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A SOCIOLOGIA MARXISTA

Texto extraído no dia 20 de Fevereiro de 2011 do site:


http://www.airtonjo.com/socio_antropologico05.htm

Um resumo da sociologia de Marx pode ser encontrado no célebre "Prefácio" da


Contribuição à Crítica da Economia Política, escrito em janeiro de 1859:

"O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos,
pode formular-se, resumidamente, assim: na produção social da própria existência, os homens
entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações
de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças
produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica
da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida
material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos
homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina a sua
consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da
sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é
mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se
haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas
relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social. A
transformação que se produziu na base econômica transtorna mais ou menos lenta ou
rapidamente toda a colossal superestrutura. Quando se consideram tais transformações,
convém distinguir sempre a transformação material das condições econômicas de produção -
que podem ser verificadas fielmente com a ajuda das ciências físicas e naturais - e as formas
jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas sob
as quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até ao fim. Do mesmo
modo que não se julga o indivíduo pela idéia que faz de si mesmo, tampouco se pode julgar
uma tal época de transformação pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao
contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que
existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais
desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as
relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições
materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha
sociedade. Eis porque a humanidade não se propõe nunca senão os problemas que ela pode
resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se
apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir.
Em grandes traços, podem ser designados, como outras tantas épocas progressivas da
formação econômica da sociedade, os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês
moderno. As relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de
produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo individual, mas de um
antagonismo que nasce das condições de existência sociais dos indivíduos; as forças
produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as
condições materiais para resolver este antagonismo. Com esta formação social termina, pois, a
pré-história da sociedade humana"1[45].

Comentando o "Prefácio" de Marx, na Introdução da coletânea citada, diz Florestan


Fernandes que "o que emerge é uma refinada teoria sociológica da revolução social, esbatida
sobre o pano de fundo das correntes históricas que atravessam as estruturas da sociedade".
Este texto "exibe a consciência revolucionária da história sob a forma acabada de teoria
científica, desvendando como se produz historicamente a revolução social e o quanto ela não
passa de um processo natural nas sociedades de forma antagônica"2[46].

Raymond Aron, por sua vez, diz que "encontramos nesta passagem [transcrita acima] todas as
idéias essenciais da interpretação econômica da história, com a única reserva de que nem a
noção de classes nem o conceito de luta de classes aparecem aí explicitamente. No entanto é
fácil reintroduzí-los nessa concepção geral"3[47]. Vamos percorrer, com R. Aron, as sete
"idéias essenciais" do pensamento de Marx sobre a sociedade, idéias que formam o arcabouço
do chamado materialismo histórico.

1. A primeira idéia é a de que "na produção social da própria existência, os homens


entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações
de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças
produtivas materiais". Ou seja, para compreender as sociedades é necessário analisar suas
estruturas, as forças de produção e as relações de produção que nelas se encontram. A
compreensão do processo histórico está condicionada à compreensão destas relações sociais
que ultrapassam os indivíduos, pois as relações sociais se lhes impõem, com freqüência, sem
levar em conta suas preferências. Se adotarmos o modo de pensar dos homens de determinada
sociedade como o único ponto de partida para entendê-la, não teremos uma compreensão
suficiente de todas as suas determinações.

2. A segunda idéia diz que "a totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura
econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e
política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de
produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual.". O
que significa que em toda sociedade podemos distinguir a base econômica ou infra-estrutura,
constituída pelas forças e pelas relações de produção e a superestrutura que é constituída

1[45]. MARX, K., Contribuição à Crítica da Economia Política, em FERNANDES, F. (org.), K. MARX &
F. ENGELS: História, São Paulo, Ática, 1983, pp. 233-234.

2[46]. FERNANDES, F. (org.), o. c., p. 46.

3[47]. ARON, R., As etapas do pensamento sociológico, p. 140. Cf. para o que se segue Idem,
ibidem, pp. 140-204. Cf. também BOTTOMORE, T. (ed.), Dicionário do Pensamento Marxista, Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1988, verbetes forças produtivas e relações de produção, base e
superestrutura, classe, luta de classes. Sobre Marx e o marxismo podem ser lidos com proveito
também: HOBSBAWM, E. J. et al., História do Marxismo, 12 vols., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979-
1989; MCLELLAN, D., Karl Marx. Vida e Pensamento, Petrópolis, Vozes, 1990; IANNI, O. (org.), Karl
Marx: Sociologia, São Paulo, Ática, 19844; KARL MARX, São Paulo, Abril Cultural, 19782, Coleção "Os
Pensadores"; WRIGHT, E. O. et al., Reconstruindo o Marxismo. Ensaios sobre a Explicação e Teoria
da História, Petrópolis, Vozes, 1993. A leitura da principal obra de Marx, O Capital. Crítica da
Economia Política, vols. I-III, pode ser feita na edição da Abril Cultural, São Paulo, 1983-1985,
Coleção "Os Economistas".
pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pelos modos de pensar ou pela consciência
social, se quisermos.

3. "Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser
social que determina a sua consciência", do que decorre que para explicar a maneira de
pensar dos homens é preciso analisar as relações sociais às quais eles estão integrados.

4. "Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade


entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua
expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam
desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações
convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social". Aqui é preciso
definir o que Marx entendia por forças produtivas e por relações de produção. O conceito de
forças produtivas abrange os meios de produção, como o desenvolvimento tecnológico, as
fontes de energia disponíveis, a organização do trabalho coletivo, entre outros, enquanto que
as relações de produção são constituídas pela propriedade econômica das forças produtivas,
como a burguesia que detém, no capitalismo, o controle dos meios de produção dos bens de
uma determinada sociedade. R. Aron explica assim: "Em outras palavras, a dialética da
história é constituída pelo movimento das forças produtivas, que entram em contradição, em
certas épocas revolucionárias, com as relações de produção, isto é, tanto as relações de
propriedade como a distribuição de renda entre os indivíduos ou grupos da coletividade"4[48].

5. Embora este texto do "Prefácio" não faça alusão à luta de classes, nesta contradição
entre forças e relações de produção é fácil introduzir o conceito: na contradição existente
entre forças e relações de produção, uma classe está associada às antigas relações de produção
que constituem um obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas, enquanto que outra
classe representa as novas relações de produção que favorecem o desenvolvimento dessas
forças. Segundo o Manifesto do Partido Comunista, "A história de todas as sociedades
existentes até hoje é a história das lutas de classe. Homem livre e escravo, patrício e plebeu,
barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos,
em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada;
uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade
inteira, ou pela destruição das duas classes em luta"5[49].

6. "Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças
produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais
seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido
incubadas no próprio seio da velha sociedade. Eis porque a humanidade não se propõe
nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á
sempre que o próprio problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-
lo existem ou estão em vias de existir". As revoluções não acontecem por acaso, são expressão
de uma necessidade histórica.

7. "Em grandes traços, podem ser designados, como outras tantas épocas progressivas da
formação econômica da sociedade, os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês
moderno". Marx distingue as etapas da histórica humana a partir de sua estrutura econômica,

4[48]. ARON, R., o. c., p. 141.

5[49]. MARX, K. & ENGELS, F., Manifesto do Partido Comunista, em FERNANDES, F. (org.), o. c., pp.
365-366.
falando destes quatro modos de produção. Cada um deles se caracteriza por determinado tipo
de relações entre os homens na produção da riqueza. O modo de produção antigo caracteriza-
se pela escravidão; o modo de produção feudal, pela servidão; o modo de produção burguês,
pelo trabalho assalariado e, mais problemático na sua definição, o modo de produção asiático
ou tributário, pela submissão dos trabalhadores ao tributo estatal e ao trabalho forçado6[50].

Este resumo dá apenas uma rápida idéia da complexidade, do alcance e das inúmeras
polêmicas que o pensamento de Marx gera, necessariamente, tanto entre os estudiosos como
entre os homens engajados em qualquer ação social.

6[50]. Sobre o modo de produção "asiático" ou tributário, cf. CARDOSO, C. F. S. (org.), Modo de
produção asiático. Nova visita a um velho conceito, Rio de Janeiro, Campus, 1990. GEBRAN, Ph.
(org.), Conceito de modo de produção, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.