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Didática da História: passado, presente e perspectivas a partir do caso

alemão
Jörn Rüsen

O título já aponta:

 O objeto do texto (didática da história)


 O período (no passado e atualmente)
 O local (na Alemanha)
 Como (criando perspectivas a partir do caso alemão)

No resumo:
 O texto apresenta a trajetória da DH na Alemanha (1960-1970)
 O texto explicar como a DH muda de patamar (“de uma disciplina pragmática
e externa aos estudos históricos para uma perspectiva reflexiva sobre as
sociedades e o conhecimento histórico)
 O texto, finalmente, descreve a atual DH – seus objetos, questões e
perspectivas futuras.

*
 Senso comum sobre a DH: “É uma disciplina que faz a mediação entre a história como
disciplina acadêmica e o aprendizado histórico e a educação escolar”, logo, não teria
nada a ver “com o trabalho dos historiadores em sua própria disciplina”
 Contudo, esta visão é “enganosa”, pois não leva em consideração as especificidades do
ensinar e aprender História – diálogo com Chervel;
 Por que ele também se debruça sobre a pedagogia?
 A DH deveria investigar: 1) como se pensa a História, 2) suas origens na natureza
humana, 3) quais são seus usos para a vida prática;
 Rüsen defende que as questões acima deveriam fazer a DH ser parte dos estudos
históricos, ou seja, isso deveria ser a base de qualquer pensamento histórico
(profissional);

Por que a DH é externa à História como disciplina científica? Porque a DH antecede o


surgimento da disciplina, observando a história para a vida. Antes mesmo da escola,
havia ensino e aprendizagem – “O conhecido ditado “historia vitae magistra” (história
mestra da vida), que define a tarefa da historiografia ocidental da antiguidade até as
últimas décadas do século dezoito, indica que a escrita da história era orientada pela
moral e pelos problemas práticos da vida, e não pelos problemas teóricos ou empíricos
da cognição metódica.”;
 Havia, ao longo do período citado acima, uma preocupação didática com a história,
mas não didático no sentido de simplificação, mas sim de orientação (moral);
 O que causou o “esquecimento” ou a “minimização da DH”? Rüsen aponta que seria
devido à crescente institucionalização – “Durante o século XIX, quando os historiadores
definiram sua disciplina, eles começaram a perder de vista um importante princípio, a
saber, que a história é enraizada nas necessidades sociais para orientar a vida dentro
da estrutura tempo.”
 A cientificização não deveria, portanto, apartar-se do aspecto social, prático e
orientador da História em relação à vida, em detrimento do empírico. Isso não se trata
de produzir história para a orientação do ponto de vista dogmático, mas analisar a
competência da reflexão histórica racional, do pensamento histórico, que estão
presentes na vida prática;
 Houve, assim, uma substituição: DH pela metodologia da pesquisa histórica;

*
 TESE: Este processo poderia e deve ser revertido;
 Os estudos recentes (na Alemanha) têm posto a DH de volta na Ciência Histórica;
 A DH surge pela necessidade de treinamento de professores para a escola (métodos
de ensino em sala + condições e propósitos básicos de ensinar e aprender História);
 Neste contexto, por tratar de métodos de ensino, a DH estava relacionada à Pedagogia
(“ela é ensinada e aprendida pelo fazer” - Methodik des Geschichtsunterrichts);
 Por outro lado, ter-se-ia uma Didaktik des Geschichtsunterrrichts , ou seja, investigaria
as condições sociais do ensino e da aprendizagem;
 Para Rüsen, a Didatik des Geschichtsunterrrichts deveria preceder a Methodik des
Geschichstunterrichts. Por quê? Para definir como ensinar, deve-se primeiro saber para
quem, por que, sob quais condições se ensina e, principalmente, para quê (objetivo);
 Até os anos 60, na Alemanha, a DH era considerada uma Pedagogical hermneutics,
uma disciplina independente (Erich Weniger);
 “De acordo com essa visão, a educação em história pode ser definida como um
processo histórico que pode ser analisado com as ferramentas teóricas e
metodológicas da hermenêutica historicista”, ou seja, o conhecimento estava lá para
ser interpretado e, a partir dele, até se poderia pensar coisas (novas), ter insights –
“Alcançar o conhecimento empírico do passado poderia levar a um insight sobre o
movimento das forças do presente”;
 A divisão entre História (pensava a si mesma cientificamente, pensava nos padrões de
auto entendimento) e DH (disciplina extra-histórica que pensava a educação histórica e
o mundo experiencial);
 Durante este período, a DH entendia que o conhecimento era produzido por
historiadores (pela ciência) e que seu papel era transmitir este conhecimento. Ela não
produzia resultados, não fazia pesquisa. Ela apenas tornava os resultados de pesquisas
em pressuposições filosóficas gerais;
 Estas pressuposições tinham um objetivo: (também) desempenhar um papel central no
processo de educação;
 Uma ver Margarida me disse que a passagens das filosofias para as teorias da história
tinha a ver com o desejo de distanciamento da filosofia (não ciência) para que a
história se legitimasse como ciência. Assim, a DH optou por fazer o caminho contrário?
 A DH estabelecia a história ensinada, mesmo que fosse uma simplificação ou
reprodução das pesquisas históricas;

 Nos anos 1960-1970, tudo isso mudou;


 O surgimento de uma geração que passou a enxergar a História como uma ciência
social;
 “Alcançar o conhecimento empírico do passado poderia levar a um insight sobre o
movimento das forças do presente” – não havia reflexão política sobre a história
antes? Como era? Por que aqui seria diferente? – Resultado de uma reorientação
cultural na Alemanha nesta época;
 A virada cultural no país influenciou o ensino de História nas escolas – crise de
legitimidade no ensino;
 Preciso entender o tamanho e o papel do historicismo para a comunidade de
historiadores na época para dimensionar o quanto as críticas a este tipo de
conhecimento eram incisivas e por quê existiam;
 Neste contexto, a DH experimentou uma virada para a Teoria do Currículo – “A
questão básica que está sendo colocada é se aquele conhecimento e a forma de
pensamento que ele representa encontram um conjunto de critérios educacionais
preexistente e extradisciplinares”;
 O questionamento que Rüsen afirma que os historiadores sofreram vieram da parte de
quem ao ponto de fazê-los mudar? Do Estado? Da sociedade? Da própria comunidade?
 Com esta mudança, a preocupação exclusivamente metodológica deu espaço ao
respeito à estudos históricos que tomavam como fatores importantes questões como
necessidades, interesses e propósitos;
 O da história na Alemanha Ocidental passou, na verdade, por uma mudança de
paradigma;
 É importante destacar o papel da expansão do sistema universitário para este contexto
(criação de cargos, espaços de pesquisa, incentivo de pesquisa, legitimação de
campos);
 Zwei Zeitschriften: Geschichte und Gesellschaft e Geschichtsdidaktik – as revistas
foram remodulando as concepções teóricas sobre história e ensino;
 Na revista trabalhavam Klaus Bergmann e Rüsen;
 “Em um artigo programático Klaus Bergmann, um dos editores, definiu a didática da
história como se segue: ela é “a disciplina que examina a importância da história –
todas as espécies de história e todos os seus elementos constitutivos – para o sujeito
receptivo e reflexivo”. Ele considerava emancipação e identidade pessoal como as duas
principais ideias dessa reflexão didática”;
 Neste contexto, a DH se estabeleceu como uma disciplina própria, com seus próprios
objetos, questões etc.;
 A DH tinha um papel auxiliar à didática geral, a respeito do que ensinar em História.
Com a negligência dos historiadores, a DH foi empurrada para a Pedagogia;
 Talvez a resistência à DH não fosse em virtude de um receio de hierarquização de
campos? Ou seja, os historiadores não queriam aceitar que uma disciplina específica
fosse um grande guarda chuva para a reflexão sobre a História de maneira geral e,
consequentemente, suas subdivisões;
 Em momentos de crise, se tenta criar validação. Foi isso que os historiadores fizeram
quando do momento da crise da disciplina da escola, quando a História podia ser
substituída por qualquer outra disciplina;
 O movimento acima foi o que trouxe a DH para perto da História e criou a Historik;
 A Historik acompanhou a transformação da história de uma disciplina hermenêutica e
historicista para uma ciência social histórica;
 “Em um artigo programático Klaus Bergmann, um dos editores, definiu a didática da
história como se segue: ela é “a disciplina que examina a importância da história –
todas as espécies de história e todos os seus elementos constitutivos – para o sujeito
receptivo e reflexivo”. 13 Ele considerava emancipação e identidade pessoal como as
duas principais ideias dessa reflexão didática”
 “A didática da história agora analisa todas as formas e funções do raciocínio e
conhecimento histórico na vida cotidiana, prática. Isso inclui o papel da história na
opinião pública e as representações nos meios de comunicação de massa; ela
considera as possibilidades e limites das representações históricas visuais em museus e
explora diversos campos onde os historiadores equipados com essa visão podem
trabalhar”;
 Há necessidade de profissionais treinados e preparados para mediar a relação entre
um conhecimento científico especializado e a sociedade;
II

 DH – Alemanha: 1) Metodologia de instrução; 2) Funções e usos da História na vida


pública; 3) Estabelecimento de metas para a educação histórica na escola e verificação
se estas têm sido atingidas; 4) Análise geral da natureza, função e importância da
consciência histórica.

1) Metodologia de instrução – é fundamental inserir a perspectiva da


consciência histórica nas análises sobre ensino e aprendizagem. É fato que
sabemos pouco sobre como a história é percebida e quais são seus efeitos na
sala de aula.
2) Funções e usos da História na vida pública – aqui, diante da escassez de
trabalhos, é necessário sintetizar questões, métodos e perspectivas com outras
disciplinas que já se ocupam da vida pública. Então, pensar o YT, por exemplo,
requer um diálogo com a comunicação. Além disso, os insights da DH precisam
ser transformados na linguagem do nosso entendimento da comunicação de
massa.
3) Estabelecimento de metas para a educação histórica na escola e
verificação se estas têm sido atingidas – apesar de conteúdos serem um
meio para alcançar um fim, sua seleção precisa estar relacionada à vida, à
orientação prática. Precisam ter potencial suficiente para a orientação.
4) Análise geral da natureza, função e importância da consciência
histórica – A consciência histórica trata da orientação mediante o olhar para o
passado, a partir do presente, que gera expectativas/orientações de futuro. Ela
é responsável pela ressignificação do tempo natural em tempo humano. Assim,
a análise da consciência histórica cobre não apenas os estudos históricos, mas
também o uso e a função da história na vida pública e privada.

Consciência histórica: Crise/Contingência > Quebra de sentido > Experiência histórica


é interpretada > Orientação > Sentido (Narrativa).

 “A disciplina da História não pode mais ser considerada uma atividade divorciada das
necessidades da vida prática” (TESE?), ou, a pesquisa histórica e a história prática
estão e são pensadas a partir da DH;
 Ao analisar a consciência histórica, a DH pode trazer novos insights para o papel do
conhecimento histórico e seu crescimento na vida prática;
 Se a educação histórica é um processo intencional e organizado de formação de
identidade, os historiadores precisam explicar suas pesquisas dentro desse grande
processo cultural de formação de identidade;
 As pesquisas históricas são meios por onde se efetivam os processos da consciência
histórica, ou seja, elas fornecem as condições para que os seres humanos perseverem
diante da mudança – elas se tornarão argumentos (“Adicionalmente eles podem
apresentar os resultados de sua pesquisa como conclusões obtidas através do uso da
razão. Esta razão pode ser aplicada a todas as formas e usos do pensamento histórico
onde argumentos, e não poder e dominação, poderiam resolver problemas.”);
 Com que forma de investigação histórica, com que estrutura teórica e abordagem
metodológica a didática da história poderia ser tratada como uma parte homogênea
dos estudos históricos?
 Como os 4 pontos mais acima se misturam?
 A DH deveria ter a estrutura de uma disciplina própria, cujas singularidades fossem
suficientes para a diferenciar de outras como a psicologia e pedagogia, por exemplo;
 O objeto da DH é o aprendizado histórico (aprender a pensar historicamente –
experiência, interpretação, orientação, motivação), ou seja, como o passado é
experienciado e interpretado de modo a compreender o presente e antecipar o
futuro?;
 O aprendizado histórico é uma das dimensões da consciência histórica;
 “Teoricamente, a didática da história tem de conceituar consciência histórica como
uma estrutura e processo de aprendizado”;
 “Metodologicamente, a didática da história pode usar métodos estabelecidos da
psicologia e sociologia e reestruturá-los de acordo com a peculiaridade da consciência
histórica”;
 No que diz respeito à sala de aula, a DH pode pinçar elementos da pedagogia,
segundo seus critérios em relação à consciência histórica;
 “O que deve ser relembrado aqui é que o ensino de história afeta o aprendizado de
história e o aprendizado de história configura a habilidade de se orientar na vida e de
formar uma identidade histórica coerente e estável”.

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Reunião – 09/04/2020

 A chega do Rüsen ao Brasil tem a ver com um contraponto à ideia de que não se pode
formar pessoas (pós-modernidade);
 As ideias pós-modernas põem a escola como um produto de um status quo;
 Por que a Pós-Modernidade ganhou força?
 Antes de ser uma disciplina, a história é uma prática (ideia central);
 Se a escola se adestra os corpos, os valores e o conhecimento, todos pensariam da
mesma maneira dentro da mesma sala e depois de formados. Com os conhecimentos
escolares, só é possível adestrar pessoas? Não é possível formar?
 A DH é, no texto, uma disciplina (não como componente curricular, mas tem uma
estrutura de campo de conhecimento);
 História pública ou DH?
 Ensino de História atualmente no BR: 1) Ensino de História na concepção da pedagogia
(metodologias de ensino – quais são estratégias?); 2) Didática da História (dialoga-se
com o ensino por meio da TH e do método); 3) Educação Histórica (Bebem de Rüsen,
mas não trabalham exclusivamente com o ensino a partir da TH, mas sim do ensino
como conscientização do aluno. O objetivo da educação histórica é a formação da
consciência histórica);
 Consciência em Marx: consciência da situação em que você vive, à qual classe
pertenço e ser oposto à alienação;
 Para Rüsen, a consciência histórica não é natural, mas sim cultural;
 A maior invenção da humanidade é a diversidade;
 O potencial do ensino e aprendizagem de história em relação à consciência histórica é
alargar as compreensões humanas sobre as coisas (e não alargar a consciência
histórica, ela já está lá, em mim);
 Historicismo – teorias que trabalham com a historicidade. No XIX, era comum as
ciências procurarem teorias gerais. “Nós temos esse fenômeno, mas eles só se
explicam pelos seus momentos históricos”, o que desfaz a ideia das essências (o que
era essencial para compor uma sociedade? Todos que nasceram em tal mês é de tal
signo)
 Hermenêutica – nasce como uma forma de interpretação dos textos religiosos. É uma
forma de tradução de textos que não têm muito sentido em momentos diferentes.
Para interpretar, precisa: recompor contexto, saber quem e para quem escreve etc.
 As Ciências Sociais estudam os fatos sociais (casamento, suicídio etc.). Nós estudamos
tudo no tempo;

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