Você está na página 1de 16

DO PENSAMENTO MITOPOÉTICO À AURORA DA CONSCIÊNCIA

Resumo

Russell, em a História do Pensamento Ocidental, expõe que a tendência, ainda


atual, do estudo acadêmico de buscar cada vez mais especializações sobre temas muito
específicos faz com que o homem moderno esqueça suas dívidas intelectuais para com seus
antepassados1. Neste sentido, também ignoram que problemas filosóficos do presente não
surgiram do nada no tempo. Procurando compensar este movimento, farei uma breve
exposição geral acerca de algumas características principais do desenvolvimento do
pensamento humano, mais especificamente da transição do pensamento antigo ao
pensamento científico pós-socrático. Passando pelos filósofos naturalistas do séc.VI a.c.,
pela época áurea do pensamento grego até a conjuntura que propicia o surgimento e êxito
do evangelho.

Palavras-chave: pensamento mitopoético; natureza; razão

1
Cf. RUSSELL, B. Historia do pensamento ocidental, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p.8.

1
FROM MYTHOPOETIC THOUGHT TO THE AURORA OF CONSCIOUSNESS

Kissel Goldblum

UFRJ/PPGLM, Rio de Janeiro, Brasil


2019

Abstract

Russell, in the History of Western Thought, exposes that the still current tendency of
academic study to seek more and more specializations on very specific subjects, causes
modern man to forget his intellectual debts to his ancestors. In this sense, they also ignore,
that the philosophical problems of the present did not arise from nowhere in time.2 Seeking
to compensate for this movement, I will give a brief general account of some of the main
features of the development of human thought, more specifically the transition from ancient
thought to post-Socratic scientific thought. Passing through the naturalist philosophers of
the 6th century BC, by the golden age of Greek thought, to the conjuncture that propitiates
the emergence and success of the Gospel.

Key-words: mythopoetic thinking; nature; reason

2
Cf. RUSSELL, B. Historia do pensamento ocidental, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p.8.

2
O homem antigo e o pensamento mitopoético

A partir do caos surgiu Gaia, de Gaia surge Urano. Urano casou-se com Gaia e
concebeu Saturno. Saturno casou-se com Réia e gerou Júpiter, que casou com Hera e
tiveram Marte. Marte seduziu Reia e como resultado nasceram os gêmeos Rômulo e
Remo.3 Rômulo é o fundador, historicamente reconhecido, de Roma, em 753 a.C.
É impossível para o homem moderno compreender esta transição da mitologia à
história utilizando uma epistemologia moderna. Antes de pensarmos sobre uma matriz de
ordem lógica e racional, o homem ocidental antigo edificou o seu pensamento em uma base
mitopoética, pensávamos poeticamente em termos de mitos. Se analisarmos a relação dos
homens com o conhecimento na antiguidade pré-socrática podemos observar, como Henri
Frankfort expõe em The intellectual adventure of ancient man4, que a dinâmica era
completamente distinta da atual. O próprio pensamento era descrito de maneira distinta,
nem se quer podemos encontrar a palavra “pensamento” escrita da maneira como
utilizamos hoje5, descrevendo o funcionamento de uma certa faculdade humana.
“O pensamento do homem ocidental antigo era envolvido na imaginação”6. Tudo o
que era imaginado, era tomado como concreto - advindo das imagens concretas da
imaginação -, consequentemente, o homem não possuía uma ideia objetiva sobre si ou
sobre qualquer outra coisa. A ideia não era considerada objeto de análise de alguma
faculdade humana. As ideias dos fenômenos naturais e da natureza eram compreendidos em
termos da experiência humana e a experiência humana era compreendida em termos de
eventos cósmicos. O homem, a sociedade, a natureza ou o sol, eram compreendidos como
parte de um mesmo corpo, constituindo uma mesma ordem cósmica. Sendo assim, não
havia distinção de natureza entre as coisas que ocupavam um lugar no espaço e no tempo,
tudo o que de alguma maneira existia estava vivo. “A diferença fundamental entre as
3
Cf. BRANDÃO, J. A História de Roma Antiga vol. I: das origens à morte de César . Coimbra: Coimbra University
Press. 2017, p.29-30. Neste livro, José Luís Brandão afirma que apesar da “maioria das fontes identificar o pai das
crianças com o deus Marte” existem autores que apontam para outra relação de parentesco dos gêmeos, como o próprio
autor expõe: “outros candidatos à paternidade, como um espectro saído da terra (hipótese que salvaguardava a ideia de
intervenção divina)” entre outras hipóteses, como a suposição de que o próprio “Amúlio, que se disfarçara de Marte para
violentar a sobrinha”.
4
FRANKFORT, H. The intellectual adventure of ancient man. Chicago, US: The University of Chicago Press, 1977.
5
Ibid, p.3. “We shall be forced to admit that there is a very little indeed in our written records which deserves the name of
‘though’ in the strict sense of that term”.
6
Ibidem. “The thought of the ancient Near East appears wrapped in imagination”.

3
atitudes do homem moderno e do antigo em relação ao mundo é esta: para o homem
científico moderno, o mundo fenomenal é primariamente um ‘isso’; para os antigos - e
também para o homem primitivo era um ‘você’”7. Isto implica em uma mudança radical na
relação do homem com a natureza, pois o homem moderno não existe sem a distinção entre
a natureza do observador (do ser humano) e a natureza do ser das coisas observadas.
Consequentemente, a relação do homem moderno com a natureza é uma relação entre um
“eu” e um “isso”. Todavia, de maneira inversa, a relação do homem antigo com a natureza
era sempre uma relação entre “eu” e “você”, ou seja, a relação era singular e específica.
Para entendermos melhor o significado dessa distinção, podemos comparar a relação entre
um sujeito e um objeto com a relação entre dois sujeitos. Como sabemos, a ciência
moderna só é possível porque analisa a natureza como um “isso”, minha relação com a
natureza é uma relação entre “eu e isso”. A relação entre duas pessoas é uma relação que
envolve, inevitavelmente, afecções, quando utilizo a palavra você estou me referindo a uma
coisa viva - uma presença -, e como uma presença, apenas na presença revela aquilo que é.
Quando utilizamos o pronome “isso” para nos referir à natureza, nós a tratamos como um
objeto, que aparece, inevitavelmente, como parte de uma série na existência. Insistimos em
ver a Natureza como um “isso”, como um regra, passível de ser compreendida por uma lei
universal, o que a torna previsível sobre alguns aspectos. Ao contrário, você é sempre
único, só o conhecemos quando ele se revela.
Todas as relações eram relações afetivas, o conhecimento estava sempre atrelado à
uma base emotiva, ao contrário do conhecimento intelectual moderno indiferente à emoção.
A emoção era o fiel da balança entre o homem e a natureza, não existia nenhuma relação
que não resultasse em determinadas afecções. O próprio homem não era distinto da
natureza. “Os povos antigos se sentiam tão bem na natureza de uma maneira que nos parece
impossível agora. O reino da natureza e dos seres humanos eram compreendidos como um
só”8.

7
Ibid, p.13. “The fundamental difference between the attitudes of modern and ancient man as regards the surrounding
world is this: for modern, scientific man the phenomenal world is primarily an ‘it’; for ancient – and also for primitive
man it is a ‘Thou’”.
8
WIENPAHL, P. Por un Spinoza Radical. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica. 1990, p.15. “Los pueblos
antiguos se sentían a gusto en la naturaleza de un modo que a nosotros ahora nos parece imposible. El reino de la
naturaleza y los seres humanos eran tomados como uno solo”.

4
A relação entre dois corpos vivos - entre “eu” e “você” - é compreendida, de uma
determinada maneira, por cada um dos sujeitos, experienciada em uma relação dinâmica
emocional recíproca. “Notamos que o reino da natureza e o reino do homem não eram
distintos”9. Isso não significava um antropomorfismo da natureza, como hodiernamente
entendemos o termo, como quando antropomorfizamos, por exemplo, Deus, os animais etc.
Os homens antigos não conheciam uma divisão entre, digamos, ser humano, ser cachorro,
ser planta, ser trovão ou seja - entre animado e inanimado - tudo era concebido como um
uno, simplesmente porque não conheciam alguma coisa inanimada. Todo homem antigo
confrontava um “você” em todos os aspectos da natureza. Em Casa Grande e Senzala,
Gilberto Freyre diz:

Havia entre os ameríndios desta parte do continente, como


entre os povos primitivos em geral, certa fraternidade entre o
homem e o animal, certo lirismo mesmo nas relações entre os dois.
Karsten encontrou entre os Jibaro o mito de ter havido época em
que os animais falaram e agiram do mesmo modo que os homens.
E ainda hoje – acrescenta – “o índio não faz distinção definida
entre o homem e o animal. Acredita que todos os animais possuem
alma, em essência da mesma qualidade que a do ser humano;
que intelectual e moralmente seu nível seja o mesmo que o do
homem.10

Constantemente, ao analisarmos os mitos da antiguidade, cometemos o erro de


tentar entendê-los conservando uma epistemologia moderna e contemporânea, por
conseguinte, é certo que nestes termos não poderemos concluir nada legitimamente. Os
mitos que explicavam o nascimento do mundo e os eventos da natureza não podem ser
compreendidos se buscarmos satisfazer à rigidez do âmbito da racionalidade (da
perspectiva de um homem moderno que compreende objetivamente a natureza). Não havia
ainda este homem que buscava entender intelectualmente os fatos do espaço fora do seu
tempo. Todos os corpos eram corpos vivos que por vontade própria revelavam-se em

9
Ibid, p.18. “Notamos que el reino de la naturaleza y el reino del hombre no eran distintos”.
10
FREYRE, G. Casa Grande e Senzala. São Paulo: Global Editora. 2015, p.1.

5
determinados momentos. O dia e a noite e as estações do ano, por exemplo, eram
compreendidos em termos de mitos11,

Mito é uma forma de poesia que transcende a poesia na


medida em que proclama uma verdade; uma forma de ação, de
comportamento ritual, que não encontra seu cumprimento no ato,
mas deve proclamar e elaborar uma forma poética de verdade 12.

A poesia é o fundamento do pensamento do homem antigo, pela própria natureza do


ser humano. As crianças têm a tendência de imitar a realidade, as vemos constantemente
entretendo-se apenas imitando tudo o que são capazes de aprender. “Os homens
primeiramente sentem sem se aperceberem, a seguir apercebem-se com o espírito
perturbado e comovido, e, finalmente, refletem com mente pura”13. As poesias são
formadas de sentidos, paixões e afetos, diferentemente de uma análise filosófica moderna
indiferente ao objeto de análise dos filósofos.

Para os moradores da antiga Babilônia foi Osíris que deu a eles a ciência da
agricultura, assim sendo, não havia sentido perguntar se o mais importante eram as
capacidades e habilidades do agricultor, ou o nível de perfeição na execução dos rituais
sagrados em homenagem à Osíris o que traria mais resultados à colheita. O homem antigo
não se perguntava sobre “como” tal acontecimento natural ocorreu, mas sempre por um
“quem”. Caso alguma parte da natureza não “funcionasse” como queriam, por exemplo,
quando o Nilo não subia inundando as terras, para deixá-las férteis para o sucesso da
plantação seguinte, pensavam que o rio estava “chateado” com os homens. De maneira
distinta, nos dias de hoje, analisamos o fenômeno por meio daquilo que o enquadra dentro
de algum conjunto de leis gerais, no passado, todavia, analisamos por meio daquilo que
fazia o fenômeno peculiar e específico na relação com os homens. As leis gerais não podem
dar conta daquilo que era percebido nas relações arcaicas. Os fenômenos não eram

11
Por exemplo o mito egípcio sobre Set (forças da escuridão) que toda as noites vencia a batalha contra Sat (forças da
luz), que por sua vez, vencia a batalha pela manhã...
12
FRANKFORT, 1977, p.8. “myth is a form of poetry which transcends poetry in that it proclaims a truth; a form of
action, of ritual behavior, which does not find its fulfilment in the act but must proclaim and elaborate a poetic form of
truth.”
13
VICO, G. Princípios de uma Ciência Nova. São Paulo: Abril Editora. 1979, p.46.

6
analisados intelectualmente, eram percebidos por indivíduos na sua individualidade. A
morte de alguém fora desejada por aquilo que o matou, novamente, não perguntavam
“como” mas “quem”. Os primeiros relatos de textos médicos explicam a febre como um
ente quente que entrou propositadamente no corpo do paciente.

A própria relação do pensamento com o espaço nas civilizações antigas, não seguia
nossa lógica moderna de um acúmulo de espaços vazios iguais passando nessa ordem
(passado, presente e futuro). A noção de Primeval hill14 é um exemplo que nos mostra uma
relação distinta com o tempo e espaço. Descrito como o local onde alguns, como os antigos
egípcios, acreditavam que as forças originárias que deram origem ao mundo fizeram surgir
os primeiros sinais de vida, o centro espacial de onde todo universo se desenvolveu. Estes
lugares poderiam ser procurados por vários motivos, seja por pessoas com saúde frágil ou
por aqueles em busca de iluminação frente a algum evento vindouro. As interpretações
mitopoéticas que descreviam a natureza não eram abstratas, mas qualitativas e concretas. O
pensamento não conhecia o tempo como uma medida de duração uniforme ou a sucessão
indiferente de momentos na duração. O homem antigo não compreendia o tempo
independentemente da experiência do tempo.
As transições naturais dos estados da natureza, como as épocas de cheia, as estações
do ano e a transição dos astros, eram entendidas em termos antropomorfizados, ou seja, não
eram compreendidos como um processo orgânico, pois como vimos, por trás de toda causa
existia sempre uma vontade. Nesta conjuntura, o homem dependia sempre da vontade da
natureza: das chuvas para plantar ou dos peixes do rio para se alimentar. Durante todos os
dias do ano, o sol vencia a escuridão e fazia raiar o dia, todo dia repetia o dia da criação.
Wensinck cunhou o termo “o dramático conceito de natureza”15 para descrever essa relação
“quase dramática” entre o homem e a natureza. Na natureza tudo se resumia a um conflito
entre divino e demoníaco, cósmico e caótico. Os povos da mesopotâmia, como no caso da
Babilônia, os homens acompanhavam esse processo de transição dos eventos cíclicos da
14
Cf. FRANKFORT, H. Kingship and the Gods. Chicago, US.: The University of Chicago Press. 1978, p.151. “In the
texts the concept of creation, sunrise, and kingly rule are continually merged; the verb X (which marks the appearance of
Pharaoh on the throne) denotes sunrise and is written with the hieroglyph x that depicts the sun rising over the Primeval
Hill”.
15
CARRASCO, D. Quetzalcoatl and the Irony of Empire. Chicago, US: The University of Chicago Press. 1982, p.94.
“When reading these first mythical accounts, one recalls phrases like A.J.L. Wensinck’s ‘dramatic conception of nature’
and Henri Frankfort comments on the ‘deep uncertainty’ and ‘anxiety’ in Mesoamerica fills out with each new sequence,
but a dynamic, unstable, destructive pattern has already appeared in these scenarios of insecurity.”

7
natureza através de rituais milenares.16 Os rituais não eram meramente simbólicos, eles
eram um elo na corrente dos eventos cósmicos, representando a parcela humana nos
eventos da natureza. As sociedades antigas mantiveram uma relação harmônica com os
eventos da natureza. No Egito, os faraós eram coroados sempre no início do verão ou no
outono acompanhando a inundação do Nilo. A vida do homem antigo dependia de sua
relação harmônica com a natureza.
Outra noção fundamental no processo de desenvolvimento do pensamento do
homem antigo era a especulação. “Como a etimologia da palavra mostra - é um modo de
apreensão intuitivo, quase visionário.”17 A especulação transcende a experiência no sentido
em que busca uma causa que ordene o aparente caos da existência, movendo-se para além
do âmbito das coisas físicas. Em nosso mundo contemporâneo damos quase nenhuma
atenção a especulação, porque nossa análise sobre a realidade não pode ultrapassar a
estrutura moderna restrita à experiência empírica pragmática. A especulação oferecia
infinitas possibilidades de desenvolvimento, não estava limitada à doutrina científica
moderna que busca as ideias verdadeiras. O pensamento não se distinguia do objeto real
que representava. Os homens da antiguidade não mantinham questões estritamente
intelectuais, não fundamentaram o pensamento em uma área estritamente metafísica sem
relação com o campo físico. Destarte, não havia questões filosóficas técnicas relacionadas
com uma área específica do pensamento aleatórias à vida concreta, pelo contrário, as
questões estavam diretamente relacionadas com os resultados das emoções, corolárias dos
modos como entendiam os eventos experienciados. Mesmo a especulação não se tratava de
abstração, ela estava sempre conectada com os corpos no espaço. Os pensamentos, ou seja,
esse ou aquele pensamento, não tinha relação com a consciência da duração do espaço,
eram todos atuais, eles nunca se desatualizavam, toda a história do universo estava
implicada num mesmo dia. O próprio entendimento da natureza do pensamento como

16
CARAMELO. F. “O ritual de ãkitu - o significado político e ideológico do ano novo na Mesopotâmia”. Revista da
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Lisboa, Edições Colibri, n° 17, 2005, pp. 156-160. “O festival de ãkitu, que
corresponde a zagmuk, «princípio do ano» em sumério, consiste num ritual de Ano Novo, tendo lugar no mês de nisannu.
Março - Abril. A etimologia exacta de ãkitu não é conhecida. As mais antigas referências literárias reportam-se a meados
do III milênio a.C. Podia ter lugar na Primavera e no Outono, correspondentes aos equinócios. Eram dois momentos
importantes no calendário agrícola: nisannu correspondia à última irrigação e as colheitas começavam; o mês de tashritu,
que correspondia a Setembro - Outubro, era o tempo em que se aravam os campos e em que se semeava.”
17
FRANKFORT, 1977, p.3. “As the etymology of the word shows – is an intuitive, an almost visionary, mode of
apprehension”.

8
sendo inerente à imaginação e desligado de uma consciência temporal moderna
proporciona esta característica especulativa do pensamento.

Uma das características básicas do pensamento moderno é a distinção entre


subjetivo e objetivo, este atributo causa uma divisão entre “a percepção do fenômeno” e “as
maneiras pelas quais podemos compreender este fenômeno”, por exemplo, quando
analisamos a lei da gravidade, imaginamos o tempo-espaço que se curva ou quando vemos
cores pensamos em termos de largura da onda. No passado, não podíamos distinguir como
distinguimos hoje o pensamento objetivo que exprime um objeto real, das maneiras com
que subjetivamente cada homem representa esse objeto no pensamento. Na antiguidade, os
homens não distinguiam entre um pensamento abstrato e um pensamento objetivo que
representava um objeto que ocupava um lugar no espaço; dessa maneira, entendemos o
porquê não possuíam também a consciência de si - do eu - pois se não faziam esta distinção
(entre pensamento abstrato e objetivo), não conservavam a ideia de um eu no tempo
arbitrariamente ao corpo que ocupava um lugar no espaço. O que determinava as relações
eram as consequências dos afetos que se desenlaçam de determinadas relações de corpos.
Hodiernamente, o que explica as relações é a compreensão intelectual dos fatos
independentemente dos afetos. Antigamente, o que determinava estes movimentos era
basicamente os afetos, pois como ambos expressavam-se na presença (dado que ambos
eram considerados corpos animados), as relações eram basicamente relações subjetivas. O
homem antigo explicava os eventos naturais e acontecimentos pessoais, não por meio de
uma análise lógica e objetiva, mas por meio de mitos e alegorias.
O mito não era simplesmente uma abstração aleatória, tampouco o enredo que
apresentava no decorrer da história era resultado de uma imaginação criativa. Eles
revelavam a relação de autoridade entre as coisas que foram compartilhadas por meio de
um código linguístico constituído ao longo do tempo.. E como vimos, a imaginação não era
considerada fantasia já que não se podia realizar esta distinção entre imaginar, especular ou
qualquer outra função do pensamento. A relação com a imagem no tempo é o que constitui
a própria imagem, imagem que se revelava objetivamente nos resultados dos afetos que ela
gerava – o mito é a verdade dos corpos no pensamento. Os homens antigos não conheciam
algum “eu” que existisse e que pudesse se conservar no tempo, indiferentemente aos

9
resultados dos movimentos dos corpos no espaço. Estavam sempre, de certa maneira,
expostos às contingências da ordem e do funcionamento das leis cósmicas, portanto
deveriam sempre segui-las.

Antes do séc. VI a.C, o ser humano relacionava-se com a natureza por meio de um
certo desconhecimento geral, não tinham a aspiração de poder controlar e entender as
forças da natureza, assim como as forças da vida de uma forma geral 18. Como as relações
entre corpos aparecia sempre como um conflito19, o que era experienciado no fundo de toda
relação era o conflito entre autoridades que expressavam seus poderes, causados por
determinadas coisas. O raio que queimou a casa, queimou porque quis. Em uma passagem
do Novo Testamento temos um exemplo desta perspectiva: “O vento sopra onde quer. Você
o escuta, mas não pode dizer de onde vem para onde vai. Assim acontece com todos os
nascidos do Espírito.”20

Os primeiros pensadores naturalistas e o princípio da consciência

Entre, mais ou menos, 600 a.C e 400 a.C, apareceram as primeiras explicações
naturalistas nas sociedades antigas ocidentais que explicavam o nascimento e o
desenvolvimento da natureza por meio um princípio originário, físico ou metafísico, por
trás do aparente caos da existência. Desta maneira, procurando se afastar de uma explicação
mitopoética. Parmênides e Heráclito personificam as extremidades opostas das linhas de
pensamento deste período e que influenciaram toda a história do pensamento ocidental.
Parmênides acreditava em partículas que fundamentam toda existência, ao passo que de
Heráclito vem a noção de um movimento ininterrupto - πάντα ῥεῖ - um universo
constantemente em movimento, tudo muda e está em contínua mutação.

Neste período, ocorreu o início da transição do pensamento estruturado, até então


em bases mitopoéticas, para a construção de um pensamento novo, edificado agora por
meio de novos métodos de investigação capazes de conhecer os fundamentos do mundo.
18
Cf. MOSÉ, V. Nietzsche e a Grande Política da Linguagem. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. 2017.
19
Conflito do latim conflictus: choque, embate, combate, luta. Em termos psicológicos: impulsos ou tendências
antagônicas e mutuamente excludentes e o estado daí decorrente.
20
João 3:8 p.10.

10
Heráclito havia percebido que não seriam as práticas ritualísticas que nos levariam a
conhecer o mundo, mas sim a investigação do princípio subjacente de toda natureza
presente. Tales considerou ser a água a “substância primordial” de toda natureza,
Anaxímenes e Empédocles apontavam o ar como este elemento.

Os casos de perseguições sistemáticas contra pensadores e suas acadêmias começam


neste período, quando pensadores propõe ensinar este novo método de investigação. A
academia de Pitágoras foi queimada e Pitágoras expulso de sua cidade natal, Anaxágoras
foi julgado e condenado por ateísmo. Russell nos diz que muitos anos depois quando
Sócrates fora acusado de ateísmo, teria dito que na verdade suas ideias eram as ideias de
Anaxágoras e que qualquer pessoa poderia lê-las em seus livros.

Pitágoras exerce um papel particularmente fundamental nesse processo de transição


do pensamento exclusivamente baseado, por exemplo, na velha religião do Olimpo à uma
análise naturalista da mundo. “Quando um matemático demonstra uma proposição à
respeito do triangulo, não fala de uma figura desenhada em algum lugar, mas sim de algo
que ele vê com os olhos da mente. Assim surge a distinção entre inteligível e sensível”21.
Paul Wienpahl22 enxerga neste período o momento na história onde vemos o surgimento de
um pensamento particular que reivindica uma certa objetividade em detrimento do
pensamento subjetivo. E, como consequência, de certa maneira, desta fragmentação do
pensamento (em objetivo e subjetivo), Wienpahl aponta a introdução da ideia do eu na
história. A partir da distinção, que até então não era realizada, inicia-se a estruturação de
uma consciência de si, a ideia de ser humano passa a ser reverenciada, representada pelo
coro na Antígona de Sófocles: “Existem muitas criaturas poderosas, porém nenhuma mais
poderosa que o homem”23. Sentimento que o Renascimento resgatará muitos séculos
depois.

Paralelamente ao desenvolvimento das escolas filosóficas naturalistas no séc.Va.C.


apareceram grupos de pensadores que não se sentiam contemplados por este movimento

21
RUSSELL, 2016, p.32.
22
Cf. P. WIENPAHL, Spinoza Radical. 1979.
23
Cf. RUSSELL, 2016, p.52.

11
filosófico: os sofistas. Protágoras é o exemplo comumente utilizado para descrever esta
escola de pensamento: “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são,
enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”24. Ou seja, ela se afastava da
tendência que pretendia encontrar o melhor meio de compreender os conteúdos do mundo,
e direciona seus estudos na otimização da forma do diálogo independentemente do
conteúdo; dessa maneira, aperfeiçoa-se a oratória e surge a retórica. Dessa forma, o que um
homem acreditava ser verdade era verdade para ele, ou seja, as contradições existentes
entre homens que possuíam ideias distintas nunca poderiam ser resolvidas com base na
verdade.

A época clássica dos gregos e apogeu da razão

A Liga de Delos e o Império ateniense atingiram no Século de Péricles25 a era de


ouro do pensamento grego. No parágrafo 230a do livro Fedro, de Platão, Sócrates diz a
Fedro que antes de se dedicar a conhecer qualquer coisa, primeiro precisa saber quem ele
mesmo é, e que, por isso, cuidava de se examinar.26 Neste sentido, Sócrates rompeu com o
pensamento sofista e inaugurou uma longa tradição filosófica imensamente presente nos
dias de hoje. No período áureo do pensamento grego, “Sócrates e Platão se tornaram
conscientes do próprio pensamento”27. Sócrates moveu o próprio eixo investigativo do
pensamento ao se questionar sobre a própria natureza deste homem que tratava de
investigar o elemento que fundamentava toda natureza.

Se analisarmos a História da Filosofia, veremos que Sócrates desloca a consciência


do pensamento para o centro do saber28. A academia de seu discípulo Platão durou por mais
de novecentos anos, foi a instituição acadêmica que mais tempo permaneceu funcionando
24
Ibidem.
25
Cf. PLUTARCO, L. Vidas Paralelas: Péricles e Fábio Máximo. Coimbra: Coimbra University Press. 2013, p.7. “A
influência do político ateniense foi tal que deu nome ao período em que viveu, também designado de século de Péricles”
26
Na direção dos ensinamentos socráticos, Ouspensky recorda que certa vez Gurdjieff teria dito: - “Que é que você mais
quer? Compreender isso já é, em si, de capital importância. Os que sabem isso já sabem muito. Todo o mal está no fato de
que ninguém o sabe. Se perguntar a alguém se pode lembrar-se de si mesmo, ele responderá naturalmente que pode. Se
lhe disser que ele não pode se lembrar de si mesmo se zangará ou pensará que você está maluco. Toda a vida, toda a
existência humana, toda a cegueira humana baseiam-se nisso. Se um homem sabe realmente que não pode lembrar-se de si
mesmo, já está próximo de uma compreensão de seu ser”. Cf.: OUSPENSKY, P. D. Fragmentos de Um Ensinamento
Desconhecido: Em Busca do Milagroso. Editora Pensamento: 2010, p. 142.
27
WIENPAHL, 1979, p.16. “Sócrates y Platón tomaron consciencia del pensamiento en si mismo”.
28
Sobre o tema cf. DUHOT, J. Sócrates ou o Despertar da Consciência. São Paulo: Edições Loyola. 2004.

12
na história, até ser fechado por Justiniano em 529. Aristóteles e seu mestre Platão são os
filósofos que exercem, até hoje, mais influência na História do Pensamento Ocidental. O
exame iniciado por Sócrates para descobrir a natureza do pensador influenciou a teoria das
ideias de Platão (que alguns atribuem mais à Sócrates do que ao próprio)29, assim como a
definição de ser humano que Aristóteles expõe na Ética a Nicómaco: um animal racional.
Este posicionamento marca o estabelecimento da razão como a ferramenta epistemológica
capaz de conduzir o homem à caminho da compreensão das verdades do mundo. Aristóteles
compreende o pensamento científico como aquele capaz de compreender racionalmente as
forças que se exercem na natureza: “scientia debet esse de universalibus et aeternis (a
ciência deve ocupar-se das coisas universais e eternas)”30.
O estagirita estabelece um modo bem definido de entender a realidade a partir da
ideia de um indivíduo cuja causa é resultado apenas de si (como uma substância), “em uma
concepção de realidade segundo a qual o que existe é a substância individual”31. Rompendo
assim com a filosofia de seu antigo mentor Platão32, desenvolvendo uma ontologia própria
estruturada na substância individual, “que podemos considerar aqui como o indivíduo
material concreto (synolon)”33. Da perspectiva aristotélica, a realidade seria descrita pelo
próprio conjunto dos indivíduos materiais concretos. Aristóteles delimita assim uma nova
relação com o próprio conhecimento, que passa a ser tratado como objeto de análise das
faculdades humanas deste indivíduo materialmente concreto. De uma certa perspectiva, seu
corpus aristotelicum pretende operar como um conjunto de preceitos para que, conscientes
de si - através da razão - todo homem pode conhecer as verdades da Natureza.

Sua morte em 322 a.C. e de seu aprendiz Alexandre O Grande em 323 a.C. marcam
o fim da sociedade grega, assim como o fim da civilização fundada na lógica da razão e no
Estado-cidade.

29
Cf. RUSSELL, 2016, p.52.
30
VICO, 1979, p.38.
31
MARCONDES, D. Iniciação à história da filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2002, p.71.
32
Aristóteles delimita sua crítica a respeito da filosofia de Platão, propriamente em relação a sua teoria das ideias. Em
linhas gerais, a oposição resume-se na divergência em relação à divisão que o platonismo, de certa maneira, estabeleceria
entre mundo inteligível e mundo sensível e o consequente paradigma da exterioridade e internalidade . Este, um problema
que Aristóteles investiga e como corolário expõe uma nova concepção do real, capaz de exceder o dualismo platônico.
33
Ibid, p.73.

13
O Império Romano e o ceticismo grego

O povo de Roma conclui o projeto que Alexandre empreendeu, mas que após sua
morte desfez-se por completo: a constituição de um Império. As sucessivas ações para
desenvolver, sustentar e aperfeiçoar este projeto é o que definem os anos de 300a.C ao
início da era moderna. Dada a realidade opressora do projeto político vigente, a filosofia
passou por um período marcado pelo recrudescimento do ceticismo em geral. O livro de
Victor Brochard Os céticos gregos34 mostra uma série de filósofos gregos, entre eles Pirro,
Tímon, Carnéades e Clitômaco que não por coincidência viveram exatamente neste período
de mais ou menos trezentos anos. Wienpahl explica que diante a natureza ditatorial do
regime político à época, pareceu impossível que a verdade pudesse ser encontrada nas
coisas físicas, nas relações dos homens com a natureza. Consequentemente, os filósofos
buscaram no interior do ser humano a natureza verdadeira do mundo.
O corpo cível do novo projeto de Estado não tinha Estado, a nação do Império
perdia sua cidadania fundada na polis do Estado-cidade. A escravidão que era a base da
economia da vida antiga, adquire uma nova categoria no Império: a servidão da pessoa sem
Estado. Este ambiente econômico baseado em angústia e desesperança dominou o
desenvolvimento do pensamento grego. As instituições familiares e sociais da antiga polis,
os valores da antiga casa (oikos) se desvalorizam e como corolário a própria economia
modificou-se. Este quadro de desilusões gerais com o mundo externo, atirou o homem à
vida interior. O mundo externo que racionalmente concebíamos não oferecia mais
segurança. Do contato da civilização grega, romana e judaica surgiu uma nova doutrina: o
evangelho. Devido a aceitação geral de que parecia impossível encontrar o mais alto de
todos os reinos no mundo físico, o evangelho apresentou-se como uma verdadeira salvação.
Passamos a acreditar na existência de um mundo vindouro. Dos projetos fracassados do
presente, surgia a esperança de um novo mundo futuro. O evangelho oferece total liberdade
de direitos na vida vindoura do Reino. “O distanciamento causado pelo ceticismo grego,
converteu-se em um distanciamento do próprio mundo”35.

34
BROCHARD, B. Os céticos gregos. São Paulo: Editora Odysseus. 2017.
35
WIENPAHL, 1979, p.20. “El giro hacia el apartamiento de este mundo que era el escepticismo griego, se convirtió en
un giro hacia ese mundo”.

14
Bibliografia

DELEUZE, Gilles. O que é a Filosofia?. Tradução: Ana Lúcia, 2ª ed. São Paulo
Editora 34, 2011.
DESCARTES, René. Carta-Prefácio dos Princípios da Filosofia. Tradução:
Homero Santiago. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
FRANKFORT, Henri. The intellectual adventure of ancient man. Chicago: The
University of Chicago Press, 1977.
____________, Henri. "Ritual and Politics in Ancient Mesopotamia”. Journal of the
American Oriental Society, Gary Beckman, October 2006.
GERD, Bornheim. Filósofos Pré-socrático. 3ª Edição. São Paulo: Editora Cultrix,
2005.
GIAMBATTISTA, Vico. Princípios de uma Ciência Nova Acerca da natureza
comum das nações. Coleção Os Pensadores. Tradução: Antônio Lázaro de Almeida Prado.
São Paulo: Editora Abril, 1979.
GUIDO, Humberto Guido; SEVILHA, José M.; SILVA NETO, Sertório de
Amorim e.(Org.). Embates da razão: mito e filosofia na obra de Giambattista Vico.
Uberlândia: Edufu, 2012.
IMAGUIRE, Guido. Metafísica Contemporânea. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,
2007.
KOYRÉ, Alexandre. Considerações sobre Descartes. Tradução: Hélder Godinho.
Lisboa: Editora Presença, 1992.
_______, Alexandre. Etudes d’histoire de la pensée philosophique. Paris: PARIS-V,
1961.
_______, Alexandre. Estudos de História do Pensamento Filosófico. Tradução:
Hélder Godinho. Lisboa: Editora Forense Universitária, 1991.
LOUX, Michael. Metaphysics: a contemporary introduction, third edition. USA and
Canada: Routledge Press, 2006.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a
Wittgenstein. 7ª Edição. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editora, 2002.

15
____________, Danilo. Textos Básicos da Filosofia. 7ª Edição. Rio de Janeiro, RJ:
Jorge Zahar Editora, 2003.
RUSSELL, Bertrand. Historia do pensamento ocidental. Tradução: Laura Alves.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-socráticos. Primeiros Mestres da Filosofia e da
Ciência Grega. 2ª edição. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.

16

Você também pode gostar