuamente relembrado pelos verdadeiros crentes, eles recomenda­
riam o cristianismo ao mundo de maneira muito mais eficiente. Não
podemos nos permitir supor que as palavras desta passagem sejam su­
perficiais e de pouca importância, nem mesmo as mínimas coisas
afirmadas. A realidade é outra. A devida atenção ao espírito deste texto
bíblico é que faz tão atrativa a nossa religião cristã. A negligência quanto
às verdades ali contidas leva à deformação do cristianismo. Cortesia,
gentileza, ternura e consideração pelas outras pessoas são alguns dos
melhores ornamentos do caráter dos filhos de Deus. O mundo pode com­
preender estas coisas, mesmo quando não são capazes de compreender
as doutrinas do cristianismo. Não existe religião cristã na grosseria,
na aspereza, na indelicadeza ou na falta de civilidade. A perfeição do
cristianismo prático consiste na atenção que damos tanto aos pequenos
quanto aos grandes deveres da santidade.
Em segundo lugar, se o espírito destes onze versículos tivesse
maior domínio e poder sobre o mundo, quão mais feliz o mundo seria
do que realmente é\ Quem não sabe que as discussões, as desavenças,
o egoísmo e a indelicadeza causam metade das misérias que afligem
a humanidade? Quem não percebe que coisa alguma tenderia mais por
aumentar a felicidade entre os homens do que a propagação do amor
cristão, tal como é aqui recomendado por nosso Senhor? Que todos nos
lembremos disto. Os que se iludem pensando que a verdadeira religião
tem alguma tendência em fazer os homens infelizes, estão grandemente
enganados. A ausência da verdadeira religião é a causa de tal infelici­
dade, e não a sua prevalência. A verdadeira religião exerce o efeito
diametralmente contrário. Ela tende por promover a paz e o amor ao
próximo, a gentileza e a boa vontade entre as pessoas. Quanto mais
os homens seguirem os ensinos do Espírito Santo, tanto mais eles se
amarão mutuamente, e mais felizes serão.

Ostentação nas Esmolas e na Oração


Leia Mateus 6.1-8

Neste segmento do Sermão da Montanha, o Senhor Jesus nos


instruiu sobre duas questões. A primeira delas quanto a dar esmolas,
a outra quanto à oração. Ambas eram questões às quais os judeus atri­
buíam grande importância. Ambas, por si mesmas, merecem séria
atenção de todos os que professam o cristianismo.
Observe que nosso Senhor toma como um ponto pacífico que
36 Matem 6.1-8

todos os que se intitulam sem discípulos darão esmolas. Ele assume


como natural que eles pensarão ser um dever solene dar esmolas de
acordo com as suas possibilidades, a fim de aliviarem as necessidades
dos outros. O único ponto de que Cristo aqui trata é a maneira como
deveria ser cumprido esse dever. Esta é uma importante lição. Ele con­
dena a atitude de egoísmo mesquinho de tantas pessoas, quanto à questão
de dar dinheiro. Quantos são “ ricos para consigo mesmos” , mas são
pobres para com Deus! Muitos jamais dão um centavo para fazer o bem
ao corpo e a alma de outrem! Será que os tais, com esta mentalidade,
têm algum direito de serem chamados cristãos? Bem poderíamos du­
vidar desse direito. Um Salvador sempre disposto a dar, deveria ter
discípulos igualmente dispostos a contribuir.
Observe, uma vez mais, que nosso Senhor toma por certo que
todos quantos se intitulam seus discípulos serão pessoas de oração. Ele
assume que isto também é um ponto pacífico. Tão somente Ele nos dá
orientações quanto à melhor maneira de orar. Esta é outra lição que
merece ser continuamente lembrada. Está claramente ensinado que pes­
soas que não oram não são cristãos genuínos. Não basta apenas participar
nas orações da igreja, aos domingos, ou freqüentar os cultos de oração
durante a semana, na igreja ou em família. É preciso haver também
a oração particular, a sós com Deus. Sem isso, podemos até estar ar­
rolados como membros de alguma igreja cristã, mas não somos membros
vivos de Cristo.
Entretanto, quais são as normas deixadas para nossa orientação
a respeito de esmolas e oração? As regras são poucas e simples, mas
contêm muito material para a nossa meditação.
Ao dar esmolas, tudo quanto seja ostentação deveria ser abo­
minado e evitado. Não devemos dar como se desejássemos que todos
vissem quão caridosos e liberais nós somos, como se quiséssemos re­
ceber os elogios de nossos semelhantes. Tudo quanto pareça exibicio­
nismo deve ser evitado. Devemos dar quietamente, fazendo tanto me­
nos ruído quanto possível a respeito de nossa caridade. O nosso propósito
deveria acompanhar o espírito daquele versículo: “ Ignore a tua mão
esquerda o que faz a tua direita” .
Ao orar, o nosso objetivo principal deveria ser o de estarmos
a sós com Deus. Deveríamos procurar algum lugar onde nenhum olho
mortal nos pudesse ver, para que então pudéssemos derramar o coração
diante de Deus, com o sentimento de que ninguém nos está vendo, senão
Deus. Entretanto, esta é uma regra que muitas pessoas acham difícil
seguir. Para os irmãos de condição mais humilde, e para os que tra­
balham para outrem, é quase impossível estar realmente sozinhos. Porém,
esta é norma que todos nós precisamos fazer um grande esforço para
Mateus 6,1-8 37

obedecer. A necessidade, em tais casos, com freqüência é a mãe da


invenção. Quando uma pessoa tem o real desejo de encontrar um lugar
onde possa estar em secreto com Deus, geralmente acabará por encon­
trar tal lugar.
Em todos os nossos deveres, seja dar ou orar, a questão funda­
mental que nunca deveríamos esquecer, é que estamos tratando com
um Deus que perscruta o coração e sabe todas as coisas. Tudo quanto
seja mera formalidade, afetação ou que não provenha do coração, é
abominável e sem valor aos olhos de Deus. Ele não leva em conta a
quantidade de dinheiro com que contribuímos, ou o número de palavras
que usamos. O que realmente é importante aos olhos de Deus é a na­
tureza dos motivos e o estado do coração. Nosso Pai celeste “ vê em
secreto” .
Que todos nós lembremos destas coisas. Eis aqui uma pedra que
é a causa de naufrágio espiritual de muitas pessoas. Eles bajulam a si
mesmos com o pensamento de que tudo deve estar certo com as suas
almas, se ao menos desempenharem uma certa quantidade de deveres
religiosos. Esquecem-se de que Deus não presta atenção na quantidade,
e, sim, na qualidade do nosso serviço. O favor divino não pode ser
comprado, conforme alguns parecem supor, pela repetição formal de
um certo número de palavras, ou por justiça própria, pagando alguma
quantia em dinheiro para uma instituição de caridade. Em que temos
posto o coração? Estamos fazendo tudo, seja dar ou orar, “ como ao
Senhor, e não como a homens” (Ef 6.7)? Será que compreendemos
o que realmente importa aos olhos do Senhor? Será que apenas e sim­
plesmente desejamos agradar Àquele que “ vê em secreto’’, Àquele que
“ pesa todos os feitos na balança” (1 Sm 2.3)? Estaremos agindo com
sinceridade? Com perguntas deste tipo é que deveríamos sondar diaria­
mente as nossas almas.

A Oração do Pai Nosso


e o Perdão Mútuo
Leia Mateus 6.9-15

Estes versículos são poucos em número e podem ser lidos com


facilidade; no entanto, são de imensa importância. Eles contêm o ma­
ravilhoso modelo de oração com o qual o Senhor Jesus supriu o seu
povo, e que comumente é chamado de “ oração do Pai Nosso” .
Talvez nenhuma outra porção das Escrituras seja tão bem conhe­
cida quanto esta. As suas palavras são conhecidas onde quer que exista
38 Mateus 6.9-15

o cristianismo. Milhares e milhares de pessoas, que nunca viram uma


Bíblia ou que nunca tiveram oportunidade de ouvir o evangelho puro
estão familiarizadas com o “ Pai Nosso” . Quão mais feliz seria o mundo
se o espírito e o intuito desta oração fossem tão bem conhecidos quanto
o são as suas palavras!
Talvez nenhuma outra porção das Escrituras seja ao mesmo tempo
tão simples e tão completa como esta. Ela é a primeira oração que apren­
demos, quando crianças. Nisto consiste a sua simplicidade: ela contém
o princípio de tudo quanto o mais desenvolvido filho de Deus possa
desejar. Nisto consiste a sua plenitude: quanto mais ponderamos as suas
palavras, tanto mais sentimos que esta oração procede de Deus.
A oração do Pai Nosso consiste em dez partes ou sentenças. Há
uma declaração que diz respeito ao Ser a quem oramos. Há três petições
referentes ao nome de Deus, ao seu reino e à sua vontade. Há quatro
petições a respeito de nossas necessidades diárias, nossos pecados, nos­
sas debilidades e perigos. Há uma declaração dos nossos sentimentos
a respeito do próximo. Há uma atribuição final de louvor. Em todas
estas partes da oração somos ensinados a dizer “ nós” ou “ nosso” . De­
vemos nos lembrar das outras pessoas, tanto quanto de nós mesmos.
Um livro poderia ser escrito a respeito de cada uma das partes dessa
oração, mas, no momento, precisamos nos contentar em observar sen­
tença após sentença, assinalando em que direção aponta cada uma delas.
A primeira sentença declara a quem devemos orar: “ Pai nosso
que estás nos céus” . Não devemos clamar a santos ou a anjos, mas
exclusivamente ao Pai, o Pai eterno, o Pai dos espíritos, o Senhor dos
céus e da terra. Podemos chamá-Lo de Pai no sentido de que Ele é o
nosso criador, conforme fez o apóstolo Paulo, perante os atenienses:
“ Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos... dele também so­
mos geração” (At 17.28). Nós também O chamamos de Pai no sentido
mais elevado da Palavra, como o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
porquanto Deus nos reconciliou consigo mesmo por meio da morte de
seu Filho, Jesus Cristo (Cl 1.20-22).
Nós professamos aquilo que os santos do Antigo Testamento,
se viam, viam-no como que por um espelho, isto é, professamos ser
filhos de Deus, mediante a fé em Cristo, e professamos ter o “ espírito
de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Isto é
algo que jamais devemos esquecer; se desejamos ser salvos, devemos
almejar esta filiação com Deus. Sem a fé no sangue de Jesus Cristo,
e sem a nossa união com Ele, é inútil falarmos em confiança na pater­
nidade de Deus.
A segunda sentença consiste em uma petição concernente ao nome
de Deus: “ santificado seja o teu nome” . Quando falamos no “ nome”
Mateus 6.9-15 39

de Deus, entendemos todos aqueles atributos divinos através dos quais


Ele se tem revelado a nós — o seu poder, sabedoria, santidade, justiça,
misericórdia e verdade. Quando rogamos que esses atributos sejam “ san­
tificados” , pedimos que eles sejam feitos conhecidos e glorificados.
A glória de Deus é a primeira coisa que os filhos de Deus deveriam
almejar. Esse foi o assunto de uma das orações do próprio Senhor Je­
sus: “ Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12.28). Este é o propósito para
o qual o mundo foi criado. Esta é a finalidade pela qual os santos são
chamados e convertidos. A principal coisa que deveríamos buscar nesta
vida é que “ em todas as cousas seja Deus glorificado” (1 Pe 4.11).
A terceira sentença envolve uma petição acerca do reino de Deus:
“ venha o teu reino” . Por “ teu reino” entendemos, primeiramente, o
reino da graça que Deus estabelece e mantém no coração de todos os
membros vivos do corpo de Cristo, por meio de seu Espírito e de sua
Palavra. Mas, principalmente, entendemos tratar-se daquele reino de
glória que um dia será estabelecido, quando o Senhor Jesus vier pela
segunda vez. Então todos conhecerão ao Senhor, “ desde o menor deles
até ao maior” (Hb 8.11). Nessa ocasião o pecado, a tristeza e Satanás
serão expulsos do mundo. O judeus serão convertidos e virá a plenitude
dos gentios (Rm 11.25), e será o tempo mais desejável que jamais exis­
tiu. Esta petição, portanto, tem um lugar de proeminência dentro da
oração do Pai Nosso.
A quarta sentença é uma petição concernente à vontade de Deus :
“ faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” . Neste ponto, ora­
mos no sentido de que as leis de Deus possam ser obedecidas pelos
homens tão perfeita, pronta e incessantemente como o são pelos anjos,
no céu. Rogamos que aqueles que agora não obedecem às leis de Deus,
sejam ensinados a obedecê-las, e que aqueles que obedecem o façam
ainda com maior empenho. A nossa mais autêntica felicidade consiste
em perfeita submissão à vontade de Deus; é demonstração do mais alto
amor cristão orar no sentido de que toda a humanidade possa conhecer
a vontade de Deus, obedecê-la e submeter-se a ela.
A quinta sentença é uma petição referente às nossas próprias
necessidades diárias: “ o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” . Somos
aqui ensinados a reconhecer a nossa inteira dependência de Deus para
o suprimento das nossas necessidades diárias. Tal como Israel preci­
sava do maná diariamente, assim também precisamos diariamente do
nosso pão. Nós confessamos que somos pobres, fracos, criaturas ne­
cessitadas, e suplicamos a Deus, nosso Criador, que tome conta de nós.
Pedimos pão como a mais simples das nossas necessidades materiais;
mas, nessa palavra, incluímos todas as necessidades do nosso corpo.
A sexta sentença é uma petição a respeito dos nossos pecados:
40 Mateus 6.9-15

“ perdoa-nos as nossas dívidas” . Confessamos que somos pecadores


e que precisamos receber diariamente o perdão de nossas transgressões.
Esta é uma parte da oração do Pai Nosso que merece ser especialmente
relembrada. Ela condena toda justiça-própria e auto-justificação. So­
mos aqui instruídos a manter um hábito contínuo de confissão junto
ao trono da graça; e um hábito contínuo de buscar misericórdia e re­
missão. Que isto jamais seja esquecido. Precisamos “ lavar os pés”
diariamente (Jo 13.10).
A sétima sentença é uma declaração atinente aos nossos senti­
mentos para com o próximo: rogamos ao Pai que nos perdoe “ as nossas
dívidas assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” . Esta
é a única declaração de um compromisso nosso para com Deus que apa­
rece em toda a oração, e a única parte da oração na qual Jesus se detém
para fazer um comentário posterior. Jesus nos relembra que não deve­
mos esperar receber o perdão, quando oramos, se o fizermos com malícia
ou rancor no coração, para com os outros. Orar com tal atitude mental
é mero formalismo e hipocrisia. É ainda pior do que hipocrisia. É como
dizer: “ Não me perdoe” . Nossa oração nada vale sem amor. Não de­
vemos esperar ser perdoados, se nós não conseguimos perdoar.
A oitava sentença é uma petição a respeito de nossas fraquezas:
“ não nos deixes cair em tentação” . Ela nos ensina que a todo momento
podemos ser enganados e cair em transgressão. Ela nos instrui a con­
fessar nossas debilidades, e a buscar a Deus para nos sustentar e não
nos deixar andar em pecado. Rogamos que ele, que ordena todas as
coisas no céu e na terra, não nos deixe incorrer naquilo que é preju­
dicial às nossas almas, e que jamais permita que sejamos tentados acima
do que somos capazes de suportar (1 Co 10.13).
A nona sentença é uma petição acerca dos perigos que nos ame­
açam: “ livra-nos do mal” . Somos aqui ensinados a pedir que Deus
nos livre do mal existente neste mundo, do mal que está dentro dos
nossos próprios corações, e, não menos importante, do maligno, que
é o diabo. Confessamos que, enquanto estamos no corpo, estamos cons­
tantemente vendo, ouvindo e sentindo a presença do mal. Ele está do
nosso lado, dentro de nós e ao nosso redor, por todos os lados. Assim
rogamos a Deus, que é o único que pode nos preservar, para que se­
jamos continuamente libertos do poder do mal (Jo 17.15).
A última sentença é uma atribuição de louvor: “ teu é o reino,
o poder e a glória” . Com tais palavras, declaramos a nossa crença de
que os reinos deste mundo são legítima propriedade de nosso Pai ce­
lestial, que a Ele pertence todo o poder, e que só Ele merece receber
toda glória. Concluímos a grande oração oferecendo ao Senhor a pro­
fissão dos nossos corações, de que Lhe conferimos toda honra e louvor,
Mateus 6.9-15 41

e nos regozijamos no fato de que Ele é o Rei dos reis e o Senhor dos
senhores.
Agora, examinemos a nós mesmos, para saber se realmente de­
sejamos ter as coisas que somos ensinados a pedir, nesta oração. É de
temer que milhares de pessoas repitam formalmente estas palavras, dia
após dia, sem jamais considerarem o que estão dizendo. Eles não têm
a menor preocupação com a glória, o reino ou a vontade do Senhor.
Não têm nenhum senso de dependência, de pecaminosidade, de fraqueza
pessoal ou de perigo. Não têm amor nem compaixão para com os seus
inimigos. E, ainda assim, repetem a oração do Pai Nosso! As coisas
não deveriam ser assim. Que nós possamos tomar uma decisão e, com
a ajuda de Deus, fazer com que nossos lábios e nossos corações ca­
minhem juntos! Bem-aventurado é quem verdadeiramente pode chamar
Deus de Pai celestial, por intermédio de Jesus Cristo, seu Salvador,
e que, portanto, pode sinceramente dizer “ Amém” , de todo o coração,
a tudo quanto a oração do Pai Nosso contém.

A Maneira Correta de Jejuar; O Tesouro


no Céu, e Exortações
Leia Mateus 6.16-24

Nesta parte do Sermão da Montanha, nosso Senhor nos fala de


três assuntos. Estes são o jejum, o mundanismo e a importância de se
ter um propósito bem definido em se tratando de religião.
O jejum, ou a abstinência ocasional de alimentos, a fim de trazer
o corpo em sujeição ao espírito, é uma prática freqüentemente mencio­
nada na Bíblia, e geralmente vinculada à oração. Davi jejuou quando
seu filho recém-nascido adoeceu gravemente. Daniel jejuava quando
buscava uma orientação especial da parte de Deus. Paulo e Barnabé
jejuavam quando apontavam os anciãos para as igrejas locais. Ester je­
juou antes de apresentar-se ao rei Assuero. O jejum é um assunto sobre
o qual não encontramos nenhum mandamento direto no Novo Testa­
mento. Parece ser deixado a critério de cada um, se vai jejuar ou não.
Nisto há grande sabedoria. Muitos homens pobres nunca têm o sufi­
ciente para comer, e seria um insulto ordenar-lhes o jejum. Muitos
enfermos têm dificuldade em se alimentar bem, mesmo dando toda
atenção à dieta, e o jejum contribuiria para agravar ainda mais a do­
ença. Esta é uma questão em que cada um precisa estar persuadido em
sua própria mente, e não ser precipitado em condenar os que não con­
cordem com ele. Somente um ponto jamais deve ser esquecido. Quem
42 Mateus 6.16-24

jejua, deve fazê-lo quietamente, em segredo e sem ostentação. Deve


fazê-lo de maneira a não parecer aos homens que jejua. Que não jejue
para os homens, mas para Deus.
O mundanismo é um dos maiores perigos que ameaça a alma do
ser humano. Não é para admirar, portanto, encontrarmos nosso Senhor
falando decididamente contra isso. Trata-se de um inimigo insidioso,
astuto e muito enganador. Parece tão inocente dar atenção especial aos
nossos negócios! Parece tão inofensivo procurar a felicidade neste mundo,
desde que estejamos limpos de pecados mais visíveis! No entanto, esta
é uma pedra contra a qual muitos podem naufragar para toda a eter­
nidade. Eles acumulam “ tesouros sobre a terra” e esquecem de ajuntar
“ tesouros nos céus” . Que todos nos lembremos disto! Onde está posto
o meu coração? O que amo acima de tudo o mais? Os meus maiores
afetos estão ligados às coisas deste mundo, ou às realidades celestiais?
A morte e a vida dependem da resposta que formos capazes de dar a
estas indagações. Se o nosso tesouro está sobre a terra, nossos corações
serão terrenos — “ porque onde está o teu tesouro, aí estará também
o teu coração” .
Ter um propósito bem definido é um dos maiores segredos da
prosperidade espiritual. Se os nossos olhos não vêem distintamente, não
podemos caminhar sem tropeçar e cair. Se tentarmos trabalhar para dois
mestres diferentes, poderemos ter a certeza de não satisfazer nem a um
nem a outro. Acontece o mesmo a respeito de nossas almas. Não po­
demos servir a Cristo e ao mundo ao mesmo tempo. Isto simplesmente
não pode ser feito. A arca da aliança e a estátua de Dagom jamais per­
manecerão juntas. Deus deve ser Rei sobre os nossos corações. A Lei
de Deus, a sua vontade e os seus preceitos devem receber a nossa pri­
meira atenção. Então, e somente então, todas as coisas se ajustarão em
seus devidos lugares em nosso homem interior. A menos que os nossos
corações estejam assim, tão bem ordenados, tudo mais estará em con­
fusão: “ Todo o teu corpo estará em trevas” .
Com a instrução do Senhor acerca do jejum, aprendamos a grande
importância do contentamento, em nossa religião. As palavras, “ unge
a cabeça e lava o rosto” , são repletas de profundo significado. Elas
deveriam nos ensinar a ter por alvo permitir que os homens vejam que
o cristianismo nos faz estar contentes. Jamais nos esqueçamos de que
não existe religião alguma em parecermos melancólicos e tristes. Es­
tamos insatisfeitos com Cristo e o serviço do seu reino? Certamente
que não! Então não tenhamos a aparência de quem está insatisfeito.
Aprendamos, com base na advertência do Senhor acerca do mun­
danismo, como é grande a necessidade que todos nós temos de vigiar
e orar contra um espírito mundano. O que está fazendo a vasta maioria
Mateus 6.16-24 43

de professos “ cristãos” ao nosso redor? Estão acumulando “ tesouros


na terra” . Quanto a isso não há dúvida. Os seus gostos, hábitos e pro­
cedimentos nos contam uma temível história: eles não estão ajuntando
“ tesouros no céu” . Oh, cuidemos, todos, de não cairmos no inferno,
somente porque damos atenção excessiva a coisas que são perfeitamente
legítimas! A transgressão notória da lei de Deus mata os seus milhares,
e o mundanismo os seus dez milhares!
Aprendamos, com base no que nosso Senhor disse acerca dos
“ olhos bons” , o verdadeiro segredo das falhas que tantos cristãos pa­
recem cometer, em sua religião. Há fracassos por toda parte. Existem
milhares de pessoas, em nossas igrejas, que se sentem desconfortáveis,
irrequietas e insatisfeitas consigo mesmas, sem mesmo saber por quê.
A razão disso está aqui revelada: eles querem estar de bem com Deus
e com o mundo. Estão tentando agradar a Deus e aos homens, servir
a Cristo e ao mundo, ao mesmo tempo. Não incorramos nesse erro.
Que nós sejamos decididos e radicais, inflexíveis seguidores de Cristo.
Que o nosso lema seja o mesmo do apóstolo Paulo: “ Uma cousa faço”
(Fp 3.13). Então seremos cristãos felizes. Sentiremos o sol brilhando
sobre as nossas faces! Coração, mente e consciência, estarão todos che­
ios de luz. Determinação é o segredo da felicidade na religião cristã.
Seja crente decidido, e então, “ todo o teu corpo será luminoso” .

A Proibida Preocupação Com Este Mundo


Leia Mateus 6.25-34

Estes versículos revelam o misto da sabedoria e compaixão do


Senhor Jesus Cristo em seus ensinos. Ele conhece o coração humano.
Ele sabe que todos nós estamos prontos a desconsiderar as suas adver­
tências contra o mundanismo, com o argumento de não poder evitar
estarmos ansiosos acerca das coisas desta vida. “ Acaso não precisamos
suprir o necessário para nossas famílias? Será que não precisamos aten­
der às nossas necessidades materiais? Como poderemos vencer na vida,
se dermos atenção principal às nossas almas?” O Senhor Jesus previu
tais pensamentos e nos forneceu uma resposta.
Ele nos proíbe de manter um espírito de ansiedade e solicitude
quanto às coisas deste mundo. Por quatro vezes Ele nos diz: “ Não an­
deis ansiosos...” com a vida, com a alimentação, com o vestuário e
com o amanhã. “ Não andeis ansiosos.” Não se preocupe demais; não
esteja demasiadamente aflito. É correto fazer uma provisão cautelosa
para o futuro; mas a fadiga excessiva, a preocupação desgastante, a
ansiedade que atormenta — tudo isso está errado.
44 Mateus 6.25-34

Jesus nos lembra do cuidado providencial que Deus continua­


mente tem para com tudo quanto Ele criou. Ele nos deu “ vida’’? Então,
certamente não permitirá que coisa alguma nos falte pata a manutenção
dessa vida. Ele nos deu um corpo? Então, certamente não nos deixará
morrer por falta de agasalho. Ele que nos deu o ser, sem dúvida en­
contrará alimentos para nos sustentar.
Jesus mostra a inutilidade da ansiedade excessiva. A nossa vida
está inteiramente nas mãos de Deus. Nem mesmo toda a ansiedade do
mundo nos fará viver um minuto além do tempo que Deus determinou
para nós. Não morreremos enquanto a nossa obra não estiver terminada.
Ele nos manda observar as “ aves do céu” , para recebermos ins­
trução. Elas não fazem qualquer provisão para o futuro: “ não semeiam,
nem colhem ...” Elas não “ ajuntam em celeiros” para prevenir o fu­
turo. Literalmente, as aves vivem, dia após dia, daquilo que conseguem
encontrar usando o instinto que Deus lhes deu. Devemos aprender, com
as aves, que Deus jamais permitirá cair em miséria quem estiver cum­
prindo seu dever, no lugar em que Deus o colocou.
Jesus também nos manda observar “ os lírios do campo” . Ano
após ano, eles se adornam com as mais alegres cores, sem o menor
trabalho ou esforço. “ Eles não trabalham nem fiam.” Deus, pelo seu
infinito poder, os veste de beleza sem par, a cada estação. Este mesmo
Deus é o Pai de todos os crentes. Por que deveriam duvidar de que
Ele é capaz de lhes prover as vestes necessárias, tal como o faz para
os lírios do campo? Ele que toma cuidado das flores do campo, que
são passageiras, certamente não negligenciará os corpos nos quais ha­
bitam almas imortais.
Jesus nos dá a entender que a excessiva preocupação com as coi­
sas deste mundo é algo extremamente indigno de um cristão. Uma grande
característica do paganismo é viver para o presente. Deixe que os pagãos
estejam ansiosos, se assim desejarem. Eles nada sabem a respeito de
um Pai celestial. Mas os cristãos, que têm um maior conhecimento e
uma visão clara da realidade, devem dar prova disso, pela sua fé e con­
tentamento. Quando perdemos alguém que amamos, não devemos nos
entristecer “ como os demais, que não têm esperança” (1 Ts 4.13).
Quando tentados pelas ansiedades desta vida, não devemos estar por
demais preocupados, como se não tivéssemos nem Deus e nem Cristo.
Cristo nos ofereceu uma graciosa promessa, como um remédio
contra a ansiedade de espírito. Ele nos garante que, se buscarmos pri­
meiro, e acima de tudo, um lugar no reino de graça e glória, então todas
as coisas de que realmente precisamos nos serão dadas. Todas estas
coisas vos serão “ acrescentadas” , acima e além da herança celestial.
“ Todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”
Mateus 6.25-34 45

(Rm 8.28). “ O Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que
andam retamente” (SI 84.11).
Por fim, Jesus sela a sua instrução sobre este assunto com uma
das mais sábias afirmações: “o amanhã trará os seus cuidados; basta
ao dia o seu próprio mal” . Não devemos carregar preocupações antes
do tempo próprio. Devemos atender às ocupações do dia de hoje e dei­
xar as preocupações do amanhã para quando raiar o novo dia. Podemos
morrer antes do amanhecer! A única coisa de que podemos ter certeza
é que, se o dia de amanhã nos trouxer uma cruz, Aquele que a envia
pode, e irá, nos enviar a graça necessária para carregá-la.
Em toda essa passagem existe um tesouro de lições de ouro. Pro­
curemos usá-las na nossa vida diária. Que não apenas leiamos essas
lições, mas que as ponhamos em prática. Vigiemos e oremos contra
um espírito ansioso e excessivamente preocupado. Isto afeta profunda­
mente a nossa felicidade. Metade das nossas misérias são causadas pela
ilusão de coisas que nós pensamos estarem vindo sobre nós. Metade
das coisas que imaginamos estarem vindo sobre nós, na verdade jamais
acontecem. Onde está a nossa fé? Onde está a confiança que temos nas
palavras de nosso Salvador? Lendo estes versículos bem podemos nos
envergonhar de nós mesmos, para então examinarmos os nossos co­
rações. Contudo, podemos ter certeza de que as palavras de Davi ex­
pressam uma grande verdade: “ Fui moço, e já, agora, sou velho, porém
jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o
pão” (SI 37.25).

A Censura é Proibida;
A Oração é Encorajada
Leia Mateus 7.1-12

A primeira parte destes versículos é uma das passagens bíblicas


que precisamos ter o cuidado de não forçar para além do seu devido
significado. Esta parte é freqüentemente corrompida e aplicada de modo
errôneo pelos inimigos da verdadeira religião. É possível pressionar
de tal maneira as palavras da Bíblia que elas acabam produzindo não
o remédio espiritual, e, sim, veneno.
Nosso Senhor não intencionava de modo algum dizer que é er­
rado proferir um juízo desfavorável sobre a conduta e a opinião de outras
pessoas. Precisamos ter opiniões bem formadas e decididas. Devemos
julgar “ todas as cousas” (1 Ts 5.21). Devemos provar “ os espíritos”
(1 Jo 4.1). Nem, tampouco, Cristo quis dizer que seja errado reprovar
46 Mateus 7.1-12

os pecados e as faltas de outras pessoas, enquanto nós mesmos não te­


nhamos atingido a perfeição e não estejamos destituídos de falta. Tal
interpretação seria uma contradição a outras passagens da Escritura.
Isso tornaria impossível condenar o erro e as falsas doutrinas. Seria
um impedimento para qualquer um que desejasse ser ministro do evan­
gelho ou juiz. A terra estaria nas mãos dos perversos (Jó 9.24). As
heresias se espalhariam. Os malfeitores se multiplicariam por toda a parte.
O que nosso Senhor condena é um espírito crítico que em tudo
encontra alguma falta. A prontidão em condenar as pessoas por causa
de pequenas coisas ou questões de pouca importância, o hábito de fazer
julgamentos duros e precipitados, a disposição em exagerar os erros
e fraquezas do próximo, e de sempre pensar o pior — isso tudo nosso
Senhor nos proíbe. Essas coisas eram comuns entre os fariseus, e con­
tinuam sendo comuns desde aquela época, até hoje. Todos precisamos
vigiar para não cairmos em tal erro. O amor “ tudo crê, tudo espera”
das outras pessoas, e nós deveríamos ser muito vagarosos em procurar
defeitos no nosso próximo. Esse é o verdadeiro amor cristão (1 Co 13).
A segunda lição contida nesta passagem é a importância de se
ter discrição quanto à pessoa com quem falamos sobre os assuntos de
religião. Tudo é maravilhoso no seu devido tempo e lugar. Nosso zelo
deve ser temperado por uma prudente consideração acerca da ocasião,
do lugar e das pessoas a quem nos dirigimos. Salomão disse: “ Não
repreendas o escarnecedor, para que te não aborreça” (Pv 9.8). Não
é sábio abrir o coração com todo mundo, a respeito das coisas espiri­
tuais. Há muitos que por causa de um temperamento violento, ou de
hábitos abertamente pervertidos, são totalmente incapazes de dar valor
às verdades do evangelho. Podem mesmo explodir de ira e cair em ma­
iores pecados, se você tentar fazer bem às suas almas. Mencionar o
nome de Cristo a tais pessoas é como lançar pérolas aos porcos. Isso
não lhes faz bem, e, sim, mal. A tentativa só fará despertar nessas pes­
soas toda a sua corrupção, e as deixa furiosas. Em suma, eles são como
os judeus de Corinto (At 18.6), ou como Nabal, acerca de quem ficou
registrado: “ ele é filho de Belial, e não há quem lhe possa falar” (1
Sm 25.17).
Esta é uma lição particularmente difícil de se usar de maneira
adequada. É preciso muita sabedoria para aplicá-la corretamente. A ma­
ioria de nós inclina-se muito mais a errar por excesso de cautela do
que por excesso de entusiasmo. Geralmente tendemos muito mais por
lembrar “ o tempo de estar calado” do que “ o tempo de falar” . Não
obstante, esta é uma lição que deveria despertar em nós um espírito
de auto-inquirição. Acaso, nós mesmos, às vezes, não desencorajamos
os nossos amigos quando eles tentam nos dar bons conselhos, pela nossa
Mateus 7.1-12 47

morosidade ou irritabilidade de temperamento? Nunca obrigamos ou­


tras pessoas a se manterem em silêncio e a nada dizerem, por causa
do nosso orgulho ou impaciente desprezo pelos conselhos que recebe­
mos? Será que nunca nos voltamos contra os nossos gentis conselheiros,
e os silenciamos pela nossa violência e ira? Infelizmente, com razão
podemos temer que nós também temos errado quanto a essa questão!
A última lição contida nesta passagem é o dever de orar, e os
ricos encorajamentos à oração. Existe uma maravilhosa conexão entre
esta lição e aquela que lhe antecede. Queremos saber quando estar em
“ silêncio” e quando “ falar” ? quando devemos apresentar as coisas
“ santas” e quando expor as nossas “ pérolas” ? Então devemos orar.
Este é um assunto ao qual o Senhor Jesus evidentemente atribui grande
importância. A linguagem que Ele usa é uma prova clara. Ele emprega
três vocábulos diferentes para exprimir a idéia de oração: “ Pedi... bus­
cai... batei...” Jesus reserva as maiores e mais ricas promessas para
os que oram. “ Pois todo o que pede, recebe.” Ele ilustra a disposição
de Deus em ouvir as nossas orações, mediante um argumento extraído
da prática corriqueira dos pais para com seus filhos. Ainda que os pais
sejam maus e egoístas por natureza, não negligenciam as necessidades
de seus filhos segundo a carne. Muito mais um Deus de amor e mise­
ricórdia atenderá aos clamores daqueles que são seus filhos, mediante
a graça.
Devemos dar atenção especial a estas palavras de nosso Senhor
a respeito da oração. Bem poucos dos seus ensinamentos, talvez, sejam
tão bem conhecidos e tão freqüentemente repetidos quanto estes. Mesmo
os mais pobres e ignorantes são capazes de dizer que “ quem procura,
acha” . Mas, de que adianta saber estas cousas, se não fazemos uso de­
las? O conhecimento não aprimorado e não bem empregado, servirá
apenas para agravar a nossa condenação no dia do juízo.
Será que sabemos como pedir, buscar e bater? Por que razão não
saberíamos? Nada existe tão simples e claro quanto a oração, se o ho­
mem realmente tem o desejo de orar. Mas, infelizmente, não existe nada
que os homens menos se disponham a fazer. Eles fazem uso de muitas
formas de religiosidade, cumprem muitas ordenanças e fazem muitas
coisas que estão certas, mas não estão dispostos a orar. Todavia, sem
oração, nenhuma alma jamais se salvará.
Será que realmente oramos? Em caso contrário, quando chegar­
mos na presença de Deus, ficaremos sem desculpa, a menos que nos
arrependamos em tempo. Não seremos condenados por não fazer aquilo
que não poderíamos ter feito, ou por não saber aquilo que não pode­
ríamos ter conhecido. Entretanto, descobriremos que uma das principais
razões porque estamos perdidos é porque nunca pedimos para ser salvos.
48 Mateus 7.1-12

Será que de fato oramos? Então oremos ainda mais, sem nunca
desanimar. Orar nunca é trabalho perdido, nem em vão. Haverá um
dia de produzir fruto, mesmo que se passe muito tempo. Esta palavra
de Jesus nunca falhou: “ Pois todo o que pede, recebe” .

A Regra de Dever Para Com o Próximo;


As Duas Portas;
Advertências Contra os Falsos Profetas
Leia Mateus 7.13-20

Neste segmento do Sermão da Montanha, nosso Senhor direciona


o seu discurso para uma conclusão. As lições que Ele aqui enfatiza são
gerais, amplas e repletas da mais profunda sabedoria. Observemos tais
lições, uma por uma.
Jesus lançou um principio geral para nossa orientação, para to­
das as questões duvidosas que surgem entre uma pessoa e outra. Devemos
fazer aos outros conforme desejamos que eles nos façam. Não devemos
tratar as outras pessoas à maneira como elas nos tratam. Isto é mero
egoísmo e paganismo. Devemos tratar com as outras pessoas conforme
gostaríamos que elas tratassem conosco. O verdadeiro cristianismo é isso.
Esta de fato é uma regra de ouro! Ela não somente nos proíbe
toda malícia e vingança, todo exagero e falsidade; ela vai muito além,
e resolve uma centena de pontos difíceis que surgem continuamente en­
tre um homem e seu próximo, num mundo como este. Ela torna
desnecessário estabelecer uma série interminável de pequenas regras
para nossa conduta quanto a casos específicos. Ela abrange todos os
possíveis argumentos com um único e poderoso princípio. Mostra-nos
um padrão bem equilibrado e uma medida pela qual todos podemos per­
ceber, de imediato, o nosso dever. Existe algo que não gostaríamos
que alguém fizesse contra nós? Então, jamais nos esqueçamos de que
é exatamente isso que não devemos fazer às outras pessoas. Haverá al­
guma coisa que gostaríamos que outras pessoas fizessem por nós? Então
é precisamente isso que devemos fazer em favor de outras pessoas. Quan­
tas questões intrincadas seriam decididas prontamente, se esta regra fosse
honestamente praticada!
Em segundo lugar, nosso Senhor nos dá uma advertência gerai
contra a maneira como muitos agem quanto à religião. Não podemos
ficar satisfeitos em seguir a moda e nadar na corrente daqueles entre
os quais vivemos. Jesus nos diz que o caminho que conduz à vida eterna
é apertado, e poucos são os que por ele caminham. Ele nos diz que
Mateus 7.13-20 49

o caminho que conduz à perdição é espaçoso e está repleto de viajantes.


São muitos os que entram pelo caminho largo.
Estas são verdades terríveis! Elas deveriam suscitar, em todos
os que as ouvem, um profundo auto-exame no coração. “ Em que ca­
minho estou seguindo? Em qual estrada estou viajando?” Todos nós
seguimos por um ou outro desses dois caminhos. Que Deus nos dê um
espírito honesto e inquisitivo, e nos mostre o que realmente somos!
Deveríamos estar preocupados e temerosos se a nossa religião
é a mesma das multidões. Se o que de melhor poderíamos afirmar é
que nós “ vamos onde outros estão indo, freqüentamos a mesma igreja
e esperamos que, no final, seremos tão bem sucedidos quanto os ou­
tros” , estaremos literalmente pronunciando a nossa própria condenação.
O que isto significa senão que estamos seguindo pelo caminho largo?
O que significa isso, senão que estamos seguindo no “ caminho que con­
duz para a perdição” ? Nessa altura, a nossa religião não é a religião
que salva.
Não temos motivo algum para nos sentirmos desencorajados e
abatidos, se a religião que professamos não é popular, e se poucos con­
cordam conosco. Devemos lembrar as palavras de nosso Senhor Jesus
Cristo, nesta passagem: “ estreita é a porta” . O arrependimento, a fé
em Cristo e a santidade na vida nunca estiveram na moda. O verdadeiro
rebanho de Cristo sempre tem sido pequeno. Não devemos estranhar
se descobrimos que somos reputados como pessoas estranhas, esquisi­
tas, fanáticas e de mente estreita. Este é o “ caminho apertado” .
Certamente é melhor alguém entrar na vida eterna na companhia de
uns poucos do que ir para a perdição em companhia de muitos.
Em último lugar, o Senhor Jesus nos dá uma advertência geral
contra os falsos mestres na igreja. Devemos nos acautelar dos falsos
profetas. A conexão entre esta passagem e a anterior é impressionante.
Queremos ficar bem longe do “ caminho largo” ? Então, devemos estar
precavidos contra falsos profetas, pois haverão de surgir. Eles come­
çaram a aparecer já nos dias dos apóstolos. Desde aquele tempo as
sementes do erro têm sido lançadas. Desde então, eles tem aparecido
continuamente. Precisamos estar preparados contra eles, mantendo-nos
sempre em guarda.
Esta é uma advertência de que muito precisamos. Há milhares
de pessoas que parecem estar sempre prontas a crer em qualquer coisa
que ouvirem, desde que venha dos lábios de alguém que tenha o título
de ministro religioso. Esquecem-se que um clérigo pode errar, tanto
quanto um leigo. Eles não são infalíveis. O que eles ensinam precisa
ser confrontado com os ensinamentos das Sagradas Escrituras. Só de­
vemos seguir tais ministros, e crer no que ensinam enquanto as doutrinas
50 Mateus 7.13-20

por eles ensinadas concordarem com a Bíblia, e nem um minuto a mais.


Devemos fazer prova deles, pelos “ seus frutos” . Sã doutrina e vida
santa são sinais característicos dos verdadeiros profetas. Lembremo-
-nos disto. Os erros dos nossos ministros não justificam os nossos
próprios erros. “ Se um cego guiar outro cego, cairão ambos no bar­
ranco” (Mt 15.14).
Qual a melhor salvaguarda contra falsos ensinamentos? Sem som­
bra de dúvida, a resposta é o estudo regular da Palavra de Deus, sempre
acompanhado de uma oração que rogue a iluminação do Espírito Santo.
A Bíblia foi-nos outorgada para ser uma lâmpada para os nossos pés
e luz para os nossos caminhos (SI 119.105). Deus não permitirá que quem
a ler corretamente caia em algum erro irremediável. A negligência para
com a Bíblia é que faz tantas pessoas se tornarem presas fáceis do pri­
meiro falso mestre que aparecer. Tais pessoas querem nos fazer acreditar
que não são “ estudados” , e nem têm a “ pretensão” de terem opiniões
bem formadas. A verdade é que são preguiçosos, negligenciam a lei­
tura da Bíblia, e não querem ter o trabalho de pensar por si mesmos.
Não existe nada que forneça tantos seguidores para os falsos profetas
do que a preguiça espiritual, disfarçada sob uma capa de humildade.
Que todos nós possamos sempre ter em mente a advertência do
Senhor! O mundo, o diabo e a carne não são os únicos perigos no ca­
minho do cristão. Há ainda um outro: o “ falso profeta” , o lobo
disfarçado em pele de ovelha. Feliz é quem estuda a Bíblia e ora, e
sabe a diferença entre a verdade e o engodo, na religião! Existe uma
diferença, e nós deveríamos reconhecê-la muito bem, fazendo uso do
conhecimento que nos foi outorgado.

A Inutilidade da Profissão Religiosa Sem a


Prática; Os Dois Construtores
Leia Mateus 7.21-29

O Senhor Jesus encerra o Sermão da Montanha com uma apli­


cação penetrante. A sua admoestação abrange desde os falsos profetas
até os “ professos” cristãos, desde falsos mestres até ouvintes negligen­
tes. Eis aqui uma palavra para todos. Que nós possamos aplicá-la aos
nossos próprios corações!
A primeira lição aqui, é a inutilidade de uma profissão mera­
mente externa do cristianismo. Nem todos os que dizem “ Senhor,
Senhor” entrarão no reino dos céus. Nem todos os que professam o
cristinianismo, ou se dizem cristãos, serão salvos.
Mateus 7.21-29 51

Prestemos atenção a este fato: para salvar uma alma é preciso


muito mais do que a maioria das pessoas parece julgar necessário. Po­
demos até ter sido batizados em nome de Cristo, e nos orgulhar
presunçosamente em nossos privilégios eclesiásticos. Podemos ser do­
nos de grande conhecimento intelectual, e estar bem satisfeitos com a
nossa condição. Podemos até mesmo ser pregadores e mestres sobre
outrem, e fazer “ muitas obras maravilhosas” em conexão com a igreja
a que pertencemos. Mas, durante todo esse tempo, temos praticado a
vontade do Pai celeste? Temos verdadeiramente nos arrependido? Te­
mos realmente confiado em Cristo e vivido vidas santas e humildes?
Se assim não for, a despeito de todos os nossos privilégios, e do nosso
professo cristianismo, perderemos o céu afinal, e seremos rejeitados
para todo o sempre. Ouviremos aquelas terríveis palavras: ‘‘Nunca vos
conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” .
O dia do juízo final haverá de revelar coisas muito estranhas.
As esperanças de muitos dos que foram considerados grandes cristãos,
quando em vida, serão totalmente vãs. A corrupção de sua religião será
desmascarada e lançada ao opróbrio, perante os olhos do mundo inteiro.
E então ficará provado que, para ser salvo, é necessário muito mais
do que apenas “ uma profissão de fé” . Devemos praticar o nosso cris­
tianismo, tanto quanto professá-lo. Que nós com freqüência nos lem­
bremos desse grande dia do juízo, e nos julguemos a nós mesmos, para
não sermos julgados e condenados (1 Co 11.31) pelo Senhor. Sem im­
portar o que mais sejamos, que o nosso alvo consista em sermos reais,
verdadeiros e sinceros.
A segunda lição, nesta passagem, é um impressionante quadro
das duas classes de ouvintes — os que ouvem, mas não praticam; e
os que não apenas ouvem, mas põem em prática o que ouvem, com
os seus respectivos destinos traçados até o fim.
Quem ouve o ensino cristão e põe em prática o que ouve, é como
o “ homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” . Ele não
se contenta em apenas ouvir exortações ao arrependimento, exortações
a confiar em Cristo e a viver uma vida santa. Ele de fato se arrepende.
Ele realmente crê. Ele realmente abandona a prática do mal, aprende
a fazer o bem, abomina tudo que é pecaminoso e apega-se ao que é
bom. Ele não só é um ouvinte, mas também é um praticante (Tg 1.22).
E qual é o resultado de tudo isso? Em tempos de provação, a
sua religião não o desampara. Os dilúvios de enfermidade, tristeza, po­
breza, desapontamento e desolações desabam sobre ele, mas em vão.
A sua alma permanece inabalável. A sua fé não cede terreno. Nunca
é destituída de conforto. A sua religião talvez lhe tenha custado tribu­
lações, em tempos passados. Os seus alicerces podem ter sido obtidos
52 Mateus 7.21-29

com muito esforço e lágrimas. Para descobrir o seu interesse pessoal


na pessoa de Cristo, talvez ele tenha passado muitos dias de buscas in­
cessantes, muitas horas de luta em oração. Porém, os seus labores não
foram em vão. Agora ele colhe uma rica recompensa. A religião ver­
dadeira é aquela que é capaz de resistir à provação.
O homem que ouve o ensino cristão, mas nunca passa da mera
fase do ouvir, assemelha-se a “ um homem insensato, que edificou a
sua casa sobre a areia” . Contenta-se unicamente em ouvir e aprovar;
porém, não vai além disso. Por ter alguns sentimentos, convicções e
desejos de natureza espiritual ele imagina que vai tudo bem com sua
alma. É nessas coisas que ele confia. Ele nunca rompe, de fato, com
o pecado ou põe de lado o espírito mundano. Ele, na verdade, nunca
se apropria de Cristo. Nunca toma realmente a sua cruz. É ouvinte da
verdade, mas nada mais.
E qual é o fim da religiosidade desse homem? Ela é demolida
inteiramente, sob a primeira torrente de tribulações. Na hora de maior
necessidade, a sua religião o desampara completamente, como uma fonte
que seca durante o verão. Ela o deixa em seco, como um barco nau­
fragado sobre um banco de areia — um escândalo para a igreja, uma
zombaria na boca do incrédulo e uma miséria para si mesmo. A grande
verdade é que, o que custa pouco, vale pouco! Uma religião que nada
nos custa, e que não consista em outra coisa, senão em ouvir sermões,
sempre provará ser uma atividade inútil, por fim.
É assim que termina o Sermão do Monte. Jamais se tinha pre­
gado um sermão como este anteriormente. Talvez jamais se pregou outro
igual desde então. Cuidemos para que ele tenha uma influência dura­
doura e permanente sobre nossa alma. Ele foi dirigido tanto a nós como
àqueles que primeiro o ouviram. Nós somos os que terão de prestar
contas pelas lições deste sermão, lições que nos sondam o coração. O
que pensamos a respeito destas lições não é questão de pouca importância.
A palavra que Jesus tem proferido, essa mesma palavra nos julgará no
último dia (Jo 12.48).

Curas de Lepra, de Paralisia e de Febre


Leia Mateus 8.1-15

No oitavo capítulo do evangelho de Mateus são descritos nada


menos do que cinco milagres efetuados por nosso Senhor. Nisto há uma
maravilhosa concordância. Convinha que o maior sermão jamais pre­
gado, fosse imediatamente seguido por uma forte prova de que o pregador
Mateus 8.1-15 53

era o Filho de Deus. Aqueles que ouviram o Sermão do Monte foram


forçados a confessar que, assim como “jamais alguém falou como este
homem” , assim, também, ninguém jamais fez tais prodígios.
Nos versículos que acabamos de ler encontramos três grandes
milagres. Um leproso é curado com um toque da mão de Jesus. Um
paralítico é curado por uma palavra. E uma mulher, doente com febre,
recebe de volta, em um instante, a saúde e o vigor. Em face destes três
milagres, podemos perceber três notáveis lições. Examinemos estas
lições, guardando-as no coração.
Antes de tudo, aprendamos quão grande é o poder de nosso Se­
nhor Jesus Cristo. A lepra é uma das mais temíveis entre as enfermidades
que podem afetar o corpo de uma pessoa. O portador dessa doença
assemelhava-se a um morto-vivo. Era uma doença que os médicos con­
sideravam incurável (2 Rs 5.7). Mesmo assim, Jesus disse: “ Fica limpo!
E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra” . Curar uma pessoa da
paralisia, sem ao menos tê-la visto, apenas dizendo uma palavra, é fa­
zer algo que as nossas mentes nem mesmo podem conceber. Ainda assim,
Jesus ordenou, e a cura se deu imediatamente. Dar a uma mulher aca­
mada pela febre, não apenas o alívio da febre, mas, também, o imediato
restabelecimento de suas forças para trabalhar, é algo que ultrapassa
as habilidades de qualquer médico. No entanto, Jesus “ tomou pela mão”
a sogra de Pedro e “ a febre a deixou” . “ Ela se levantou e passou
a servi-lo.” Estas são obras de quem é todo-poderoso. Não há como
escapar à conclusão lógica: “ Isto é o dedo de Deus” (Êx 8.19).
Encontramos aqui uma base bem ampla para a fé cristã! No evan­
gelho somos instruídos a vir a Jesus, a confiar nEle, a viver a vida de
fé em Jesus. Somos encorajados a depender de Jesus, a lançar sobre
Ele todos os nossos cuidados, a apoiar nEle todo o peso de nossas al­
mas. Podemos fazê-lo sem qualquer dúvida ou temor. Jesus pode suportar
tudo. Ele é uma rocha inabalável. Ele é o Todo-poderoso. Um antigo
santo do Senhor declarou: “ A minha fé pode repousar com segurança
sobre nenhum outro apoio, senão a onipotência de Cristo” . Ele pode
dar vida aos mortos, poder aos fracos e multiplicar “ as forças ao que
não tem nenhum vigor” (Is 40.29). Confiemos nEle e não toleremos
qualquer receio. O mundo está repleto de armadilhas. Nossos corações
são fracos, mas com Jesus nada é impossível.
Ademais, aprendamos quão misericordioso e compassivo é nosso
Senhor Jesus Cristo. As circunstâncias dos três casos que ora consi­
deramos eram todas diferentes. Ele ouviu a triste petição do leproso:
“ Senhor, se quiseres, podes purificar-me” . Falaram-Lhe do servo do
centurião, mas Jesus nunca o viu pessoalmente. Ele viu a sogra de Pe­
dro “ acamada e ardendo em febre” , porém, não lemos que ela tenha
54 Mateus 8.1-15

dito uma única palavra. Não obstante, em cada caso o coração de nosso
Senhor Jesus Cristo mostra-se o mesmo. Ele prontamente demonstrou
misericórdia e a disposição de curar. Cada uma dessas pessoas recebeu
a sua tema compaixão, e cada uma recebeu a cura efetiva.
Eis aqui um outro fortíssimo fundamento para a nossa fé! O
nosso grande Sumo Sacerdote é extremamente gracioso. Ele pode
“ compadecer-se das nossas fraquezas” (Hb 4.15). Ele jamais se cansa
de nos fazer o bem. Ele sabe que nós somos um povo fraco e débil,
em meio a um mundo atribulado e cansado. Ele está tão pronto a ser
paciente conosco e a nos ajudar, como estava a 2000 anos atrás. Hoje
continua sendo uma verdade, tanto quanto nos tempos antigos, que Ele
“ a ninguém despreza” (Jó 36.5). Nenhum coração pode sensibilizar-se
tanto por nós quanto o coração de Cristo.
Em último lugar, aprendamos quão preciosa é a graça divina
da fé. Pouco sabemos a respeito do centurião descrito nestes versículos.
O nome dele, sua nacionalidade, sua história passada, nada disso nos
é informado. Entretanto, sabemos de uma coisa — que ele creu em Je­
sus. Declarou ele: “ Senhor, não sou digno de que entres em minha
casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado” .
Lembremo-nos de que ele creu, enquanto os escribas e os fariseus eram
incrédulos. Embora nascido gentio, ele creu, enquanto o povo de Israel
estava espiritualmente cego. A respeito dele, nosso Senhor proferiu uma
palavra de elogio que tem sido lida por todo o mundo, desde aqueles
dias até hoje: “ Nem mesmo em Israel achei fé como esta” .
Apeguemo-nos com firmeza a esta lição. Ela merece ser relem­
brada. Crer no poder de Cristo e na sua boa vontade em ajudar, e fazer
uso prático dessa nossa crença, é um dom raro e precioso. Devemos
sempre estar agradecidos por termos este dom. Estarmos dispostos a
vir a Jesus não tendo outra esperança, e reconhecendo a nossa condição
de pecadores perdidos, e entregar as nossas almas às mãos dEle, é um
grande privilégio. Que nós sempre demos graças ao Senhor se temos
essa disposição, pois é um dom de Deus. Essa fé é melhor do que todos
os demais dons ou conhecimentos neste mundo. Muitos humildes pagãos
agora convertidos, que de nada sabem senão da doença do pecado na
alma, mas que confiam em Jesus, haverão de assentar-se no céu, en­
quanto que muitos doutores em teologia serão rejeitados para sempre.
Verdadeiramente abençoados são os que crêem!
O que cada um de nós sabe a respeito dessa fé? Esta é uma grande
questão. O nosso conhecimento pode ser pequeno; mas, será que re­
almente cremos? Nossas oportunidades para contribuir e trabalhar pela
causa de Cristo podem ser poucas; mas, cremos? Talvez não possamos
pregar, nem escrever um livro, e nem mesmo argumentar em favor do
Mateus 8.1-15 55

evangelho; mas, cremos? Que jamais descansemos enquanto não pu­


dermos responder afirmativamente a essa pergunta! A fé em Jesus Cristo,
para os filhos deste mundo, parece ser algo tão simples e insignificante.
Eles não vêem na fé nada de grande ou importante. Entretanto, a fé
em Cristo é preciosíssima aos olhos de Deus, e tal como tudo que é
precioso, é rara. É pela fé que vive o cristão verdadeiro. Ele permanece
na fé. É pela fé que o cristão vence o mundo. Sem essa fé, ninguém
pode ser salvo.

Cristo e os Professos Cristãos;


A Tempestade Acalmada
Leia Mateus 8.16-27

Na primeira parte destes versículos, encontramos um notável


exemplo da sabedoria de nosso Senhor ao tratar com os que manifes­
tam a disposição de se tomarem seus discípuios. Este trecho lança tanta
luz sobre um assunto freqüentemente mal compreendido em nossos dias,
que merece consideração especial.
Um certo escriba ofereceu-se para seguir nosso Senhor por onde
quer que Ele fosse. É uma proposta admirável, quando consideramos
a classe social que aquele homem pertencia e a ocasião em que foi pro­
ferida. Mas, a proposição recebe uma resposta igualmente admirável,
que não foi diretamente aceita, embora também não fosse manifesta­
mente rejeitada. Nosso Senhor tão somente faz uma réplica solene: “ as
raposas têm seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem
não tem onde reclinar a cabeça” .
Um outro discípulo de nosso Senhor se apresenta em seguida,
pedindo que lhe fosse permitido sepultar o pai, antes de assumir total­
mente os deveres de discípulo. À primeira vista, tal pedido parece natural
e legítimo. Entretanto, a resposta dos lábios de nosso Senhor não foi
menos solene do que a primeira: “ Segue-me, e deixa aos mortos o se­
pultar os seus próprios mortos” .
Há algo de profundamente impressionante em ambas as respos­
tas. Elas deveriam ser devidamente consideradas por todos os que se
professam cristãos. O ensinamento é bem claro: as pessoas que mani­
festam o desejo de vir a frente, e se professam verdadeiros discípulos
de Cristo, deveriam ser claramente advertidas a “ calcular o custo”
antes de começarem. Será que estão preparados para suportar as difi­
culdades? Estão prontos a carregar a cruz? Se assim não é , tais pessoas
ainda não estão aptas para começar. As respostas de Jesus nos ensinam
56 Mateus 8.16-27

claramente que há ocasiões em que o cristão precisa literalmente de­


sistir de tudo por amor a Cristo e, se necessário, mesmo deveres tão
importantes, como o sepultamento de pai ou mãe, devem ser deixados
ao encargo de outras pessoas. Sempre haverá quem esteja pronto a com­
parecer em nosso lugar; mas tais deveres em tempo nenhum podem
ser comparados ao dever maior, que é o de pregar o evangelho e tra­
balhar pela causa de Cristo no mundo.
Seria bom se estas palavras fossem mais constantemente relem­
bradas nas igrejas. Bem podemos temer que esta lição esteja sendo por
demais negligenciada pelos ministros do evangelho, e que muitas pes­
soas estejam sendo admitidas à plena comunhão na igreja, sem jamais
serem advertidas a “ calcular o custo” . De fato, nada tem feito maior
dano ao cristianismo do que a prática de encher as fileiras do exército
de Cristo com qualquer voluntário que esteja disposto a fazer uma pe­
quena profissão de fé, e que possa falar fluentemente de sua experiência
religiosa. Infelizmente se tem esquecido que os números apenas não
significam poder. Pode haver uma grande quantidade de mera religio­
sidade externa, enquanto há muito pouco da verdadeira graça. Nunca
nos esqueçamos disto. Cuidemos para nada esconder aos recém-
-convertidos e às pessoas que agora estão começando a buscar a Deus.
Não deixemos que se enganem com falsas expectativas. Podemos dizer-
-lhe que receberão uma coroa de glória no fim, mas que nós também
digamos, não menos claramente, que existe uma cruz para ser carre­
gada dia após dia.
Na última parte destes versículos, aprendemos que a fé salva­
dora com freqüência está permeada de muita fraqueza e Instabilidade.
Esta é uma lição que nos deixa humilhados, mas que é deveras salutar.
O texto nos apresenta Jesus e os discípulos atravessando o mar
da Galiléia em uma embarcação. Surge uma tempestade, e o barco está
em perigo de se encher de água pela violência das ondas. Enquanto
isso, nosso Senhor está dormindo. Os discípulos atemorizados acordam
Jesus e clamam por socorro. Ele atende ao pedido e faz acalmar as águas
com uma palavra, de modo que “ fez-se grande bonança” . Ao mesmo
tempo, Ele gentilmente censura a ansiedade de seus discípulos: “ Por
que sois tímidos, homens de pequena fé?”
Temos aqui um retrato muito nítido do coração de milhares de
crentes! Há tantos que, mesmo possuindo suficiente fé e amor para aban­
donar tudo por causa de Cristo, e segui-Lo para onde quer que vá, ainda
assim, estão cheios de temores na hora da provação! Quantos têm graça
suficiente para se voltarem a Jesus em cada dificuldade, clamando: “ Se­
nhor, salva-nos” , e ainda não têm graça suficiente para ficarem quietos
na hora difícil e confiarem que tudo está bem? Verdadeiramente, o crente
Mateus 8.16-27 57

tem razão de estar sempre cingido de humildade (1 Pe 5.5).


Que a oração: “ Senhor, aumenta-nos a fé” , sempre faça parte
das nossas petições diárias. Talvez nunca conheceremos a fraqueza da
nossa fé, enquanto não formos postos na fornalha da tribulação e da
ansiedade. Felizes os que descobrem, por experiência, que a sua fé é
capaz de resistir ao fogo, e que podem, como Jó, dizer: “ Ainda que
ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15).
Temos grandes razões para agradecer a Deus por Jesus, o nosso
grande Sumo Sacerdote, pois Ele é muito compassivo e terno de co­
ração. Ele conhece a nossa estrutura. Ele leva em conta as nossas
enfermidades. Ele não lança fora o seu povo por causa de defeitos. Ele
se compadece mesmo dos que repreende. A oração, mesmo de “ pe­
quena fé” , é ouvida e obtém resposta.

Expulsão de Demônios na Terra dos Gadarenos


Leia Mateus 8.28-34

O assunto destes sete versículos é profundo e misterioso. A ex­


pulsão do demônio é aqui descrita com especial abundância de detalhes.
Esta é uma das passagens que lançam uma forte luz sobre um assunto
difícil e obscuro.
Vamos deixar bem estabelecido em nossa mente que o diabo existe.
Esta é uma terrível verdade, mas que é muito desconsiderada. Existe
um espírito invisível sempre próximo a nós, poderoso e cheio de ma­
lícia interminável contra as nossas almas. Desde o princípio da criação
ele tem-se esforçado por prejudicar o homem. Até que o Senhor Jesus
venha pela segunda vez e o prenda, o diabo jamais cessará de tentar
e fazer dano. Nos dias em que nosso Senhor estava sobre a terra, é
evidente que o diabo tinha um poder peculiar sobre os corpos de certos
homens e mulheres, como também sobre suas almas. Mesmo em nos­
sos dias existe mais dessa possessão demoníaca corporal do que alguns
supõem existir, embora em um grau evidentemente menor do que quando
Cristo veio na carne. Porém, nunca nos deveríamos esquecer que o diabo
está sempre bem perto de nós em espírito, e sempre pronto a nos as­
saltar o coração com tentações.
Em seguida, que nós nos conscientizemos de que o poder do diabo
é limitado. Embora ele seja tão poderoso, existe Alguém ainda mais
poderoso. Embora seja tão perspicaz e tão determinado em seu intuito
de prejudicar a humanidade, ele só pode agir com permissão. Estes mes­
mos versículos nos mostram que os espíritos malignos só podem ir de
58 Mateus 8.28-34

um lugar para outro e causar destruição até ao tempo que lhes foi per­
mitido pelo Senhor dos Senhores: “ Viestes aqui atormentar-nos antes
do tempo?” , eles disseram. Mesmo a petição que fizeram a Jesus nos
mostra que eles não podiam causar dano nem mesmo aos porcos, a me­
nos que Jesus, o Filho de Deus, lhes desse permissão. “ Manda-nos para
a manada dos porcos” , eles disseram.
Assim, deixemos firmemente estabelecido em nossas mentes que
nosso Senhor Jesus Cristo é o grande Libertador do homem do poder
do diabo. Ele não somente pode “ remir-nos de toda iniqüidade” , mas
também deste “ presente mundo mau” e do diabo. Desde a muito foi
profetizado que Ele haveria dè esmagar a cabeça da serpente. Jesus co­
meçou a esmagar a cabeça da serpente quando nasceu da virgem Maria.
Ele triunfou sobre a cabeça da serpente quando morreu na cruz. Ele
mostrou o seu total domínio sobre Satanás “ curando a todos os opri­
midos do diabo” , quando estava sobre a terra (At 10.38). O nosso grande
recurso, em todos os ataques do diabo, é clamarmos ao Senhor Jesus
e buscarmos a sua ajuda. Ele pode romper as cadeias que Satanás lança
à nossa volta, e nos libertar. Ele pode expulsar qualquer demônio que
nos atormente o coração, tão certo como nos dias da antigüidade. Seria
realmente uma lástima saber que o diabo existe e está sempre perto de
nós, se não soubéssemos que Cristo “ pode salvar totalmente os que
por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”
(Hb 7.25).
Que nós não deixemos esta passagem sem observar o doloroso
mundanismo dos gadarenos, entre os quais foi operado o milagre da
expulsão de demônios. Os gadarenos rogaram ao Senhor Jesus “ que
se retirasse da terra deles” . Eles não se sensibilizavam com nada, a
não ser com a perda de seus porcos. Pouco importava que duas pobres
criaturas, com duas almas imortais, tivessem sido libertadas da escra­
vidão de Satanás. Para eles também não importava que estivesse ali
entre eles Alguém muito superior ao diabo, a saber, Jesus Cristo, o
Filho de Deus. Não se importaram com nada, senão que a manada de
porcos tinha se afogado, e “ que se lhes desfizera a esperança do lu­
cro” . Na ignorância, os gadarenos consideraram a Jesus como alguém
que se colocava entre eles e os seus lucros, e só desejavam ficar livres
dEle.
Existe um número demasiadamente grande de pessoas como os
gadarenos. Há milhares de pessoas que não dão a mínima importância
a Cristo ou a Satanás, desde que possam ganhar mais dinheiro, e des­
frutar um pouco mais das coisas deste mundo. Que nós possamos estar
livres desse espírito! Contra ele, que nós possamos sempre vigiar e orar!
Ele é muito comum e terrivelmente contagioso. A cada nova manhã
Mateus 8.28-34 59

relembremo-nos de que temos almas a serem salvas, e que um dia mor­


reremos e teremos de enfrentar o julgamento divino. Cuidemos em não
amar o mundo mais do que a Cristo. Que nós tomemos cuidado de não
estorvar a salvação de outras pessoas, por temor de que o processo da
religião verdadeira possa diminuir nossos ganhos ou nos trazer proble­
mas.

A Cura do Paralítico;
A Chamada de Mateus, o Publicano
Leia Mateus 9.1-13

Observemos, na primeira parte desta passagem, o conhecimento


que nosso Senhor tem dos pensamentos dos homens. Alguns dos escri­
bas acharam defeito nas palavras de Jesus ao paralítico. Diziam
secretamente, consigo: “ Este blasfema” . Provavelmente imaginavam
que ninguém soubesse o que se passava em suas mentes. Ainda pre­
cisavam aprender o fato que o Filho de Deus pode ler os corações e
discernir os espíritos. O seu pensamento malicioso foi publicamente
desmascarado. Eles foram abertamente expostos à vergonha.
Nisto há uma importante lição para nós: “ Todas as cousas estão
descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar con­
tas’’ (Hb 4.13). Nada pode ser ocultado de Jesus Cristo. O que pensamos
às ocultas, quando ninguém nos vê? O que pensamos quando estamos
na igreja, parecendo tão sérios e respeitosos? Sobre o que estamos pen­
sando neste exato momento, enquanto estas palavras passam diante de
nossos olhos? Jesus sabe. Jesus vê. Jesus registra tudo. Jesus um dia
nos chamará para a prestação de contas. Está escrito que Deus, por
meio de Cristo Jesus, julgará os segredos dos homens, de acordo com
o evangelho (Rm 2.16). Sem dúvida alguma, devemos ser muito hu­
mildes quando consideramos estas coisas. Deveríamos cada dia agradecer
a Deus que o sangue de Cristo pode purificar de todo pecado. Deve­
ríamos sempre clamar: “ As palavras dos meus lábios e o meditar do
meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha
e redentor meu!” (SI 19.14).
Em segundo lugar, observemos a maravilhosa chamada do
apóstolo Mateus para ser um discípulo de Cristo. Encontramos sentado
na coletoria de impostos o homem que mais tarde escreveria o primeiro
evangélho. Vemo-lo absorvido em sua ocupação secular, talvez não pen­
sando em outra coisa senão em dinheiro e lucro. Subitamente, entretanto,
recebe o chamado para seguir a Jesus e tornar-se seu discípulo. Mateus
60 Mateus 9.1-13

obedece imediatamente; apressa-se, não se detém (SI 119.60) e obedece


a ordem de Cristo. Ele se levanta e segue a Jesus.
Que seja um princípio bem estabelecido em nossa religião que
para Cristo nada é impossível. Ele pode tomar um coletor de impostos
e transformá-lo em apóstolo. Ele pode mudar qualquer coração humano
e fazer novas todas as coisas. Que nós nunca desesperemos da salvação
de quem quer que seja. Continuemos orando, testemunhando e traba­
lhando para o bem das almas dos piores homens. “ A voz do Senhor
é poderosa*’ (SI 29.4). Quando Ele diz, pelo poder do Espírito, “ segue-
-me” , Ele pode fazer os mais endurecidos e os mais pecaminosos
obedecerem.
Observemos a decisão de Mateus. Ele não esperou por uma oca­
sião mais oportuna (At 24.25). Em conseqüência obteve uma grande
recompensa. Ele escreveu um livro que se tornou conhecido em todo
o mundo. Tomou-se uma bênção para outras pessoas, além de ser aben­
çoado na sua própria alma. Ele deixou atrás de si um nome que é mais
conhecido do que o nome de príncipes e reis. O homem mais rico do
mundo ao morrer é logo esquecido. Porém, enquanto durar o mundo,
milhões de pessoas conhecerão o nome de Mateus, o publicano.
Em último lugar, notemos a preciosa declaração de nosso Se­
nhor a respeito de sua própria missão. Os fariseus acharam falta nEle,
porquanto permitia que publicanos e pecadores estivessem em sua com­
panhia. Em sua cegueira orgulhosa, eles imaginavam que um mestre
enviado do céu jamais deveria entrar em contato com tais pessoas. Eles
ignoravam totalmente o grandioso desígnio pelo qual o Messias viera
a este mundo — para ser Salvador, médico; para curar as almas enfer­
mas pelo pecado. Eles receberam dos lábios de nosso Senhor uma
reprimenda, seguida de palavras abençoadas: “ não vim chamar justos,
e, sim, pecadores ao arrependimento” .
Certifiquemo-nos de que compreendemos perfeitamente a doutrina
contida nestas palavras. O que é primariamente necessário para se ter
interesse em Cristo é sentirmos profundamente a nossa própria corrupção,
e estarmos dispostos a ir a Jesus para sermos libertos. Não devemos
ficar longe de Cristo, como muitos ignorantemente o fazem, somente
porque nos sentimos maus, ímpios e indignos. Devemos lembrar que
Ele veio ao mundo para salvar pecadores; e, se nos reconhecemos como
tais, isto é bom. Feliz é quem realmente entende que a principal qua­
lificação para ir a Cristo é um profundo senso de pecado!
Finalmente, se, pela graça de Deus, realmente entendemos a glo­
riosa verdade de que Jesus Cristo veio para chamar pecadores, então,
que jamais nos esqueçamos disso. Não cultivemos a ilusão de que cren­
tes verdadeiros possam atingir um tal estado de perfeição neste mundo,
Mateus 9.1-13 61

ao ponto de não mais precisarem da mediação e intercessão de Cristo.


Éramos pecadores quando viemos a Cristo; e pobres e necessitados pe­
cadores continuaremos sendo, enquanto vivermos, recebendo toda a graça
de que dispomos, a cada momento, da plenitude de Cristo. Mesmo na
hora da nossa morte, veremos que ainda somos pecadores, e estaremos
tão dependentes do sangue de Cristo, quanto no primeiro dia em que
cremos.

Vinho Novo e Odres Novos;


A Ressurreição da Filha de Jairo
Leia Mateus 9.14-26

Observemos, nesta passagem, o gracioso nome pelo qual o Se­


nhor Jesus fala de si mesmo. Ele chama a si mesmo de “ o noivo” .
O que o noivo representa para a sua noiva, o Senhor Jesus re­
presenta para as almas de todos os que nEle crêem. Ele os ama com
amor profundo e eterno. Ele os toma para que vivam em união consigo
mesmo. Eles são um em Cristo, e Cristo une-se a eles. Ele paga todos
os débitos deles para com Deus. Ele lhes supre todas as necessidades
diárias. Ele simpatiza com eles em todas as dificuldades. Ele suporta
com paciência todas as infirmezas deles, e não os rejeita por causa de
algumas poucas fraquezas. Ele os considera parte de si mesmo. Os que
perseguem e prejudicam os discípulos de Cristo, estão perseguindo a
Ele mesmo. A glória que recebeu da parte do Pai, um dia Ele haverá
de compartilhar com seus remidos e, onde Ele estiver, ali estarão também
eles. Tais são os privilégios de todos os verdadeiros cristãos. Eles são
a noiva do Cordeiro (Ap 19.7). Essa é a porção à qual a fé dá acesso.
Por meio desta fé, Deus une as nossas pobres almas pecaminosas a um
precioso Noivo e, aqueles a quem Deus assim une, jamais serão sepa­
rados. Verdadeiramente abençoados são os que crêem!
Em segundo lugar, observemos como é sábio o princípio que o
Senhor estabelece para o tratamento de seus novos discípulos. Houve
alguns que acharam errado o fato de os seguidores de Nosso Senhor
não jejuarem, como faziam os discípulos de João Batista. Nosso Senhor
defende seus discípulos com um argumento cheio de profunda sabedo­
ria. Ele mostra que o jejum não seria apropriado, enquanto Ele, que
era o Noivo, estivesse em companhia deles. Mas isso não é tudo. Jesus
vai mais além, a fim de mostrar, mediante duas parábolas, que os jo­
vens principiantes na escola do cristianismo, devem ser tratados com
gentileza. Eles precisam ser ensinados gradativamente, conforme o pos­
62 Mateus 9.14-26

sam suportar. Não podemos esperar que possam receber tudo de uma
vez. Negligenciar esta regra seria uma tolice tão grande quanto guardar
“ vinho novo em odres velhos” , ou pôr “ remendo de pano novo em
vestido velho” .
Nisto há uma fonte de profunda sabedoria, que todos faríamos
bem em relembrar, para o ensino espiritual dos que têm pouca expe­
riência. Devemos ter o cuidado de não pôr excessiva importância às
questões secundárias da religião. Não devemos nos apressar em exigir
imediata conformidade a uma norma rígida quanto a coisas indiferen­
tes, enquanto os princípios elementares do arrependimento e da fé não
tiverem sido devidamente apreendidos. Devemos orar por graça e bom
senso cristão para nos guiarem neste assunto. O tato no relacionamento
com os novos discípulos de Cristo é um dom raro, mas muito provei­
toso. Saber sobre o que devemos insistir desde o princípio, como
absolutamente necessário, e o que reservar para o futuro, qüando o
discípulo tiver alcançado um conhecimento mais perfeito, é uma das
maiores qualificações de um instrutor de almas.
Em seguida, observemos quanto encorajamento nosso Senhor
dá, mesmo à fé mais humilde. Nesta passagem, lemos que certa mulher,
afligida por uma grave enfermidade, veio por detrás do Senhor Jesus,
em meio à multidão, e Lhe tocou “ na orla da veste” , na esperança de
que, se assim o fizesse, seria curada do seu flagelo. A mulher não pro­
feriu uma palavra, pedindo auxílio. Ela não fez qualquer pública confissão
de fé. E, no entanto, confiava que, se ao menos tocasse nas vestes de
Jesus, ficaria curada. Foi o que sucedeu. Oculta naquele seu ato havia
uma preciosa semente de fé em Jesus, elogiada por nosso Senhor. A
mulher foi curada instantaneamente, e voltou para casa em paz. Nas
palavras de um antigo escritor: “ Veio em tremores, mas saiu em
triunfo” .
Guardemos na mente esta história. Ela pode nos ajudar podero­
samente em alguma hora de necessidade. Nossa fé talvez seja fraca.
Nossa coragem pode ser pequena. A nossa apreensão do evangelho e
de suas promessas talvez seja frágil e estremecida. Porém, a grande
pergunta, afinal, é esta: “ Na realidade confiamos somente em Cristo?
Olhamos para Jesus, e somente para Jesus para receber perdão e paz?”
Se assim acontece conosco, isso é bom sinal. Embora não possamos
tocar nas suas vestes, podemos tocar no coração de Jesus. Uma fé as­
sim salva a alma. A fé fraca é menos consoladora do que a fé vigorosa.
A fé fraca irá nos levar para o céu com muito menos regozijo do que
teríamos se tivéssemos a total confiança. Mas a fé, embora fraca, dá-
-nos os benefícios de Cristo, tanto quanto a fé mais vigorosa. Quem
ao menos tocar nas vestes de Jesus, sob hipótese nenhuma perecerá.
Mateus 9.14-26 63

Em último lugar, observemos nesta passagem o poder infinito


de nosso Senhor. Ele devolve a vida a uma pessoa morta. Quão admirável
deve ter sido aquela cena! Quem, ao ter visto uma pessoa morrer, po­
derá esquecer-se da imobilidade, do silêncio e da frieza, quando o fôlego
da vida abandona o corpo? Quem pode esquecer o horrível sentimento
de que uma coisa terrível aconteceu e que um enorme abismo foi aberto
entre nós e a pessoa falecida? Eis, porém, que nosso Senhor entra no
quarto onde jaz o corpo da menina, e chama de volta o espírito ao seu
tabernáculo terrestre. O pulso começa a bater novamente. Os olhos vêem
outra vez. A respiração novamente vem e vai. A filha do chefe da si­
nagoga está viva novamente, restituída a seu pai e mãe. Manifestara-se
ali a verdadeira onipotência! Ninguém poderia ter realizado tal feito,
senão Aquele que no princípio criou o homem, e que tem todo o poder
no céu e na terra.
Este é um aspecto da verdade que nunca poderemos conhecer
bem demais. Quanto mais claramente vemos o poder de Cristo, tanto
mais aptos estamos para experimentar a paz do evangelho. Nossa con­
dição poderá ser penosa. Nosso coração pode ser fraco. Talvez sintamos
grande dificuldade em prosseguir a jornada, neste mundo. Nossa fé pode
parecer-nos demasiado fraca para nos conduzir até o céu. Porém, me­
ditando a respeito de Jesus tomemos coragem, e não nos deixemos
arrastar pelo desânimo. Maior é Aquele que é por nós do que todos
quantos são contra nós. Nosso Salvador pode ressuscitar os mortos.
Nosso Salvador é Todo-poderoso.

A Cura de Dois Cegos; Jesus Se Compadece


da Multidão; O Dever dos Discípulos
Leia Mateus 9.27-38
Neste texto há quatro lições que merecem atenção especial. Va­
mos examiná-las sucessivamente.
Antes de tudo, marquemos bem que, algumas vezes, uma fé po­
derosa em Cristo pode ser encontrada onde menos se suspeitaria. Quem
poderia imaginar que dois cegos pudessem chamar nosso Senhor de “ Fi­
lho de Davi” ? Naturalmente, eles não podem ter visto os milagres
realizados por Jesus. Só podem ter tomado conhecimento dEle mediante
o que outras pessoas lhes diziam. Porém, os olhos de seu entendimento
foram iluminados, embora seus olhos físicos continuassem em trevas.
E assim perceberam a verdade que os escribas e os fariseus não foram
capazes de perceber. Compreenderam que Jesus de Nazaré era o Mes­
sias. Creram que Ele podia curá-los.
64 Mateus 9.27-38

Um exemplo assim mostra-nos que jamais deveríamos desespe­


rar da salvação eterna de qualquer pessoa, somente porque tal pessoa
vive em circunstâncias que são desfavoráveis à sua conversão. A graça
divina é mais forte do que as circunstâncias. A vida piedosa não de­
pende meramente de condições vantajosas aparentes. O Espírito Santo
pode proporcionar fé e mantê-la em ativo exercício, sem dinheiro ou
educação formal, mas apenas utilizando-se de escassos meios de graça.
Sem o Espírito Santo, um homem pode conhecer todos os mistérios,
e viver sob a plena influência do evangelho, e, ainda assim, estar per­
dido. Veremos cenas muito estranhas no último dia. Pessoas de condição
humilde mostrarão terem crido no Filho de Davi, ao passo que homens
ricos, cheios de erudição universitária, mostrarão ter vivido e morrido
como os fariseus, na mais dura incredulidade. Muitos dos que agora
são últimos, serão primeiros, e muitos dos que agora são primeiros,
serão últimos (Mt 20.16).
A seguir destaquemos o fato que nosso Senhor Jesus Cristo tinha
uma grande experiência com enfermidades e doenças. ‘‘Percorria Jesus
todas as cidades e povoados” , fazendo o bem. Ele foi testemunha ocu­
lar de todos os males herdados pela carne. Ele viu doenças de todo tipo,
variedade e descrição. Entrou em contato com toda sorte de doenças
e sofrimentos físicos. E, por mais repugnantes que fossem, não se sen­
tiu repelido por ter que tratar com qualquer das pobres vítimas desses
sofrimentos. Nenhuma doença era por demais repelente para Ele a cu­
rar. Ele curava “ toda sorte de doenças e enfermidades” .
Podemos obter grande consolo desse fato. Cada um de nós habita
em um corpo débil e frágil. Nunca sabemos quanto sofrimento ainda
precisaremos contemplar, enquanto nos assentamos à beira do leito de
enfermidades de amigos e parentes queridos. Nunca sabemos quantos
sofrimentos teremos nós mesmos de passar, antes de morrermos. No
entanto, armemo-nos, a todo instante, com o precioso pensamento que
Jesus é especialmente apto para ser o Amigo dos doentes. Este nosso
grande Sumo Sacerdote, a quem devemos recorrer para termos perdão
e paz com Deus, está tão eminentemente qualificado para se compa­
decer de um corpo dolorido, como também para sarar uma consciência
culpada. Os olhos dAquele que é o Rei dos reis muitas vezes se com­
padeceram dos enfermos. Este mundo pouco ou nada se importa com
os doentes, e geralmente procura manter-se afastado. Mas o Senhor
Jesus tem cuidado especial pelos enfermos. Ele é o primeiro a visitá-los
e a dizer-lhes: “ Eis que estou à porta e bato” . Felizes são aqueles que
Lhe ouvem a voz e deixam-No entrar!
Assinalamos, em seguida, a tema preocupação de nosso Senhor
pelas almas negligenciadas. Quando estava neste mundo, Jesus viu ‘‘mui-
Mateus 9.27-38 65

tídões” que vagavam, como “ ovelhas que não têm pastor” , e o seu
coração moveu-se de compaixão. Ele as via negligenciadas por aqueles
que, na época, deveriam ter sido seus mestres. Ele via a uma multidão
de pessoas ignorantes, sem esperança, desamparadas, morrendo sem
estarem preparadas para morrer. Esta visão levou Jesus à profunda com­
paixão. Aquele coração amoroso não podia ver essas coisas sem
comover-se.
Quais são os nossos sentimentos, quando vemos pessoas nessa
mesma condição? Esta é a pergunta que deveria surgir em nossa mente.
Há um grande número de pessoas nessas condições, que podemos ver
por toda a parte. Há milhões de idólatras e pagãos na terra, milhões
de iludidos islamitas, milhões de católicos supersticiosos romanos. Há
também milhares de protestantes ignorantes, vivendo bem junto a nós.
Sentimo-nos grandemente preocupados com tais almas? Sentimos pro­
fundamente a carência espiritual dessas pessoas? Ansiamos por vê-las
aliviadas dessas carências? Estas são perguntas sérias e que exigem res­
posta. É fácil desprezar as missões aos pagãos, bem como aqueles que
trabalham em favor dos incrédulos. Porém, quem não sente profunda­
mente pela alma dos não convertidos, certamente não pode ter a mente
de Cristo (1 Co 2.16).
Destaquemos, em último lugar, que há um solene dever para to­
dos os crentes, que desejam fazer o bem à porção ainda não-convertida
da humanidade. Eles são incumbidos de sempre orar para que o Senhor
levante mais homens para o trabalho da conversão das almas. Parece
mesmo que essa petição deve fazer parte das nossas orações diárias:
“ Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua
seara” .
Se sabemos orar, tomemos como uma questão da consciência ja­
mais nos esquecermos dessa solene incumbência que nos foi dada por
nosso Senhor. Fixemos bem em nossa mente que esta é uma das mais
seguras maneiras de se praticar o bem e refrear o mal. O trabalho pes­
soal, em favor de almas, é bom. Contribuir com a obra missionária
é bom. Mas o melhor de tudo é orar. Pela oração alcançamos Aquele,
sem o qual todo o trabalho e o dinheiro disponível são em vão. Me­
diante a oração obtemos a ajuda do Espírito Santo. O dinheiro pode
financiar. As universidades podem conferir erudição. As congregações
podem eleger obreiros, e as autoridades eclesiásticas ordená-los. Po­
rém, somente o Espírito Santo pode fazer os verdadeiros ministros do
evangelho ou levantar obreiros leigos para a seara espiritual, obreiros
que não têm de que se envergonhar. Nunca, jamais nos esqueçamos
de que, se desejamos fazer o bem à humanidade, nosso primeiro dever
é orar!
66 Mateus 10.1-15

O Envio dos Primeiros Pregadores Cristãos


Leia Mateus 10.1-15

Este capítulo é particularmente solene. Temos aqui a primeira


ordenação que teve lugar na igreja de Cristo. O Senhor Jesus escolhe
e envia os seus doze apóstolos. Temos aqui a primeira incumbência
conferida a ministros cristãos recém-consagrados. O Senhor Jesus mesmo
foi quem os ordenou. Nunca houve uma ordenação tão importante!
Há três lições que se salientam com proeminência nos primeiros
quinze versículos deste capítulo. Vamos examiná-las pela ordem.
Em primeiro lugar, somos ensinados que nem todos os ministros
do evangelho são, necessariamente, homens bons. Vemos nosso Senhor
escolhendo a Judas Iscariotes para ser um dos seus apóstolos. Não po­
demos duvidar de que Aquele que conhecia tão bem os corações, conhecia
também o caráter de cada um dos homens a quem escolheu. No entanto,
Ele incluiu na lista dos apóstolos um homem que era um traidor!
Faremos bem em sempre lembrar este fato. A ordenação para
o ministério não confere a graça salvadora do Espírito Santo. Homens
ordenados não são necessariamente convertidos. Não devemos considerá-
-los infalíveis, seja na doutrina ou na prática. Não podemos fazer deles
papas ou ídolos, e, insensatamente, fazê-los ocupar o lugar de Jesus
Cristo. Antes, devemos considerá-los como homens “ sujeitos às mes­
mas paixões que nós” , sujeitos às mesmas fraquezas, e que diariamente
necessitam da mesma graça divina. Não devemos pensar que é impossível
que eles pratiquem coisas muito ruins, e nem devemos esperar que es­
tejam acima dos danos causados pela bajulação, cobiça e atrativos deste
mundo. Devemos testar os ensinamentos desses homens por meio da
Palavra de Deus, e imitá-los à medida em que eles seguem a Cristo,
nunca mais do que isto. Acima de tudo, porém, devemos orar por eles,
para que sejam sucessores, não de Judas Iscariotes, e, sim, de Tiago
e de João. E coisa seríssima ser um ministro do evangelho! Os minis­
tros precisam de muita oração a seu favor.
Em seguida, somos ensinados que a grande obra de um ministro
de Jesus Cristo é fazer o bem. Ele é enviado para buscar as “ ovelhas
perdidas” , para proclamar as boas novas, para aliviar os que estão em
sofrimento, para diminuir a tristeza e aumentar o regozijo. A vida de
um ministro deve caracterizar-se pelo dar, mais do que pelo receber.
Este é um padrão de vida elevado, e muito peculiar ao ministério
cristão. Portanto, que seja bem sopesado e cuidadosamente examinado.
Antes de tudo, é evidente que a vida de um fiel ministro de Cristo não
Mateus 10.1-15 67

pode ser uma vida fácil. Todo ministro de Cristo deve dispor-se a gas­
tar seu corpo e mente, seu tempo e energias na tarefa para a qual foi
chamado. A preguiça e a frivolidade são intoleráveis em qualquer pro­
fissão; mas são piores ainda, no offcio da sentinela de almas. É também
claro que a posição dos ministros de Cristo não coincide com aquilo
que, muitas vezes, pessoas ignorantes lhes atribuem e que, infelizmente,
certos ministros reivindicam para si. Eles não são ordenados para do­
minar, mas para servir. Não lhes compete tanto exercer domínio sobre
a igreja, quanto suprir as necessidades dos seus membros e servi-los
(2 Co 1.24). Bom seria para a causa da verdadeira religião, se tais coi­
sas fossem melhor compreendidas! Metade dos males do cristianismo
têm surgido de noções equivocadas a respeito do ofício do ministro.
Em último lugar, somos ensinados que é muito perigoso negli­
genciar os oferecimentos do evangelho. “ Menos rigor haverá para
Sodoma e Gomorra, no dia do juízo” , do que para aqueles que já ou­
viram a verdade acerca de Cristo, mas não a receberam.
Esta é uma doutrina que tem sido temivelmente negligenciada,
embora mereça a mais séria consideração de nossa parte. Os homens
inclinam-se, mui lamentavelmente, por esquecer-se de que não é ne­
cessário cometer pecados gravíssimos para que uma alma fique arruinada
para todo o sempre. Basta que a pessoa continue ouvindo o evangelho
mas não crendo, escutando mas não arrependendo-se, vindo à igreja
mas não vindo a Cristo; assim, pouco a pouco acabará no inferno! To­
dos seremos julgados de acordo com a luz que recebemos. Ouvir as
boas novas da “ grande salvação” e, no entanto, negligenciá-las, é um
dos piores pecados que se pode cometer (Jo 16.9).
O que estamos fazendo com o evangelho? Esta é a indagação que
cada um que lê esta passagem bíblica deve pôr, diante de sua própria
consciência. Suponhamos que nós mesmos sejamos pessoas decentes
e respeitáveis, corretas e morais em todas as relações da vida, e cons­
tantes na nossa aproximação formal aos meios de graça. Quanto a essas
coisas, tudo está muito bem. Entretanto, seria isso tudo quanto pode
ser dito a nosso respeito? Estamos, realmente acolhendo o amor à ver­
dade? Está Cristo habitando em nossos corações, pela fé? Em caso
contrário, estamos correndo um terrível perigo. Estamos sendo muito
mais culpados do que os homens de Sodoma, os quais jamais ouviram
o evangelho. Podemos um dia descobrir que, a despeito de toda a nossa
regularidade, moralidade e correção, estamos perdidos para sempre.
O fato de termos vivido sob a plena luz dos privilégios cristãos, e ter­
mos ouvido a pregação fiel do evangelho, semana após semana, só isto,
apenas, não nos livrará da condenação. Tem que haver a experiência
pessoal com Cristo. Precisamos receber pessoalmente a verdade de
68 Mateus 10.1-15

Cristo. É preciso existir uma união vital com Ele. Devemos nos tomar
seus servos e discípulos. Sem isto, a pregação do evangelho só faz
aumentar a nossa responsabilidade, toma-nos ainda mais culpados, e
por fim nos fará afundar ainda mais profundamente no inferno. Estas
são declarações difíceis de se ouvir. Porém, as palavras das Escrituras
que temos acabado de ler são claras e inequívocas. Elas são todas ver­
dadeiras.

Instruções aos Primeiros Pregadores Cristãos


Leia Mateus 10.16-23

As verdades contidas nestes versículos deveriam ser ponderadas


por todos os que procuram fazer o que é direito neste mundo. Para o
egoísta, que com nada mais se importa senão com o seu próprio bem-
-estar e conforto, talvez pareça haver bem pouca coisa nestes versículos.
Para o ministro do evangelho, bem como para todos quantos buscam
salvar almas, estes versículos deveriam estar repletos de interesse. Não
há dúvida que neles há muita coisa que se aplicava de modo especial
aos dias dos apóstolos. Mas há também muita coisa que tem aplicação
para todas as épocas.
Antes de mais nada, aprendemos que os que quiserem trabalhar
na obra do Senhor devem ser moderados quanto às suas expectativas.
Não devem pensar que um sucesso universal acompanhará os seus es­
forços. Pelo contrário, devem esperar encontrar muita oposição. Devem
ter em mente o fato que serão odiados, perseguidos e maltratados, e
isso até mesmo da parte de seus parentes mais chegados. Freqüente­
mente, sentir-se-ão como ovelhas entre os lobos.
Tenhamos isto sempre em mente. Sem importar se estivermos
pregando, ensinando ou visitando de casa em casa, sem importar se
estivermos escrevendo ou dando conselhos, ou qualquer outra coisa que
estejamos fazendo, que seja um pensamento constante não esperarmos
mais do que as Escrituras e a experiência garantem. A natureza humana
é muito mais iníqua e corrupta do que pensamos. O poder do mal é
maior do que supomos. É inútil imaginar que todos perceberão o que
é melhor para eles, e que acreditarão no que lhes dissermos. Isto seria
uma expectativa muito alta, e ficaríamos desapontados. Feliz é o obreiro
de Cristo que compreende essas coisas desde o início, e que não tem
necessidade de aprendê-las mediante amarga experiência. Aqui está a
razão secreta porque muitos têm dado as costas para a boa causa, de­
pois de terem parecido tão cheios de zelo no princípio. Começaram com
Mateus 10.16-23 69

expectativas muito altas. Não calcularam o preço. Caíram no mesmo


equívoco do grande reformador alemão, que confessou ter-se esquecido
do fato que “ o velho Adão era forte demais para o jovem Melancthon’’.
Por outra parte, compreendemos que os que desejam fazer o bem
têm necessidade de orar por sabedoria, bom senso e uma mente sadia.
Nosso Senhor diz aos seus discípulos: para serem “ prudentes como as
serpentes e símplices como as pombas” . Também disse que, se fossem
perseguidos em alguma cidade, era legítimo “ fugir para outra” .
Poucas foram as instruções dadas por nosso Senhor tão difíceis
de praticar corretamente como esta. Jesus demarcou uma linha entre
dois extremos, mas é necessário grande discernimento para que a pos­
samos definir. Um desses extremos é evitar a perseguição, mantendo-nos
calados e conservando a nossa religião inteiramente para nós mesmos.
Não devemos errar nessa direção. O outro extremo é cortejar a perse­
guição, forçar a nossa religião sobre todas as pessoas que encontramos,
sem levar em conta o lugar, a hora ou as circunstâncias. Também so­
mos advertidos a não errar nessa direção. Bem podemos questionar:
“ Quem, porém, é suficiente para estas cousas?” Temos a necessidade
de clamar ao único e sábio Deus, rogando-lhe sabedoria.
O extremo para o qual a maioria dos homens se inclina nos dias
atuais é o silêncio, a covardia, deixando os demais imperturbados. Essa
suposta prudência tende por degenerar em uma conduta caracterizada
pela negligência, ou mesmo pela mais franca infidelidade. Com dema­
siada freqüência estamos dispostos a assumir que, para determinadas
pessoas, é inútil tentar fazer o bem. Justificamo-nos em não envidar
esforços para o bem das almas dessas pessoas, dizendo que seria in­
discrição, inconveniência, ou que seria uma ofensa desnecessária, ou
que isso seria uma agressão contra as pessoas. Vigiemos e ponhamo-
-nos em guarda contra essa atitude. A preguiça e o diabo são geralmente
a verdadeira explicação para tal atitude. Sem dúvida é agradável para
a carne e o sangue ceder a essa atitude, pois ela nos poupa de muitas
dificuldades. Entretanto, aqueles que cedem diante dela geralmente des­
perdiçam grandes oportunidades de serviço.
Por outro lado, é impossível negarmos que existe um zelo santo
e justo, “ porém não com entendimento” (Rm 10.2). É perfeitamente
possível ofender desnecessariamente as pessoas, cometer grandes equívo­
cos e despertar intensa oposição, que poderia ter sido evitada com um
pouco de prudência, um procedimento sábio e o exercício de bom senso.
Tenhamos cuidado para não nos tornarmos culpados a esse respeito.
Podemos ter certeza de que a sabedoria cristã existe e que é inteira­
mente distinta das sutilezas jesuíticas e do procedimento carnal. Que
todos nós procuremos obter essa sabedoria. Nosso Senhor Jesus Cristo
70 Mateus 10.16-23

não requer de nós que nos desfaçamos do nosso bom senso quando pro­
curamos trabalhar para Ele. Sempre haverá bastante ofensa na nossa reli­
gião cristã, não importa o que façamos; porém, não devemos aumentar
as possibilidades disso desnecessariamente. “ Portanto, vede prudente­
mente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios” (Ef 5.15).
É de temer que os crentes no Senhor Jesus não oram o suficiente
por um espírito de sabedoria, juízo e bom senso. Eles tendem a pensar
que, se já receberam a graça divina, então já têm tudo quanto precisam.
Esquecem-se de que um coração agraciado deveria orar para ser pleno
de sabedoria, assim como do Espírito Santo (At 6.3). Lembremos que
muita graça e bom senso talvez seja uma das mais raras combinações
que existe. A vida de Davi e o ministério do apóstolo Paulo, contudo,
são provas notáveis de que essa combinação é possível. Nisto, como em
todas as demais coisas, nosso Senhor Jesus Cristo, pessoalmente, é o
nosso mais perfeito exemplo. Ninguém jamais se mostrou tão fiel quanto
Ele. E, no entanto, ninguém jamais foi tão verdadeiramente sábio. Fa­
çamos de Cristo o nosso modelo, e andemos nos passos dEle.

Advertências aos Primeiros Pregadores Cristãos


Leia Mateus 10.24-33

Fazer a obra de Deus neste mundo é uma tarefa muito difícil!


Todos quantos a empreendem descobrem isto por experiência. É pre­
ciso muita coragem, fé, paciência e perseverança. Satanás lutará
vigorosamente para manter o seu reino. A natureza humana é deses­
peradamente corrupta. Praticar o mal é fácil. O difícil é fazer o bem.
O Senhor Jesus sabia disso muito bem quando enviou os seus
discípulos para pregarem o evangelho pela primeira vez. Mesmo que
eles não soubessem o que os esperava, Ele o sabia. Ele teve o cuidado
de lhes dar uma lista de palavras de encorajamento, para animá-los
quando se sentissem abatidos. Missionários exaustos no país distante,
ou ministros que se sentem esgotados, mesmo trabalhando no seu pró­
prio país, professores desalentados e evangelistas desanimados, todos
fariam bem em estudar com freqüência os nove versículos desta pas­
sagem. Observemos o que eles contêm.
Os que trabalham na obra de Deus não devem esperar ser melhor
sucedidos. “O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo
acima do seu senhor” , O Senhor Jesus foi caluniado e rejeitado por
aqueles a quem viera beneficiar. Não havia erros em sua doutrina. Não
havia defeitos em seu método de transmitir a instrução. Mesmo assim
Mateus 10.24-33 71

Ele foi odiado e chamado de Belzebu. Poucos creram nEle e se impor­


taram com o que Ele dizia. Não temos o direito de ficar surpresos se
nós, cujos melhores esforços são permeados de tantas imperfeições,
somos tratados da mesma maneira que Jesus Cristo o foi. Se não nos
importarmos com o mundo, eles também não se importarão conosco.
Mas, se intentarmos o bem-estar espiritual dos homens, então nos
odiarão, como fizeram ao nosso grande Mestre.
Os que procuram fazer o bem, devem esperar com paciência pelo
dia do juízo. “ Nada há encoberto, que não venha a ser revelado; nem
oculto, que não venha a ser conhecido” . Precisam contentar-se em se­
rem mal compreendidos, difamados, vilipendiados, caluniados e
maltratados neste mundo. Não devem deixar de trabalhar, somente por­
que os seus motivos são mal interpretados e o caráter deles é ferozmente
atacado. Devem lembrar-se continuamente de que todas essas injustiças
serão devidamente corrigidas, no último dia. Os segredos do coração
de todos os homens serão então desvendados. Ele “ fará sobressair a
tua justiça como a luz, e o teu direito como o sol ao meio-dia” (SI 37.6).
A pureza das intenções dos crentes, a sabedoria dos labores deles e a
retidão da causa que defendem serão, finalmente, manisfestos diante
do mundo inteiro. Por conseguinte, continuemos trabalhando constante
e tranqüilamente. Talvez os homens não nos compreendam, opondo-se
com veemência a nós. Porém, o dia do juízo já se aproxima velozmente.
Afinal, a justiça nos será feita. O Senhor, quando voltar ao mundo,
“ não somente trará à plena luz as cousas ocultas das trevas, mas tam­
bém manifestará os desígnos dos corações; e então cada um receberá
o seu louvor da parte de Deus” (1 Co 4.5).
Os que procuram fazer o bem devem temer mais a Deus do que
aos homens. Os homens podem ferir-nos o corpo, mas isso é o máximo
que podem fazer. Não podem ir mais longe. Mas Deus “ pode fazer
perecer no inferno tanto a alma como o corpo” . Se andamos pelo ca­
minho do nosso dever religioso, podemos ser ameaçados com a perda
de nossa reputação, propriedades e tudo o que torna a vida agradável.
Se andamos corretamente, não devemos temer tais ameaças. Assim como
Daniel e seus três amigos, devemos nos submeter a qualquer coisa ne­
cessária para não desagradar a Deus e ferir a consciência. Talvez seja
difícil suportar a ira dos homens, mas a ira de Deus é muitíssimo pior.
O temor ao homem pode fazer-nos cair em alguma armadilha. Mas,
precisamos repelir esse temor com um princípio muito poderoso, a sa­
ber, o temor a Deus. O bondoso Coronel Gardiner disse: “ Temo a Deus,
portanto, não preciso temer a mais ninguém” .
Os que procuram fazer o bem devem trazer na mente o cuidado
providencial que Deus tem por seus filhos. Coisa alguma pode aconte­
72 Mateus 10.24-33

cer neste mundo sem a permissão de Deus. Na verdade, nada acontece


por acaso, acidente ou sorte. “ Quanto a vós outros, até os cabelos to­
dos da cabeça estão contados” . O caminho do dever pode às vezes nos
conduzir a grandes perigos. Nossa saúde e a própria vida podem ser
ameaçadas, se avançamos no cumprimento do dever. Portanto, que nos
consolemos mediante o pensamento de que tudo quanto nos circunda
está nas mãos de Deus. Corpo, alma e caráter, tudo está entregue aos
cuidados do Senhor. Nenhuma enfermidade nos poderá atingir, ninguém
nos poderá ferir, a menos que Ele o permita. Podemos dizer confia-
damente a tudo quanto nos ameace: “ Nenhuma autoridade terias sobre
mim, se de cima não te fosse dada” (Jo 19.11).
Finalmente, os que procuram fazer o bem devem relembrar con­
tinuamente o dia em que se encontrarão com o Senhor para receberem
a parte que lhes cabe. Se desejam que Cristo os reconheça e os con­
fesse diante do trono de seu Pai, precisam confessar diante dos homens
o seu nome, e não estar envergonhados dEle. Fazer isso poderá nos
custar muita coisa. Pode trazer contra nós riso, escárnio, perseguição e
zombarias. Porém, mesmo que zombem de nós, lembremo-nos de que
temos um galardão no céu. Não nos esqueçamos do grande e temível
dia da prestação de contas, e não tenhamos receio de mostrar aos ho­
mens que amamos a Cristo e que desejamos que eles também O amem.
Que estes encorajamentos fiquem entesourados nos corações de
todos os que trabalham na causa de Cristo, qualquer que seja o ofício.
O Senhor conhece as dificuldades de seus servos, e disse estas palavras
a fim de consolá-los. Ele cuida de todos os que nEle crêem, mais es­
pecialmente daqueles que trabalham na sua causa e se esforçam por fazer
o bem. Que nós todos possamos ser contados entre os obreiros de Cristo.
Todo crente pode fazer alguma coisa, se tentar fazê-lo. Sempre há algo
que cada um pode fazer. Que cada um de nós tenha a visão e a vontade
de fazer a obra do Senhor.

Palavras de Encorajamento aos Primeiros


Pregadores Cristãos
Leia Mateus 10.34-42

Nestes versículos, o grande Cabeça da igreja conclui a primeira


incumbência que determinou àqueles que estava enviando para divulgar
o seu evangelho. Jesus declarou três grandiosas verdades, que formam
uma apropriada conclusão para o seu discurso.
Em primeiro lugar, Cristo ordena lembrarmos que o evangelho
Mateus 10.34-42 73

nem sempre instaurará paz e concórdia onde for anunciado. ‘‘Não vim
trazer paz, mas espada.” O objetivo da primeira vinda de Cristo à terra
não foi o de inaugurar um reino milenar, dentro do qual todos teriam
uma única atitude mental; antes, Ele veio trazer o evangelho que ha­
veria de provocar divisões e contendas. Não temos o direito de nos sentir
surpreendidos se essa predição vai sendo incessantemente cumprida.
Não devemos estranhar se o evangelho chegar a dividir famílias intei­
ras, separando até mesmo os parentes mais chegados. Com certeza esse
será o resultado do evangelho em muitos casos, por causa da arraigada
corrupção do coração humano. Enquanto um homem crê e outro per­
manece na incredulidade, enquanto um homem resolve desistir de seus
pecados, mas outro está resolvido a continuar no pecado, o resultado
da pregação do evangelho será divisão. Não devemos culpar o evan­
gelho, mas, sim, o coração do homem.
Nestes ensinamentos há uma profunda verdade, embora seja cons­
tantemente esquecida e negligenciada. Muitos falam em termos vagos
acerca de unidade, harmonia e paz na igreja de Cristo, como se devês­
semos esperar por essas coisas, e pelas quais tudo o mais devesse ser
sacrificado. Tais pessoas fariam bem em relembrar as palavras de nosso
Senhor. Não há dúvida, a unidade e a paz são bênçãos poderosas. De­
veríamos buscar alcançá-las, orando por elas e até desistindo de tudo
o mais para as obtermos, excetuando a bondade e uma boa consciência.
Porém, é um sonho vão supormos que as igrejas de Cristo desfrutarão
de grande unidade e paz, antes que venha o milênio.
Em segundo lugar, nosso Senhor nos diz que os verdadeiros
cristãos devem estar preparados para sofrerem tribulações neste mundo.
Se somos ministros ou ouvintes, se ensinamos ou somos ensinados, não
faz muita diferença. Temos que levar a nossa “ cruz” . Devemos estar
dispostos a perder até a própria vida por amor a Cristo. Devemos nos
submeter à perda do favor dos homens, suportar as dificuldades e negar
a nós mesmos muitas vezes ou, então, jamais chegaremos ao céu. En­
quanto o mundo, o diabo e os nossos próprios corações forem como
são, as coisas têm de ser assim.
Descobriremos quão útil é relembrar-nos dessa lição, para então
transmiti-la aos nossos semelhantes. Poucas coisas são mais prejudiciais
à religião do que as expectativas exageradas e fora de proporção. Cer­
tas pessoas esperam encontrar uma medida de conforto mundano no
serviço de Cristo, embora não tenham o direito de esperar. E, não en­
contrando o que esperavam, sentem-se tentadas a desistir, desgostosas,da
religião. Feliz é quem compreende que, embora o cristianismo traga
uma coroa no final da carreira, traz também uma cruz para o caminho.
Por fim, nosso Senhor nos alegra com a declaração de que mesmo
74 Mateus 10.34-42

o menor serviço prestado àqueles que trabalham em sua causa será ob­
servado e recompensado por Deus. ‘‘E quem der a beber ainda que seja
um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo,
em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.”
Nesta promessa há algo maravilhoso. Ela nos ensina que os olhos
do nosso grande Mestre estão perenemente fixos sobre aqueles que tra­
balham para Ele e procuram fazer o bem. Parece que essas pessoas
trabalham sem serem notadas, sem serem consideradas. O trabalho dos
pregadores e missionários, dos professores e dos que visitam os pobres,
pode parecer de pouco valor e insignificante, em comparação com os
ofícios de reis e parlamentares, de generais e estadistas. Mas não é in­
significante aos olhos de Deus. Ele observa os que se opõem aos seus
servos e aqueles que os ajudam. Ele observa quem é dócil para seus
ministros, como Lídia agiu com Paulo, e quem põe obstáculos no ca­
minho, como Diótrefes fez contra o apóstolo João. Toda a experiência
diária dos discípulos de Cristo fica registrada, enquanto trabalham na
seara do Mestre. Tudo fica registrado no grande livro das obras e tudq
será revelado no dia do juízo. O copeiro-mór esqueceu-se de José de­
pois de ter sido restaurado a seu cargo. Mas o Senhor Jesus jamais se
esquece de qualquer do seu povo. Ele dirá a muitos, que menos espe­
ram por isso, no dia da ressureição: “ Tive fome e me destes de comer;
tive sede e me destes de beber” (Mt 25.35).
Ao encerrarmos o estudo deste capítulo, perguntamos a nós mes­
mos como consideramos a obra e a causa de Cristo neste mundo. Estamos
ajudando ou dificultando essa obra? Estamos ajudando de alguma ma­
neira, aos profetas e aos “justos” do Senhor? Estamos auxiliando estes
pequeninos? Estamos pondo obstáculos no caminho, ou estamos enco­
rajando os obreiros do Senhor, procurando animá-los? Estas são pergun­
tas muito sérias. Os que oferecem o “ copo de água fria” sempre que
tenham oportunidade, agem bem e com sabedoria. Porém, agem ainda
melhor aqueles que trabalham ativamente na obra do Senhor. Que to­
dos nós nos esforcemos por deixar este mundo melhor do que aquele
em que nascemos. Isso é ter a mente de Cristo. Isso é descobrir pes­
soalmente o valor das maravilhas contidas neste capítulo.

João Envia Mensageiros a Jesus


Leia Mateus 11.1-15

A primeira coisa que nos chama atenção nesta passagem é a men­


sagem que João Batista envia a nosso Senhor Jesus Cristo. Ele mandou
Mateus 11.1-15 75

dois dos seus discípulos perguntarem a Jesus: “ És tu aquele que estava


para vir, ou havemos de esperar outro?”
Essa indagação não foi gerada por dúvida ou incredulidade de
João Batista. Faríamos uma grave injustiça àquele grande santo do Se­
nhor se interpretássemos a pergunta dessa maneira. Ela foi formulada
visando ao benefício dos discípulos de João. Teve a finalidade de
oferecer-lhes a oportunidade de ouvirem dos próprios lábios de Cristo
a evidência de sua missão divina. Sem dúvida, João Batista sentiu que
o seu próprio ministério estava terminado. Alguma coisa, no seu íntimo,
lhe segredava que ele jamais sairia do cárcere de Herodes mas, pelo
contrário, ali morreria. João lembrou-se dos ciúmes e invejas, moti­
vados pela ignorância, que haviam surgido entre os seus discípulos e
os de Cristo. Logo, escolheu o curso mais provável para esses ciúmes
serem dissipados para sempre. Enviou alguns de seus seguidores para
que estivessem “ ouvindo e vendo” por si mesmos o que Jesus fazia.
A conduta de João Batista nos oferece um extraordinário exem­
plo para ministros, professores e aos pais, quando estão chegando ao
final de sua carreira. A principal preocupação desses deveria dizer res­
peito às almas que eles deixarão atrás de si, neste mundo. E o grande
desejo deles deveria ser persuadir tais almas a apegarem-se a Cristo.
A morte daqueles que nos têm guiado e instruído neste mundo sempre
deveria produzir tal efeito. Deveria fazer com que nos apegássemos
ainda mais firmemente Àquele que nunca mais morrerá, que continuará
para sempre e tem um “ sacerdócio imutável” (Hb 7.24).
Outra coisa que requer a nossa atenção, neste texto, é o elevado
testemunho dado por nosso Senhor no tocante ao caráter de João Ba­
tista. Nenhum homem jamais recebeu tamanha aprovação como essa
que Jesus dá a seu amigo que fora aprisionado. “ Entre os nascidos de
mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista.” Nos dias de
seu ministério público, João havia confessado ousadamente a Jesus,
perante os homens, mostrando ser Ele o Cordeiro de Deus. Agora,
Jesus declarava abertamente que João Batista era mais do que um mero
profeta.
Sem dúvida, havia alguns que estavam inclinados a fazer pouco
caso de João Batista, em parte, por ignorância da natureza do minis­
tério de João, e, em parte, por não terem compreendido a finalidade
da pergunta que ele mandara fazer a Jesus. Nosso Senhor faz silenciar
esses astuciosos com a declaração que faz a respeito de João Batista.
Jesus lhes disse que não deveriam pensar que João fosse um homem
tímido, vacilante e instável, “ um caniço agitado pelo vento” . Se assim
pensassem, estariam totalmente enganados. João Batista foi uma teste­
munha poderosa e inflexível da verdade. Jesus diz que não deveriam
76 Mateus 11.1-15

supor que João fosse mundano de coração, apreciador dos palácios re­
ais e da vida fácil. Se assim estivessem pensando, estariam cometendo
um grande erro. João era um abnegado pregador do arrependimento,
que preferiria ser vítima da ira de um rei a deixar de reprovar os pe­
cados deste. Em suma, Jesus queria que todos soubessem que João Batista
era “ muito mais do que profeta” . João era alguém a quem Deus tinha
dado maior honra do que a todos os profetas do Antigo Testamento.
Na verdade, aqueles profetas haviam profetizado a respeito de Cristo,
mas morreram sem tê-Lo visto. João não somente profetizou a respeito
dEle, como também O viu face a face. Os profetas haviam predito que
os dias do Filho do homem certamente chegariam, e o Messias apare­
ceria neste mundo. João foi testemunha ocular desses dias e, também,
um honroso instrumento de preparação dos homens para esses dias. Aos
profetas foi ordenado predizer que o Messias “ como cordeiro seria le­
vado ao matadouro” , e seria “ cortado da terra dos viventes” . Mas a
João Batista fora outorgado apontar pessoalmente para Ele, e dizer: “ Eis
o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”
Há algo de belíssimo e consolador para os verdadeiros crentes,
neste testemunho de nosso Senhor sobre João Batista. Vemos o inte­
resse que o nosso grande Cabeça sente, quanto à vida e o caráter de
todos os seus membros. Vemos quanta honra Ele está pronto a conce­
der a todo trabalho e labor que os crentes desempenham, em favor de
sua causa. É uma doce antecipação da confissão que Ele fará dos seus
discípulos perante o mundo inteiro reunido, quando Ele os apresentará
inculpáveis diante do trono do seu Pai, no dia final.
Sabemos, realmente, o que significa trabalhar para Cristo? Já
nos sentimos desanimados e derrotados, como se não estivéssemos fa­
zendo nenhum bem, e ninguém se importasse conosco? Já nos sentimos
tentados a dizer, quando postos de lado por alguma enfermidade, ou
quando retirados de cena pela providência divina: “ Tenho eu trabalhado
em vão e gasto minhas forças inutilmente?” Enfrentemos tais pensa­
mentos, relembrando o que Jesus disse acerca de João Batista.
Recordemo-nos de que há Alguém que registra diariamente tudo quanto
fazemos em favor dEle, e que se agrada mais do trabalho de seus servos
do que eles próprios imaginam. A mesma língua que prestou testemu­
nho a respeito de João Batista, quando este estava na prisão, também
dará testemunho de todo o seu povo, no último dia. Ele dirá: “ Vinde,
benditos de meu Pai! entrai na posse do reino que vos está preparado
desde a fundação do mundo” . Ehtão as testemunhas fiéis descobrirão,
para sua admiração e grande surpresa, que jamais proferiram uma única
palavra em favor de seu Mestre, pela qual não venham a receber uma
recompensa.
Mateus 11.16-24 77

A Insensatez dos Incrédulos;


O Perigo de Não se Usar a Luz
Leia Mateus 11.16-24

Estas declarações do Senhor Jesus foram provocadas pelo estado


em que se encontrava a nação judaica naquela época. Elas também fa­
lam conosco, em alto e bom som, tanto quanto para os judeus. As palavras
de Jesus projetam uma grande luz sobre determinados aspectos do ca­
ráter do homem natural. Elas nos ensinam sobre o perigoso estado em
que se encontram muitas almas imortais hoje em dia.
A primeira parte destes versículos mostra-nos a insensatez de
muitas pessoas não-convertidas, quanto às questões religiosas. Os ju­
deus, na época de Jesus Cristo, encontravam falta em qualquer mestre
que Deus lhes enviasse. Primeiro apareceu João Batista, pregando o
arrependimento — um homem austero que se mantinha afastado da so­
ciedade e vivia como um asceta. Mas isso satisfez aos judeus? Não!
Antes, acharam falta nele e disseram: “ Tem demônio” . Então veio Je­
sus, o próprio Filho de Deus, pregando o evangelho, vivendo como
o faziam outros homens quaisquer sem praticar nenhuma das austeri-
dades peculiares a João Batista. E isso satisfez aos judeus? Não!
Novamente acharam falta, e disseram: “ Eis aí um glutão e bebedor
de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” Em suma, eles eram per­
versos e difíceis de contentar tanto quanto a crianças teimosas.
É um fato lamentável que sempre existam milhares de professos
cristãos tão insensatos quanto aqueles judeus. Eles são tão perversos
quanto difíceis de contentar. Em tudo o que ensinamos ou pregamos
eles encontram alguma falha. Sem importar qual seja a nossa maneira
de viver, eles estão insatisfeitos. Se falamos da salvação mediante a
graça e da justificação pela fé, imediatamente eles clamam contra a nossa
doutrina, como se fosse licenciosa e antinomiana. Falamos da santidade
que o evangelho requer? Prontamente eles dizem que somos por demais
estritos e exigentes, como se quiséssemos ser justos demais. Estamos
alegres? Eles nos acusam de leviandade. Mostramo-nos graves e sérios?
Então eles nos taxam de melancólicos e azedos. Mantemo-nos afasta­
dos de bailes, de corridas e de eventos esportivos? Então eles nos
denunciam como puritanos, exclusivistas e bitolados. Comemos, bebe­
mos e nos vestimos, como as demais pessoas, e freqüentamos eventos
sociais e outras atividades seculares? Então eles insinuam, zombetei­
ramente, que não vêem qualquer diferença entre nós e aqueles que não
78 Mateus 11.16-24

seguem qualquer religião, dizendo que não somos melhores do que os


demais homens. Ora, o que é tudo isso, senão a reiteração da conduta
daqueles judeus incrédulos? “ Nós vos tocamos flauta, e não dançastes;
entoamos lamentações, e não pranteastes.” Aquele que disse estas pa­
lavras, conhecia perfeitamente bem o coração do homem.
A verdade incontestável é que os verdadeiros cristãos não devem
esperar que homens não-convertidos estejam satisfeitos, seja com a fé
ou com a conduta dos crentes. Se assim o fizerem, estarão esperando
o que não podem mesmo receber da parte dos perdidos. Os crentes pre­
cisam preparar-se mentalmente para ouvir objeções, argumentos ardilosos
e desculpas tolas, não importa quão santamente estejam vivendo. Com
toda a razão, afirmou Quesnel: “ Não importa que medidas tomem os
homens bons, jamais conseguirão escapar das censuras do mundo. A
melhor coisa a fazer é não se deixar atingir por essas censuras” . Afi­
nal, o que dizem as Escrituras? “ O pendor da carne é inimizade contra
Deus” (Rm 8.7). “ Ora, o homem natural não aceita as cousas do Es­
pírito de Deus...” (1 Co 2.14). Esta é a explicação de todo este assunto.
A segunda parte destes versículos mostra-nos "a enorme iniqüi­
dade da impenitência proposital. Nosso Senhor declarou que “ haverá
menor rigor” para Tiro, Sidom e Sodoma, no dia do juízo, do que para
aquelas cidades que tinham ouvido os sermões e contemplado os mi­
lagres de Jesus, mas não se arrependeram.
Esta declaração se reveste de uma solenidade toda especial.
Examinemo-la, pois, detidamente. Pensemos, por momentos, em quanta
imoralidade, devassidão, idolatria e escuridão espiritual deve ter havido
em Tiro e Sidom. Relembremos a indizível iniqüidade de Sodoma.
Recordemo-nos de que as cidades designadas por nosso Senhor — Co-
razim, Betsaida e Cafamaum — provavelmente não eram piores do que
quaisquer outras cidades da Judéia, e que, seja como for, eram muito
melhores, moralmente falando, do que Tiro, Sidom ou Sodoma. Então,
observemos que os habitantes de Corazim, Betsaida e Cafamaum achar-
-se-ão no mais profundo infemo, porquanto, embora tenham ouvido
o evangelho, não se arrependeram, e mesmo dispondo de grandes van­
tagens religiosas, não tiraram proveito delas. Quão terrível soa tudo isso!
Por certo, estas palavras deveriam fazer tinir os ouvidos de todos
os que ouvem regularmente a pregação do evangelho, mas não querem
converter-se. Quão grande é a culpa de tais homens, diante de Deus!
Quão tremendo é o perigo espiritual em que se acham, dia após dia!
Por mais decentes, morais e respeitáveis que possam ser suas vidas,
na verdade eles são mais culpados aos olhos de Deus do que os mo­
radores de Tiro e Sidom, ou do que algum miserável habitante de
Sodoma. Aquela gente não dispunha de qualquer luz espiritual, mas
Mateus 11.16-24 79

estes últimos negligenciam a luz espiritual que lhes é proporcionada.


Aqueles nunca tiveram oportunidade de ouvir o evangelho, mas estes
não querem obedecer-lhe. O coração daquela gente da antigüidade tal­
vez chegasse a sensibilizar-se, se tivessem desfrutado dos mesmos
privilégios destes últimos. Tiro e Sidom “ se teriam arrependido com
pano de saco e cinza’’, e Sodoma teria ‘‘permanecido até ao dia de hoje” .
O coração dessas pessoas, mesmo sob a luz intensa do evangelho, per­
manece frio e inabalável. Só podemos tirar de tudo isso uma única e
dolorosa conclusão: a culpa de tais pessoas será muito maior do que
a daqueles antigos, no último dia. Com profunda verdade observou um
pastor inglês: “ Entre todos os agravantes dos nossos pecados, não há
nada mais hediondo do que ouvirmos, com freqüência, qual é o nosso
dever” .
Que todos meditemos freqüentemente a respeito de Corazim, Bet-
saida e Cafarnaum! Que fique bem estabelecido em nossas mentes que
o fato de ouvirmos e gostarmos do evangelho, apenas, não é suficiente.
Precisamos ir mais além. Devemos fazer o que Jesus disse: “ arrependei-
-vos e convertei-vos” . Precisamos, realmente, valer-nos de Cristo,
unindo-nos espiritualmente a Ele. Enquanto não fizermos assim, esta­
remos em grave perigo. No fim, haverá menos rigor para os moradores
de Tiro, Sidom e Gomorra, que não ouviram o evangelho, do que para
os que agora vivem no Brasil e ouvem o evangelho, mas morrem na
incredulidade.

A Grandeza de Cristo;
O Amplo Convite do Evangelho
Leia Mateus 11.25-30

Poucas passagens existem, nos quatro evangelhos, que sejam mais


importantes do que esta. Há poucos trechos bíblicos que contenham,
em tão poucos versículos, tantas e tão preciosas verdades. Que Deus
nos dê olhos para ver e coração para apreciar o grande valor destas
verdades!
Em primeiro lugar, aprendemos quão excelente é a atitude men­
tal de ser simples e despretencioso como uma criança, e estar pronto
a receber a instrução. Em oração, nosso Senhor disse a Deus Pai: “ Ocul­
taste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” .
Não nos compete tentar explicar por que razão alguns recebem
e crêem no evangelho, enquanto outros não o fazem. A soberania de
Deus quanto a isso é um profundo mistério, de maneira que não somos
80 Mateus 11.25-30

capazes de sondá-la. Mas, seja como for, há algo na Bíblia que se des­
taca como uma grande verdade prática, e da qual jamais nos deveríamos
esquecer. O evangelho geralmente está oculto daqueles que são “ sábios
a seus próprios olhos, e prudentes em seu próprio conceito” (Is 5.21).
O evangelho geralmente é revelado aos humildes e despretenciosos, que
estão dispostos a aprender. As palavras da virgem Maria estão se cum­
prindo constantemente: “ Encheu de bens os famintos, e despediu vazios
os ricos” (Lc 1.53).
Vigiemos nosso coração quanto ao orgulho, em todas as suas ma­
nifestações — o orgulho intelectual, o orgulho das riquezas, o orgulho
em face de nossa própria bondade, o orgulho de nossos próprios méritos.
Coisa alguma tende por manter um homem fora do céu, impedindo-o
de ver a Cristo, mais do que o orgulho. Enquanto imaginarmos que
somos alguma coisa, jamais seremos salvos. Oremos pedindo humil­
dade, e então a cultivemos. Procuremos conhecer a nós mesmos de
maneira correta, descobrindo a nossa verdadeira condição diante de um
Deus santo. O início do caminho para o céu é quando sentimos que
estamos no caminho do inferno, e então nos dispomos a ser ensinados
pelo Espírito Santo. Um dos primeiros passos no caminho da salvação
éperguntar, como fez Saulo de Tarso: “ Que farei, Senhor?” (At 22.10).
Dificilmente há outra afirmação de nosso Senhor que seja tão freqüen­
temente repetida quanto esta: “ ...o que se exalta, será humilhado; mas
o que se humilha, será exaltado” (Lc 18.14).
Em segundo lugar, aprendamos, com base nestes versículos, a
grandiosidade e a majestade de nosso Senhor Jesus Cristo. A lingua­
gem de nosso Senhor quanto a este assunto é profunda e maravilhosa.
Disse Ele: “ Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o
Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele
a quem o Filho o quiser revelar” . Ao ler estes versículos, bem pode­
mos dizer: “ Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é
sobremodo elevado, não o posso atingir” . Podemos vislumbrar um pouco
da perfeita união existente entre a primeira e a segunda pessoa da Trin­
dade. Vemos algo da incomensurável superioridade do Senhor Jesus,
sobre todos os que não passam de meros homens. Não obstante, depois
de havermos dito tudo isso, devemos confessar que existem alturas e
profundidades neste versículo, que estão muito além da nossa débil com­
preensão. Podemos apenas admirá-las no espírito de crianças pequenas.
Contudo, ainda assim, sentimos que metade dessas coisas jamais se con­
tou ao mortal.
Entretanto, que nós vejamos nestas palavras de Jesus a grande
verdade prática de que todo poder e autoridade, em tudo quanto diz
respeito à salvação de nossas almas, está nas mãos de nosso Senhor
Mateus 11.25-30 81

Jesus Cristo. “ Tudo me foi entregue por meu Pai.” Ele tem a chave.
Para ir ao céu, precisamos ir até Ele. Ele é a porta: precisamos entrar
por intermédio dEle. Ele é o pastor das ovelhas: precisamos ouvir a
Sua voz e segui-Lo, se não quisermos perecer no deserto. Ele é o médico
das almas: precisamos consultá-Lo, se quisermos ser curados da praga
do pecado. Ele é o pão da vida: precisamos nos alimentar dEle, se qui­
sermos que as nossas almas sejam satisfeitas. Ele é a luz: devemos andar
após Ele, se não nos quisermos desviar para as trevas. Ele é a fonte
da vida: precisamos lavar-nos no seu sangue, se quisermos ser purifi­
cados e preparados para o grande dia da prestação de contas. Benditas
e gloriosas são estas verdades! Se temos a Cristo, temos todas as coisas
(1 Co 3.22).
Por fim, com base nesta passagem, aprendemos como é amplo
e pleno o convite do evangelho de Cristo. Os últimos três versículos
do capítulo, que encerram essa lição, são realmente preciosos. Eles vêm
ao encontro do trêmulo pecador, que indaga: “ Cristo revela o amor
do Pai para alguém como eu?” Estes versos são um precioso encora­
jamento, e merecem ser lidos com especial atenção. Por quase dois mil
anos eles têm sido uma bênção para o mundo, e têm beneficiado a mi­
lhões de pessoas. Não há uma única sentença, nestes versículos, que
não contenha preciosos pensamentos.
Observe quem são aqueles a quem Jesus convida. Ele não se di­
rige àqueles que se sentem justos e dignos em si mesmos. Ao contrário,
dirige-se a “ todos os que estais cansados e sobrecarregados” . Essa é
uma descrição bastante ampla. Abrange multidões neste mundo cansa­
tivo. Todos os que sentem um peso no coração, todos quantos desejam
tomar-se livres de alguma carga do pecado, de alguma carga de tris­
teza, de alguma carga de ansiedade ou de remorso — todos estão
convidados a virem a Cristo, não importa quem sejam ou o que já te­
nham sido na vida.
Note, em seguida, a graciosa oferta que Jesus faz. “ Eu vos ali­
viarei... e achareis descanso para as vossas almas.” Quão animadoras
e confortantes são tais palavras! A falta de tranqüilidade é uma das gran­
des características do mundo. A pressa, o vexame, o fracasso e os
desapontamentos nos confrontam por todos os lados. Mas há esperança.
Existe uma arca de refúgio para o cansado, tal como houve para a pomba
solta por Noé. Em Cristo encontramos descanso — descanso para a cons­
ciência e para o coração, descanso fundamentado no perdão de todo
pecado, descanso que é resultado da paz com Deus.
Veja quão simples é o pedido que Jesus faz aos que estão can­
sados e sobrecarregados. ‘‘Vinde a mim... tomai sobre vós o meu jugo...
aprendei de m im ...” Jesus não interpôs nenhuma condição difícil de
82 Mateus 11.25-30

ser atendida. Ele nada fala sobre obras a serem realizadas, ou de me­
recimentos, para que alguém possa receber os seus dons. Ele somente
nos pede para irmos até Ele como estamos, com todos os nossos pe­
cados, entregando-nos aos seus cuidados, como criancinhas dispostas
a receber o seu ensino. É como se Jesus dissesse: “ Não busqueis alívio
nos homens. Não espereis que vos apareça alguma ajuda, vinda de ou­
tra direção. Tais e quais sois, neste mesmo dia, vinde a mim” .
Observe, igualmente, quão encorajadora descrição Jesus faz de
si mesmo. Ele diz: “ Sou manso e humilde de coração” . Quão verazes
são essas palavras é algo que todos os santos de Deus têm freqüente­
mente experimentado. Maria e Marta, em Betânia, Pedro após a sua
queda, os discípulos após a ressurreição, Tomé depois de sua fria in­
credulidade — todos eles provaram da “ humildade e gentileza de Cristo” .
Este é o único lugar em toda a Escritura, onde se faz menção ao “ co­
ração” de Jesus. Esta é uma declaração que nunca deveríamos esquecer.
Em último lugar, observe a encorajadora consideração que Je­
sus dá ao serviço prestado a Ele. Ele diz: “ O meu jugo é suave e o
meu fardo é leve” . Sem dúvida que existe uma cruz para ser carregada
se seguimos a Cristo. Indubitavelmente existem provações e testes a
serem enfrentados, e batalhas a serem travadas. Mas, os consolos do
evangelho ultrapassam em muito o peso da cruz. Comparado com o
serviço ao mundo e ao pecado, comparado com o jugo das cerimônias
judaicas e com a escravidão às superstições humanas, o serviço pres­
tado a Cristo é muitas vezes mais leve e fácil. O jugo de Cristo não
é carga maior do que as penas o são para a ave que as possui. Os man­
damentos de Cristo “ não são penosos” (1 Jo 5.3). “ Os seus caminhos
são caminhos deliciosos,e todas as suas veredas paz” (Pv 3.17).
Agora vem a solene pergunta: Já aceitamos, pessoalmente, esse
convite? Acaso, não temos pecados a serem perdoados e nem tristezas
a serem removidas? nem feridas de consciência a serem saradas? Se
temos, ouçamos atentamente a voz de Jesus Cristo. Ele fala conosco
como falou aos judeus. “ Vinde a mim...” Esta é a chave para a ver­
dadeira felicidade. Eis o segredo de ter um coração leve. Tudo depende
e gira em torno da aceitação desta oferta que Cristo faz.
Que jamais estejamos satisfeitos, enquanto não soubermos e sen­
tirmos que já fomos a Cristo pela fé, buscando nEle o descanso, e que
cada dia estamos indo até Ele em busca de novos suprimentos da graça
divina! Se fomos até Ele, aprendamos a nos apegar a Ele ainda mais
intimamente. Mas, se ainda não fomos até Ele, então que o façamos
agora mesmo. A palavra de Cristo jamais falhará: “ O que vem a mim,
de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37).
Mateus 12.1-13 83

A Verdadeira Doutrina do Sábado


Sem os Erros Judaicos
Leia Mateus 12.1-13

O grande assunto que aparece com proeminência nesta passagem


é o dia de sábado. Esse era um assunto sobre o qual prevaleciam es­
tranhas opiniões entre os judeus, na época de nosso Senhor. Os fariseus
haviam feito muitos acréscimos ao que as Escrituras ensinavam a res­
peito do assunto e sobrecarregaram o verdadeiro caráter desse dia com
as tradições humanas. Este também é um assunto acerca do qual diver­
sas opiniões têm sido defendidas nas igrejas de Cristo, e a respeito do
qual existem atualmente entre os homens grandes diferenças. Vejamos
o que podemos aprender a respeito, com base nos ensinos de nosso Se­
nhor, nestes versículos.
Em primeiro lugar, fixemos na mente, como um princípio soli­
damente estabelecido, que nosso Senhor Jesus Cristo não anula a
observância de um dia semanal de descanso sabático. Nem aqui nem
em qualquer outro trecho dos quatro evangelhos isso acontece. Freqüen­
temente encontramos ensinos de Cristo acerca das distorções judaicas
atinentes ao sábado, mas jamais uma palavra ensinando que os discípu­
los de Cristo não devem observar o dia do descanso.
É importantíssimo notar esse fato. Os equívocos que se têm ori­
ginado de uma consideração superficial das declarações de nosso Senhor
acerca do sábado, não são nem pequenos e nem poucos. Milhares de
pessoas têm chegado à conclusão precipitada de que os cristãos nada
têm a ver com o quarto mandamento da lei, e que ele não é obrigatório,
da mesma forma que não é obrigatória a lei mosaica dos sacrifícios de
animais. Todavia, nada existe nas páginas do Novo Testamento que
justifique tal conclusão.
A verdade patente é que nosso Senhor não aboliu a lei do sábado.
Tão-somente Ele a liberou das interpretações incorretas, purificando-a
de adições inventadas pelos homens. Jesus não arrancou do decálogo
o quarto mandamento. Apenas o desnudou das miseráveis tradições pe­
las quais os fariseus haviam incrustado o dia, transformando-o em uma
carga insuportável, ao invés de ser uma bênção. Jesus, deixou o quarto
mandamento exatamente onde o encontrou, isto é, como parte integrante
da eterna lei de Deus, da qual não se pode retirar nem sequer um til,
e a qual jamais passará. Que nunca nos esqueçamos disso!
Em segundo lugar, fixemos bem em nossas mentes que nosso
Senhor Jesus Cristo permite que todas as obras de real necessidade,
84 Mateus 12.1-13

e obras de misericórdia, sejam feitas no dia do sábado. Este é um prin­


cípio abundantemente firmado na passagem bíblica que ora consideramos.
Encontramos nosso Senhor justificando aos seus discípulos por colhe­
rem espigas em dia de sábado. Era um ato permitido nas Escrituras
(Dt 23.25). Eles estavam famintos e necessitados de comida. Portanto,
não se poderia culpá-los. Vemos o Senhor Jesus frisando a legitimidade
da cura de um homem enfermo, em dia de sábado. O homem estava
padecendo de uma dolorosa enfermidade. Nesse caso, não era desobe­
diência ao quarto mandamento prestar alívio. Jamais deveríamos descan­
sar de fazer o bem.
São salientes e irretorquíveis os argumentos por intermédio dos
quais nosso Senhor dá apoio à legitimidade de toda e qualquer obra
necessária ou de misericórdia, em dia de sábado. Quando acusado pelos
fariseus de ter quebrado a lei junto com os seus discípulos, Jesus
relembra-os como Davi e seus homens, quando necessitados de alimen­
tos, haviam comido dos pães da proposição que estavam no tabernáculo.
Ele os faz relembrar de como os sacerdotes são obrigados a trabalhar
aos sábados, no templo, abatendo animais e oferecendo sacrifícios. Tam­
bém fê-los lembrar de que até mesmo uma ovelha deveria ser ajudada
a sair de algum buraco, em dia de sábado, ao invés de permitir-se que
ali ficasse e morresse. Acima de tudo, porém, Jesus estabelece o grande
princípio de que nenhuma ordenança de Deus deve ser pressionada so­
bre nós de modo que nos obrigue a negligenciar os claros deveres da
caridade para com o próximo. “ Misericórdia quero, e não holocaustos.”
A primeira tábua da lei não deve ser interpretada de tal maneira que
nos force a desobedecer à segunda. O quarto mandamento não deve
ser explicado de maneira a nos tornar insensíveis e destituídos de mi­
sericórdia para com o próximo. Há uma profunda sabedoria em tudo
isso. Lembremo-nos de que “jamais alguém falou como este homem”
(Jo 7.46).
Ao deixarmos este assunto cuidemos para que jamais sejamos
tentados a menosprezar a santidade do sábado cristão. Tenhamos cui­
dado para não fazer das instruções de nosso gracioso Senhor uma desculpa
para a profanação do dia de descanso. Não abusemos da liberdade que
Ele assinalou tão claramente para nós, fingindo que fazemos obras ne­
cessárias e de misericórdia, no dia do Senhor, que, na verdade, fazemos
para satisfazer ao nosso próprio egoísmo.
Há um grande motivo para advertirmos as pessoas quanto a isso.
Os erros dos fariseus, no tocante ao dia do Senhor, tendiam para um
extremo. Os erros dos cristãos tendem para o outro extremo. Os fari­
seus fingiam querer aumentar a santidade do dia. Os cristãos, com grande
freqüência, dispõem-se a subtrair a santidade do dia, agindo de maneira
Mateus 12.1-13 85

irreverente, profana e ociosa. Que cada um de nós vigie a sua própria


conduta quanto a essa questão. O cristianismo verdadeiro está intima­
mente ligado à observância autêntica do dia do Senhor. Que jamais nos
esqueçamos de que o nosso grande alvo deveria ser obediência ao man­
damento que diz: “ Lembra-te do dia de sábado, para o santificar” . As
obras de necessidade e misericórdia podem ser feitas. Jesus disse: “ É
lícito fazer bem” . Porém, dedicar o dia do Senhor ao mero lazer, ao
ócio ou ao mundo é contra a lei de Deus. Tal atitude é contrária ao
exemplo de Cristo, e um pecado contra um mandamento claro de Deus.

A Iniqüidade dos Fariseus;


Descrição Encorajadora do Caráter de Cristo
Leia Mateus 12.14-21

A primeira coisa que nos chama a atenção nesta passagem é a


desesperada Iniqüidade do coração humano. Silenciados e derrotados
pelos argumentos de nosso Senhor, os fariseus foram afundando cada
vez mais no pecado. Eles, retirando-se “ conspiravam contra ele, em
como lhe tirariam a vida” .
Que maldade havia praticado nosso Senhor para ser tratado da­
quela maneira? Nenhuma, de modo algum. Eles não podiam fazer qual­
quer acusação legítima contra Ele. Jesus era santo, inocente, sem mácula
e separado dos pecadores. Os seus dias eram passados inteiramente na
prática do bem. Nenhuma acusação podia ser levantada contra os seus
ensinamentos. Ele havia provado que sua doutrina concordava com as
Escrituras e com a razão, e nenhuma resposta havia sido dada aos seus
argumentos. Não obstante, pouco importava quão perfeitamente Ele vi­
vesse ou ensinasse. Ele era odiado.
Assim é a natureza humana, manifestando-se em suas verdadei­
ras cores. O coração não convertido odeia a Deus e mostrará este ódio
sempre que ousar ou tiver uma oportunidade favorável. Sempre perse­
guirá as testemunhas de Deus. Desagrada-lhe todos os que manifestam
algo da mente de Deus ou que tenham sido renovados segundo a sua
imagem. Por que tantos dentre os profetas do Senhor foram mortos?
por que os nomes dos apóstolos foram rejeitados pelos judeus como
malignos? por que os primeiros mártires cristãos foram executados?
por que João Huss, Jerônimo de Praga, Ridley e Latimer foram quei­
mados na fogueira? Não por causa de algum pecado que houvessem
cometido; e nem por causa de qualquer iniqüidade que tivessem pra­
ticado. Todos sofreram porque eram homens piedosos. A natureza hu­
86 Mateus 12.14-21

mana não-convertida odeia os homens de Deus, porque odeia o próprio


Deus.
Os crentes verdadeiros nunca devem ficar surpresos, recebem
o mesmo tratamento que Jesus recebeu. “ Irmãos, não vos maravilheis,
se o mundo vos odeia” (1 Jo 3.13). Nem a coerência mais perfeita ou
o caminhar mais chegado com Deus, haverá de isentar o crente da ini­
mizade do homem natural. O crente não precisa torturar a sua mente
com a fantasia de que, se tivesse menos faltas e mais coerência, todos
os homens certamente o amariam. Tal pensamento envolve um tremendo
equívoco. Devemos nos lembrar de que nunca houve um homem per­
feito na terra, senão um só, e que Ele não foi amado, e sim, odiado.
Não é das fraquezas do crente que o mundo desgosta, mas da sua bon­
dade. Não são os remanescentes da antiga natureza humana que provocam
a inimizade dos homens deste mundo, mas antes, é a exibição da nova
natureza. Lembremo-nos destas verdades e sejamos pacientes. O mundo
odiou a Cristo e continuará odiando os crentes.
A outra coisa que nos chama a atenção nesta passagem é a en-
corajadora descrição do caráter de nosso Senhor Jesus Cristo, que o
apóstolo Mateus extraiu da profecia de Isaías. “ Não esmagará a cana
quebrada, nem apagará a torcida que fumega.”
O que devemos entender com as expressões “ cana quebrada”
e “ torcida que fumega” ? Sem dúvida alguma, a linguagem do profeta
é figurada. O que significam essas duas expressões? A explicação mais
simples parece ser que o Espírito Santo estava aqui descrevendo pes­
soas cuja graça no momento é fraca, cujo arrependimento é débil, e
cuja fé é pequena. Para com tais pessoas, o Senhor Jesus Cristo mostrar-
-se-á muito terno e compassivo. Embora a cana quebrada seja frágil,
não será esmagada. Por menor que seja a torcida que fumega, não será
apagada. Esta é verdade permanente no reino da graça divina, que uma
graça fraca, uma fé fraca e um arrependimento fraco são todos precio­
sos aos olhos de nosso Senhor. “ Deus é mui grande, contudo a ninguém
despreza” (Jó 36.5).
A doutrina aqui salientada é plena de consolo e conforto. Para
os milhares de crentes em todas as igrejas de Cristo, essa doutrina de­
veria representar grande paz e esperança. Em cada congregação, há
alguns que ouvem o evangelho, mas estão à beira de desistir da própria
salvação, porquanto as suas forças lhes parecem tão poucas. Estão che­
ios de temores e desalentos, porquanto o seu conhecimento, fé, esperança
e amor parecem tão pequenos e insignificantes. Que esses crentes sejam
consolados por este texto bíblico. Que eles saibam que a fé, embora
fraca, confere ao seu possuidor um interesse real e verdadeiro em Cristo,
tanto quanto a fé mais robusta, embora não forneça o mesmo gozo.
Mateus 12.14-21 87

Há vida biológica em um recém-nascido, tanto quanto em um homem


plenamente adulto. Há fogo em uma fagulha, tanto quanto nas chamas
mais ardentes. Mesmo o menor grau de graça divina é uma possessão
que dura para sempre. A graça divina nos vem do céu, é preciosa aos
olhos de nosso Senhor. Jamais será rejeitada.
Acaso Satanás faz pouco caso dos primeiros passos do arrepen­
dimento para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus Cristo? Não!
Pelo contrário, ele é tomado de grande ira, porque percebe que o seu
tempo está se tornando cada vez mais curto. Acaso os anjos de Deus
consideram com desdém os primeiros sinais de penitência para com Deus,
em Cristo? Não, de maneira alguma! Há júbilo entre os anjos, quando
os pecadores se arrependem. Acaso o Senhor Jesus mostra desinteresse
quando a fé é pequena e o arrependimento fraco? Não, certo que não!
No momento em que uma “ cana quebrada” como Saulo de Tarso co­
meça a clamar a Deus, eis que o Senhor lhe envia Ananias, porque “ ele
está orando” (At 9.11). Erramos gravemente se não encorajamos os
primeiros passos de uma alma em direção a Cristo. Que os ignorantes
deste mundo escarneçam e zombem, se assim o quiserem fazer. Pode­
mos estar certos de que as “ canas quebradas” e as “ torcidas que fume­
gam” são muito preciosas aos olhos de nosso Senhor.
Que todos nós entesouremos estas verdades no coração, utilizando-
-as nos momentos de necessidade, tanto para o nosso proveito como
para o de outras pessoas. Deveria ser um conceito bem firme em nossa
religião cristã que uma fagulha é melhor do que a escuridão, e que uma
pequena fé é melhor do que nenhuma fé. Há quem despreze “ o dia
dos humildes começos” ? (Zc 4.10), mas esses humildes começos não
são desprezados por Cristo; e também não deveriam ser desprezados
pelos crentes.

A Blasfêmia dos Adversários de Cristo; O


Pecado Contra o Conhecimento; As Palavras Vãs
Leia Mateus 12.22-37

Esta passagem das Escrituras contém “ cousas difíceis de enten-


der” (2 Pe 3.16). O pecado contra o Espírito Santo, em particular, nunca
foi devidamente explicado, nem mesmo pelos teólogos mais eruditos.
Não é difícil demonstrar, a partir das Escrituras, no que esse pecado
não consiste. Difícil é demonstrar claramente o que é esse pecado. Con­
tudo, não precisamos ficar surpresos. A Bíblia não seria o Livro de
Deus, se não contivesse trechos mais profundos, aqui e ali, que nenhum
88 Mateus 12.22-37

ser humano é capaz de perscrutar. Cumpre-nos agradecer a Deus pelas


lições de sabedoria a serem extraídas, até mesmo de versículos como
estes, acima; lições que mesmo os iletrados podem compreender facil­
mente.
Aprendamos destes versículos, antes de mais nada, que não existe
coisa alguma por demais blasfema para os homens endurecidos e pre­
conceituosos dizerem contra o cristianismo. Nosso Senhor expele um
demônio, e imediatamente os fariseus declaram que Ele faz isso “ pelo
poder de Belzebu, maioral dos demônios” . A acusação foi simples­
mente absurda. Nosso Senhor, pois, mostra ser uma falta de bom senso
supor que o diabo ajudaria a derrubar o seu próprio reino, dizendo:
“ Se Satanás expele a Satanás, dividido está contra si mesmo” . Toda­
via, para os incrédulos, não parece ser um exagero quando dizem as
coisas mais absurdas e ilógicas contra a religião cristã. Os fariseus não
eram os únicos que perderam de vista a lógica, o bom senso e o equi­
líbrio, quando se trata de atacar o evangelho de Cristo.
Por mais estranha que pareça aquela acusação, com freqüência
ela tem sido feita contra os servos do Senhor, Os inimigos dos crentes
têm sido forçados a confessar que os servos de Deus estão realizando
uma obra no mundo, e que está produzindo efeito. Os resultados do
labor cristão deixam perplexos os incrédulos. Eles não podem negar
o fato. Assim sendo, o que poderiam eles dizer? Dizem exatamente aquilo
que os fariseus disseram a respeito de nosso Senhor: “ Tem demônio” .
Os mais antigos hereges disseram coisas desse tipo contra Atanásio.
Os católicos-romanos espalharam rumores dessa espécie a respeito de
Martinho Lutero. E coisas assim continuarão sendo ditas, enquanto o
mundo existir.
Nunca deveríamos nos surpreender se horrendas acusações são
feitas contra os melhores homens, sem causa. “ Se chamaram Belzebu
ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?” É um velho estra­
tagema. Quando os argumentos de um crente não podem ser respon­
didos, e as suas boas obras não podem ser negadas, então o último recurso
dos ímpios é tentar denegrir o caráter do crente. Se isso é o que está
nos acontecendo, suportemos tudo com paciência. Se temos a Cristo
e uma boa consciência, podemos estar contentes. Falsas acusações não
impedirão a nossa entrada no céu. O nosso caráter será mostrado em
suas verdadeiras luzes, no último dia.
Em segundo lugar, reconhecemos por estes versículos que é im­
possível a neutralidade em religião. Disse Jesus: ‘‘Quem não é põr mim,
é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” . Muitos, em toda
a história da igreja de Cristo, tem tido a necessidade de serem confron­
tados com estas palavras de nosso Senhor. Eles se esforçam por manter
Mateus 12.22-37 89

meio termo em sua religião. Não são tão maus quanto muitos pecado­
res; porém, também não são santos. Eles sentem a veracidade do
evangelho de Cristo, quando este lhes é apresentado, mas têm receio
de confessar o que sentem. Visto que têm tais sentimentos, bajulam-se
a si mesmos, pensando que não são tão ruins quanto os outros. Não
obstante, estão aquém do padrão de fé e conduta que Jesus estabeleceu.
Eles não estão posicionados decididamente do lado de Cristo, mas tam­
bém não se declaram abertamente contra Ele. Nosso Senhor adverte
a todos estes, que eles se encontram em uma posição extremamente pe­
rigosa. Em termos de religião existem somente dois lados, somente dois
partidos. Estamos do lado de Cristo, trabalhando na sua causa? Se as­
sim não é, estamos contra Ele. Estamos fazendo o bem neste mundo?
Se não fazemos o bem, fazemos o mal.
O princípio aqui lançado é de natureza tal que deveria interessar
a todos nós. Estabeleçamos com firmeza em nossas mentes, que jamais
teremos paz e faremos o bem a outras pessoas, a menos que sejamos
francos e resolutos em nosso cristianismo. O ensino de Gamaliel e de
Erasmo jamais, até agora, trouxe felicidade e serventia a quem quer
que seja, nem jamais o fará.
Em terceiro lugar, notemos a excessiva iniqüidade dos pecados
cometidos contra o conhecimento. Esta é uma conclusão prática, que
parece fluir naturalmente das palavras de nosso Senhor acerca da blas­
fêmia contra o Espírito Santo. Por mais difíceis que nos pareçam estas
palavras, parece justo pensarmos que elas provam a existência de níveis
variados de pecaminosidade. As ofensas que se derivam da ignorância
a respeito da verdadeira missão do Filho do Homem não serão punidas
com tanta severidade quanto as ofensas cometidas contra a luz maior
que possuímos, nesta nossa dispensação do Espírito Santo. Quanto ma­
ior a luz espiritual, maior a culpa de quem a rejeita. Quanto mais claro
for o conhecimento que um homem tiver, da natureza do evangelho,
tanto maior será o seu pecado, se ele se recusa a arrepender-se e a crer.
A doutrina aqui ensinada também aparece em outras partes das
Sagradas Escrituras. Disse o escritor da epístola aos Hebreus: “ É im­
possível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados... sim, é
impossível outra vez renová-los para arrependimento... porque, se vi­
vermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno
conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo
contrário, certa expectação horrível de juízo...” (Hb 6.4-7 e 10.26,27).
Esta é uma doutrina a respeito da qual encontramos provas lamentáveis
por toda a parte. Os filhos não-convertidos de pais crentes, os empre­
gados não-convertidos que trabalham para famílias piedosas, os membros
não-convertidos de congregações evangélicas são as pessoas mais di­
90 Mateus 12.22-37

fíceis de impressionar em toda a terra. Parece que já ficaram insensíveis.


A mesma chama que amolece a cera, endurece o barro. Esta é uma
doutrina que Tecebe uma terrível confirmação nas histórias de pessoas
que terminaram os seus dias de maneira realmente desesperada. Faraó,
Saul, Acabe, Judas Iscariotes, Juliano e Francisco Spira são ilustrações
temíveis daquilo que nosso Senhor quis dizer. Em todos esses casos
houve uma combinação de claro conhecimento da verdade e deliberada
rejeição de Cristo. Em cada um havia iluminação na mente, ódio à ver­
dade, no coração. O fim de cada uma dessas pessoas parece ter sido
a escuridão das trevas para sempre.
Que Deus nos dê o desejo de usar o conhecimento de que já dis­
pomos, seja ele grande ou pequeno! Que tomemos cuidado de não negli­
genciarmos as oportunidades para desenvolver o conhecimento que já
temos! Temos luz? Então vivamos de acordo com essa luz. Conhece­
mos a verdade? Então andemos na verdade. Esta é a melhor salvaguarda
contra o pecado imperdoável.
Em último lugar, aproveitemos destes versículos o ensino sobre
a imensa importância do cuidado que devemos ter com as palavras que
falamos diariamente. Nosso Senhor nos informa que, “ de toda palavra
frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia de juízo’’.
E, acrescenta: “ Pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas pa­
lavras serás condenado’’.
Poucas declarações de Cristo são capazes de sondar tão profun­
damente os nossos corações quanto estas. Talvez nenhuma outra coisa
exista a que os homens dêem tão pouca atenção, quanto às suas próprias
palavras. Eles passam suas atividades diárias falando e conversando sem
pensar e sem refletir, e parecem imaginar que, se fizerem o que é di­
reito, pouco importa o que dizem.
Porém, é assim mesmo? São nossas palavras tão completamente
insignificantes e sem importância? Em vista de uma passagem bíblica
como esta, não ousaríamos afirmar tal coisa. Nossas palavras eviden­
ciam o estado do nosso coração, tão certo quanto o gosto da água
evidencia o estado do seu manancial, “ A boca fala do que está cheio
o coração” . Os lábios só proferem aquilo que a mente concebe. As
nossas palavras formarão um assunto para inquisição contra nós, no
dia do julgamento final. Teremos de prestar contas das nossas decla­
rações, tanto quanto de nossos atos. De fato, estas são considerações
muito solenes. Se não existisse qualquer outro texto na Bíblia, este,
por si só, deveria convencer-nos do fato que todos somos culpados diante
do Senhor e de que precisamos de uma justiça muito superior à nossa
— a justiça de Cristo (Fp 3.9).
Que nos mostremos humildes, enquanto lemos esta passagem, ao
Mateus 12.22-37 91

relembrarmos os tempos passados. Quantas palavras ociosas, tolas, vãs,


levianas, frívolas, pecaminosas e sem proveito todos nós temos dito!
Quantas e quantas palavras temos usado, as quais, como ervas dani­
nhas, têm-se espalhado por uma grande área, semeando duradouro mal
no coração de outras pessoas! Conforme disse um homem de Deus no
passado, quando nos encontramos com os nossos amigos, com quanta
freqüência “ as nossas palavras servem somente para, mais tarde, nos
arrependermos delas!” Há uma profunda verdade no que disse Burkitt:
“ Uma zombaria profana, ou um escárnio ateu, podem grudar à mente
daqueles que os ouvirem, muito depois que já morreu a língua que os
proferiu. Uma palavra dita é fisicamente transitória, mas é moralmente
permanente” . Escreveu Salomão: “ A morte e a vida estão no poder
da língua” (Pv 18.21).
Mostremo-nos vigilantes, no tocante aos nossos dias vindouros,
depois de havermos lido este trecho bíblico acerca das nossas palavras.
Resolvamos, com a ajuda da graça divina, ser mais cautelosos e equi­
librados quanto ao uso que fizermos da língua, sobre como haveremos
de usar as palavras. Oremos diariamente para que a nossa palavra “ seja
sempre agradável, temperada com sal” (Cl 4.6). A cada manhã, digamos
juntamente com o santificado Davi: “ Disse comigo mesmo: Guardarei
os meus caminhos, para não pecar com a língua’’ (SI 39.1). Clamemos,
como Davi, ao forte por força: “ Põe guarda, Senhor, à minha boca;
vigia a porta dos meus lábios” (SI 141.3). Foi com grande razão que
Tiago escreveu: “ Se alguém não tropeça no falar é perfeito varão”
(Tg 3.2).

O Poder da Incredulidade;
Reformas Imperfeitas e Incompletas;
O Amor de Cristo Pelos Seus Discípulos
Leia Mateus 12.38-50

O começo desta passagem é um daqueles trechos que ilustram


admiravelmente a veracidade da história do Antigo Testamento. Nosso
Senhor menciona a rainha do Sul, como uma pessoa real, alguém que
tinha vivido e morrido. Ele se refere à história de Jonas e sua miraculosa
preservação no ventre do grande peixe como fatos inegáveis. Não nos
esqueçamos disso, pois há pessoas que dizem crer nos escritos do Novo
Testamento, mas ao mesmo tempo zombam dos acontecimentos regis­
trados no Antigo Testamento, como se fossem meras fábulas. Tais
indivíduos esquecem-se de que, assim fazendo, lançam desdém sobre o
92 Mateus 12.38-50

próprio Cristo. Quanto à sua autoridade, o Antigo e o Novo Testamento


permanecem de pé ou caem juntamente. O mesmo Espírito Santo que
inspirou homens para escrever sobre Salomão e sobre Jonas, também
inspirou os evangelistas a escreverem a história de Jesus Cristo. Estas
não são questões sem importância nestes nossos dias. Que tais coisas
fiquem bem afixadas em nossa mente.
A primeira lição prática que requer nossa atenção, nestes versícu­
los, é o espantoso poder da tncredulidade. Observemos como os escribas
e fariseus solicitaram de nosso Senhor que lhes mostrasse um maior
ndmero de milagres: ‘‘Mestre, queremos ver de tua parte algum sinal’’.
Eles fingiam que só desejavam receber maiores e mais convincentes
evidências, a fim de se deixarem convencer e tomarem-se discípulos.
Eles fecharam os olhos para os inúmeros milagres que Jesus já havia
realizado. Não era suficiente para eles que Jesus tivesse curado os en­
fermos e purificado os leprosos, ressuscitado mortos e expulsado
demônios. Eles ainda não estavam persuadidos. Ainda exigiam mais
provas. Não queriam enxergar aquilo que nosso Senhor mostrou cla­
ramente em sua resposta, isto é, que eles não tinham disposição real
para crer. Já havia evidência suficiente para convencê-los, mas eles não
queriam ser convencidos.
Na igreja de Cristo, há muitos que se encontram exatamente nas
mesmas condições espirituais desses escribas e fariseus. Eles bajulam
a si mesmos, dizendo que só precisam de um pouco mais de provas
para se tomarem cristãos decididos. Imaginam que, se a sua razão e
intelecto ao menos fossem alimentados por mais alguns argumentos,
imediatamente desistiriam de tudo para seguir a causa de Cristo, to­
mando a cruz e seguindo-O. Mas enquanto isso, ficam apenas esperando.
Infeliz cegueira a deles! Não querem mesmo ver a grande quantidade
de evidências ao seu redor. A verdade insofismável é que eles não que­
rem se deixar convencer.
Que todos nos ponhamos em guarda contra essa atitude de in­
credulidade. Esse é um mal crescente nos dias que correm. A ausência
de uma fé simples, como a de uma criança, é uma das características
marcantes em nossos tempos, em todos os níveis da sociedade. A ver­
dadeira explicação para muitas coisas estranhas, que nos espantam, na
conduta de homens de influência nas igrejas e no governo das nações,
é a evidente falta de fé. Homens que não acreditam naquilo que Deus
diz na Bíblia, têm que, necessariamente, assumir uma conduta vacilante
e indecisa, nas questões morais e religiosas: “ Se não crerdes, certa­
mente não permanecereis” (Is 7.9).
A segunda lição prática que encontramos nestes versículos é o
imenso perigo de uma reforma religiosa imperfeita e parcial. Notemos
Mateus 12.38-50 93

quão horrível quadro nosso Senhor pintou sobre o homem para quem
retorna o espírito imundo, depois de já o ter deixado. Quão assusta­
doras são as palavras: “ Voltarei para minha casa, donde saí” . Quão
vívida a descrição: “ E, tendo voltado, a encontra vazia, varrida e or­
namentada” . Quão tremenda é a conclusão: “ E leva consigo outros
sete espíritos, piores do que ele... e o último estado daquele homem
toma-se pior do que o primeiro” . É um quadro repleto de dolorosa
significação. Que nós o examinemos cuidadosamente, e assim apren­
damos sabedoria.
É indiscutível que neste quadro temos uma figura da história da
igreja e da nação Judaica, na tempo da primeira vinda de Cristo à terra.
Chamados como foram, no início, para saírem do Egito e serem o povo
todo peculiar de Deus, parece que os judeus jamais perderam inteira­
mente a tendência de adorar ídolos. Sendo posteriormente remidos do
cativeiro da Babilônia, parece que nunca corresponderam à bondade
de Deus. Despertados como haviam sido, pela pregação de João Batista,
o arrependimento parece ter sido superficial. Nos dias em que o Senhor
Jesus lhes falava, eles se haviam tornado, como nação, mais duros e
perversos do que nunca. A vulgaridade da adoração aos ídolos cedera
lugar a um mero formalismo morto. Sete outros espíritos, piores do
que o primeiro, tinham vindo apossar-se deles. O seu último estado foi
rapidamente se tomando pior do que o primeiro. Loucamente, atiraram-
-se a uma guerra rebelde contra Roma. A Judéia transformou-se em
uma autêntica Babel de confusão. Jerusalém foi tomada. O templo des­
truído. Os judeus foram dispersos por todo o mundo.
É também muito provável que este seja um quadro da história
da igreja cristã, como um todo. Libertados como foram das trevas do
paganismo mediante a pregação do evangelho, os crentes jamais che­
garam a viver à altura da luz que receberam. Revificadas como muitas
foram, por ocasião da Reforma Protestante, nenhuma das igrejas de
Cristo tem chegado a fazer uso correto de todos os seus privilégios,
e nem têm avançado “ até a perfeição” . Todas ficaram mais ou menos
aquém do padrão, acomodadas à própria escória. Todas se têm mostrado
mui prontas a estarem satisfeitas com reformas meramente externas.
E agora há dolorosos sintomas, em quase todo lugar, de que o espírito
maligno tem retomado à sua antiga casa, e está preparando uma insur­
reição de infidelidade e doutrinas falsas, tal qual nunca se viu até hoje.
Entre a incredulidade em certos segmentos da igreja, e a superstição
formal em outros, tudo parece estar pronto para alguma terrível ma­
nifestação do anticristo. É de temer-se muito que o último estado das
professas igrejas cristãs venha a mostrar-se muito pior do que o primeiro.
O mais triste, e o pior de tudo, é que temos aqui, neste quadro,
94 Mateus 12.38-50

a história de muitos homens e mulheres. Houve pessoas que, durante


um certo tempo, pareciam estar sob a influência de fortes sentimentos
religiosos. Elas mudaram de vida. Puseram de lado muitas coisas ruins.
Adotaram muitas coisas boas. No entanto, estacaram nesse ponto e não
mais avançaram, e pouco a pouco foram perdendo completamente o
seu cristianismo. Assim, o espírito maligno voltou e encontrou a casa
vazia, varrida e adornada, e essas pessoas são agora piores do que ja­
mais foram antes. Parecem ter a consciência cauterizada. O sentimento
religioso parece inteiramente destruído. Parecem ser homens entregues
a uma mente corrompida. Poderíamos mesmo afirmar que, agora, “ é
impossível outra vez renová-los para arrependimento” (Hb 6.6). Nin­
guém mostra ser tão desesperadamente ímpio como aqueles que, após
terem experimentado fortes convicções religiosas, voltaram de novo
ao pecado e ao mundo.
Se amamos a vida, oremos para que estas lições fiquem profun­
damente gravadas em nossas mentes. Que jamais nos contentemos com
uma reforma parcial de vida, sem uma inteira conversão a Deus, e sem
a mortificação do corpo inteiro do pecado. É coisa excelente esforçarmo-
-nos por expulsar o pecado para fora do nosso coração. Todavia, sejamos
cuidadosos, para que, em lugar do pecado, demos acolhida à graça de
Deus. Certifiquemo-nos de que não somente nos temos libertado do
antigo inquilino, o diabo, mas, também, certifiquemo-nos de já temos
em nós o Espírito Santo.
A última lição prática que vem ao nosso encontro, nestes versícu­
los, é o temo afeto com que o Senhor Jesus considera os seus verdadeiros
discípulos. Observe como Ele se refere a todos os que cumprem a von­
tade de Deus Pai, que está nos céus. Jesus diz: “ Qualquer que fizer
a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe” . Quão
graciosas são essas palavras! Quem pode conceber a profundeza do amor
de nosso querido Senhor para com os seus parentes segundo a carne?
Era um amor puro e altruísta. Deve ter sido um amor poderoso, um
amor que ultrapassa os limites da compreensão humana. Não obstante,
aprendemos aqui que todos os crentes verdadeiros são considerados seus
parentes. Ele os ama, sente profundamente acerca deles, cuida deles,
como membros de sua família, ossos de seus ossos e carne de sua carne.
Há aqui uma solene advertência contra todos os que zombam e
perseguem os verdadeiros cristãos por causa da religião deles. Tais pes­
soas não pensam no que estão fazendo. Estão perseguindo os parentes
próximos do Rei dos reis. Descobrirão, no último dia, que escarnece­
ram daqueles a quem o Juiz de toda a terra considera como “ meu irmão,
irmã e mãe” .
Nisto há um rico encorajamento para todos os crentes. Eles são
Mateus 12.38-50 95

muito mais preciosos aos olhos do Senhor do que aos seus próprios
olhos. A fé pode ser débil, o arrependimento pode não ser muito pro­
fundo, e a força pode ser pequena. Eles podem ser pobres e necessitados
neste mundo. Entretanto, no último versículo deste capítulo há um ‘‘qual­
quer que” que deveria alegrá-los: “ Qualquer que” crê é um parente
próximo de Jesus Cristo. O nosso Irmão mais velho haverá de provi­
denciar para o tempo e a eternidade, sem jamais rejeitar a quem crê.
Não há nenhum membro da família dos remidos de quem o Senhor não
se lembre. No Egito, José proveu ricamente para todos os seus paren­
tes; Jesus proverá para os seus.

A Parábola do Semeador
Leia Mateus 13.1-23

Este capítulo é marcado pelo número de parábolas que contém.


Sete notáveis ilustrações da verdade espiritual são aqui apresentadas
pelo grande Cabeça da igreja, com base na natureza. Ao assim fazer,
Jesus nos mostra que o ensino religioso pode obter preciosos subsídios
de tudo quanto existe na criação. Aqueles que quiserem “ achar pala­
vras agradáveis” (Ec 12.10) não devem esquecer este fato.
A parábola do semeador, que inicia este capítulo, é uma daque­
las parábolas que admitem uma aplicação muito abrangente. Esta parábola
está se cumprindo continuamente diante dos nossos próprios olhos. Onde
quer que a Palavra de Deus esteja sendo anunciada ou exposta, e as
pessoas estejam reunidas para ouvi-la, as declarações de nosso Senhor
nesta parábola provam ser verdadeiras. Elas descrevem o que acontece,
via de regra, em todas as congregações onde a palavra de Deus é pregada.
Antes de qualquer outra coisa, aprendamos, com esta parábola,
que o trabalho do pregador assemelha-se muito ao trabalho de um se­
meador. Tal como o semeador, o pregador precisa semear boa semente,
se deseja ver frutos. Ele precisa semear a pura Palavra de Deus, e não
as tradições da igreja ou as doutrinas humanas. Sem isso, o esforço
do pregador será em vão. Ele pode ir de um lado para outro, parecendo
dizef muito e trabalhar muito em seus deveres ministeriais, a cada se­
mana. Porém, não haverá colheita de almas para o céu, nenhum resultado
vivo, nenhuma conversão.
Assim como o semeador, o pregador precisa ser diligente. Não
pode poupar esforços. Precisa lançar mão de todos os meios possíveis
para fazer o seu trabalho prosperar. Ele deve, com paciência, “ semear
junto a todas as águas” (Is 32.20), e semear na esperança de uma boa
96 Mateus 13.1-23

colheita. Deve pregar a Palavra “ quer seja oportuno, quer não” (2 Tm


4.2). Ele não pode se deixar deter por dificuldades e desencorajamen-
tos. “ Quem somente observa o vento, nunca semeará” (Ec 11.4). Não
há dúvida, o sucesso de um pregador não depende exclusivamente de
seus esforços e de sua diligência; mas, sem labor e diligência, o sucesso
dificilmente será alcançado.
Tal como o semeador, o pregador também não pode transmitir
vida. Ele pode espalhar a semente que lhe foi confiada; mas não pode
ordenar que ela cresça. Ele pode oferecer a palavra da verdade a um
povo, mas não pode fazer as pessoas receberem a palavra e produzir
fruto espiritual. Produzir vida é uma prerrogativa soberana de Deus:
“ O espírito é o que vivifica” (Jo 6.63). Somente Deus pode “ dar o
crescimento” (1 Co 3.7).
Que estas coisas estejam abrigadas no fundo do nosso coração.
Ser um verdadeiro ministro da Palavra de Deus não é algo de somenos
importância. É fácil ser um obreiro formal e preguiçoso na igreja. Mas,
ser um semeador fiel é muito difícil. Os pregadores devem ser espe­
cialmente lembrados em nossas orações.
Em seguida, aprendamos que há várias maneiras de se ouvir a
Palavra de Deus inutilmente. Podemos escutar um sermão com corações
endurecidos, como o chão “ à beira do caminho” , sem preocupação,
sem cuidado, sem refletir sobre o estado de nossa própria alma. Cristo
crucificado pode ser afetuosamente exposto diante de nós, e podemos
ouvir dos seus sofrimentos com total indiferença, como um assunto em
que não temos nenhum interesse. Tão rápido as palavras chegam aos
nossos ouvidos, o diabo pode arrancá-las de nós, e então, regressamos
aos nossos lares como se nem tivéssemos ouvido algum sermão. Infe­
lizmente, existem muitos ouvintes desse tipo! Deles pode-se dizer, tal
como foi dito acerca dos ídolos da antigüidade: “ Têm olhos e não vêem;
têm ouvidos e não ouvem” (SI 135.16,17). A verdade parece não exer­
cer efeito sobre o coração deles.
Podemos ouvir um sermão com prazer, enquanto que a impres­
são produzida em nós é apenas temporária e de pouca duração. Nosso
coração, como o “ solo rochoso” , pode produzir um mundo de senti­
mentos e boas resoluções. Porém, durante todo o tempo, pode não haver
raízes profundas em nossa alma, de maneira que o primeiro vento frio
de oposição ou tentação pode fazer secar a nossa aparente religião. In­
felizmente, há muitos ouvintes dessa classe! A mera apreciação a sermões
não é sinal da presença da graça divina. Milhares de pessoas batizadas
são como os judeus dos dias de Ezequiel: “ Eis que tu és para eles como
quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque
ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (Ez 33.32).
Mateus 13.1-23 97

Podemos ouvir um sermão aprovando cada palavra, e, no entanto,


não tirar dele qualquer benefício real, em conseqüência da absorvente
influência exercida pelo mundo sobre nós. Nosso coração, tal como
o solo recoberto de espinhos, pode se deixar afogar pelos cuidados,
prazeres e propósitos mundanos. Podemos realmente apreciar o evan­
gelho e desejar obedecê-lo, no entanto, podemos, insensivelmente, não
dar qualquer oportunidade ao evangelho de produzir fruto, permitindo
que outras coisas venham ocupar lugar em nossos afetos, e assim, sem
o percebermos, tomar conta de todo nosso coração. Infelizmente, tam­
bém existem muitos ouvintes dessa natureza! Eles conhecem bem a
verdade. Esperam que um dia serão cristãos decididos. Porém, jamais
chegam ao ponto de desistir de tudo por amor a Cristo. Eles nunca to­
mam a decisão de “ buscar em primeiro lugar o reino de Deus” ; e, por
isso mesmo, acabam morrendo em seus pecados.
Estes são pontos que deveríamos pesar cuidadosamente. Nunca
deveríamos esquecer de que há várias maneiras de se ouvir a Palavra,
sem proveito. Não basta vir à igreja para ouvir a pregação: podemos
ouvir e estar desatentos. Não basta apenas prestar atenção: as impres­
sões podem ser apenas temporárias, tão superficiais que logo se dissipem.
Também não basta que as nossas impressões não sejam meramente pas­
sageiras. Elas poderão continuar não produzindo quaisquer resultados,
em conseqüência de nosso obstinado apego a este mundo. Verdadeira­
mente, “ enganoso é o coração, mais do que todas as cousas, e desespe­
radamente corrupto, quem o conhecerá?” (Jr 17.9).
Em último lugar, deixemo-nos ensinar, alicerçados sobre esta
parábola, que só há uma evidência de que estamos ouvindo correta­
mente a Palavra de Deus. A evidência é produzir fruto. O fruto aqui
referido é o fruto do Espírito. Arrependimento para com Deus, fé no
Senhor Jesus Cristo, santidade de vida e de caráter, dedicação à oração,
humildade, amor cristão, mente espiritual — estas são as únicas provas
satisfatórias de que a semente da Palavra de Deus está realizando o tra­
balho que lhe é próprio em nossas almas. Sem tais provas, a nossa religião
é vã, por melhor que seja a nossa profissão de fé, e não será melhor
do que o bronze que soa ou o címbalo que retine. Cristo disse: “ Eu
vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça”
(Jo 15.16).
Não há outra porção nesta parábola que seja tão importante quanto
esta. Jamais nos deveríamos contentar com uma ortodoxia infrutífera,
ou a simples e fria manutenção de corretos pontos de vista teológicos.
Não podemos satisfazer-nos somente com um conhecimento claro, com
sentimentos calorosos e uma decente profissão cristã. Devemos cuidar
para que o evangelho que professamos amar esteja realmente produzindo
98 Mateus 13.1-23

“ fruto” em nossos corações e em nossas vidas. Nisto é que consiste


o verdadeiro cristianismo. As palavras do apóstolo Tiago deveriam soar
freqüentemente em nossos ouvidos: “Tomai-vos, pois, praticantes da pa­
lavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1.22).
Que nós não passemos além, sem fazermos a nós mesmos uma
importante indagação: “ Como é que estamos ouvindo a Palavra de
Deus?” Vivemos em um país que se declara cristão. Vamos à igreja
domingo após domingo, e ouvimos sermões. Com que atitude ouvi­
mos? Que efeito a pregação está exercendo sobre o nosso caráter?
Podemos apontar para qualquer coisa que mereça o nome de “ fruto” ?
Podemos estar seguros de que, para chegar ao céu, por fim, é
preciso algo mais do que ir à igreja regularmente aos domingos e es­
cutar os pregadores. A Palavra de Deus precisa ser acolhida em nosso
coração e tomar-se a regra de nossa conduta. Ela deve produzir uma
influência prática sobre o nosso caráter, que se tome aparente no nosso
comportamento exterior. Se não estiver sucedendo assim, a pregação
da palavra servirá tão-somente para aumentar ainda mais a nossa con­
denação no dia do juízo.

A Parábola do Trigo e do Joio


Leia Mateus 13.24-43

A parábola do trigo e do joio, que ocupa a parte principal destes


versículos, reveste-se de particular importância para os nossos dias. Ela
tem o propósito eminente de corrigir as expectativas muito altas que
têm muitos cristãos quanto ao efeito das missões cristãs no estrangeiro
e à pregação do evangelho em sua pátria. Que demos a essa parábola,
portanto, a atenção que ela merece.
Em primeiro lugar, esta parábola nos ensina que o bem e o mal
sempre serão achados Juntos na igreja, até ao fim do mundo. A igreja
visível nos é apresentada como um corpo misto. Ela é um vasto
“ campo” , onde crescem, lado a lado, o trigo e o joio. Devemos estar
preparados para encontrar crentes e incrédulos, convertidos e não-
-convertidos, os “ filhos do reino” e os “ filhos do maligno” , todos
misturados uns com os outros, em todas as congregações de pessoas
batizadas.
Nem mesmo a mais pura e fiel pregação do evangelho conseguirá
impedir esse estado de coisas. Ele tem existido em todos os séculos
da igreja. Tal foi a experiência dos primeiros pais da igreja; tal foi a
experiência dos reformadores; e continua sendo a experiência dos me­
Mateus 13.24-43 99

lhores ministros do evangelho, até hoje. Nunca houve uma igreja local
ou assembléia cristã cujos membros fossem todos “ trigo” . O diabo,
o grande inimigo de nossas almas, sempre teve o cuidado de semear
o “joio” .
A disciplina eclesiástica mais prudente e estrita não impedirá essa
situação. Qualquer que seja a denominação, todas, igualmente, desco­
brem que assim acontece. Sem importar o que façamos para purificar
uma igreja, jamais conseguiremos obter uma comunhão perfeitamente
pura. O joio sempre será encontrado no meio do trigo. Hipócritas e
enganadores se infiltrarão sorrateiramente. E, o pior de tudo, é que,
se nos mostramos exageradamente zelosos em nosso esforço de obter
a pureza, fazemos mais mal do que bem. Corremos o risco de encorajar
a muitos Judas Iscariotes, e o risco de esmagar muitas “ canas quebra­
das” . Em nosso afã de “ arrancar o joio” , corremos o risco de arrancar
“ também com ele o trigo” . Tal zelo não está de acordo com o enten­
dimento, e tem, com freqüência, causado muito dano. Quem não se
importa com o que acontece ao trigo, contanto que possa desarraigar
o joio, demonstra possuir bem pouco da mente de Cristo. E, afinal de
contas, há uma profunda verdade na caridosa declaração de Agostinho:
“ Os que hoje são joio, amanhã poderão ser trigo” .
Sentimo-nos inclinados a esperar pela conversão do mundo in­
teiro através do trabalho dos missionários e ministros do evangelho?
Que nós tenhamos esta parábola sempre diante de nós, e nos acautele­
mos contra tal idéia. Dentro da presente ordem de coisas, jamais veremos
transformados em trigo todos os habitantes da terra. O trigo e o joio
continuarão a “ crescer juntos até à colheita” . Os reinos deste mundo
jamais se tornarão o reino de Cristo, nem o milênio começará, até que
retorne o próprio Rei.
Sentimo-nos perturbados pelo argumento zombeteiro dos incré­
dulos, de que o cristianismo não pode ser uma religião verdadeira, visto
que existem tantos crentes falsos? Que nós tenhamos em mente esta
parábola e permaneçamos inabaláveis. Digamos ao incrédulo que a sua
zombaria desse estado de coisas não nos surpreende, de maneira alguma.
Nosso Senhor nos preparou para isso há quase dois mil anos atrás. Ele
previu e predisse que a sua igreja seria um campo contendo, não so­
mente trigo, mas, também o joio.
Sentimo-nos tentados a abandonar uma igreja evangélica por
outra, porque vemos que muitos dos seus membros não são converti­
dos? Se for este o caso, lembremo-nos desta parábola e tenhamos muito
cuidado com nossas atitudes. De modo nenhum encontraremos uma igreja
perfeita. Poderíamos passar a vida inteira migrando de uma igreja para
outra, sofrendo perene desapontamento. Não importa aonde formos,
100 Mateus 13.24-43

ou a igreja que freqüentemos, sempre encontraremos o joio.


Em segundo lugar, a parábola nos ensina que haverá um dia da
separação entre os membros piedosos e os membros ímpios da igreja
visível, no fim do mundo. O presente estado de coisas não continuará
para sempre. O trigo e o joio serão separados afinal. O Senhor Jesus
“ enviará os seus anjos” , no dia de seu segundo advento, os quais re­
colherão os que se professam cristãos, formando dois grupos distintos.
Esses poderosos ceifeiros celestiais não se enganarão no que estiverem
fazendo. Haverão de discernir, com juízo infalível, entre o justo e o
ímpio, colocando cada um no seu próprio grupo. Os santos e fiéis ser­
vos de Cristo receberão glória, honra e vida eterna. Os mundanos, os
ímpios, os descuidados e os não-convertidos serão lançados dentro da
“ fornalha acesa” , onde receberão opróbrio e eterna tribulação.
Há algo de peculiarmente solene nesta parte da parábola. O sig­
nificado de tais palavras não admite qualquer equívoco. Nosso Senhor
fala com palavras de singular clareza, como se quisesse nos impressio­
nar profundamente com a seriedade da questão. Ele conclui a parábola
com um “ Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” .
Que o ímpio estremeça ao ler esta parábola. Que ele veja, atra­
vés dessa linguagem assustadora, a sua própria condenação certa, a menos
que se arrependa e se converta. Compreenda que está semeando a des­
graça eterna para si próprio, se prosseguir em sua negligência quanto
às coisas de Deus. Que ele reflita que o seu destino final consistirá em
ser recolhido entre os feixes de joio, a fim de ser queimado. Sem dú­
vida alguma, uma perspectiva horrenda como essa deveria fazer qualquer
pessoa meditar. Conforme disse Baxter: “ Não devemos interpretar er­
roneamente a paciência de Deus para com os ímpios” .
Que o crente em Cristo console-se com a leitura desta parábola.
Que entenda que há felicidade e segurança, preparadas para ele, no grande
e temível dia do Senhor. A voz do arcanjo e a trombeta de Deus não
haverão de aterrorizá-lo. Pelo contrário, serão uma convocação para
a cena que, desde há muito, o crente deseja contemplar: uma igreja
perfeita e uma perfeita comunhão dos santos. Quão lindo será o aspecto
do corpo de Cristo, a igreja, quando, afinal, tiver sido separada dos
ímpios! Que bonito parecerá então o trigo, recolhido no “ celeiro” de
Deus, quando, finalmente, todo o joio tiver sido retirado do meio deles!
Quão brilhantemente resplandecerá a graça divina, quando não mais
estiver sendo obscurecida pelo incessante contato com os mundanos e
os não-convertidos! Os justos são pouco conhecidos no dia de hoje. O
mundo não vê neles qualquer beleza, como também não viu beleza al­
guma no Mestre e Senhor deles: “ Por essa razão o mundo não nqs
conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo” (1 Jo 3.1). Porém,
Mateus 13.24-43 101

um dia, “ os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” .


Nas palavras de Matthew Henry: “ A santificação deles será perfeita
e a sua justificação se tornará pública” . E também lemos, em Colos-
senses 3.4: “ Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então
vós também sereis manifestados com ele, em glória” .

As Parábolas do Tesouro, da Pérola


e da Rede
Leia Mateus 13.44-50

As parábolas do “ tesouro oculto no campo” e do homem que


“ negocia e procura boas pérolas” parecem ter por alvo transmitir uma
mesma mensagem. Contudo, diferenciam-se quanto a uma notável par­
ticularidade. O “ tesouro” foi encontrado ao acaso, por quem não
procurava por ele. A “ pérola” foi encontrada somente após uma busca
muito diligente, por quem buscava boas pérolas. Entretanto, a conduta
de ambos os descobridores foi precisamente a mesma. Ambos “ ven­
deram tudo” , com o propósito de fazer sua propriedade o objeto achado.
E precisamente quanto a esse particular que a instrução, em ambas as
parábolas, é a mesma.
As duas parábolas têm por intuito ensinar que, se um homem está
realmente convencido da importância da salvação, haverá de desistir
de tudo o mais, para ganhar a Cristo e a vida eterna. Qual foi a con­
duta daqueles dois homens que nosso Senhor descreve? O primeiro estava
persuadido da existência de um tesouro “ oculto no campo” , o qual ha­
veria de recompensá-lo ricamente se ele comprasse o tal campo, sem
importar o quanto tivesse de pagar. O outro ficou persuadido de que
a “ pérola” que havia achado era tão imensamente valiosa, que lhe con­
viria vender tudo o quanto tinha a fim de adquiri-la. Ambos estavam
convencidos de haverem encontrado algo de imenso valor. Ambos se
dispuseram a fazer um tremendo sacrifício para que pudessem tornar-se
possuidores daquelas riquezas. Talvez outras pessoas estranhassem essa
atitude. Outros poderiam julgar aqueles dois homens uns tolos por ha­
verem pago tão elevada soma em dinheiro pelo campo e a pérola. Porém,
eles sabiam o que estavam comprando. Tinham a certeza de que esta­
vam fazendo um excelente negócio.
Você pode ver, nesta simples ilustração, a conduta de um ver­
dadeiro cristão. Ele é o que é, e faz o que faz, em sua religião, por
estar totalmente persuadido de que vale a pena. Ele abandona o mundo.
Despe-se do velho homem. Esquece-se das vãs companhias de sua vida
102 Mateus 13.44-50

passada. Como Mateus, ele desiste de tudo, e, como Paulo, ele a “ tudo
considera como perda” , por causa de Cristo. E por quê? Porque está
convencido de que Cristo irá recompensá-lo por tudo quanto ele estiver
deixando para trás. Ele vê em Jesus Cristo um tesouro de valor ines­
timável. Cristo é a pérola preciosa. Ele fará qualquer coisa para ganhar
a Cristo. Nisto consiste a verdadeira fé. Este é o sinal da genuína ope­
ração do Espírito Santo.
Observe, nestas duas parábolas, a verdadeira razão para a con­
duta de muitas pessoas não-convertidas! Em se tratando de religião,
elas são o que são porque não estão plenamente persuadidas de que
vale a pena ser diferente. Evitam a decisão. Retraem-se de tomar a sua
cruz. Vacilam entre duas opiniões. Não desejam se comprometer. Não
vêm ousadamente para o lado de Cristo. Mas, por quê? Por não estarem
convencidos de que isso é a solução. Eles não estão seguros de que
“ o tesouro” está bem em frente deles. Não estão convencidos de que
a “ pérola” vale tanto. Eles ainda não conseguem tomar a resolução
de “ vender tudo” para que possam ter Cristo. E assim, com freqüência
acabam perecendo eternamente! Quando alguém não se dispõe a abrir
mão de tudo por causa de Cristo, temos de tirar a triste conclusão de
que tal pessoa não recebeu a graça divina.
A parábola da rede que é lançada ao mar tem alguns pontos em
comum com a parábola do trigo e do joio. A sua finalidade é instruir-
-nos no tocante a uma importantíssima questão: a verdadeira natureza
da igreja visível de Cristo.
A pregação do evangelho era como uma grande rede lançada em
meio ao mar deste mundo. A igreja professa, que haveria de ser colhida
pela rede, seria um corpo misto. A rede haveria de apanhar peixes de
todo tipo, bons e ruins. No seio da igreja haveria cristãos de diversas
categorias, convertidos e não-convertidos, tanto falsos quanto autênti­
cos. A separação entre bons e maus viria com certeza, mas não antes
do fim do mundo. Esse foi o relato que o grande Mestre deu a seus
discípulos a respeito das igrejas que eles haveriam de fundar.
É de suma importância que as lições contidas nesta parábola es­
tejam profundamente gravadas em nossa mente. Dificilmente haveria
outro assunto no cristianismo, acerca do qual sejam cometidos erros
tão grandes quanto este a respeito da natureza da igreja visível. Talvez
não exista nenhum outro assunto em que os erros sejam tão perigosos
para a alma.
Aprendamos, com esta parábola, que todas as assembléias de
cristãos professos devem ser consideradas corpos mistos. Todas contêm
peixes bons e ruins, convertidos e não-convertidos, filhos de Deus e
filhos deste mundo, que devem ser descritos e tratados distintamente uns
Mateus 13.44-50 103

dos outros. Dizer-se a todas as pessoas batizadas, que elas nasceram


de novo, que possuem o Espírito de Deus, que são santas e são mem­
bros do corpo de Cristo, na luz de uma parábola como esta, é inconce­
bível. Este pode ser um modo lisonjeiro e bajulador de tratar com as
pessoas, mas é difícil que venha a fazer o bem ou salvar uma alma.
É uma maneira calculada de promover a justiça-própria, e ninar os pe­
cadores dormentes. Tal tratamento subverte o pleno ensinamento de
Cristo e é nocivo para as almas. Já tivemos ocasião de ouvir tal dou­
trina? Nesse caso, lembremo-nos da “ rede” .
Finalmente, que tenhamos como princípio nunca estar satisfeitos
com uma ligação meramente externa com a igreja. Podemos estar den­
tro da rede, mas não pertencer a Jesus Cristo. Milhares de pessoas
recebem a água do batismo sem jamais serem lavadas na água da vida.
Muitos participam da comunhão do pão e do vinho à mesa do Senhor,
mas nunca se alimentam de Cristo, pela fé. Somos convertidos? Somos
“ peixes bons” ? Esta é a grande pergunta, e terá de ser, finalmente,
respondida. Dentro em pouco, a rede será arrastada para a praia. E então,
o caráter da religião de cada homem será finalmente exposto. Haverá
uma eterna separação entre os peixes bons e os ruins. Haverá uma “ for­
nalha de fogo” para os ímpios. Certamente, conforme asseverou Baxter:
“ Estas palavras tão claras precisam mais ser recebidas e cridas, do que
explicadas” .

Cristo é Desprezado em sua Própria


Terra; O Perigo da Incredulidade
Leia Mateus 13.51-58

A primeira coisa que deveríamos observar, nestes versículos, é


a penetrante pergunta com a qual nosso Senhor conclui as sete admiráveis
parábolas deste capítulo. Ele pergunta: “ Entendestes todas estas cousas?”
A aplicação pessoal tem sido chamada de “ alma” da pregação.
Um sermão sem aplicação é como uma carta enviada sem o endereço
do destinatário. Ela pode ter sido muito bem escrita, corretamente
datada e assinada. Porém, não tem valor algum, porquanto nunca che­
ga ao seu destino. A pergunta de nosso Senhor é um admirável exem­
plo de uma aplicação que realmente perscruta o coração dos ouvintes:
“ Entendestes?”
A mera formalidade do ato de ouvir um sermão de nada apro­
veita ao homem, a menos que ele entenda o seu significado. Em nada
seria melhor do que ouvir o sopro de uma trombeta ou o ritmo de um
104 Mateus 13.51-58

tambor. Poderia com igual proveito participar de uma missa católica


em latim! É preciso que o intelecto da pessoa seja posto a funcionar
e o seu coração tocado. As idéias precisam ser absorvidas pela mente.
O ouvinte deve levar consigo as sementes de novos pensamentos. Sem
isso, ele ouvirá em vão.
É muito importante deixar bem claro este ponto. Existe muita
ignorância sobre toda essa questão. Milhares de pessoas há que freqüen­
tam regularmente a igreja, pensando que com isso já cumpriram os seus
deveres religiosos sem nunca saírem com uma idéia ou uma impressão
gravada em suas mentes e em seus corações. Se lhes perguntássemos,
após terem voltado para casa, no domingo, o que foi que aprenderam
na igreja, não poderiam dizer nenhuma palavra a respeito. E, se as exa­
minássemos, no final de um ano, quanto ao conhecimento religioso que
adquiriram no decurso desse prazo, descobriríamos que continuam tão
ignorantes quanto os pagãos.
Vigiemos as nossas almas quanto a essa qüestão. Levemos co­
nosco, para as reuniões nas igrejas, não somente os nossos corpos, mas
também a nossas mentes, nossos corações e nossas consciências. E sem­
pre perguntemos a nós mesmos: “ O que foi que aproveitei deste sermão?
O que aprendi de novo? Quais verdades ficaram gravadas em minha
mente?” Sem dúvida, o intelecto não é tudo em matéria de religião.
Mas isso não significa que não tenha importância. O coração é, inques­
tionavelmente, o ponto principal. Todavia, nunca nos deveríamos
esquecer do fato que o Espírito Santo geralmente chega ao coração atra­
vés da mente. Ouvintes sonolentos, preguiçosos e desatentos, dificilmente
se convertem.
A segunda coisa que deveríamos notar, nestes versículos, é o
estranho tratamento que nosso Senhor recebeu em sua própria terra.
Chegando à cidade de Nazaré, onde fora criado, “ ensinava-os na si­
nagoga” . Os seus ensinamentos, não há dúvida, continuaram sendo o
que sempre foram: “ Jamais alguém falou como este homem” (Jo 7.46).
Porém, não teve efeito sobre os habitantes de Nazaré. Eles se “ mara­
vilhavam” mas os corações permaneciam intocados. Diziam: “ Não é
este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria?” Assim,
pois, desprezaram a Jesus por estarem tão bem familiarizados com Ele.
“ Escandalizavam-se nele” , e essa atitude arrancou de nosso Senhor
a notável observação: “ Não há profeta sem honra senão na sua terra
e na sua casa” .
Vamos ver, neste relato, uma triste visão, da natureza humana,
aberta diante de nossos olhos. Todos nos inclinamos por desprezar as
misericórdias das quais somos alvo, se estamos acostumados com elas
e as consideramos sem importância. A Bíblia e outros livros de cunho
Mateus 13.51-58 105

religioso vão se tomando cada vez mais comuns em nosso país; temos
os meios da graça e a pregação do evangelho, que ouvimos a cada
semana; tudo isso, porém, está sujeito a ser subestimado. É lamenta­
velmente verdadeiro que, no terreno religioso, mais do que em qualquer
outro aspecto das atividades humanas, “ a familiaridade gera o desres­
peito” , como diz o ditado. Os homens esquecem-se de que a verdade
é verdade, não importa quão antiga e comum ela possa parecer, e a
desprezam por causa de sua antiguidade. Que pena! Assim fazendo,
provocam a Deus, para que não nos mostre a verdade.
Acaso nos admiramos que os parentes, servos e vizinhos de pes­
soas piedosas nem sempre se convertem? Ficamos perplexos por que
as congregações de eminentes pregadores do evangelho geralmente são
os seus ouvintes mais duros e impenitentes? Não nos admiremos mais
de coisas assim. Observemos a experiência de nosso Senhor em Nazaré
e tornemo-nos mais sábios.
Acaso nos iludimos, pensando que, se apenas tivéssemos visto
e ouvido Jesus Cristo pessoalmente, teríamos sido seus fiéis discípulos?
Pensamos que, se nós tivéssemos vivido perto dEle, e sido testemunhas
oculares de seu ministério, não teríamos ficado indecisos, oscilantes
e indiferentes para com a religião? Não pensemos mais dessa maneira.
Observemos os habitantes de Nazaré e tornemo-nos sábios.
A última coisa que deveríamos notar nestes versículos é a natureza
destrutiva da incredulidade. Este capítulo termina com estas espantosas
palavras: “ E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade
deles” .
Observe que nesta palavra — incredulidade — está o segredo da
ruína eterna de multidões de almas! Perecem para todo o sempre, por­
que não querem crer. Nada mais existe, no céu ou na terra, que impeça
a sua salvação. Os pecados, não importa quantos sejam, podem todos
ser perdoados. O amor do Pai está pronto para receber essas pessoas.
O sangue de Cristo está pronto para purificá-las. O poder do Espírito
está sempre à disposição para renová-las. Porém, uma grande barreira
se interpõem — eles não querem crer: ‘‘Não quereis vir a mim para
terdes vida” (Jo 5.40).
Que todos nós estejamos em guarda contra esse maldito pecado.
Ele é a antiga raiz de pecado, que provocou a queda do homem. Em­
bora cortado da vida de todo verdadeiro filho de Deus, pelo poder do
Espírito, ele está sempre pronto a brotar e florescer novamente. Há três
grandes inimigos contra os quais os filhos de Deus deveriam lutar dia­
riamente em oração: orgulho, mundanismo e incredulidade. Mas, destes
três, nenhum é pior do que a incredulidade.
106 Mateus 14.1-12

O Martírio de João Batista


Leia Mateus 14.1-12

Nesta passagem encontramos uma página extraída do livro dos


mártires de Deus: a história da morte de João Batista. A iniqüidade do
rei Herodes, a corajosa repreensão que João lhe deu, o conseqüente
encarceramento do fiel reprovador, e as lamentáveis circunstâncias em
que o santo de Deus foi executado — tudo ficou registrado para o nosso
aprendizado. “ Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos”
(SI 116.15).
A narrativa da execução de João Batista foi contada com maiores
detalhes por Marcos do que por Mateus. Para o momento, parece su­
ficiente extrair duas lições gerais da narrativa de Mateus, e fixar nossa
atenção exclusivamente sobre as mesmas.
Em primeiro lugar, aprendamos, por estes versículos, o grande
poder da consciência. O rei Herodes ouviu da ‘‘fama de Jesus” , e então
disse aos que o serviam: “ Este é João Batista; ele ressuscitou dos mor­
tos e, por isso, nele operam forças miraculosas” . Herodes, pois,
lembrou-se das maldades que tinha cometido contra aquele homem santo,
e o seu coração angustiou-se profundamente. O coração do monarca
dizia-lhe que ele havia repelido o santo conselho do profeta e cometido
um homicídio pérfido e abominável. O coração lhe dizia que, embora
já tivesse matado João Batista, o dia do acerto de contas ainda estava
para vir. Ele e João Batista ainda tomariam a encontrar-se. Com toda
a razão, afirmou o bispo Hall: “ Um homem ímpio não precisa de outro
atormentador, sobretudo no caso de crimes de sangue, mais do que o
seu próprio coração” .
Em todos os seres humanos há uma consciência natural. Que isto
jamais seja esquecido. Embora nasçamos neste mundo como criaturas
decaídas, perdidas e desesperadamente iníquas, Deus cuidou para que
houvesse sempre uma testemunha contra nós, dentro do nosso próprio
peito. Ela é um pobre guia cego, sem a ajuda do Espírito Santo. Não
pode salvar a ninguém. Não pode conduzir alguém a Cristo. Ela pode
ser cauterizada e pisada aos pés. Porém, em todos os homens existe
uma consciência que os acusa ou os justifica; e a Bíblia e a experiência
humana são testemunhos disso (Rm 2.15).
A consciência pode fazer mesmo os reis sentirem-se miseráveis
quando repelem obstinadamente os seus avisos. A consciência pode en­
cher os príncipes deste mundo de temor e pavor, conforme sucedeu a
Félix quando Paulo estava pregando. É mais fácil encarcerar e decapitar
Mateus 14.1-12 107

o pregador, do que abafar o sermão e a repreensão que clamam dentro


do próprio coração. As testemunhas de Deus podem ser postas de lado,
mas o testemunho prestado por elas com freqüência sobrevive, e con­
tinua agindo ainda por muito tempo. Os profetas de Deus não vivem
para sempre, mas as suas palavras lhes sobrevivem (2 Tm 2.9; Zc 1.5,6).
Que os insensatos e os ímpios não se esqueçam disso, a fim de
não transgredirem contra as suas próprias consciências. Saibam que “ o
pecado vos há de achar” (Nm 32.23). Podem rir, zombar, escarnecer
da religião por algum tempo. Podem até dizer: “ Quem tem medo? Onde
está a grande iniqüidade das nossas ações?” Não perdem por esperar!
Estão semeando a miséria para si mesmos, e cedo ou tarde terão uma
amarga colheita. A sua própria maldade haverá de alcançá-los um dia.
Assim como Herodes, descobrirão que é muito mau e amargo pecar
contra Deus (Jr 2.19).
Que ministros e professores se lembrem que há nos homens uma
consciência, e assim, trabalhem com ainda maior ousadia. A instrução
dada nem sempre é perdida, simplesmente porque parece não produzir
fruto imediatamente. O ensinamento nunca é perdido, embora às vezes
pareça ter sido em vão, embora nos pareça que ninguém deu ouvidos
e o ensinamento foi logo esquecido. Existe uma consciência dentro das
pessoas que ouvem os nossos sermões. Existe uma consciência nas crian­
ças que freqüentam as nossas escolas. Muitos sermões e ensinos serão
ainda recordados mesmo depois da morte de quem os predicou, como
na história de João Batista. Milhares de pessoas sabem que estamos com
a razão, mas, tal como Herodes, não ousam admiti-lo.
Em segundo lugar, aprendamos que os filhos de Deus não devem
esperar que a sua recompensa seja dada neste mundo. Se já houve um
caso de piedade autêntica que não foi galardoada neste mundo, isso se
deu com João Batista. Pense por um momento no homem que ele foi
durante a sua breve carreira e, então, pense no trágico fim que lhe so­
breveio. Ele era profeta do Altíssimo e maior do que qualquer um dentre
os nascidos de mulher; e, no entanto, foi aprisionado como um mal­
feitor! A vida dele foi cortada por uma morte violenta, antes dos trinta
e quatro anos: a luz que brilhava foi apagada, e o pregador fiel foi as­
sassinado por estar cumprindo o seu dever — e tudo isso para satisfazer
o ódio de uma mulher adúltera, e por ordem de um tirano caprichoso!
Se já houve no mundo um acontecimento que desse motivo para o ig­
norante dizer “ De que aproveita servir a Deus?” , foi este.
Mas são coisas assim que nos mostram que haverá um julgamento
um dia. O Deus dos espíritos de toda carne haverá de instaurar um
tribunal, finalmente, e retribuirá a cada um de acordo com as suas obras.
O sangue de João Batista e do apóstolo Tiago, o sangue de Estevão,
108 Mateus 14.1-12

de Policarpo, de João Huss, de Ridley e de Latimer, será ainda reque­


rido da parte de seus algozes. Está tudo devidamente registrado no livro
de Deus. “ A terra descobrirá o sangue que embebeu e já não encobrirá
aqueles que foram mortos” (Is 26.21). O mundo ainda saberá que existe
um Deus que é o Juiz de toda a terra.
Que todos os verdadeiros cristãos se lembrem que o melhor ainda
está para vir. Não consideremos coisa estranha se a parte que nos cabe,
no presente, forem os sofrimentos. Este é um período de provação. Ainda
estamos na escola preparatória. Estamos aprendendo paciência, longa­
nimidade, gentileza e mansidão; coisas que dificilmente poderíamos
aprender se já tivéssemos recebido a melhor parte. Mas existe um des­
canso eterno que ainda está para começar. Esperemos tranqüilos até
que ele chegue. Ele dará a compensação de tudo. ‘‘Porque a nossa leve
e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima
de toda comparação” (2 Co 4.17).

O Milagre dos Pães e Peixes


Leia Mateus 14.13-21

Estes nove versículos contêm um dos maiores milagres de nosso


Senhor Jesus Cristo, a multiplicação de cinco pães e dois peixes para
‘‘cinco mil homens, além de mulheres e crianças” . Dentre todos os
milagres realizados por nosso Senhor, nenhum outro é tão repetida­
mente mencionado no Novo Testamento. Mateus, Marcos, Lucas e João
referem-se todos a esse prodígio. É evidente que esse acontecimento
tem por intuito receber a nossa mais especial atenção. Observemo-lo,
pois, com atenção e vejamos o que podemos aprender.
Em primeiro lugar, esse milagre é uma prova incontestável do
poder divino de nosso Senhor. Satisfazer a fome de mais de cinco mil
pessoas, contando apenas com cinco pães e dois peixes, é algo mani­
festamente impossível sem uma multiplicação sobrenatural. Era algo
que nenhum mágico, impostor ou falso profeta teria jamais intentado
fazer. Um impostor poderia simular a cura de um doente ou a ressus-
citação de um morto, e, com truques e enganos, talvez conseguisse iludir
as pessoas mais simples. Mas nenhum impostor tentaria realizar uma
obra tão grande quanto esta que está aqui registrada. Saberia perfeita­
mente bem que não poderia persuadir dez mil pessoas de que elas estavam
satisfeitas, quando, na realidade, continuavam famintas. Ele seria des­
mascarado no mesmo instante.
Não obstante, essa foi a poderosa obra que nosso Senhor realmente
Mateus 14.13-21 109

concretizou, através da qual deu provas conclusivas de que era Deus.


Ele fez existir, do nada, pães e peixes já preparados; comida verdadeira,
que se podia ver e tocar, o bastante para satisfazer dez mil pessoas,
a partir de uma quantidade que mal seria suficiente para cinco pessoas.
Sem dúvida, estaríamos cegos se não percebêssemos nesse aconteci­
mento a mão dAquele que “ dá alimento a toda carne” e que fez o mundo
e tudo quanto nele existe. O poder de criar é uma prerrogativa exclu­
siva de Deus.
Precisamos nos apegar firmemente a passagens como esta. Te­
mos a obrigação de entesourar na mente cada evidência do poder divino
de nosso Senhor. O homem não convertido, frio e ortodoxo, talvez veja
bem pouco neste relato. Mas, o verdadeiro crente deveria guardá-lo
em sua memória. Que o crente medite sobre este mundo, o diabo e o
seu próprio coração, e aprenda a agradecer a Deus pelo fato do Sal­
vador, o Senhor Jesus Cristo, ser todo-poderoso.
Em segundo lugar, este milagre é um notável exemplo da com­
paixão de nosso Senhor para com os homens. Ele viu uma multidão
em um lugar deserto, quase a desmaiar de fome. Ele sabia que muitos
dentre eles não tinham verdadeira fé e nem amor para com Ele. Seguiam-
-No meramente por curiosidade ou por costume, ou, então, por algum
outro motivo igualmente inferior (Jo 6.26). Mas nosso Senhor teve com­
paixão de toda aquela gente. Todos foram saciados. Todos participaram
do alimento miraculosamente providenciado. Todos “ comeram e se far­
taram” , e ninguém foi embora faminto.
Notemos o bondoso coração de nosso Senhor Jesus Cristo,
volvendo-se para os pecadores. Desde os dias da antiguidade Ele con­
tinua sempre o mesmo: “ Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente
e longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34.6). Ele
não trata com os homens de acordo com os pecados deles, e nem re­
tribui à medida das iniqüidades de cada um. Mesmo aos seus próprios
inimigos Ele cumula de benefícios. Por isso, ninguém será tão indes­
culpável no dia do juízo quanto aqueles que forem achados impenitentes.
A bondade do Senhor conduz ao arrependimento (Rm 2.4). Em todo
o seu relacionamento com os homens no mundo, Jesus mostrou “ ter
prazer na misericórdia” (Mq 7.18). Que nos esforcemos por ser se­
melhantes a Ele. Escreveu Quesnel: “ Deveríamos ter abundância de
piedade e compaixão para com as almas enfermas” .
Em último lugar, este milagre é uma vívida ilustração da sufi­
ciência do evangelho para satisfazer as necessidades da alma de toda
humanidade. Todos os milagres de nosso Senhor, sem dúvida, têm algum
significado figurativo profundo e ensinam grandes verdades espirituais.
No entanto, devemos tratá-los com reverência e discrição. E preciso
110 Mateus 14.13-21

tomar cuidado para não fazer como muitos dos antigos mestres, que
viam alegorias até mesmo onde não fora esse o intuito do Espírito Santo.
Contudo, se existe um milagre que, além do seu sentido literal, também
tem um sentido figurado bem manifesto, é justamente desse milagre
que estamos tratando — o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.
O que a multidão faminta em um lugar deserto representa para
nós? Ela simboliza a humanidade inteira. Os filhos dos homens for­
mam uma gigantesca companhia de pecadores que estão perecendo,
famintos em meio a um mundo hostil, desamparados, caminhando sem
qualquer esperança rumo à destruição. Todos nós nos desgarramos, como
ovelhas perdidas (Is 53.6). Por natureza, estamos longe, muito longe
de Deus. Nossos olhos não podem perceber toda a extensão do perigo
que corremos. A realidade de cada ser humano é como diz a Bíblia:
“ Tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3.17). Entre
nós e a perdição eterna só existe um passo.
O que representam os pães e peixes? Pareciam tão inadequados
para satisfazer à necessidade do momento; mas, por meio de um mi­
lagre, tornaram-se suficientes para alimentar cerca de dez mil pessoas!
Eles são como que figuras da doutrina de Cristo crucificado em favor
de pecadores, como Substituto vicário, que pela sua morte fez expiação
pelos pecados. Para o homem natural, essa doutrina parece ser a de­
bilidade em pessoa. Cristo crucificado era para os judeus uma pedra
de tropeço, e para os gregos loucura (1 Co 1.23). No entanto, Cristo
crucificado tem demonstrado ser o pão de Deus, que desceu do céu para
dar vida ao mundo (Jo 6.33). A história da cruz tem satisfeito ampla­
mente as necessidades espirituais do homem, em todo lugar onde tem
sido pregada. Milhares de pessoas, de todas as classes sociais, idade
ou nacionalidade são testemunhas de que o evangelho é o “ poder de
Deus e sabedoria de Deus” (1 Co 1.24). Todos esses têm provado do
pão da vida e têm sido saciados. Eles têm descoberto que Jesus é “ ver­
dadeira comida” e “ verdadeira bebida” (Jo 6.55).
Meditemos demoradamente sobre estas verdades. Há grande pro­
fundidade em todos os atos de nosso Senhor Jesus Cristo que ficaram
registrados, e que ninguém, até hoje, conseguiu sondar devidamente.
Há tesouros de rica instrução em todas as suas palavras e procedimen­
tos que ninguém ainda explorou completamente. Muitas passagens dos
evangelhos são como a nuvem que o servo de Elias viu (1 Rs 18.44).
Quanto mais as examinamos, tanto maiores e importantes elas nos pa­
recem. Nas Escrituras Sagradas há uma plenitude inexaurível. Outros
escritos parece que se tornam triviais quando nos familiarizamos com
eles. Mas, em relação à Bíblia, quanto mais a lemos, mais rica ela se
torna para nós.
Mateus 14.22-36 111

Cristo Anda Sobre o Mar


Leia Mateus 14.22-36

O relato contido nestes versículos reveste-se de singular interesse.


O milagre aqui registrado demonstra o caráter de Jesus Cristo quanto
ao seu povo. O poder e misericórdia do Senhor Jesus e a mistura de
fé e incredulidade, que caracteriza até os seus melhores discípulos, são
maravilhosamente ilustrados.
Em primeiro lugar, com este milagre aprendemos sobre o abso­
luto domínio que nosso Salvador tem sobre todas as coisas criadas.
Vemos Jesus “ andando por sobre o mar” como se estivesse caminhando
em terra seca. As ondas agitadas, que jogavam o barquinho dos dis­
cípulos de lá para cá, obedeceram ao Filho de Deus e tomaram-se sólidas
debaixo de seus pés. Aquela superfície líquida, que se agitava ao menor
sopro de vento, sustentava os pés de nosso Redentor como se fosse uma
rocha. Para as nossas pobres e débeis mentes, o acontecimento todo
é incompreensível. A cena de dois pés andando sobre a superfície do
mar, segundo nos informa Doddridge, era o símbolo de algo impossível
para os egípcios. O cientista nos dirá que é uma impossibilidade física
um corpo material de carne e osso andar sobre a água. Para nós, en­
tretanto, basta-nos saber que assim sucedeu. Basta-nos lembrar que,
para Ele que criou os mares no princípio, deve ter sido perfeitamente
fácil caminhar sobre as ondas, quando Ele assim o quis.
Há aqui encorajamento para todos os verdadeiros cristãos. Que
os crentes saibam que não existe nenhuma coisa criada que não esteja
sujeita ao controle de Cristo. Todas as coisas servem juntamente ao
Senhor. Ele pode permitir que o seu povo seja submetido a teste por
algum tempo, atirado para um lado e para outro pelo temporal das tri­
bulações. E possível que Ele venha em socorro deles mais tarde do que
gostariam, já “ na quarta vigília da noite” . Entretanto, que os crentes
jamais se esqueçam que os ventos, as ondas e os temporais são todos
servos de Cristo. Nada acontece sem a permissão de Cristo. “ O Senhor
nas alturas é mais poderoso do que o bramido das grandes águas, do
que os poderosos vagalhões do mar” (SI 93.4). Porventura, sentimo-
-nos alguma vez tentados a clamar, como fez Jonas: “ A corrente das
águas me cercou; todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram por cima
de mim” (Jn 2.3). Lembremo-nos de que as ondas pertencem a Ele.
Esperemos com paciência. Talvez ainda possamos contemplar Jesus vindo
em nossa direção e “ andando por sobre o mar” .
Em segundo lugar, aprendemos com esse milagre o poder que
112 Mateus 14.22-36

Jesus pode conferir aos que nEle confiam. Vemos Simão Pedro saindo
do barco e andando sobre as águas, à semelhança de seu Senhor. Que
prova maravilhosa da divindade de nosso Senhor! Caminhar sobre as
águas, Ele mesmo, já fora um tremendo milagre. Mas, capacitar um
pobre e fraco discípulo a fazer o mesmo foi milagre maior ainda.
Existe um profundo significado nesta parte da narrativa. Ela nos
mostra quão grandes coisas nosso Senhor pode fazer pelos que ouvem
a sua voz e O seguem. Ele pode capacitá-los a realizarem coisas que
antes pensariam ser impossíveis. Ele pode conduzi-los através de difi­
culdades e tribulações que, sem Ele, jamais ousariam enfrentar. Ele
pode outorgar-lhes forças para caminhar por meio do fogo e da água
sem qualquer dano, triunfando em meio à adversidade. Moisés no Egito,
Daniel na Babilônia, os santos da casa de Nero, todos são exemplos
do seu imenso poder. Se estamos servindo a Cristo, não tenhamos te­
mor de nada! As águas podem parecer profundas. Mas, se Jesus nos
diz: “ Vinde!” , não temos razão para temer. “ Aquele que crê em mim,
fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará” (Jo 14.12).
Em terceiro lugar, aprendemos quantas tribulações os discípulos
de Cristo atraem contra si mesmos por falta de fé. Por algum tempo
vemos Pedro andando corajosamente por sobre as águas. Todavia, ao
prestar atenção “ na força do vento” , deixa-se invadir pelo medo e co­
meça a afundar. A fraqueza da carne prevalece sobre o desejo do espírito.
Pedro esquece das maravilhosas provas que há pouco presenciara da
bondade e do poder de seu Senhor. Ele não considerou que o mesmo
Salvador, que o capacitara a dar o primeiro passo, era poderoso para
sustentá-lo para sempre. Não refletiu que agora estava mais perto de
Cristo do que quando dera o primeiro passo. O medo ofuscou-lhe a
memória. O temor confundiu-lhe o raciocínio. Ele não pensava em mais
nada, senão no vento, nas ondas e em seu perigo imediato; e a sua fé
retrocedeu: “ Salva-me, Senhor!”
Quão vívido é o quadro que encontramos aqui sobre a experi­
ência de tantos crentes! Quantas pessoas têm fé suficiente para dar o
primeiro passo em direção à Cristo, mas não têm fé suficiente para se­
guir em frente! Assustam-se diante das provações e dos perigos que
parecem postar-se no caminho. Eles olham para os inimigos que os cir­
cundam, bem como para as dificuldades que parecem cercá-los na
caminhada. Prestam mais atenção às circunstâncias do que a Jesus e,
imediatamente, começam a afundar. O seu coração desmaia. As suas
esperanças dissipam-se. O seu ânimo desaparece. E por que tudo isso?
Cristo ainda é o mesmo! Os inimigos dos cristãos não são maiores agora
do que o foram no passado. Isto acontece por que, como Pedro, os cren­
tes deixam de olhar para Jesus e, assim, dão lugar à incredulidade.
Mateus 14.22-36 113

Deixam-se dominar pelo pensamento acerca de seus adversários, ao invés


de pensarem a respeito de Cristo. Que nós guardemos no coração este
ensinamento e assim aprendamos a sabedoria.
Em último lugar, aprendamos quão misericordioso é o Senhor
Jesus Cristo para com os crentes fracos. Vemo-lo prontamente a esten­
der a mão para salvar Pedro, tão logo este lhe pediu socorro. Jesus não
deixa que Pedro colha o fruto da sua própria incredulidade e afunde
nas águas profundas. Parece que todo o empenho de Jesus é considerar
as dificuldades de Pedro e salvá-lo imediatamente. A reprovação é mo­
derada e gentil: “ Homem de pequena fé, por que duvidaste?”
Observe na conclusão deste milagre, a enorme mansidão e be­
nignidade de Cristo. Ele pode tolerar muito e perdoar muito, quando
vê a verdadeira graça divina operando no coração de um homem. As­
sim como a mãe trata gentilmente seu filho, e não o rejeita por causa
de seus pequenos caprichos e petulâncias, assim também o Senhor Je­
sus trata com ternura o seu povo. Ele já amava e se compadecia de seu
povo antes mesmo da conversão; e depois da conversão Ele ama e se
compadece ainda mais. Jesus reconhece as debilidades daqueles que
lhe pertencem, demonstrando grande paciência para com eles. Ele quer
que saibamos que a dúvida não prova que uma pessoa não tem fé, mas
somente que essa fé é pequena. Mas, mesmo quando a nossa fé é pe­
quena, o Senhor está sempre pronto para ajudar-nos. “ Quando eu digo:
Resvala-me o pé, a tua benignidade, Senhor, me sustém” (SI 94.18).
Em tudo isso há muitas razões que encorajam a servir a Cristo!
Quem pode ter receio de iniciar a carreira cristã, tendo um Salvador
como o Senhor Jesus? Se cairmos, Ele nos reerguerá. Se errarmos, Ele
nos trará de volta ao reto caminho. A misericórdia de Jesus jamais se
apartará completamente de nós. Ele tem dito: “ De maneira alguma te
deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5). Ele cumprirá a sua
palavra. Que tão-somente nos lembremos de que, embora não despre­
zemos a pequena fé, não devemos cruzar os braços e estar contentes
com ela. A nossa oração sempre deveria ser: “ Senhor, aumenta-nos
a fé” (Lc 17.5).

A Hipocrisia dos Escribas e Fariseus;


O Perigo das Tradições
Leia Mateus 15.1-9

Temos nestes versículos um diálogo entre nosso Senhor Jesus


Cristo e certos escribas e fariseus. À primeira vista, o assunto pode
114 Mateus 15.1-9

parecer de pouco interesse para os dias de hoje. Mas muito pelo con­
trário, os princípios dos fariseus são princípios que não morrem. Nesta
conversa há verdades de profunda importância.
Antes de tudo, aprendemos que os hipócritas geraimente dão
grande importância a coisas meramente exteriores. A denúncia desses
escribas e fariseus é uma notável ilustração desse pormenor. Eles trou­
xeram uma acusação contra os discípulos. Porém, qual era a natureza
dessa acusação? Não era um problema de cobiça ou justiça-própria, nem
acusação de falsidade ou falta de caridade da parte dos discípulos. Nem
tampouco era que eles tivessem desobedecido a qualquer princípio da
lei de Deus. A acusação era: “ Por que transgridem os teus discípulos
a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem” . Os
discípulos não estavam observando uma regra de alguma mera autori­
dade humana, que algum judeu antigo havia inventado! Nisso consistia
toda a gravidade da ofensa!
Acaso vemos algo do espírito dos fariseus nos dias de hoje? In­
felizmente, vemos demais dessa atitude. Existem milhares de assim
chamados “ cristãos” que parecem não se importar com a religião do
seu próximo, desde que possam concordar quanto às questões externas.
O vizinho adota uma forma de culto igual à deles? Pode esse vizinho
imitar o seu falar e comentar um pouco acerca de suas doutrinas fa­
voritas? Se ele pode, estão satisfeitos, mesmo que não haja evidência
de ele ser convertido. Se ele não pode, estão sempre achando defeitos
e não podem falar dele amistosamente, muito embora ele possa estar
servindo a Cristo melhor do que eles mesmos. Tenhamos muito cui­
dado com tal atitude. Ela é a essência da hipocrisia. Que o nosso princípio
seja o seguinte: “ O reino de Deus não é comida nem bebida, mas jus­
tiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).
Em seguida, aprendemos, com base nestes versículos, que é
grande o perigo para quem tenta acrescentar qualquer coisa à Palavra
de Deus. Sempre que alguém decide fazer qualquer adição à Bíblia,
provavelmente acabará valorizando mais as suas próprias adições do
que as Escrituras.
Vemos este ponto grandemente destacado na resposta de nosso
Senhor à acusação dos fariseus contra os discípulos. Ele diz: “ Por que
transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa
tradição?” Jesus combate ousadamente todo o sistema de se fazer acrés­
cimos à perfeita Palavra de Deus, como se algo mais fosse necessário
para a salvação. Ele desmascara a tendência malévola desse sistema,
citando um exemplo. Ele mostra como as vangloriosas tradições dos
fariseus na realidade estavam destruindo a autoridade do quinto man­
damento. Em suma, Jesus declara a grande verdade que jamais deveria
Mateus 15.1-9 115

ser esquecida, de que há uma tendência inerente em todas as tradições


de invalidar a Palavra de Deus (v. 6). É possível que os autores de
tais tradições não tivessem por escopo tal resultado. Talvez as suas in­
tenções tivessem sido puras. Mas a doutrina de Cristo, evidentemente,
é que em todas as normas religiosas de autoridade meramente humana
existe uma tendência em usurpar a autoridade da Palavra de Deus. Bu-
cer fez uma observação solene: “ Raramente se encontrará um homem
que, prestando atenção excessiva às invenções humanas no campo da
religião, não acabe depositando maior confiança nelas do que na graça
de Deus” .
Não temos nós visto provas melancólicas desta verdade, no de­
curso da história da igreja de Cristo? Infelizmente, já vimos provas em
demasia. Conforme diz Baxter: ‘‘Os homens pensam que as leis de Deus
são por demais numerosas e estritas; e, no entanto, ainda fazem outras
leis, sendo meticulosos em cumpri-las” . Já não tivemos ocasião de ler
como alguns têm exaltado cânones, dogmas e leis eclesiásticas muito
acima da Palavra de Deus, punindo a desobediência a essas regras com
maior severidade do que a pecados notórios como o alcoolismo e o ju­
rar em vão? Já não ouvimos falar da extravagante importância com que
a igreja de Roma considera os votos monásticos e de celibato, a ob­
servância de festas e jejuns? Parece que tais coisas recebem muito maior
importância do que os deveres para com a família e o cumprimento dos
dez mandamentos? Já não ouvimos falar de pessoas que se preocupam
mais em não comer carne na quaresma do que com a vida imoral ou
o assassinato? Em nosso próprio país, acaso não observamos como tan­
tos parecem fazer o denominacionalismo o assunto mais importante do
cristianismo e consideram a assim chamada “ membresia” na igreja como
uma matéria de muito maior peso do que o arrependimento, a fé, a san­
tidade e as graças do Espírito Santo?
Estas são perguntas que só podem receber uma única e triste res­
posta. O espírito dos fariseus ainda está vivo, mesmo depois de quase
vinte séculos se terem passado. A disposição de invalidar a Palavra de
Deus, por meio de tradições humanas, encontra-se não somente entre
judeus, mas igualmente entre cristãos evangélicos. A tendência de, na
prática, exaltar invenções humanas acima da Palavra de Deus, continua
prevalecendo de uma maneira temerária. Que nós possamos vigiar e
estar precavidos contra tal tendência. Lembremo-nos de que nenhuma
tradição ou instituição religiosa de feitura humana poderá jamais
desculpar-nos pela negligência de determinados deveres, e nem justi­
ficar a desobediência a qualquer mandamento explícito da Palavra de
Deus.
Alicerçados nestes versículos podemos aprender, em último lugar,
116 Mateus 15.1-9

que a adoração religiosa que Deus deseja é a adoração no intimo, que


parte do coração. Podemos perceber isso através da citação que nosso
Senhor faz do livro de Isaías: “ Este povo honra-me com os lábios, mas
o seu coração está longe de mim” (Is 29.13).
O coração é a questão central no relacionamento entre marido
e mulher, entre amigo e amigo, entre pai e filho. O coração deve ser
o ponto principal em todas as relações entre Deus e a alma. Qual a pri­
meira coisa de que precisamos para sermos crentes? Um novo coração.
Qual o sacrifício que Deus nos pede para trazer-nos a Ele? Um coração
quebrantado e contrito. O que é a verdadeira circuncisão? A circuncisão
do coração. O que é obediência genuína? É obediência de coração. O
que é fé salvadora? É crer de todo o coração. Onde Cristo deveria habi­
tar? Em nossos corações, pela fé. Qual a principal petição que a Sabedoria
faz a cada pessoa? “ Dá-me, filho meu, o teu coração” (Pv 23.26).
Ao concluirmos o estudo desta passagem, façamos uma auto-
-averiguação honesta do estado de nosso próprio coração. Deixemos
perfeitamente estabelecido, em nossa mente, que toda e qualquer ado­
ração formal a Deus, seja em público ou em particular, será totalmente
inútil se o coração estiver longe de Deus. Os joelhos dobrados, a ca­
beça abaixada, os améns em voz alta, o capítulo lido diariamente, a
freqüência regular à Ceia do Senhor — tudo isso é em vão e sem pro­
veito se nossos afetos estiverem presos ao pecado, aos prazeres, ao
dinheiro ou ao mundo. A pergunta de nosso Senhor Jesus Cristo precisa
ser respondida de maneira satisfatória, antes que possamos ser salvos.
Ele indaga a cada um de nós: “ Tu me amas?” (Jo 21.17).

Os Falsos Mestres;
O Coração é a Fonte do Pecado
Leia Mateus 15.10-20

Há duas notáveis declarações do Senhor Jesus nesta passagem.


Uma diz respeito às falsas doutrinas. A outra refere-se ao coração hu­
mano. Ambas merecem a nossa mais plena atenção.
No que concerne às falsas doutrinas, nosso Senhor declarou que
é nosso dever nos opormos a elas, que a sua destruição final está as­
segurada, e que os seus mestres deveriam ser abandonados. Ele diz:
“ Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada. Deixai-
-os...”
Examinando esta passagem, torna-se evidente que os discípulos
ficaram surpresos com a linguagem forte usada por nosso Senhor, contra
Mateus 15.10-20 117

os fariseus e suas tradições. Mui provavelmente os discípulos estavam


acostumados, desde a meninice, a pensar nos fariseus como os mais
sábios e mais excelentes dentre os homens. Portanto, ficaram atônitos
ao ouvirem o Mestre denunciá-los como hipócritas e transgressores dos
mandamentos de Deus. “ Sabes que os fariseus se escandalizaram?” ,
disseram os discípulos a Jesus. Em resposta a essa indagação, temos
uma declaração explanatória de nosso Senhor; uma declaração que tal­
vez nunca tenha recebido a atenção que merece.
O sentido claro das palavras de Jesus foi que as falsas doutrinas,
como as que eram ensinadas pelos fariseus, são como uma planta para
a qual não se deve demonstrar nenhuma misericórdia. Elas são uma
planta que o “ Pai celestial não plantou” , e que deve ser arrancada,
não importa a ofensa que isso venha a causar. Não seria caridade poupá-
-la, pois é prejudicial à alma humana. O fato de ter sido plantada por
homens importantes ou instruídos de nada importava. Se tais ensina­
mentos contradizem a Palavra de Deus, deveriam sofrer oposição, ser
refutados e rejeitados. Os discípulos de Cristo, portanto, precisam en­
tender que é justo resistir a todo e qualquer ensinamento que não provenha
das Escrituras, isolando e abandonando os instrutores que persistem
no erro. Cedo ou tarde, haveriam de descobrir que toda doutrina falsa
será totalmente desarraigada e lançada ao opróbrio; e não ficará de pé
senão aquilo que tiver sido fundamentado sobre a Palavra de Deus.
Nesta afirmação de nosso Senhor, há lições de profunda sabe­
doria, que servem para projetar luz sobre o dever dos que se professam
cristãos. Examinemos de perto essas lições, para ver o que temos a apren­
der. Foi a obediência prática a essa declaração que produziu a bendita
Reforma Protestante. As suas lições merecem cuidadosa atenção.
Não enxergamos aqui o dever de resistir corajosamente a todo en­
sinamento falsol Sem dúvida que sim. Nenhum receio de escandalizar,
nenhum temor de censura eclesiástica deveria fazer-nos manter a paz en­
quanto a verdade de Deus estiver sendo ameaçada. Se somos verdadeiros
seguidores de nosso Senhor, deveríamos ser corajosos na denúncia, como
testemunhas inflexíveis contra o erro. Alguém disse que “ a verdade
não deve ser suprimida por serem os homens ímpios e cegos” .
Vemos, novamente, o dever de abandonar os falsos mestres, se
não desistem de suas doutrinas distorcidas? Sem sombra de dúvida!
Nenhuma falsa cortesia, nenhuma humildade hipócrita deveria impedir-
-nos de nos retirarmos para longe dos ensinamentos de qualquer pregador
que contradiga a Palavra de Deus. Corremos perigo se nos submetemos
a ensinamentos não bíblicos. O nosso sangue será sobre as nossas próprias
cabeças. Nas palavras de Whitby: “ Nunca será certo seguir um cego
e cair com ele no barranco” .
118 Mateus 15.10-20

Em último lugar, não vemos o dever de exercemos paciência


quando da multiplicação dos ensinamentos falsos! Podemos consolar-
-nos diante do fato que esses ensinos falsos não durarão muito. O próprio
Deus defenderá a causa da verdade. Mais cedo ou mais tarde toda e
qualquer heresia será arrancada pela raiz. Não devemos lutar com ar­
mas carnais; pelo contrário, devemos esperar e pregar, protestar e orar.
Mais cedo ou mais tarde, como disse Wycliffe, “ a verdade haverá de
prevalecer” .
Com respeito ao coração do homem, nosso Senhor declara, nes­
tes versos, que o coração é a verdadeira fonte de todo pecado e
contaminação. Os fariseus ensinavam que a santidade dependia de co­
midas e bebidas, da lavagem do corpo e purificações. Eles afirmavam
que todos quantos obedeciam a essas tradições eram puros e limpos aos
olhos de Deus, e que todos quantos as negligenciavam eram impuros
e pecaminosos. Nosso Senhor derrubou por terra essa miserável dou­
trina, ao mostrar que a verdadeira fonte de toda contaminação não estava
fora, mas, sim, dentro do homem. “ Do coração procedem maus desíg­
nios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos,
blasfêmias. São estas as cousas que contaminam o homem” . Quem quer
servir a Deus corretamente, precisa de algo muito mais importante do
que a simples lavagem do corpo. É preciso buscar um coração puro.
Que pavoroso quadro da natureza humana encontramos aqui, e
exposto por Aquele que realmente sabe o que existe no homem! Que
horrível catálogo daquilo que se oculta em nosso interior! Que melan­
cólica lista de sementes do mal nosso Senhor desmascarou, sementes
profundamente arraigadas em cada um de nós e sempre prontas a se
manifestarem vivas, a todo instante! O que podem dizer os orgulhosos
e os justos a seus próprios olhos, quando lêem uma passagem como
esta? Este não é o retrato do coração de algum ladrão ou assassino.
É uma descrição fiel e verdadeira do coração de toda humanidade. Que
Deus nos permita ponderar bem esta lição e aprender a sabedoria.
Que para nós seja uma resolução bem firmada, que o estado do
nosso coração será o ponto principal em toda a nossa religião. Que ja­
mais nos contentemos em apenas freqüentar uma igreja e cumprir com
as formalidades externas. Que procuremos por algo muito mais profundo,
com o desejo de possuir um coração “ reto diante de Deus” (At 8.21).
Um coração reto é aquele que foi aspergido com o sangue de Cristo,
renovado pelo Espírito Santo, e purificado por meio da fé. Que não
descansemos, enquanto não encontrarmos dentro de nós o testemunho
do Espírito, de que Deus tem criado em nós um coração limpo e de
que todas as coisas se fizeram novas (SI 51.10; 2 Co 5.17).
Finalmente, que tomemos a inflexível resolução de guardar o co­
Mateus 15.10-20 119

ração com toda a diligência, todos os dias de nossa vida (Pv 4.23). Mesmo
depois de ter sido renovado, nosso coração é fraco. Ele é enganoso,
mesmo depois que nos revestimos do novo homem. Nunca nos esque­
çamos de que o perigo principal vem de dentro. O mundo e o diabo,
juntos, não podem nos causar tanto dano quanto o nosso próprio co­
ração, se não vigiarmos e orarmos. Bem-aventurado é quem se lembra
diariamente das palavras de Salomão: “ O que confia no seu próprio
coração é insensato” (Pv 28.26).

A Mãe Cananéia
Leia Mateus 15.21-28

Outro milagre de nosso Senhor está registrado nestes versículos.


As circunstâncias que o cercam são peculiarmente interessantes, e va­
mos examiná-las em ordem. Cada palavra, nesta narrativa, reveste-se
de ricas instruções.
Primeiramente, vemos que a verdadeira fé pode às vezes ser en­
contrada onde menos poderia ser esperada. Uma mulher cananéia clama
a nosso Senhor, pedindo ajuda em favor de sua filha. “ Senhor, Filho
de Davi, tem compaixão de mim! ” Se essa mulher vivesse em Betânia
ou Jerusalém, uma tal petição já teria demonstrado grande fé. Mas,
quando descobrimos que ela vinha dos “ lados de Tiro e Sidom” , uma
oração assim bem pode encher-nos de surpresa. Isso nos deveria en­
sinar que é a graça de Deus e não o local que faz uma pessoa tomar-se
crente. Podemos viver na família de um profeta, como sucedeu com
Geazi, servo de Eliseu, e ainda continuar incrédulos e enamorados do
mundo. Podemos residir em meio à superstição e obscura idolatria, como
a menina escrava na casa de Naamã, e ainda sermos testemunhas fiéis
de Deus e de seu Cristo. Não nos desesperemos em relação à alma de
alguém, somente porque se encontra em uma situação desfavorável.
É possível viver na costa de Tiro e Sidom e, ainda assim, ter um lugar
no reino de Deus.
Em segundo lugar, vemos que a aflição às vezes demonstra ser
uma bênção para a alma de uma pessoa. Aquela mãe cananéia sem
dúvida tinha sido severamente provada. Ela via sua filha querida ser
afligida por um demônio, sem poder ajudá-la. Mas essa tribulação ser­
viu para conduzi-la a Jesus Cristo e ensiná-la a orar. Não fosse por essa
aflição, ela poderia ter vivido e morrido em ignorância despreocupada,
sem jamais ter visto a Jesus. Certamente, foi bom para ela o ter sido
afligida (SI 119.71).
120 Mateus 15.21-28

Sublinhemos cuidadosamente esta verdade. Nada existe que de­


monstre tanto a nossa ignorância quanto a nossa impaciência na tribu­
lação. Esquecemo-nos de que cada cruz no caminho é uma mensagem
de Deus, designada para que, no fim, sejamos beneficiados. As pro­
vações são destinadas a nos fazer meditar, a desligar-nos deste mundo,
a conduzir-nos à Bíblia, a colocar-nos de joelhos diante de Deus. A
saúde é algo bom, mas a enfermidade é muito melhor, se nos aproxima
de Deus. A prosperidade é uma grande misericórdia divina; mas a ad­
versidade manifesta maior misericórdia, se nos leva até Cristo. Qualquer
coisa é melhor do que viver despreocupadamente e morrer em pecado.
Mil vezes melhor é sermos afligidos e fugirmos para Cristo, tal como
aquela mãe cananéia, do que viver tranqüilamente e por fim morrer
sem Cristo e sem esperança, como o “ louco” homem rico (Lc 12.20).
Em terceiro lugar, notamos que o povo de Cristo com freqüência
mostra-se menos misericordioso e compassivo do que Cristo. A mulher
acerca de quem estamos lendo não foi bem recebida pelos discípulos.
Talvez eles considerassem que uma habitante da costa de Tiro e Sidom
fosse indigna de receber ajuda da parte do Mestre. Seja como for, o
que disseram foi: “ Despede-a” .
Existe demais dessa atitude entre os que se professam crentes.
Muitos tendem por desencorajar os que estão buscando a Cristo, ao
invés de os ajudarem a prosseguir. Estão dispostos a duvidar da rea­
lidade da graça na vida de um principiante, por ser essa graça ainda
pequena, e prontos a tratá-lo como Saulo de Tarso foi tratado, quando
chegou a Jerusalém pela primeira vez, após sua conversão, “ não acre­
ditando que ele fosse discípulo” (At 9.26). Cuidemos para nunca darmos
lugar a essa atitude. Procuremos ter mais daquele mesmo sentimento
que houve também em Cristo Jesus (Fp 2.5). Assim como Ele, que nós
sejamos gentis, bondosos e encorajadores no modo de agir com aqueles
que estão buscando a salvação. Mas, acima de tudo, digamos continua­
mente aos homens que eles não deveriam julgar a Cristo com base nos
cristãos. Deixemos bem claro que existe muito mais no gracioso Mes­
tre do que nos melhores dentre os seus servos. Pedro, Tiago e João
podem dizer a alguma alma aflita: “ Despede-a” , mas tal palavra ja­
mais saiu dos lábios de Cristo. Ele pode, às vezes, deixar-nos esperando
por um longo tempo, conforme fez com aquela mulher. Porém, jamais
nos despedirá vazios.
Em último lugar, vemos quanto encorajamento existe para per­
severarmos em oração, por nós mesmos e por outras pessoas. É difícil
conceber uma ilustração mais apropriada dessa verdade do que esta que
se nos depara nesta passagem. A princípio, a oração dessa mãe aflita
parecia inteiramente despercebida. Jesus “ não lhe respondeu palayra” ,
Mateus 15.21-28 121

mas ela continuou rogando. A declaração que finalmente saiu dos lá­
bios de Jesus tinha um tom desencorajador: “ Não fui enviado senão
às ovelhas perdidas da casa de Israel” . Mesmo assim ela insistiu na
oração: “ Senhor, socorre-me!” A segunda declaração foi ainda menos
encorajadora do que a primeira: ‘‘Não é bom tomar o pão dos filhos
e lançá-lo aos cachorrinhos” . Mesmo apesar de ver adiada a sua es­
perança (Pv 13.12), ela imo permitiu adoecer o seu coração. Nem mesmo
depois disso a mulher silenciou. Mesmo assim, ela faz um apelo para
que algumas migalhas de misericórdia lhe sejam concedidas. A sua im­
portunação finalmente obtém uma recompensa graciosa: “ Ó mulher,
grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres” . A promessa nunca
falhou: “ Buscai, e achareis” (Mt 7.7).
Recordemo-nos dessa narrativa quando estivermos orando por nós
mesmos. Algumas vezes somos tentados a pensar que não obtemos qual­
quer proveito de nossas orações, e que seria melhor desistir totalmente.
Resistamos à tentação; ela vem do diabo. Que nós confiemos e conti­
nuemos orando! Contra os nossos pecados repetitivos, contra o espírito
mundano e contra as ciladas do diabo, que nós continuemos orando, sem
desanimar. Prossigamos em oração, pedindo forças para cumprir nossos
deveres, a graça para enfrentar as provações, e o consolo em cada situação
difícil. Estejamos bem certos de que nenhum outro tempo é melhor em­
pregado diariamente do que o tempo que passamos em oração. Jesus nos
ouve e, no tempo determinado por Ele, haverá de dar-nos a resposta.
Lembremo-nos deste relato, quando estivermos intercedendo por
outras pessoas. Temos filhos que desejamos ver convertidos? Temos
parentes e amigos que ansiamos ver salvos? Sigamos, então, o exemplo
desta mulher cananéia e apresentemos essas pessoas diante dEle noite
e dia, e não descansemos enquanto não obtivermos uma resposta. Pode
ser que tenhamos de esperar por longos anos. Pode parecer que estamos
orando em vão, e intercedendo sem qualquer proveito. Todavia, jamais
devemos desistir. Confiemos que Jesus não muda. Ele, que atendeu
àquela mãe cananéia e lhe concedeu o que pedia, também nos ouvirá,
e um dia nos dará uma resposta satisfatória e de paz.

Curas Miraculosas Feitas por Cristo


Leia Mateus 15.29-39

O início desta passagem contém três pontos que merecem a nossa


atenção especial. No momento, portanto, concentraremos a nossa atenção
sobre esses pontos.
122 Mateus 15.29-39

Em primeiro lugar, observemos como as pessoas fazem maiores


esforços para curar doenças físicas, do que para obter a cura de suas
almas. Lemos que as multidões vinham a Jesus “ trazendo consigo co­
xos, aleijados, cegos, mudos...” Muitos, sem dúvida, tinham viajado
muitos quilômetros e sofrido inúmeras fadigas. Poucas coisas são tão
difíceis e trabalhosas quanto movimentar pessoas enfermas. Porém, a
esperança da cura estava em vista e, para um homem doente, essa es­
perança é tudo.
Se nos admiramos pela conduta daquela gente, conhecemos bem
pouco da natureza humana. Não há razão alguma para admiração. Aque­
las pessoas sentiam que a saúde é a maior de todas as bênçãos terrenas.
Elas sentiam a dor, que para elas era a mais difícil de todas as provações
a suportar. Contra os sentimentos não há argumento. Uma pessoa sente
as suas forças irem-se esvaindo. Ela vê o seu corpo ir emagrecendo
e o seu rosto empalidecer. Percebe que o seu apetite está se acabando.
Resumindo, ela sabe que está doente e que precisa de um médico. Mostre-
-Ihe um médico que possa consultar e que tenha a fama de jamais ter
falhado, e tal pessoa irá a ele sem demora.
Entretanto, não nos esqueçamos de que as nossas almas estão
muito mais enfermas do que nossos corpos, e aprendamos uma lição
com base na conduta dessas pessoas. As nossas almas são afligidas por
uma enfermidade com raízes muito mais fundas, muito mais compli­
cadas, muito mais difíceis do que qualquer mal herdado pela carne. Na
verdade, nossas almas foram atacadas pela praga do pecado. É preciso
obter a cura, e cura eficaz e definitiva, do contrário, pereceremos para
sempre. Reconhecemos a veracidade desse fato? Sentimos essa reali­
dade? Estamos conscientes de nossa enfermidade espiritual? Infelizmente,
só há uma resposta possível para estas perguntas! A grande maioria
da humanidade não sente isso, de maneira nenhuma. Os seus olhos estão
cegos. Mostram-se totalmente insensíveis diante de seu grave perigo.
Para obter a saúde física, os homens lotam a sala de espera dos mé­
dicos. Em prol da saúde eles empreendem longas viagens para achar
um ar mais puro. Mas, quanto à saúde da alma, eles nem se preocupam.
Verdadeiramente feliz é o homem ou a mulher que já descobriu a en­
fermidade de sua alma! Essa pessoa não descansará enquanto não tiver
encontrado o Senhor Jesus. As dificuldades lhe parecerão insignifican­
tes, pois a vida, a própria vida eterna está em jogo. Considerará todas
as coisas como uma perda, contanto que possa ganhar a Cristo e ser
curada.
Em segundo lugar, notemos a maravilhosa facilidade e poder
com que nosso Senhor curava a todos os que lhe eram trazidos. Lemos
que “ o povo se maravilhou ao ver que os mudos falavam, os aleijados
Mateus 15.29-39 123

recobravam saúde, os coxos andavam e os cegos viam. Então glorifi­


cavam ao Deus de Israel” .
Observe, nestas palavras, um símbolo vivo do poder de nosso
Senhor Jesus Cristo para curar almas enfermas pelo pecado! Não existe
mal do coração que Cristo não possa curar. Não existe problema es­
piritual que Ele não possa vencer. A febre da concupiscência, a paralisia
do amor a este mundo, o vagaroso câncer da indolência e preguiça,
e a incredulidade, que é a doença do coração — todas, todas cedem
caminho quando Ele envia o seu Santo Espírito sobre uma pessoa, qual­
quer pessoa. Ele pode pôr nos lábios do pecador um novo cântico e
levá-lo a falar com amor daquele mesmo evangelho que antes ele ri­
dicularizava e contra o qual blasfemava. Ele pode abrir os olhos do
entendimento de um homem, para ver o reino de Deus. Cristo pode
abrir os ouvidos de um homem para torná-lo desejoso de ouvir a voz
de Cristo e segui-Lo por onde quer que Ele vá. Ele pode outorgar poder
espiritual ao homem, que antes prosseguia pelo caminho largo que con­
duz à perdição, para andar no caminho da vida. Ele pode fazer com
que as mãos que antes foram instrumentos do pecado, agora o sirvam
e façam a vontade dEle. O tempo dos milagres ainda continua. Cada
conversão é um milagre. Já testemunhamos um caso real de conversão?
Tenhamos a certeza de que nessa conversão vimos a mão de Cristo ope­
rando, Devemos entender que tal milagre não é menor do que se
tivéssemos visto nosso Senhor fazendo os mudos falarem ou os para­
líticos andarem, quando andava na terra.
Gostaríamos de saber o que fazer, se desejássemos ser salvos?
Sentimo-nos adoentados na alma e queremos ser curados? Só temos que
ir até Cristo pela fé, rogando o alívio de que precisamos. Ele não muda.
Vinte séculos não fazem diferença para Ele. Nas alturas, à direita de
Deus Pai, Ele continua sendo o grande Médico. Ele ainda “ recebe pe­
cadores” (Lc 15.2). Ele continua sendo poderoso para curar!
Em terceiro lugar, observemos a transbordante compaixão de
nosso Senhor Jesus Cristo. Lemos que, “ chamando Jesus os seus dis­
cípulos, disse: Tenho compaixão desta gente” . Um grande ajuntamento
de homens e mulheres é sempre uma visão solene. O fato de que cada
um é um pecador que está morrendo, e de que cada um tem uma alma
que precisa ser salva, deveria mover nosso coração. Parece que ninguém
jamais se sensibilizou tanto, diante de uma multidão reunida, quanto
o Senhor Jesus Cristo.
E um fato curioso e impressionante que, dentre todos os senti­
mentos experimentados por nosso Senhor quando Ele estava sobre a
terra, nenhum outro é tão freqüentemente mencionado quanto a sua com­
paixão. Sua alegria, tristeza, gratidão, ira, admiração e zelo — todos
124 Mateus 15.29-39

esses sentimentos ficaram registrados ocasionalmente. Entretanto, ne­


nhum deles é tão reiteradamente mencionado como a sua “ compaixão” .
Parece que o Espírito Santo desejava destacar para nós a característica
mais distintiva no caráter e o sentimento predominante na mente de Je­
sus, enquanto Ele esteve entre os homens. Nove vezes, sem contar outras
expressões nas parábolas — sim, nove vezes o Espírito Santo fez com
que a palavra “ compaixão” fosse escrita nos evangelhos.
Destaca-se algo de muito tocante e instrutivo nessa circunstância.
Nada ficou registrado por acaso na Palavra de Deus. Há uma razão espe­
cial para o uso de cada expressão em particular. A palavra “ compaixão’’,
sem dúvida, foi especialmente selecionada para nosso proveito. Ela de­
veria encorajar todos quantos hesitam em dar os primeiros passos nos
caminhos de Deus. O Salvador é cheio de “ compaixão” e os receberá
graciosamente. Ele perdoará gratuitamente. Nunca mais se lembrará
das iniqüidades passadas. Ele suprirá abundantemente todas as neces­
sidades. Não há motivo para temer; a misericórdia de Cristo é como
um poço profundíssimo, do qual ninguém jamais achou o fundo.
Isto deveria ser um consolo para os santos e servos do Senhor,
quando se sentem cansados. Que eles se recordem de que Jesus é cheio
de “ compaixão” . Ele sabe como é este mundo em que vivemos. Ele
conhece o corpo humano com todas as suas fragilidades. Ele conhece
os artifícios do inimigo, Satanás. O Senhor se compadece do seu povo.
Portanto, que nunca se sintam desanimados. Podem sentir que a debi­
lidade, o fracasso e a imperfeição estão estampados em tudo que fazem;
não obstante, nunca deveriam esquecer-se da palavra que diz: “ as suas
misericórdias não têm fim” (Lm 3.22).

A Inimizade dos Escribas e Fariseus;


E a Advertência Contra Eles
Leia Mateus 16.1-12

Nestes versículos encontramos nosso Senhor assediado pela in­


cansável inimizade dos fariseus e dos saduceus. Via de regra, essas duas
seitas tinham inimizade entre si. Mas quando resolveram perseguir a
Cristo, aliaram-se uma à outra. Essa foi, com certeza, uma aliança iníqua!
No entanto, quão freqüentemente vemos a mesma coisa acontecendo
nos nossos dias. Pessoas de hábitos e opiniões diametralmente opostas
concordam em detestar o evangelho e trabalham juntas para se opor
ao seu progresso. “ Nada há, pois, novo debaixo do sol” (Ec 1.9).
Nesta passagem bíblica, o primeiro assunto que merece a nossa
Mateus 16.1-12 125

atenção especial é a repetição que nosso Senhor faz de palavras por


Ele empregadas em uma ocasião anterior. Ele disse: ‘‘Uma geração
má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o
de Jonas” . Se voltarmos para Mateus 12.39, veremos que Jesus já ha­
via dito isso antes.
Essa repetição pode parecer, para alguns, algo superficial e sem
importância. Na verdade não é assim. A repetição ilumina um assunto
importante que tem deixado perplexos muitos sinceros estudiosos da
Bíblia, razão pela qual deve ser observada atentamente.
Essa reiteração nos mostra que nosso Senhor tinha o hábito de
dizer a mesma coisa mais de uma vez. Ele não se satisfazia em dizer
alguma coisa uma vez e nunca mais repeti-la. Está evidente que o seu
costume era mencionar certas verdades repetidamente, a fim de inculcá-
-las mais fundo na mente dos discípulos. Jesus sabia quão débil é nossa
memória para as coisas espirituais; Ele sabia que aquilo que ouvimos
duas vezes, lembramos melhor do que aquilo que ouvimos somente uma
vez. Ele trazia do seu depósito coisas novas e coisas velhas (Mt 13.52).
Ora, o que tudo isso nos ensina? Ensina-nos que não precisamos
nos esforçar tanto por harmonizar entre si as narrativas que lemos nos
quatro evangelhos, conforme muitos se dispõem a fazer. As declarações
de nosso Senhor que aparecem repetidas em Mateus e Lucas não tinham
necessariamente de terem sido proferidas numa mesma ocasião e os even­
tos a que essas declarações estão vinculadas não tinham de ser necessaria­
mente os mesmos. Mateus pode estar descrevendo um evento, ao passo
que Lucas pode estar descrevendo outro. Mesmo assim, as palavras
de nosso Senhor em ambas as ocasiões podem ter sido precisamente
as mesmas. A tentativa de fazer coincidir dois eventos em um só, por
causa da semelhança das palavras, com freqüência tem levado os estu­
diosos da Bíblia a caírem em grandes dificuldades. É muito mais seguro
defender o ponto de vista aqui exposto, de que em diferentes ocasiões
nosso Senhor muitas vezes empregou as mesmas palavras.
O segundo ponto que merece atenção é a solene advertência que
nosso Senhor oferece aos seus discípulos. Evidentemente ficou dorida
sua mente, por causa das falsas doutrinas que via entre os judeus e a
influência perniciosa que elas causavam. E aproveita a oportunidade
para exprimir uma palavra de admoestação: “ Vede, e acautelai-vos do
fermento dos fariseus e saduceus” . Observemos bem o conteúdo destas
palavras. A quem foi endereçado este aviso? Aos doze apóstolos, os
primeiros ministros da igreja de Cristo, homens que haviam abando­
nado tudo por amor ao evangelho! Até mesmo eles foram advertidos!
Os melhores dentre os homens não passam de homens, e a qualquer
momento podem cair em tentação. “ Aquele, pois, que pensa estar em
126 Mateus 16.1-12

pé, veja que não caia” (1 Co 10.12). Se amamos a vida e desejamos


ver dias felizes, jamais imaginemos que não precisamos desta advertên­
cia: “ Vede, e acautelai-vos!”
E contra o quê nosso Senhor adverte os seus apóstolos? Contra
a “ doutrina dos fariseus e saduceus” . Os fariseus, os evangelhos nos
dizem, eram formalistas e justos aos seus próprios olhos. Os saduceus
eram céticos, livres-pensadores ou com tendências pagãs. Até mesmo
Pedro, Tiago e João devem precaver-se contra tais doutrinas! Na re­
alidade, mesmo o melhor e mais santo de todos os crentes deve ficar
em guarda contra as falsas doutrinas!
Qual é o simbolismo usado por nosso Senhor para descrever as
falsas doutrinas, acerca das quais adverte os seus discípulos? Ele em­
prega a figura do “ fermento” . Tal como o fermento, essas doutrinas
podem parecer coisa pequena, em comparação com a totalidade das ver­
dades reveladas na Bíblia. Mas, tal como o fermento, uma vez admitidas,
elas ficariam operando em segredo e em silêncio, e modificariam gra­
dualmente todo o caráter da religião com a qual se misturassem. Quanta
significação está contida com freqüência em uma única palavra! Não
era apenas contra a heresia patente, mas contra o “ fermento” da he­
resia que os apóstolos deviam acautelar-se.
Existe muito em tudo isso que clama em alta voz pela atenção
cuidadosa de todo crente professo. A advertência de nosso Senhor, nesta
passagem, tem sido vergonhosamente negligenciada. Teria sido bom
para a igreja de Cristo se as advertências do evangelho tivessem sido
tão estudadas quanto as suas promessas.
Lembremo-nos de que essa afirmação de nosso Senhor, sobre
o “ fermento dos fariseus e saduceus” , visava a todos os séculos. Ela
não se destinava somente à geração que a ouviu pela primeira vez. Foi
designada para o perpétuo benefício da igreja de Cristo. Aquele que
a proferiu contemplava com visão profética a história futura do cristia­
nismo. O grande Médico sabia bem que as doutrinas dos fariseus e
saduceus seriam duas grandes enfermidades debilitadoras da igreja, até
ao fim do mundo. Ele queria que soubéssemos que sempre haverá fa­
riseus e saduceus nas fileiras do cristianismo. Nunca deixarão de ter
sucessores, e a sua descendência jamais se extinguirá. Eles podem to­
mar outros nomes, mas a atitude deles permanecerá. Por isso Cristo
nos diz: “ Vede, e acautelai-vos.”
Finalmente, que nós façamos uso pessoal dessa advertência, man­
tendo um santo ciúme de nossas próprias almas. Lembremos de que
vivemos em um mundo onde o farisaísmo e o saduceísmo estão con­
tinuamente esforçando-se por obter a primazia na igreja de Cristo. Alguns
desejam acrescentar algo, outros querem subtrair alguma coisa do evan­
Mateus 16.1-12 127

gelho. Alguns desejam sepultá-lo, enquanto outros tentam reduzi-lo a


nada. Alguns gostariam de sufocar o evangelho através de muitas adições,
enquanto outros querem sangrá-lo até a morte, ao subtrair-lhe as suas
verdades. Esses grupos concordam apenas quanto a uma questão: am­
bos desejam matar e destruir a vida do cristianismo, o que fatalmente
aconteceria se conseguissem prevalecer. Contra tais erros que nós vi­
giemos, oremos e estejamos em guarda permanente. Nada acrescentemos
nem retiremos ao evangelho, querendo agradar a falsos mestres mo­
dernos. Que o nosso lema seja “ a verdade, toda a verdade, e nada mais
que a verdade” — nada acrescentando e nada subtraindo à verdade.

A Nobre Confissão de Pedro


Leia Mateus 16.13-20

Nesta passagem da Bíblia há palavras que têm produzido dolo­


rosas diferenças e divisões entre os cristãos. Homens têm lutado e
contendido em tomo da sua significação, ao ponto de perderem de vista
todo o amor cristão, não sem conseguir convencer uns aos outros. Fa­
remos um rápido exame dessas palavras controvertidas, passando então
para mais lições práticas.
O que devemos entender quando lemos essa admirável afirma­
tiva de Jesus: “ Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” ?
Será que Pedro em pessoa seria o fundamento da igreja que Cristo es­
tava por edificar? Tal interpretação, para dizermos o mínimo, parece
extremamente improvável. Dizer que um falível e inseguro filho de Adão
se tomaria o alicerce do templo espiritual, não confere com a lingua­
gem geral das Sagradas Escrituras. Acima de tudo, não existe razão
por que o Senhor não poderia ter dito “ sobre ti edificarei a minha igreja’’,
se isso fora o que ele queria dizer, ao invés de ter dito: “ sobre esta
pedra...”
O verdadeiro sentido da palavra “ pedra” , nesta passagem, pa­
rece ser a verdade do messiado e da divindade de nosso Senhor que
Pedro acabara de reconhecer. É como se Jesus houvera dito: “ Com
toda a razão foste alcunhado de Pedro, ou pedra, porquanto confessaste
aquela verdade poderosa, sobre a qual, como sobre uma rocha, edifi­
carei a minha igreja” .
Porém, o que devemos compreender quando lemos a promessa
que nosso Senhor faz a Pedro: “ Dar-te-ei as chaves do reino dos céus” ?
Teriam conferido a Pedro o direito de admitir almas ao céu? Tal idéia
é ilógica, porque esse ofício é uma prerrogativa especial do próprio
128 Mateus 16.13-20

Jesus Cristo (Ap 1.18). Será, então, que Pedro deveria ter a primazia
ou superioridade sobre os demais apóstolos? Não há a menor prova de
que tal significado tivesse sido atribuído a essas palavras de Jesus, na
época neo-testamentária; nem há prova de que Pedro tivesse qualquer
autoridade ou dignidade superior aos demais apóstolos.
Parece-nos que o verdadeiro sentido dessa promessa feita por
Cristo é que Pedro teria o privilégio especial de abrir, pela primeira
vez, a porta da salvação tanto aos judeus como aos gentios. E isso
cumpriu-se à risca quando ele anunciou o evangelho aos judeus, no dia
de Pentecoste, e quando visitou o gentio Comélio em sua casa.
Em cada ocasião Pedro utilizou as “ chaves” e abriu completa­
mente a porta da fé. E, ao que tudo indica, Pedro tinha plena consciência
disso, pois afirmou: “ Deus me escolheu dentre vós para que, por meu
intermédio, ouvissem os gentios a palavra do evangelho e cressem”
(At 15.7).
Finalmente, o que devemos entender quando lemos: “ O que li­
gares na terra, terá sido ligado no céu; e o que desligares na terra, terá
sido desligado nos céus” ? Teria o apóstolo recebido algum poder de
perdoar pecados e absolver os pecadores? Tal noção tão-somente depre­
cia o ofício especial de Jesus Cristo como nosso grande Sumo Sacerdote.
Jamais encontramos Pedro, ou qualquer outro apóstolo, exercendo al­
gum poder de perdoar pecados. Eles sempre encaminhavam as pessoas
a Cristo, para o perdão.
O verdadeiro significado dessa promessa parece ser que Pedro e os
demais apóstolos seriam especialmente comissionados para ensinar o ca­
minho da salvação, com autoridade. Assim como os sacerdotes do Velho
Testamento declaravam autoritativamente quem havia sido curado da le­
pra, também os apóstolos foram nomeados para declarar e pronunciar
com autoridade, quem havia sido perdoado de seus pecados. Além disso,
eles seriam especialmente inspirados para estabelecer regras e regulamen­
tos para orientação da igreja. Algumas coisas deviam ser “ ligadas” ,
ou proibidas, e outras deviam ser “ desligadas” , ou permitidas. A decisão
do concílio de Jerusalém, de que os gentios não precisavam ser circun­
cidados, foi um exemplo do exercício desse poder (At 15.19). Mas, essa
foi uma comissão especialmente restrita aos apóstolos. Eles não tiveram
sucessores, essa tarefa começou e terminou com eles.
A respeito destas palavras controvertidas já dissemos o suficiente
para nossa edificação pessoal. Vamos agora deixá-las para trás, apenas
lembrando-nos de que, em qualquer sentido em que essas palavras se­
jam compreendidas, elas nada têm a ver com a igreja de Roma. A partir
de agora, voltaremos a nossa atenção para aqueles pontos que dizem
respeito mais diretamente às nossas almas.
Mateus 16.13-20 129

Em primeiro lugar, admiremos a nobre confissão do apóstolo


Pedro. Em resposta à pergunta de Jesus Cristo “ Quem dizeis que eu
sou?“ , Pedro afirma: “ Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” .
À primeira vista, um leitor descuidado nada poderá notar de re­
levante nestas palavras do apóstolo. Parece extraordinário que Pedro
recebesse tamanho elogio por sua resposta. Mas esse pensamento surge
da ignorância e falta de melhor ponderação. Os homens se esquecem
de que é imensamente diferente crer na missão divina de Cristo quando
estamos em meio aos crentes do que quando em meio a judeus empe­
dernidos e incrédulos. A glória da confissão de Pedro está no fato de
que ele a apresentou quando poucos estavam a favor de Cristo, e muitos
estavam contra Ele. Pedro fez a sua confissão quando os líderes reli­
giosos de sua própria nação, os escribas, os sacerdotes e os fariseus,
todos declaravam-se contrários ao Senhor Jesus. Ele fez a sua confissão
quando Jesus Cristo estava em “ forma de servo” (Fp 2.7), sem rique­
zas materiais, sem a dignidade real e sem nenhuma comprovação visível
de sua realeza. Fazer uma tal confissão, naquela altura dos aconteci­
mentos, requeria grande fé e grande firmeza de caráter. A própria
confissão, no dizer de Brentius, foi “ um resumo de todo o cristianismo,
e um compêndio da verdadeira doutrina religiosa” . Por isso nosso Se­
nhor disse: “ Bem-aventurado és, Simão Barjonas...”
Faríamos bem em imitar o zelo e afeição sinceros que Pedro exi­
biu, de todo o coração, nesse incidente. Talvez nos inclinemos por demais
em menosprezar este santo homem de Deus, por causa de sua ocasional
instabilidade e a tríplice negação ao Senhor Jesus. Mas isso é um grande
erro. Apesar de todas as suas faltas, Pedro era um servo fervoroso,
resoluto e sincero de Cristo. Apesar de todas as suas imperfeições, Pe­
dro nos deu um padrão que muitos crentes fariam bem em imitar. Um
zelo como o de Pedro talvez passe por momentos de hesitação, faltando-
-lhe o impulso de uma decisão mais firme. Um zelo como o de Pedro
pode ser mal orientado, e, algumas vezes, incorrer em equívocos. To­
davia, um zelo como o demonstrado por Pedro nunca deveria ser despre­
zado. Um zelo assim desperta os sonolentos, anima aos vagarosos e
leva outras pessoas à ação. Qualquer coisa é melhor do que a indolên­
cia, a momidão e o torpor, na igreja de Cristo. Quão mais feliz seria
o mundo cristão se contássemos com mais crentes parecidos com Pedro
e Martinho Lutero, e menos como Erasmo de Roterdã.
Em seguida, tenhamos certeza de haver compreendido o que nosso
Senhor quer dizer, quando fala sobre a sua igreja. A igreja que Jesus
prometeu edificar sobre a rocha é “ a bem-aventurada companhia de
todos os fiéis” . Não se trata da igreja organizada e visível em qualquer
nação, estado ou localidade. Pelo contrário, a igreja é um corpo, formado
130 Mateus 16.13-20

por crentes de todas as épocas, povos e línguas. Ela é composta por


todos quantos foram lavados no sangue de Cristo, que foram revestidos
da justiça de Cristo, renovados pelo Espírito de Cristo, unidos a Cristo
pela fé, sendo epístolas vivas de Cristo. É uma igreja onde todos os
membros são batizados no Espírito Santo, sendo real e verdadeiramente
santos. Essa igreja forma um corpo. Os que a ela pertencem estão uni­
dos em atitudes e pensamentos, defendem as mesmas verdades e creêm
nas mesmas doutrinas básicas da salvação. A igreja tem apenas uma
Cabeça que é o próprio Senhor Jesus Cristo. “ Ele é a cabeça do corpo,
da igreja...” (Cl 1.18).
Tenhamos muito cuidado para não errar quanto a este assunto.
Poucas palavras são tão mal compreendidas quanto o vocábulo “ igreja’’.
Poucos equívocos têm prejudicado tanto a causa da religião pura. A
ignorância quanto a isso tem servido de solo fértil para preconceitos,
sectarismo e perseguição. Os homens têm brigado e contendido acerca
de denominações, como se para ser salvo fosse necessário pertencer
a algum partido eclesiástico em particular, e como se pertencer a algum
desses partidos fosse sinônimo de pertencer a Cristo. Em todo esse tempo
eles têm perdido de vista a igreja única verdadeira, fora da qual não
existe salvação. A denominação a que pertencemos nada significará no
dia final, se não estivermos relacionados como membros da verdadeira
igreja dos eleitos de Deus.
Em último lugar, salientamos as gloriosas promessas feitas por
nosso Senhor à sua igreja. Ele diz: “ As portas do inferno não preva­
lecerão contra ela” . O significado dessa promessa é que o poder de
Satanás jamais destruirá o povo de Cristo. Aquele que introduziu o pe­
cado e a morte na primeira criação, ao tentar Eva, jamais introduzirá
ruína na nova criação, pela derrota dos crentes. O corpo místico de
Cristo jamais perecerá, nem decairá. Embora muitas vezes perseguida,
afligida, assediada e humilhada, a igreja jamais desaparecerá. Ela há
de sobreviver à ira de faraós e imperadores romanos. Uma igreja vi­
sível, como a de Éfeso, pode vir a desaparecer, mas, a igreja verdadeira
nunca morre. Tal como a sarça que Moisés viu, ela pode queimar, mas
nunca será consumida. Cada um dos seus membros será levado com
segurança à glória eterna. A despeito de quedas, fracassos e falhas, a
despeito do mundo, da carne e do diabo, nenhum membro da verda­
deira igreja perecerá (Jo 10.28).
Mateus 16.21-23 131

Pedro é Repreendido
Leia Mateus 16.21-23

No começo destes versículos, encontramos nosso Senhor reve­


lando a seus discípulos uma grande e espantosa verdade. A verdade
de sua morte na cruz, que se aproximava. Pela primeira vez, Ele apre­
senta o chocante anúncio de que deveria “ seguir para Jerusalém e sofrer
muitas coisas... ser morto” . Ele não viera a este mundo a fim de tomar
posse de um reino, e, sim, para morrer. Ele não tinha vindo para reinar
e ser servido, mas, sim, para derramar seu sangue como sacrifício e
dar a sua vida como resgate em favor de muitos.
Para nós, é quase impossível conceber quão estranha e incom­
preensível essa revelação deve ter parecido para os discípulos de Cristo.
Como a maioria dos judeus, eles não podiam conceber a idéia de um
Messias sofredor. Não compreendiam que o capítulo cinqüenta e três
de Isaías precisava ser cumprido literalmente. Não percebiam que to­
dos os sacrifícios da lei mosaica tinham por finalidade apontar para a
morte do verdadeiro Cordeiro de Deus. Em nada mais pensavam, senão
na vinda gloriosa do Messias, a qual ainda terá lugar, no fim do mundo.
Eles pensavam tanto na coroa do Messias que perderam de vista a sua
cruz. Fazemos bem em lembrar disto. Uma compreensão correta deste
fato derrama grande luz sobre as lições que esta passagem contém.
Em primeiro lugar aprendemos que pode haver muita ignorância
espiritual, mesmo em um verdadeiro discípulo de Cristo. Não podería­
mos obter prova mais clara disso do que na conduta do apóstolo Pedro
nessa ocasião. Ele tenta dissuadir nosso Senhor: “ Tem compaixão de
ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” . Pedro não era capaz
de perceber todo o propósito da primeira vinda do Senhor Jesus a este
mundo. Os olhos dele estavam cegos para a necessidade da morte de
nosso Senhor. Ele fez tudo quanto estava ao seu alcance para tentar
impedir a morte de Jesus! Não obstante, sabemos que Pedro era um
homem convertido. Ele cria verdadeiramente que Jesus era o Messias,
e seu coração era reto aos olhos de Deus.
Estas coisas têm por intuito nos ensinar que tanto não devemos
considerar bons homens como infalíveis, somente porque são bons, como
também não devemos supor que lhes falte a graça divina, somente por­
que essa graça é pequena e fraca. Um irmão pode possuir dons singulares
e ser uma luz brilhante e resplandecente na igreja de Cristo. Mas, não
nos esqueçamos de que ele é apenas um homem, e, como tal, está su­
jeito a cometer grandes erros. Já um outro irmão pode ter um conheci­
132 Mateus 16.21-23

mento limitado. Talvez não consiga ajuizar corretamente acerca de mui­


tos pontos doutrinários. Talvez ele erre tanto em atos quanto em palavras.
Tem ele fé em Cristo e O ama? Reconhece Cristo como sua Cabeça?
Se a resposta é positiva, devemos tratá-lo com paciência. Aquilo que
ele agora não percebe, poderá enxergar mais tarde. Como Pedro, talvez
agora ele esteja obscurecido mas, à semelhança de Pedro, pode algum
dia desfrutar da plena luz do evangelho.
Em segundo lugar, aprendamos que não existe outra doutrina
das Escrituras tão profundamente importante quanto a doutrina da morte
expiatória de Cristo. A prova mais clara, quanto a isso, é a linguagem
empregada por nosso Senhor ao repreender Pedro. Jesus o chama pelo
horrível nome de “ Satanás” , como se aquele apóstolo fosse um adver­
sário, ocupado na causa do diabo e procurando impedir a sua morte.
Àquele que há pouco chamara de “ bem-aventurado” , Jesus diz: “ Ar­
reda! Satanás; tu és para mim pedra de tropeço” . Ao homem cuja nobre
confissão de fé Jesus tinha recentemente elogiado, Ele diz: “ Não co­
gitas das cousas de Deus, e, sim, das dos homens” . Palavras mais fortes
do que estas nunca saíram dos lábios de nosso Senhor. O erro que pro­
vocou uma repreensão tão enérgica de nosso amoroso Salvador, a um
discípulo tão autêntico, deve ter sido realmente um tremendo erro.
O fato é que nosso Senhor deseja que consideremos a crucificação
como a verdade central do cristianismo. Uma visão correta de sua morte
vicária, e dos benefícios daí resultantes, é fundamental para a religião
bíblica. Que nunca nos esqueçamos disso. Em questões de governo da
igreja e formas de culto, alguns podem diferir de nós, e, mesmo assim,
chegar ao céu em segurança. Quanto à questão da morte expiatória de
Cristo como o caminho da paz com Deus, a verdade é uma só. Se nos
enganamos nesse particular, estamos arruinados para sempre. O erro
acerca de muitos pontos de doutrina é apenas uma doença superficial.
Mas o erro acerca da morte de Cristo é uma doença fatal. Portanto,
firmemo-nos nesse ponto. Que coisa alguma nos desloque dessa base
firme. A soma de todas as nossas esperanças deve ser que Cristo mor­
reu por nós (1 Ts 5.10). Se desistimos dessa doutrina, não dispomos
mais de qualquer esperança sólida.

A, Necessidade de Abnegação; O Valor da Alma


Leia Mateus 16.24-28

A fim de percebermos a conexão destes versículos, devemos re­


lembrar as impressões equivocadas dos discípulos de nosso Senhor,
Mateus 16.24-28 133

quanto aos propósitos de sua vinda ao mundo. Tal como Pedro, eles
não suportavam a idéia da crucificação. Pensavam que Jesus viera ao
mundo a fim de estabelecer um reino terrestre. Não percebiam que lhe
era necessário sofrer e morrer. Sonhavam com honrarias seculares e
recompensas temporais no serviço do Mestre. Não entendiam que os
verdadeiros cristãos, a exemplo de Jesus Cristo, precisam ser experi­
mentados nos sofrimentos. Nosso Senhor corrige estes mal entendidos,
usando palavras peculiarmente solenes, que faremos bem em guardar
no coração.
Em primeiro lugar, devemos aprender que os homens precisam
estar decididos a enfrentar tribulação e negar a si mesmos, se desejam
seguir a Cristo. Nosso Senhor dissipa os caros sonhos de seus discípu­
los, dizendo-lhes que os seus seguidores devem “ tomar a cruz” . O
glorioso reino pelo qual estavam esperando, de modo nenhum haveria
de ser estabelecido prontamente. Seus seguidores precisam aceitar pre­
viamente a perseguição e aflição, se desejam servir ao Senhor. Se desejam
“ salvar a sua vida” , precisam estar dispostos a “ perder a vida” .
É bom que compreendamos com clareza essa questão. Não de­
vemos ocultar de nós mesmos o fato de que o verdadeiro cristianismo
traz consigo uma cruz diária nesta vida, enquanto oferece uma coroa
de glória na vida futura. A carne precisa ser crucificada diariamente.
Precisamos resistir ao diabo dia após dia. O mundo precisa ser vencido.
Há uma guerra declarada e muitas batalhas a vencer. Tudo isso é o acom­
panhamento inseparável da verdadeira religião. O céu nunca será con­
quistado sem tais batalhas. Nunca houve declaração mais veraz do que
o velho ditado: “ Nenhuma cruz, nenhuma coroa!” Se nunca descobri­
mos isso por experiência, nossa alma está em uma pobre condição.
Em segundo lugar, aprendamos nestes versículos que nada existe
de tão precioso quanto uma alma humana. Nosso Senhor nos ensina
esta lição, fazendo uma das mais solenes indagações contidas no Novo
Testamento. É uma pergunta tão bem conhecida e tão freqüentemente
repetida, que as pessoas geralmente perdem de vista o seu caráter pers­
crutador. Mas é uma pergunta que deveria soar em nossos ouvidos como
uma trombeta, sempre que somos tentados a negligenciar nossos inte­
resses eternos: “ Que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro
e perder a sua alma?”
Só pode haver uma resposta para esta pergunta. Nada existe so­
bre a terra ou debaixo da terra que possa compensar pela perda de nossa
própria alma. Nada existe que o dinheiro seja capaz de comprar, ou
que o homem possa oferecer, que possa ser mencionado em comparação
às nossas almas. O mundo, e tudo quanto nele está contido, é apenas
temporal. Ele está gradualmente desaparecendo, perecendo e dissipando-
134 Mateus 16.24-28

-se. A alma é etema. Essa palavra é a chave de toda a questão. Guardemo-


-la no profundo de nossos corações. Estamos titubeantes em nossa
religião? Acaso tememos a cruz? O caminho nos parece muito estreito?
Que as palavras de nosso Senhor ressoem em nossos ouvidos: “ Que
aproveitará o homem?” , e não mais duvidemos.
Em último lugar, aprendamos que será na segunda vinda de Cristo
que receberemos a recompensa. “ Porque o Filho do homem há de vir
na glória de seu Pai... e então retribuirá a cada um conforme as suas
obras” . Nestas palavras de Jesus há profunda sabedoria, quando são
vistas em conexão com os versículos precedentes. Jesus conhece o co­
ração do homem. Ele sabe o quão prontamente nos deixamos desanimar,
e como, a exemplo do antigo povo de Israel, ficamos impacientes no
caminho (Nm 21.4). Por isso Ele nos deixa uma preciosa promessa.
Ele nos lembra de que virá a este mundo uma segunda vez, tão certo
quanto veio pela primeira vez. Ele nos diz que esse será o tempo quando
os seus discípulos receberão as recompensas. Haverá glória, honra e
galardões em abundância, algum dia, para todos quantos têm servido
e amado ao Senhor Jesus. Mas isso será na dispensação do segundo
advento, e não na dispensação do primeiro. O que é amargo virá antes
do que é doce, e a cruz antes da coroa. O primeiro advento foi a dis­
pensação da crucificação. O segundo é a dispensação do reino. Precisa­
mos nos submeter a tomar parte com nosso Senhor em sua humilhação,
se queremos um dia compartilhar de sua glória.
Não deixemos para trás estes versículos, sem primeiro fazermos
uma auto-inquirição séria quanto aos assuntos que eles contêm. Temos
ouvido sobre a necessidade de tomar a cruz e de negarmos a nós mesmos.
Já tomamos a nossa própria cruz? Estamos carregando-a diariamente?
Temos ouvido sobre o grande valor da alma humana. Acaso vivemos
como quem acredita nisso? Temos ouvido sobre a segunda vinda de Cris­
to. Estamos aguardando esse segundo advento com esperança e júbilo?
Feliz o homem que pode dar respostas satisfatórias a estas perguntas.

A Transfiguração
Leia Mateus 17.1-13

Estes versículos historiam um dos mais notáveis acontecimentos


ocorridos durante o ministério terreno de nosso Senhor — aquele evento
comumente chamado de “ a transfiguração” . A ordem em que esse in­
cidente ficou registrado é bela e instrutiva. A última porção do capítulo
anterior mostra-nos a cruz, que já surge no horizonte. Aqui, porém,
Mateus 17.1-13 135

somos graciosamente brindados com a visão de algo sobre a nossa re­


compensa vindoura. Os corações dos discípulos, que há tão pouco tempo
haviam sido profundamente entristecidos diante da clara afirmação feita
por Cristo, acerca dos seus sofrimentos, logo em seguida foram ale­
grados pela visão da glória de Jesus Cristo. Devemos salientar esse ponto.
Nós perdemos muito, quando ignoramos a conexão existente entre um
capítulo e outro da Palavra de Deus.
Sem dúvida alguma, existem mistérios dentro da visão aqui des­
crita. Porém, é forçoso que assim aconteça. Afinal, ainda estamos no
corpo físico. Os nossos sentidos estão voltados para as coisas materiais
e grosseiras deste planeta. As nossas idéias e a nossa percepção sobre
corpos glorificados e sobre santos mortos são, necessariamente, vagas
e imprecisas. Por conseguinte, contentemo-nos em assimilar as lições
práticas que a transfiguração de Jesus tenciona ensinar-nos.
Antes de qualquer outra coisa, nestes versículos encontramos uma
notável demonstração da glória com que Cristo e o seu povo apare­
cerão, quando Ele vier pela segunda vez. Não se pode tolerar qualquer
dúvida de que esse foi um dos principais objetivos dessa admirável visão.
O propósito da mesma era encorajar aos discípulos, conferindo-lhes um
vislumbre das coisas boas que ainda teriam lugar. Aquele rosto que “ res­
plandecia como o sol” , e aquelas vestes que se tomaram “ brancas como
a luz” tiveram a finalidade de proporcionar aos discípulos alguma idéia
da majestade com que o Senhor Jesus aparecerá neste mundo quando
vier, pela segunda vez, juntamente com todos os seus santos. Por assim
dizer, uma beira do véu foi erguida, a fim de mostrar aos discípulos
a verdadeira dignidade do seu Senhor e Mestre. Foi dessa maneira que
eles puderam entender que se Jesus não havia aparecido neste mundo
com a figura majestosa de um monarca, isso era devido tão-somente
ao fato que o tempo dEle vestir os seus trajes reais ainda não havia
chegado. É impossível a gente extrair qualquer outra conclusão, se le­
varmos em conta a linguagem empregada pelo apóstolo Pedro, quando
ele escreveu sobre o assunto. Referindo-se claramente à transfiguração,
escreveu esse apóstolo: “ ...nós mesmos fomos testemunhas oculares
da sua majestade” (2 Pe 1.16).
Para nós convém que a vindoura glória de Cristo e do seu povo
seja profundamente impressa sobre as nossas mentes. Inclinamo-nos,
mui tristemente, por esquecer-nos disso. Há poucas indicações visíveis
dessa glória, no mundo presente. Porquanto ainda não vemos que todas
as coisas estão postas sob os pés de nosso Senhor. Por toda a parte abun­
dam o pecado, a incredulidade e a superstição. Na prática, milhares
estão dizendo: “ Não queremos que este [Jesus] reine sobre nós” (Lc
19.14). E também ainda não se manifestou como se tornarão as pessoas
136 Mateus 17.1-13

que fazem parte do povo de Cristo. Suas cruzes, suas tribulações, suas
debilidades e seus conflitos, tudo isso nos é perfeitamente evidente. En­
tretanto, há mui escassos sinais da futura recompensa deles. Cuidemos,
portanto, em não permitir que nos surjam dúvidas quanto a essa par­
ticularidade. Silenciemos essas dúvidas, em nossos corações, lendo outra
vez o relato da transfiguração de Jesus Cristo. Para Jesus e para todos
quantos nEle confiam está reservada uma glória tão intensa como o co­
ração humano não é agora capaz de conceber. E não somente essa glória
nos foi prometida, como também conta com o testemunho de três com­
petentes testemunhas. Uma dessas testemunhas deixou registrado por
escrito: “ ...e vimos a sua glória, glória como do unigénito do Pai”
(Jo 1.14). Por certo, bem podemos acreditar naquilo que foi visto por
elas.
Em segundo lugar, nestes versículos encontramos uma prova in­
sofismável do fato da ressurreição do corpo e de que há vida depois
da morte física. Somos informados ali que Moisés e Elias apareceram
juntamente com Jesus, de forma visível e gloriosa. Eles foram vistos
como corpos físicos. Foram ouvidos a dialogar com o Senhor Jesus.
Mil quatrocentos e oitenta anos já se haviam passado, desde que Moisés
morrera e fora sepultado. E mais de novecentos anos se passaram, desde
que Elias fora arrebatado para o céu em um redemoinho. No entanto,
eles foram vistos vivos, por parte de Pedro, de Tiago e de João!
Devemos dar o máximo de atenção a essa visão. Ela merece nossa
cuidadosa atenção. Todos deveríamos sentir, quando meditamos a respei­
to dessa visão, que o estado dos mortos é um assunto deveras misterioso
e profundo. Um após outro, os mortos são sepultados e desaparecem
da nossa vista. Nós os depositamos em seus estreitos túmulos, e nunca
mais os vemos, e os seus corpos físicos acabam reduzidos a pó. Mas,
haverão eles, realmente, de tomar a viver? Poderemos vê-los de novo?
Os sepulcros devolverão os mortos neles contidos, no último dia? Essas
são perguntas que, ocasionalmente, atravessam as mentes de algumas
pessoas, apesar de todas as claríssimas assertivas da Palavra de Deus.
Ora, por ocasião da transfiguração de Jesus nos deparamos com
a mais cristalina evidência de que os mortos, realmente, ressuscitarão
algum dia. Encontramos ali dois homens que reapareceram na terra,
em seus próprios corpos, embora já se tivessem passado séculos que
estavam separados da terra dos viventes. E é nisso que encontramos
uma poderosa garantia da ressurreição final de todos os seres humanos.
Todos aqueles que já viveram neste mundo serão novamente chamados
à vida, á fim de prestarem contas de tudo o que fizeram. Nenhuma des­
sas pessoas faltará. Não existe tal coisa como o aniquilamento das almas.
Todos quantos chegaram a dormir em Cristo serão encontrados perfei­
Mateus 17.1-13 137

tamente seguros — patriarcas, profetas, apóstolos, mártires — até ao


mais humilde servo de Deus, dos nossos próprios dias. Embora atual­
mente invisíveis para nós, todos eles estão bem vivos para Deus. “ Ora,
Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para ele todos
vivem” (Lc 20.38). Seus espíritos estão vivos, tanto quanto nós mes­
mos estamos vivos; e aparecerão de novo, em corpos glorificados, tão
certamente quanto Moisés e Elias apareceram no monte da transfiguração.
Estes, de fato, são pensamentos solenes. Existe uma ressurreição, e ho­
mens como Félix devem tremer. Existe uma ressurreição, e homens
como Paulo devem regozijar-se.
Em último lugar, nestes versículos, encontramos um notável tes­
temunho acerca da infinita superioridade de Cristo sobre todos quantos
nasceram de mulher. Esse foi um ponto fortemente frisado pela voz,
vinda do céu, que os discípulos ouviram. Pedro, perplexo e atônito diante
da visão celestial, sem saber o que dizer, propôs que fossem erigidos
três tendas no monte: uma para Cristo, outra para Moisés e outra para
Elias. Na realidade, parece que Pedro queria situar o legislador e o pro­
feta lado a lado com o divino Mestre, como se todos os três fossem
iguais, porém, vemos que essa proposta foi prontamente rechaçada, da
maneira mais extraordinária e impressionante. Uma nuvem encobriu
Moisés e Elias, e eles não mais puderam ser vistos. Ao mesmo tempo,
de dentro da nuvem, saiu uma voz, que reiterou as solenes palavras
que João Batista ouvira, por ocasião do batismo de nosso Senhor: “ Este
é o meu Filho amado, em quem me comprazo: a ele ouvi” . Essa voz
teve por intuito mostrar a Pedro que há Alguém muito superior a Moi­
sés ou a Elias. Moisés foi um fiel servo de Deus. Elias foi uma ousada
testemunha que defendeu a verdade divina. Mas, Cristo é muito maior
do que qualquer um deles, ou mesmo que os dois juntos. Ele é o Sal­
vador, para quem continuamente apontavam a lei e os profetas. Ele é
o verdadeiro Profeta, a quem todos estão na obrigação de ouvir, con­
forme lhes foi ordenado (Dt 18.15). Moisés e Elias foram grandes homens
em sua própria época. Porém, Pedro e os outros dois apóstolos preci­
savam relembrar que, quanto à natureza, à dignidade e ao ofício, eles
estão muito abaixo de Jesus. Cristo é o verdadeiro sol; mas eles foram
apenas os planetas que refletiram a sua luz. Ele é a raiz; mas eles foram
apenas os ramos, dependentes da raiz. Ele é o Senhor; mas eles foram
apenas os servos. A bondade deles era toda derivada; mas a de Cristo
era sua própria, original. Moisés e os profetas, como homens santos,
merecem honra. Mas, se os discípulos desejam ser salvos, devem ter
unicamente a Cristo como Mestre, e dar glória somente a Ele. “ ...a
ele ouvi” .
Também devemos detectar nestas palavras uma grande lição para
138 Mateus 17.1-13

toda a igreja de Cristo. Na nossa natureza humana manifesta-se a cons­


tante tendência para “ ouvirmos o homem” . Bispos, padres, diáconos,
cardeais, o papa, os concílios, pregadores e ministros de grupos evan­
gélicos são continuamente exaltados a uma posição que Deus jamais
tencionou que preenchessem, usurpando assim a honra devida somente
a Cristo, para todos os efeitos práticos. Por causa dessa inclinação, que
todos vigiemos e montemos guarda. E que aquelas solenes palavras da
visão fiquem ressoando em nossos ouvidos: “ ...a ele ouvi” .
Os melhores homens não passam de homens, mesmo em seus
melhores momentos. Os patriarcas, os profetas e os apóstolos — os
mártires, os pais da igreja, os reformadores, os puritanos — todos são
meros pecadores, que precisam do Salvador — santos, úteis, dignos
de honra em seus respectivos lugares, mas apenas pecadores, e nada
mais. Nunca podemos permitir que eles sejam interpostos entre nós e
Cristo. Somente Jesus Cristo é “ o Filho, em quem o Pai se compraz” .
Somente Ele dispõe das chaves, que estão em suas mãos, e somente
Ele é o “ ...Deus bendito para todo o sempre. Amém” (Rm 9.5).
Certifiquemo-nos de que estamos ouvindo a sua voz e seguindo-O. Ava­
liemos todos os ensinamentos religiosos de conformidade com o grau
em que nos conduzem aos pés de Cristo. A essência da religião que
salva consiste nisso — ouvir a Jesus Cristo.

A Cura do Jovem Endemoninhado


Leia Mateus 17.14-21

Neste trecho bíblico tomamos conhecimento de outro dos gran­


diosos milagres realizados por Jesus Cristo. Ele curou um jovem lunático,
que vivia possuído por um demônio.
A primeira coisa que descobrimos, nestes versículos, é um vívido
quadro da horrenda influência que, algumas vezes, o demônios exer­
cem sobre os jovens. Lemos ali a respeito do filho de um homem que,
além de “ lunático” , também sofria muito. Um espírito maligno o es­
tava pressionando, tentando destruir seu corpo e sua alma, “ pois muitas
vezes cai no fogo, e outras muitas, na água” . Vemos aqui um daqueles
casos de possessão demoníaca que, embora comum nos dias de nosso
Senhor na terra, hoje em dia são encontrados com uma certa raridade.
Porém, podemos facilmente imaginar que, quando esses ataques acon­
teciam, sem dúvida deixavam as suas vítimas extremamente aflitas e
agoniadas. Já é doloroso ver os corpos daqueles a quem amamos es­
magados pelas enfermidades. E quão mais doloroso deve ser ver o corpo
Mateus 17.14-21 139

e a mente de algum ente querido totalmente debaixo da influência do


diabo! Disse o bispo Hall: “ Fora do inferno, não pode haver desgraça
pior” .
Todavia, nunca nos deveríamos esquecer de que há muitas ma­
neiras de Satanás exercer controle espiritual entre os jovens, que são
tão lamentáveis como o caso que estamos considerando nesta passagem.
Há milhares e milhares de jovens que parecem ter-se entregado com­
pletamente às sugestões de Satanás, tendo ficado cativos à sua vontade.
Esses jovens desfazem-se de todo o temor de Deus e perdem todo o
respeito pelos seus mandamentos. Antes, servem a diversas concupis-
cências e prazeres distorcidos. Atiram-se loucamente a todos os excessos
e devassidões. Recusam-se a ouvir os conselhos de seus progenitores,
professores ou ministros do evangelho. Jogam para um lado todas as
preocupações com a própria saúde, com o próprio caráter e com a pró­
pria respeitabilidade perante os seus semelhantes. Fazem tudo quanto
está ao seu alcance, a fim de se arruinarem de corpo e de alma, no tempo
e na eternidade. São escravos voluntários de Satanás. Quem nunca viu
jovens nessas condições? Podem ser encontrados nas grandes cidades
e nas áreas rurais. Procedem tanto das classes abastadas quanto das clas­
ses humildes. Certamente esses jovens servem de provas entristecedoras
de que, embora Satanás raramente tome posse dos corpos dos homens,
nestes nossos dias, ele continua exercendo um maléfico domínio sobre
as almas dos homens em geral.
Contudo, jamais nos deveríamos esquecer de que, nem mesmo
no caso de jovens nessa situação deveríamos perder a esperança. Antes,
deveríamos recordar-nos de que nosso Senhor Jesus Cristo é o Todo-
-Poderoso. Por pior que fosse o caso daquele rapazinho, sobre quem
lemos nesses versículos, ele foi “ curado” , e isso “ desde aquela hora”
mesma em que foi apresentado a Cristo! Os pais, os mestres e os pre­
gadores deveriam continuar orando em favor dos jovens, mesmo quando
eles exibem o seu lado mais negro. Por mais endurecidos que pareçam
ser os seus corações, ainda assim tais corações poderão ser abrandados.
Por mais desesperadora que seja a sua iniqüidade, no momento, ainda
assim poderão ser curados. À semelhança de João Newton, eles poderão
chegar a arrepender-se e converter-se, e o seu último estado demonstrar
que é melhor do que o inicial. Quem é capaz de negar isso? Que para
nós constitua um princípio fixo, quando lemos a respeito dos milagres
realizados por nosso Senhor, que jamais desistamos de esperar pela sal­
vação de quem quer que seja.
Em segundo lugar, nestes versículos, encontramos um extraor­
dinário exemplo do efeito debilltador da incredulidade. Os discípulos
indagaram ansiosamente de nosso Senhor, ao notarem que o demônio
140 Matem 17.14-21

cedera diante do poder de Cristo: “ Por que motivo não pudemos nós
expulsá-lo?” E eles receberam uma resposta plena da mais rica e pro­
veitosa lição: “ Por causa da pequenez da vossa fé” . Desejariam eles
conhecer o segredo do seu próprio e triste fracasso, na hora da neces­
sidade? Era a falta de fé mais firme.
Ponderemos bem sobre esse incidente, e aprendamos a ser sábios.
A fé é a chave do sucesso na guerra espiritual do crente. A incredu­
lidade é o caminho garantido da derrota. Se permitirmos que a nossa
fé se enfraqueça e caia em decadência, todas as nossas graças cristãs
debilitar-se-ão juntamente com ela. A coragem, a paciência, a longa­
nimidade e a esperança não demorarão coisa alguma para murchar e
desaparecer. A fé é a raiz da qual dependem todas essas outras virtudes.
Os mesmos israelitas que, em certa ocasião, atravessaram triunfalmente
o mar Vermelho, em outra oportunidade encolheram-se diante do pe­
rigo como uns covardes, ao chegarem às bordas da Terra Prometida.
O Deus deles continuava o mesmo que os tirara da servidão na terra
do Egito. O líder deles era o mesmo Moisés, que operara tantas ma­
ravilhas diante dos seus olhos. No entanto, a fé deles já não era a mesma.
Eles tinham dado margem a vergonhosas dúvidas acerca do amor e do
poder do Senhor Deus. “ ...não puderam entrar por causa da incredu­
lidade” (Hb 3.19).
Em último lugar, vemos nestes versículos que o reino de Satanás
não pode ser derrubado sem muita luta e diligência. Parece ser essa
a lição com que se encerra a presente passagem. “ Mas esta casta não
se expele senão por meio de oração e jejum.” Nessas palavras parece
haver implícita uma gentil reprimenda de Jesus aos seus discípulos. Tal­
vez eles estivessem por demais entusiasmados com os sucessos do
passado. Ou, talvez, estivessem sendo menos diligentes no uso dos me­
ios da graça, em face da ausência de seu Senhor, do que quando Cristo
estava em companhia deles. Sem importar qual tenha sido a causa, eles
receberam uma indicação perfeitamente clara, da parte de nosso Senhor,
de que a guerra contra Satanás jamais deve ser travada de modo su­
perficial. E assim sendo, foram instruídos quanto ao fato que nenhuma
vitória sobre o príncipe deste mundo pode ser ganha de modo fácil.
Sem a oração fervorosa e sem a auto-mortificação diligente, com fre­
quência haveremos de amargar o fracasso e a derrota.
A lição aqui ressaltada reveste-se de grande importância. Afir­
mou Bullinger: “ Eu gostaria que esta porção do evangelho nos agradasse
tanto quanto aquelas porções que nos concedem liberdade” . Todos nos
inclinamos por cumprir os nossos atos devocionais de maneira impen­
sada e apenas formal. A exemplo do povo de Israel, que estava envaide­
cido diante da queda das muralhas de Jericó, estamos sempre dispostos
Mateus 17.14-21 141

a dizer para nós mesmos: “ são poucos os inimigos” (Js 7.3). Desse
modo, pois, imaginamos que não precisamos exercitar toda a nossa força
espiritual. Mas, também a exemplo de Israel, por muitas vezes somos
então obrigados a experimentar, com amargor de espírito, que as ba­
talhas espirituais não são vencidas sem luta árdua. A arca do Senhor
sob hipótese alguma pode ser manuseada com irreverência. O trabalho
do Senhor não pode ser feito de maneira desleixada.
Que nunca nos esqueçamos das palavras de nosso Senhor aos
seus discípulos, e que tenhamos como regra, colocá-las em prática. No
púlpito ou na plataforma, na Escola Dominical ou no local de trabalho,
no uso que fizermos das nossas orações domésticas e da leitura da Bíblia,
que sempre vigiemos com diligência sobre os nossos próprios espíritos.
Qualquer coisa que estejamos fazendo, que o façamos de conformidade
com as nossas “ forças” (Ec 9.10). Constitui um erro fatal subestimar
os nossos adversários. Maior é aquele que está conosco do que aquele
que é contra nós. Mas, a despeito disso, aquele que nos é contrário
não deveria ser subestimado quanto à sua periculosidade. Ele é o pró­
prio príncipe deste mundo. Ele é o forte homem armado, que guarda
a sua casa, e que não sai da mesma para dividir os seus bens com alguém,
senão depois de muita luta. Não temos de combater contra carne e san­
gue, e, sim, contra principados e potestades. Portanto, precisamos
revestir-nos de toda a armadura de Deus. E não somente nos cabe nos
revestirmos dela, porquanto também precisamos usá-la. Podemos ter
a mais absoluta certeza de que aqueles que obtêm o maior número de
vitórias sobre o mundo, a carne e o diabo são justamente aqueles que
mais oram em secreto, fazendo conforme fazia Paulo: “ Mas esmurro
o meu corpo, e o reduzo à escravidão” (1 Co 9.27).

O Peixe e a Moeda do Tributo


Leia Mateus 17.22-27

Nestes versículos transparece uma certa circunstância, dentro da


vida de nosso Senhor, que não foi narrada por qualquer dos demais
evangelistas, além de Mateus. Um milagre notável foi efetuado, a fim
de providenciar o necessário para o pagamento do dinheiro do tributo,
requerido para a manutenção do templo de Jerusalém. Nessa narrativa
há três pontos salientes, que merecem a nossa atenta observação.
Em primeiro lugar, observemos que nosso Senhor tinha perfeito
conhecimento de tudo quanto é dito efeito neste mundo. Lemos ali que
aqueles que “ cobravam o imposto das duas dracmas" dirigiram-se a
142 Mateus 17.22-27

Pedro e lhe perguntaram: “ Não paga o vosso Mestre as duas dracmas?”


E a resposta dada por Pedro foi na afirmativa: “ Sim” . É evidente que
nosso Senhor não estava presente quando essa pergunta foi formulada
e essa resposta foi dada. No entanto, nem bem Pedro chegou na casa,
e o Senhor lhe foi perguntando: “ Simão, que te parece? de quem co­
bram os reis da terra imposto ou tributo; dos seus filhos, ou dos
estranhos?” Dessa maneira, pois, Jesus mostrou a Pedro que sabia qual
a conversa que esse apóstolo tivera com aqueles homens, como se Ele
estivesse estado nas imediações, escutando tudo.
Existe algo de indescritível solenidade na idéia de que o Senhor
Jesus sabe de todas as coisas. Há um par de olhos que acompanha toda
a nossa conduta diária. Há alguém que escuta todas as palavras que
dizemos a cada dia. Todas as coisas estão descobertas e patentes aos
olhos dAquele a quem teremos de prestar contas. É simplesmente im­
possível nos ocultarmos dEle. A hipocrisia é perfeitamente inútil.
Podemos enganar aos pregadores. Podemos fingir diante de nossos pa­
rentes e vizinhos. O Senhor, no entanto, vê todas claramente. Não
podemos enganar a Cristo.
Deveríamos fazer um esforço para usar essa verdade de um modo
prático. Deveríamos esforçar-nos por viver como que diante dos olhos
do Senhor, conforme foi recomendado a Abraão: “ anda na minha pre­
sença” (Gn 17.1). Que o nosso alvo diário seja nada dizer que não
gostaríamos que Cristo ouvisse, e nada fazer que não gostaríamos que
Cristo visse. Por igual modo, deveríamos medir cada questão difícil,
sobre o que é certo ou errado, mediante um simples teste: Como eu
me comportaria, se Jesus estivesse de pé, ao meu lado? Um padrão as­
sim não é extravagante e nem absurdo. Também não é uma norma capaz
de interferir com qualquer dever ou relacionamento em nossas vidas.
Interfere exclusivamente com o pecado. Feliz é aquele que procura sen­
tir a presença de seu Senhor, fazendo e dizendo todas as coisas como
que na presença dEle.
Observemos ainda que nosso Senhor exerce o seu infinito poder
sobre toda a criação. Jesus fez de um peixe o seu tesoureiro. Fez uma
criatura muda trazer o dinheiro do imposto, para satisfazer às exigên­
cias do coletor. Com toda a razão, pois, comentou Jerônimo: “ Não
sei o que mais admirar aqui, se a presciência de nosso Senhor ou se
a sua grandeza” .
Deparamo-nos aqui com um cumprimento literal das palavras do
salmista: “ Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão, e sob seus
pés tudo lhe puseste... as aves do céu e os peixes do mar, e tudo o que
percorre as sendas dos mares” (SI 8.6-8).
Temos aqui uma prova, dentre muitas outras, da majestade e da
Mateus 17.22-27 143

grandeza de nosso Senhor Jesus Cristo. Somente Ele, que foi o criador de
todas as coisas, poderia exigir a obediência de todas as suas criaturas.
“ Tudo foi criado por meio dEle e para Ele... nEle tudo subsiste’’ (Cl
1.16-17). O crente que parte para realizar a obra de Cristo entre os incré­
dulos, pode entregar-se com toda a confiança aos cuidados do seu Senhor.
Porquanto estará servindo Àquele que detém toda a autoridade, até
mesmo sobre as feras da terra. Quão maravilhoso é o pensamento que
esse Senhor Todo-Poderoso tenha condescendido em ser crucificado, a
fim de salvar-nos! Quão consolador é o pensamento que, quando Ele vier
ao mundo, pela segunda vez, haverá de manifestar gloriosamente o seu
poder sobre todas as coisas criadas, no mundo inteiro! “ O lobo e o
cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será
a comida da serpente” (Is 65.25).
Em último lugar, observemos, nestes versículos, a disposição de
nosso Senhor em fazer concessões, por não querer escandalizar a nin­
guém. Com toda a razão, Jesus poderia ter reivindicado isenção do paga­
mento do dinheiro do tributo. Aquele que é o próprio Filho de Deus, com
toda a justiça poderia ser dispensado de pagar pela manutenção da casa
de seu Pai. Aquele que mostrou ser “ maior do que o templo” , poderia ser
reconhecido como quem não precisava contribuir para o sustento do tem­
plo. Nosso Senhor, entretanto, não fez nada disso. Não reivindicou qual­
quer isenção. Pelo contrário, demonstrou que desejava que Pedro pagasse
o dinheiro que fora cobrado. Ao mesmo tempo, porém, Jesus declarou os
seus motivos. Isso deveria ser feito “ para que não os escandalizemos” .
Comentou o bispo Hall, a esse respeito: “ Foi efetuado um milagre, a fim
de que nem mesmo um coletor de impostos ficasse escandalizado” .
O exemplo dado por nosso Senhor, nesse incidente, merece toda
a atenção da parte daqueles que se professam e se chamam cristãos.
Oculta-se uma profunda sabedoria naquelas cinco palavras, “ para que
não os escandalizemos” . Elas ensinam-nos, com toda a clareza, que
existem questões acerca das quais o povo de Cristo deveria abafar as
suas próprias opiniões, submetendo-se a requisitos que talvez não apro­
vem plenamente, somente por não quererem escandalizar a ninguém
e nem “ pôr tropeço diante do evangelho de Cristo” . Dos direitos de
Deus, é indubitável, jamais deveríamos desistir; mas, dos nossos pró­
prios direitos, ocasionalmente podemos desistir deles, com real proveito.
Talvez soe correto e pareça heróico estarmos continuamente a defen­
der, com tenacidade, os nossos direitos. Porém, diante de uma passagem
bíblica como a que temos diante de nós, bem poderíamos duvidar se
tal tenacidade sempre é sábia e sempre reflete a mente de Cristo. Há
ocasiões em que o crente demonstra maior graça submetendo-se do que
oferecendo resistência.
144 Mateus 17.22-27

Lembremo-nos desta passagem, na qualidade de cidadãos e pa­


triotas. Talvez não aprovemos todas as medidas políticas tomadas por
nossos governantes. Talvez discordemos de alguns dos impostos que
eles determinam. Mas, a grande indagação, após tudo isso, é a seguinte:
“ Redundará em qualquer benefício para a causa da religião cristã se
eu resistir às autoridades constituídas? As medidas decretadas por elas
realmente estão prejudicando o bem-estar da minha alma?” Em caso
negativo, fiquemos tranquilos, “ para que não os escandalizemos” .
Também nos devemos recordar deste trecho bíblico na qualidade
de membros da igreja de Cristo. Talvez não gostemos de tudo que ocorre
nas cerimônias e ritos do grupo evangélico a que pertencemos. Talvez
pensemos que aqueles que nos governam quanto às questões espirituais
nem sempre se mostram sábios. Mas, em última análise, os pontos sobre
os quais nos sentimos insatisfeitos são, realmente, de importância vital?
Alguma das grandes verdades do evangelho está sendo ameaçada? Em
caso contrário, fiquemos quietos, “ para que não os escandalizemos” .
Lembremo-nos também desta passagem na qualidade de membros
que fazem parte de uma sociedade. Dentro do círculo social ao qual per­
tencemos, talvez haja regras e normas que nós, como crentes que somos,
sintamos serem cansativas, inúteis e sem nenhum proveito. Contudo, tais
questões são fundamentais? Elas prejudicam as nossas almas? A causa
da religião cristã seria beneficiada de alguma maneira, se nos recusás­
semos a anuir diante de tais imposições? Em caso contrário, sujeitemo-nos
pacientemente a tais coisas, “ para que não os escandalizemos” .
Teria sido muito bom, para a igreja e para o mundo, se essas
cinco palavras proferidas por nosso Senhor fossem melhor estudadas,
ponderadas e postas em prática! Quem é capaz de calcular o dano que
tem sido feito contra a causa do evangelho por aqueles escrúpulos
mórbidos e por aquilo que muitos chamam de consciência? Faríamos
muito bem em relembrar o exemplo que nos deixou o grande apóstolo
dos gentios: “ antes, suportamos tudo, para não criarmos qualquer
obstáculo ao evangelho de Cristo" (1 Co 9.12).

A Necessidade da Conversão e da Humildade;


A Realidade do Inferno
Leia Mateus 18.1-14

A primeira coisa que nos é ensinada nestes quinze versículos é


a necessidade de conversão, e esta manifestada sob a forma de uma
humildade como a de uma criança. Os discípulos apresentaram-se ao
Mateus 18.1-14 145

Senhor com a seguinte indagação: “ Quem é, porventura, o maior no


reino dos céus?” Eles falaram como homens não bem iluminados, im­
pulsionados por muitas expectativas carnais. E receberam uma resposta
dita de forma a despertá-los dos seus sonhos em plena luz do dia —uma
verdade que jaz nos fundamentos mesmos do cristianismo: “ Em ver­
dade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como
crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” .
Permitamos que estas palavras penetrem no fundo dos nossos co­
rações. Sem conversão também não há salvação. Todos precisamos de
uma radical mudança em nossa natureza. Por nós mesmos não teríamos
nem fé, nem temor, nem amor para com Deus. “ Importa-vos nascer
de novo” (Jo 3.7). Por nós mesmos somos totalmente despreparados
para habitar na presença do Senhor. O céu não seria céu para nós, se
não nos convertêssemos. Isso aplica-se com igual verdade a todas as
fileiras, classes e ordens da humanidade. Todos nós temos nascido no
pecado e somos filhos da ira, sem uma única exceção. Por isso mesmo,
precisamos nascer do alto, tornando-nos novas criaturas. É mister que
um coração novo comece a pulsar dentro de nós, que um espírito novo
nos seja insuflado. As coisas antigas precisam passar, e todas as coisas
devem ser renovadas. É coisa excelente alguém ser batizado em uma
igreja evangélica e usufruir dos meios cristãos da graça. Mas, antes
de tudo, o que realmente importa é: Já nos convertemos?
Gostaríamos de saber se realmente estamos convertidos? Conhe­
cemos aquele teste por meio do qual nos podemos submeter à prova?
O sinal mais seguro de uma autêntica conversão é a humildade. Se,
na verdade, já recebemos o Espírito Santo de Deus, então haveremos
de reconhecer o fato por intermédio de uma atitude mansa como a de
uma criança; e, à semelhança das crianças, haveremos de pensar a nosso
próprio respeito com modéstia, ao considerarmos as nossas forças e
a nossa sabedoria, e também porque mostraremos ser muito dependen­
tes do nosso Pai celeste. À semelhança das crianças, não buscaremos
para nós mesmos grandes coisas neste mundo; e, se tivermos alimen­
tos, vestes e o amor de nosso Pai dos céus, então ficaremos contentes.
Na verdade, esse é um teste que nos perscruta os corações! Ele des­
mascara as distorções de muitas supostas conversões. É fácil alguém
converter-se de uma igreja para outra, de um conjunto de opiniões para
outro. Conversões dessa natureza jamais salvaram uma alma sequer.
O de que todos precisamos é de nos convertermos do orgulho para a
humildade, de elevados conceitos sobre nós mesmos para pensamentos
modestos a nosso respeito, do auto-convencimento para a auto-
-humilhação, e da mentalidade de um fariseu para a mentalidade de um
publicano. Se quisermos ter qualquer esperança de salvação, então te­
146 Mateus 18.1-14

remos de experimentar uma conversão desse alto nível. Porquanto es­


sas são as conversões operadas pelo Espírito Santo.
A próxima coisa que nos é ensinada nesses versículos é o grande
pecado que consiste em pôr pedras de tropeço no caminho dos crentes.
As palavras emitidas por nosso Senhor, sobre este assunto, foram pe­
culiarmente solenes: “ Ai do mundo por causa dos escândalos... ai do
homem pelo qual vem o escândalo” . Ora, colocamos pedras de tropeço
ou escândalos no caminho das almas humanas, sempre que fazemos qual­
quer coisa a fim de impedi-las de se aproximarem de Cristo, ou que
poderiam forçá-las a desviarem-se do caminho da salvação, ou que po­
deriam desgostá-las no tocante ao cristianismo bíblico. Podemos fazer
isso diretamente, perseguindo, lançando no ridículo, fazendo oposição
ou procurando dissuadir os homens de servirem a Cristo. Também po­
demos fazer isso de modo indireto, se vivermos de maneira incoerente
com a religião que professamos, ou fazendo o cristianismo parecer re­
pelente e insatisfatório, mediante a nossa própria conduta condenável.
Sempre que fizermos qualquer coisa desse tipo, conforme torna-se claro
pelas palavras de nosso Senhor, estaremos cometendo um grave pecado.
Há algo de muito temível, na doutrina aqui estabelecida por Je­
sus Cristo. Tal doutrina deveria despertar em nós o desejo de sondarmos
cuidadosamente os nossos corações. Temos a certeza de que não esta­
mos sendo prejudiciais para outras pessoas? Talvez não estejamos
perseguindo abertamente aos servos de Cristo. Porém, não estaríamos
dando mau exemplo a nenhum deles, por meio da nossa conduta? É
horrível quando pensamos a respeito do grande dano causado por alguém
que professe falsamente seguir a religião cristã. Essa pessoa estará pondo
uma arma nas mãos dos incrédulos. Estará suprindo os mundanos com
uma desculpa para eles se manterem na impenitência. Tal pessoa atra­
palha aqueles que estão em busca da salvação. Desencoraja aos santos.
Em suma, age como um sermão vivo, em favor do diabo. Somente o
último dia haverá de desvendar toda a ruína sofrida pelas almas, por
causa dos “ escândalos” praticados no próprio seio da igreja do Senhor.
Uma das acusações de Natã, contra Davi, foi a seguinte: “ deste motivo
a que blasfemassem os inimigos do Senhor” (2 Sm 12.14).
A próxima verdade que nos mostram estes versículos é a rea­
lidade do castigo futuro, após a morte física. Duas incisivas expressões
foram empregadas por nosso Senhor, quanto a esse particular. Ele fa­
lou em alguém ser “ lançado no fogo eterno” , e também em ser “ lançado
no inferno de fogo” . O significado dessas palavras é claro e inequívoco.
No mundo vindouro existe um lugar caracterizado por uma indescritível
miséria, onde serão encerrados todos quantos morrerem na impenitência
e na incredulidade. Nas Escrituras, por conseguinte, nos é revelada uma
Mateus 18.1-14 147

“ ardente indignação” que, mais cedo ou mais tarde, haverá de devorar


todos os adversários de Deus (Hb 10.27). A mesma firme palavra que
garante o céu para todos quantos se arrependerem e converterem, também
declara, sem rodeios, que há um inferno à espera dos ímpios.
Que ninguém tente enganar-nos com vãs palavras sobre esse hor­
rendo assunto. Nestes últimos dias têm surgido indivíduos que professam
negar a eternidade da punição futura, e que, assim sendo, repetem o
antigo argumento do diabo, o qual disse: “ É certo que não morrereis”
(Gn 3.4). Que nenhum desses falsos raciocínios nos abale, por mais
plausíveis que eles pareçam ser. Conservemo-nos firmes nas veredas
antigas. O Deus de amor e misericórdia também é o Deus da justiça.
Sem a menor sombra de dúvida, Ele retribuirá. O dilúvio, dos dias de
Noé, e a destruição da cidade de Sodoma tiveram por finalidade mostrar-
-nos o que Deus fará, algum dia, no futuro. Nenhuma boca jamais falou
com tanta clareza sobre o inferno como a do próprio Jesus Cristo. Os
pecadores insensíveis acabarão descobrindo, para a sua própria perdição
eterna, de que existe realmente a “ ira do Cordeiro” (Ap 6.16).
A última coisa que podemos aprender, com base nestes versículos,
é o valor dado por Deus até ao menor e mais fraco dos crentes. “ As­
sim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes
pequeninos” . Essas palavras ficaram registradas com o propósito de
encorajar a todos os verdadeiros crentes, e não somente às criancinhas,
como é lógico. A conexão dessas palavras com a parábola sobre as cem
ovelhas, uma das quais se desviara e perdera, parece esclarecer esse
ponto acima de qualquer sombra de dúvida. O propósito delas é mostrar­
mos que nosso Senhor Jesus é um Pastor que cuida ternamente de cada
alma entregue aos seus cuidados. Os membros mais recentes, mais fra­
cos e doentios do seu rebanho, para Ele são tão preciosos quanto os
mais robustos. Eles nunca perecerão. Ninguém poderá arrancá-los da
mão do Senhor. Ele mesmo haverá de conduzi-los gentilmente, através
dos desertos deste mundo. Ele não haverá de permitir que caminhem
depressa demais, em um único dia, a fim de que nenhum deles venha
a perecer (Gn 33.13). Ele haverá de fazê-los ultrapassar quaisquer di­
ficuldades. Ele os defenderá de todo e qualquer adversário. Estas
palavras, ditas por Jesus, serão literalmente cumpridas: “ Não perdi ne­
nhum dos que me deste” (Jo 18.9). Ora, com um Salvador assim, quem
precisa ter medo de começar a ser um cristão decidido? Contando com
um Pastor desse quilate, que já iniciou em nós a sua obra, quem poderia
temer uma possível rejeição?
148 Mateus 18.15-20

Como Resolver Diferenças Entre os Crentes;


Natureza da Disciplina Eclesiástica
Leia Mateus 18.15-20

As palavras do Senhor Jesus, contidas nestes versículos, encer­


ram uma expressão que, com freqüência, tem sido mal aplicada. A ordem
que afirma: “ dize-o à igreja” tem sido interpretada de tal maneira que
chega a contradizer outras passagens da Palavra de Deus. Tal ordem
tem sido falsamente aplicada à autoridade da igreja visível, quanto a
questões doutrinárias, pelo que tem servido de justificativa para o exer­
cício de muita tirania eclesiástica. Porém, os abusos contra as verdades
das Escrituras não deveriam nos tentar a negligenciarmos o uso correto
das mesmas. Não devemos desprezar qualquer texto bíblico que seja,
somente por que alguns o têm pervertido e transformado em veneno.
Observemos, em primeiro lugar, quão admiráveis são as normas
determinadas por nosso Senhor para a solução de divergências entre
os irmãos. Se, lamentavelmente, tivermos sido ofendidos por algum
outro membro da igreja de Cristo, o primeiro passo a ser dado será
visitá-lo e ‘‘argüi-lo entre ti e ele só” , na tentativa de ser corrigida a
falha. Talvez esse irmão nos tenha ofendido sem intenção disso, con­
forme aconteceu entre Abimeleque e Abraão (Gn 21.26). A sua conduta
talvez admita uma ótima explicação, como aquela que foi dada pelos
membros das tribos de Ruben, Gade e Manassés, quando erigiram um
altar, ao retornarem para a sua própria terra (Js 22.24). Seja como for,
essa maneira amigável, fiel e franca de entrar em entendimento é o curso
mais provável para ganharmos de volta a algum irmão que nos tenha
ofendido em qualquer sentido. ‘‘A língua branda esmaga ossos” (Pv
25.15). Quem pode garantir que aquele irmão não venha a reconhecer,
imediatamente: “ Eu estava errado” , para, em seguida, reparar seu erro
desculpando-se conosco?
Entretanto, se essa maneira de proceder, não conseguir produzir
qualquer bom resultado, um segundo passo deverá ser dado por nós.
Nesse caso, conforme Jesus disse, “ toma ainda contigo uma ou duas
pessoas” , para que, mediante o depoimento dessas testemunhas, seja
procurada a solução, diante do irmão ofensor. Talvez a consciência desse
irmão seja tocada, e assim reconheça o seu erro, envergonhe-se e
arrependa-se. Mas, caso contrário, ainda assim disporemos do depoimen­
to daquelas duas ou três testemunhas, de que fizemos tudo quanto estava
ao nosso alcance para que nosso irmão voltasse à sobriedade, o que se
recusara a fazer na primeira tentativa, e agora, novamente, na segunda.
Mateus 18.15-20 149

Finalmente, se essa segunda tentativa tiver sido em vão, então


devemos relatar a questão inteira à congregação local da qual fazemos
parte, cumprindo assim a recomendação de Cristo, “ dize-o à igreja” .
Talvez o coração que se mostrara inabalável na primeira e na segunda
tentativas, renda-se afinal, diante do temor do desmascaramento público.
Mas, se o ofensor, ainda assim não quiser se dobrar, então só nos res­
tará uma conclusão a respeito do estado daquele irmão — devemos
considerá-lo, embora com tristeza, como alguém que preferiu desfazer-
-se de todos os princípios cristãos, deixando-se guiar pelos motivos
inferiores que impulsionam a qualquer “ gentio e publicano” .
Esta passagem é uma linda instância de sabedoria mesclada com
terna consideração, que se percebe no ensinamento de nosso Senhor.
Quanto conhecimento Ele demonstrou possuir sobre a natureza humana!
Coisa alguma é tão prejudicial para a causa da religião cristã quanto
as desavenças entre os cristãos. Por conseguinte, nenhuma pedra de­
veria ser deixada sem revirar, nenhuma tribulação deveria ser evitada,
se somente assim tais desavenças cheguem a tornar-se questões de do­
mínio público. Jesus, portanto, mostrou uma profunda e delicada preocu­
pação com a sensibilidade da pobre natureza humana! Muitos problemas
escandalosos poderiam ser evitados se estivéssemos mais dispostos a
praticar aquela regra que diz “ entre ti e ele só” . Traduzir-se-ia em grande
felicidade para a igreja e para o mundo, se essa porção das instruções
de Jesus fosse mais cuidadosamente estudada e obedecida. Sempre ha­
verá discórdias e divisões entre nós, enquanto o mundo continuar exis­
tindo como é. Entretanto, quantas dessas coisas seriam imediatamente
extintas, se o curso de ação recomendado por Jesus, nesses versículos,
fosse experimentado!
Em segundo lugar, observemos o claro argumento que encontra­
mos nestes versículos em favor do exercício da disciplina em uma
comunidade cristã. Nosso Senhor determinou que os desacordos entre
crentes que não possam ser solucionados de outra maneira sejam entre­
gues à decisão da igreja local a qual aqueles irmãos pertencem. Asseverou
Ele: “ dize-o à igreja” . Com base nesses fatos, é evidente que o Senhor
tenciona que cada local de crentes professos tome conhecimento da con­
duta moral de seus membros, ou mediante a ação coletiva da comunidade
inteira, ou por meio de líderes e anciãos aos quais seja delegada auto­
ridade espiritual. Também é patente que Ele queria que cada congregação
tivesse a autoridade de excluir membros desobedientes e refratários,
para que não participem de suas atividades normais, como a prática
das ordenanças. Declarou o Senhor Jesus: “ E, se ele não os atender,
dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como
gentio e publicano” . Jesus não disse uma única palavra sobre castigos
150 Mateus 18.15-20

temporais ou sobre impedimentos civis. Penas de cunho espiritual são


as únicas penalidades que Jesus permitiu à sua igreja infligir. Mas, quando
essa aplicação é feita corretamente, tal punição não pode ser conside­
rada coisa sem importância: “ tudo o que ligardes na terra, terá sido
ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, terá sido desligado
no céu” . Parece ser essa a substância do ensinamento de nosso Senhor
acerca da disciplina eclesiástica.
É inútil tentar negaf que o assunto inteiro está circundado de di­
ficuldades. Sobre nenhuma outra particularidade a influência do mundo
tem pesado tanto sobre a ação das igrejas locais. Sobre nenhum outro
ponto as igrejas locais têm cometido tantos erros — algumas vezes para
o lado de uma indiferença sonolenta, e, de outras vezes, para o lado
de uma cega severidade. Não há que duvidar que a autoridade da ex­
clusão tem sido temivelmente abusada e pervertida; e, conforme escreveu
Quesnel: “ Deveríamos temer mais aos nossos pecados do que todas
as exclusões no mundo” . A despeito disso, é impossível negarmos, con­
tando com uma passagem como essa, à nossa frente, que a disciplina
eclesiástica harmoniza-se com a mentalidade de Cristo, de tal maneira
que, quando devidamente exercida, visa a promover o bem-estar e a
higidez da igreja. Não pode mesmo ser direito que toda variedade de
indivíduos, por ímpios e malignos que sejam, tenham permissão de
achegar-se à mesa do Senhor, sem que ninguém os impeça ou proíba.
Faz parte dos deveres mais solenes de todo crente usar a sua influência
para tentar impedir a continuação desse estado de coisas. Nunca po­
deremos conseguir uma perfeita comunhão neste mundo; embora a pureza
deva ser o nosso grande alvo. Um padrão crescentemente mais elevado
de qualificações, para que alguém se torne membro de uma igreja local,
sempre será uma das melhores evidências de uma igreja próspera.
Em último lugar, observemos quão gracioso encorajamento Cristo
tem em reserva para aqueles que se reúnem em seu nome. Declarou
Ele: “ Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali
estou no meio deles” . Essa declaração serve de notável comprovação
indireta da divindade do Senhor Jesus. Pois somente Deus pode estar
em muitos lugares ao mesmo tempo.
Nestas palavras também há uma grande consolação para todos
aqueles que apreciam reunir-se com outros crentes, com propósitos de
adoração religiosa. Em cada reunião de adoração pública, em cada reu­
nião de oração ou louvor, em cada reunião missionária, em cada reunião
de leitura da Bíblia acha-se presente o próprio Rei dos reis, Jesus Cristo.
Talvez fiquemos desencorajados, por muitas vezes, diante do pequeno
número de pessoas que se faz presentes aos cultos, em comparação com
os grandes números que se reúnem para finalidades seculares e mun­
Mateus 18.15-20 151

danas. De outras vezes, sentiremos dificuldades em suportar os insultos


e o ridículo de indivíduos de natureza maligna, que clamam como o
fizeram aqueles antigos inimigos: “ Que fazem esses fracos judeus?”
(Ne 4.2). Todavia, não temos qualquer razão para o desânimo. Pois
podemos ficar dependendo da palavra de promessa do Senhor Jesus.
Em todas as nossas reuniões contaremos com a companhia do próprio
Cristo.
Por outra parte, nestas palavras há uma solene repreensão para
todos aqueles que negligenciam a adoração pública a Deus, e nunca
se fazem presentes às reuniões com propósitos religiosos. Esses estão
voltando as costas à sociedade do Senhor dos senhores. Eles perdem
a oportunidade de se encontrarem pessoalmente com o próprio Cristo,
na dimensão coletiva. De coisa alguma lhes adianta tentarem justificar-
-se de que as reuniões dos crentes são assinaladas por defeitos e
debilidades, ou que o crente obtém tantas bênçãos ficando em casa quanto
freqüentando os cultos na igreja. As palavras proferidas por nosso Se­
nhor deveriam silenciar todos os argumentos desse tipo. Sem dúvida,
não demonstram sabedoria aqueles indivíduos que falam com escarni­
nho de qualquer reunião em que Cristo se faz presente.
Bem poderíamos ponderar sobre essas coisas. Se já nos reunimos
com o povo de Deus, para efeitos espirituais, no passado, então per­
severemos nessa prática e não nos envergonhemos da mesma. Se, até
o momento, temos desprezado tais reuniões, reconsideremos a nossa
maneira de agir e aprendamos a ser sábios.

A Parábola do Servo que Não Queria Perdoar


Leia Mateus 18.21-35

Nestes versículos, o Senhor Jesus abordou um assunto de má­


xima importância — como devemos perdoar as ofensas. Vivemos em
um mundo maligno, e é inútil esperar que consigamos escapar aos maus
tratos, por mais cuidadosamente que nos comportemos. Saber como
nos devemos conduzir, quando somos maltratados, é algo importantís­
simo para as nossas almas.
Em primeiro lugar, o Senhor Jesus estabeleceu uma regra geral,
de que devemos perdoar às outras pessoas ao máximo. Foi Pedro quem
apresentou a indagação: “ Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará
contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” E, como resposta,
Jesus lhe disse: “ Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes
sete” .
152 Mateus 18.21-35

A regra aqui estabelecida, naturalmente, precisa ser interpretada


com sobriedade. Nosso Senhor não quis dar a entender que as transgres­
sões contra as leis da terra e contra a boa ordem social devam ser des­
consideradas e passadas em silêncio. Ele também não quis dizer que
devamos permitir que as pessoas cometam furtos e assaltos com a im­
punidade. Tudo quanto Ele quis dizer é que devemos manter uma atitude
geral de misericórdia, disposta a perdoar aos nossos irmãos e semelhan­
tes. Precisamos tolerar muita coisa e suportar muitas injustiças, ao invés
de logo entrarmos em conflito com os nossos ofensores. Também deve­
mos afrouxar sobre muitas coisas, submetendo-nos a muitas imposições,
antes de entrarmos em choque com outras pessoas. E, por igual modo,
devemos repelir tudo quanto a aparência de malícia, contenda, vingança
e retaliação. Sentimentos dessa ordem servem somente para os incré­
dulos. Mas, são totalmente indignos, no caso de qualquer discípulo de
Cristo.
Quão mais abençoada seria a vida neste mundo, se essa norma
ditada por nosso Senhor fosse mais largamente reconhecida e melhor
obedecida! Quantas das desgraças que sobrevêem à humanidade são oca­
sionadas por disputas, querelas, ações judiciais e uma obstinada tenacida­
de quanto àquilo que os homens costumam intitular de ‘‘meus direitos’’!
Quantos conflitos entre os homens poderiam ser evitados, se ao menos
os homens se dispusessem mais ao perdão, e desejassem mais que a
paz imperasse! Nunca nos deveríamos esquecer que nenhuma fogueira
pode continuar queimando sem lenha. Por semelhante maneira, são ne­
cessárias duas pessoas para que comece uma briga. Portanto, que cada
uma das duas pessoas resolva, pela graça de Deus, que não contribuirá
para que a briga tenha início e prossiga. Antes, devemos resolver pagar
o mal com o bem, e a maldição com a bênção, dissipando assim toda
inimizade e transformando os nossos adversários em amigos (Rm 12.20).
Era uma excelente qualidade de caráter do arcebispo Cranmer que, se
alguém chegasse a ofendê-lo, certamente acabaria tornando-se amigo
dele.
Em segundo lugar, nosso Senhor supriu-nos dois poderosos mo­
tivos para exercitarmos um espírito perdoador. Jesus contou a história
de um homem que devia uma gigantesca quantia para seu senhor; mas,
como não tinha “ com que pagar’’, chegado o momento da prestação
de contas, seu senhor compadeceu-se dele “ e perdoou-lhe a dívida” .
E Jesus continuou para dizer que esse mesmo homem, após haver sido
perdoado, encontrando-se com um seu companheiro que lhe devia uma
importância insignificante, recusou-se a perdoá-lo. Além disso, aquele
servo exigiu que seu conservo fosse lançado no cárcere, não querendo
dispensar a mínima parcela da dívida. Finalmente, conforme o Senhor
Mateus 18.21-35 153

Jesus ajuntou, o castigo sobreveio àquele servo cruel, que não se dis­
punha a perdoar. Porquanto, após ter-lhe sido mostrada misericórdia,
ele também deveria ter-se mostrado misericordioso para com seu se­
melhante. E o Senhor Jesus conclui a sua parábola com estas impressio­
nantes palavras: ‘‘Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo
não perdoardes cada um a seu irmão” .
Nesta parábola de Jesus fica patenteada a verdade que um dos
motivos para perdoarmos aos nossos semelhantes deveria ser a lembrança
de que todos precisamos ser perdoados diante de Deus. Dia após dia,
caímos em muitas transgressões e ficamos muito aquém do que deve­
ríamos ser, e ‘‘deixamos de fazer, e fazemos aquilo que não deveríamos
fazer” . Dia após dia, solicitamos de Deus misericórdia e perdão. As
ofensas que outras pessoas têm praticado contra nós são coisas despre­
zíveis, em confronto com as nossas gravíssimas ofensas contra o Senhor.
Sem dúvida alguma, não condiz com a nossa condição de pobres cria­
turas pecaminosas, como somos, mostrar-nos excessivamente severos,
fazendo cobrança por causa de pequenas falhas que nossos irmãos na
fé cometem contra nós, ou mostrando-nos inclinados a não perdoá-los
prontamente.
Uma outra razão para que nos mostremos dispostos a perdoar
a outras pessoas deveria ser a lembrança acerca do dia do julgamento
jinal, juntamente com o padrão que será utilizado naquele dia, acerca
de todos os que forem julgados. Naquele dia, não será dado o perdão
para indivíduos que não se dispuseram a perdoar aos seus semelhantes.
Tais indivíduos, na verdade, não estão aptos para viver no céu. Pois
não seriam capazes de dar o devido valor a um lugar de habitação onde
a “ misericórdia” é o único título de posse, onde a “ misericórdia” é
o tema de um cântico perene. Sem dúvida, se estamos planejando ser
um daqueles que estarão em pé, à direita de Jesus, quando Ele se sentar
no seu trono de glória, então teremos de aprender a ser perdoadores,
enquanto ainda estamos neste mundo.
Que essas verdades lancem profundas raízes em nossos corações.
É um fato melancólico que poucos deveres cristãos estejam sendo pos­
tos em prática com tanta parcimônia e má vontade como o dever de
perdoarmos ao próximo. E é entristecedor verificarmos quanto amar­
gor de espírito, quanto falta de compaixão, quanto despeito, quanta dureza
e quanta falta de gentileza manifestam-se entre os homens. No entanto,
poucos deveres são tantas vezes ressaltados, nas Escrituras do Novo
Testamento, como esse dever. Mas, poucas outras falhas de caráter são
capazes de fechar tão definitivamente para um homem as portas do reino
de Deus, como essa.
Queremos dar provas de que realmente fomos reconciliados com
154 Mateus 18.21-35

Deus, lavados no sangue de Cristo, nascidos do alto pelo poder do Es­


pírito Santo, e feitos filhos de Deus por adoção, em resultado da graça
divina? Então não nos esqueçamos desse passo bíblico. Seguindo o exem­
plo dado por nosso Pai celestial, disponhamo-nos a perdoar aos nossos
ofensores. Porventura, fomos ofendidos por alguém? Que perdoemos
o tal, agora mesmo. É conforme comentou Leighton: “ Deveríamos per­
doar pouco a nós mesmos, e muito aos outros” .
Pretendemos ser elementos benéficos à humanidade? Queremos
exercer uma influência positiva sobre os nossos semelhantes, para que
percebam quão excelente é a religião cristã? Então não nos esqueçamos
dessa passagem. Indivíduos que não se importam com as doutrinas cristãs,
podem compreender perfeitamente bem o temperamento perdoador de
um crente.
Queremos desenvolver-nos pessoalmente na graça, tomando-nos
mais santos, em toda a nossa formação, e em nossas palavras e obras?
Então não nos esqueçamos dessa passagem. Coisa alguma entristece
tanto ao Espírito Santo e obscurece tanto a alma como deixar-se o in­
divíduo levar por um espírito rixento e pelo temperamento que não se
dispõe a perdoar (Ef 4.30-32).

O Juízo de Cristo Sobre o Divórcio;


A Ternura de Cristo com as Crianças
Leia Mateus 19.1-15

Nestes versículos nos é concedido perceber a mente de Cristo


acerca de dois assuntos de capital importância. O primeiro versa sobre
o relacionamento entre marido e mulher. E o segundo diz respeito à
maneira como deveríamos pensar acerca das criancinhas, no que con-
cerce às suas almas.
É difícil exagerar a importância desses dois assuntos. O bem-
-estar das nações e a felicidade geral da sociedade humana estão intima­
mente vinculados a pontos de vista corretos sobre essas questões. As
nações nada mais são do que uma coletânea de muitas famílias. E a
boa ordem das famílias depende inteiramente de ser conservado o mais
elevado padrão de respeito pelos laços do matrimônio e pelo correto
treinamento das crianças. Deveríamos mostrar-nos agradecidos diante
do fato que, sobre ambas essas questões, o grande Cabeça da igreja
pronunciou a sua opinião de uma maneira tão distinta.
No tocante ao casamento, nosso Senhor ensinou que a união en­
tre marido e mulher jamais deveria ser rompida, exceto pela mais grave
Mateus 19.1-15 155

causa, algum ato de infidelidade conjugal. Nos dias durante os quais


nosso Senhor esteve neste mundo, o divórcio era permitido entre os
judeus, e isso pelos motivos mais superficiais e frívolos. Essa prática,
embora tolerada pela legislação mosaica, a fim de impedir males ainda
piores — como a crueldade ou o homicídio — gradualmente foi-se trans­
formando em um insuportável abuso, e, sem dúvida, que dava margem
a muita imoralidade (Ml 2.14-16). A observação feita pelos discípulos
de nosso Senhor desvenda o estado deploravelmente baixo dos senti­
mentos populares sobre o assunto. Comentaram os discípulos: “ Se essa
é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém ca­
sar’’. Sem sombra de dúvida, o que eles queriam dizer era algo como
isto: “ Se um homem não pode divorciar-se de sua mulher por qualquer
motivo, e a qualquer tempo, então é melhor nem casar-se” . Uma lin­
guagem dessas, nos lábios dos apóstolos de Jesus, soa realmente estranha
para nós!
Nosso Senhor apresentou um padrão inteiramente diferente para
servir de orientação aos seus discípulos. Antes de qualquer outra coisa,
Ele fundamentou o seu juízo sobre a instituição original do casamento.
Para tanto, citou as palavras que aparecem no começo do livro de Gê­
nesis, onde estão descritos a criação do homem e a união de Adão e
Eva, como prova do fato que nenhum outro relacionamento humano
deveria ser tão altamente considerado como aquele entre um homem
e a sua esposa. O relacionamento entre pais e filhos pode parecer muito
íntimo; mas o relacionamento entre marido e mulher ainda é mais íntimo,
“ deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, tornando-se os
dois uma só carne” . Em seguida, o Senhor reforçou esse conceito com
as suas próprias solenes palavras: “ Portanto, o que Deus ajuntou não
o separe o homem” . E, finalmente, o Senhor fez uma gravíssima acu­
sação, que envolve a quebra do sétimo mandamento, mediante um novo
casamento, contraído após o divórcio conseguido por motivos superfi­
ciais e frívolos: “ Quem repudiar sua mulher, não sendo causa de relações
sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério” .
Toma-se evidente, portanto, com base no teor inteiro desta pas­
sagem, que a relação matrimonial deveria ser altamente reverenciada
e honrada entre o seguidores de Cristo. Trata-se de uma relação que
foi instituída no próprio paraíso, durante o período da inocência do ho­
mem. E agora serve de figura simbólica predileta da união mística que
há entre Cristo e a sua igreja. Assim sendo, trata-se de uma relação
que somente a morte é capaz de romper. Essa é uma relação que, com
a mais absoluta certeza, exercerá incalculável influência, para a feli­
cidade ou para a infelicidade, para o bem ou para o mal, sobre aqueles
que ela une. Nunca deveríamos assumir tal relação de maneira frívola,
156 Mateus 19.1-15

superficial, sem exame prévio; pelo contrário, somente com sobriedade,


discreção e a devida consideração dos fatos envolvidos. Lamentavel­
mente, é fato comprovado que os casamentos efetuados sem seriedade
são uma das mais férteis causas da infelicidade, e, com grande freqüência,
do pecado de muitas pessoas.
No que concerne às criancinhas, encontramos nosso Senhor a
instruir-nos, nestes versículos, mediante a palavra e a ação, mediante
o preceito e o exemplo. “ Trouxeram-lhe então algumas crianças, para
que lhes impusesse as mãos, e orasse” . Evidentemente, eram crianças
bem pequenas, pequenas demais para receberem qualquer instrução,
embora não pequenas demais para serem beneficiadas pela oração em
favor delas. Os discípulos, entretanto, parecem haver pensado que o
Senhor nunca se rebaixaria a dar atenção àquelas criancinhas, e repre­
enderam aos adultos que as tinham trazido. Todavia, isso provocou uma
solene declaração da parte do grande Cabeça da igreja; “ Deixai os pe­
queninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino
dos céus” .
Há algo de interessantíssimo, tanto na linguagem quanto nos atos
de nosso Senhor, nessa oportunidade. Reconhecemos a fraqueza e a
debilidade, física e mental, das crianças pequeninas. De todas as cria­
turas que nascem neste mundo, nenhuma é tão impotente e dependente
como um bebê humano. Sabemos quem era Aquele que deu tanta atenção
aos infantes, tendo encontrado tempo suficiente, em seu ativo ministé­
rio entre homens e mulheres adultos, para orar em favor daquelas
crianças, impondo-lhes “ as mãos” . Esse Alguém é o próprio filho de
Deus, o grande Sumo Sacerdote, o Rei dos reis, por intermédio de quem
todas as coisas vieram à existência, “ o resplendor da glória e a expres­
são exata’’ do Ser de Deus Pai. Que instrutivo quadro apresenta, diante
dos nossos olhos, toda essa notável transação! Não admira que a grande
maioria dos membros da igreja de Cristo sempre tenha visto nesta pas­
sagem bíblica um poderoso, embora indireto argumento em favor do
batismo infantil.
Estribados sobre estes versículos, aprendamos que o Senhor Je­
sus cuida ternamente das almas das criancinhas. É perfeitamente provável
que Satanás as odeie de modo todo especial. E também é indubitável
que Jesus as ama de modo todo especial. Embora tão pequeninas, as
crianças não estão abaixo de seus pensamentos e de sua atenção. O seu
poderoso coração reserva um lugar para o bebezinho, em seu berço,
tanto quanto para o monarca, em seu trono. Jesus considera que cada
criancinha traz, potencialmente, em seu corpinho, um princípio imor-
redouro, que sobreviverá às pirâmides do Egito, e até mesmo ao sol
e à lua, quando, por fim, se apagarem. Ora, dispondo de uma passagem
Mateus 19.1-15 157

como esta, diante de nós, sem dúvida podemos esperar a salvação de


todos aqueles que morrerem na infância, “ ...porque dos tais é o reino
dos céus.”
Em último lugar, extraiamos destes versículos um grande enco­
rajamento para ousarmos grandes coisas, procurando instruir as nossas
crianças na religião cristã. Desde os mais tenros anos das crianças, tra­
temos com elas como quem tem uma alma que pode vir a ser salva ou
que pode vir a perder-se. E, assim sendo, esforcemo-nos por conduzi­
das aos pés de Jesus Cristo. Precisamos familiarizar as crianças com
a Bíblia Sagrada, assim que elas puderem compreender qualquer coisa.
Oremos por elas, e também oremos juntamente com elas, ensinando-as
a orarem por si mesmas. Podemos ter a certeza de que Jesus contem­
plará com prazer tais esforços da nossa parte, e que Ele haverá de
abençoar às criancinhas. Podemos ter a certeza de que tais esforços não
são inúteis. A semente semeada na infância, com freqüência brota so­
mente após muitos dias. Feliz é a igreja local cujas crianças recebem
tanta atenção quanto os membros adultos, que participam de plena co­
munhão! A bênção d Aquele que foi crucificado, certamente será con­
cedida a qualquer igreja local que costume agir desse modo! Jesus impôs
as suas mãos sobre as criancinhas. E orou em favor delas.

O Jovem Rico
Leia Mateus 19.16-22

Estes versículos detalham um diálogo que teve lugar entre nosso


Senhor Jesus Cristo e um jovem que se aproximou dEle, a fim de indagar-
-Lhe sobre o caminho para a vida eterna. Tal como toda outra conver­
sação registrada nos evangelhos, entre nosso Senhor e alguma pessoa
qualquer, esta merece nossa atenção especial. A salvação é uma questão
individual. Todos quantos desejem ser salvos precisam entrar em questões
particulares, com Cristo, acerca das suas próprias almas.
Antes de qualquer outra coisa, alicerçados sobre o caso desse
jovem rico, percebemos que uma pessoa pode ter o desejo de ser salva,
e mesmo assim não vir a ser salva. Ali estava um homem que, em um
período de incredulidade generalizada, veio falar com Cristo por sua
livre vontade. Ele não veio a fim dê pedir a cura para alguma pessoa
enferma. Não veio para rogar em favor de alguma criança. Mas veio
para consultar a Jesus sobre a sua própria alma. Ele iniciou a conversa
com uma pergunta direta e franca: “ Mestre, que farei eu de bom, para
alcançar a vida eterna?” Sem dúvida, haveríamos de pensar: Eis aí um
158 Mateus 19.16-22

caso promissor. Esse jovem não é algum líder cheio de preconceitos,


ou algum fariseu. Antes, é um interessado na salvação de sua alma.
No entanto, ao terminar o seu diálogo com o Senhor Jesus, o jovem
rico “ retirou-se triste” , e em porção alguma da Bíblia lemos qualquer
informação de que ele tenha jamais se convertido!
Nunca deveríamos perder de vista o fato que os bons sentimen­
tos, por si sós, na religião cristã, não refletem a presença da graça de
Deus. Pois podemos conhecer a verdade apenas intelectualmente. Com
freqüência, a consciência nos espicaça. Afetos religiosos podem ser des­
pertados lá no íntimo, profundas ansiedades podem brotar, acerca das
nossas almas, e até podemos derramar muitas lágrimas. Tudo isso, po­
rém, ainda não é a conversão. Isso não garante que foi efetuada a genuína
obra salvatícia do Espírito Santo.
Infelizmente, isso ainda não é tudo quanto se poderia dizer a res­
peito deste particular. Não somente os bons sentimentos, por si só, não
refletem a graça divina, como também pode ser positivamente perigo­
sos, se porventura nos contentarmos com eles, e não passarmos dos
sentimentos à ação. Uma profunda observação daquele poderoso mes­
tre sobre as questões morais, o bispo Butler, é que as impressões passivas,
quando repetidas com freqüência gradualmente vão perdendo todo o
seu poder. As ações por muitas vezes reiteradas produzem apenas um
hábito na mente humana. Se cedermos por múltiplas vezes aos nossos
sentimentos, sem nos deixarmos conduzir à ação correspondente, final­
mente não seremos mais tocados.
Apliquemos essa lição às nossas próprias condições. Talvez sai­
bamos o que significa ser assaltado por temores, desejos e anelos reli­
giosos. Cuidemos para nunca depender dessas coisas. Jamais fiquemos
satisfeitos enquanto não contarmos com o testemunho interior do Es­
pírito, em nossos corações, de que realmente nascemos de novo e somos
novas criaturas. Que não consigamos descansar enquanto não nos ti­
vermos realmente arrependido, tendo lançado mão da esperança que
nos é proposta no evangelho. É bom ter sentimentos. Mas é muito me­
lhor converter-se.
Em seguida, ainda com base no caso daquele jovem rico, enten­
demos que as pessoas nâo-convertidas são profundamente ignorantes
sobre os assuntos espirituais. Nosso Senhor fez aquele jovem inquiridor
meditar sobre o padrão eterno do que é certo e do que é errado — a
lei moral. Visto que o jovem havia falado tão ousadamente em “ fazer”
algo, Jesus submeteu-o a teste, mediante um conselho cuja finalidade
era sondar o verdadeiro estado de seu coração: “ Se queres, porém, en­
trar na vida, guarda os mandamentos” . Jesus chegou mesmo a relembrar
diante dele a segunda tábua dos mandamentos da lei. Diante da resposta
Mateus 19.16-22 159

de Jesus, o jovem retrucou prontamente, e com toda a confiança: “ Tudo


isso tenho observado; que me falta ainda?” Tão completamente igno­
rante mostrou-se ele quanto à profunda espiritualidade dos estatutos de
Deus que jamais duvidou de que estava cumprindo os mesmos com toda
a perfeição. Parecia totalmente inconsciente do fato que os mandamen­
tos aplicam-se até às palavras e aos pensamentos do indivíduo, e não
somente às suas ações. Portanto, se Deus tivesse de entrar em juízo
com ele, não poderia responder “ nem a uma de mil cousas” (Jó 9.3).
Quão entenebrecida devia ser a mente dele, quanto à natureza da lei
de Deus! Quão baixas deviam ser as suas idéias, no tocante à santidade
que Deus exige de nós!
É fato deveras melancólico que uma ignorância parecida com a
daquele jovem seja por demais comum entre os membros das igrejas
evangélicas. Há milhares de pessoas batizadas que não sabem mais a
respeito da doutrinas fundamentais do cristianismo do que os mais au­
tênticos pagãos. Dezenas de milhares enchem os nossos templos e capelas
semanalmente, mas que estão totalmente às escuras quanto à verdadeira
extensão da pecaminosidade humana. Esses apegam-se obstinadamente
à antiga noção de que, de uma maneira ou de outra, as suas próprias
obras serão capazes de salvá-los. Dessa forma, quando os pastores os
visitam em seus momentos finais, tais indivíduos mostram-se tão cegos
e ignorantes como quem nunca teve a oportunidade de ouvir a pregação
da verdade divina. Por conseguinte, temos de reconhecer aquela ver­
dade que estipula: “ Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito
de Deus, porque lhe são louçura” (1 Co 2.14).
Em último lugar, ainda firmados no caso do jovem rico, perce­
bemos que um ídolo afagado no coração pode arruinar uma alma para
sempre. Nosso Senhor, que sabia o que existe no homem, finalmente
mostrou ao jovem inquiridor qual era o seu pecado arraigado, que ele
não queria largar. A mesma voz sondadora que dissera à mulher sa-
maritana: “ Vai, chama teu marido e vem cá” (Jo 4.16), disse agora
ao jovem rico: “ vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um
tesouro no céu; depois vem, e segue-me” . Isso desmascarou de pronto
o ponto fraco do seu caráter. A realidade dos fatos era que, a despeito
de todos os seu desejos e anelos pela vida eterna, havia uma coisa que
ele amava ainda mais do que à sua alma, a saber, as riquezas materiais.
Isso posto, o jovem rico não passou na prova. Ele foi pesado na balança
e foi achado em falta. E a narrativa sobre ele termina com estas entris-
tecedoras palavras: “ Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra,
retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades” .
Nesse relato, pois, deparamo-nos com mais uma comprovação
daquela profunda verdade que afirma: “ Porque o amor do dinheiro é
160 Mateus 19.16-22

raiz de todos os males” (1 Tm 6.10). Em nossa maneira de conceber,


devemos colocar esse jovem rico lado a lado com Judas Iscariotes e
com Ananias e Safira, para, em seguida, aprendermos a evitar a cobiça.
Infelizmente, esse é um recife contra o qual milhares de pessoas nau­
fragam. Dificilmente encontraríamos um ministro do evangelho que não
poderia apontar para muitos membros de sua congregação e dizer que,
humanamente falando, eles “ não estão longe do reino de Deus” . Não
obstante, os tais nunca parecem fazer o menor progresso para mais perto
do Senhor. Eles desejam. Eles sentem muito. Eles são sinceros. Eles
esperam. Porém, não saem do lugar onde estão! E, por quê? Porque
apreciam exageradamente o dinheiro.
Façamos um teste que sonde a nós mesmos, antes de deixarmos
para trás esta passagem. Vejamos de que maneira ela afeta as nossas
almas. Somos honestos e sinceros do desejo que professamos ter de
sermos crentes verdadeiros? Temos desistido de todos os nossos ídolos?
Não haveria algum pecado secreto, ao qual continuamos aferrados em
silêncio, recusando-nos a desistir do mesmo? Não haveria alguma coisa,
ou alguma pessoa, que estejamos amando em particular mais do que
a Cristo e às nossas próprias almas? Essas são indagações que bradam
pedindo resposta. A verdadeira explicação sobre o estado insatisfatório
de tão grande número de ouvintes do evangelho é que eles estão presos
à idolatria espiritual. O conselho do apóstolo João aplica-se bem a eles:
“ Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” .

O Perigo das Riquezas;


Devemos Abandonar Tudo por Amor a Cristo
Leia Mateus 19.23-30

A primeira coisa que aprendemos, nestes versículos, é o imenso


perigo que as riquezas representam para a alma de quem as possui.
O Senhor Jesus declarou que ‘‘um rico dificilmente entrará no reino
dos céus” . Ele ainda foi mais longe: ‘‘é mais fácil passar um camelo
pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” ,
utilizando-se de um provérbio a fim de reforçar sua afirmação.
Dentre os provérbios usados por nosso Senhor, poucos soam mais
surpreendentes do que este. Poucos vão mais de encontro às opiniões
e preconceitos da humanidade. Poucos são tão pouco cridos. No entanto,
estas são palavras verdadeiras e dignas de toda aceitação. Riquezas,
que todos desejam obter, riquezas, pelas quais os homens labutam e
se cansam, e envelhecem antes do tempo — estas riquezas são uma pos­
Mateus 19.23-30 161

sessão perigosíssima. Elas com freqüência, causam grande dano à alma.


Elas expõem os homens a muitas tentações. Elas deturpam os pensa­
mentos e as afeições dos homens, atando pesados fardos ao coração
e tomando o caminho para o céu ainda mais difícil do que naturalmente é.
Estejamos precavidos contra o amor ao dinheiro. É possível usar
corretamente o dinheiro e fazer o bem com ele. Entretanto, para cada
um que faz uso correto do dinheiro, há milhares que fazem mau uso
dele e causam dano tanto a si próprios quanto a outrem. Que o homem
mundano transforme o dinheiro em um ídolo se quiser, e que ele até
considere mais feliz quem tem mais dinheiro! Mas os crentes, entretanto,
que dizem possuir “ um tesouro no céu” , volvem o rosto resolutamente
contra o espírito mundano, nesta questão.
Oremos diariamente pelas almas de pessoas ricas. Elas não de­
vem ser invejadas e, sim, são dignas de piedade, porque carregam fardos
pesados em sua caminhada cristã. Dentre todos os homens, são quem
mais improvavelmente podem correr de maneira a alcançar o prêmio
(1 Co 9.24). A sua prosperidade neste mundo geralmente é a sua per­
dição no mundo vindouro. São palavras muito apropriadas as da litania
da igreja anglicana: “ Em todo tempo de nossa prosperidade, ó bom
Senhor, livra-nos” .
A segunda coisa que aprendemos nesta passagem é o poder so­
berano da graça de Deus sobre a alma humana. Os discípulos ficaram
perplexos quando ouviram a linguagem de nosso Senhor acerca dos ri­
cos. Era uma linguagem tão contrária a todos os conceitos deles sobre
as vantagens advindas da riqueza, que exclamaram com surpresa: “ Sendo
assim, quem pode ser salvo?” A resposta foi graciosa e instrutiva: “ Isto
é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” .
O Espírito Santo pode levar até os homens mais abastados a pro­
curar um tesouro no céu. Ele pode fazer com que até mesmo os reis
deponham suas coroas aos pés de Cristo e considerem todas as coisas
como perda, por amor ao reino de Deus. Disto a Bíblia nos oferece
prova sobre prova. Abraão era muito rico e, no entanto, é o pai dos
fiéis. Moisés poderia ter sido um grande príncipe ou governador no
Egito, mas desistiu de todas as suas brilhantes perspectivas por amor
dAquele que é invisível. Jó foi o homem mais rico do Oriente, mesmo
assim era um servo escolhido de Deus. Davi, Josafá, Josias e Ezequias
foram todos ricos monarcas, mas amaram mais o favor divino do que
as possessões terrenas. Eles nos mostraram que para Deus não há “ cousa
demasiadamente difícil” , e que a fé pode desenvolver-se até no solo
mais impróprio.
Apeguemo-nos firmemente a esta doutrina sem jamais largá-la.
A posição e as circunstâncias externas de um homem não o impedem
162 Mateus 19.16-22

de entrar no reino de Deus. Nunca desesperemos da salvação de quem


quer qtíe seja. Sem dúvida, as pessoas ricas carecem de uma graça es­
pecial, e estão sujeitas a muitas tentações peculiares. Mas o Senhor Deus
de Abraão e de Moisés, de Jd e de Davi, em nada mudou. Ele que os
salvou, a despeito de suas riquezas, também pode salvar outros. “ Agindo
eu, quem o impedirá?” (Is 43.13).
A última coisa que nos é dado aprender, nestes versículos, é o
imenso encorajamento que o evangelho dá àqueles que desistem de tudo
por amor a Cristo. Somos informados de que Pedro indagou ao Senhor
o que ele e os demais apóstolos, tendo abandonado todo o pouco que
tinham por causa dEle, haveriam de receber em troca. Ele obteve a
mais grata das respostas. Plena recompensa será dada a todos os que
se sacrificam por amor a Cristo. Cada um “ receberá muitas vezes mais,
e herdará a vida eterna” .
Existe algo muito animador nesta promessa. Poucos são, nos dias
de hoje, os que são forçados a abandonar lares, parentes e propriedades
por causa da religião. Mesmo assim, são poucos os fiéis ao seu Senhor
que não têm, de uma maneira ou outra, passado por dificuldades. O
escândalo da cruz ainda não cessou! Risadas, ridículo, zombarias e per­
seguição familiar são, muitas vezes, a porção de um crente. Ele geral­
mente perde o favor do mundo. Cargos e posições muitas vezes são
postos em risco, por causa de sua fidelidade ao evangelho de Cristo.
Mas quem está exposto a provações desse tipo pode consolar-se com
a promessa contida nestes versículos. Jesus anteviu a necessidade e por
isso deixou esta promessa para nosso consolo.
Podemos ter certeza de que ninguém será real perdedor, seguindo
a Jesus Cristo. Pode parecer que o crente sofre desvantagem durante
algum tempo, quando inicia a sua caminhada de crente decidido. Ele
pode estar muito desanimado pelas aflições que lhe sobrevem por causa
de sua fé. Mas pode estar certo de que, a longo prazo, ele não será
perdedor. Cristo pode nos dar amigos que vão mais do que compensar-
-nos pelos amigos perdidos. Cristo pode abrir corações e lares para nós,
muito mais acolhedores e hospitaleiros do que aqueles que se fecham
contra nós. Acima de tudo, Cristo pode dar-nos paz de consciência,
alegria interior, esperanças brilhantes e sentimentos de felicidade, que
ultrapassarão qualquer prazer terreno que abandonemos por amor a Ele.
Ele empenhou a sua palavra de Rei, garantindo que assim será. Essa
palavra jamais falhou. Portanto, confiemos e não tenhamos qualquer
receio.
Mateus 20.1-16 163

A Parábola dos Trabalhadores na Vinha


Leia Mateus 20.1-16

Há inegáveis dificuldades na parábola contida nestes versículos.


A chave para explicá-las corretamente deve ser buscada na passagem
com que se encerrou o capítulo anterior. Lá encontramos o apóstolo
Pedro fazendo a nosso Senhor uma pergunta importante: “ Nós tudo
deixamos e te seguimos: que será, pois, de nós?” Vimos que Jesus lhe
deu uma resposta notável. Ele fez uma promessa especial a Pedro e
aos demais discípulos: eles um dia haveriam de assentar-se “ em doze
tronos para julgar as doze tribos de Israel” . Ele também fez uma pro­
messa geral, dirigida a todos quantos sofrem perdas por amor a Cristo.
Cada um dos tais ‘‘receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna’’.
Agora devemos lembrar que Pedro era judeu. Assim como a ma­
ioria dos judeus, mui provavelmente ele havia sido treinado na quase
total ignorância quanto aos propósitos de Deus para a salvação dos gen­
tios. De fato, o livro de Atos nos mostra que foi preciso receber uma
visão celestial para que se dissipasse a sua ignorância (At 10.28). Mais
do que isso, devemos ter em mente o fato que Pedro e os outros discí­
pulos eram fracos na fé e no conhecimento. Provavelmente, eles tendiam
a dar grande importância a seus próprios sacríficios por amor a Cristo,
inclinando-se para atitudes de justiça própria e presunção. Nosso Se­
nhor conhecia bem todos esses detalhes. Por isso, esta parábola tem
em vista beneficiar especialmente a Pedro e seus companheiros. O Se­
nhor fala daquilo que estava no coração de seus discípulos. Ele percebeu
qual o remédio que aqueles corações estavam precisando, e o aplicou
sem demora. Em poucas palavras, Ele refreou o orgulho crescente em
seus corações, e lhes ensinou humildade.
Na exposição desta parábola, não precisamos nos ocupar da signi­
ficação literal de “ denário” , “ praça” , “ administrador” ou “ hora” . Tais
indagações, com freqüência, obscurecem o conselho mediante palavras
sem entendimento. Calovius disse, e com razão, que ‘*a teologia das pará­
bolas não é argumentativa” . A opinião de Crisóstomo merece a nossa
atenção. Escreveu ele: “ Não é correto esquadrinhar curiosamente cada
palavra e cada minúcia em uma parábola; devemos apreender o obje­
tivo pelo qual foi composta, e examiná-lo, e não nos atarefar com
qualquer outra coisa” . Duas lições principais, portanto, parecem so­
bressair nesta parábola, abrangendo a finalidade geral de sua mensagem.
Contentemo-nos, pois, em compreender essas duas lições.
164 Mateus 20.1-16

Em primeiro lugar, aprendemos que Deus exerce uma graça livre,


soberana e incondicional quando chama o povo que irá professar o seu
nome na terra. Ele convoca as famílias da terra para a comunhão na
igreja visível, no tempo e segundo a maneira por Ele mesmo escolhidos.
Vemos essa verdade maravilhosamente ilustrada na história do
relacionamento de Deus com a humanidade. Vemos os filhos de Israel
sendo chamados e escolhidos para serem o povo de Deus já nos pri­
mórdios da história. Posteriormente muitos gentios foram chamados
pela pregação dos apóstolos. Nos dias de hoje, vemos outros povos sendo
alcançados mediante o labor dos missionários. Ainda vemos, porém,
muitos outros, como os chineses e hindus, que continuam “ desocupa­
dos” , porque ninguém os contratou. E qual a razão de tudo isso? Não
sabemos. O que sabemos é que Deus gosta de afastar da igreja o or­
gulho, não lhe dando ocasião para jactância. Ele nunca permitirá que
os ramos mais antigos de sua igreja olhem com desdém para os ramos
mais recentes. O evangelho oferece o perdão e a paz com Deus por
meio de Jesus Cristo, aos pagãos, hoje, tanto quanto ao apóstolo Paulo,
em sua época. Os convertidos dentre regiões distantes, neste século,
serão tão plenamente admitidos ao céu, quanto o mais santo dos patriar­
cas, que viveu há três mil e quinhentos anos atrás. A velha parede de
separação entre judeus e gentios foi derrubada. Não há nada que im­
peça os pagãos crentes de ser, com os judeus crentes, “ co-herdeiros...
e co-participantes da promessa em Cristo” (Ef 3.6). Os gentios que
se converterem na “ hora undécima” serão igualmente herdeiros da
glória, tão legítimos quanto os judeus. Eles se assentarão juntamente
com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus, enquanto que muitos dos
filhos do reino serão rejeitados. De fato, “ os últimos serão primeiros” .
Em segundo lugar, aprendemos que, na salvação de pessoas,
como no chamamento das nações, Deus é Soberano e não presta contas
de seus atos. Ele tem misericórdia de quem Lhe agrada ter misericórdia,
e isso, também, no tempo por Ele mesmo determinado (Rm 9.15).
Esta é uma verdade que vemos ilustrada em toda parte na igreja
de Cristo, na experiência prática. Vemos um homem que é chamado
ao arrependimento e fé ainda na infância, como Timóteo, e que trabalha
na vinha do Senhor quarenta ou cinqüenta anos. Vemos outro homem,
que é chamado à “ hora undécima” , como o ladrão na cruz, salvo como
um tição arrebatado do fogo — um dia, um pecador endurecido e im­
penitente, e, dia seguinte, no paraíso. Mesmo assim, o evangelho nos
permite crer que estes dois homens estão perdoados diante de Deus.
Ambos são igualmente lavados no sangue de Cristo e revestidos da jus­
tiça de Cristo. Ambos estão igualmente justificados, ambos aceitos, e
ambos estarão à direita de Cristo, no último dia.
Matem 20.1-16 165

Não há dúvida de que esta doutrina soa muito estranha aos ou­
vidos do cristão ainda ignorante e inexperiente. Ela confunde o orgulho
da natureza humana. Ela não permite que o homem se vanglorie em
justiça-própria. É uma doutrina rebaixadora e niveladora, e pode sus­
citar muita murmuração. Mas, é impossível rejeitá-la, a menos que
rejeitemos toda a Bíblia. A verdadeira fé em Cristo, mesmo que só tenha
um dia de idade, já justifica o homem perante Deus, tão completamente
quanto a fé verdadeira de quem tem seguido a Cristo por cinqüenta anos.
A justiça com que Timóteo se apresentará, no dia do juízo, é a mesma
com que se apresentará aquele ladrão que morreu na cruz ao lado de
Jesus. Ambos serão salvos exclusivamente pela graça, ambos deverão
tudo a Cristo. Nós podemos não gostar disso, mas assim é a doutrina
ensinada nesta parábola; e não somente nesta parábola, mas em todo
o Novo Testamento. Feliz é quem recebe esta doutrina com humildade
no coração! Com razão comentou o bispo Hall: “ Se alguns têm moti­
vos para magnificar a generosidade de Deus, ninguém tem, por isso,
motivos para queixar-se” .
Antes de passarmos adiante, armemo-nos de algumas precauções
que se fazem necessárias. Esta é uma porção das Escrituras que tem
sido freqüentemente pervertida e aplicada erroneamente. Muitas vezes,
os homens têm dela extraído algo que não é leite e, sim, veneno.
Cuidemos em jamais supor, por qualquer detalhe existente nesta
parábola, que a salvação possa, em qualquer sentido, ser obtida me­
diante boas obras. Supor tal coisa é lançar por terra todo o ensinamento
bíblico. Tudo o que um crente receber no mundo vindouro será por
graça, e não por dívida. Deus nunca está em dívida conosco, em hi­
pótese alguma. Mesmo depois de havermos feito tudo, continuamos sendo
servos inúteis (Lc 17.10).
Tomemos a precaução de não supor, refletindo sobre esta pará­
bola, que a distinção entre judeus e gentios tenha sido inteiramente
anulada pelo evangelho. Supor tal coisa seria contradizer muitas pro­
fecias inequívocas, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. No
tocante à justificação, não há diferença entre crente judeu e crente gen­
tio. No entanto, Israel continua sendo um povo especial, e “ não será
reputado entre as nações” (Nm 23.9). Deus ainda tem muitos propó­
sitos concernentes aos judeus, e que ainda estão por cumprir-se.
Tenhamos o cuidado de não supor que todas os salvos receberão
idêntico peso de glória. Tal suposição contradiz muitos textos claros
das Escrituras. A propriedade comum de todos os crentes é, sem dú­
vida, a justiça perfeita de Cristo. Mas nem todos terão a mesma posição
no céu. “ Cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio tra­
balho” (1 Co 3.8).
166 Mateus 20.1-16

Finalmente, temos o cuidado de não supor, baseados nesta pa­


rábola, que é seguro adiar o arrependimento para os últimos anos da
vida. Esse pensamento é uma ilusão das mais perigosas. Quanto mais
os homens se demoram em obedecer à voz de Cristo, menor a proba­
bilidade de virem a ser salvos. “ Eis agora o tempo sobremodo oportuno,
eis agora o dia da salvação’’ (2 Co 6.2). Pouquíssimas pessoas são sal­
vas no leito de morte. Um dos ladrões sobre a cruz foi salvo, para que
ninguém desesperasse da salvação; mas somente um, para que ninguém
tenha presunção. Uma falsa confiança nas palavras “ hora undécima”
tem arruinado milhares de almas.

Cristo Anuncia a sua Morte que se Aproxima;


O Misto de Ignorância e Fé em
Verdadeiros Discípulos
Leia Mateus 20.17-23

A primeira coisa que nos convém observar, nestes versículos,


é o claro anúncio que o Senhor Jesus Cristo faz acerca de sua própria
morte que se aproxima. Pela terceira vez, encontramo-Lo dizendo a
seus discípulos a espantosa revelação de que Ele, o Mestre, operador
de maravilhas, em breve terá de sofrer e morrer.
O Senhor Jesus sabia desde o princípio tudo o que O aguardava.
A traição de Judas Iscariotes, a feroz perseguição movida pelos prin­
cipais sacerdotes e escribas, o julgamento injusto, a sua entrega a Pilatos,
as zombarias, os açoites, a coroa de espinhos, a cruz, o ter de ficar
pendurado entre dois malfeitores, os cravos, a ponta da lança — Jesus
contemplava tudo isto em sua mente, como a um retrato.
O conhecimento prévio agrava em muito os sofrimentos de uma
pessoa, conforme sabem muito bem aqueles que estão na expectativa
de uma intervenção cirúrgica perigosa. Mas nada disso conseguiu aba­
lar nosso Senhor. Ele diz: “ Eu não fui rebelde, não me retraí. Ofereci
as costas aos que me feriam, e as faces aos que me arrancavam os ca­
belos; não escondi o meu rosto dos que me afrontavam e me cuspiam”
(Is 50.5-6). Durante toda a vida Jesus contemplou o Calvário à distância,
e, mesmo assim, caminhou tranqüilamente até ele, sem desviar-se nem
para a direita nem para a esquerda. Certamente, jamais houve tristeza
como a dEle, ou amor como o dEle.
O Senhor Jesus foi um sofredor voluntário. Quando morreu so­
bre a cruz, não foi porque não tivesse o poder para evitar tal coisa.
Ele sofreu propositalmente, por sua livre vontade (Jo 10.18). Ele sabia
Matem 20.17-23 167

que sem o derramamento de seu sangue não poderia haver remissão


dos pecados do homem. Ele tinha consciência de ser o Cordeiro de Deus,
que precisava morrer para tirar o pecado do mundo. Ele sabia que sua
morte era o sacrifício predeterminado, que tinha de ser oferecido para
fazer expiação pela iniqüidade. Sabendo de tudo isso, Ele caminhou
voluntariamente até à cruz. Seu coração estava resolvido a cumprir a
grandiosa obra que viera realizar neste mundo. Ele tinha plena cons­
ciência de que tudo dependia de sua própria morte, e que, sem ela, os
seus milagres e sua pregação teriam feito, comparativamente, nada por
este mundo. Não admira, pois, que três vezes Ele chamasse a atenção
de seus discípulos para a necessidade de sua morte. Bem-aventurados
e felizes são os que reconhecem o real significado e a importância dos
sofrimentos de Cristo!
A próxima coisa que deveríamos perceber, nestes versículos, é
o misto de ignorância efé, que pode ser encontrado mesmo nos crentes
mais bem intencionados. Vemos a mãe de Tiago e João aproximando-se
de nosso Senhor com seus dois filhos e apresentando em favor deles
uma estranha petição. Ela pede que “ no teu reino, estes meus dois fi­
lhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda’’. Ela parece
ter esquecido tudo quanto Jesus há pouco dissera sobre os seus sofri­
mentos. A mente ambiciosa dela só podia pensar na glória de Jesus.
Os avisos claros de sua crucificação também não foram acolhidos por
seus filhos. Eles não conseguiam pensar noutra coisa, senão no trono
de Cristo e em seu poder. Havia muita fé, da parte deles, nesse pedido,
mas havia também muita debilidade. Havia algo de elogiável no fato
que eles podiam ver em Jesus de Nazaré um futuro rei. Mas era cul­
pável o feto de terem-se esquecido de que ele deveria ser crucificado
antes que pudesse reinar. Verdadeiramente, a carne milita contra o Es­
pírito em todos os filhos de Deus. Com razão, pois, observou Lutero:
“ A carne sempre procura ser glorificada, antes de ser crucificada” .
Há muitos crentes que se assemelham a esta mulher e seus filhos.
Eles vêem em parte e conhecem em parte as coisas de Deus. Têm fé
suficiente para seguir a Cristo. Têm conhecimento suficiente para odiar
o pecado e deixar o mundo. Mesmo assim, há muitas verdades do cris­
tianismo que eles deploravelmente ignoram. Eles falam com ignorância,
agem em ignorância e cometem muitos e tristes equívocos. Eles conhe­
cem as Escrituras Sagradas apenas superficialmente, e o discernimento
que têm, quanto aos seus próprios corações, é muito pequeno. No en­
tanto, com base nestes versículos, devemos aprender a tratar gentilmente
com tais pessoas, porquanto o Senhor as recebeu para si. Não devemos
considerá-las como ímpias e destituídas da graça divina, somente por
causa de sua ignorância. Lembremo-nos de que pode haver a verdadeira
168 Mateus 20.17-23

fé no fundo do coração, mesmo que haja tanto entulho encobrindo-a.


Precisamos refletir sobre o fato que os filhos de Zebedeu, cujo conhe­
cimento era tão imperfeito a princípio, mais tarde se tomaram colunas
da igreja de Cristo. Da mesma forma, um homem pode começar sua
carreira em meio a muita ignorância; e, mesmo assim, pode finalmente
vir a tomar-se um homem poderoso nas Escrituras, um seguidor digno
do exemplo de Tiago e João.
A última coisa que deveríamos observar, nestes versículos, é a
solene reprovação com que nosso Senhor responde ao pedido da mu­
lher de Zebedeu e seus dois filhos. O Senhor Jesus disse: “ Não sabeis
o que pedis” . Eles haviam pedido para participar da recompensa de
seu Senhor; porém, não haviam considerado que primeiro teriam de
ser participantes dos sofrimentos de seu Senhor (1 Pe 4.13). Tinham-se
esquecido de que os que querem estar em pé, com Cristo na glória,
precisam beber do seu cálice e ser batizados em seus sofrimentos. Eles
não compreendiam que só aqueles que levam a cruz (e somente esses)
receberão a coroa. Portanto, foi com muita razão que disse nosso Se­
nhor: “ Não sabeis o que pedis” .
Mas, porventura, será que nós mesmos nunca incorremos nesse
equívoco? Nunca caímos no mesmo erro, fazendo pedidos impensados
e imprudentes? Não é verdade que com freqüência dizemos coisas em
nossas orações, sem antes “ calcular o custo” , e pedimos coisas sem
antes refletirmos sobre tudo o que nossas petições envolvem? Estas são
perguntas que nos perscrutam o coração. É de temer que muitos de nós
não possam dar as respostas satisfatórias.
Pedimos que nossa alma seja salva e vá para o céu quando morrer­
mos. Esse é um bom pedido, sem dúvida. Entretanto, estamos preparados
para tomar nossa cruz e seguir a Cristo? Estamos dispostos a desistir
do mundo por amor a Cristo? Estamos preparados para nos despirmos do
velho homem, revestindo-nos do novo — a lutar, trabalhar e correr de
maneira a que alcancemos este alvo? (1 Co 9.24). Estamos dispostos a
suportar toda zombaria do mundo e padecer dificuldades por amor à
causa de Cristo? Que diremos? Se não estamos assim preparados, nosso
Senhor poderá dizer a nós também: “ Não sabeis o que pedis” .
Pedimos que Deus nos tome santos e bondosos. Este é um bom
pedido, de fato. Todavia, estamos preparados a ser santificados mediante
qualquer processo que o Senhor Deus, em sua sabedoria, nos convoque
a passar? Estamos prontos para ser purificados por meio da aflição,
a sermos desapegados do mundo mediante privações, e a sermos tra­
zidos para mais perto de Deus mediante perdas, enfermidades e tristezas?
Ah! Estas são questões difíceis. Se não estamos prontos para tudo isso,
nosso Senhor bem poderá dizer-nos: “ Não sabeis o que pedis” .
Mateus 20.17-23 169

Ao deixamos estes versículos, tomemos a solene resolução de


considerar atentamente o que estamos fazendo, quando nos aproxima­
mos de Deus em oração. Procuremos evitar petições impensadas,
precipitadas, sobre as quais ainda não tenhamos considerado o bastante.
Foi com muita razão que Salomão deixou registrado: “ Não te preci­
pites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra
alguma diante de Deus” (Ec 5.2).

O Verdadeiro Padrão de Grandeza


Entre os Crentes
Leia Mateus 20.24-28

Estes versos são poucos em número, mas contêm lições de grande


importância para todos os verdadeiros cristãos. Vejamos em que con­
sistem.
Em primeiro lugar, aprendemos que mesmo entre verdadeiros
discípulos de Jesus pode haver orgulho, ciúme e amor à preeminência.
Que dizem as Escrituras? “ Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se
contra os dois irmãos” .
O orgulho é dos mais antigos e mais danosos pecados da huma­
nidade. Foi por orgulho que os anjos caíram, porque “ não guardaram
o seu estado original” (Jd 6). Foi através do orgulho que Adão e Eva
foram seduzidos a comer do fruto proibido. Eles não estavam contentes
com o seu destino e pensaram que podiam ser como Deus. O orgulho
é o causador dos maiores danos sofridos pelos santos de Deus depois
da conversão. Hooker, com razão, disse que “ o orgulho é um vício
que se apega tão teimosamente ao coração humano que, se nos tivés­
semos de desfazer de todas as nossas faltas, uma a uma, sem dúvida
descobriríamos que ela seria a última e mais difícil de todas as faltas
a “ eliminar” . Bispo Hall fez uma declaração curiosa, mas verídica:
“ O orgulho é a vestimenta mais íntima, da qual nos despimos por úl­
timo e que vestimos primeiro” .
Em segundo lugar, aprendemos que uma vida de auto-negação,
e gentileza para com outrem, é o verdadeiro segredo da grandeza no
reino de Cristo: “ Quem quiser tomar-se grande entre vós, será esse
o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso
servo” .
Os padrões deste mundo e os critérios do Senhor Jesus Cristo
são, de fato, largamente diferentes. São mais do que diferentes, são
diametralmente contrários. Entre os filhos deste mundo, é considerado
170 Mateus 20.24-28

grande aquele que tem mais terras, mais dinheiro, um maior número
de servos, maior posição social e maior poder. Entre os filhos de Deus,
maior é quem mais faz a fim de promover a felicidade espiritual e tem­
poral de seus semelhantes. A verdadeira grandeza consiste não em rece­
ber, mas em dar. Não consiste na aquisição egoísta de bens, mas, sim,
em conferir coisas boas aos nossos semelhantes. Não em sermos servidos,
mas em servir. Não em nos assentarmos enquanto outros ministram às
nossas necessidades, mas em sairmos para ministrar às necessidades
alheias. Os anjos percebem muito maior beleza no trabalho dos missioná­
rios do que no trabalho de quem procura ouro numa região distante. Eles
se interessam muito mais pelos labores de homens como Judson e Carey,
do que nas vitórias dos generais, nos discursos dos políticos ou nas deci­
sões dos ministros de Estado. Lembremo-nos disso! Tenhamos cuidado
em não procurar a falsa grandeza. Que o nosso alvo seja somente aquilo
que é verdade. Podemos saber com certeza que há profiinda sabedoria nas
palavras de Jesus: “ Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20.35).
Em terceiro lugar, aprendemos que o Senhor Jesus foi posto como
exemplo de todos os verdadeiros cristãos. Que dizem as Escrituras?
Deveríamos servir uns aos outros, “ tal como o Filho do homem, que
não veio para ser servido, mas para servir” .
O Senhor Deus tem providenciado, misericordiosamente, tudo
quanto é necessário para a santificação de seu povo. Ele tem dado pre­
ceitos claríssimos para os que seguem a santidade, bem como os melhores
motivos e as promessas mais encorajadoras. Isso, porém, ainda não é
tudo. Deus nos supriu como exemplo e padrão mais perfeitos, a saber,
a vida de seu próprio Filho. Ele nos manda amoldar nossa vida de acordo
com a vida de Jesus Cristo. Ele nos manda caminhar, seguindo os pas­
sos de Cristo (1 Pe 2.21). A vida de Cristo é o modelo segundo o qual
devemos esforçar-nos por moldar nosso temperamento, nossas palavras
e nossas atitudes neste mundo maligno. — Teria o meu Senhor falado
desta maneira? Meu Mestre teria agido desse modo? — Estas são per­
guntas que deveríamos fazer a nós mesmos diariamente.
Quão humilhadora é, para nós, esta verdade! Quanto exame de
coração ela nos invoca a fazer! Quão insistente é o chamamento para
nos desembaraçarmos “ de todo peso, e do pecado que tenazmente nos
assedia” ! Quão exemplares devem ser os que professam imitar a Cristo!
Que inútil é a religião que leva um homem a contentar-se com palavras
vazias, enquanto que em sua vida não há pureza nem santidade! Que
pena! Aqueles que desconhecem a Cristo como exemplo, finalmente
descobrirão que também Ele não os conhece como o povo que salvou!
“ Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim
como ele andou” (1 Jo 2.6).
Mateus 20.24-28 171

Finalmente, aprendemos, por estes versículos, que a morte de


Cristo foi uma expiação pelo pecado. Que dizem as Escrituras? Jesus
Cristo veio para “ dar a sua vida em resgate por muitos” .
Esta é a verdade mais poderosa na Bíblia. Cuidemos de nos ape­
gar firmemente a ela, sem jamais largá-la. Nosso Senhor Jesus Cristo
não morreu simplesmente como um mártir ou um exemplo esplêndido
de auto-sacriffcio e negação de si mesmo. Quem não pode ver mais
do que isso, na morte dEle, está muito aquém da verdade. Esses per­
dem de vista a própria pedra fundamental do cristianismo, e deixam
de receber a plena consolação do evangelho. A morte de Cristo foi um
sacrifício pelo pecado do homem. Ele morreu para fazer expiação pela
iniqüidade do homem, e expurgar os nossos pecados mediante a oferta
de Si mesmo. Ele morreu para nos redimir da maldição que todos nós
merecemos e para satisfazer a justiça de Deus que, senão pela morte
de Cristo, nos teria condenado. Nunca nos esqueçamos disso!
Todos nós somos devedores por natureza. Devemos ao nosso santo
Criador dez mil talentos, e não somos capazes de pagar essa dívida.
Não podemos fazer expiação pelas nossas próprias transgressões, visto
que somos fracos e incapazes, e só aumentamos, a cada dia, a nossa
dívida insolúvel. Mas, bendito seja Deus! Aquilo que não podíamos
fazer, Cristo fez por nós quando veio a este mundo. Aquilo que não
podíamos pagar, Jesus pagou por nós total e cabalmente, morrendo na
cruz do Calvário. Ele “ a si mesmo se ofereceu” a Deus (Hb 9.14).
“ Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos,
para conduzir-vos a Deus” (1 Pe 3.18). Novamente, jamais nos esque­
çamos desse fato!
Não deixemos estes versículos, sem perguntar a nós mesmos:
“ Onde está nossa humildade? Qual é a nossa idéia da verdadeira gran­
deza pessoal? Que exemplo estamos dando ao próximo? Qual é a nossa
esperança? A vida, a vida eterna, depende das respostas que damos a
estas indagações. Feliz é a pessoa verdadeiramente humilde, que se es­
força por praticar o bem, que caminha nos passos de Jesus confia
inteiramente no resgate pago mediante o sangue de Cristo. Assim é um
verdadeiro crente!
172 Mateus 20.29-34

A Cura de Dois Cegos


Leia Mateus 20.29-34

Nestes versículos encontramos o quadro de um acontecimento


na vida de Cristo. Ele cura dois cegos que estavam assentados à beira
do caminho, perto de Jericó. As circunstâncias dessa ocorrência con­
têm lições de profundo interesse, que todos os crentes fariam bem em
relembrar.
Antes de tudo, observemos que muita fé pode ser encontrada
onde às vezes menos esperamos encontrá-la. Embora cegos, aqueles
dois homens acreditavam que Jesus tinha poder para ajudá-los. Eles
jamais viram qualquer dos milagres de nosso Senhor. Conheciam-no
somente de ouvir falar, e não pessoalmente. Não obstante, tão logo ou­
viram que Ele estava passando, clamaram: “ Senhor, Filho de Davi,
tem compaixão de nós!”
Tamanha fé bem pode servir para nos envergonhar. Com todos
os nossos livros de evidências, biografias de santos e bibliotecas de te­
ologia, quão poucos conhecem algo daquela confiança simples, como
de uma criança, na misericórdia de Cristo e no poder de Cristo! Mesmo
entre os crentes, o grau da fé com freqüência é estranhamente despro­
porcional aos privilégios usufruídos. Muitas vezes, um homem inculto,
que só pode ler seu Novo Testamento com dificuldade, possui um es­
pírito de resoluta confiança na advocacia de Cristo, ao passo que teólogos
que já estudaram muito vêem-se assediados por dúvidas e questiona­
mentos. Os que, humanamente falando, deveriam ser os primeiros,
muitas vezes são os últimos; e os últimos são os primeiros.
Em seguida, notemos a sabedoria que existe em se aproveitar
cada oportunidade para o bem de nossa alma. Esses dois cegos esta­
vam “ assentados à beira do caminho” . Se lá não estivessem, provavel­
mente jamais teriam sido curados. Jesus nunca mais voltou a Jericó,
e eles jamais poderiam ter-se encontrado novamente com Ele.
Neste fato tão simples, vemos a importância da diligência no uso
dos meios da graça. Nunca deveríamos negligenciar a casa de Deus,
nem deixar de nos reunir com o povo de Deus, nem omitir a leitura
da Bíblia, nem abandonar a prática da oração individual. Estas coisas,
sem dúvida, não podem salvar-nos sem a atuação da graça do Espírito
Santo. Muitíssimos fazem uso deles, e, no entanto, permanecem mor­
tos em delitos e pecados. Porém, é mediante o uso desses meios de graça
que almas são convertidas e salvas. Eles são os caminhos em que anda
o Senhor Jesus. Os que se assentam “ à beira do caminho” são os que
Mateus 20.29-34 173

provavelmente serão curados. Conhecemos as enfermidades de nossa


alma? Temos algum desejo de consultar o grande Médico? Em caso
positivo, não deveríamos esperar em inatividade, dizendo que “ se eu
tiver de ser salvo, serei salvo de qualquer maneira” . Pelo contrário,
devemos nos levantar e ir para a estrada por onde passa Jesus. Quem
pode saber se logo não será a última vez que Ele estará passando por
aqui?! Assentemo-nos diariamente à beira do caminho.
Em terceiro lugar, observemos o valor do esforço e da perse­
verança na busca por Cristo. Os dois cegos foram repreendidos pela
multidão que acompanhava nosso Senhor. Disseram-lhes que se calas­
sem, mas isto não seria suficiente para silenciá-los. Eles sentiam o quanto
precisavam de ajuda. Em nada se importaram com a reprovação rece­
bida; “ gritavam cada vez mais: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia
de nós!”
Nisto temos um exemplo sumamente importante. Não devemos
nos deixar deter pela oposição, nem ficar desencorajados pelas dificul­
dades quando passamos a buscar a salvação de nossa alma. Devemos
“ orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1). Devemos recordar a pa­
rábola da viúva importuna, e a parábola do homem que foi à casa do
amigo à meia noite, a fim de conseguir pão emprestado. É dessa ma­
neira que devemos insistir com nossas preces diante do trono da graça,
dizendo: “ Não te deixarei ir, se me não abençoares” (Gn 32.26). Ami­
gos, parentes e vizinhos podem mesmo dizer coisas indelicadas e reprovar
o nosso intenso zelo. Podemos até encontrar frieza e falta de simpatia
no lugar aonde fomos procurar ajuda. Entretanto, que nada disso nos
abale. Se sentimos nossas enfermidades e desejamos ver a Jesus, o grande
Médico; se conhecemos os nossos pecados e queremos que Ele nos per­
doe, então prossigamos. “ O reino dos céus é tomado por esforço, e
os que se esforçam se apoderam dele” (Mt 11.12).
Finalmente, destaquemos quão gracioso o Senhor Jesus é para
com aqueles que O buscam. Parando Jesus, chamou-os. Ele gentilmente
perguntou o que desejam, escutou a petição e fez o que lhe pediram.
“ Condoído Jesus, tocou-lhes os olhos, e imediatamente recuperaram
a vista.”
Deparamo-nos aqui com uma ilustração daquela antiga verdade,
a misericórdia de Cristo para com os filhos dos homens, a qual nunca
podemos conhecer plenamente bem. O Senhor Jesus não é apenas um
Salvador poderoso, mas também é misericordioso, gentil e bondoso,
e em um grau que vai além da nossa compreensão. Como bem disse
o apóstolo Paulo: “ O amor de Cristo, que excede todo o entendimento”
(Ef 3.19). Como ele, oremos para que possamos conhecer mais desse
amor. Precisamos do amor de Cristo quando principiamos na carreira
174 Mateus 20.29-34

cristã, penitentes tremorosos e bebês na graça divina. Precisamos desse


amor, daí em diante, enquanto seguimos pelo caminho estreito, muitas
vezes errando, com freqüência tropeçando e nos sentindo desencoraja­
dos. Já no fim da vida, ainda precisaremos desse amor, ao passarmos
pelo vale da sombra da morte. Por conseguinte, apeguemo-nos firme­
mente ao amor de Cristo; seja esse amor a nossa meditação diária. Até
que despertemos, já no outro mundo, nunca saberemos, realmente, o
quanto devemos ao amor de Cristo.

A Entrada Triunfal em Jerusalém


Leia Mateus 21.1-11

Estes versículos narram um momento muito importante na vida


de nosso Senhor Jesus Cristo — a sua entrada pública em Jerusalém,
pela última vez antes de ser crucificado.
Há algo de peculiarmente notável nesse incidente na história de
nosso Senhor. A narrativa é como a descrição do retorno de um con­
quistador real à sua própria cidade. Multidões o acompanham, formando
um tipo de procissão triunfal. Altos clamores e expressões de louvor
são ouvidos ao redor de Jesus. “ Toda a cidade se alvoroçou” . O epi­
sódio inteiro é totalmente diferente do curso anterior da vida de nosso
Senhor. Do princípio ao fim, foi curiosamente diferente do que era co­
mum Àquele sobre quem estava escrito: “ Não clamará nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz na praça” (Is 42.2). Aquele que em outras
ocasiões se ausentava da multidão, e que dizia aos que por Ele eram
curados: “ Olha, não digas nada a ninguém” (Mc 1.44). No entanto,
todo este acontecimento admite uma explicação. Os motivos dessa en­
trada pública e triunfal não são difíceis de detectar. Vejamos quais são.
Na verdade, nosso Senhor sabia bem que o tempo de seu minis­
tério terreno estava por acabar. Ele sabia que já se aproximava a hora
em que deveria concluir a poderosa obra que viera realizar, morrendo
na cruz por nossos pecados. Ele sabia que suas andanças estavam ter­
minadas, e que para completar seu ministério terreno só lhe restava ser
oferecido como sacrifício sobre o Calvário. Sabendo de tudo isso, Jesus
não mais procurou manter segredo, como anteriormente. Sabendo de
tudo isso, Ele houve por bem entrar pública e solenemente no lugar
onde seria entregue à morte. Não convinha que o Cordeiro de Deus
viesse secretamente e em silêncio, para ser morto no Calvário. Antes
que fosse oferecido o grande sacrifício pelos pecados do mundo, era
correto que todos os olhos contemplassem a vítima. Convinha que o ato
Mateus 21.1-11 175

mais importante na vida de nosso Senhor fosse concretizado com tanta


notoriedade quanto possível. Por isso foi que Jesus fez sua entrada triun­
fal. Por isso foi que Ele atraiu para si os olhos admirados de toda a mul­
tidão. Por isso foi que toda Jerusalém se alvoroçou. O sangue expiatório
do Cordeiro de Deus estava prestes a ser derramado. Esse sacrifício
não devia ser feito em segredo, “ nalgum recanto” (At 26.26).
É bom relembrar estas coisas. A real significação da conduta de
nosso Senhor, durante esse período, não é considerada suficientemente
por muitos que lêem esta passagem. Devemos considerar as lições
práticas a que estes versículos parecem apontar.
Em primeiro lugar, temos um exemplo do conhecimento perfeito
de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele envia dois de seus discípulos a uma
aldeia, e disse-lhes que lá encontrariam o jumentinho em que Ele ha­
veria de montar. Ele lhes deu uma palavra para falarem aos donos do
animal; e, por causa dessa palavra, o jumentinho lhe seria enviado. E
tudo aconteceu exatamente como Jesus predissera.
Coisa nenhuma está escondida dos olhos de nosso Senhor. Para
Ele não há segredos. A sós ou acompanhados, de dia ou de noite, em
particular ou em público, Jesus tem conhecimento de todos os nossos
caminhos. Ele, que viu Natanael sob a figueira, em nada mudou. Indo
para onde quer que seja, e por mais que nos retiremos da sociedade
humana, jamais estamos longe dos olhos de Jesus Cristo.
Este é um pensamento que deveria exercer um efeito refreador
e santificador em nossa alma. Todos sabemos da influência que a pre­
sença dos governantes deste mundo tem sobre os cidadãos deste mundo.
A própria natureza nos ensina a refrear nossa língua e comportamento
quando estamos perante um rei. O senso do perfeito conhecimento que
nosso Senhor Jesus Cristo tem, de tudo quanto fazemos, deveria surtir
o mesmo efeito em nossos corações. Que nós nada façamos que não
gostaríamos que Cristo visse, e que nada digamos que não gostaríamos
que Cristo ouvisse. Procuremos viver e conduzir-nos, e fazer tudo, re­
lembrando continuamente a presença de Cristo. Que nos comportemos
como teríamos feito se tivéssemos caminhado com Cristo em compa­
nhia de Tiago e João, junto ao Mar da Galiléia. Esse é o modo de sermos
treinados para o céu. No céu, “ estaremos para sempre com o Senhor”
(1 Ts 4.17).
Em segundo lugar, temos um exemplo da maneira como foram
cumpridas as profecias sobre a primeira vinda de nosso Senhor. Somos
informados de que esta entrada triunfal cumpria a predição de Zacarias:
“ Eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em ju­
mento” (Zc 9.9).
Parece que essa predição teve um cumprimento literal e exato.
176 Mateus 21.1-11

As palavras que o profeta falou mediante o Espírito Santo não tiveram


um cumprimento figurado. Tal como ele disse, assim mesmo aconte­
ceu. Conforme ele predissera, assim foi feito. Quinhentos e cinqüenta
anos tinham-se passado desde que a predição fora feita, e quando che­
gou o tempo determinado, o Messias desde há muito prometido,
literalmente, entrou em Sião montado sobre um jumentinho. Entretanto,
não há que duvidar que a vasta maioria dos habitantes de Jerusalém
nada perceberam nessa circunstância. O véu estava posto sobre o co­
ração deles. Nós, porém, não somos deixados em dúvida no que diz
respeito ao cumprimento dessa profecia. É-nos dito claramente, que
“ isto aconteceu, para se cumprir o que foi dito, por intermédio do
profeta” .
Ao verificar o cumprimento da palavra de Deus em tempos pas­
sados, sem dúvida cumpre-nos formar uma idéia sobre como será o
cumprimento das profecias futuras. Podemos esperar que as profecias
acerca da segunda vinda de Cristo serão cumpridas tão literalmente
quanto foram as profecias do primeiro advento. Em sua primeira vinda,
Jesus veio a este mundo em pessoa, literalmente. Na segunda vez, Ele
virá em pessoa, literalmente. Na primeira, Ele uma vez veio em hu­
milhação, literalmente, para sofrer. Ele virá segunda vez, em glória,
literalmente, para reinar. Cada predição a respeito das coisas que acom­
panharam o seu primeiro advento, teve um cumprimento literal. O mesmo
sucederá quando Ele voltar a este mundo. Tudo quanto foi predito so­
bre a restauração dos judeus, sobre o julgamento dos ímpios, sobre a
incredulidade do mundo e o agrupamento dos eleitos, tudo se cumprirá
à risca. Nunca nos esqueçamos disso! No estudo das profecias que ainda
não se cumpriram, é de suma importância ter um princípio fixo de in­
terpretação.
Finalmente, observemos nestes versículos uma notável demons­
tração de que o favor humano não tem valor algum. Dentre toda a mul­
tidão que cercava ao Senhor Jesus quando Ele entrou em Jerusalém,
ninguém ficou ao lado dEle quando foi entregue às mãos de homens
iníquos. Muitos gritaram “ Hosana!” , e quatro dias mais tarde: “ Fora!
Fora! Crucifica-o! ” (Jo 19.15).
Mas este é um retrato fiel da natureza humana. É uma prova da
tamanha insensatez que é dar maior valor ao louvor do homem do que
ao louvor que vem de Deus. Na verdade, coisa alguma é tão inconstante
e incerta quanto a popularidade. Ela está aqui hoje, mas amanhã já de­
sapareceu. A popularidade é como um alicerce sobre a areia, que
certamente transtornará quem sobre ela construir. Que nós não façamos
caso dela. Pelo contrário, busquemos o favor dAquele que “ ontem e
hoje é o mesmo, e o será para sempre” (Hb 13.8). Jesus nunca muda.
Mateus 21.1-11 177

Aqueles a quem Ele ama, amará até o fim. O seu favor perdura para
sempre.

Expulsão dos Vendilhões do Templo;


A Figueira Infrutífera
Leia Mateus 21.12-22

Temos nestes versículos um relato de dois acontecimentos notá­


veis na história de nosso Senhor. Em ambos os casos havia algo de
eminentemente simbólico e típico. Cada um é uma figura de realidades
espirituais. Sob a superfície estão lições de solene instrução.
O primeiro acontecimento que requer a nossa atenção é a visita
de nosso Senhor ao templo. Ele encontrou a casa de seu Pai em uma
condição que mui verdadeiramente retratava a condição geral da igreja
judaica: tudo fora de ordem e fora de curso. Ele viu os átrios daquele
edifício sagrado sendo desgraçadamente profanados por transações mun­
danas. O comércio de compra e venda estava acontecendo dentro das
próprias muralhas do templo. Lá estavam os vendedores, prontos para
suprir os judeus que vinham de países distantes com qualquer sacrifício
que desejassem oferecer. Lá estavam os cambistas, prontos para trocar
o dinheiro estrangeiro por moeda corrente da nação. Bois, ovelhas, ca­
bras e pombas estavam lá expostos, como se o lugar fosse um mercado.
Podia-se ouvir o tilintar das moedas, como se aqueles átrios sagrados
fossem um banco ou casa de câmbio. Assim foram as cenas vistas pelos
olhos do Senhor. Jesus contemplou tudo aquilo com uma santa indig­
nação. “ Expulsou a todos os que ali vendiam e compravam; também
derrubou as mesas dos cambistas” . Não houve qualquer resistência,
porquanto sabiam que Ele estava certo. Objeção também não houve ne­
nhuma, pois todos sentiam que Ele estava apenas reformando um abuso
notório, que tinha sido aviltantemente permitido por amor ao lucro. Je­
sus teve boas razões para dizer aos mercadores espantados, enquanto
fugiam: “ Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós,
porém, a transformais em covil de salteadores” .
Deveríamos detectar, na conduta de nosso Senhor nessa ocasião,
um notável exemplo do que Ele fará quando vier pela segunda vez. Ele
irá purificar a sua igreja visível tal como purificou o templo. Ele a lim­
pará de tudo quanto a contamina e gera iniqüidade, e expulsará do meio
dela os mundanos. Jesus não permitirá que o adorador do dinheiro ou
amante do lucro esteja naquele templo glorioso que Ele finalmente ha­
verá de exibir perante o mundo. Que todos nós vivamos na expectação
178 Mateus 12.12-22

diária de sua vinda! Devemos julgar a nós mesmos, a fim de não ser­
mos condenados e rejeitados naquele dia de exame e triagem! Deveríamos
sempre estudar aquelas palavras de Malaquias: “ Quem pode suportar
o dia da sua vinda? E quem subsistir quando Ele aparecer? Porque Ele
é como o fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros” (Ml 3.2).
O segundo evento que chama nossa atenção, nestes versículos,
é a maldição sobre a figueira infrutífera. Somos informados que Jesus,
“ vendo uma figueira ã beira do caminho, aproximou-se dela; e, não
tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E
a figueira secou imediatamente” . Este é um incidente quase que sem
paralelo em todo o ministério de nosso Senhor. Essa é praticamente
a única ocasião em que vemos Jesus fazer uma de suas criaturas sofrer,
a fim de com isso ensinar uma verdade espiritual. Havia naquela figueira
ressecada uma lição que nos perscruta o coração. Ela prega um sermão
que todos nós faríamos bem em escutar.
Aquela figueira, recoberta de folhas porém sem frutos, era uma
notória figura da igreja judaica quando nosso Senhor veio à terra. A
igreja judaica tinha tudo para ser um impressionante espetáculo. Ela
tinha o templo, o sacerdócio, o culto diário, as festas anuais, as Escri­
turas do Antigo Testamento, os turnos dos levitas, os sacrifícios da manhã
e da tarde. Porém, por detrás dessa folhagem exuberante, a igreja ju­
daica estava completamente destituída de frutos. Não havia nenhuma
graça, nenhuma fé, nenhum amor, nenhuma humildade, nenhuma es­
piritualidade, nenhuma santidade real, nenhuma disposição para receber
ao seu Messias (Jo 1.11). E assim, como a figueira, a igreja judaica
não demoraria a secar. Ela haveria de ser despida de todos os seus or­
namentos exteriores, e os seus membros seriam dispersos por toda a
face da terra. Jerusalém seria destruída; o templo iria ser queimado;
o sacrifício diário seria interrompido. A árvore haveria de secar até
às raízes. E isso mesmo foi o que aconteceu. Nunca houve um tipo sim­
bólico que se cumprisse tão literalmente. Em cada judeu errante podemos
ver um ramo dessa figueira que foi derribada.
Porém, não podemos parar aqui. Deste evento podemos extrair
ainda outras instruções. Estas coisas foram escritas tanto para os judeus
quanto por nossa causa.
Não está cada ramo infrutífero da igreja visível de Jesus Cristo
em um tremendo perigo de se tornar uma figueira seca? Sem a menor
dúvida! Altos privilégios e posições eclesiásticas, desacompanhadas de
santidade entre o povo; confiança exagerada em concílios, bispos,
liturgias e cerimônias, enquanto que o arrependimento e fé são negli­
genciados. Tais coisas têm aniquilado muitas igrejas no passado, e podem
ainda destruir muitas outras mais. Onde estão igrejas como as de Éfeso,
Matem 21.12-22 179

Sardes, Cartago e Hipona, que em seu tempo foram tão famosas? To­
das desapareceram. Elas tinham folhagem mas não frutificavam. A
maldição de nosso Senhor veio sobre elas, e tomaram-se figueiras se­
cas. Saiu o decreto divino: “ Cortai a árvore, e destruí-a” (Dn 4.23).
Lembremo-nos disso! Tenhamos todo o cuidado de evitar o orgulho
eclesiástico. “ Não te ensoberbeças, mas teme” (Rm 11.20).
Por fim, não está uma pessoa que se diz cristã, mas não produz
fruto algum em um perigo terrível, podendo tomar-se uma figueira seca?
Não há que duvidar disso. Enquanto se contenta com a mera folhagem
da religião (com um nome de quem vive, ao mesmo tempo em que está
morto, e tendo apenas a forma de piedade sem poder), a alma da pessoa
está em grande perigo. Enquanto se satisfizer em ir à igreja e participar
da Ceia do Senhor, e ser chamado de “ cristão” ; enquanto seu coração
não tiver sido transformado e não houver abandonado os seus pecados,
neste tempo está diariamente provocando a Deus a cortar a árvore ir­
remediavelmente. Fruto, fruto — o fruto do Espírito é a única prova
segura de que estamos unidos a Jesus Cristo, salvos, e a caminho do
céu. Que este pensamento lance raízes profundas em nossos corações
e jamais seja esquecido.

A Resposta de Cristo aos Fariseus Que


Questionavam a sua Autoridade; Os Dois Filhos
Leia Matem 21.23-32

Estes versículos contêm um diálogo entre nosso Senhor Jesus


Cristo e os principais sacerdotes e anciãos dentre o povo. Aqueles amar­
gos adversários de toda a retidão, viram a sensação que a entrada triunfal
em Jerusalém e a purificação do templo haviam provocado. Imediata­
mente eles cercaram nosso Senhor, como abelhas, procurando um motivo
para levantar acusação contra ele.
Observemos, em primeiro lugar, como os inimigos da verdade
estão sempre preparados para questionar a autoridade de todos quan­
tos se conduzem melhor do que eles próprios. Os principais dos sacerdotes
não tinham uma única palavra que dizer contra os ensinamentos de nosso
Senhor. Não podiam fazer sequer uma acusação contra a vida e a con­
duta de Jesus e seus seguidores. Por isso, trataram de questionar a sua
comissão divina, indagando: “ Com que autoridade fazes estas cousas?
E quem te deu essa autoridade?”
Idêntica acusação com freqüência tem sido lançada contra os ser­
vos do Senhor, quando eles procuram refrear o progresso da corrupção
180 Mateus 21.23-32

eclesiástica. É uma velha artimanha, pela qual os filhos deste mundo


têm muitas vezes tentado impedir o avanço das reformas e reavivamen-
tos. É uma espada que muitas vezes foi brandida contra a face dos
reformadores, dos puritanos e metodistas, séculos atrás. É uma flecha
envenenada, que muitas vezes é atirada contra os missionários e obrei­
ros leigos, hoje em dia. Não poucos são os que em nada se importam
com a manifesta bênção de Deus, sobre o trabalho de um homem, se
tal homem não foi enviado pela seita ou denominação a que pertence.
Não importa se pela instrumentalidade de um humilde obreiro Deus
tem realizado muitas conversões em sua seara, eles prosseguem ques­
tionando: “ Com que autoridade fazes estas cousas?”
O sucesso desse obreiro nada significa; eles querem saber quem
o enviou. As grandes coisas que tem sido feitas, nada significam; eles
querem ver o seu diploma. Não devemos ficar nem surpresos nem de­
sanimados quando ouvimos tais coisas. Esta mesma argumentação foi
levantada contra o próprio Jesus Cristo. “ Nada há, pois, novo debaixo
do sol” (Ec 1.9).
Observemos, em segundo lugar, a sabedoria consumada com que
nosso Senhor replicou à indagação que lhe fora dirigida. Os adversá­
rios lhe haviam perguntado com que autoridade Ele fazia o que fazia.
Ao que tudo indica, tencionavam fazer de sua resposta um motivo de
acusação contra Ele. O Senhor, porém, sabia quais eram as verdadeiras
intenções da pergunta, e por isso disse: “ Eu também vos farei uma per­
gunta; se me responderdes, também eu vos direi com que autoridade
faço estas cousas. Donde era o batismo de João? Do céu ou dos homens?”
Devemos entender claramente que nesta resposta de nosso Se­
nhor não havia evasiva. Supor que Jesus estivesse fugindo à pergunta
seria um grande erro. A pergunta que usou como resposta foi, na re­
alidade, uma inquirição de seus inimigos. Jesus sabia que eles não
ousariam negar que João Batista fora um homem enviado por Deus.
Ele sabia que, uma vez admitida essa verdade, só tinha que relembrá-
-los do testemunho de João Batista sobre a sua pessoa. Não tinha João
declarado ser Jesus “ o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” ?
Não tinha João Batista ensinado que Ele, Jesus, era quem haveria de
batizar “ com o Espírito Santo” ? Em suma, a pergunta de nosso Senhor
foi um golpe certeiro na consciência de seus inimigos. Uma vez ad­
mitida a autoridade divina da missão de João Batista, eles também teriam
que admitir a autoridade divina de Jesus Cristo. Reconhecendo que João
Batista fora enviado do céu, eles também teriam de reconhecer que Je­
sus era o Cristo.
Oremos para que, neste mundo hostil, seja-nos proporcionada
a mesma sabedoria que foi aqui demonstrada por nosso Senhor. Sem
Mateus 21.23-32 181

dúvida, devemos seguir a determinação do apóstolo Pedro: “ estando


sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão
da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor’’
(1 Pe 3.15). Não devemos nos encolher diante de um questionamento
a respeito dos princípios que regem a nossa santa religião. Devemos
sempre estar preparados para defender e explicar nossa prática, a qual­
quer tempo. Contudo, lembremo-nos de que, para isso, é necessário
sabedoria. Em defesa de uma boa causa, devemos procurar falar sabia­
mente. As palavras de Salomão merecem consideração: “ Não respondas
ao insensato segundo a sua estultícia, para que não te faças semelhante
a ele” (Pv 26.4).
Em último lugar, observemos quão grande encorajamento nosso
Senhor oferece àqueles que se arrependem. Vemos isso salientado clara­
mente na parábola dos dois filhos. Ambos receberam ordem de ir tra­
balhar na vinha de seu pai. Um dos filhos, como os cerimoniosos fariseus,
fingiu estar disposto a obedecer, mas realmente não foi. O outro, como
os devassos publicanos, por algum tempo recusou-se abertamente a obe­
decer, mas depois arrependeu-se e foi. “ Qual dos dois” , nosso Senhor
pergunta, “ fez a vontade do pai?” Mesmo os seus inimigos foram obri­
gados a responder: “ O segundo” .
Que se tome um princípio bem estabelecido em nosso cristianismo,
que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo está infinitamente dis­
posto a receber pecadores penitentes. Não importa o que um homem
tenha sido no passado. Se ele se arrepende e vem a Cristo, então as
coisas antigas já passaram, e eis que tudo se fez novo. Não importa
quão elevada e auto-confiante possa ser a religiosidade de um homem.
Se ele não desiste realmente de seus pecados, a sua religião não passa
de uma abominação aos olhos de Deus, e ele mesmo está ainda sob
a maldição divina. Se até agora temos sido grandes pecadores, que então
tomemos coragem! Basta que nos arrependamos e confiemos em Cristo,
e então haverá esperança. Que nós encoragemos outras pessoas a se
arrependerem. Mantenhamos bem aberta a porta, para que mesmo o
principal dos pecadores possa entrar. A palavra jamais falhará: “ Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os
pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9).
182 Mateus 21.33-46

A Parábola dos Lavradores Maus


Leia Mateus 21.33-46

A parábola contida nestes versículos foi proferida com especial


referência aos judeus. Eles são os lavradores aqui mencionados. São
os pecados deles que estão aqui retratados. Disso não há dúvida, pois
está escrito que “ era a respeito deles que Jesus falava” .
Mas nós não devemos nos exaltar, dizendo que esta parábola nada
contém para os gentios. Nela estão contidas lições tanto para os judeus,
quanto para nós. Vejamos quais são.
Antes de tudo, vemos os privilégios distintivos que Deus se agrada
em proporcionar a certas nações. Ele escolheu Israel como seu povo
peculiar. Ele os separou dentre as outras nações da terra, e lhes con­
cedeu incontáveis bênçãos. Ele deu a Israel revelações de Si mesmo,
enquanto que o restante da humanidade continuava em trevas. Ele deu
aos israelitas a lei, as alianças e os oráculos de Deus, enquanto que
os outros povos foram deixados como estavam. Em suma, Deus tratou
com os judeus à semelhança de como um homem trata de um pedaço
de terra que cerca e cultiva, enquanto todos os campos ao redor são
deixados sem cultivo, como terras devolutas. A vinha do Senhor, era
a casa de Israel (Is 5.7).
E nós, não temos nenhum privilégio? Sem dúvida, temos muitos.
Temos a Bíblia, e a liberdade, cada um de nós, para a ler. Temos o
evangelho e a permissão de escutar e crer. Dispomos de abundantes
misericórdias espirituais, acerca das quais bilhões de homens nada sa­
bem. Quão agradecidos deveríamos ser! O mais pobre entre nós pode
dizer, cada manhã: “ Há bilhões de almas imortais que estão em pior
situação do que eu. Quem sou eu para ser diferente? Bendize ao Se­
nhor, ó minha alma!”
Em seguida, percebemos como as nações fazem mau uso dos pri­
vilégios de que dispõem. Quando o Senhor separou os israelitas dentre
os outros povos, Ele tinha o direito de esperar que eles o serviriam e
obedeceriam às suas leis. Quando um homem cultiva uma vinha, tem
o direito de esperar frutos. Mas Israel não retribuiu adequadamente todas
as misericórdias divinas. Eles se misturaram com os pagãos e apren­
deram caminhos pecaminosos. Eles se endureceram no pecado e na
incredulidade. Voltaram-se para os ídolos. Não guardaram as ordenan­
ças de Deus. Desprezaram o templo de Deus. Recusaram-se a ouvir
os profetas de Deus. Maltrataram aqueles a quem Deus enviou para
chamá-los ao arrependimento. E, finalmente, levaram a sua iniqüidade
Mateus 21.33-46 183

a um ponto extremo, matando o próprio Filho de Deus, o Senhor Jesus


Cristo.
E o que estamos nós fazendo com nossos privilégios? Esta é uma
pergunta muita séria, e que deveria nos fazer refletir. É de temer que
nossa nação não esteja vivendo de acordo com a luz e as muitas mi­
sericórdias que já temos recebido. Devemos confessar, envergonhados,
que milhões dentre nós parecem estar vivendo totalmente sem Deus neste
mundo. Devemos reconhecer que em muitas cidades e povoados Cristo
parece não ter nenhum discípulo, e parece não haver ninguém que creia
na Bíblia. É inútil cerrarmos os olhos diante desses fatos. O fruto que
o Senhor está recebendo de sua vinha, em nosso país, comparado com
o que deveria ser, é desgraçadamente pequeno. Temos razões para pen­
sar que somos tão provocativos quanto os judeus, aos olhos do Senhor.
Em seguida, vemos o terrívei acerto de contas que Deus às vezes
faz com nações e igrejas que fazem mau uso de seus privilégios. Che­
gou, finalmente, o tempo em que a longanimidade de Deus para com
o seu povo se esgotou. Quarenta anos após a morte de nosso Senhor,
o cálice das suas iniqüidades transbordou, e eles receberam um pesado
castigo por seus muitos pecados. Jerusalém, a cidade santa foi destru­
ída. O templo foi queimado. Eles mesmos foram espalhados por toda
a face da terra. O reino de Deus foi tirado e entregue a um povo que
lhe produzisse os respectivos frutos.
Será que o mesmo acontecerá conosco? Virão os juízos de Deus
sobre esta nação, por causa de sua infidelidade em face de tantas mi­
sericórdias? Quem pode dizer?! Só podemos afirmar aquilo que disse
o profeta: “ Tu, ó Senhor, o sabes” (Jr 15.15). Porém, sabemos que
o julgamento tem sobrevindo a muitas igrejas e nações, nos últimos
mil e novecentos anos. O reino de Deus foi tirado das igrejas cristãs
no norte da África. O poder do islamismo tomou o lugar da maior parte
das antigas igrejas cristãs no Oriente. Por isso, convém que todos os
crentes intercedam insistentemente em favor de nosso país. Nada ofende
tanto a Deus quanto a negligência em relação aos nossos privilégios.
Muito nos tem sido dado, e muito nos será requerido.
Em último lugar, vemos o poder da consciência, mesmo sobre
os ímpios. Os principais sacerdotes e anciãos descobriram, por fim,
que a parábola de nosso Senhor visava especialmente a eles. Aquelas
últimas palavras tinham sido cortantes demais para não serem perce­
bidas. Eles “ entenderam que era a respeito deles que Jesus falava” .
Em cada congregação há muitos ouvintes do evangelho que se
encontram exatamente nas mesmas condições desses infelizes judeus.
Eles sabem que é verdade aquilo que ouvem, domingo após domingo.
Eles sabem que estão errados, e sabem que cada sermão os condena
184 Mateus 21.33-46

ainda mais. Contudo não têm a vontade e nem a coragem de reconhecer


isso. São por demais orgulhosos e muito amigos do mundo para con­
fessar os erros passados, tomar a cruz e seguir a Cristo! Que nós tomemos
precaução contra esse horrendo estado mental. O dia final proverá que
houve muito mais consciências perturbadas entre ouvintes do que ja­
mais desconfiaram os pregadores. Haverá milhares e milhares de
pecadores que, como os principais dos sacerdotes judeus, foram con­
denados pela própria consciência, mas que, mesmo assim, morreram
sem se converter.

A Parábola das Bodas


Leia Mateus 22.1-14

A parábola relatada nestes versículos tem uma significação muito


ampla. Em sua aplicação primária, inquestionavelmente ela aponta para
os judeus. Porém, não podemos limitá-la somente a eles, pois esta pa­
rábola contém lições que perscrutam o coração, para todos quantos o
evangelho é pregado. Ela é um quadro espiritual que ainda hoje fala
conosco, se é que temos ouvidos para ouvir. A observação de Olshau-
sen é sábia e verídica: “ As parábolas são como pedras preciosas de
múltiplas facetas, cortadas de modo a lançar o seu brilho em mais de
uma direção’’.
Observemos, em primeiro lugar, que a salvação anunciada no
evangelho é comparada a uma festa de casamento. O Senhor Jesus nos
fala de “ um rei que celebrou as bodas de seu filho” .
Existe no evangelho uma provisão completa para todas as neces­
sidades da alma humana. Há um suprimento de tudo quanto se requer
para aliviar a fome e sede espiritual. Perdão, paz com Deus, uma viva
esperança neste mundo, glória no mundo vindouro, são bênçãos retra­
tadas diante dos nossos olhos em rica abundância. Trata-se de “ um
banquete de cousas gordurosas” (Is 25.6). Toda esta provisão é devida
ao amor manifestado pelo Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor.
Ele deseja nos unir a si mesmo, restaurar-nos à família de Deus como
filhos queridos, vestir-nos com a sua própria justiça, dar-nos uma po­
sição em seu reinado e nos apresentar inculpáveis perante o trono de
seu Pai, no último dia. O evangelho, em suma, é uma oferta de pão
para o faminto, de alegria para o triste, de um lar para o desprezado,
de um amigo para o perdido. O evangelho é boas novas. Deus oferece
identificar-se com o homem pecador, mediante seu Filho querido. Ja­
mais nos esqueçamos: “ Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos
Mateus 22.1-14 185

amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como
propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4.10).
Em segundo lugar, tomemos nota do fato que os convites do evan­
gelho são amplos, plenos, generosos e ilimitados. Nesta parábola, o
Senhor Jesus nos conta que os servos disseram aos convidados: “ Tudo
está pronto; vinde para as bodas” . Da parte de Deus não há nada fal­
tando para a salvação da alma dos pecadores. Ninguém jamais poderá
dizer, no fim, que foi por culpa de Deus que não se salvou. O Pai está
pronto para amar e acolher. O Filho está pronto para perdoar e limpar
de toda culpa. O Espírito está pronto para santificar e renovar. Os anjos
estão prontos para se regozijarem ante cada pecador que retoma ao ca­
minho reto. A graça está pronta para assisti-lo. A Bíblia está pronta
para instruí-lo. O céu está pronto para ser o seu lar eterno. Só uma
coisa é necessária: que o próprio pecador esteja desejoso de ser salvo.
Que isso, também, jamais seja esquecido. Que não fiquemos debatendo
e perdendo-nos em minúcias acerca deste assunto tão simples. Deus
sempre será achado inocente do sangue de todas as almas perdidas. O
evangelho sempre fala dos pecadores como seres responsáveis e que
terão de prestar contas a Deus. O evangelho coloca uma porta aberta
diante de toda a humanidade. Ninguém está excluído desse convite uni­
versal. Embora eficaz somente para os que crêem, ele é suficiente para
a humanidade inteira. Embora poucos são os que entram pela porta es­
treita, todos são igualmente convidados a entrar por ela.
Em terceiro lugar, notemos que a salvação oferecida pelo evan­
gelho é rejeitada por muitos daqueles a quem ela é oferecida. O Senhor
Jesus nos conta que os convidados, chamados pelos servos do rei, “ não
se importaram e se foram” .
Há milhares de ouvintes do evangelho que em nada se benefi­
ciam dele. Eles ouvem a pregação domingo após domingo, ano após
ano, mas não crêem para a salvação de sua alma. Eles não sentem qual­
quer necessidade especial do evangelho. Não vêem qualquer beleza
especial nele. Talvez não cheguem a odiar, nem a se opor, nem façam
oposição ao evangelho. Porém, não o recebem no coração. Há outras
coisas de que eles gostam muito mais. Seu dinheiro, suas terras, seus
negócios e seus prazeres são todos assuntos muito mais interessantes
para eles do que a salvação da alma. Esse é um estado mental deplo­
rável, porém horrivelmente comum. Que nós examinemos o nosso
próprio coração, e tomemos o cuidado de que esse não seja também
o nosso. O pecado notório pode matar os seus milhares, mas a indife­
rença e a negligência ao evangelho matam os seus dez milhares. Mul­
tidões se verão no inferno, não tanto porque desobedeceram aberta­
mente aos dez mandamentos, mas porque fizeram pouco caso da verdade.
186 Mateus 22.1-14

Cristo morreu por eles na cruz, mas eles O negligenciaram.


Em último lugar, observemos que todos quantos professam fal­
samente a religião cristã serão detectados, desmascarados e condenados
eternamente, no último dia. O Senhor Jesus nos conta que, quando fi­
nalmente chegaram os convidados para as bodas, o rei entrou para ver
os que estavam às mesas, e “ notou ali um homem que não trazia veste
nupcial” . O rei perguntou ao homem como este havia entrado, vestido
impropriamente, mas não obteve qualquer resposta. Ordenou então o
rei a seus servos: “ Amarrai-o de pés e mãos, e lançai-o para fora, nas
trevas” .
Sempre haverá alguns falsos membros na igreja de Cristo, en­
quanto o mundo existir. Nesta parábola, segundo disse Quesnel, “ Um
único expulso representa todos os demais que serão expulsos” . E im­
possível lermos os corações dos homens. Enganadores e hipócritas nunca
serão totalmente excluídos do meio dos verdadeiros cristãos. Desde que
uma pessoa professe obediência ao evangelho e viva uma vida exter­
namente correta, não ousamos afirmar categoricamente que tal pessoa
não esteja justificada por Cristo. Entretanto, não haverá qualquer dú­
vida, no dia do juízo. O olho infalível de Deus irá discernir quem é
do seu povo e quem não é. Coisa alguma, senão a fé verdadeira, será
capaz de subsistir ao fogo do julgamento. Todo e qualquer cristianismo
espúrio será pesado na balança e achado em falta. Ninguém, senão os
verdadeiros crentes, participará da ceia das bodas do Cordeiro. Ao hi­
pócrita de nada valerá ter falado muito sobre religião e ter tido a reputação
de ser um cristão eminente entre os homens. O seu triunfo não perdu­
rará. Ele será despido de toda a sua plumagem emprestada, e ficará
nú e trêmulo perante o tribunal de Deus — mudo, condenado por si
mesmo, sem esperança e sem salvação. Ele será lançado nas trevas ex­
teriores, em opróbrio, colhendo assim aquilo que semeou em vida. O
Senhor Jesus disse que “ ali haverá choro e ranger de dentes” .
Que nós aprendamos sabedoria através dos quadros desta pará­
bola, e sejamos diligentes em procurar confirmar a nossa vocação e
eleição (1 Pe 1.10). A nós, também, é dito: “ Tudo está pronto; vinde
para as bodas” . Tenhamos cuidado de não recusar ao que fala (Hb 12.25).
Não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos
sóbrios (1 Ts 5.6). O tempo urge. O Rei em breve entrará para ver
os convidados. Já recebemos ou não a veste nupcial? Já nos revestimos
de Cristo? Essa é a grande indagação levantada por esta parábola. Que
jamais descansemos enquanto não pudermos dar uma resposta satisfa­
tória a essa pergunta. Que estas palavras soem diariamente em nossos
ouvidos, e nos sondem o coração: “ Muitos são chamados, mas poucos
escolhidos” .
Mateus 22.15-22 187

Os Fariseus e a Questão do Tributo


Leia Mateus 22.15-22

Nesta passagem, encontramos o primeiro de uma série de ata­


ques sutis desfechados contra nosso Senhor nos últimos dias de seu
ministério terrestre. Seus adversários mortíferos, os fariseus, notaram
a imensa influência que Ele estava obtendo, tanto por seus milagres
quanto por sua pregação. Eles estavam determinados a silenciá-Lo ou
a tirar-Lhe a vida. Por esse motivo, procuravam “ como o surpreen­
deriam em alguma palavra” . Eles lhe enviaram discípulos juntamente
com os herodianos, com o propósito de apanhá-Lo em perguntas di­
fíceis. Desejavam encurralá-Lo para que dissesse algo que servisse de
motivo para uma acusação. Mas o esquema, conforme somos infor­
mados nestes versículos, falhou completamente. O movimento resultou
em nada, e retiraram-se em confusão.
A primeira coisa que nos chama a atenção, nestes versículos, é
a linguagem bajuladora com a qual nosso Senhor foi abordado por seus
adversários. Disseram-Lhe: “ Mestre, sabemos que és verdadeiro e que
ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares
com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens” .
Como aqueles fariseus e herodianos falavam bem! Que palavras lison­
jeiras e doces! Eles pensaram, sem dúvida, que com boas palavras e
belos discursos conseguiriam fazer nosso Senhor descuidar-se do que
dizia. Deles bem se poderia dizer: “ A sua boca era mais macia que
a manteiga, porém no coração havia guerra; as suas palavras eram mais
brandas que o azeite, contudo eram espadas desembainhadas” (Sl 55.21).
Convém que todos os crentes estejam em guarda contra a baju­
lação. Estamos grandemente enganados se supomos que as únicas armas
no arsenal de Satanás são a perseguição e os maus tratos. Esse inimigo
engenhoso dispõe de outros dispositivos para nos prejudicar, os quais
ele sabe manejar muito bem. Ele sabe como envenenar almas mediante
a gentileza sedutora deste mundo, sempre que não consegue amedrontá-
-las por meio do dardo inflamado e da espada. Não sejamos ignorantes
quanto a seus artifícios. É mediante uma paz fingida que ele destrói
a muitos.
Nós tendemos demais por esquecer desta verdade. Negligencia­
mos os muitos exemplos que Deus nos deu nas Escrituras para nosso
aprendizado. O que levou Sansão à derrota? Não foram os exércitos
dos filisteus, e, sim, o amor fingido de uma mulher filistéia. O que
levou Salomão a desviar-se? Não foi a força de inimigos externos, e,
188 Mateus 22.15-22

sim, a adulação de suas numerosas esposas. Qual foi a causa do maior


erro do rei Ezequias? Não foi a espada de Senaqueribe nem as ameaças
de Rabsaqué, e, sim, as lisonjas dos embaixadores da Babilônia.
Lembremo-nos dessas coisas e estejamos em guarda. Com freqüência,
a paz arruina mais as nações do que a guerra. As coisas doces causam
muito mais doenças do que as coisas amargas. O calor leva o soldado
a tirar a sua armadura com mais rapidez do que o vento polar. Tome­
mos precaução contra os bajuladores! Satanás nunca é tão perigoso como
quando aparece como anjo de luz. O mundo nunca nos é tão perigoso
como quando nos sorri. Quando Judas traiu ao Senhor, fê-lo com um
beijo. O crente que é imune à desaprovação do mundo, faz bem; mas
o crente que é imune à bajulação do mundo, este faz melhor.
A segunda coisa que nos chama a atenção, nestes versículos, é
a maravilhosa sabedoria da resposta que nosso Senhor deu aos seus
inimigos. Os fariseus e herodianos perguntaram se era legítimo pagar
tributo a César ou não. Eles, sem dúvida, pensaram ter apresentado
uma pergunta que nosso Senhor não poderia responder sem lhes dar
um ponto de vantagem. Se Ele simplesmente respondesse que era le­
gítimo pagar tributo, eles o teriam denunciado ao povo como quem
desonrava os privilégios de Israel, e que não considerava os filhos de
Abraão como homens livres, e, sim, como um povo sujeito a uma po­
tência estrangeira. Por outro lado, se Ele respondesse que não era legítimo
pagar tributos, eles o teriam denunciado aos romanos como um insti­
gador de sedições e um rebelde contra César, que se recusava a pagar
os tributos. Entretanto, a conduta habilidosa de nosso Senhor deixou
seus adversários totalmente desconcertados. Ele pede para ver o dinheiro
do tributo e pergunta de quem é a efígie na moeda. “ De César” , res­
pondem. Usuários daquele dinheiro, com a efígie e inscrição de César,
eles reconheciam que César tinha autoridade sobre eles, visto que a mo­
eda corrente é cunhada pelos governantes da terra onde ela vigora. Em
seguida, eles receberam uma resposta conclusiva e irrefutável: “ Dai,
pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” .
O princípio estabelecido nestas bem conhecidas palavras reveste-
-se de profunda importância. Há uma obediência que todo crente deve
ao governo civil da nação da qual é cidadão, em todas as questões que
não sejam de natureza puramente espiritual. Ele pode não aprovar to­
dos os requerimentos desse governo civil, mas deve submeter-se às leis
da comunidade enquanto vigorarem. É preciso “ dar a César o que é
de César” .
Mas há também uma obediência que o crente deve ao Deus da
Bíblia, em todas as questões que sejam puramente espirituais. Nenhuma
perda material, nenhuma inabilidade civil, nem qualquer desprazer das
Mateus 22.15-22 189

autoridades que existem, deveria jamais tentar um crente a fazer coisas


que as Escrituras claramente proíbem. A situação pode ser muito di­
fícil. Ele pode ter de sofrer muitas coisas por motivo de consciência.
Mas ele jamais deve fugir dos requisitos inequívocos das Escrituras.
Se César cunha um novo evangelho, este novo evangelho não deve ser
obedecido. Devemos dar “ a Deus o que é de Deus” .
Este é inquestionavelmente um assunto de grande dificuldade e
delicadeza. É certo que a igreja não deve tentar abarcar o Estado. Tam­
bém é certo que o Estado não deve tentar engolfar a igreja. Talvez
nenhum outro assunto tem causado tanta provação para homens cons­
cienciosos; talvez nenhum outro assunto tem causado tanta divergência
entre homens de bem, quanto o problema de se determinar onde ter­
minam as coisas ‘‘de César” , e onde começam as “ coisas de Deus” .
De um lado, o poder civil tem muitas vezes usurpado terrivelmente os
direitos de consciência (como sofreram os puritanos durante a infeliz
dinastia Stuart, na Inglaterra). De sua parte, o poder eclesiástico tem
freqüentemente estendido as suas reivindicações, de modo extravagante,
ao ponto de tomar em suas mãos o cetro de César (como fez a igreja
romana no passado). Para que possa fazer um correto julgamento sobre
todas as questões dessa natureza, cada verdadeiro crente deveria orar
constantemente, pedindo a sabedoria que vem do alto. A pessoa sin­
cera, que diariamente busca a graça divina e o bom senso, nunca errará
gravemente, porquanto Deus não o permitirá.

Os Saduceus e a Questão da Ressurreição


Leia Mateus 22.23-33

Esta passagem descreve uma conversa entre nosso Senhor Jesus


Cristo e os saduceus. Esses homens infelizes que afirmavam “ não ha­
ver ressurreição” , como os fariseus e herodianos, tentaram embaraçar
nosso Senhor com questões difíceis. Eles, também, procuravam como
o “ surpreenderiam em alguma palavra” , e como manchariam a repu­
tação dEle entre o povo. Porém, tal como os fariseus, eles também
ficaram inteiramente frustrados.
Em primeiro lugar, observemos que objeções absurdas e céticas
às verdades bíblicas são um fenômeno antigo. Os saduceus desejavam
demonstrar o absurdo da doutrina da ressurreição e da vida futura. Por
isso, vieram até nosso Senhor com uma história que provavelmente foi
inventada para a ocasião. Disseram-lhe que certa mulher havia se ca­
sado com sete irmãos sucessivamente, todos os quais morreram sem
190 Mateus 22,23-33

deixar filhos. Então, perguntaram de quem ela seria esposa no mundo


por vir, quando todos ressuscitassem... O objetivo da pergunta era claro
e transparente. Na realidade, o que eles queriam mesmo era lançar a
doutrina da ressurreição no ridículo. Queriam insinuar que a ressurreição
traria muita confusão e contendas e uma desordem inconveniente se
após a morte homens e mulheres houvessem de reviver.
Nunca nos deveríamos surpreender se chegarmos a encontrar se­
melhantes objeções contra as doutrinas bíblicas, especialmente aquelas
doutrinas que dizem respeito ao outro mundo. Provavelmente nunca
faltará homens irracionais, ocupando-se de coisas que se não vêem e
criando dificuldades imaginárias a fim de desculpar a sua própria in­
credulidade. Casos supostos são uma das estratégias favoritas em que
as mentes incrédulas gostam de se firmar. A pessoa, muitas vezes, cria
uma sombra imaginária em sua mente e passa a lutar contra ela, como
se essa sombra representasse a verdade real. Tal mentalidade geral­
mente se recusará a olhar para a avassaladora massa de evidências claras
em que se alicerça o cristianismo, e irá agarrar-se a única dificuldade,
que, para ela, parece insolucionável. O falar e os argumentos de pes­
soas assim jamais deveriam abalar nossa fé, nem por um momento.
Primeiro, devemos lembrar que a religião cristã forçosamente envolve
verdades profundas e misteriosas, e até uma criança pode formular per­
guntas que o maior dos filósofos não é capaz de responder. Depois,
precisamos lembrar-nos de que há incontáveis verdades na Bíblia que
são claras e inequívocas. São a essas verdades que devemos atentar em
primeiro lugar, crendo e obedecendo. Se assim fizermos, podemos ter
certeza de que muitas das coisas que agora são ininteligíveis, ainda hão
de ser desvendadas. Podemos ter a certeza de que, o que não o sabemos
agora, compreendê-lo-emos depois (Jo 13.7).
Em segundo lugar, observemos que texto notável nosso Senhor
apresenta como prova da realidade de uma vida futura. Ele apresenta
aos saduceus as palavras que Deus falou a Moisés desde a sarça ardente:
“ Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (Êx
3.6). E Jesus ainda acrescenta que “ Ele não é Deus de mortos, e, sim,
de vivos” . Ora, no tempo em que Moisés ouviu aquelas palavras,
Abraão, Isaque e Jacó já estavam mortos sepultados por muitos anos.
Dois séculos tinham-se passado desde que Jacó, o último dos três, tinha
sido sepultado. Não obstante, Deus falou a respeito deles como ainda
sendo seu povo, e acerca de Si mesmo como ainda sendo o Deus deles.
Ele não disse: “ eu era o Deus de Abraão...” e, sim, “ Eu sou” .
É possível que por muitas vezes nos sintamos tentados a duvidar
das verdades da ressurreição e da vida futura. Infelizmente, é fácil acei­
tar uma verdade apenas teoricamente, sem compreender as suas impli­
Mateus 22.23-33 191

cações práticas. Que nos conscientizemos de que os mortos ainda estão


vivos. Eles desapareceram de diante dos nossos olhos e já não habitam
neste mundo. Mas aos olhos de Deus eles estão vivos e um dia deixarão
a sepultura para receber uma sentença eterna. Não existe aniquilamento;
tal idéia não passa de uma miserável ilusão. Sol, lua, e estrelas, as mon­
tanhas rochosas e o mar profundo algum dia serão reduzidos a nada.
Porém, a criancinha mais fraca e pobre do mundo haverá de viver para
todo o sempre no mundo vindouro. Que jamais nos esqueçamos disso!
Feliz é quem pode dizer de coração o que o credo niceno afirma: “ Es­
pero pela ressurreição dos mortos, e pela vida no mundo vindouro” .
Observemos, por fim, o relato que nosso Senhor dá acerca da
situação de homens e mulheres, após a ressurreição. Ele silencia as
objeções fantasiosas dos saduceus demonstrando que eles estavam to­
talmente equivocados quanto ao verdadeiro caráter do estado ressurreto.
Eles supunham que a ressurreição tem de ser, necessariamente, uma
existência carnal, grosseira, como a que a humanidade vive aqui na terra.
Entretanto, nosso Senhor lhes diz que no mundo vindouro receberemos
um corpo real e material, mas de constituição inteiramente diferente
e com necessidades muito diversas das que temos agora. Lembremo-
-nos de que Jesus falou somente a respeito dos salvos; ele deixou de
mencionar o estado dos perdidos. Jesus afirma: “ Porque na ressurreição
nem casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no
céu” .
Conhecemos extremamente pouco sobre a vida futura no céu.
É possível que nossas idéias mais claras sobre o céu sejam aquelas ti­
radas da consideração daquilo que o céu não será. Será um estado em
que nunca mais teremos nem fome nem sede. Enfermidades, dor e do­
enças não serão conhecidas. Debilitamento, velhice e morte não terão
lugar. Casamentos, nascimentos e uma constante sucessão de habitan­
tes, já não serão mais necessários. Os que uma vez forem admitidos
ao céu lá haverão de habitar para sempre. E, passando para os aspectos
afirmativos, é-nos dito claramente que seremos “como os anjos no céu” .
A exemplo deles, serviremos a Deus de uma maneira perfeita, sem qual­
quer cansaço. Tal como eles, estaremos para sempre na presença de
Deus. Como eles, o nosso deleite sempre será cumprir a vontade do
Senhor. E, como eles, daremos toda a glória ao Cordeiro. Todas estas
são coisas muito profundas, mas todas são verdadeiras.
Estamos preparados para essa vida? Se admitidos ao céu, será
que apreciaríamos essa vida? A companhia e o serviço de Deus seriam
agradáveis para nós? A ocupação dos anjos seria uma ocupação em que
nos deleitássemos?
Estas são perguntas solenes. Se esperamos ir para o céu quando
192 Mateus 22.23-33

ressuscitarmos no outro mundo, nosso coração deve ser celestial desde


agora, quando vivemos nesta terra (Cl 3.1-4).

A Questão do Grande Mandamento;


A Pergunta de Cristo a Seus Inimigos
Leia Mateus 22.34-46

No começo desta passagem, encontramos nosso Senhor respon­


dendo à pergunta de um intérprete da lei, que lhe havia indagado qual
era “ o grande mandamento na lei” . A pergunta não fora feita com es­
pírito amigável. Porém, temos razões para agradecer que ela tenha sido
feita, porque provocou da parte de nosso Senhor uma resposta cheia
de preciosas instruções. Vemos que o bem pode derivar-se até do mal.
Destaquemos quão admirável sumário estes versículos contêm,
acerca do nosso deverpara com Deus e com o próximo. Jesus diz: “ Ama­
rás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de
todo o teu entendimento” . Ele diz, outra vez: “ Amarás o teu próximo
como a ti mesmo” . E acrescenta: “ Destes dois mandamentos depen­
dem toda a lei e os profetas” .
Que simples são essas duas regras; e, no entanto, quão abran­
gentes! São compostas de poucas palavras, mas contêm um profundo
significado! Que humilhadoras e condenadoras elas são! Como elas de­
monstram a nossa necessidade diária de receber misericórdia e a expiação
no precioso sangue de Cristo! Feliz seria a humanidade se estas regras
fossem melhor conhecidas e melhor praticadas!
O amor é o grande segredo da verdadeira obediência a Deus.
Quando sentirmos em relação a Ele o que as crianças sentem em relação
a um pai querido, então nos deleitaremos em cumprir a sua vontade.
Então os seus mandamentos não serão penosos, e não trabalharemos
para Ele como se fôssemos escravos, com medo do açoite. Teremos
prazer em procurar observar as suas leis, e lamentaremos quando as
transgredirmos. Ninguém trabalha tão bem quanto os que trabalham
por amor. O temor ao castigo ou desejo de uma recompensa são prin­
cípios de muito menor motivação. Cumprem melhor a vontade de Deus
aqueles que a fazem de coração. Gostaríamos de treinar corretamente
as crianças? Nesse caso, que as ensinemos a amar a Deus.
O amor é o grande segredo da reta conduta para com os nossos
semelhantes. Aquele que ama ao próximo recusará fazer-lhe qualquer
dano proposital, seja em sua pessoa, caráter ou propriedade. Contudo,
não parará aí. Em todos os sentidos desejará fazer-lhe o bem. De todos
Mateus 22.34-46 193

os meios promoverá o seu conforto e felicidade. Procurará aliviar suas


tristezas e fomentar as suas alegrias. Se alguém ama, sentimos confiança
nessa pessoa. Sabemos que ela jamais nos fará mal intencionalmente,
e que em todo tempo de necessidade será nossa amiga. Gostaríamos
de ensinar as crianças a se comportarem corretamente para com outras
pessoas? Então, devemos ensiná-las a amar a todos como a si mesmas,
e fazer aos outros aquilo que gostariam que os outros lhes fizessem.
Porém, como obteremos esse amor a Deus? Ele não é um sen­
timento natural. Já nascemos pecadores e, como pecadores, temos medo
de Deus. Como, então, podemos amá-Lo? Jamais poderemos amar re­
almente a Deus enquanto não estivermos em paz com Ele, por intermédio
de Cristo. Quando soubermos que nossos pecados estão perdoados, e
que nós mesmos estamos reconciliados com nosso santo Criador, então,
e só então, haveremos de amá-Lo, e teremos em nós o espírito filial
de adoção. A fé em Cristo é a verdadeira fonte do amor a Deus. Ama
mais quem mais sente o quanto lhe foi perdoado. “ Nós amamos porque
ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19).
E como podemos obter esse amor para com o próximo? Esse
também não é um sentimento natural. Já nascemos egoístas, odiosos
e odiando-nos uns aos outros (Tt 3.3). Jamais amaremos corretamente
o nosso próximo enquanto nosso coração não for transformado pelo
Espírito Santo. Precisamos nascer de novo. Precisamos despir-nos do
velho homem, revestir-nos do novo homem e receber a mente de Cristo.
Então, e só então, nosso coração insensível conhecerá o verdadeiro
amor que vem de Deus e se estende a todos. O fruto do Espírito é amor
(G1 5.22).
Que possamos entesourar estas verdades no coração. Nos dias
em que vivemos há muita conversa vaga acerca do amor e da caridade.
Os homens asseveram que admiram essas qualidades e que gostariam
de vê-las cultivadas; e, no entanto, odeiam os únicos princípios capazes
de promover tais virtudes. Permaneçamos nas veredas antigas. Não te­
remos frutos nem flores, se não tivermos raízes. Não poderemos ter
amor a Deus e aos homens sem a fé em Cristo e sem a regeneração.
A maneira certa de se ensinar o verdadeiro amor neste mundo consiste
em ensinar sobre a expiação de Cristo e sobre as operações do Espírito
Santo em nossas almas.
A conclusão desta passagem contém uma pergunta de nosso Se­
nhor aos fariseus. Após haver respondido com sabedoria perfeita às
indagações de seus adversários, por fim Ele também lhes dirige uma
pergunta: “ Que pensais vós do Cristo? de quem é filho?” E eles res­
pondem imediatamente: “ De Davi” . Jesus então lhes pede que expliquem
porque Davi, no livro de Salmos, o chama de Senhor (SI 110.1). “ Se
194 Mateus 22.34-46

Davi, pois, lhe chama Senhor, como é ele seu filho?” Imediatamente,
os inimigos foram silenciados: “ ninguém podia responder palavra” .
Os escribas e os fariseus, sem dúvida, estavam familiarizados
com o salmo citado, mas não eram capazes de explicar a sua aplicação.
Ele só podia ser explicado mediante o reconhecimento da preexistência
e da divindade do Messias. E isto era algo que os fariseus não estariam
dispostos a admitir. A única idéia com que podiam conceber o Messias
era a de que Ele seria um homem qualquer, semelhante a eles mesmos.
Assim, e de uma só vez, ficaram expostas a visão baixa, carnal, que
esses homens tinham acerca da verdadeira natureza do Cristo, bem como
a sua ignorância das Escrituras, as quais eles julgavam conhecer mais
do que os outros homens. E Mateus pôde escrever, guiado pelo Espírito
Santo: “ nem ousou alguém, a partir daquele dia, fazer-lhe perguntas” .
Não deixemos para trás estes versículos, sem fazermos um uso prá­
tico da solene pergunta de nosso Senhor: “ Que pensais vós do Cristo?”
O que pensamos de sua Pessoa e ofícios? O que pensamos de sua vida,
e o que pensamos de sua morte por nós, na cruz? O que pensamos de
sua ressurreição, ascenção e intercessão por nós, à direita de Deus?
Já temos experiência de que Ele é gracioso? Já nos apegamos a Ele por
meio da fé? Já descobrimos, por experiência, que Ele é precioso para
nossa alma? Será que podemos verdadeiramente dizer: Ele é meu Re­
dentor e meu Salvador, meu Pastor e meu Amigo?
Estas são perguntas muito sérias. Que não descansamos enquanto
não pudermos dar a elas uma resposta satisfatória! De nada nos apro­
veitará ler a respeito de Cristo, se não formos unidos a Ele mediante
uma fé viva. Uma vez mais, pois, façamos um teste de nossa religião,
perguntando “ Que pensais vós do Cristo?”

Advertência Contra o Ensino dos


Escribas e Fariseus
Leia Mateus 23.1-12

Estamos dando início a um capítulo que, em certo sentido, é o


mais marcante em todos os quatro evangelhos. Contém as últimas pa­
lavras que o Senhor Jesus falou dentro das muralhas do templo. São
palavras que consistem de uma desmanteladora exposição dos fariseus
e escribas, e uma contundente reprimenda às suas doutrinas e práticas.
Tendo pleno conhecimento de que o seu tempo sobre a terra estava che­
gando ao fim, nosso Senhor já não deixa de tornar pública a sua opinião
acerca dos principais mestres da nação judaica. Sabendo que em breve
Mateus 23.1-12 195

deixaria de estar com seus seguidores, e que estes ficariam como ove­
lhas entre lobos, Jesus os adverte claramente a respeito dos falsos pastores
por quem estavam cercados.
O capítulo inteiro é um sinal marcante de firmeza e fidelidade
na denúncia do erro. É uma prova contundente de que mesmo o coração
mais amoroso pode usar uma linguagem que transmita a mais severa
repreensão. Acima de tudo, este capítulo é uma tremenda evidência da
culpa em que incorrem os mestres infiéis. Este capítulo deve ser uma
advertência e um farol para todos os ministros religiosos, enquanto hou­
ver mundo. Aos olhos de Cristo, nenhum pecado é tão maligno quanto
os pecados desses falsos mestres.
Nos doze versículos que iniciam este capítulo vemos, em primeiro
lugar, o dever de fazermos uma distinção entre o oficio de um mestre e
o exemplo pessoal desse mestre. Os escribas e fariseus se assentaram na
“ cadeira de Moisés’’. Fiéis ou infiéis, o fato é que eles ocupavam a
posição de mestres públicos principais da religião judaica. Embora pre­
enchessem de modo indigno essa posição de autoridade, o seu ofício lhes
conferia respeito. Porém, enquanto que o ofício deveria ser respeitado, o
mau exemplo de vida daqueles mestres não deveria ser imitado. Os en­
sinamentos deviam ser observados até onde tivessem o respaldo das
Escrituras; mas não deveriam ser obedecidos se entrassem em contradição
com a Palavra de Deus. Segundo palavras de Brentius, os escribas e
fariseus “ deveriam ser ouvidos enquanto estivessem ensinando o que
Moisés ensinara” , e nada além disso. Pelo teor inteiro do capítulo,
evidencia-se que esse era o pensamento de Jesus. São denunciadas nesta
passagem tanto a falsa doutrina quanto a falsa vida prática.
O dever que nos é aqui recomendado reveste-se de grande im­
portância. Existe na mente humana uma tendência constante de cair em
extremos. Se não consideramos o ofício de um ministro com veneração
idólatra, tendemos a tratá-lo com desprezo indecente. Precisamos manter-
-nos em guarda contra ambos os extremos. Por mais que desaprovemos
os procedimentos de um ministro do evangelho, ou por mais que dis­
cordemos de seus ensinamentos, nunca nos deveríamos esquecer de
respeitar o seu ofício. Devemos mostrar que podemos honrar a comis­
são ministerial, não importa o que pensemos sobre o ministro. É digno
de nota o exemplo de Paulo, em certa ocasião: “ Não sabia, irmãos,
que ele é sumo sacerdote; porque está escrito: ‘Não falarás mal de uma
autoridade do teu povo’” (At 23.5).
Nestes versículos percebemos, em segundo lugar, que a Incon­
sistência, a ostentação e o amor à preeminência entre os cristãos, são
atitudes especialmente desagradáveis para Cristo. No tocante à incon­
sistência, é notável que a primeiríssima coisa que nosso Senhor diz, a
196 Mateus 23.1-12

respeito dos fariseus, é: eles “ dizem e não fazem” . Eles requeriam


de outros aquilo que eles mesmos não praticavam. Quanto à ostentação,
nosso Senhor declara que eles fiaziam todas as suas obras “ com o fim
de serem vistos dos homens” . Eles tinham os seus filactérios, (ou tiras
de pergaminho com textos escritos, que muitos judeus usavam em seu
vestuário) feitos de tamanho exagerado. As “ franjas” das vestes (que
Moisés havia ordenado para os israelitas como uma lembrança de Deus
— Nm 15.38) usavam-nas com uma largura extravagante. E tudo isso
era feito para chamar a atenção e fazer as pessoas pensarem quão santos
eram os escribas e fariseus. Quanto ao amor àpreeminência, nosso Se­
nhor nos diz que os fariseus amavam ter “ o primeiro lugar” em público,
e gostavam de ser tratados mediante títulos lisonjeiros. Nosso Senhor,
entretanto, reprova todas as atitudes semelhantes. E Ele nos recomenda
que vigiemos e oremos, precavendo-nos contra tais atitudes. Esses são
pecados que arruinam a própria alma: “ Como podeis crer, vós os que
aceitais glória uns dos outros, e contudo não procurais a glória que vem
do Deus único?” (Jo 5.44). Muito mais feliz teria sido a história da
igreja visível de Cristo se essa passagem tivesse sido mais profunda­
mente considerada e se o seu espírito tivesse sido mais implicitamente
obedecido. Os fariseus não são as únicas pessoas que têm imposto me­
didas austeras a outras pessoas, fingindo pelo seu traje possuir uma
patente santidade, ao mesmo tempo em que apreciam os elogios hu­
manos. Os anais da história eclasiástica mostram que um número muito
grande de cristãos tem seguido de perto àqueles religiosos. Lembremos
disso e sejamos sábios! E perfeitamente possível que um cidadão ba­
tizado de nossos dias seja dotado de um espírito decididamente farisaico.
Em terceiro lugar, nestes versículos, vemos que os crentes ja ­
mais devem dar a homem algum os títulos e honras que são devidos
exclusivamente a Deus e ao seu Cristo. Jesus disse: “ A ninguém sobre
a terra chameis vosso pai” . A norma aqui estabelecida deve ser inter­
pretada com a devida restrição escriturística. Não somos proibidos de
estimar grandemente e amar os ministros do evangelho, por causa do
trabalho que realizam (1 Ts 5.13). O próprio apóstolo Paulo, um dos
mais humildes santos de Deus chamou Tito de “ verdadeiro filho se­
gundo a fé” e disse aos coríntios: “ eu pelo evangelho vos gerei em
Cristo Jesus” (1 Co 4.15). Mesmo assim, devemos ter o cuidado de
não dar insensatamente aos ministros um lugar e honra que não lhes
pertencem. Jamais devemos permitir que eles se anteponham entre nós
e Cristo. Mesmo os melhores dentre os melhores não são infalíveis.
Eles não são sacerdotes, que possam fazer expiação por nós; não são
mediadores, que possam cuidar dos interesses de nossa alma diante de
Deus. Eles são homens sujeitos às mesmas paixões que nós, e que pre­
Mateus 23.1-12 197

cisam ser lavados no mesmo sangue expiatório de Cristo e precisam


do mesmo Espírito renovador; homens separados para um alto e santo
chamamento, mas, ainda, afinal de contas, apenas homens. Jamais nos
esqueçamos destas coisas. Tais medidas acauteladoras sempre nos serão
úteis. Pois a natureza humana sempre preferirá depender de algum mi­
nistro do evangelho, que é visível, do que do Cristo invisível.
Em último lugar, vemos que não existe graça divina que devesse
distinguir o crente tanto quanto a humiidade. Quem deseja ser grande
aos olhos de Cristo, deve ter um propósito inteiramente diferente da­
quele dos fariseus. O alvo do crente não deve ser tanto mandar quanto
servir à igreja. Baxter disse muito bem: “ Na igreja, a grandeza consiste
em ser-se grandemente prestativo” . O desejo dos fariseus era recebe­
rem honra e serem chamados de “ mestres” . O desejo do cristão deve
ser o de fazer o bem, e dar a si mesmo, e tudo quanto possua, para
o serviço de outrem. Sem dúvida, esse é um alvo elevado, mas jamais
deveríamos nos contentar com um padrão inferior. O exemplo de nosso
bendito Senhor, e o mandamento deixado nas epístolas dos apóstolos,
ambos requerem de nós que estejamos revestidos de humildade (1 Pe
5.5). Procuremos cultivar essa graça bendita, dia a dia. Nenhuma outra
virtude cristã é mais bela, por mais que seja desprezada pelo mundo.
Nenhuma dá tanta evidência da fé salvadora e da verdadeira conversão
a Deus. Nenhuma é tão freqüentemente elogiada por nosso Senhor. Den­
tre todas as palavras de Jesus, dificilmente encontraremos uma declaração
que seja tão constantemente repetida como esta, que encerra a passa­
gem que estamos lendo: ‘‘Quem a si mesmo se humilhar será exaltado” .

Oito Acusações Contra os Escribas e Fariseus


Leia Mateus 23.13-33

Nestes versículos temos as acusações de nosso Senhor contra os


mestres judeus, arranjadas em oito segmentos. Em pé, no templo, e
rodeado por uma multidão que o escutava, Jesus denuncia publicamente
os erros principais dos escribas e dos fariseus, sem poupar palavras.
Oito vezes Ele usa a solene expressão “ ai de vós” . Sete vezes Ele os
chama de “ hipócritas” . Por duas vezes os intitula de “ guias cegos” .
Duas vezes os chama de “ insensatos e cegos” e uma vez os intitula
como “ serpentes, raça de víboras” .
Atentemos bem a essa linguagem. Ela nos ensina uma lição so­
lene: ensina-nos quão completamente abominável é, aos olhos de Deus,
o espírito de escribas e fariseus, não importa a forma em que se ma­
198 Mateus 23.13-33

nifeste. Façamos um exame breve das oito acusações trazidas por nosso
Senhor e procuremos extrair da passagem inteira alguma instrução geral.
O primeiro ai nesta lista foi dirigido contra a sistemática oposição
dos escribas e fariseus ao progresso do evangelho. Eles “ fechavam”
o reino dos céus diante dos homens. Nem eles mesmos entravam, nem
deixavam que outros entrassem. Tinham rejeitado a voz de João Batista,
que os advertia. Recusaram-se a reconhecer Jesus como Messias, quando
Ele apareceu. Eles procuravam tolher os judeus que se aproximavam
de Jesus, Eles mesmos não criam no evangelho, e faziam tudo para im­
pedir que outros cressem. Isso era um grande pecado.
O segundo ai na lista foi dirigido contra a cobiça e o espírito
de auto-engrandecimento dos escribas e fariseus. Eles “ devoravam”
as casas das viúvas e, como justificativa, faziam “ longas orações” . Eles
tiravam proveito da credulidade de mulheres fracas e desprotegidas,
mediante uma simulação de devoção profunda, até que essas mulheres
os considerassem como guias espirituais. Não hesitavam em abusar dessa
influência assim, malvadamente conseguida, para obterem vantagens
pessoais e fazer da religião um motivo para ganhar dinheiro. Nova­
mente, isso era um grande pecado.
O terceiro ai da lista é dirigido contra o zelo dos escribas e fa­
riseus na obtenção de partidários. Eles rodeavam “ o mar e a terra para
fazer um prosélito” . Trabalhavam incessantemente para que homens
se vinculassem ao seu partido e adotassem as suas opiniões. Faziam
isso, não com a finalidade de beneficiar almas ou trazê-las a Deus. Fa­
ziam tudo somente com o intuito de engrossar as fileiras de sua seita
e ganhar mais prosélitos e maior importância. Aquele zelo religioso
tinha por origem o sentimento sectarista, e não o amor a Deus. Isso,
também, era um grande pecado.
O quarto ai desta lista foi dirigido contra as doutrinas dos escri­
bas e fariseus a respeito de juramentos. Eles estabeleciam sutis distinções
entre um tipo de juramento e outro. Eles seguiam o mesmo ensino mais
tarde defendido pelos jesuítas de que alguns juramentos tinham de ser
cumpridos, outros não. Eles atribuíam maior importância aos juramen­
tos feitos “ pelo ouro” oferecido ao templo do que aos juramentos “ pelo
templo” propriamente dito. Dessa forma, desprezavam o terceiro man­
damento e, promoviam os seus próprios interesses quando faziam os
homens superestimarem o valor dos donativos e ofertas. Isso também
era um grande pecado.
O quinto ai foi dirigido contra a prática dos escribas e fariseus,
de exaltarem as coisas menos importantes acima das questões realmente
sérias da religião, pondo as últimas coisas em primeiro lugar, e as pri­
meiras por último. Assim, faziam grande questão de separar dízimo da
Mateus 23.13-33 199

hortelã, como se nunca fossem suficientemente estritos na observância


da lei de Deus. Não obstante, negligenciavam ao mesmo tempo grandes
e claros deveres morais, tais como a justiça, o amor e a honestidade.
De novo, isso era um grande pecado.
O sexto e o sétimo ais têm muito em comum para serem sepa­
rados. Eles foram dirigidos contra uma característica geral da religião
dos escribas. Para eles, a pureza exterior, e a decência, estavam acima
da santificação interior e da pureza de coração. Tinham como um dever
religioso limpar o “ exterior” de copos e pratos, porém negligenciavam
o seu próprio homem interior. Eles eram como sepulcros caiados, limpos
e belos externamente, mas, por dentro, cheios de corrupção. Exterior­
mente, pareciam justos, mas por dentro estavam cheios de hipocrisia
e de iniqüidade. Esse, também, era um grande pecado.
O último ai dessa lista foi dirigido contra a veneração fingida
que os escribas e fariseus demonstravam pela memória dos santos já
mortos. Eles edificavam os sepulcros dos profetas e adornavam os tú­
mulos dos justos. No entanto, por sua própria vida, eles provavam ter
a mesma mentalidade daqueles que mataram os profetas. Pela sua pró­
pria conduta diária eles davam evidência de que preferiam mais santos
mortos do que santos vivos. Os mesmos homens que fingiam honrar
os profetas mortos, não viam qualquer beleza em um Cristo vivo. Isso
também era um grande pecado.
Temos em tudo isso um quadro melancólico que nosso Senhor
nos dá acerca dos mestres judeus. Ele nos deveria fazer sentir tristeza
e humilhação, pois é uma temível exibição da anatomia mórbida da na­
tureza humana. É um quadro que, infelizmente, tem sido reproduzido
muitas e muitas vezes na história da igreja cristã. No caráter dos es­
cribas e fariseus, não há um único ponto em que não se possa verificar
facilmente que pessoas, auto-intituladas cristãs, têm com freqüência ado­
tado o mesmo procedimento.
Nesta passagem inteira podemos ver a deplorável situação espi­
ritual em que se achava a nação judaica, quando nosso Senhor estava
sobre a terra. Se assim eram os mestres, quão grande deve ter sido a
escuridão miserável dos que por eles eram ensinados! Verdadeiramente,
a iniqüidade de Israel havia atingido o seu ponto máximo. Já era mais
do que chegado o tempo de o Sol da Justiça aparecer e o evangelho
ser pregado.
Com base em toda essa passagem, aprendemos quão abominável
é a hipocrisia aos olhos de Deus. Os escribas e fariseus não foram acu­
sados de serem ladrões ou assassinos, e, sim, de serem hipócritas desde
o âmago do ser. Sem importar o que mais sejamos em nossa religião
cristã, tomemos a firme resolução de que jamais usaremos de uma capa
200 Mateus 23.13-33

de disfarce. Que em tudo sejamos honestos e reais.


Aprendamos, mediante toda esta passagem, quão terrivelmente
perigosa é a posição de um ministro infiel. Já é bastante ruim sermos
cegos nós mesmos; é mil vezes pior ser um guia cego. Dentre todos
os homens, ninguém é tão iniquamente culpado como um ministro não-
-convertido, e ninguém será julgado com tanta severidade. Há um ditado
solene que se refere a esse tipo de pastor: “ Ele assemelha-se a um na­
vegador incompetente — não naufraga sozinho” .
Finalmente, devemos ter o cuidado de não supor, com base nesta
passagem, que o mais seguro, em se tratando de religião, é não declarar
religião alguma. Isso equivale a cair em um extremo perigoso. Somente
porque alguns homens são hipócritas, isso não significa que não exista
a verdadeira profissão cristã. Nem todo dinheiro é ruim somente por­
que existe muita moeda falsa. Que nenhuma hipocrisia nos impeça de
confessar a Cristo, ou nos afaste da nossa firmeza, se é que já temos
feito confissão de Jesus Cristo. Prossigamos, olhando sempre para Je­
sus e descansando nEle, orando diariamente para sermos resguardados
de todo erro, e dizendo com o salmista: “ Seja o meu coração irrepre­
ensível nos teus decretos” (SI 119.80).

Últimas Palavras Públicas de Jesus aos Judeus


Leia Mateus 23.34-39

Estes versículos formam a conclusão do discurso de nosso Se­


nhor Jesus Cristo acerca dos escribas e fariseus. São as últimas palavras
que como Mestre falou publicamente ao povo. A ternura e a compaixão
que caracterizam nosso Senhor, resplandecem de maneira magnífica
no término do seu ministério. Embora tivesse deixado seus adversários
ainda na incredulidade, Jesus demonstrou até o fim que os amava e ti­
nha compaixão deles.
Em primeiro lugar, escudados nestes versículos, aprendemos que
Deus freqüentemente usa de grande condescendência para com os ímpios.
Ele enviou aos judeus “ profetas, sábios e escribas” . Ele lhes deu rei­
teradas advertências. Enviou-lhes mensagem após mensagem. Não permi­
tiu que continuassem pecando sem repreensão. Eles jamais poderiam
dizer que não haviam sido avisados quando agiam mal.
Geralmente, é dessa maneira que Deus trata com os professos
ainda não-convertidos. Ele nunca os deixa perecer em seus pecados sem
antes chamá-los ao arrependimento. Ele bate às portas de seus corações
mediante enfermidades e aflições. Ele assedia as suas consciências por
Mateus 23.34-39 201

meio de sermões ou pelo conselho de amigos. Ele abre a sepultura diante


deles e os intima a considerarem os seus caminhos, e rouba-lhes os ído­
los em que confiam. Com freqüência, entretanto, não sabem o que tudo
isso significa. Quase sempre estão cegos e surdos para todas as gracio­
sas mensagens de Deus. Contudo, finalmente haverão de perceber a
mão de Deus, embora, talvez tarde demais. Descobrirão que “ Deus
fala de um modo, sim de dois modos, mas o homem não atenta para
isso” (Jó 33.14). Descobrirão que, a exemplo dos judeus, eles também
tiveram profetas, sábios e escribas que lhes foram enviados. Em cada
ato da Providência, havia uma voz a dizer: “ Convertei-vos, convertei-
-vos... por que haveis de morrer?” (Ez 33.11).
Aprendemos, em segundo lugar, que Deus observa o tratamento
que recebem seus mensageiros e ministros, e um dia fará a prestação
de contas. Os judeus, como nação, por muitas vezes deram aos servos
do Senhor o tratamento mais infame. Sempre os trataram como ini­
migos, porque os mensageiros de Deus lhes diziam a verdade. A alguns
haviam perseguido, a outros haviam açoitado, e a outros haviam até
mesmo executado. Talvez pensassem que nenhuma prestação de contas
lhes seria requerida. Jesus, entretanto, diz aos judeus que eles estavam
enganados. Tudo quanto faziam era acompanhado de perto pelos olhos
de Deus. Havia uma mão que registrava em livros eternos todo o san­
gue inocente que derramavam. As últimas palavras de Zacarias, que
foi morto entre o santuário e o altar, seriam comprovadas oitocentos
e cinqüenta anos mais tarde. Ao morrer, ele havia dito: “ O Senhor o
verá, e o retribuirá” (2 Cr 24.22).
Mais alguns anos e haveria um tamanho derramamento de san­
gue em Jerusalém, como o mundo jamais tinha visto igual. A cidade
santa seria destruída. A nação que havia assassinado tantos profetas se­
ria, ela mesma, devastada pela fome, pela pestilência e pela espada.
Mesmo os que conseguissem escapar seriam dispersos pelos quatro ven­
tos, e, à semelhança de Caim, o assassino, tomar-se-iam fugitivos e
vagabundos na terra. Todos sabemos quão literalmente estas afirmações
foram cumpridas. Jesus bem disse: “ Em verdade... todas estas cousas
hão de vir sobre a presente geração” .
Convém que sublinhemos claramente esta lição. Sempre estamos
demasiadamente aptos a pensar que “ o passado é passado” , e as coisas
que já aconteceram e estão consumadas e ultrapassadas, jamais serão
revolvidas outra vez. Esquecemo-nos, entretanto, que, para Deus “ um
dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pe 3.8), e os eventos
de mil anos atrás estão tão frescos aos olhos do Senhor, como os aconteci­
mentos desta mesma hora. Deus requer aquilo que oculta-se no passado
e, acima de tudo, haverá de requerer dos homens o tratamento dado aos
202 Mateus 23.34-39

seus santos. O sangue dos cristãos primitivos, derramado pelos impe­


radores romanos; o sangue dos valdenses e albigenses, das vítimas no
massacre de São Bartolomeu; o sangue dos mártires que foram quei­
mados na fogueira durante o tempo da Reforma, e o sangue dos que
foram mortos pela Inquisição — tudo, tudo isso será considerado na
prestação de contas. Segundo diz um velho ditado, “ as mós da justiça
divina moem devagar, porém moem muito fino” . O mundo ainda verá
que “ há um Deus, com efeito, que julga na terra” (SI 58.11).
Que aqueles que perseguem o povo de Deus tomem precaução
quanto àquilo que estão fazendo. Fique sabido que todos os que pre­
judicam, ridicularizam, zombam ou caluniam a outras pessoas, por
motivo de sua religião, cometem um grande pecado. Cristo toma co­
nhecimento de cada um que persegue a seu próximo por ter uma vida
mais correta do que ele, ou porque ora, lê a sua Bíblia e pensa sobre
o bem de sua alma. Vivo está quem declarou: “ aquele que tocar em
vós toca na menina do seu olho” (Zc 2.8). O dia do juízo mostrará
que o Rei dos reis fará prestar contas todos os que insultam os servos
de Deus.
Em último lugar, nestes versículos aprendemos que aqueles que
se perdem para sempre perdem-se por sua própria culpa. As palavras
de nosso Senhor Jesus Cristo são muito marcantes. “ Quis èu reunir
os teus filhos... e vós não o quisestes!” Há algo nessa declaração que
merece a nossa atenção especial. Ela projeta luz sobre um assunto mis­
terioso, e que geralmente é obscurecido pelas explicações humanas. É
uma declaração que nos mostra como Cristo tem sentimentos de pie­
dade e misericórdia por muitos, que não são salvos; e mostra-nos que
o grande segredo da ruína de um homem é a sua própria falta de von­
tade. Impotente como é por natureza, incapaz de ter de si mesmo sequer
um bom pensamento, e sem poder em si mesmo para crer e invocar
a Deus, ainda assim o homem parece ter uma poderosa habilidade para
arruinar a sua própria alma. Incapacitado de praticar o bem, ele con­
tinua um poderoso praticante do mal. Dizemos, e com razão, que uma
pessoa nada pode por si mesma; mas sempre devemos lembrar que a
sede dessa incapacidade é a sua própria vontade. Ninguém pode des­
pertar em si mesmo a vontade de se arrepender e crer; mas, todo homem
possui, por natureza, a vontade para rejeitar a Cristo e seguir o seu
próprio caminho desviado; e se, por fim, não for salvo, tão-somente
ficará provado que essa vontade foi a causa de sua perdição. Jesus Cristo
disse: “ Não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.40).
Deixemos este assunto com a confiante reflexão de que, para
Cristo, nada é impossível. Mesmo o coração mais empedernido pode
ser transformado. Sem dúvida, a graça divina é irresistível. Porém, ja­
Mateus 23.34-39 203

mais nos esqueçamos de que a Bíblia fala do homem como um ser res­
ponsável, e diz de alguns: “ vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At
7.51). Entendamos que a ruína dos que se perdem não é porque Cristo
não esteja disposto a salvá-los, nem tampouco porque eles querem ser
salvos mas não conseguem sê-lo. Eles não são salvos porque não que­
rem vir a Cristo. Que nós tomemos como base a verdade ressaltada
nesta passagem. Cristo deseja reunir a si os filhos dos homens, mas
eles não querem ser reunidos. Cristo deseja salvar os homens, mas es­
tes não querem ser salvos. Que seja um princípio bem estabelecido em
nossa religião, que a salvação do homem — se salvo — deve-se intei­
ramente a Deus, e a sua ruína — se perdido — deve-se inteiramente
a ele mesmo. A maldade que está em nós é, toda ela, nossa maldade.
E o bem, se é que temos algum, esse procede inteiramente de Deus.
No mundo vindouro, os salvos atribuirão toda a glória a Deus, e os
perdidos descobrirão que eles mesmos destruíram a si próprios (Os 13.9).

Profecia Sobre a Destruição de Jerusalém, a


Segunda Vinda de Cristo e o Fim do Mundo
Leia Mateus 24.1-14

Com estes catorze versículos inicia-se um capítulo repleto de pro­


fecias, das quais uma grande parte ainda não foi cumprida, e profecias
que deveriam ser profundamente interessantes para todos os verdadei­
ros cristãos. Trata-se de um assunto acerca do qual o Espírito Santo
diz que fazemos bem em atender (2 Pe 1.19).
Todas as passagens proféticas das Escrituras deveriam ser abor­
dadas com profunda humildade e fervorosa oração, buscando o ensina­
mento do Espírito Santo. Em nenhum outro ponto têm homens de bem
discordado tão inteiramente como no caso da interpretação de profe­
cias. Sobre nenhuma outra questão os preconceitos de uma classe, o
dogmatismo de outra e as extravagâncias de uma terceira têm contri­
buído tanto para furtar a igreja das verdades designadas por Deus para
lhe serem uma bênção. Com razão, pois, escreveu Olshausen: “ Que
é que o homem não vê, ou não deixa de ver quando deseja fazer pre­
valecer as suas próprias opiniões favoritas?”
Para compreender a intenção de todo este capítulo, devemos man­
ter cuidadosamente em vista a questão que suscitou este discurso de
nosso Senhor. Ao deixarem o templo pela última vez, os discípulos,
impelidos pelo sentimento natural dos judeus, haviam chamado a atenção
de seu Mestre para as esplêndidas construções de que o templo era com­
204 Mateus 24.1-14

posto. Mas, para grande surpresa e perplexidade deles, Jesus lhes as­
severa que tudo aquilo estava para ser destruído. Estas palavras ficaram
profundamente gravadas na mente dos discípulos. Eles vieram a Jesus
quando este estava assentado sobre o Monte das Oliveiras e lhe pediram
com ansiedade evidente: “ Diz-nos quando sucederão estas coisas, e que
sinal haverá da tua vinda e da consumação do século” . É nessa petição
que encontramos a chave para a compreensão do tema da profecia que
temos à nossa frente. Abrange três pontos: 1 — a destruição de Jeru­
salém; 2 — a segunda vinda de Cristo; 3 — o fim do mundo. Estes
três pontos estão indubitavelmente entrelaçados em algumas partes deste
capítulo; tão entrelaçados que é difícil separar e desembaraçá-los uns
dos outros. Mas todos os três pontos aparecem distintamente e sem eles
não é possível explicar satisfatoriamente este capítulo.
Os primeiros catorze versículos da profecia ocupam-se com lições
de natureza geral, de largo alcance e aplicação. São lições que parecem
aplicar-se com igual força, tanto para o final da era judaica, quanto para
o final da dispensação cristã, sendo o primeiro evento notavelmente
simbólico do segundo. São lições que demandam atenção especial de
nossa parte, “ de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm che­
gado” (1 Co 10.11). Vejamos, então, quais são essas lições.
A primeira lição geral que se nos apresenta é uma advertência
contra o engano. As primeiríssimas palavras de Jesus são: “ Vede que
ninguém vos engane” . Não poderíamos conceber uma advertência mais
necessária do que esta. Satanás conhece bem o valor da profecia, e tem
sempre procurado lançar o assunto em descrédito. Os escritos de Josefo
comprovam quantos falsos cristãos e quantos falsos profetas surgiram
antes da destruição de Jerusalém. Pode-se demonstrar facilmente como
os olhos dos homens estão continuamente cegos, de muitas maneiras,
nestes nossos dias, no que tange às ocorrências futuras. O mormonismo
tem sido muito usado como argumento para rejeitar-se toda a doutrina
da segunda vinda de Cristo. Assim sendo, vigiemos e ponhamo-nos em
guarda.
Que ninguém nos engane quanto aos principais fatos da profecia
ainda não cumprida, dizendo-nos que são coisas impossíveis. Que nin­
guém nos engane quanto à maneira em que elas virão a acontecer, dizendo
serem improváveis e contrárias à experiência passada. Que nenhum ho­
mem nos engane quanto ao tempo quando serão cumpridas as profecias,
fixando datas ou asseverando que primeiro deveríamos aguardar pela
conversão da humanidade inteira. Em todos esses particulares, que o
sentido claro das Escrituras seja a nossa única norma, e não as tradições
da interpretação humana. Nunca nos envergonhemos em dizer que es­
peramos um cumprimento literal das profecias ainda não cumpridas.
Mateus 24.1-14 205

Sejamos francos em reconhecer que há muitas coisas que não enten­


demos, mas, mesmo assim, mantenhamos tenazmente nossa posição.
Que nós creiamos muito, esperemos e não duvidemos de que um dia
tudo se tornará claro. Acima de tudo, lembremo-nos de que a primeira
vinda do Messias, para sofrer, foi o evento mais improvável que se
poderia ter concebido. E não duvidemos de que, assim como Ele veio
literalmente, em pessoa, para sofrer, assim, literalmente, Ele há de vol­
tar, em pessoa, para reinar.
A segunda grande lição diante de nós é um aviso contra as ex­
pectações exageradas e extravagantes acerca de coisas que devem
acontecer antes que venha o fim. Esta é uma advertência tão profun­
damente importante quanto a anterior. Se ela não tivesse sido tão negli­
genciada, a igreja teria tido uma história muito mais feliz!
Não devemos esperar por um reino de paz universal, felicidade
e prosperidade antes que o fim aconteça. Se estamos esperando por tal
bonança, ficaremos muito desiludidos. Nosso Senhor nos manda espe­
rar por guerras, fornes, terremotos e perseguições. É inútil esperar paz
enquanto o Príncipe da Paz não retomar. Então, e só então, as espadas
serão transformadas em arados, e as nações não mais aprenderão a guerra.
Somente então, a terra dará o seu fruto (ls 2.4; SI 67.6).
Não devemos esperar um tempo universal de pureza doutrinária
e prática, na igreja de Cristo, antes que venha o fim. Se o fizermos,
estaremos grandemente equivocados. Nosso Senhor nos manda estar
na expectativa do aparecimento de falsos profetas, multiplicação da
iniqüidade e esfriamento do amor de quase todos. A verdade nunca será
recebida por todos os professos cristãos, e a santidade jamais será a
norma entre os homens enquanto o grande Cabeça da igreja não retor­
nar e não for preso Satanás. Então, e só então haverá igreja gloriosa,
sem defeito e sem mácula (Ef 5.27).
Não devemos esperar que o mundo todo vá se converter antes
que o fim aconteça. Estaremos grandemente equivocados, se o fizer­
mos. Será pregado o evangelho por todo o mundo, para testemunho
a todas as nações. Porém, não devemos pensar que o evangelho será
crido universalmente. Esse evangelho irá “ constituir um povo” (At
15.14) onde quer que seja fielmente pregado, e serão testemunhas de
Cristo. Todavia, a plena convocação das nações não ocorrerá até que
Cristo venha. Então, e somente então, a terra se encherá do conheci­
mento do Senhor, como as águas cobrem o mar (Hc 2.14).
Guardemos estas coisas no coração, e nunca nos esqueçamos delas.
São verdades extremamente relevantes para o tempo presente. Apren­
damos a moderar nossas expectativas no tocante a qualquer organização
existente na igreja de Cristo, e seremos poupados de muito desaponta­
206 Mateus 24.1-14

mento. Apressemo-nos em propagar o evangelho no mundo, pois o tempo


é curto, não longo. A noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Tem­
pos difíceis nos esperam. Heresias e perseguições podem em breve
enfraquecer e distrair as igrejas. Uma feroz guerra de princípios pode
em breve convulsionar as nações. As portas que agora estão abertas
para a prática do bem, podem em breve cerrar-se para sempre. Nossos
olhos podem ainda ver o sol do cristianismo pôr-se entre nuvens e tem­
pestades no horizonte, como sucedeu ao sol do judaísmo. Acima de
tudo, anelemos pelo retorno de nosso Senhor. Ah! um coração disposto
a orar diariamente: Vem, Senhor Jesus!

Continuação das Profecias Sobre as Misérias


que Viriam no Primeiro e Segundo
Cercos de Jerusalém
Leia Mateus 24.15-28

Um dos pontos importantes desta profecia de nosso Senhor é a


tomada de Jerusalém, pelos romanos. Esse tremendo evento aconteceu
cerca de quarenta anos depois de proferidas as palavras que agora le­
mos. Uma completa narrativa do acontecimento encontra-se nos escritos
do historiador Josefo. Os seus escritos são o melhor comentário sobre
as palavras de nosso Senhor. Eles são uma prova notável da exatidão
de cada pormenor nas predições de Cristo. Os horrores e misérias que
os judeus suportaram durante o cerco de sua cidade superam tudo que
já foi registrado. Verdadeiramente, aquele foi um tempo de tribulação,
como desde o princípio do mundo até agora não tem havido” .
Alguns se surpreendem ao ver tanta importância atribuída à to­
mada de Jerusalém. Tais pessoas preferem considerar este capítulo como
ainda não-cumprido. Esquecem-se, porém, de que Jerusalém e o tem­
plo eram o centro da antiga dispensação judaica. Quando foram destru­
ídos, chegou ao fim o antigo sistema mosaico. O sacrifício diário, as
festas anuais, o altar, o Santo dos Santos, o sacerdócio: todos eram par­
tes essenciais da religião revelada, até que Cristo veio; mas não mais
depois disso. Quando Ele morreu sobre a cruz, a finalidade de todas
essas partes foi terminada. Estavam agora mortas, e só restava que fos­
sem sepultadas. Porém, não convinha que isso fosse feito silenciosamente.
O fim de uma dispensação dada com tanta solenidade, no Monte Sinai,
bem poderíamos esperar que fosse marcado por uma solenidade pecu­
liar. A destruição do templo santo, onde tantos santos do Velho
Testamento tinham visto a “ sombra dos bens vindouros” (Hb 10.1), era
Mateus 24.15-28 207

de se esperar que fosse o assunto de uma profecia. E de fato o foi. O


Senhor Jesus prediz especialmente a desolação no “ lugar santo” . O
grande Sumo Sacerdote descreve o fim de uma dispensação que tinha
sido o preceptor para trazer homens a Cristo.
Contudo, não devemos supor que esta parte da profecia de nosso
Senhor foi cumprida inteiramente na primeira tomada de Jerusalém.
É mais provável que as palavras de nosso Senhor tenham uma aplicação
mais ampla e ainda mais profunda. É mais do que provável que elas
se apliquem a um segundo cerco de Jerusalém, ainda por acontecer,
quando Israel já tiver retomado à sua própria terra; e se apliquem a
uma segunda tribulação, a vir sobre os habitantes de Israel e que só
será detida pelo retomo de nosso Senhor Jesus Cristo.
Uma semelhante visão desta passagem pode, para alguns, pare­
cer surpreendente. Mas os que duvidam da correção desta interpretação
fariam bem em estudar o último capítulo do profeta Zacarias e o último
capítulo de Daniel. Esses dois capítulos contêm descrições solenes, e
lançam grande luz sobre os versículos que ora estudamos e sua conexão
com os versículos que vêm em seguida.
Resta-nos agora considerar as lições contidas nesta passagem,
para nossa edificação pessoal. São lições claras e inequívocas. Nelas,
pelo menos, não há qualquer obscuridade.
Antes de tudo, vemos que jugir do perigo pode, às vezes, ser
o dever explícito de um crente. Nosso Senhor ordenou pessoalmente
ao seu povo que “ fujam” , sob determinadas circunstâncias. Sem dú­
vida, o servo de Cristo não deve ser um covarde. Ele deve confessar
o seu Mestre diante dos homens, e estar disposto a morrer, se neces­
sário, pela causa da verdade. Mas, do servo de Cristo, não é requerido
que ele se atire para dentro do perigo, a menos que isso faça parte do
seu dever. Ele não deve se envergonhar de usar meios racionais para
prover a sua segurança pessoal, quando nenhum bem seria conseguido
pelo fato de ele morrer em seu posto. Há profunda sabedoria nesta lição.
Os verdadeiros mártires cristãos nem sempre são aqueles que cortejam
a morte e têm o afã de serem queimados ou decapitados. Há ocasiões
em que o crente demonstra maior graça ao ficar quieto, esperando, orando
e aguardando um tempo oportuno, do que ao desafiar seus adversários
e atirar-se na batalha. Que nós possamos ter a sabedoria para agir em
tempos de perseguição. Tanto é possível ser impetuoso quanto ser um
covarde, e é possível perder a nossa própria serventia por sermos muito
exasperados ou muito passivos.
Em segundo lugar, observemos que, ao entregar esta profecia,
nosso Senhor faz menção especial ao sábado. Diz Ele: “ Orai para que
a vossa fuga não se dê no inverno, nem no sábado” .
208 Mateus 24.15-28

Este é um fato que merece a nossa atenção. Vivemos em uma


época em que a obrigação de honrar o sábado é freqüentemente negada,
até mesmo por bons cristãos. Eles nos dizem que o sábado não é mais
obrigatório para nós, como não o são as leis cerimoniais. É difícil en­
xergar como tal ponto de vista, pode ser conciliado com as palavras
de nosso Senhor nessa ocasião solene. Quando predisse a destruição
final do templo e das cerimônias mosaicas, parece que Jesus mencionou
intencionalmente o sábado, como que para marcar com honra esse dia.
Ele parece dar a entender que, embora o seu povo houvesse de ser ab­
solvido do jugo de sacrifícios e ordenanças, para eles ainda restava a
guarda de um sábado (Hb 4.9). Os defensores do dia do Senhor devem
cuidadosamente lembrar-se deste texto, pois é uma passagem de grande
peso.
Em terceiro lugar, vemos que os eleitos de Deus sempre são ob­
jetos especiais do cuidado de Deus. Duas vezes nesta passagem o Senhor
faz menção deles. “ Por causa dos escolhidos” os dias da tribulação
serão “ abreviados” . Não será possível enganar os “ eleitos” .
Aqueles a quem Deus escolheu para a salvação, mediante Cristo,
são os que Deus ama especialmente neste mundo. Eles são as jóias den­
tre toda a humanidade. Deus tem maior cuidado por eles do que pelos
reis que se assentam nos tronos, se são reis não-convertidos. Deus ouve
as orações dos eleitos. Ele ordena todos os acontecimentos entre as
nações, e as causas de guerras, para o bem e a santificação dos seus
escolhidos. Ele os guarda por meio do Espírito, e não permite que ho­
mem, nem demônio, os arranque de sua mão protetora. Não importa
que tribulação venha sobre o mundo, os eleitos de Deus estão seguros!
Que nós jamais repousemos enquanto não tivermos a certeza de perten­
cer ao número dos bem-aventurados. E nenhum ser humano pode provar
que não é um dos eleitos. As promessas do evangelho se estendem a
todos. Portanto, esforcemo-nos por confirmar a nossa vocação e eleição!
(2 Pe 1.10). Os eleitos de Deus são um povo que clama a Ele noite e dia.
Quando Paulo viu a fé, a esperança e o amor dos Tessalonicenses, então
reconheceu que eram eleitos da parte de Deus (1 Ts 1.4; Lc 18.7).
Finalmente, vemos, por estes versículos, que, seja quando for
que aconteça, a segunda vinda de Cristo será um acontecimento muito
súbito. Será como o relâmpago que “ sai do oriente e se mostra até no
ocidente” .
Esta é uma verdade prática e que deveríamos sempre ter em mente.
Sabemos pelas Escrituras que nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa,
há de retomar a este mundo. Também sabemos que Ele virá em um
tempo de grande tribulação. Mas o período preciso: dia, hora, mês e
ano estão todos ocultos para nós. Somente sabemos que será um acon­
Mateus 24.15-28 209

tecimento repentino. O nosso claro dever, portanto, é viver sempre pre­


parados para a volta de Cristo. Que andemos pela fé, e não por vista.
Creiamos em Cristo, sirvamos a Cristo, sigamos a Cristo e amemos
a Cristo. Assim vivendo, não importa o momento em que Cristo retorne,
estaremos prontos para encontrá-lo.

Descrição do Segundo Advento


Leia Mateus 24.29-35

Nesta parte da profecia, nosso Senhor descreve a sua própria se­


gunda vinda para julgar o mundo. Isso, ao menos, é o que naturalmente
se deduz desta passagem. Qualquer interpretação menos abrangente,
parece-nos uma distorção violenta da linguagem da Escritura. Se as pa­
lavras solenes aqui empregadas significam apenas a vinda dos exércitos
romanos a Jerusalém, então podemos dar uma explicação semelhante
a qualquer outro evento na Bíblia. O acontecimento aqui descrito é algo
de muito maior importância do que a marcha de qualquer exército ter­
reno. Não é outra coisa senão o ato final que encerrará esta dispensação,
o segundo advento de Jesus Cristo, em pessoa.
Estes versos nos ensinam, em primeiro lugar, que quando o Se­
nhor Jesus regressar a este mundo, virá com peculiar glória e majestade.
Ele virá “ sobre as nuvens do céu com poder e muita glória.” Diante
da sua presença o próprio sol, a lua e as estrelas perderão o seu res­
plendor, e “ os poderes dos céus serão abalados” .
A segunda vinda pessoal de Jesus Cristo será tão diferente da
primeira quanto possível. Ele veio a primeira vez como homem de tris­
tezas, cercado de aflições. Nasceu em uma manjedoura, em Belém,
pequenino e humilde, e assumiu a forma de servo, tendo sido despre­
zado e rejeitado pelos homens desde o início. Ele foi traído e entregue
às mãos de homens iníquos, condenado por um julgamento injusto, es­
carnecido, açoitado, coroado de espinhos e, por fim, crucificado entre
dois ladrões. Na segunda vez, Ele virá como Rei de toda a terra, com
toda majestade real. Os príncipes e grandes homens deste mundo ha­
verão de comparecer diante do seu trono, para receberem uma sentença
eterna. Diante dEle toda boca se calará, todo joelho se dobrará e toda
língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor. Jamais nos esqueçamos
disso. Sem importar o que os homens possam fazer no presente, não
permanecerá zombaria alguma, nem escárnios contra Cristo, nem in­
fidelidade alguma no dia do juízo. Os servos do Senhor Jesus podem
esperar com paciência. Seu Mestre será, um dia, reconhecido como Rei
dos reis, por todo o mundo.
210 Mateus 24.29-35

Estes versículos nos ensinam» em segundo lugar, que quando


Cristo retomar a este mundo, Ele irá primeiramente cuidar do seu povo,
os crentes. Ele enviará os “ seus anjos” e estes “ reunirão os seus es­
colhidos” .
No dia do julgamento final, os verdadeiros crentes gozarão de
perfeita segurança. Nem um único fio de cabelo lhes cairá por terra.
Nenhum único osso do corpo místico de Cristo será quebrado. Houve
uma arca para Noé no dia do dilúvio; houve uma Zoar para Ló quando
Sodoma foi destruída; e haverá em Jesus um esconderijo para todos
os crentes, quando a ira de Deus, finalmente, descarregar-se sobre este
mundo vil. Os poderosos anjos, que se regozijavam no céu a cada vez
que um pecador se arrependia, haverão de alegremente recolher o povo
de Deus para o encontro com o Senhor, nos ares. Esse dia, sem dúvida
alguma, será um dia terrível; mas os crentes podem aguardá-lo sem
temor.
No dia do juízo os verdadeiros cristãos serão, por fim, todos reu­
nidos. Os santos de todos os séculos e de todos os idiomas serão re­
colhidos dentre todas as nações. Todos estarão lá, desde o justo Abel,
até à última alma que se converter a Deus; desde o mais antigo patriarca
até a criança que é salva. Portanto, meditemos sobre quão feliz será
esse encontro, quando a família de Deus estiver toda reunida! Se tem
sido agradável nos encontrarmos ocasionalmente com um ou dois cren­
tes, aqui na terra, quanto mais agradável será nos reunirmos, no céu,
a uma multidão inumerável, que ninguém pode contar! Certamente po­
demos nos contentar em carregar a cruz e suportar a dor de uma separação
por alguns anos, pois viajamos em direção a um dia quando nos encon­
traremos é já não haverá mais separações.
Em terceiro lugar, estes versículos nos ensinam que até que Cristo
retome a este mundo, os Judeus serão sempre um povo separado. Nosso
Senhor nos diz que “ não passará esta geração sem que tudo isto acon­
teça” . A existência contínua dos judeus como uma nação distinta é,
inegavelmente, um grande milagre. É uma daquelas evidências da ve­
racidade da Bíblia que os incrédulos jamais conseguem anular. Sem
uma pátria, sem rei, sem governo, espalhados e dispersos pelo mundo
por cerca de dezenove séculos, os judeus nunca são absorvidos entre
os povos dos países onde vivem; “ é povo que habita só” (Nm 23.9).
A única explicação para isso é o dedo protetor de Deus. A nação ju­
daica permanece de pé diante do mundo, como uma resposta esmagadora
para a incredulidade, e como um livro vivo que evidencia a veracidade
da Bíblia. Contudo, não deveríamos reputar os judeus apenas como tes­
temunhas da verdade das Escrituras. Deveríamos contemplá-los como
uma garantia contínua de que o Senhor Jesus um dia irá voltar outra
Mateus 24.29-35 211

vez. Tal a ordenança da Ceia do Senhor, os judeus são um testemunho


da realidade do segundo advento, tanto quanto são testemunhas do pri­
meiro advento. Não nos esqueçamos disso. Em cada judeu errante con­
templemos uma prova viva de que a Bíblia é verdadeira e de que Cristo
um dia haverá de retomar.
Finalmente, estes versículos nos ensinam que as predições de
nosso Senhor certamente se cumprirão. Ele disse: “ Passará o céu e
a terra, porém as minhas palavras não passarão” . Nosso Senhor co­
nhecia bem a incredulidade natural da natureza humana. Ele sabia que
nos últimos dias surgiriam zombadores, dizendo: “ Onde está a pro­
messa da sua vinda?” (2 Pe 3.4). Jesus sabia que quando retornasse
a fé seria rara entre os seres humanos. Ele anteviu o grande número
de pessoas que iriam rejeitar, com desprezo, aquelas predições solenes
que acabara de fazer, como improváveis, absurdas, impossíveis. Ele
nos adverte a todos, acerca de pensamentos assim, céticos, com uma
advertência de peculiar solenidade. Ele nos diz que suas palavras ha­
verão de se cumprir no tempo exato; e não “ passarão” sem cumprimento,
não importa o que os homens possam pensar ou dizer a respeito. Todos
aceitemos no coração esta advertência! Vivemos em uma época de grande
incredulidade. Poucos creram no relato da primeira vinda do Senhor,
e poucos crêem no relato da sua segunda vinda (Is 53.1). Acautelemo-
-nos dessa infecção e creiamos no Senhor, para a salvação de nossa
alma. Não estamos lendo fábulas astuciosamente inventadas, e, sim,
verdades profundas e importantíssimas. Que Deus nos dê um coração
capaz de crer nestas verdades.

Os Dias Anteriores à Segunda Vinda;


Recomendação à Vigilância
Leia Mateus 24.36-51

O primeiro assunto a requerer nossa atenção, nestes versículos,


é o horrendo quadro que eles nos dão sobre o estado do mundo quando
o Senhor Jesus voltar. O mundo não terá sido convertido quando Cristo
voltar. Será encontrado nas mesmas condições em que estava no dia do
dilúvio. Quando veio o dilúvio os homens estavam comendo e bebendo,
casando-se e dando-se em casamento, absorvidos em suas atividades
mundanas e inteiramente surdos para as repetidas advertências feitas
por Noé. Não acreditavam na possibilidade de um dilúvio. Recusavam-
-se a crer que houvesse algum perigo. No entanto, de súbito veio o dilúvio
“ e os levou a todos” . Todos quantos não se encontravam com Noé,
212 Mateus 24.36-51

no interior da arca, pereceram. Todos foram varridos, de uma vez e


para sempre, sem perdão, não-convertidos, despreparados para o en­
contro com Deus. E nosso Senhor diz que “ assim será também a vinda
do Filho do homem” .
Sublinhemos esta passagem e entesouremo-la no profundo do co­
ração. Há muitas opiniões estranhas sobre esse assunto, até mesmo entre
homens bons. Não nos devemos enganar, imaginando que antes do re­
tomo do Senhor todos os homens virão a se converter ou que a terra
se encherá do conhecimento de Deus. Não sonhemos, supondo que o
fim de todas as coisas não possa estar próximo porque ainda há muita
iniqüidade, tanto na igreja quanto no mundo em geral. Tais concepções
são redondamente contraditadas nesta passagem. Os dias de Noé são
um verdadeiro tipo dos dias em que Jesus Cristo irá retornar. Milhões
de professos cristãos serão desmascarados como insensatos, incrédulos,
sem Deus e sem Cristo, mundanos e desqualificados para o encontro
com o Juiz. Tenhamos muito cuidado para não sermos encontrados en­
tre os tais.
A segunda coisa que exige a nossa atenção, neste trecho, é a com­
pleta separação que haverá quando o Senhor Jesus voltar. Duas vezes
lemos que “ um será tomado, e deixado o outro” . No presente, o pie­
doso e o ímpio estão misturados e convivem juntamente. Nas igrejas,
nas cidades, nos campos e por toda a parte, os filhos de Deus e os filhos
deste mundo estão lado a lado. Mas isto não será sempre assim. No
dia do retorno de nosso Senhor haverá, enfim, uma completa divisão.
Em um momento, num piscar de olhos, ao ressoar a última trombeta,
cada um desses grupos será separado do outro para sempre. Esposas
serão separadas dos maridos, os pais dos filhos, os irmãos das irmãs,
os patrões de seus empregados, os pregadores de seus ouvintes. Não
haverá tempo para palavras de despedida e nem para arrependimento
quando o Senhor Jesus voltar. Cada qual será tomado como estiver,
e ceifará conforme o que tiver semeado. Os crentes serão arrebatados
para a glória, honra e vida eterna. Os incrédulos serão deixados para
trás, para vergonha e desprezo eternos. Bem-aventurados aqueles que
estão unidos de coração, seguindo a Cristo! A sua unidade jamais será
quebrada. Ela perdurará para toda a eternidade. Quem pode descre­
ver a felicidade daqueles que forem arrebatados, quando retornar o Se­
nhor? Quem pode imaginar a miséria daqueles que forem deixados para
trás? Que nós pensemos sobre essas coisas e consideremos os nossos
caminhos.
A última coisa que nos chama a atenção nestes versículos é o
dever prático de vigiar, ante a expectação da segunda vinda de Cristo.
Nosso Senhor diz: “ Vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso
Mateus 24.36-51 213

Senhor... ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não


cuidais, o Filho do homem virá.”
Este é um particular que nosso bendito Mestre insta com freqüência
para nossa observação. Dificilmente encontramos Jesus aludindo à sua
segunda vinda sem acrescentar uma recomendação: “ vigiai” . Ele co­
nhece a dormência de nossa própria natureza. Ele sabe quão rapidamente
nos esquecemos dos assuntos mais solenes da religião. Ele sabe quão
incessantemente Satanás trabalha para obscurecer a gloriosa doutrina
da segunda vinda. Ele nos arma de exortações poderosas para examinar
o coração, para que estejamos alertas, a fim de não sofrermos ruína
eterna. Que todos nós possamos dar ouvidos a essas exortações.
Os verdadeiros cristãos devem viver como atalaias. O dia do Se­
nhor virá como um ladrão à noite. Os crentes deveriam esforçar-se por
estar sempre de prontidão. Deveriam comportar-se como sentinelas de
um exército em território inimigo. Deveriam tomar a resolução de, pela
graça de Deus, não dormir em seus postos. Há um texto do apóstolo
Paulo que merece atenta consideração: “ Assim, pois, não durmamos
como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios” (1 Ts 5.6).
Os verdadeiros cristãos devem viver como bons servos, cujo se­
nhor acha-se ausente. Devem esforçar-se para estar sempre prontos para
o retorno de seu Senhor. Jamais devem ceder ante o pensamento “ Meu
Senhor demora-se” . Eles devem procurar manter-se em uma atitude
de coração que possa, de uma vez, dar-lhe uma recepção calorosa e
cheia de amor, não importa o momento em que Ele venha. Há uma
vasta profundidade na declaração do Senhor: “ Bem-aventurado aquele
servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim” . Se não
estamos prontos para, a qualquer momento, receber o Senhor que volta,
bem podemos questionar se somos verdadeiros crentes em Jesus ou não.
Encerremos este capítulo com sentimentos solenes. Aquilo que
acabamos de ler requer de nós uma grande sondagem de coração. Pro­
curemos assegurar-nos de que realmente estamos em Cristo e temos
uma arca de salvação para quando o dia da ira irromper sobre o mundo.
Esforcemo-nos por viver de maneira a sermos declarados “ benditos”
naquele dia final, e não sermos lançados fora para sempre. E, não me­
nos importante, apaguemos de nossa mente a idéia generalizada de que
a profecia ainda não cumprida é algo para especulação, e não para a
vida prática. Se estas coisas não são para a vida prática, então simples­
mente não existe religião prática. João disse: “ A si mesmo se purifica
todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1 Jo 3.3).
214 Mateus 25.1-13

A Parábola das Dez Virgens


Leia Mateus 25.1-13

O capítulo que agora iniciamos é a continuação do discurso pro­


fético de nosso Senhor, no monte das Oliveiras. O tempo a que o discurso
se refere está evidente e inequívoco. Do início ao fim há uma contínua
alusão à segunda vinda de Cristo e ao fim do mundo. O capítulo está
dividido em três seções. Na primeira, nosso Senhor usa a sua própria
segunda vinda como um argumento para a vigilância e sinceridade na
religião. Isto Ele o faz mediante a parábola das dez virgens. Na segunda
seção Ele usa a sua segunda vinda como um argumento para a diligên­
cia e a fidelidade. Ele o faz mediante a parábola dos talentos. Na terceira,
Ele resume tudo mediante uma descrição do grande dia do juízo, uma
passagem que, por sua beleza e majestade, não tem igual no Novo Tes­
tamento.
A parábola das dez virgens contém lições peculiarmente solenes
e despertadoras. Vejamos quais são.
Antes de mais nada, vemos que a segunda vinda de Cristo en­
contrará a igreja como um corpo misto, contendo bons e maus elementos.
A igreja professante é comparada a “ dez virgens que, tomando as suas
lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo’’. Todas tinham sua
lâmpada, mas apenas cinco dispunham de azeite para alimentar a chama.
Todas professavam ter um objetivo em vista, mas apenas cinco, eram
verdadeiramente sábias, e as outras eram insensatas. A igreja visível
encontra-se nessa mesma condição. Todos os seus membros são bati­
zados em nome de Jesus Cristo, mas nem todos ouvem a voz de Cristo
e O seguem. Todos são chamados cristãos e professam seguir a religião
cristã; mas nem todos têm a graça do Espírito Santo no coração, e não
são aquilo que professam ser. Nossos próprios olhos são testemunhas
disso. O Senhor Jesus nos diz que assim será até que Ele venha.
Observemos atentamente esta descrição. É um quadro que nos
humilha. Apesar de todas as nossas pregações e orações, apesar de toda
nossa visitação e ensinamentos, depois de todo nosso esforço missio­
nário no estrangeiro e dos meios de graça de que dispúnhamos em nossa
pátria, muitas dessas pessoas se acharão, no último dia, mortas em seus
delitos e pecados. A iniqüidade e a incredulidade da natureza humana
é um assunto acerca do qual nós todos ainda temos muito a aprender.
Em seguida, vemos que a segunda vinda de Cristo, seja quando
for que aconteça, pegará os homens de surpresa. Esta verdade nos é
apresentada na parábola de maneira impressionante. À meia noite, quando
Mateus 25.1-13 215

as virgens estavam sonolentas e dormentes, ouviu-se um grito: “ Eis


o noivo! saí ao seu encontro” .
Será também assim quando Jesus voltar ao mundo. Ele encon­
trará a vasta maioria da humanidade totalmente incrédula e despreparada.
Ele encontrará uma grande parte do seu povo, em um estado de alma
indolente e sonolento. Os negócios estarão seguindo normalmente, na
cidade e no campo, exatamente como agora. A política, o comércio,
a agricultura, a compra, a venda e a busca do prazer estarão controlando
a atenção dos homens, exatamente como agora. Os ricos ainda estarão
banqueteando-se suntuosamente, e os pobres murmurando e reclamando.
As igrejas ainda estarão cheias de divisões e disputando acerca de in­
significâncias, e as controvérsias teológicas ainda estarão em voga.
Pregadores ainda estarão chamando os homens ao arrependimento, e
o povo adiando o dia da decisão. No meio de tudo isso, o Senhor, em
pessoa, aparecerá repentinamente. Na hora em que ninguém imaginar,
o mundo surpreso será intimado a cessar todas as suas atividades e com­
parecer diante de seu legítimo Rei. Existe algo de indizivelmente terrível
neste pensamento; mas assim está escrito e assim será. Um ministro
do evangelho afirmou, ao morrer: “ Nenhum de nós está mais do que
meio-acordado” .
A seguir, vemos que, quando o Senhor voltar, muitos descobrirão
o valor da religião salvadora, porém já muito tarde. A parábola nos
diz que quando veio o noivo, as virgens insensatas disseram às sábias:
“ Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão se apagando” .
E diz-nos mais, que, como as sábias não dispunham de azeite para ceder-
-lhes, as insensatas saíram “ para comprar” . Finalmente, a parábola
nos diz que quando voltaram a porta já estava fechada e elas clamaram
em vão para que fosse aberta: “ Senhor, senhor, abre-nos a porta!” .
Todas estas expressões são emblemas impressionantes das coisas por
vir. Tomemos precaução para que tais coisas não se tornem verdadeiras
em nossa própria experiência, pois isso seria a nossa ruína eterna.
Podemos estar certos em nossas mentes de que um dia haverá
no mundo uma completa mudança de opinião quanto à necessidade de
um cristianismo decidido. No presente (todos devemos estar cientes),
a vasta maioria dos que se professam cristãos em nada se preocupam
com a validade do seu cristianismo. Não têm nenhum senso de pecado,
Não têm nenhum amor a Cristo. Nada sabem sobre o nascer de novo.
Arrependimento e fé, graça e santidade são meras palavras e nomes,
para eles. São assuntos que, para eles, são indiferentes, ou dos quais
não gostam. Mas todo esse estado de coisas um dia chegará ao fim.
Conhecimento, convicção, o valor da alma e a necessidade de um Sal­
vador — tudo isso eclodirá no último dia nas mentes dos homens, como
216 Mateus 25.1-13

um relâmpago. Infelizmente, já será tarde demais! Será muito tarde para


estar à procura de azeite quando o Senhor retomar. Os erros que não
tiverem sido corrigidos até aquele dia serão irrevogáveis.
Somos escarnecidos, perseguidos e julgados insensatos por causa
de nossa religião? Sejamos pacientes e oremos por aqueles que nos per­
seguem. Eles não sabem o que estão fazendo. Um dia, com certeza,
eles irão mudar de atitude. Pode ser que ainda os escutemos confessar
que nós fomos sábios e eles insensatos. O mundo inteiro reconhecerá
um dia que os santos de Deus fizeram uma escolha sábia.
Nesta parábola, em último lugar, vemos que quando Cristo re­
tomar, os crentes verdadeiros receberão uma rica recompensa por tudo
que sofreram por amor ao Mestre. Somos informados que quando veio
o noivo, “ as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas;
e fechou-se a porta” .
Somente os verdadeiros crentes estarão prontos quando acontecer
o segundo advento. Lavados no sangue da expiação, revestidos da justiça
de Cristo, renovados pelo Espírito Santo, os remidos irão ao encontro de
seu Senhor com ousadia, e tomarão lugar na ceia das bodas do Cordeiro,
para dali jamais saírem. Sem dúvida, esta é uma bendita perspectiva.
Os remidos estarão em companhia de seu Senhor, com Aquele
que os amou e a si mesmo se entregou por eles, que os sustentou e guiou
durante a peregrinação terrestre, Aquele a quem amaram verdadeira­
mente e a quem seguiram fielmente sobre a terra, embora em meio a
muitas fraquezas e muitas lágrimas. Sem dúvida, esta também é uma
bendita perspectiva.
A porta será fechada, enfim — fechada sobre toda dor e tristeza,
fechada para todo este mundo malvado e ímpio, fechada para as ten­
tações do diabo, fechada para todas as dúvidas e temores — fechada,
para nunca mais ser aberta. Sem dúvida, podemos dizer outra vez, esta
é uma bendita perspectiva.
Lembremo-nos destas coisas, elas merecem a nossa meditação.
Todas são verdadeiras. O crente pode sofrer muita tribulação, mas ele
tem diante de si abundantes consolações. A tristeza pode durar por uma
noite, mas a alegria vem ao amanhecer (SI 30.5). O dia do retorno de
Cristo, fará certamente a compensação por tudo.
Deixemos para trás esta parábola, com a firme determinação de
jamais nos contentarmos com algo menos do que a graça divina habi­
tando em nossos corações. A lâmpada e o nome de cristão, a profissão
cristã e as ordenanças do cristianismo, todos são bons e têm o seu de­
vido lugar; porém, não são aquilo que de tudo é o mais necessário.
Que não descansemos enquanto não tivermos a certeza de ter o “ azeite”
do Espírito em nosso coração.
Mateus 25.14-30 217

A Parábola dos Talentos


Leia Mateus 25.14-30

A parábola dos talentos, que agora lemos, é semelhante à pará­


bola das dez virgens. Ambas direcionam os nossos pensamentos para
o mesmo e importante acontecimento, a segunda vinda de Jesus Cristo.
Ambas nos falam das mesmas pessoas — os membros da igreja professa
de Cristo. As virgens e os servos representam um só e o mesmo povo,
mas este povo considerado de um ângulo diferente, sendo retratados
diferentes aspectos da sua atuação. A lição prática de cada parábola
é o principal ponto de diferença. A vigilância é a nota chave da pri­
meira parábola, e a diligência é a ênfase da segunda. A história sobre
as virgens exorta a igreja a vigiar; a história sobre os talentos conclama
a igreja a trabalhar.
Esta parábola nos ensina, em primeiro lugar, que todos os cristãos
recebem algo da parte de Deus. Somos todos “ servos” de Deus. To­
dos temos “ talentos” que nos foram confiados. A palavra “ talentos”
tem sido curiosamente distorcida quanto ao seu significado original.
Ela geralmente só é aplicada a pessoas notáveis por sua habilidade ou
dons. São as chamadas pessoas “ talentosas” . Porém, tal uso da expres­
são é mera invenção moderna. No sentido em que nosso Senhor empregou
o termo nesta parábola, a palavra aplica-se a todas as pessoas batizadas,
sem distinção. Aos olhos de Deus todos nós temos talentos. Somos to­
dos pessoas talentosas.
Qualquer coisa pela qual possamos glorificar a Deus constitui
um talento. Nossos dons, nossa influência, nosso dinheiro, nosso co­
nhecimento, nossa saúde, nossa força, nosso tempo, nossos sentidos,
nosso raciocínio, nosso intelecto, nossa memória, nossos afetos, nossos
privilégios como membros da igreja de Cristo, nossas vantagens como
possuidores da Bíblia — todos, todos são talentos. De onde vieram es­
sas coisas? Quem no-las outorgou? Por qual motivo somos o que somos?
Por que não somos vermes que se arrastam sobre a terra? Há somente
uma resposta para todas estas perguntas. Tudo o que temos é por em­
préstimo de Deus. Nós somos mordomos de Deus. Somos devedores
a Deus. Que este pensamento se abrigue no profundo de nosso coração.
Em segundo lugar, aprendemos que muitos fazem mal uso dos
privilégios e misericórdias recebidos de Deus. Na parábola lemos de
um servo que “ abriu uma cova e escondeu o dinheiro do seu senhor” .
Esse homem representa uma grande parcela da humanidade.
Ocultar nosso talento é negligenciar as oportunidades que temos
218 Mateus 25.14-30

de glorificar a Deus. Os que desprezam a Bíblia, negligenciam a oração e


não guardam o dia do Senhor; os incrédulos, os sensuais e os que seguem
o pensamento do mundo; os frívolos, os imprudentes e os que buscam
prazeres, os que amam ao dinheiro, os cobiçosos e os auto-indulgentes
— todos igualmente, estão enterrando no chão o dinheiro de seu Se­
nhor. Todos receberam alguma luz, porém não a utilizam. Todos esses
poderiam ser melhores e mais úteis do que são, mas estão roubando
diariamente a Deus. Deus lhes confiou muitas coisas e eles não lhe dão
nenhum retorno. As palavras de Daniel a Belsazar são notavelmente
aplicáveis a toda pessoa não-convertida: “ A Deus, em cuja mão está
a tua vida, e todos os teus caminhos, a ele não glorificaste” (Dn 5.23).
Em terceiro lugar, aprendemos que todos os que se professam
cristãos um dia haverão de prestar contas a Deus. A parábola nos diz
que, "depois de muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e ajus­
tou contas com eles” .
Há um julgamento à espera de cada um de nós. Se não há jul­
gamento, as palavras da Bíblia não têm qualquer significação. Negá-lo
é tratar com leviandade as Escrituras. Há um julgamento que nos aguarda,
de acordo com nossas obras, e será seguro, estrito e inevitável. Impor­
tantes ou não, ricos ou pobres, eruditos ou incultos, todos teremos de
comparecer diante do tribunal de Deus e receber nossa sentença eterna.
Não haverá escapatória. Esconder-se será impossível. Nós e Deus ha­
veremos enfim de nos encontrar face a face. Teremos de prestar contas
de cada privilégio que nos foi concedido, e de cada raio de luz desfru­
tado. Descobriremos, por fim, que somos tratados como criaturas
responsáveis que terão de prestar contas, e que, a quem muito é dado,
muito lhe será exigido (Lc 12.48). Lembremo-nos dessa verdade por
todos os dias de possa vida. Que nos julguemos a nós mesmos, para
não sermos condenados pelo Senhor (1 Co 11.31,32).
Em quarto lugar, aprendemos que os verdadeiros crentes rece­
berão uma abundante recompensa, no grande dia da prestação de contas.
A parábola nos diz, que os servos que tinham empregado bem o dinheiro
de seu Senhor foram elogiados: "Servo bom e fiel... entra no gozo do
teu senhor” . Estas palavras estão cheias de conforto para todos os cren­
tes, e nos enchem de admiração e surpresa. O melhor de todos os crentes
é apenas uma pobre e frágil criatura, e precisa do sangue de expiação
todos os dias de sua vida. Entretanto, o menor e mais pobre de todos
os crentes descobrirá, naquele dia, que é contado entre os servos de
Cristo, e que o seu labor não foi vão no Senhor. Ele descobrirá, para
sua surpresa, que os olhos de seu Senhor enxergavam maior beleza do
que ele mesmo enxergava em seus esforços para agradar ao Senhor.
Verá que cada hora passada no serviço de Cristo, e cada palavra dita
Mateus 25.14-30 219

em favor de Cristo, ficaram registradas em um livro de memórias. Que


os crentes se lembrem destas coisas e assim tomem coragem. A cruz
pode ser pesada agora, mas a recompensa gloriosa fará compensação
por tudo. Disse Leighton: “ Aqui, algumas partículas de gozo entram
em nós; mas, no céu, seremos nós que entraremos no gozo” .
Em último lugar, aprendemos que todos os membros infrutíferos
da Igreja de Cristo serão condenados e lançados fora no dia do juízo.
A parábola nos diz que o servo que enterrou o dinheiro de seu senhor
foi condenado como “ mau e negligente” e “ inútil” , e foi lançado “ para
fora, nas trevas” . E o Senhor acrescenta estas solenes palavras: “ Ali
haverá choro e ranger de dentes” .
No último dia não haverá desculpa para um crente professo e
não-convertido. As razões com que agora ele imagina justificar a si
mesmo mostrarão ser inúteis e vãs. Naquele dia ficará comprovado que
o Juiz de toda a terra agiu com justiça. A ruína do homem perdido será
devida exclusivamente a ele mesmo. As palavras de nosso Senhor, “ sa­
bias que... ” , deveriam soar bem alto aos ouvidos de muitos homens,
compungindo-lhes o coração. Milhares de pessoas estão vivendo sem
Cristo e sem conversão, e fazendo de conta que nada podem fazer a
respeito. Mas sabem o tempo todo, em sua própria consciência, que
são culpados. Estão enterrando o seu talento. Não estão fazendo o quanto
podem. Felizes são os que descobrem essa realidade a tempo. No úl­
timo dia tudo será desvendado.
Passemos adiante com a firme resolução de, pela graça de Deus,
nunca nos contentarmos com o cristianismo apenas de nome, sem vida
prática. Cumpre-nos não apenas falar sobre religião, e, sim, agir. Não
devemos apenas sentir a importância da religião; devemos também fa­
zer algo a respeito. A. parábola não diz que o servo inútil era um homicida
ou ladrão, e nem mesmo afirma que ele desperdiçava o dinheiro de seu
senhor. Mas ele não fez nada, e isso foi a sua ruína. Tomemos pre­
caução contra um cristianismo do tipo nada-fazer. Tal cristianismo não
procede do Espírito de Deus. “ Não ter feito nenhum mal” , diz Baxter,
“ é elogio para uma pedra, mas não para um homem” .

O Julgamento Final
Leia Mateus 25.31-46

Nestes versículos nosso Senhor Jesus Cristo descreve o dia do


julgamento final, e algumas das principais circunstâncias referentes a
esse dia. Em toda Bíblia, há poucas passagens mais solenes e que tanto
220 Mateus 25.31-46

nos perscrutam o coração. Que possamos lê-la com a atenção séria e


proftmda que ela merece.
Notemos, em primeiro lugar, quem será o Juiz, no último dia.
Lemos que será “ o Filho do homem” , o próprio Jesus Cristo.
O mesmo Jesus que nasceu na manjedoura, em Belém, e tomou
sobre si a forma de servo; que foi desprezado e rejeitado pelos homens
e muitas vezes não tinha onde reclinar a cabeça; que foi condenado,
esmurrado, açoitado e pregado na cruz pelos príncipes deste mundo
— esse mesmo Jesus irá julgar, Ele mesmo, o mundo, quando vier em
sua glória. O Pai confiou a Ele todo o julgamento (Jo 5.22). Diante
dEle, finalmente, todo joelho se dobrará, toda língua confessará que
Ele é o Senhor (Fp 2.10,11).
Que os crentes meditem a esse respeito e se consolem. Aquele
que se assenta no trono, naquele grande e espantoso dia, será o Sal­
vador, o Pastor, o Sumo Sacerdote, o Irmão mais velho e o Amigo dos
crentes. Quando O virem não terão motivos para estarem alarmados.
Que os não-convertidos meditem sobre isso e temam. Quem os
julgará será o próprio Cristo cujo evangelho agora desprezam, e cujos
convites graciosos recusam-se a ouvir. Quão grande perplexidade so­
frerão se persistirem na incredulidade e morrerem em seus pecados!
Ser condenado no último dia por um juiz qualquer, já seria horrível.
Porém, ser condenado por aquele que desejava salvá-los, será verda­
deiramente terrível. Com muita razão disse o salmista: ‘‘Beijai o Filho
para que se não irrite” (SI 2.12).
Em segundo lugar, observemos quem será julgado naquele dia.
Lemos que ‘‘todas as nações serão reunidas” diante de Cristo. Todos
quantos já viveram um dia terão de prestar contas de si mesmos perante
o tribunal de Cristo. Todos terão de obedecer à intimação do grande
Rei e receber a sua respectiva sentença. Os que não querem adorar a
Cristo neste mundo, descobrirão que terão de apresentar-se diante do
seu grande tribunal, quando Ele voltar para julgar o mundo.
Todos os julgados serão divididos em duas grandes categorias.
Não haverá mais distinção nenhuma entre reis e súditos, patrões e em­
pregados, ou clérigos e pregadores independentes. Não se fará menção
alguma a denominações ou partidos religiosos, porquanto todas as dis­
tinções do passado terão sido eliminadas. Graça ou nenhuma graça,
conversão ou não conversão, fé ou nenhuma fé, estas serão as únicas
distinções que prevalecerão naquele dia. Todos quantos forem achados
em Cristo serão postos entre as ovelhas, à sua direita. E todos quantos
não forem achados em Cristo serão colocados entre os bodes, à sua
esquerda. Como disse Sherlock: ‘‘As distinções que agora fazemos de
nada nos adiantarão, a menos que tenhamos o cuidado de ser achados
Mateus 25.31-46 221

entre o número das ovelhas de Cristo, quando Ele vier para julgar o
mundo” .
Em terceiro lugar, observemos de que maneira o julgamento será
conduzido, no último dia. Há aqui particularidades notáveis sobre o as­
sunto. Vejamos, pois, quais são.
O juízo final será um julgamento de acordo com as evidências.
As obras dos homens serão as testemunhas que serão trazidas a frente,
sobretudo suas obras de caridade. A questão a ser esclarecida será não
apenas o que dissemos, mas o que fizemos; não será meramente aquilo
que professamos, mas aquilo que houvermos praticado. Inquestionavel­
mente, nossas obras não nos justificarão diante de Deus. Somos justifi­
cados pela fé, sem as obras da lei. Mas a autenticidade de nossa fé será
testada pela qualidade de nossa vida. A fé que não tem obras, por si
só está morta (Tg 2.17).
O juízo final será um julgamento que trará alegria para todos os
verdadeiros crentes. Eles ouvirão aquelas preciosas palavras: “ Vinde,
benditos de meu Pai! entrai na posse do reino” . Eles serão propriedade
do Mestre, e Ele os confessará diante do Pai e dos santos anjos. Des­
cobrirão que o salário que Ele dá aos seus é um reino, e nada menos
do que isso. O menor, o menos importante e o mais pobre da família
de Deus, terá uma coroa de glória e será rei.
O juízo final será um julgamento que trará confusão sobre todos
os não-convertidos. Eles irão ouvir aquelas palavras horríveis: “ Apartai-
-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” . Eles serão rejeitados pelo
grande Cabeça da igreja, diante do mundo inteiro reunido. E descobrirão
que, assim como semearam para a carne, da carne irão ceifar corrupção.
Não queriam ouvir a Cristo, quando dizia: “ Vinde a mim, e eu vos
aliviarei” , e agora terão de ouvi-Lo dizer: “ Apartai-vos de mim, para
o fogo eterno” . Não quiseram tomar aos ombros a cruz de Cristo e,
portanto, não haverá lugar para eles no seu reino.
O juízo final será um julgamento que revelará notavelmente o
caráter, tanto dos salvos como dos perdidos. Aqueles à direita de Cristo,
suas ovelhas, continuarão “ revestidos de humildade” ; e ficarão sur­
presos ao ouvirem o Senhor mencionar e aprovar qualquer obra que
tenham realizado. Ao lado esquerdo, os que não foram de Cristo con­
tinuarão cegos em sua justiça-própria. Não se mostrarão sensíveis à sua
negligência a Cristo. “ Senhor” , dirão, “ quando foi que te vimos...
e não te assistimos?” Possa este pensamento penetrar em nossos corações.
O caráter moral desenvolvido neste mundo será uma possessão eterna
no mundo vindouro. Com o mesmo caráter com que o homem morre,
com esse mesmo caráter haverá de ressuscitar.
Observemos, em último lugar, quais serão os resultados finais
222 Mateus 25.31-46

do dia do julgamento. Disto somos informados através de palavras que


nunca deveriam ser esquecidas: “ E irão estes para o castigo eterno,
porém os justos para a vida eterna” .
Terminado o julgamento, o estado de coisas será imutável e sem
fim. Tanto a miséria dos perdidos quanto a felicidade dos salvos, serão
ambas fixadas para sempre. Que ninguém nos engane quanto a isso.
Isso está claramente revelado nas Escrituras. A eternidade de Deus,
a eternidade do céu e a eternidade do inferno, todas estão alicerçadas
sobre um mesmo fundamento. Tão certo quanto Deus é eterno, também
o céu é um dia interminável, sem noite, e o inferno é uma noite inter­
minável, sem dia.
Quem descreverá a bem-aventurança da vida eterna? Ela ultra­
passa em muito ao poder da concepção humana. Só pode ser medida
por contraste e comparação. Por exemplo, um eterno descanso após
guerra e conflito; a eterna companhia dos santos, depois de ter batalhado
contra um mundo maligno; um corpo eternamente glorioso e que nunca
mais sentirá enfermidade; uma eterna contemplação de Jesus Cristo,
face a face, sendo que anteriormente só havia o ouvir e crer. Tudo isso
é bem-aventurança, de fato. Mas metade de tudo isso ainda está para
ser contada.
Quem descreverá as misérias da punição eterna? Trata-se de algo
totalmente indescritível e inconcebível. A eterna dor no corpo; a dor
aguda de uma consciência acusadora; a eterna sociedade dos ímpios
com o diabo e seus anjos; a eterna lembrança de oportunidades negli­
genciadas e Cristo desprezado; a eterna perspectiva de um futuro abor­
recido e sem esperança. Tudo isso é miséria, de fato; o suficiente para
fazer nossos ouvidos tinirem e o sangue gelar em nossas veias. Mesmo
assim, esse quadro é nada quando comparado com a realidade.
Encerremos o comentário destes versículos com uma séria auto-
-inquirição. Perguntemos a nós mesmos, de que lado de Cristo prova­
velmente estaremos, no último dia. Estaremos à sua direita ou à sua
esquerda? Feliz é quem não descansa até que possa dar uma resposta
satisfatória para essa pergunta.

A Mulher que Ungiu Nosso Senhor


Leia Mateus 26.1-13

Estamos nos aproximando da cena final do ministério terreno de


nosso Senhor Jesus Cristo. Até esta altura, temos lido de suas declarações
e de seus feitos. Doravante iremos ler de seus sofrimentos e sua morte.
Mateus 26.1-13 223

Até agora o temos visto como o grande Profeta; daqui por diante o ve­
remos como o grande Sumo Sacerdote.
Esta é uma porção das Escrituras que deveria ser lida com pe­
culiar atenção e reverência. O lugar em que pisamos é terra santa. Vemos
aqui como o Descendente da mulher esmagou a cabeça da serpente.
Vemos aqui o grande sacrifício, para o qual apontavam todos os sacri­
fícios do Antigo Testamento. Vemos aqui como foi vertido o sangue
que nos “ purifica de todo pecado” , como foi morto o Cordeiro que
“ tira o pecado do mundo” . Vemos revelado na morte de Cristo o grande
mistério de como Deus pode ser justo e mesmo assim justificar o ímpio.
Não admira que todos os quatro evangelhos contenham um relato com­
pleto deste maravilhoso evento. Acerca de outros detalhes na história
de nosso Senhor, descobrimos que, freqüentemente, quando um evan­
gelista fala os outros três fazem silêncio. Mas, quando chegamos à
crucificação, temos um relato minuciosamente descrito por todos os
quatro evangelistas.
Nos versículos que acabamos de ler, observemos, em primeiro
lugar, como o Senhor é cuidadoso ao chamar a atenção de seus dis­
cípulos para a sua própria morte. Ele lhes disse: “ Sabeis que daqui
a dois dias celebrar-se-á a páscoa; e o Filho do homem será entregue
para ser crucificado” .
A conexão destas palavras com o capítulo anterior é impossível
não se notar. Nosso Senhor à pouco falava de sua segunda vinda em
poder e glória, no fim do mundo. Ele estava descrevendo o julgamento
final e todos aqueles terríveis acontecimentos. Estivera falando de si
mesmo como o Juiz diante de cujo trono todas as nações serão reunidas.
E então, subitamente, sem pausa ou intervalo, Jesus começa a falar de
sua crucificação. Enquanto as predições maravilhosas de sua glória fi­
nal ainda ressoavam aos ouvidos dos discípulos. Ele lhes fala mais uma
vez dos sofrimentos que em breve viriam. Relembra-os de que deve
morrer como oferta pelo pecado antes de reinar como Rei; de que deve
fazer a expiação sobre a cruz antes de receber a coroa.
Não há como exagerar a importância da morte expiatória de Cristo.
Ela é o fato central na Palavra de Deus, para o qual os nossos olhos
espirituais deveriam estar sempre atentos. Sem o derramamento do san­
gue de Cristo não há remissão de pecados. Essa é a verdade fundamental,
de que depende o sistema inteiro do cristianismo. Sem ela o evangelho
é como uma arca sem a quilha; como um belo edifício sem alicerces;
é como um sistema solar sem sol.
Que nós valorizemos grandemente a encarnação de nosso Senhor
e o seu exemplo, seus milagres, suas parábolas, seus ensinamentos e
seus feitos; mas, acima de tudo, valorizemos muito a sua morte.
224 Mateus 26.1-13

Deleitemo-nos na esperança de sua segunda vinda pessoal e seu reinado


milenar, mas lembremo-nos de que essas verdades benditas não são mais
importantes do que a expiação realizada na cruz. Esta, afinal de contas,
é a verdade central das Escrituras, que “ Cristo morreu pelos nossos
pecados” (1 Co 15.3). Lembremo-nos desta verdade, dia a dia. Ali­
mentemos com ela, diariamente, as nossas almas. Alguns, como os
antigos gregos, podem até escarnecer da doutrina e chamá-la de “ lou­
cura” . Mas jamais nos envergonhemos de dizer, com Paulo: “ Longe
esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”
(G1 6.14).
Observemos nestes versículos, em segundo lugar, quanta honra
o Senhor Jesus ama conceder àqueles que O honram. Lemos que quando
Jesus estava “ em casa de Simão, o leproso” , uma certa mulher
aproximou-se, estando Ele à mesa, e lhe derramou sobre a cabeça um
frasco de ungiiento preciosíssimo. Ela fez isso, sem dúvida, por reve­
rência e afeição. Tinha recebido de Jesus um benefício espiritual, e por
isso nenhum sacrifício pessoal era grande demais para honrar ao Se­
nhor como retribuição. Não obstante, o ato daquela mulher levou alguns
dos circunstantes a reprová-la, quando viram o que fizera. Chamaram
aquilo de “ desperdício” . Disseram que talvez teria sido melhor vender
o ungüento e dar o dinheiro aos pobres. Mas o Senhor repreendeu pron­
tamente aqueles homens insensíveis e críticos. Jesus disse-lhes que “ Ela
praticou uma boa ação para comigo” , a qual Ele aceitava e aprovava.
E Jesus foi mais além, e fez uma predição notável: “ Onde for pregado
em todo o mundo este evangelho, será também contado o que ela fez,
para memória sua” .
Dentro desse pequeno incidente, notamos quão perfeitamente nosso
Senhor conhecia os acontecimentos futuros, e quão facilmente Ele pode
conferir honra a alguém. Essa profecia, a respeito daquela mulher, está
sendo cumprida a cada dia perante nossos olhos. Onde quer que o evan­
gelho de Mateus seja lido, torna-se conhecido o que fez essa mulher.
Os feitos e os títulos de muitos monarcas, imperadores e generais estão
completamente esquecidos, como se tivessem sido escritos sobre a areia.
Porém, o ato de gratidão de uma humilde mulher crente está registrado
em centenas de idiomas diferentes, e é conhecido em todo o mundo.
O elogio dos homens dura somente por alguns dias, mas o elogio de
Cristo permanece para sempre. O caminho para a honra duradoura con­
siste em dar honra a Cristo.
Em último lugar, mas não menos importante, vemos nesse in­
cidente um bendito antegozo de coisas que estão para acontecer no dia
do juízo final. Naquele grande dia, nenhuma honra prestada a Cristo
nesta terra terá sido esquecida por Ele. Os discursos dos oradores par­
Mateus 26.1-13 225

lamentares, os feitos heróicos dos guerreiros, as obras de poetas e pintores


nem serão mencionados. Mas a menor obra que o crente mais fraco
tiver feito em favor de Cristo ou do seu povo, estará registrada num
livro de memórias eternas. Nem uma única palavra ou atitude gentil,
nenhum copo de água fria ou frasco de perfume deixará de ser regis­
trado no livro. Ouro e prata talvez ela não tivesse; posição social, poder
e influência talvez não possuísse, mas, se ela amava a Cristo e confes­
sava a Cristo, e trabalhava por Cristo, a sua memória estará registrada
no céu. Ela será elogiada diante dos mundos reunidos.
Sabemos o que significa trabalhar por Cristo? Se sabemos, tenha­
mos coragem e trabalhemos ainda mais. Qual encorajamento havería­
mos de desejar maior do que este que encontramos aqui? O mundo pode
rir e nos ridicularizar. Nossos motivos podem ser mal interpretados e
nossa conduta deturpada. Nossos sacrifícios por amor a Cristo podem
ser chamados de “ desperdício” — desperdício de tempo, desperdício
de dinheiro, desperdício de energias. Porém, que nada disso nos abale.
Os olhos daquele que esteve na casa de Simão, em Betânia, estão postos
sobre nós. Ele vê tudo quanto fazemos por Ele, e fica satisfeito. Por­
tanto, “ sede firmes, inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor,
sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co 15.58).

O Falso Apóstolo e Seu Pecado Arraigado


Leia Mateus 26.14-25

No começo desta passagem vemos como nosso Senhor Jesus Cristo


foi traído e entregue às mãos de seus inimigos mortais. Os sacerdotes
e escribas, embora ansiosos por vê-Lo morto, não sabiam como con­
cretizar o seu propósito, pois temiam uma revolta entre o povo. Então,
surgiu um instrumento apropriado, oferecendo-se para levar adiante os
seus intentos — Judas Iscariotes. Esse falso apóstolo dispôs-se a trair
o seu Mestre, por trinta moedas de prata.
Em toda a História há poucas páginas mais escuras do que a do
caráter e da conduta de Judas Iscariotes. Não há pior evidência da pe-
caminosidade do homem. Um dos nossos poetas já disse que “ uma
criança ingrata é mais cortante do que as presas de uma serpente” . Mas,
que diríamos sobre um discípulo que se dispôs a trair seu próprio Mes­
tre, de um apóstolo que foi capaz de vender Cristo? Certamente essa
não foi a parte menos amarga do cálice de sofrimentos que nosso Se­
nhor bebeu.
Com base nestes versículos, em primeiro lugar, cumpre-nos apren­
226 Mateus 26.14-25

der que um homem pode desfrutar de grandes privilégios e fazer uma


grande confissão e, mesmo assim, o tempo todo seu coração pode não
estar correto diante de Deus. Judas Iscariotes dispunha dos mais ele­
vados privilégios religiosos possíveis. Foi escolhido para ser apóstolo
e companheiro de Cristo. Foi testemunha ocular dos milagres de nosso
Senhor e ouvinte de seus sermões. Ele viu aquilo que Moisés e Abraão
jamais viram, e ouviu o que Davi e Isaías nunca ouviram. Viveu na
companhia dos onze apóstolos. Foi cooperador de Pedro e João. Po­
rém, a despeito de tudo isso, seu coração nunca foi mudado; ele se
apegava a um pecado de estimação.
Judas Iscariotes fazia uma respeitável profissão religiosa. Quanto
à sua conduta externa tudo era correto, apropriado e coerente. Como
os demais apóstolos, ele parecia crer e desistir de tudo por amor a Cristo.
Ele também fora enviado para pregar e realizar milagres. Nenhum dos
onze parece ter suspeitado que Judas era um hipócrita. Quando nosso
Senhor disse: “ um dentre vós me trairá” , ninguém falou: “ Será Ju­
das?” Não obstante, durante todo aquele tempo, seu coração nunca foi
mudado.
Deveríamos observar tais coisas. Elas servem para nos humilhar
e instruir. Assim como a mulher de Ló, Judas foi posto como um farol
para toda a igreja. Que nós pensemos freqüentemente a respeito dele,
e digamos, enquanto meditarmos, “ sonda-me, ó Deus, e conhece o meu
coração... vê se há em mim algum caminho mau” (SI 139.23,24). To­
memos a resolução, pela graça de Deus, de nunca nos contentarmos
com qualquer coisa menos dp que uma conversão completa e genuína
do coração.
Em segundo lugar, aprendamos, com base nestes versículos, que
o amor ao dinheiro é uma das maiores armadilhas para a alma de um
homem. Não podemos imaginar uma prova mais evidente dessa verdade
do que o caso de Judas. Aquela pergunta infame, “ Que me quereis dar?” ,
revela o pecado secreto que foi a ruína de Judas. Ele havia desistido
de muita coisa, por causa de Cristo; mas não havia desistido de sua
cobiça.
As palavras do apóstolo Paulo deveriam soar com freqüência aos
nossos ouvidos: “ O amor do dinheiro é raiz de todos os males” (1 Tm
6.10). A história da igreja está repleta de ilustrações dessa verdade.
Foi por dinheiro que José foi vendido por seus irmãos. Por dinheiro
Sansão foi traído e entregue aos filisteus. Por dinheiro Geazi enganou
Naamã e mentiu para Elizeu. Por dinheiro Ananias e Safira tentaram
ludibriar o apóstolo Pedro. Por dinheiro o Filho de Deus foi entregue
às mãos dos ímpios. Parece extraordinário que a causa de tantos males
seja tão amada pelos homens.
Mateus 26.14-25 227

Que todos nós estejamos precavidos contra o amor ao dinheiro.


Em nossos dias o mundo está cheio deste amor. A praga está por toda
parte. Milhares de pessoas, que abominariam a idéia de adorar uma
imagem de escultura, não se envergonham em fazer do ouro um ídolo.
Todos estamos sujeitos a essa infecção, desde o menor ao maior dentre
nós. Podemos amar ao dinheiro mesmo sem possuí-lo, da mesma ma­
neira como podemos possuir o dinheiro sem amá-lo. Este é um mal
que opera de maneira muito enganadora. Leva-nos em cativeiro, antes
mesmo de percebermos que já estamos presos em suas cadeias. Uma
vez que permitimos que ele nos domine, o amor ao dinheiro irá endu­
recer, paralizar, cauterizar, congelar, enferrujar e secar a nossa alma.
Isso aconteceu até mesmo a um apóstolo de Cristo. Cuidemos para que
também não nos aconteça. Um pequeno vasamento pode afundar um
grande navio. Um único pecado não-mortificado pode arruinar uma alma.
Deveríamos lembrar-nos com freqüência de palavras solenes como
estas: “ Que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder
a sua alma?’’; “ nada temos trazido para o mundo, nem cousa alguma
podemos levar dele” . Nossa oração diária deveria ser ‘‘não me dês nem
a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pv 30.8).
O nosso alvo constante deveria ser o enriquecimento na graça. Os que
querem ficar ricos em possessões mundanas freqüentemente descobrem,
mais tarde, que fizeram a pior das barganhas. A exemplo de Esaú, tro­
caram uma porção eterna por uma pequena gratificação temporária.
Assim como Judas Iscariotes, venderam-se à perdição eterna.
Nestes versículos aprendemos, em último lugar, a situação de­
sesperada de todos quantos morrem sem se converter. As palavras de
nosso Senhor, a respeito do assunto, são peculiarmente solenes. Disse
Ele acerca de Judas: “ Melhor lhe fora não haver nascido!” .
Esta afirmativa admite somente uma interpretação. Ela nos en­
sina claramente que é melhor nunca viver, do que viver neste mundo
sem ter fé, e morrer sem a graça divina. Morrer em tal estado significa
ruína para todo o sempre. Trata-se de uma queda sem recuperação. É
uma perda absolutamente irreparável. No inferno não haverá qualquer
possibilidade de mudança. O abismo entre céu e inferno é enorme, e
ninguém pode atravessá-lo.
Esta declaração nunca poderia ter sido usada se houvesse alguma
verdade na doutrina da salvação universal. Se realmente fosse verdade
que, mais cedo ou mais tarde, todos os seres humanos alcançarão o
céu, e que o inferno cedo ou tarde não terá mais habitantes, então ja­
mais poderia ter sido dito que seria melhor um homem “ não haver
nascido” , conforme disse Jesus. O próprio inferno perderia os seus ter­
rores, se viesse a ter um fim. O próprio inferno se tornaria um lugar
228 Mateus 26.14-25

suportável, se após milhões de anos houvesse uma esperança de liber­


dade e de o condenado ir para o céu. Porém, a salvação universal não
encontra qualquer fundamento nas Escrituras. O ensino da Palavra de
Deus sobre o assunto é claro e explícito. Há um “ verme” que não morre
e um “ fogo” que não se apaga (Mc 9.44). “ Se alguém não nascer de
novo” (Jo 3.3), desejará, um dia, nunca ter nascido. Escreveu Burkitt:
“ Melhor não existir do que não existir em Cristo” .
Apeguemo-nos firmemente a esta verdade, sem deixá-la escapar.
Sempre há pessoas que têm aversão à realidade e eternidade do inferno.
Vivemos em uma época em que uma benevolência mórbida leva muitos
homens a exagerar a misericórdia de Deus às custas da justiça de Deus;
e falsos mestres ousam falar de um “ amor de Deus que ultrapassa até
mesmo o inferno” . Ofereçamos resistência a tal tipo de ensino, mo­
vidos por um santo zelo, e permaneçamos fiéis à doutrina da Sagrada
Escritura. Que nós não nos envergonhemos de andar nas antigas vere­
das, crendo que existe um Deus eterno, um céu eterno e um inferno
eterno. Se nos afastarmos desta crença, estaremos admitindo a cunha
afiada do ceticismo, e por fim acabaremos negando qualquer doutrina
do evangelho. Entre uma crença na eternidade do inferno e a infideli­
dade evidente não há qualquer ligação. Acerca disso podemos estar
descansados.

A Ceia do Senhor e os Primeiros Participantes


Leia Mateus 26.26-35

Estes versículos descrevem a instituição da ordenança da Ceia


do Senhor. Nosso Senhor sabia bem as coisas que estavam diante de
si, e graciosamente escolheu a última noite de quietude que podia ter,
antes da crucificação, como ocasião para conceder um dom à sua igreja,
antes de partir. Quão preciosa deve ter parecido esta ordenança, mais
tarde, quando os discípulos se lembraram dos acontecimentos daquela
noite! Quão lamentável saber que nenhuma outra ordenança tem pro­
vocado uma controvérsia tão feroz, e sido tão tristemente mal compreen­
dida como esta ordenança da Ceia do Senhor. Ela deveria ter unificado
a igreja, mas nossos pecados a tem transformado em um motivo de
divisões. Aquilo que visava ao nosso bem com freqüência tem sido trans­
formado em ocasião de tropeço.
A primeira coisa que nos chama a atenção nestes versículos é
a correta significação das palavras de nosso Senhor, “isto é o meu
corpo ’ ‘'isto é o meu sangue ’’. É desnecessário dizer que este assunto
Mateus 26.26-35 229

tem causado divisão na igreja visível de Cristo. Muitos volumes de te­


ologia controvertida já foram escritos a respeito, mas não deveríamos
deixar de ter uma opinião bem formada sobre o assunto, somente por­
que os teólogos têm disputado e diferido entre si. A compreensão errônea
destas palavras de Cristo já originou muitas superstições deploráveis.
O nítido sentido das palavras de nosso Senhor parece ser o se­
guinte: ‘‘Este pão representa o meu corpo. Este vinho representa o meu
sangue” . Jesus não quis dizer que o pão oferecido a seus discípulos
era, real e literalmente, o seu corpo. Também não quis jamais dar a
entender que o vinho era, literalmente, o seu sangue. Firmemo-nos nesta
interpretação, pois ela conta com o apoio de diversas razões importantes.
A conduta dos discípulos, na Ceia do Senhor, proíbe-nos de crer
que o pão que receberam fosse o corpo de Cristo, e o vinho fosse o seu
sangue. Eles todos eram judeus, ensinados desde a infância a crer que
era pecado ingerir a carne juntamente com o sangue (Dt 12.23-25). No
entanto, nada existe nesta narrativa bíblica que demonstre que tenham
ficado chocados com as palavras de nosso Senhor. Evidentemente, eles
não viram qualquer mudança no pão e vinho.
Nossos próprios sentidos, hoje, impedem-nos de acreditar que
haja qualquer modificação no pão e vinho, na celebração da Ceia do
Senhor. Nosso paladar nos diz que esses elementos são real e literal­
mente aquilo com que se parecem. A Bíblia nos manda crer em fatos
que ultrapassam o nosso entendimento, mas nunca ordena que creiamos
naquilo que contradiz os nossos sentidos.
A verdadeira doutrina acerca da natureza humana de nosso Se­
nhor proíbe-nos crer que o pão, na Ceia do Senhor, possa ser seu corpo,
ou o vinho seu sangue. O corpo natural de Jesus não pode estar em
mais de um lugar ao mesmo tempo. Se o corpo de Cristo pudesse estar
reclinado à mesa, e, ao mesmo tempo, ser ingerido pelos discípulos,
fica perfeitamente claro que aquele não era um corpo humano, como
o nosso. Isto é algo que jamais devemos admitir, sequer por um mo­
mento. A glória do cristianismo é que o nosso Redentor é homem perfeito
e Deus perfeito.
Finalmente, o caráter da linguagem empregada por nosso Senhor
durante a Ceia, torna inteiramente desnecessário interpretarmos as suas
palavras literalmente. A Bíblia está cheia de expressões semelhantes,
às quais ninguém pensa em dar uma interpretação que não seja figu­
rativa. Por exemplo, nosso Senhor fala de si mesmo como a “ porta”
e a “ videira” , e sabemos que Ele está usando símbolos e figuras quando
assim fala. Portanto, não há qualquer incoerência em supor que Ele
falou em linguagem figurativa quando instituiu a Ceia do Senhor. E
temos ainda maior direito de assim pensar, quando nos lembramos das
230 Mateus 26.26-35

graves objeções que advêem de uma interpretação literal.


Que nós guardemos estas coisas em mente, e não nos esqueça­
mos delas. Numa época em que as heresias tanto se multiplicam, é bom
estarmos bem armados. Pontos de vista confusos e ignorantes, acerca
do significado da linguagem das Escrituras, são uma grande causa de
erros doutrinários.
A segunda coisa que exige a nossa atenção, nestes versículos,
é o próposito e o objetivo porque a Ceia do Senhor foi instituída. No­
vamente, este é um assunto em torno do qual prevalece muita obscuri­
dade. A ordenança da Ceia do Senhor tem sido considerada como algo
misterioso e que ultrapassa o entendimento. Imenso dano tem sido feito
ao cristianismo pela linguagem vaga e floreada com que muitos escri­
tores se permitem abordar esta ordenança. Nada existe, na narrativa
original da instituição da Ceia, que possa justificar interpretações as­
sim. Quanto mais simples a nossa compreensão sobre o propósito desta
ordenança, mais bíblica ela será.
A Ceia do Senhor não é um sacrifício. Não há nela qualquer
oblação, nenhuma oferenda de coisa alguma, senão nossas orações, lou­
vores e ações de graças. Desde o dia em que Jesus morreu, não há
necessidade de qualquer outra oferenda pelo pecado. Com uma única
oferta Ele aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados
(Hb 10.14). Sacerdotes, altares e sacrifícios deixaram de ser necessários,
quando o Cordeiro de Deus ofereceu a si mesmo. Tais ofícios e insti­
tuições chegaram ao seu ponto final; a sua utilidade cessou para sempre.
A Ceia do Senhor não tem poder de conferir benefícios aos que
dela participam, se estes não se aproximam com fé. O mero ato formal
de comer o pão e beber o vinho será completamente inútil, a menos
que seja feito com um reto coração. Eminentemente, esta é uma orde­
nança para a alma já vivificada, e não para aquela que está morta; é
uma ordenança para os convertidos, e não para os inconversos.
A Ceia do Senhor foi ordenada para ser um memorial contínuo
do sacrifício da morte de Cristo, até que Ele volte. Os benefícios que
ela concede são espirituais, e não físicos. Os seus efeitos devem ser
procurados em nosso homem interior. Sua finalidade é fazer lembrar-
-nos, mediante elementos visíveis e tangíveis, pão e vinho, que o ofe­
recimento do corpo e sangue de Cristo por nós, na cruz, é a única
expiação pelo pecado, e é a vida da alma de um crente. Os seus pro­
pósitos são ajudar nossa débil fé, para que tenhamos um relacionamento
mais próximo com nosso Senhor crucificado, e nos assistir e alimentar
de uma maneira espiritual do corpo e do sangue de Cristo. É uma or­
denança para pecadore^ remidos, e não para anjos que nunca caíram.
Recebendo-a, declaramos publicamente nosso senso de culpa e nossa
Mateus 26.26-35 231

necessidade de um Salvador, nossa confiança em Jesus e nosso amor


por Ele, nosso desejo de viver alicerçados sobre Ele e nossa esperança
de viver com Ele. Usando a Ceia com esta atitude, veremos que nosso
arrependimento será mais profundo, nossa fé será fortalecida, nossa
esperança avivada e nosso amor aumentado; nossos pecados costumei­
ros se enfraquecerão, e as graças divinas serão intensificadas. Isto,
portanto, aproxima-nos mais de Jesus Cristo.
Guardemos em mente estas coisas. Elas precisam ser relembra­
das nestes nossos últimos dias. Nada existe em nossa religião que
estejamos tão prontos a perverter e mal-entender, quanto aquelas partes
que envolvem os nossos sentidos. Tudo aquilo que pudermos tocar com
a nossa mão, e ver com nossos olhos, temos a tendência de transformar
em um ídolo, ou esperar dessas coisas algum benefício, como se fosse
por mágica. Vigiemos, sobretudo, no que diz respeito à Ceia do Se­
nhor, contra esta nossa tendência. Acima de tudo, como diz a homilia,
tomemos cuidado para ‘‘que o memorial não seja transformado em sa­
crifício” .
A última coisa a merecer uma breve nota, nesta passagem, é o
caráter dos que participaram na primeira Ceia. Esta é uma particula­
ridade repleta de consolo e instrução. O pequeno grupo, que pela primeira
vez recebeu do Senhor a ministração da Ceia, era composto pelos após­
tolos a quem Ele havia escolhido para acompanhá-Lo durante o seu
ministério terreno. Eram homens pobres e iletrados, que amavam a
Cristo, mas eram todos igualmente fracos, tanto na fé quanto no co­
nhecimento. Eles não compreendiam o pleno significado das afirmações
e dos atos de seu Mestre. Não conheciam a fragilidade de seus próprios
corações. Pensavam estar preparados para morrer em companhia de
Jesus; mesmo assim, naquela mesma noite todos O deixaram e fugiram.
Nosso Senhor sabia de tudo isso perfeitamente bem. O estado real de
seus corações não Lhe era desconhecido. Mesmo assim Ele não lhes
negou a participação na Ceia.
Há um grande ensinamento nesta circunstância. Ela nos mostra
claramente que não devemos impor um grande conhecimento e um grande
vigor espiritual como qualificativos indispensáveis para a participação
na Ceia do Senhor. Um homem pode conhecer bem pouco e não ser
mais do que uma criança em termos de vigor espiritual, mas não deve,
por isso, ser excluído da mesa do Senhor. Este homem realmente se
ressente de seus pecados? Ele realmente ama a Cristo? Tem o desejo
autêntico de servi-Lo? Se assim for, devemos recebê-lo e encorajá-lo.
Sem dúvida, devemos fazer todo o possível para excluir comungantes
indignos. Nenhuma pessoa alheia à graça de Deus deveria participar
da Ceia do Senhor, mas devemos ter cuidado de não rejeitar àquele a
232 Mateus 26.26-35

quem Cristo não rejeitou. Não há sabedoria alguma em nos mostrarmos


mais estritos do que nosso Senhor e seus apóstolos.
Passemos adiante, fazendo uma séria auto-inquirição de nossa
própria conduta a respeito da Ceia do Senhor. Nós nos afastamos dela
quando está sendo celebrada? Nesse caso, como podemos justificar nossa
conduta? Não podemos alegar que não se trata de uma ordenança ne­
cessária. Dizer isso significa desprezar o próprio Jesus Cristo e declarar
que não Lhe obedecemos. Também não podemos alegar que nos sen­
timos indignos de participar da mesa do Senhor. Afirmar tal coisa é
declarar que estamos despreparados para a morte, despreparados para
nos encontrarmos com Deus. Estas são considerações extremamente
solenes. Todos os que não participam da Ceia do Senhor deveriam
ponderá-las bem.
Temos o hábito de vir à Ceia do Senhor? Nesse caso, com que
atitude o fazemos? Achegamo-nos a ela de forma inteligente e humilde,
com fé no coração? Compreendemos, na verdade, o que nos propomos
a fazer? Sentimos, efetivamente, a nossa pecaminosidade e nossa ne­
cessidade de Jesus Cristo? Desejamos viver uma vida realmente cristã,
e professar realmente a fé cristã? Feliz o homem que pode dar respostas
satisfatórias a estas indagações. Que ele vá em frente e persevere.

A Agonia no Getsêmani
Leia Mateus 26.36-46

Os versículos que acabamos de ler descrevem aquilo que é co-


mumente chamado de a “ paixão” de Cristo no Getsêmani. É uma
passagem que, sem dúvida contém profundidades e mistérios. Devería­
mos lê-la com reverência e admiração, pois há nela muitas coisas que
não podemos compreender inteiramente.
Por que motivo encontramos nosso Senhor muito entristecido e
angustiado, conforme lemos neste trecho? Como devemos entender suas
palavras: “ A minha alma está profundamente triste até à morte?” Por
que vemos Jesus distanciar-se de seus discípulos e prostrar-se de rosto
em terra, a fim de dirigir ao Pai fortes clamores em oração por três
vezes? Por que o todo-poderoso Filho de Deus, que fizera tantos mi­
lagres, estava agora tão triste e inquieto? Por que Jesus, que veio ao
mundo para morrer, agora quase desmaiava ao aproximar-se a morte?
Por que todas estas coisas?
Só existe uma única resposta razoável para estas indagações. O
peso que estava sobre a alma de nosso Senhor não era o temor da morte
Mateus 26.36-46 233

e de suas agonias. Milhares de pessoas têm sofrido os mais terríveis


sofrimentos físicos e morrido sem emitir um gemido, e, sem dúvida,
poderia ter sido assim com nosso Senhor. Mas o peso real, que tanto
entristecia o coração de Jesus, era o peso do pecado do mundo, que
naquele momento parecia estar pesando sobre Ele com força peculiar.
Era a carga de nossa culpa que Lhe estava sendo imputada, a qual agora
estava sendo lançada sobre Ele, como era posta sobre a cabeça do cor­
deiro da expiação. Não há coração humano que possa conceber quão
grande era essa carga. Só Deus o sabe. Bem podia falar a litania grega
sobre “ os sofrimentos desconhecidos de Cristo” . E as palavras de Scott
sobre esse assunto provavelmente são corretas: ‘‘Cristo, naqueles mo­
mentos, suportava uma penúria tão intensa (como aquela que sofrem
os espíritos condenados) quanto fosse possível suportar sem deixar de
ter uma consciência pura, um perfeito amor a Deus e aos homens, e
uma segura confiança de uma consumação gloriosa” .
Mas por mais misteriosa que nos possa parecer essa etapa na his­
tória de nosso Senhor, não devemos deixar de observar as preciosas
lições de instrução prática nela contidas. Vejamos, pois, quais são essas
lições.
Em primeiro lugar, aprendamos que a oração ê o melhor remé­
dio prático que podemos usar em tempos de tribulação. Vemos que
Cristo mesmo orou quando sua alma estava angustiada. Todos os ver­
dadeiros crentes deveriam fazer o mesmo.
As tribulações são um cálice do qual todos precisamos beber neste
mundo de pecado. “ O homem nasce para o enfado como as faíscas das
brasas voam para cima” (Jo 5.7). Não podemos evitá-lo. Dentre todas
as criaturas, nenhuma é tão vulnerável quanto o homem. Nosso corpo,
nossa mente, nossa família, nossos negócios, nossos amigos, são várias
portas por onde a tribulação pode vir. Mesmo o mais santificado dos
filhos de Deus não pode declarar-se como exceção. A exemplo de seu
Senhor, os crentes, com grande freqüência, são “ homens de dores”
(Is 53.3).
Qual seria a primeira coisa que deveríamos fazer, quando nos
sentimos atribulados? Deveríamos orar. À semelhança de Jó, devemos
prostrar-nos e adorar ao Senhor (Jó 1.20). Tal como Ezequiel, devemos
expor as nossas dificuldades diante do Senhor (2 Rs 19.14). A primeira
pessoa a quem deveríamos pedir ajuda é ao nosso Deus. Deveríamos
contar ao nosso Pai, que está nos céus, todas as nossas aflições. De­
veríamos confiar que coisa alguma é por demais pequena ou trivial,
para colocar perante Ele, contanto que o façamos com inteira submis­
são à sua vontade. Uma das características da fé consiste em nada ocultar
de nosso melhor Amigo. Assim agindo, podemos ter a certeza de que
234 Mateus 26.36-46

obteremos a sua resposta. “ Se for possível” , e se a coisa solicitada


contribuir para a glória de Deus, então nosso pedido ser-nos-á outor­
gado. O espinho na carne ser-nos-á removido, ou então a graça divina
ser-nos-á proporcionada, para podermos suportar tal espinho, segundo
se deu com o apóstolo Paulo (2 Co 12.9). Registremos na mente essa
lição, para tempos de necessidade. É perfeitamente veraz aquela decla­
ração: “ A oração é um remédio que alivia preocupações” .
Em segundo lugar, aprendemos que a inteira submissão de nossa
vontade à vontade de Deus deveria ser um dos nossos principais alvos
neste mundo. As palavras de nosso Senhor são um belo exemplo da
atitude que devemos cultivar quanto a essa questão. Ele diz: “ Não seja
como eu quero, e, sim, como tu queres” .
Uma vontade descontrolada e não-santificada é uma grande causa
de infelicidade na vida. Isso pode ser visto até nas vidas de pequenos
infantes. É algo que já nasce conosco. Todos nós gostamos de fazer
as coisas à nossa própria maneira. Desejamos e queremos muitas coi­
sas, mas nos esquecemos de que somos totalmente ignorantes acerca
do que é melhor para nós, e de que somos incapazes de escolher por
nós mesmos. Feliz é quem já aprendeu a não ter desejos, e estar con­
tente em qualquer situação. Esta é uma lição que só aprendemos com
lentidão, e, como o apóstolo Paulo, não devemos aprendê-la na escola
do homem mortal, mas na escola de Cristo (Fp 4.11).
Desejamos saber se já nascemos de novo e se estamos crescendo
na graça? Nesse caso, vejamos o que acontece no tocante à nossa von­
tade. Somos capazes de suportar desapontamentos? Somos capazes de
tolerar com paciência os testes inesperados e os desgostos que nos sobre­
vêm? Podemos ver frustrados os nossos planos de estimação e projetos,
sem murmuração e sem queixas? Podemos nos assentar em silêncio e
sofrer calmamente, tanto quanto estar envolvidos em grande atividade?
Estas são questões que comprovam se realmente temos a mente de Cristo.
Nunca deveríamos nos esquecer de que sentimentos calorosos e dispo­
sições alegres não são as evidências mais verdadeiras da graça divina.
A vontade mortificada é uma possessão muito mais valiosa. Mesmo
o nosso Senhor nem sempre se regozijava, mas podia sempre dizer “ faça-
-se a tua vontade” .
Por último, aprendamos que existe grande fraqueza, até mesmo
nos verdadeiros discípulos de Cristo, e que eles precisam vigiar e orar
a esse respeito. Vemos Pedro, Tiago e João, três apóstolos escolhidos,
dormindo, quando deveriam estar vigiando e orando. Também vemos
nosso Senhor dirigindo-se a eles com estas solenes palavras: “ Vigiai
e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está
pronto, mas a carne é fraca” .
Mateus 26.36-46 235

Há uma dupla natureza em todos os crentes. Convertidos, reno­


vados e santificados como são, mesmo assim eles ainda carregam consigo
uma massa de corrupção, um corpo de pecado. Paulo refere-se a isso,
quando assevera: “ ...encontro a lei de que o mal reside em mim. Por­
que, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas
vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha
mente, me faz prisioneiro da lei do pecado...” (Rm 7.21-23). A ex­
periência de todos os verdadeiros cristãos, em todos os séculos, confirma
isso. Eles encontram dentro de si mesmos dois princípios contrários,
e uma batalha contínua entre os dois. Nosso Senhor alude a esses dois
princípios quando se dirige aos discípulos dormentes. Ele chama a um
de “ carne” e ao outro de “ espírito” . “ O espírito na verdade, está pronto,
mas a carne é fraca.”
Mas nosso Senhor procurou desculpar essa fraqueza em seus dis­
cípulos? Longe de nós pensar tal coisa. Os que tiram esta conclusão
interpretam muito mal o que Ele quis dizer. Jesus usa essa mesma fra­
queza como um argumento para a vigilância e a oração. Ele nos ensina
que o próprio fato de estarmos cercados de tanta fraqueza deveria
despertar-nos continuamente para “ vigiar e orar” .
Se desejamos seguir a verdadeira religião cristã, jamais nos es­
queçamos desta lição. Se desejamos andar com Deus confortavelmente
e não cair, como sucedeu a Davi e a Pedro, então nunca nos esqueça­
mos de vigiar e orar. Que vivamos como soldados em território inimigo,
montando guarda permanente. Nunca caminhamos com demasiada cau­
tela. Nunca exercemos cuidado em demasia por nossa alma. O mundo
é muito traiçoeiro. O diabo está sempre muito ocupado. Que as pala­
vras de nosso Senhor soem em nossos ouvidos diariamente, como uma
trombeta. O espírito pode, talvez, estar bem pronto, mas a carne é sem­
pre muito fraca. Portanto, vigiemos sempre e oremos sempre.

O Beijo do Falso Apóstolo;


A Submissão Voluntária de Jesus Cristo
Leia Mateus 26.47-56

Nestes versículos, vemos que o cálice dos sofrimentos de nosso


Senhor Jesus Cristo começa a encher-se. Vemo-Lo traído por um de
seus discípulos, abandonado pelos demais e aprisionado por seus ini­
migos de morte. Certamente nunca houve tristezas como as que Ele
sofreu. Não nos esqueçamos, ao ler este trecho da Bíblia, que os nossos
pecados foram a causa dessas tristezas! Jesus foi “ entregue por causa
das nossas transgressões” (Rm 4.25).
236 Mateus 26.47-56

Em primeiro lugar notemos, nestes versículos, como o relacio­


namento entre Jesus e seus discípulos foi marcado por uma graciosa
afabilidade. Este ponto é demonstrado através de uma circunstância
profundamente comovedora, no momento da traição de nosso Senhor.
Quando Judas Iscariotes ofereceu-se para guiar a multidão ao lugar onde
estava o seu Mestre, ele lhes deu um sinal, mediante o qual poderiam
distinguir a Jesus dentre os seus discípulos, mesmo sob a fraca luz da
lua. Ele disse: “ Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o” . E assim,
chegando-se a Jesus, disse: “ Salve, Mestre!” , e O beijou. Este simples
fato revela os termos afetuosos com que os discípulos se associavam
a Jesus. É costume nos países orientais, quando dois amigos se encon­
tram, saudarem-se com um ósculo (Êx 18.7; 1 Sm 20.41). Parece,
portanto, que quando Judas beijou Jesus, ele estava apenas fazendo o
que todos os apóstolos estavam habituados a fazer quando encontravam
o Mestre, após uma ausência.
Que nós tiremos desta pequena circunstância conforto para nos­
sas próprias almas. Nosso Senhor Jesus Cristo é um Salvador gracioso
e afável. Ele não é “ homem severo” , repelindo os pecadores e mantendo-
-os à distância. Ele não é um ser tão diferente de nós, em natureza,
que tenhamos de considerá-Lo com assombro, mais do que com afeto.
Ele antes deseja que O consideremos como um irmão mais velho e um
querido amigo. O seu coração, lá no céu, é ainda o mesmo que era
neste mundo. Ele é sempre manso, misericordioso e afável para com
os homens humildes. Confiemos nEle, e não tenhamos receio.
Em segundo lugar, observemos como nosso Senhor condena àque­
les que pensam em usar armas carnais em defesa dEle ou de sua causa.
Ele reprova a um de seus discípulos por ferir um servo do sumo sa­
cerdote. Diz Ele: “ Embainha a tua espada” . E acrescenta uma declaração
solene, de perpétua significação: “ Todos os que lançam mão da espada,
à espada perecerão” .
A espada tem uma utilização legítima e peculiar. Ela pode ser
utilizada com justiça, na defesa de nações contra a opressão. Ela pode
mesmo tornar-se necessária a fim de evitar confusão, saque e rapina
em um país. Mas a espada jamais deve ser empregada na propagação
e manutenção do evangelho. O cristianismo não pode ser imposto me­
diante o derramamento de sangue, e nem se pode obrigar as pessoas
a crerem. A igreja teria tido uma história mais feliz se esta sentença
tivesse sido mais freqüentemente relembrada. Há poucos países na cris­
tandade onde esse erro não tem sido cometido, na tentativa de modificar
as opiniões religiosas dos homens mediante compulsão, penalidades,
encarceramento e morte. E com quais efeitos? As páginas da história
nos dão uma resposta. Não têm havido guerras mais sangrentas do que
Mateus 26.47-56 237

as motivadas pelo choque de opiniões religiosas. Com freqüência, com


muita freqüência, infelizmente, os próprios homens que promovem tais
guerras são eles mesmos mortos na batalha. Nunca nos deveríamos
esquecer disso. As armas da milícia cristã não são camais, e, sim, es­
pirituais (2 Co 10.4).
Em seguida, observemos como nosso Senhor deixou-se fazer pri­
sioneiro por sua própria e livre vontade. Ele não foi levado cativo porque
não pudesse escapar. Teria sido fácil, para Ele, dispersar os seus ini­
migos pelo vento, se assim tivesse querido fazer. “ Acaso pensas” , Ele
disse a um discípulo, “ que não posso rogar a meu Pai, e Ele me man­
daria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se
cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?”
Nestas palavras vemos o segredo da sua submissão voluntária
a seus inimigos. Ele veio com o propósito de cumprir os símbolos e
as promessas das Escrituras do Antigo Testamento, para que, cumprindo-
-os, providenciasse salvação para o mundo. Ele veio intencionalmente,
para ser o verdadeiro Cordeiro de Deus, o Cordeiro pascal. Veio para
ser o bode expiatório, sobre o qual seriam postas as iniqüidades do povo.
O seu coração estava resolvido a realizar essa grande obra. Para isso,
era necessário que fosse “velado o seu poder” (Hc 3.4) por algum tempo.
Para fazer essa obra Ele se tomou um sofredor voluntário. Ele foi preso,
julgado, condenado e crucificado inteiramente por sua própria vontade.
Marquemos esse fato, pois há nele muito encorajamento para nós.
O sofredor voluntário será, também, um Salvador voluntário. O Filho
de Deus, todo-poderoso, que consentiu em ser preso pelos homens e
levado cativo quando poderia tê-los impedido com apenas uma palavra,
certamente estará pronto a salvar as almas que correrem para Ele. Uma
vez mais, portanto, devemos aprender a confiar nEle, sem qualquer
receio.
Em ültimo lugar, notemos quão pouco os crentes reconhecem
a fraqueza de seus próprios corações, até que sejam provados. Temos,
na conduta dos apóstolos, uma triste ilustração desta verdade. Os ver­
sículos que acabamos de ler se concluem com estas palavras: “ Então
os discípulos todos, deixando-o, fugiram” . Todos esqueceram as con­
fiantes afirmações feitas por eles mesmos, umas poucas horas antes.
Esqueceram-se de que tinham declarado sua disposição de morrer com
seu Mestre. Esqueceram-se de tudo, menos do perigo que agora os en­
carava de frente. O temor da morte os dominou e, “ deixando-o,
fugiram” .
Quantos cristãos já fizeram o mesmo! Sob a influência de sen­
timentos agitados, eles prometeram jamais se envergonhar de Cristo!
Depois da Ceia do Senhor, ou de algum sermão poderoso, ou de algum
238 Mateus 26.47-56

congresso cristão, eles saíram cheios de zelo e amor, prontos a dizer,


a todos os que procuravam acautelá-los acerca da possibilidade de des­
vio: “ Pois que é teu servo, este cão, para fazer tão grandes coisas?”
(2 Rs 8.13). No entanto, em poucos dias, aqueles sentimentos esfriaram
e desapareceram. Veio uma provação e caíram diante dela. Abando­
naram a Cristo.
Nesta passagem, aprendamos preciosas lições de humildade e auto-
-abatimento. Resolvamos, pois, pela graça de Deus, cultivar um espírito
de humildade e auto-desconfiança. Em nossas mentes, conscientizemo-
-nos de que nada existe de tão ruim que o melhor dentre nós não possa
fazer, a menos que vigiemos, oremos e estejamos amparados pela graça
de Deus. Que uma de nossas orações diárias seja: “ Sustenta-me, e serei
salvo” (SI 119.117).

Cristo Diante do Concilio Judaico


Leia Mateus 26.57-68

Nestes versículos lemos como nosso Senhor Jesus Cristo foi le­
vado a Caifás, o sumo sacerdote, e solenemente declarado culpado.
Convinha que assim fosse, pois o grande dia da expiação havia che­
gado. O maravilhoso símbolo do bode expiatório estava para ser comple­
tamente cumprido. Era apropriado que o sumo sacerdote fizesse a sua
parte e imputasse o pecado sobre a cabeça da vítima, antes que ela fosse
levada para a crucificação. Que nós possamos meditar sobre estas coi­
sas e compreendê-las bem. Havia um profundo significado em cada etapa
da paixão de nosso Senhor.
Observemos, nestes versículos, que os maiorais dos sacerdotes
foram os agentes principais a conspirarem para a morte de nosso Se­
nhor. Devemos recordar que não foi tanto o povo judeu que suscitou
esta obra de impiedade, e, sim, Caifás e seus companheiros, os prin­
cipais sacerdotes.
Temos nisso um fato instrutivo, merecedor de toda a nossa atenção.
Trata-se de uma prova evidente de que elevados ofícios eclesiásticos
não isentam ninguém de graves erros doutrinários ou pecados tremen­
dos. Os sacerdotes judeus podiam traçar a sua ascendência desde Aarão,
e eram os seus legítimos sucessores. O seu ofício era caracterizado por
uma santidade peculiar e responsabilidades peculiares. Mesmo assim,
estes mesmos homens foram os assassinos de Cristo!
Tenhamos o cuidado de não considerar infalível nenhum minis­
tro religioso. A sua ordenação pela igreja, por mais autorizada que seja,
Mateus 26.57-68 239

não é garantia de que ele não possa nos desviar do caminho e mesmo
arruinar nossas almas. O ensino e conduta de todos os ministros precisa
ser checado pela Palavra de Deus. Eles devem ser seguidos enquanto
estiverem sendo fiéis à Bíblia, e nem um pouco além disso. A máxima
estabelecida em Isaías deve ser a nossa diretriz: “ À lei e ao testemu­
nho!” (Is 8.20).
Em segundo lugar, observemos que nosso Senhor declarou aber­
tamente, ao concílio judaico, a sua própria messianidade e futura vinda
gloriosa. Nenhum judeu não-convertido pode hoje dizer-nos que seus
antepassados foram deixados na ignorância quanto ao fato de Jesus ser
o Messias. A resposta de nosso Senhor à solene adjuração do sumo sa­
cerdote foi uma declaração suficiente. Ele afirma claramente, diante
do concílio, ser o “ Cristo, o Filho de Deus” . Ele vai mais além, e
os adverte que, embora ainda não tivesse aparecido em glória, conforme
esperavam que o Messias tivesse feito, um dia chegaria em que Ele
iria aparecer desse modo. “ Eu vos declaro que desde agora vereis o
Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo sobre
as nuvens do céu.” Eles ainda veriam aquele mesmo Jesus de Nazaré,
a quem estavam julgando em seu tribunal, aparecer um dia em toda
a majestade, como Rei dos reis (Ap 1.7).
Um fato destacado, que não deveríamos deixar de notar, é que
nas últimas palavras de nosso Senhor para os judeus estava uma pre­
dição de advertência, acerca de sua própria segunda vinda. Jesus lhes
disse, claramente, que ainda haveriam de vê-lo em glória. Sem dúvida,
Ele se referia ao sétimo capítulo de Daniel, na linguagem que usou.
Mas falava para ouvidos surdos. Incredulidade, preconceitos e justiça-
-própria cobriam aqueles judeus, como uma nuvem espessa. Nunca houve
um caso tão grave de cegueira espiritual. Por isso é que a litania da
igreja anglicana contém a oração: “ De toda a cegueira... e dureza de
coração, ó bom Senhor, livra-nos” .
Em último lugar, observemos quanto falso testemunho e quanta
zombaria nosso Senhor precisou suportar diante do concílio judaico.
A falsidade e o ridículo são armas antigas e favoritas do diabo. Satanás
é “ mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44). Durante todo o ministério
terreno de nosso Senhor vemos essas armas sendo continuamente usa­
das contra Ele. Jesus foi chamado de glutão, bebedor de vinho e amigo
de publicanos e pecadores. Foi menosprezado e chamado de samaritano;
e a cena final de sua vida foi perfeitamente coerente com todo o teor
passado da mesma. Satanás incitou os adversários a acrescentarem in­
sulto às agressões. Assim que Jesus foi declarado culpado, choveu sobre
Ele toda a sorte de indignidades: “ Uns cuspiram-lhe no rosto e lhe da­
vam murros, e outros o esbofeteavam” . Eles diziam, em zombaria:
240 Mateus 26.57-68

“ Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!”


Quão incrível e estranho tudo isso soa para nós! Quão maravi­
lhoso que o santo Filho de Deus tivesse se submetido voluntariamente
a tais indignidades, para redimir miseráveis pecadores como nós! Que
maravilhoso cada um dos insultos contra Jesus terem sido preditos se­
tecentos anos antes de ocorrerem! Setecentos anos antes, Isaías tinha
escrito: “ não escondi o meu rosto dos que me afrontavam e me cus­
piam” (Is 50.6).
Extraímos desta passagem uma conclusão prática. Que jamais
nos surpreenda o termos de enfrentar escárnio e ridículo e calúnia, por­
que pertencemos a Jesus Cristo. O discípulo não é maior do que seu
mestre, nem o servo maior do que seu Senhor. Se mentiras e insultos
foram lançados contra nosso Salvador, não temos que nos admirar se
as mesmas armas são constantemente usadas contra o seu povo. Uma
das grandes artimanhas de Satanás é denegrir o caráter dos homens de
Deus e fazê-los cair em descrédito. As vidas de Lutero, Cranmer, Cal-
vino e João Wesley são exemplos abundantes disto. Se alguma vez formos
chamados a sofrer desse modo, suportemos tudo com paciência. Be­
bemos do mesmo cálice de que nosso amado Senhor bebeu. Mas há
uma grande diferença. No pior dos casos, experimentamos apenas al­
gumas poucas gotas amargas, mas Ele bebeu o cálice todo.

Pedro Nega o Seu Mestre


Leia Mateus 26.69-75

Estes versículos relatam um acontecimento notável e profunda­


mente instrutivo: a negação de Cristo, por parte do apóstolo Pedro. Este
é um daqueles eventos que provam indiretamente a veracidade da Bí­
blia. Se o evangelho fosse mera invenção humana, nunca teríamos sido
informados de que um dos seus principais pregadores foi um dia tão
fraco e pecador, a ponto de negar seu Mestre.
A primeira coisa a requerer nossa atenção é a natureza do pe­
cado de que Pedro se tomou culpado. Foi um grande pecado. Vemos
um homem que havia seguido a Cristo por três anos e se destacado por
sua profissão de fé e amor por Ele, um homem que havia recebido mui­
tíssima misericórdia e amabilidade, e que havia sido tratado por Cristo
como um amigo familiar — vemos este homem três vezes negar que
conhecia a Jesus! Isto foi muito mau. Foi um pecado cometido sob cir­
cunstâncias as mais agravantes. Ademais, Pedro tinha sido avisado
claramente do perigo, e tinha ouvido a advertência. À pouco tinha re­
Mateus 26.69-75 241

cebido pão e vinho das mãos de nosso Senhor, e declarado em alta voz
que, ainda que tivesse de morrer com Cristo, jamais O negaria! Isto,
também, foi muito mau.
O pecado foi cometido sob uma provocação aparentemente pe­
quena. Duas simples criadas fazem a declaração de que ele estava com
Jesus. Os que estavam ao lado dizem: “ Verdadeiramente és também
um deles” . Nenhuma ameaça parece ter sido usada; nenhuma violência
parece ter sido feita. No entanto, isto foi suficiente para derrotar a fé
de Pedro. Ele nega diante de todos; nega com juramento e pragueja.
Verdadeiramente, este é um quadro humilhante!
Frisemos bem esta história, guardando-a na memória. Porquanto
nos ensina, com toda a clareza, que os melhores dentre os santos não
passam de homens, e homens cercados de muitas fraquezas. Um ho­
mem pode converter-se ao Senhor, ter fé e esperança e amor para com
Cristo, e, mesmo assim, ser apanhado em uma falta e sofrer quedas
terríveis. Isto nos mostra a necessidade de humildade. Enquanto esta­
mos no corpo, estamos em perigo. A carne é fraca e o diabo está sempre
ativo. Jamais devemos pensar: “ Eu não caio” .
Isto nos mostra o dever de usarmos de bondade para com os irmãos
na fé que erram. Não devemos classificar homens como réprobos in-
convertidos, somente porque ocasionalmente tropeçam e erram. Antes,
devemos relembrar-nos de Pedro, e corrigi-los com o espírito de bran­
dura (G1 6.1).
A segunda coisa que demanda nossa atenção é a série de passos
pelos quais Pedro foi levado a negar seu Senhor. Esses passos estão
misericordiosamente registrados, para nosso aprendizado. O Espírito
de Deus cuidou de tê-los escrito para benefício perpétuo da igreja de
Cristo. Acompanhemos esses passos, um por um.
O primeiro passo para a queda de Pedro foi auto-confiança. Ele
disse: “ Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás
para mim” (26.33). O segundo passo foi indolência. Seu Senhor lhe
havia dito para vigiar e orar; ao invés de obedecer, Pedro dormiu. O
terceiro passo foi acomodar-se covardemente. Em lugar de ficar ao lado
de seu Senhor, ele primeiro O abandonou, e, depois “ o seguia de longe” .
O último passo foi expor-se desnecessariamente a más companhias. Ele
foi ao pátio do sumo sacerdote e “ assentou-se entre os serventuários” ,
como se fosse apenas um deles. Então veio a queda final — o juramento,
os impropérios e a tríplice negação. Por mais espantoso que pareça,
o coração de Pedro vinha se preparando para aquilo. A sua queda foi
puramente o fruto das sementes que ele mesmo havia semeado. Colheu
o fruto do seu próprio proceder (Jr 17.10).
Não nos esqueçamos desta parte da história de Pedro. Trata-se
242 Mateus 26.69-75

de uma grande lição para todos os que se professam cristãos. Graves


enfermidades raramente nos afetam o organismo sem demonstrar pre­
viamente uma série de sintomas. Para o crente, grandes quedas raramente
acontecem sem que tenha havido anteriormente algum desvio secreto.
A igreja e o mundo às vezes ficam chocados pela súbita má-conduta
de alguma figura importante do cristianismo. Crentes são desencoraja­
dos e tropeçam por causa disso. Os inimigos de Deus se regozijam e
blasfemam. Porém, se a verdade pudesse ser conhecida, a explicação
para tais casos geralmente seria um afastamento secreto de Deus. Os
homens caem em sua vida privada muito antes de caírem em público.
A árvore tomba com grande estrondo, mas a deterioração secreta, que
leva à queda, freqüentemente não é descoberta, até o momento da queda.
Por último, merece nossa atenção a tristeza que o pecado de Pe­
dro trouxe sobre ele. No final do capítulo lemos: “ E, saindo dali, chorou
amargamente” . Estas palavras merecem mais atenção do que geral­
mente recebem. Milhares de pessoas lêem a história do pecado de Pedro
sem dar importância às suas lágrimas e arrependimento. Que nós pos­
samos ter olhos para ver e coração para entender.
Nas lágrimas de Pedro vemos a estreita ligação entre o afasta­
mento de Deus e a infelicidade. Um arranjo misericordioso, de Deus,
é que, em certo sentido, a santidade sempre será a sua própria recom­
pensa. Um coração pesado e uma consciência perturbada, uma esperança
enevoada e uma colheita abundante de dúvidas sempre serão a conse­
qüência da apostasia e inconsistência. As palavras de Salomão descrevem
a experiência inconsistente de muitos filhos de Deus: “ O infiel de co­
ração dos seus próprios caminhos se farta” (Pv 14.14). Portanto, que
seja um princípio fundamental de nossa religião cristã, se realmente
amamos a paz inferior, que devemos andar sempre perto do Senhor.
Nas lágrimas amargas de Pedro vemos a grande diferença entre
o hipócrita e o verdadeiro crente. Quando o hipócrita é vencido pelo
pecado, ele geralmente cai para nunca mais levantar-se. Ele não tem
dentro de si nenhum princípio de vida para restaurá-lo. Mas quando
o filho de Deus cai em pecado, ele se levanta novamente e, mediante
um verdadeiro arrependimento e pela graça de Deus, corrige a sua vida.
Que ninguém se lisonjeie ante o pensamento de que pode pecar impu­
nemente, só porque Davi cometeu adultério e Pedro negou ao seu Senhor.
Não há dúvida que estes dois santos pecaram grandemente, contudo,
não prosseguiram em seus pecados. Eles se arrependeram grandemente,
também. Lamentaram amargamente a sua queda, abominaram e odia­
ram as suas próprias iniqüidades. Seria bom se os homens imitassem
a esses santos de Deus em seu arrependimento, tanto quanto em seus
pecados. Muitos estão familiarizados com a queda destes homens de
Mateus 26.69-75 243

Deus, mas não com a sua recuperação. Muitos, como Davi e Pedro,
caíram no pecado; mas não se arrependeram como Pedro e Davi.
A passagem inteira está cheia de lições que jamais deveríamos es­
quecer. Professamos ter esperança em Cristo? Então observemos a
fraqueza de um crente e os passos que levam para a queda. Temo-nos des­
viado lamentavelmente, e abandonado nosso primeiro amor? Lembremo-
-nos, então, de que o Salvador de Pedro ainda vive. Há misericórdia
para nós, tanto quanto houve para ele, mas precisamos nos arrepender
e buscar essa misericórdia, se desejamos encontrá-la. Voltemo-nos para
Deus, e Ele se voltará para nós. As suas misericórdias não têm fim
(Lm 3.22).

O Fim de Judas Iscariotes


Leia Mateus 27.1-10

O início deste capítulo descreve como nosso Senhor Jesus Cristo


foi entregue às mãos dos gentios. Os principais sacerdotes e anciãos
dos judeus O conduziram à Pôncio Pilatos, governador romano. Po­
demos ver o dedo de Deus neste incidente. Foi determinado por sua
providência que tanto gentios quanto judeus estivessem envolvidos na
morte de Cristo. Foi determinado por sua providência que os sacerdo­
tes confessassem publicamente que o cetro se tinha arredado de Judá.
Eles não podiam condenar alguém sem a permissão dos romanos. As
palavras de Jacó, portanto, foram cumpridas, O Messias, “ Siló” , na
verdade já havia chegado (Gn 49.10).
O assunto principal destes versos que lemos é o triste fim do falso
apóstolo, Judas Iscariotes. É um assunto cheio de ensinamentos. Ob­
servemos atentamente o que ele contém.
O fim de Judas Iscariotes é uma prova clara da inocência de Je­
sus, diante de todas as acusações levantadas contra Ele. Se havia alguma
testemunha viva que pudesse apresentar evidências contra nosso Senhor
Jesus Cristo, Judas Iscariotes era esse homem. Um apóstolo escolhido
de Jesus, um companheiro constante em todas as suas jornadas, um ou­
vinte de todo o seu ensinamento, tanto em público quanto em particular,
Judas era alguém que saberia dizer se Jesus tinha feito algum mal, fosse
por palavra ou ação. Tendo-se tomado um desertor, um traidor de nosso
Senhor às mãos dos inimigos, era do seu interesse, na defesa de sua
própria reputação, provar que Jesus era culpado. Ele poderia disfarçar
e desculpar sua própria conduta, se pudesse demonstrar que seu antigo
Mestre era um impostor e transgressor.
244 Mateus 27.1-10

Por que, então, Judas não veio acusá-Lo? Por que ele não se apre­
sentou diante do concilio judaico para especificar suas acusações contra
Jesus, se é que tinha qualquer acusação a fazer? Por que ele não se aven­
turou a acompanhar os principais sacerdotes até Pilatos, para provar
aos romanos que Jesus era um malfeitor? Só há uma resposta possível
para estas perguntas. Judas não se apresentou como testemunha porque
sua consciência não lho permitiu. Por mais maldoso que fosse, Judas
sabia que nada podia provar contra Cristo. Por mais iniquo que fosse,
ele sabia que seu Mestre era santo, inofensivo, inocente, verdadeiro
e sem qualquer culpa. Que isto nunca seja esquecido. A ausência de
Judas Iscariotes, no julgamento de nosso Senhor é uma dentre muitas
provas, de que o Cordeiro de Deus era sem mácula alguma, um homem
sem pecado.
Outrossim, vemos na morte de Judas que existe um tipo de ar­
rependimento que vem muito tarde. Lemos claramente que Judas ficou
“ tocado de remorso” . Lemos até mesmo que ele foi aos sacerdotes e
disse: “ Pequei, traindo sangue inocente” . Mesmo assim, está claro que
ele não se arrependeu para a salvação.
Este é um ponto que merece atenção especial. Popularmente se
diz que: “ Nunca é tarde para se arrepender” . Isto é verdade somente
se o arrependimento for verdadeiro; porém, infelizmente, o arrepen­
dimento tardio freqüentemente não é genuíno. Uma pessoa pode sentir
pelos seus pecados e se entristecer por eles, sentir uma forte convicção
de culpa e expressar profundo remorso, ser atormentado pela consci­
ência e demonstrar grande perturbação mental; e mesmo assim, a despeito
disso tudo, não se arrepender de coração, A razão destes sentimentos
pode ser o perigo presente e o temor da morte, e o Espírito Santo pode
não ter realizado obra alguma nessa pessoa.
Cuidemos para não confiar no arrependimento tardio. “ Eis agora
o tempo sobremodo oportuno, eis agora o dia da salvação” (2 Co 6.2).
Um ladrão penitente foi salvo na hora da morte, para que ninguém de­
sesperasse da salvação; mas apenas um, para que ninguém seja presu­
mido. Que não desconsideremos qualquer coisa que diga respeito à nossa
salvação; acima de tudo, não deixemos de lado o arrependimento, me­
diante a vã idéia de que ele só depende do nosso próprio poder. As
palavras de Salomão sobre este assunto são realmente temíveis: “ Então
me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me
hão de achar” (Pv 1.28).
Em seguida, observemos na morte de Judas Iscariotes quão pouco
conforto a iniqüidade traz a uma pessoa no fim de sua vida. Somos
informados de que ele atirou para o santuário as trinta moedas de prata,
pelas quais tinha vendido seu Mestre, e saiu em amargura de espírito.
Mateus 27.1-10 245

Aquele dinheiro tinha sido ganho de maneira penosa. Não lhe trouxe
prazer algum, mesmo quando já o tinha consigo. “ Os tesouros da im­
piedade de nada aproveitam” (Pv 10.2).
O pecado, na verdade, é o mais cruel de todos os senhores. Ele
faz muitas promessas maravilhosas, mas que não se concretizam. Os
prazeres que ele dá são momentâneos, enquanto que seus resultados
são tristeza, remorso, auto-acusação e, muitas vezes, a própria morte.
Os que semeiam para a carne, de fato colhem corrupção.
Sentimo-nos tentados a cometer pecado? Lembremo-nos da pa­
lavra das Escrituras: “ O vosso pecado vos há de achar” (Nm 32.23).
E, em face disso, resistamos à tentação. Estejamos certos de que, cedo
ou tarde, nesta vida ou na vida futura, neste mundo ou no dia do juízo,
pecado e pecador terão de encontrar-se face a face, para uma amarga
prestação de contas. Estejamos seguros de que, de todas as ocupações,
o pecado é a mais desvantajosa. Judas, Acã, Geazi, Ananias e Safira
— todos descobriram isso às suas próprias custas. Com razão indagou
o apóstolo Paulo: “ Naquele tempo que resultados colhestes? Somente
as cousas de que agora vos envergonhais” (Rm 6.21).
Finalmente, notemos, no caso de Judas a que fim miserável um
homem pode chegar se tem grandes privilégios e não os utiliza corre­
tamente. Somos informados de que este infeliz “ retirou-se e foi enfor­
car-se” . Que morte horrível para se morrer! Um apóstolo de Cristo,
um ex-pregador do evangelho, um companheiro de Pedro e João co­
mete suicídio, e assim se precipita à presença de Deus, sem preparo
e sem perdão.
Nunca nos esqueçamos de que nenhum pecador é mais pecaminoso
do que aquele que peca contra a luz e contra o conhecimento. Nenhum
pecador é tão ofensivo a Deus quanto este. Quando olhamos para as
Escrituras, notamos que nenhum pecador tem sido tão freqüentemente
removido de súbito deste mundo, por terríveis visitações da ira de Deus,
quanto este tipo. Lembremo-nos da mulher de Ló, Faraó, Coré, Datã
e Abirã, e Saul, rei de Israel. Todos comprovam o que acabamos de
dizer. Há uma solene declaração de João Bunyan, que diz: “ Ninguém
cai tão profundamente no poço, quanto aqueles que caem retrocedendo’’.
Está escrito em Provérbios: “ O homem que muitas vezes repreendido
endurece a cerviz, será quebrantado de repente, sem que haja cura”
(Pv 29.1). Que todos possamos nos esforçar para viver de acordo com
a luz que já nos foi dada. Existe algo que é pecado contra o Espírito
Santo e não tem perdão. O claro conhecimento da verdade na cabeça,
combinado com um amor deliberado pelo pecado, no coração, estão
bem próximos dele.
Agora, em que estado se encontram os nossos corações? Somos
246 Mateus 27.1-10

nós tentados a confiar no nosso conhecimento e profissão religiosa, como


se isso bastasse? Lembremo-nos de Judas e tenhamos cautela. Estamos
inclinados a nos apegar ao mundo e dar ao dinheiro um lugar de proemi­
nência em nossas mentes? De novo, lembremo-nos de Judas e tenhamos
cautela. Estamos brincando com algum pecado e enganando a nós mes­
mos que podemos deixar o arrependimento para mais tarde? Novamente,
lembremo-nos de Judas e tenhamos cautela. Ele foi posto diante de nós
como um farol, para que olhemos bem para ele e não naufraguemos na fé.

Cristo Condenado Diante de Pilatos


Leia Mateus 27.11-26

Estes versículos descrevem o comparecimento de nosso Senhor


diante de Pôncio Pilatos, o governador romano. Os amigos de Deus
devem ter ficado maravilhados ao ver Aquele que um dia iria julgar
o mundo, permitindo que fosse Ele mesmo julgado e condenado, Ele
“ que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca” (Is
53.9). Ele, de cujos lábios Caifás e Pilatos um dia receberão a sentença
eterna, permitiu silenciosamente que uma sentença injusta lhe fosse pas­
sada. Esses sofrimentos em silêncio cumpriram as palavras proféticas
de Isaías: “ Como ovelha, muda perante os seus tosquiadores, ele não
abriu a sua boca” (Is 53.7). Toda a paz e esperança dos crentes são
devidas a esses sofrimentos em silêncio. É por causa deles que os cren­
tes terão ousadia no dia do julgamento, pois nada poderiam alegar por
si mesmos.
Pela conduta de Pilatos, aprendemos como é lastimável a condição
de um homem poderoso mas sem princípios. Pilatos, aparentemente,
tinha concluído que nosso Senhor nada fizera digno de morte. Ele sabia
que “ por inveja o tinham entregado” . Caso seguisse o seu próprio jul­
gamento, Pilatos provavelmente teria rechassado as acusações contra
nosso Senhor, e o teria posto em liberdade.
Pilatos, entretanto, era governador de um povo invejoso e tur­
bulento. O seu grande desejo era buscar a simpatia do povo e agradá-los.
Pouco lhe importava o quanto pecasse contra Deus e contra a própria
consciência, contanto que recebesse o aplauso dos homens. Embora de­
sejoso de salvar a vida de nosso Senhor, ele temia que, ao assim fazer,
acabasse ofendendo aos judeus. Por isso, depois de uma débil tentativa
para desviar a fúria do povo, de Jesus para Barrabás, e de uma tentativa
ainda mais débil para satisfazer a própria consciência, lavando publi­
camente as mãos, ele finalmente veio a condenar Aquele a quem ele
Mateus 27.11-26 247

mesmo chamara de “justo” . Ele rejeitou a estranha e misteriosa advertên­


cia que sua esposa lhe enviara depois de um sonho. Ele sufocou protestos
de sua própria consciência; e entregou Jesus “ para ser crucificado” .
Observe neste homem miserável um emblema vivo de muitos go­
vernantes deste mundo! Quantos há que têm consciência de que seus
atos públicos estão errados, mas, mesmo assim, não têm a coragem
para agir de acordo com essa consciência. Eles temem o povo. Receiam
tomar-se motivo de risos. Não podem suportar a impopularidade. Como
peixes mortos, eles flutuam com a maré. O louvor dos homens é o ídolo
diante do qual se prostram, e a esse ídolo sacrificam a consciência, a
paz interior e a alma imortal.
Qualquer que seja nossa posição social nesta vida, devemos ser
guiados por princípio, e não por conveniências. O louvor dos homens
é algo pobre, débil e inconstante. Está aqui hoje, mas amanhã já se
foi. Que nos esforcemos para agradar a Deus, e então pouco nos im­
portará se agradamos ou não os demais. Se tememos ao Senhor, então
não temos que ter receio de ninguém mais.
Convém aprendermos, pela conduta dos judeus, nesta passagem,
a irremediável iniqüidade da natureza humana. O comportamento de
Pilatos deu aos principais sacerdotes e anciãos uma oportunidade para
reconsiderarem o que estavam fazendo. As dificuldades que levantou
acerca da condenação de nosso Senhor fizeram com que eles tivessem
tempo para pensar melhor. Mas os inimigos de nosso Senhor não mu­
daram de idéia, antes insistiram na concretização de sua maldade.
Rejeitaram a proposta que Pilatos ofereceu. Na verdade, preferiram que
um criminoso vil fosse posto em liberdade, e não Jesus. Clamaram em
altas vozes pela crucificação de nosso Senhor; e, afinal, assumiram so­
bre si mesmos toda a culpa pela morte dEle, com palavras de gravíssima
significação: “ Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos!”
Mas o que nosso Senhor havia feito para que os judeus tanto O
odiassem? Ele não era ladrão nem assassino. Não era blasfemador con­
tra Deus nem caluniador dos profetas. A sua vida era caracterizada pelo
amor. Ele “ andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos
os oprimidos do diabo” (At 10.38). Ele era inocente de qualquer trans­
gressão contra a lei de Deus ou dos homens. Mesmo assim, os judeus
O odiavam e não descansaram enquanto não O viram morto! E odiavam-
-No porque Ele lhes dizia a verdade. Odiavam-No porque Ele testificava
das obras más que cometiam. Eles odiavam a luz porque ela tornava
visíveis as trevas em que viviam. Em suma, eles odiavam a Cristo por­
que Ele era justo e eles iníquos; porque Ele era santo e eles profanos;
porque Ele testificava contra o pecado, e eles estavam determinados
a continuar agarrados em seus pecados.
248 Mateus 27.11-26

Observemos o seguinte: poucas coisas são tão pouco percebidas


e cridas quanto a corrupção da natureza humana. Os homens imaginam
que, se vissem a uma pessoa perfeita, haveriam de amá-la e admirá-la.
Eles enganam a si mesmos, afirmando que é da inconsistência dos que
se dizem cristãos que não gostam, e não, de sua religião em si. Esquecem-
-se do fato que quando um homem realmente perfeito esteve neste mundo,
na pessoa do Filho de Deus, esse homem foi odiado e morto. Este fato
basta para provar a veracidade do que disse Jônatas Edwards: “ Os ho­
mens não-convertidos matariam Deus, se pudessem alcançá-Lo” .
Jamais nos deveríamos surpreender ante a iniqüidade prevalente
no mundo. Compete-nos lamentar tal iniqüidade e esforçarmo-nos por
diminuí-la, mas nunca nos surpreender com a sua extensão. Nada há
de tão perverso que o coração do homem não possa conceber ou a mão
do homem não possa fazer. Enquanto estivermos vivos, devemos des­
confiar de nosso próprio coração. Mesmo quando renovado pelo Espírito
Santo, “ enganoso é o coração, mais do que todas as cousas, e deses­
peradamente corrupto” (Jr 17.9).

Os Sofrimentos de Cristo às Mãos


dos Soldados e a Crucificação
Leia Mateus 27.27-44

Estes versículos descrevem os sofrimentos de nosso Senhor Jesus


Cristo depois de sua condenação por Pilatos — os seus sofrimentos às
mãos dos brutais soldados romanos e o sofrimento final, na cruz. São
cenas que formam um maravilhoso registro histórico. São maravilhosas
quando nos lembramos do Sofredor, o eterno Filho de Deus. São mara­
vilhosas quando nos lembramos das pessoas por quem esses sofrimentos
foram suportados. Nós e os nossos pecados fomos a causa de todas es­
sas tristezas. “ Cristo morreu pelos nossos pecados” (1 Co. 15.3).
Antes de tudo, observemos a extensão e a realidade dos sofri­
mentos de nosso Senhor. A lista de dores inflingidas ao corpo de nosso
Senhor é, de fato, terrível. Raramente o corpo de uma pessoa tem so­
frido tanto mau trato durante as últimas horas de vida. Mesmo os selva­
gens mais brutais, no refinamento de sua crueldade, não poderiam ter
acumulado piores torturas sobre um inimigo do que foram acumuladas
sobre a carne e ossos de nosso amado Mestre. Nunca nos esqueçamos
de que Jesus tinha um corpo humano autêntico, um corpo exatamente
como o nosso, tão sensível, tão vulnerável, tão capaz de sentir dor in­
tensa quanto o nosso. Vejamos, portanto, o que esse corpo padeceu.
Mateus 27.27-44 249

Nosso Senhor, devemos nos lembrar, já havia passado a noite


sem dormir e suportado extrema fadiga. Ele tinha sido levado do Get-
sêmani para o sinédrio judaico, e dali para o tribunal de Pilatos. Duas
vezes tinha sido interrogado, e por duas vezes havia sido condenado
injustamente. Já havia sido espancado e açoitado cruelmente com varas.
E agora, após todos esses padecimentos, Ele havia sido entregue às mãos
dos soldados romanos, um grupo de homens que, sem dúvida, eram
exercitados na crueldade, e de quem menos se poderia esperar delica­
deza ou compaixão. Esses homens brutais logo começaram a fazer o
que bem queriam. Eles se reuniram em torno dEle, “ toda a coorte” .
Despiram-No de suas vestes, e por escárnio, deram-Lhe um manto es­
carlate. Trançaram uma coroa de espinhos, e, rindo, puseram-na sobre
a cabeça dEle. Então se ajoelharam em escárnio, como se Ele fosse
o impostor de um rei. Cuspiram nEle. Bateram-Lhe na cabeça com um
caniço. Firtalmente, depois de O vestirem com as suas próprias vestes,
levaram-No para fora da cidade, a um lugar chamado Gólgota, onde
O crucificaram entre dois ladrões.
Mas, o que era uma crucificação? Vamos, pois, tentar imaginar
e entender este mistério. A pessoa crucificada era deitada de costas sobre
uma escora de madeira sobre a qual a peça que formava a cruz era pre­
gada, perto de uma das extremidades; ou sobre o tronco de uma árvore,
com um formato que servisse ao mesmo propósito. As mãos da pessoa
crucificada eram estendidas abertas sobre os braços da cruz e atravessadas
com pregos que as prendiam à madeira. Os pés da vítima, igualmente,
eram pregados ao tronco principal da cruz. Depois que o corpo estava
assim, bem preso, a cruz era levantada e encravada firmemente no solo.
Ali ficava o infeliz sofredor, dependurado até que as dores e a exaustão
física trouxessem o seu fim, e isso lentamente, pois nenhum órgão vital
era atingido, mas numa agonia excruciante de pés e mãos feridos e o
corpo incapaz de mover-se. Essa era a morte por crucificação. Essa
foi a morte que Jesus enfrentou por nós! Durante seis longas horas Ele
esteve pendurado em frente à multidão — semi-despido, sangrando da
cabeça aos pés, a cabeça ferida pelos espinhos, as costas laceradas pelo
chicote, mãos e pés transpassados pelos cravos, e, ainda, a zombaria
e o desprezo até o último instante, por parte dos cruéis inimigos.
Meditemos com freqüência sobre a cruz e a paixão de Cristo.
Não menos importante, lembremo-nos de que todos esses sofrimentos
horrendos foram experimentados sem murmuração. Nenhuma palavra
de impaciência saiu dos lábios de nosso Senhor. Ele foi perfeito, tanto
na vida quanto na morte. Até ao último instante, Satanás nada encon­
trou nEle.
Em segundo lugar, salientemos que todos os sofrimentos de nosso
250 Mateus 27.27-44

Senhor Jesus Cristo foram vicários. Jesus não sofreu em razão de pe­
cados próprios, mas em razão dos nossos pecados. Ele foi, notadamente,
o nosso Substituto em todos os sofrimentos por que passou.
Esta é uma verdade da maior importância. Sem ela a narrativa
dos sofrimentos de nosso Senhor, com todos os seus detalhes e por­
menores, sempre nos pareceria qiisteriosa e inexplicável. Entretanto,
esta é uma verdade da qual as Escrituras falam freqüentemente, e nunca
em tons incertos. Somos ensinados que Cristo carregou “ ele mesmo
em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pe 2.24); que
Ele morreu pelos pecados, “ o justo pelos injustos” (1 Pe 3.18); que
Ele não conhecia pecado mas foi feito pecado por nós “ para que nele
fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.21); que “ Ele se fez maldição
em nosso lugar” (G13.13); “ para tirar os pecados de muitos” (Hb 9.28);
que Ele foi “ traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nos­
sas iniqüidades” , mas “ o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós
todos” (Is 53.5,6). Que todos nos lembremos constantemente destes
textos sagrados. Eles são pedras fundamentais do evangelho.
Todavia, não devemos nos contentar com uma crença vaga e su­
perficial de que os sofrimentos de Cristo na cruz foram vicários. Devemos
enxergar esta verdade em cada detalhe da sua paixão. Podemos acom-
panhá-Lo do começo ao fim, desde o tribunal de Pilatos até o momento
de sua morte; e vê-Lo, a cada passo, como nosso poderoso Substituto,
nosso Representante, nosso Cabeça, nossa Garantia, e nosso Fiador;
nosso Amigo divino que se propôs a tomar o nosso lugar e, pelo mérito
de seus sofrimentos, comprar nossa redenção. Ele foi chicoteado? Foi,
para que “ pelas suas pisaduras” fôssemos sarados. Ele foi condenado,
mesmo que inocente? Foi, para que pudéssemos ser declarados inocen­
tes, embora culpados. Ele recebeu uma coroa de espinhos? Recebeu,
para que pudéssemos ganhar a coroa da glória. Ele foi despido de suas
vestes? Foi, para que pudéssemos ser vestidos em eterna justiça. Ele
foi escarnecido e desprezado? Foi, para que fôssemos considerados ino­
centes e justificados de todo pecado. Ele foi declarado incapaz de salvar
a si mesmo? Foi, para que pudesse salvar a outrem, até o pior de todos.
Ele morreu a morte mais dolorosa e infeliz? Morreu, para que pudés­
semos viver eternamente e ser exaltados às maiores glórias. Que nós
meditemos demoradamente sobre estas coisas. Vale a pena relembrá-
-las. O segredo para a paz consiste em uma correta compreensão acerca
dos sofrimentos vicários de Cristo.
Passemos adiante da narrativa da paixão de nosso Senhor, com
sentimentos de profunda gratidão. Nossos pecados são grandes e mui­
tos, mas um grande sacrifício foi feito para expiá-los. Havia um mérito
infinito em todos os sofrimentos de Jesus Cristo. Foram os sofrimentos
Mateus 27.27-44 251

de Alguém que era tanto homem como Deus. Certamente é apropriado


e correto, e nosso dever, louvar a Deus diariamente, pela morte de Cristo.
Por fim, mas também muito importante, aprendamos, baseados
no relato da paixão de Cristo, a odiar o pecado intensamente. O pecado
foi a causa de todos os sofrimentos de nosso Salvador. Foram os nossos
pecados que trançaram a coroa de espinhos. Os nossos pecados cravaram
os pregos em suas mãos e pés. O seu sangue foi derramado por causa
dos nossos pecados. Por certo, o pensamento de Cristo crucificado nos
deveria fazer repugnar todo pecado. Com muita razão, diz a homilia
da paixão: “ Que a imagem de Cristo crucificado fique impressa para
sempre em nossos corações. Que ela desperte em nós profundo ódio
ao pecado, provocando em nossas mentes o terno amor do Deus Todo-
-Poderoso” .

A Morte de Cristo e os Sinais Acompanhantes


Leia Mateus 27.45-56

Nestes versículos lemos a conclusão da paixão de nosso Senhor


Jesus Cristo. Após seis horas de sofrimento agonizante, Ele foi obe­
diente até a morte, e “ entregou o espírito” . Três particularidades na
narrativa demandam atenção especial. Vamos observar esses três pontos.
Em primeiro lugar, observemos as palavras notáveis que Jesus
pronunciou, pouco antes de sua morte: “ Deus meu, Deus meu, por
que me desamparaste?” Existe um profundo mistério nestas palavras,
que nenhum mortal é capaz de sondar. Sem dúvida elas não foram ditas
por nosso Senhor somente por causa de dor corporal. Uma afirmação
em contrário é totalmente insatisfatória, e somente desonra ao nosso
Salvador bendito. As palavras foram ditas para exprimir a incrível pres­
são que estava sobre sua alma, e a enorme carga dos pecados do mundo.
Elas foram ditas para mostrar como Jesus foi verdadeiramente, e, li­
teralmente, feito nosso substituto; como Ele foi feito pecado e maldição
por nós, suportando sobre si mesmo a justa ira de Deus contra os pe­
cados do mundo. Naquele horrível momento, a iniqüidade de todos nós
foi posta sobre Ele, até às últimas conseqüências. “ Ao Senhor agradou
moê-lo, fazendo-o enfermar” (Is 53.10). Ele levou os nossos pecados
e tomou sobre Si as nossas transgressões. Essa carga deve ter sido ex­
tremamente pesada; real e literal foi a substituição efetuada pelo nosso
Senhor em nosso lugar, quando Ele, mesmo sendo o eterno Filho de
Deus, foi capaz de dizer que tinha sido “ desamparado” pelo Pai.
Que esta expressão de Jesus desça até ao fundo de nossos corações
252 Mateus 27.45-56

e não seja esquecida. Não poderíamos ter maior prova da pecamino-


sidade do pecado, e da natureza vicária dos sofrimentos de Cristo, do
que este seu grito angustiado: “ Deus meu, Deus meu, por que me de­
samparaste?” Isto nos deveria levar a odiar o pecado e nos encorajar
a confiar em Cristo.
Em segundo lugar, notemos quão projunda significação está con­
tida nas palavras que descrevem os momentos finais de nosso Senhor.
Somos simplesmente informados de que Ele “ entregou o espírito” .
Nunca houve um último suspiro de tão tremenda importância quanto
esse. Nunca houve um evento do qual tanta coisa dependesse. Os sol­
dados romanos e a multidão espalhada ao redor da cruz nada viram de
extraordinário. Eles somente viram uma pessoa morrendo como outras
morrem, com toda a agonia usual e o sofrimento que acompanhava uma
crucificação. Eles desconheciam totalmente os interesses eternos que
estavam envolvidos em toda aquela transação.
A morte de Cristo saldou completamente a enorme dívida que
pecadores tinham para com Deus, abrindo a porta da vida eterna para
cada crente. A sua morte satisfez às justas reivindicações da santa lei
de Deus, para que Deus fosse justo e o justificador do ímpio. Essa morte
não foi apenas um mero exemplo de auto-sacrifício, e, sim, uma com­
pleta expiação e propiciação pelo pecado do homem, alterando a condição
e as possibilidades futuras de toda a humanidade. Essa morte solucio­
nou o complicado problema de como Deus pode ser perfeitamente santo,
e, ao mesmo tempo, perfeitamente misericordioso. Ela abriu para o
mundo uma fonte purificadora para todo pecado e imundícia. Foi uma
vitória completa sobre Satanás, tendo-o despojado abertamente. Ela des­
fez a transgressão, fez expiação pela iniqüidade e vindicou justiça eterna.
Ela demonstrou a pecaminosidade do pecado, pelo fato de ter sido ne­
cessário um sacrifício tão grande para expiá-lo. Demonstrou o amor
de Deus pelos pecadores, pelo fato de Ele ter enviado seu próprio Filho
para fazer a expiação. De fato, nunca houve nem poderia haver outra
morte como a de Jesus Cristo. Não admira, portanto, que a terra tre­
messe quando Jesus morreu em nosso lugar sobre a cruz maldita. O
mundo inteiro foi sacudido e se maravilhou quando a alma de Cristo
foi posta como oferta pelo pecado (Is 53.10).
Por último, notemos ainda, o milagre notável que ocorreu na
hora da morte de nosso Senhor, bem no interior do templo judaico.
As Escrituras nos dizem que “ o véu do santuário se rasgou em duas
partes, de alto a baixo” . A cortina que separava o Santo dos Santos
do restante do templo foi rasgada de cima para baixo.
De todos os maravilhosos sinais que acompanharam a morte de
nosso Senhor, nenhum foi mais signifícante do que esse. A escuridão
Mateus 27.45-56 253

ao meio-dia, e que durou três horas, sem dúvida, foi um acontecimento


espantoso. O terremoto que fendeu as rochas, também foi um tremendo
choque. Mas havia um significado naquele súbito rompimento do véu,
rasgado de alto a baixo, que atingiria o coração de qualquer judeu in­
teligente. Á consciência de Caifás, o sumo sacerdote, devia estar mesmo
cauterizada, se as notícias sobre o véu rasgado não o abalaram.
O rompimento do véu proclamava o fim e o passamento da lei
cerimonial. Era um sinal de que a antiga dispensação de sacrifícios e
ordenanças já não era mais necessária. A sua obra estava completa,
e sua utilidade acabou-se desde o momento em que Cristo morreu. Não
havia mais nenhuma necessidade de se ter um sumo sacerdote, aspersão
de sangue e um propiciatório terrenos, nem a oferta de incenso, nem
um dia de expiação. O verdadeiro Sumo Sacerdote tinha finalmente apa­
recido. O verdadeiro Cordeiro de Deus tinha sido morto, e o verdadeiro
propiciatório revelado. As figuras e sombras não eram mais necessá­
rias. Que todos nos lembremos disso! Estabelecer um altar, um sacrifício
e um sacerdócio, agora, é como acender uma lâmpada em pleno meio-
-dia.
O rompimento do véu proclamava a abertura do caminho da sal­
vação para toda a humanidade. Até à morte de Cristo, o caminho para
a presença de Deus era desconhecido para os gentios e apenas visto
obscuramente pelos judeus. Mas Cristo, tendo-se oferecido como sacri­
fício perfeito e obtido eterna redenção, a escuridão e o mistério se aca­
baram. Doravante, todos seriam convidados a aproximarem-se de Deus
com ousadia e vir a Ele com confiança, pela fé em Jesus. Uma porta
tinha sido aberta, e o caminho da vida estava posto diante do mundo
inteiro. Que todos possamos nos lembrar disso! Desde a morte de Je­
sus, o caminho da paz nunca mais deveria estar envolto em mistérios.
Não haveria nenhuma reserva. O evangelho era a revelação de um mis­
tério que estava oculto através dos séculos e das gerações. Por isso,
envolver, no presente, a religião em uma capa de mistério é equivocar-
-se quanto à maior característica do cristianismo, a revelação.
Todas as vezes que considerarmos a história da crucificação de
Jesus, façamo-lo com o coração cheio de louvor. Louvemos a Deus
pela confiança de termos a crucificação como fundamento de nossa es­
perança e perdão. Nossos pecados podem ser grandes e muitos, mas
o pagamento efetuado pelo nosso grande Substituto em muito os ultra­
passa a todos. Louvemos a Deus pela visão que a crucificação nos dá,
do amor do Pai celeste. Aquele que não poupou a seu próprio Filho,
antes, por todos nós O entregou, certamente nos dará com Ele todas
as coisas (Rm 8.32). Não menos importante, louvemos a Deus por ver­
mos na crucificação a simpatia de Jesus para com todo o seu povo, os
254 Mateus 27.45-56

crentes. Ele sabe comover-se diante do sentimento de nossas fraquezas.


Ele sabe o que é sofrimento. Ele é exatamente o Salvador que um corpo
enfermo, com um coração fraco, requer, em um mundo maligno.

O Sepultamento de Cristo; As Vãs


Precauções para Evitar Sua Ressurreição
Leia Mateus 27.57-66

Estes versículos contêm a narrativa do sepultamento de nosso


Senhor Jesus Cristo. Havia ainda uma etapa necessária para assegurar
o cumprimento da grande obra da redenção que nosso Redentor em­
preendeu. O seu corpo santo, no qual Ele carregou nossos pecados sobre
a cruz, precisava ainda ser depositado na sepultura e ressuscitar. A res­
surreição seria o selo e a pedra angular de toda a sua obra.
A infinita sabedoria de Deus previu todas as objeções dos incré­
dulos e infiéis, e tomou providências contra elas. Será que o Filho de
Deus realmente morreu? Ele realmente ressuscitou? Não poderia ter
havido alguma fraude no tocante à realidade de sua morte? Não houve
algum embuste ou logro quanto à realidade de sua ressurreição? Todas
estas, e muitas objeções mais teriam sido levantadas se a oportunidade
para isso tivesse sido dada. Porém, Aquele que sabe qual será o fim
das coisas desde o princípio, impediu a possibilidade da apresentação
de tais objeções. Mediante sua providência, que a tudo controla, Deus
ordenou as coisas de maneira que a morte e o sepultamento de Jesus
Cristo ficassem acima de qualquer dúvida. Pilatos deu permissão para
o sepultamento. Um discípulo amoroso envolveu o corpo em panos de
linho e o depositou em um túmulo novo, escavado na rocha, “ no qual
ninguém tinha sido ainda posto” (Jo 19.41). Os próprios sacerdotes
puseram uma guarda sobre o lugar onde o corpo tinha sido posto. Ju­
deus e gentios, amigos e inimigos — todos testificaram do grande fato
que Cristo, realmente morreu e foi sepultado. Esse é um fato que não
pode ser questionado. Ele foi realmente torturado, realmente sofreu,
realmente morreu, e realmente foi sepultado. Marquemos isso bem, pois
são fatos que precisam ser lembrados.
Em primeiro lugar, aprendemos que nosso Senhor Jesus Cristo
tem amigos de quem pouco se sabe. Não encontraríamos um exemplo
mais marcante dessa verdade do que esse que vemos nesta passagem.
Um homem chamado José de Arimatéia se apresenta, depois da morte
de nosso Senhor, e pede permissão para sepultá-Lo. Nunca tínhamos
ouvido desse homem anteriormente no ministério terreno de nosso Se-
Mateus 27.57-66 255

nhor. Depois disso, nunca mais ouvimos falar a seu respeito. Nada mais
sabemos, senão que ele era um discípulo que amava a Cristo e O hon­
rou na sua morte. Na ocasião em que os apóstolos haviam abandonado
nosso Senhor; quando era extremamente perigoso alguém mostrar con­
sideração pelo Senhor; quando parecia que nenhuma vantagem terrena
seria ganha pela confissão de um discipulado; é numa ocasião assim
que José de Arimatéia vem à frente com ousadia, pede o corpo de Jesus
e o deposita em sua própria sepultura nova.
Esse fato nos traz muito consolo e encorajamento. Ele nos mos­
tra que existem, aqui na terra, pessoas retraídas que conhecem ao Senhor
e são conhecidas por Ele, mas que são pouco conhecidas pela igreja.
Vemos que há diversidade de dons entre o povo de Cristo. Alguns glo­
rificam a Cristo passivamente, e outros O glorificam ativamente. Alguns
têm a vocação de edificar a igreja e ocupar um lugar de projeção pú­
blica; há outros, como José de Arimatéia, que só vêm à frente em ocasiões
de especial necessidade. Mas todos, individualmente, são guiados por
um único Espírito; todos, e cada um glorificando a Deus através de
diferentes maneiras.
Que essas coisas nos ensinem a sermos mais esperançosos. De­
vemos crer que muitos ainda chegarão do Oriente e do Ocidente, e se
assentarão com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Pode haver,
em lugares ocultos da cristandade, muitos que, como Simeão, Ana e
José de Arimatéia, no presente são bem pouco conhecidos, mas que
haverão de brilhar entre as jóias preciosas do Senhor Jesus, no dia de
seu aparecimento.
Em segundo lugar, aprendemos que Deus pode transtornar os
esquemas de homens maus e fazê-los trabalhar para a sua própria gló­
ria. Aprendemos esta lição de maneira impressionante, pela conduta
dos sacerdotes e fariseus depois do sepultamento de nosso Senhor. A
incansável inimizade desses homens infelizes não podia cessar, nem
mesmo quando o corpo de Jesus já estava na sepultura. Eles se lem­
braram de palavras que Jesus havia dito a respeito de “ ressuscitar” ,
e resolveram tomar impossível a sua ressurreição dos mortos, julgando
que poderiam mesmo impedi-Lo. Eles foram a Pilatos e obtiveram uma
guarda de soldados romanos. Puseram uma escolta ao sepulcro e sela­
ram oficialmente a pedra da entrada. Em suma, fizeram tudo quanto
puderam para que o sepulcro fosse “ guardado com segurança” .
Eles nem imaginavam o que estavam fazendo. Nem pensaram
que estavam providenciando a evidência mais completa da veracidade
da ressurreição de Jesus Cristo que estava para ocorrer. Na verdade,
eles estavam fazendo impossível provar que tivesse havido qualquer
fraude ou engano. A guarda, o selo e as precauções, todos se tornaram
256 Mateus 27-57-66

testemunhas, depois de poucas horas, do fàto que Cristo havia ressus­


citado. Eles tanto poderiam tentar parar o fluxo das marés ou impedir
o nascimento do sol, quanto poderiam tentar impedir que Jesus ressur­
gisse da sepultura. Eles foram pegos em sua própria astúcia (1 Co 3.19).
Seus próprios estratagemas se transformaram em instrumentos de de­
monstração da glória de Deus.
A história da igreja de Cristo está repleta de exemplos similares
a esse. As próprias coisas que pareciam mais desfavoráveis, muitas ve­
zes se transformaram em benefícios para o povo de Deus. Que prejuízo
trouxe à igreja de Cristo a perseguição que se levantou após a morte
de Estevão? (At 8.1-4). “ Os que foram dispersos iam por toda parte
pregando a palavra.” Que mal o encarceramento trouxe ao apóstolo
Paulo? Sua prisão deu-lhe tempo para escrever muitas de suas epísto­
las, que agora são lidas em todo o mundo. Qual foi o prejuízo verdadeiro
causado à Reforma na Inglaterra pela perseguição da rainha Maria San­
guinária? De fato, o sangue dos mártires tornou-se a semente da igreja.
Que mal a perseguição causa ao povo de Deus hoje em dia? Ela só nos
faz chegar mais perto de Cristo. Ela só nos faz aproximarmo-nos mais
e mais ao trono da graça, à Bíblia e à oração.
Que todos os verdadeiros crentes guardem estas verdades no co­
ração e tenham coragem. Vivemos em um mundo onde tudo é controlado
pela mão da perfeita Sabedoria, e onde todas as coisas estão cooperando
juntamente, e continuamente para o bem do corpo de Cristo. Os po­
deres deste mundo são meros instrumentos nas mãos de Deus. Ele está
sempre usando esses instrumentos para os seus próprios propó­
sitos, quer tenham consciência disso ou não. São instrumentos pelos
quais Deus está lapidando e polindo as pedras vivas de seu templo es­
piritual; e todos os planos e esquemas dos inimigos somente resultarão
em louvor ao Senhor. Sejamos, pois, pacientes em dias atribulados e
escuros, e olhemos para a frente. As mesmas coisas que agora parecem
contra nós, estão todas trabalhando juntas para a glória de Deus. No
momento, vemos apenas a metade do que realmente sucede. Dentro
em pouco veremos tudo com clareza. Então descobriremos que toda
perseguição que agora suportamos, assim como a escolta ao sepulcro
e o selo sobre a pedra, serve para maior glória a Deus. Até a ira hu­
mana há de louvar a Deus (SI 76.10).
Mateus 28.1-10 257

A Ressurreição de Cristo
Leia Mateus 28.1-10

O assunto principal destes versículos é a ressurreição de nosso


Senhor Jesus Cristo dentre os mortos. Essa é uma das verdades fun­
damentais sobre que se baseia o cristianismo, e por isso recebe atenção
especial em todos os quatro evangelhos. Todos os quatro evangelistas
descrevem minuciosamente como nosso Senhor foi crucificado. Todos
os quatro relatam, com não menos clareza que Ele ressuscitou.
Não temos que nos admirar pelo fato de tanta importância ser
dada à ressurreição de nosso Senhor. Ela é o selo e a pedra angular
da grande obra de redenção que Ele veio efetuar. Ela é a prova coro-
adora de que Ele pagou a dívida que se propôs a pagar em nosso favor;
a prova de que Ele venceu a batalha que empreendeu para nos libertar
do inferno, e de que foi aceito por nosso Pai celestial como Fiador e
Substituto nosso. Se Ele jamais tivesse saído da prisão da sepultura,
que certeza teríamos de que nosso resgate tinha sido inteiramente pago?
(1 Co 15.17) Se Ele nunca tivesse ressurgido de seu conflito com o
último inimigo, como poderíamos ter a confiança de que Ele venceu
a morte e aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo? (Hb 2.14)
Mas graças a Deus não fomos deixados em dúvida. O Senhor Jesus real­
mente “ ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.25). Os cren­
tes verdadeiros são regenerados “ para uma viva esperança mediante a
ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pe 1.3). Eles podem
dizer com toda a ousadia, juntamente com Paulo: “ Quem os condenará?
É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou” (Rm 8.34).
Somos gratos porque essa verdade maravilhosa da nossa religião,
a ressurreição de Cristo, está tão clara e plenamente provada. Essa é
uma circunstância impressionante, porque, dentre todos os fatos ligados
ao ministério terreno de nosso Senhor, nenhum ficou tão incontesta­
velmente estabelecido quanto a sua ressurreição. A sabedoria de Deus,
que conhece a incredulidade da natureza humana, providenciou uma
grande nuvem de testemunhas sobre o assunto. Nunca houve um fato
em que os amigos de Deus relutassem a crer, tanto quanto a ressurreição
de Cristo. Nunca houve um fato que os inimigos de Deus estivessem
tão ansiosos para contradizer. No entanto, apesar da incredulidade dos
amigos e da inimizade dos adversários, o fato ficou solidamente esta­
belecido. Para uma mente justa e imparcial as evidências serão sempre
irrefutáveis. Seria mesmo impossível provar qualquer coisa neste mundo,
se nos recusássemos a crer que Jesus ressuscitou.
258 Mateus 28.1-10

Observemos, nestes versículos a glória e majestade com que Cristo


ressurgiu dentre os mortos. Somos informados de que houve “ um grande
terremoto” e “ um anjo do Senhor desceu do céu, chegou-se, removeu
a pedra e assentou-se sobre ela” . Não precisamos supor que nosso ben­
dito Senhor precisasse da ajuda de algum anjo, ao sair da sepultura.
Não devemos duvidar, sequer por um momento, que Ele ressuscitou
por seu próprio poder. Mas aprouve a Deus que a sua ressurreição fosse
acompanhada e seguida por sinais e maravilhas. Pareceu conveniente
a Deus que a terra estremecesse e aparecesse um anjo glorioso, quando
o Filho de Deus ressurgisse dentre os mortos como um Conquistador.
Não deixemos de ver, na maneira como nosso Senhor ressusci­
tou, um tipo simbólico e uma garantia da ressurreição daqueles que nEle
crêem. A sepultura não conseguiu segurá-Lo além do tempo determi­
nado, e o mesmo se dará com os crentes. Um anjo glorioso foi testemunha
da ressurreição de Jesus, e anjos gloriosos serão os mensageiros que
recolherão os crentes quando ressuscitarem. Jesus ressuscitou com um
corpo renovado, mas um corpo — real, verdadeiro e material; da mesma
forma, os crentes terão um corpo glorioso e serão como Ele, que é o
Cabeça de todos. “ Quando ele se manifestar, seremos semelhantes a
ele” (1 Jo 3.2).
Consolemo-nos com este pensamento. Tribulações, tristezas e
perseguições, com freqüência, são a porção que cabe ao povo de Deus.
Enfermidades, fraqueza e dor muitas vezes ferem e desgastam seu po­
bre tabernáculo terreno. Mas o tempo favorável está para vir. Que os
crentes esperem com paciência, pois terão uma ressurreição gloriosa.
Quando vamos morrer, onde seremos sepultados e que tipo de funeral
teremos são questões de pequena importância. A grande pergunta a ser
feita é esta: “ Como ressuscitaremos?”
Observemos em seguida o terror que os inimigos de Cristo sen­
tiram no período da sua ressurreição. Quando viram o anjo, “ os guardas
tremeram espavoridos, e ficaram como se estivessem mortos” . Aque­
les brutais soldados romanos, embora acostumados a contemplar cenas
chocantes e dramáticas, viram algo que os deixou aterrorizados. Diante
da visão de um anjo de Deus perderam de uma vez toda a coragem.
Novamente, vemos nesse fato um tipo e símbolo de coisas ainda
por vir. O que farão o descrente e o ímpio no dia final, quando a trom­
beta soar e Cristo voltar em glória, para julgar o mundo? O que farão
quando virem todos os mortos, tanto grandes quanto pequenos, saindo
de seus túmulos, e todos os anjos de Deus reunidos ao redor do grande
trono branco? Que temores e terrores não se apossarão de suas almas
quando descobrirem que não mais poderão evitar a presença de Deus,
e por fim terão de enfrentá-Lo face a face? Ah, que todos os homens
Mateus 28.1-10 259

fossem sábios e refletissem sobre o seu fim! Que todos se lembrassem


de que há uma ressurreição e um julgamento, e que também existe a
ira do Cordeiro!
Em seguida, notemos as palavras de conforto que o anjo dirigiu
aos amigos de Cristo. Ele disse: “ Não temais: porque sei que buscais
a Jesus, que foi crucificado” .
Estas palavras foram ditas com um profundo significado. Elas
visavam a animar o coração dos crentes de todos os séculos, diante da
certeza da ressurreição. A intenção destas palavras é lembrar-nos de
que o verdadeiro crente não tem motivo algum para andar alarmado,
não importa o que possa acontecer neste mundo. O Senhor aparecerá
entre as nuvens do céu, e então a terra será consumida pelo fogo. Os
sepulcros entregarão os seus mortos e será, então, o dia final. O jul­
gamento terá início e os livros serão abertos. Os anjos separarão o trigo
da palha; eles farão a divisão entre bons e maus peixes. Mas em tudo
isto não há motivo para os crentes estarem temerosos. Eles estarão sem
qualquer mancha ou culpa, revestidos da justiça de Cristo. Estarão a
salvo na verdadeira arca, e não serão feridos quando o dilúvio da ira
de Deus irromper sobre a terra. Será então que as palavras do Senhor
terão cumprimento completo: “ Ora, ao começarem estas cousas a su­
ceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se
aproxima” (Lc 21.28). Então os ímpios e incrédulos verão quão ver­
dadeira é a afirmação bíblica que diz: “ Feliz a nação cujo Deus é o
Senhor” (SI 33.12).
Em último lugar, observemos a graciosa mensagem que o Senhor
Jesus enviou aos seus discípulos, depois da ressurreição. Ele apareceu
pessoalmente às mulheres que tinham ido prestar honras ao seu corpo.
As últimas junto à cruz e as primeiras junto ao túmulo, elas foram quem
primeiro tiveram o privilégio de ver a Jesus ressurreto. E receberam
a incumbência de levar a boa nova aos discípulos. O primeiro pensa­
mento de Jesus é para seu pequeno rebanho, disperso: “ Ide avisar a
meus irmãos” .
Há algo muito tocante nestas simples palavras, “ meus irmãos” .
Elas merecem mil pensamentos. Embora fracos, frágeis e tendentes ao
desvio como eram os discípulos, Jesus ainda os chama de “ irmãos” .
Ele os conforta, como José fizera a seus irmãos que o tinham vendido,
dizendo: “ Eu sou José, vosso irmão” . Por mais que os discípulos ti­
vessem falhado quanto a sua profissão de fé, por mais que se tivessem
acovardado, por temor de homens, eles ainda eram seus “ irmãos” . Glo­
rioso como era em Si mesmo, o Conquistador da morte, do inferno e
da sepultura, o Filho de Deus ainda é “ manso e humilde de coração” .
Ele chama a seus discípulos de “ irmãos” .
260 Mateus 28.1-10

Se conhecemos algo da verdadeira religião, podemos deixar esta


passagem levando confortáveis pensamentos. Vemos nas palavras de
Cristo um encorajamento para confiar e não estar temerosos. O nosso
Salvador jamais se esquece do seu povo. Ele se compadece das nossas
enfermidades e não nos despreza. Ele conhece as nossas fraquezas, e
mesmo assim não nos rejeita. O nosso grande Sumo Sacerdote é tam­
bém nosso Irmão mais velho.

A Incumbência Final Dada aos Discípulos


Leia Mateus 28.11-20

Estes versículos formam a conclusão do evangelho de Mateus.


Começam nos mostrando o quanto o preconceito cego prejudica o crente,
antes que ele creia na verdade pura. Também nos mostram as fraquezas
que havia nos corações de alguns discípulos, e como eles custaram a
crer. A passagem se encerra contando-nos algumas das últimas pala­
vras de nosso Senhor sobre a terra, palavras tão importantes que exigem
e merecem toda nossa atenção.
Em primeiro lugar, devemos observar a honra conferida por Deus
a nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor diz: “ Toda a autoridade
me foi dada no céu e na terra” . Essa também é uma verdade declarada
por Paulo aos Filipenses: “ Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o
nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9). Essa é uma verdade que,
sob hipótese alguma, contradiz a verdadeira noção da divindade de Cristo,
conforme alguns, por ignorância, têm imaginado. Ela é simplesmente
uma declaração de que, nos conselhos da Trindade eterna, Jesus, o Fi­
lho do homem, é designado herdeiro de todas as coisas e Mediador entre
Deus e os homens e de que a Ele cabe a salvação de todos os que são
salvos; é uma declaração de que Ele é a grande fonte de misericórdia,
graça, vida e paz. Foi por causa dessa “ alegria que lhe estava proposta”
que Ele “ suportou a cruz” (Hb 12.2).
Com toda a reverência, apeguemo-nos decididamente a essa ver­
dade. Cristo é aquele que tem as chaves da morte e do inferno. Cristo
é o Sacerdote ungido, o único que pode absolver pecadores. Cristo é
a fonte das águas vivas, o único que pode nos purificar. Cristo é o Prín­
cipe e Salvador, o único que pode outorgar arrependimento e remissão
de pecados. Nele habita toda a plenitude. Ele é o caminho, a porta,
a luz, a vida, o Pastor, o altar de refúgio. Aquele que tem o Filho tem
a vida, e quem não tem o Filho não tem a vida eterna. Que todos nós
nos esforcemos para entender isto. É certo que os homens podem fa­
Mateus 18.11-20 261

cilmente pensar em termos pequenos demais acerca de Deus Pai e de


Deus Espírito Santo, mas ninguém jamais pensou em termos demasia­
damente grandes a respeito de Cristo.
Observemos, em segundo lugar, o dever de que Jesus incumbiu
os seus discípulos. Jesus lhes disse: “ Ide, portanto, fazei discípulos
de todas as nações’’. Eles não deveriam reter para si mesmos o seu
conhecimento de Jesus Cristo, e, sim, deveriam comunicá-lo a outras
pessoas. Não deveriam supor que a salvação fora revelada exclusiva­
mente para os judeus, e deviam fazê-la conhecida do mundo inteiro.
Deveriam esforçar-se para fazer discípulos de todas as nações, e anun­
ciar a todos os povos que Cristo havia morrido pelos pecadores.
Nunca nos esqueçamos de que essa solene determinação conti­
nua ainda em pleno vigor. Continua sendo dever obrigatório de todo
discípulo de Cristo fazer tudo quanto seja possível, pessoalmente, ou
pela oração, para que outras pessoas venham a conhecer a Cristo. Se
negligenciamos este dever, onde está a nossa fé? Onde está o nosso
amor cristão? Se uma pessoa não tem o desejo de fazer o evangelho
conhecido no mundo inteiro, bem se pode questionar se essa pessoa
conhece mesmo o valor do evangelho.
Notemos, em terceiro lugar, a confissão pública que Jesus re­
quer daqueles que crêem em seu evangelho. Ele disse aos apóstolos
para batizarem todos quantos recebessem como discípulos. Quando le­
mos esse mandamento final de nosso Senhor, é muito difícil entender
como os homens podem evitar a conclusão de que o batismo é necessário
quando pode ser administrado. Parece impossível explicar o significado
desta passagem como sendo outra coisa que não uma ordenança externa,
a ser administrada a todos quantos se unem à igreja. Que o batismo
externo não é algo absolutamente necessário para a salvação, fica cla­
ramente demonstrado pelo caso do ladrão penitente que morreu ao lado
de Jesus. Ele foi para o paraíso sem ter sido batizado. E que o batismo
externo, apenas, não transmite qualquer benefício espiritual, o caso de
Simão, o mago, o demonstra claramente. Embora batizado, ele per­
manecia no “ fel de amargura e laço de iniqüidade” (At 8,23). Porém,
a afirmação de que o batismo é uma questão totalmente indiferente e
que nem mesmo precisa ser usado, parece algo que não concorda com
as palavras de nosso Senhor nesta passagem.
A lição prática e clara, nestas palavras, é a necessidade de uma
confissão pública de fé em Cristo. Não basta ser um discípulo secreto.
Não devemos nos envergonhar por deixar que os homens vejam de quem
somos e a quem servimos. Não devemos nos comportar como se não
gostássemos de ser identificados como crentes; devemos tomar a nossa
cruz e confessar o nosso Mestre perante o mundo. As palavras dEle
262 Mateus 28.11-20

são muito solenes: “ Porque qualquer que... se envergonhar de mim


e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele,
quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (Mc 8.38).
Em quarto lugar, sublinhemos a obediência que Jesus requer de
todos os que se declaram seus discípulos. Ele disse aos apóstolos para
ensinarem os novos discípulos a “ guardar todas as cousas” , tudo o que
Ele ordenou. Essa é uma expressão perscrutante que demonstra a inu­
tilidade de um cristianismo apenas de nome e de aparência; demonstra
que somente devem ser contados como verdadeiros cristãos aqueles que
vivem em obediência prática à Palavra e se esforçam por cumprir as
coisas que Ele ordenou. A água do batismo e o pão e vinho da Ceia
do Senhor sozinhos, não salvarão a alma de ninguém. De nada adianta
ir a uma igreja, e ouvir os ministros de Cristo, e concordar com o evan­
gelho, se nossa religião não vai além disso. Como está a nossa vida?
Qual é a nossa conduta diária, no lar e fora dele? O Sermão do Monte
é a nossa regra e padrão de conduta? Nós nos esforçamos por copiar
o exemplo de Cristo? Procuramos fazer as coisas que Ele ordenou? Es­
tas são perguntas que precisam ser respondidas afirmativamente se somos
realmente nascidos de novo e filhos de Deus. A obediência é a única
prova dessa realidade. A fé sem obras, por si só está morta. “ Vós sois
meus amigos” , diz Jesus, “ se fazeis o que eu vos mando” (Jo 15.14).
Em quinto lugar, assinalemos a solene menção à Trindade ben­
dita, que nosso Senhor faz nestes versículos. Ele manda batizar “ em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” . Este é um daqueles gran­
des textos bíblicos que direta e claramente ensinam a poderosa doutrina
da Trindade. O texto fala do Pai, Filho e Espírito Santo como três pes­
soas distintas, e todos os três como co-iguais. Assim como é o Pai,
também é o Filho e o Espírito Santo. Não obstante, os três são um.
Essa verdade é para nós um grande mistério. Que nos seja su­
ficiente receber e crer nessa doutrina, e que nos abstenhamos de qualquer
tentativa de explicação. É tolice infantil recusar aceitação a alguma coisa,
simplesmente porque não a entendemos. Nós somos como uns vermes
que rastejam pelo chão, por breve tempo; quando muito, pouco conhe­
cemos a respeito de Deus e da eternidade. Que seja suficiente recebermos
no coração a doutrina da Trindade em Unidade, com uma atitude hu­
milde e reverente, sem perguntas presunçosas. Creiamos que nenhuma
única alma pecaminosa poderia ser salva sem a operação conjunta de
todas as três pessoas na bendita Trindade; e regozijemo-nos, porque
Pai, Filho e Espírito Santo, que cooperaram para criar o homem, tam­
bém cooperam na salvação do mesmo. Convém que paremos por aqui.
Podemos receber praticamente aquilo que não podemos explicar teori­
camente.
Mateus 28.11-20 263

Finalmente, observemos nestes versículos a graciosa promessa


com que Jesus encerra suas palavras. Ele diz aos seus discípulos: “ Es­
tou convosco todos os dias até à consumação do século” . É impossível
concebermos palavras mais consoladoras, fortalecedoras, animadoras
e santificadoras do que essas. Embora deixados a sós, como crianças
órfãs em um mundo frio e hostil, os discípulos não deveriam pensar
que tivessem sido abandonados. O Mestre estaria sempre com eles (“ con­
vosco” ). Embora comissionados a realizar uma obra tão dura quanto
aquela para a qual Moisés fora enviado a Faraó, eles não deveriam ficar
desencorajados. O Mestre certamente estaria “ com eles” . Por conse­
guinte, não havia palavras mais apropriadas para serem proferidas a
quem o foram pela primeira vez. Nenhuma palavra poderia ser mais
adequada à posição daqueles primeiros discípulos. Também não é pos­
sível imaginar uma palavra mais consoladora para os crentes de todos
os séculos.
Que todos os verdadeiros crentes se apossem dessas palavras de
Jesus e as tenham sempre em mente. Cristo está “ conosco” todos os
dias. Cristo está “ conosco” em todo lugar que vamos. Quando nasceu
neste mundo, Ele veio para ser “ Emanuel, Deus conosco” . Agora,
quando chega ao fim de seu ministério terrestre e está prestes a deixar
o mundo, Ele declara que é Emanuel, sempre “ conosco” . Ele está co­
nosco diariamente para perdoar e absolver; conosco diariamente para
santificar e fortalecer; conosco diariamente para defender e guardar;
conosco diariamente para conduzir e guiar; conosco em tristezas e ale­
grias; conosco em saúde ou enfermidade; conosco na vida e na morte;
conosco no tempo e na eternidade.
Que maior consolação os crentes poderiam desejar do que esta?
Não importa o que aconteça, nunca estamos completamente sozinhos
ou sem amigos. Cristo está sempre conosco. Podemos olhar para den­
tro da sepultura e dizer, com Davi: “ Ainda que eu ande pelo vale da
sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo”
(SI 23.4). Podemos olhar para além da sepultura e dizer, com Paulo:
“ Estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.17). Jesus o disse e
o cumprirá: “ Estou convosco todos os dias até à consumação do sé­
culo” . E, igualmente: “ De maneira alguma te deixarei, nunca jamais
te abandonarei” (Hb 13.5). Não poderíamos pedir mais do que isso!
Prossigamos, confiando em Cristo e não tendo receio de coisa alguma.
Ser um crente verdadeiro é tudo. Não há quem tenha semelhante Rei,
um tal Sacerdote, um Companheiro tão constante e um Amigo assim,
infalível, como têm os verdadeiros servos de Jesus Cristo.
As Meditações no Evangelho de Mateus fazem parte de
uma série de quatro comentários devocionais sobre os
evangelhos que tem sido amada e compartilhada por
gerações de cristãos, desde 1879. Estas leituras diárias
contêm meditações de uma simplicidade e espiritualidade
que as tomaram um comentário devocional clássico sobre
os evangelhos.

Nesta nova edição, especialmente preparada para o leitor


modemo, esta grande obra aparece em um formato mais
popular. O testo foi reformulado, seguindo um estilo
mais atual de apresentação, mas as exposições permane­
cem completas, provendo uma visão geral do ministério
de nosso Senhor Jesus Cristo na terra, com riqueza e
maestria.

J.C . Ryle (1816-1900) é conhecido como o primeiro


Bispo de Liverpool, Inglaterra, e famoso por seus es­
critos desafiadores. Entre suas obras em português estão
Santidade, Sem a Qual Ninguém Verá o Senhor e Vivo
ou Morto? publicadas pela Editora Fiel.

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