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Revista Literária

Conceição Evaristo
A escrevivência como fundamento

Entrevistas, resenhas, artigos, inéditos e lançamentos.


Ano 2, Número 3, dezembro 2020 | www.revistamahin.com.br
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Mahin é uma publicação da Editora Malê
Online: www.revistamahin.com
Expediente Matérias e sugestões de pauta:
Editor – Vagner Amaro
Comissão editorial: Simone Ricco (Mes- revista@editoramale.com.br
tre em Literatura Africana), Wesley Correia Para anunciar:
(Doutor em Estudos Étnicos e Africanos), vendas@editoramale.com.br
Henrique Marques Samyn (Doutor em Litera- ISSN: 2596-3538
tura), Patrícia Costa (Mestre em Biblioteco-
nomia). A Editora Malê não se responsabiliza pelas
Capa – Lissandra Pereira ideias e conceitos expressos nos artigos assina-
Colaboradores desta edição: Marlon dos, que trazem somente o pensamento dos
Souza, Wesley Correa, Henrique Marques autores e não representam necessariamente a
Samyn, Patrícia Corta, Simone Ricco, Ange- opinião da revista.
la Peres, Carmen Faustino, Dandara Subur-
bana, Jenyffer Nascimento, Waleska Bar-
bosa, Gênesis, Miriam Alves, Patrícia Borges,
Tati Villela, Bruno Santana, Cizinho Afreeka,
Daniel Brazil e Éle Semog.

EDITORIAL
O destaque da edição de dezembro da realizada pela pesquisadora Patrícia Costa com
Mahin – Revista Literária é o ensaio do pesquisa- Dani Bernardino, coordenadora da Flup – festa
dor Henrique Marques Samyn sobre a escrevivên- literária das periferias. Nos últimos dois anos, Dani
cia de Conceição Evaristo. Cada publicação vem representando este que é um dos principais
da Mahin é uma vitória contra o apagamento, o eventos literários do Rio de Janeiro.
epistemicídio e o racismo estrutural, e entende- Organizada pela escritora Simone Ricco,
mos que a resiliência da escritora mineira com- a seção “Inéditos” é uma seleção apurada de
templa plenamente o espírito da revista. Con- quinze vozes líricas da poesia negra brasileira
ceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte em contemporânea, expressando percepções so-
1946, migrou para o Rio de Janeiro no final da bre a pandemia. Os poemas foram ilustrados
década de 1970, lecionou em escolas públicas, por um ensaio fotográfico de Niltim Lopes. Nes-
cursou graduação, mestrado e doutorado em ta edição você ainda encontra um belo pano-
letras, participou de diversas coletâneas e pu- rama da literatura negra brasileira, escrito pelo
blicou individualmente livros de contos, poemas pesquisador e escritor Wesley Correia, além de
e romances. Outro destaque deste número que resenhas, sugestões de leituras e entrevistas.
coaduna com o caráter da revista é a entrevista Boa leitura!

Vagner Amaro
Editor da Mahin

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Entrevista: Literatura como transforma-
ção social, com Daniele Bernardino
Por Patrícia Costa

Ensaio: Dizer-se a si: breve reflexão sobre


o lugar e o papel das literaturas negras
Por Wesley Correia

SUMÁRIO
Ensaio: A escrevivência como funda-
mento
Por Henrique Samyn

Inéditos: Pandemia e literatura


Por Simone Ricco

Resenhas:
Filhas do fogo, de Elizandra Souza
Por Vagner Amaro

Perfil: Stefano Volp


Por Marlon Sousa

Sugestões de leituras: lançamentos

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Como se deu sua entrada na
Flup?
Até julho de 2019 eu não ima-
ginava ter nenhum tipo de pro-
tagonismo neste trabalho. Na
verdade, as pessoas costuma-
vam me chamar de primeira-
-dama. Durante 15 anos, fui ca-
sada com o Ecio Salles, um dos
criadores da Flup ao lado do
Julio Ludemir. Vi a Flup nascer,
ainda como uma estratégia
social de um projeto de segu-
rança pública do RJ. No entan-
to, acompanhava de forma tí-
mida. Sempre incentivei o Ecio
Daniele Bernardino. Foto: divulgação

na realização do evento, mas


estava num lugar de afeto,
lugar de alguém que apoia
quem ama. A programação
era uma surpresa pra mim, e eu
gostava deste lugar de plateia,
pois meu trabalho é relaciona-
do diretamente à Educação,
e me ocupava quase toda a
agenda. No entanto, em julho
do ano passado fomos surpre-
endidos com o diagnóstico do
câncer do Ecio e, infelizmente,
em menos de um mês ele se foi.
A dor foi arrebatadora, mas aos
poucos fui entendendo que o
que ele construiu não pode-
ria se perder. E fiz do luto uma
luta… Numa conversa com o
Júlio, ele me disse: “Você tem

Literatura como
que ser a cara pública da Flup
– feminina e preta”. Naquele
momento, tomada ainda por
uma dor profunda, achei que
não teria forças. Fui encoraja-

transformação da aos poucos, especialmente


pelo desejo de levar o legado
do Ecio adiante, mas também
pelos muitos depoimentos que
ouvi das pessoas que, de algu-

social
ma forma, foram alcançadas
pela Flup. Nos poucos dias de
internação dele, testemunhei
muitas confidências no leito do
hospital. Pessoas queridas que
tiveram a vida transformada.
Nesta entrevista, Patrícia Costa conversa com Daniele Acho que ser a porta-voz da
Bernardino Pereira de Salles. Dani é pedagoga, mestre em Flup também me salva, pois
Educação, graduanda de Jornalismo e porta-voz da Flup – sinto o Ecio perto de mim.
Festa Literária das Periferias.

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O que mudou na Flup a partir
do seu olhar?
Ecio e Julio têm biografias ad-
miráveis e uma verdade in-
questionável na construção da
Flup. No entanto, é evidente
que o lugar de fala deles é o
de homens brancos e héteros.
Há algum tempo a Flup tem se

Dani Bernardino. Foto. Flup


tornado cada vez mais preta e
feminina. Um trabalho voltado
para a periferia não pode ficar
dissociado dos negros, inclusive
no aspecto imagético. E essa
conexão passa a ser mais con-
creta quando as pessoas pre-
tas, especialmente as mulheres,
me veem no lugar de porta-voz
da Flup. Significa encontrar al- de Despejo; no entanto, reco- mos em homenageá-las quan-
guém que reconhece suas vi- nheço-a em mim perfeitamen- do nem podíamos imaginar,
vências, justamente por parti- te. Toda mulher preta tem uma em nossos piores pesadelos,
lhá-las. Minha presença torna o Carolina em si. No Mestrado, que 2020 seria um ano tão de-
projeto mais empático. cursado na UERJ, retomei estas safiador. De alguma forma as
referências de maneira mais biografias dessas duas potên-
A literatura negra e periférica veemente. Adbdias do Nasci- cias nos convidam a não es-
de alguma forma fez parte da mento, Joel Rufino dos Santos, morecer. Dedicamos à Caro-
sua formação? Helena Theodoro. Como edu- lina um ciclo de debates que
Adoro falar sobre isso! Nasci em cadora, vejo com muito pesar começou em maio e terminou
Piedade e fui criada em Quin- que as referências negras, não no dia 19 de agosto, aniversá-
tino Bocaiúva, bairro da zona só da literatura, não são apre- rio de 60 anos do Quarto de
norte do Rio, sendo o último sentadas mais cedo às nossas Despejo. Noventa por cento
conhecido por ter apresenta- crianças. Minhas filhas já vivem dos convidados eram mulheres
do ao mundo o camisa 10 do uma geração mais atenta, tan- negras, e tratamos da obra e
Flamengo, Zico. Minha infân- to pelo acesso às informações do legado de Carolina sob os
cia e adolescência foram uma quanto pela disseminação da mais diversos aspectos. A cele-
delícia, vivendo as alegrias e representatividade. Ao prestar bração deste ciclo vem com a
privações que o subúrbio tem. o vestibular, desisti do Jornalis- publicação de um livro no qual
Sempre estudei em escolas mo por acreditar que uma mu- mulheres negras de todo o país
públicas e sinto muito orgulho lher negra não teria espaço no reescrevem esse clássico a par-
disso. Enquanto cursava o anti- mercado de trabalho. E jovem tir de suas vivências. Tenho um
go Ginásio, hoje ensino Funda- negro, de periferia, não pode carinho especial pela turma de
mental II, tive uma professora correr riscos, tem que investir mulheres catadoras de mate-
de Língua Portuguesa que me em uma carreira que o dire- rial reciclável do ABC Paulista.
apresentou a duas referências cione de forma certeira para o Para Lélia Gonzalez também
fora do currículo: as músicas da mercado de trabalho. Meu de- tivemos um ciclo com painéis
banda alemã Enigma e o livro sejo e dedicação buscam que, incríveis. Foram sete encontros,
Quarto de Despejo, de Caroli- num futuro próximo, não seja número cabalístico, que apeli-
na Maria de Jesus. Tentei iniciar apenas um clichê a afirmação damos de #EsquentaFlup, pois
a leitura uma dúzia de vezes e de que negras e negros po- antecederam a programação
sempre o achava complexo dem ser o que quiserem. principal. Foi mágico poder
demais. O tempo passou e eu contar com o Rubens, filho da
já estava quase me formando Este ano a Flup homenageia a Lélia, no painel de abertura.
professora primária no Curso escritora Carolina Maria de Je-
Normal (hoje, Curso de Forma- sus. Como vem sendo a expe- Como está sendo o funciona-
ção de Professores), quando riência? mento da Flup durante a pan-
consegui avançar na leitura e Carolina Maria de Jesus é uma demia?
na compreensão de mim mes- das homenageadas, mas tam- Assim que a pandemia se apre-
ma. Não sou a “Carolina” das bém estamos sob as bençãos sentou, ficamos inseguros so-
privações relatadas no Quarto de Lélia Gonzalez. Já pensáva- bre como conduzir uma festa
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literária que tem como marca
a troca de afetos, de abraços.
Como diz Conceição Evaristo,
“eles combinaram de nos ma-
tar, mas nós combinamos de
não morrer”. E na busca por
resistir e sobreviver, começa-
mos os painéis de forma remo-
ta. Tem sido muito importante
ampliar os limites. No processo
formativo, por exemplo, mui-
tas mulheres não são do Brasil.
Também foi importante saber
que uma participante com di-
ficuldade de locomoção se
sente mais confortável partici-
pando dos encontros on-line.
Revisitamos, ainda, o Labora-
Flup. Edição 2019. Flávia Oliveira. Patrícia Hill Collins. Ana
tório de Narrativas Negras e In- Maria Gonçalves. Roberta Estrela Dalva. Foto. Flup.
dígenas para Audiovisual, que
tem por objetivo incentivar a dos relevantes em suas áreas, quando todos os colaborado-
produção de textos narrativos como Djamila Ribeiro, Carla res eram chamados ao palco
criativos e potentes que pos- Akotirene, Flávia Rios, Renata ao som da música Abraçaço,
sam contribuir para a reescrita Tupinambá e outros nomes in- do Caetano Veloso, para cele-
do cenário audiovisual con- crivelmente especiais. Vale res- brar o fim de mais uma edição.
temporâneo. Muitos dos parti- saltar que até mesmo o SLAM, Isso dá muita saudade…
cipantes de outras edições já que são as batalhas de poesia,
foram contratados pela Globo, está confirmadíssimo. A inter- O que podemos esperar de
que é nossa parceira. O forma- net e as plataformas digitais projetos da Flup para os próxi-
to remoto tem funcionado mui- são adventos importantíssimos mos anos?
to bem. Até eu tiro uma casqui- e permitem a interação com o No ano que vem chegare-
nha das aulas. nosso público. Nossas lives têm mos à 10ª edição. Vejo a Flup
um número muito expressivo de como uma criança que cres-
A Flup tem o objetivo de levar participantes, que contribuem ceu, amadureceu, tornou-se
e trocar experiências literárias muito nas discussões. Claro emancipada, e que hoje se
nas periferias. Em sua opinião, que ficamos saudosistas do reinventa diante das situações
durante a pandemia os objeti- calor do contato, do olho no que se apresentam. Meu dese-
vos estão sendo alcançados? olho, fatores que sempre foram jo sincero é que continuemos
Arrisco dizer que estamos su- prerrogativas da Flup. Sentimos fortes e aguerridos, cumprindo
perando a meta. Consegui- falta, por exemplo, daque- nosso objetivo principal, que é
mos manter a qualidade dos le encerramento que o Ecio o de disseminar cultura e litera-
debates, trazendo convida- transformou numa tradição, tura pelas periferias. Se não nos
perdermos de nossas raízes,
o caminho será certo e exito-
so. Mais do que um desejo, é
meu sonho, pois abracei com
todo amor o compromisso de
não deixar o legado do Ecio
se perder. Como ele mesmo
nos ensinou, “somos peixes do
mesmo cardume”. E que assim
sigamos…

Carolina Maria de Jesus. Foto. Divulgação

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Wesley Correia. Foto. Divulgação

Dizer-se a si:
breve reflexão sobre o lugar e o papel das literaturas negras
Por Wesley Correia

Que Deus me guarde pois através do texto, em que su- terária nacional. Em que pese
eu sei que ele não é neutro jeitos considerados à margem o caráter mimético da litera-
Vigia os rico, mas ama os se inscrevem, psíquica e social- tura, é fundamental observar
que vem do gueto mente, nas páginas dos livros, o papel estruturante que a
Eu visto preto por dentro e seja para denunciar, contra- linguagem desempenha nas
por fora por, declarar, intervir, recordar, relações de poder bem como
Guerreiro, poeta, entre o evocar as divindades e o prin- os efeitos ideológicos que este
tempo e a memória cípio ancestral da existência, fenômeno implica na subje-
— Edi Rock e Mano Brown, seja para expressar repertórios tividade de certos indivíduos
Negro Drama. culturais intrínsecos, na medi- ou de conjuntos de indivíduos,
da em que esta contunden- pois, a exemplo do que afir-
As literaturas de autoria te enunciação racial de base ma Frantz Fanon: “falar é existir
negra promovem, no Brasil endógena – quase varrida da absolutamente para o outro”
contemporâneo, um precioso tradição escrita brasileira – (2008, p.33, grifo meu); ou seja,
universo discursivo e memo- passa a se afirmar entre leitoras uma vez que de determinado
rialístico, que esteve despre- e leitores, abre-se um horizon- grupo é suprimido o direito à
zado, anos a fio, por força do te para a problematização e voz, suas possibilidades de exis-
racismo literário e editorial do consequente uma reconfigu- tência (neste caso, pela via da
país. Na medida em que vo- ração de alguns dos aspectos representação) acabam redu-
zes periféricas se fazem ouvir que povoam a consciência li- zidas às perspectivas de outro
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grupo, que sobre aquele lança camente escritos/descritos, rá em contato com a locução
camadas e mais camadas de tomam o controle do discurso e a gramática elementares à
significantes, estofando sobre- para fazer ecoar outros vieses uma subjetividade comumen-
maneira o recrudescimento semânticos, sintaxe e substân- te obliterada; não raro, parte
do que Chimamanda Adichie cia também outras, enquanto considerável dos espectadores
considera como “o perigo de a previsibilidade da página vai divisará o próprio espelho em
uma história única” (2010). Dito sendo surpreendida pela ação meio à experiência da leitura
de outro modo, deriva-se des- do deslocamento das vozes; de textualidades negras, de
te processo uma alteridade seguramente, neste sentido, a maneira que o efeito catártico
fora de proporção e, em boa encarnação em celulose da e libertário desta vicissitude não
medida, mantenedora dos grande ferida aberta do Brasil, encontra outra justificativa, se-
preconceitos que circunscre- da ferida em carne viva verti- não como manifestação da
vem subjetividades secular- da na forma do livro, fenôme- Unidade ancestral. Com efei-
mente atravessadas por vários no que se tornou possível a to, as literaturas negras inaugu-
e elaborados mecanismos de partir da estrondosa presença ram um campo de força cuja
opressão. Uma vez trazido ao de Carolina Maria de Jesus no disputa figurará em torno dos
âmbito da escrita que faz fi- cenário da literatura, constitui modos de controle da lingua-
gura às prateleiras literárias do – desde 1960 até os dias atu- gem, no sentido de explorar a
Brasil, caracterizadas pela sin- ais – o principal e mais radical problemática complexa que
tomática ausência de vozes exemplo de fissura nas colunas uma das faces deste controle
negras, o dado pode explicar, canônicas. Antes dela, entre- – precisamente o binômio “fala
por exemplo, a reiterada alo- tanto, na segunda metade versus silêncio” – revela, se to-
cação de personagens de cor do século XIX, a voz de Maria mada à luz da raça, do gêne-
nos sub-lugares da ficção nar- Firmina dos Reis, considerada ro, da classe e de uma varie-
rativa, na sua secundarização por alguns historiadores da lite- dade de possíveis categorias
corrente e na fetichização dos ratura como a primeira roman- analíticas que se inscrevem nos
seus corpos em plano diegéti- cista negra, já depunha con- territórios da cultura, da socie-
co, a ponto de tornar eviden- tra os desníveis da instância dade e do comportamento. A
tes não só a impossibilidade do literária: “Sei que pouco vale disputa, contudo, não teria ca-
protagonismo destas persona- este romance porque escrito ráter de revanche, muito me-
gens em cena, mas também, por mulher, e mulher brasilei- nos pretenderia substituir ne-
como consequência direta da ra, de educação acanhada cessariamente um centro por
regulação operada por esta e sem o trato e conversação outro, ou uma tinta por outra,
agência, o nítido apagamento dos homens ilustrados” (REIS, sob o risco de favorecer um
de suas histórias no interior da 2018, p. 12, grifos meus). Por parâmetro ambíguo assaz simi-
história mesma; uma operação conseguinte, lição definitiva lar ao que se quer combater.
que nada tem de fortuita, por- sobre o caminho da autore- Nas palavras de Lívia Natália:
que coexiste em diálogo direto presentação como resposta
com a realidade concreta, em ao etnocentrismo foi legada a quando articulamos […] a
especial ao reproduzir os ní- “improváveis” escritores a par- ideia da intencionalidade
veis de estratificação que dão tir do desbravamento que as ideológica do estabeleci-
mento do cânone, compre-
substrato aos mundos forma- autoras de Quarto de despejo
endemos que, diante dele,
dos a partir da diáspora. Ou- e de Úrsula empreenderam, há de se ter uma postura
trossim, considerando-se a na- cada qual a seu tempo e à sua iconoclasta. A força desta
tureza de cada gênero, uma maneira. Em posse do verbo, mão não está em destruir
vez que estejam devidamente sujeitos Outros cuja condição definitivamente o cânone,
resguardadas as proporções é, sob muitos aspectos, equiva- silenciando-o. Pelo contrá-
de intenção e finalidade, o lente à das escritoras referidas, rio, cabe a esta mão, me-
mesmo princípio invisibilizador cumprem dar carne e nervos, tonímia de um pensador,
presente nos romances, no- sangue e ossatura ao que an- sacudir, com força, a quie-
velas e contos brasileiros mais tes era espectro, operando as- tude com que aceitamos
esta cadeia política e de-
difundidos se manifestará tam- sim tanto um modo diverso de
nunciar, pelo abalo pro-
bém na lírica e no teatro. Fato fazer literatura – uma vez que duzido, as fissuras de onde
é que a tenacidade do imagi- serão reposicionados a ideia e surgirão os questionamentos
nário, urdido sob a ubquidade o lugar da autoralidade sobe- (2013, p. 91).
de um cânone macho-branco, rana – quanto a promoção de
sofre impacto quando sujeitos uma recepção distinta da usu- Deve-se considerar, a ri-
de fora do centro, assimetri- al, posto que o público entra- gor, a potência didático-peda-

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gógica das literaturas negras versalidade que suplementa as pretos e pardos autodeclara-
para a afirmação e a conso- letras hegemônicas e promove dos. Inúmeras são as vozes que
lidação de uma educação o debate acerca das diferen- se levantaram e continuam a
antirracista, o que significa, ças nas quais a vida social está se levantar em oposição ao
em primeiro lugar, não perder alicerçada, fazendo-o com a enorme hiato que o racismo es-
de vista o papel decisivo que consciência, mas sobretudo trutural legou à história da lite-
elas desempenham na forma- com a responsabilidade, de ratura brasileira, aliás, o mesmo
ção de novos públicos. Estes, que quanto mais afirmado for racismo que subtraiu de Teixei-
por sua vez, garantem àquelas o lugar da comunicação multi- ra e Sousa o lugar de romancis-
o óleo necessário para que a referencial, tanto mais urgente ta de fundação, que interditou
roda da engrenagem continue será a implementação de uma Luís Gama e abreviou a potên-
girando, e assim, o processo se socialidade cultural efetiva- cia mística de Auta de Souza,
dá como que de modo retro- mente democrática, capaz de que esmaeceu a negritude de
alimentar, porque os interlocu- garantir conformação às dinâ- Machado de Assis, que con-
tores nele envolvidos intuem micas heterogêneas. denou Cruz e Souza e Lima
que o ponto de interesse para A despeito do espaço lite- Barreto às galés do sofrimento
o qual convergem está direta- rário conquistado por escritoras psíquico, que alijou a produtivi-
mente ligado à manutenção e escritores negros, cujas obras dade de Lino Guedes e legou
desta potente rede cíclica de têm sido, na grande maioria ao esquecimento a escrita de
rubrica identitária, razão pela dos casos, ou autofinanciadas Aloísio Resende, de sorte que
qual se pode considerar que ou produzidas à guisa de ma- não é exagerado classificar o
a relacionalidade estabeleci- nufaturação, a despeito da ine- silenciamento da produção
da entre os sujeitos integran- gável episteme estabelecida artística negra como estraté-
tes da comunicação consistirá por produções independentes gia das mais caras ao racismo
em uma ação absolutamente que têm sido capazes de furar e ao sistema de privilégios que
sustentável. Ao tornar audíveis o bloqueio da academia e de ele inaugura e sustenta.
muitas vozes ocultas (cf. Noa, subverter, em certo grau, a ló- Porquanto sejam inúmeras
2009), esta rede identitária re- gica do mercado editorial bra- as vozes que congregam o qui-
vela um caudal de saberes pro- sileiro, a despeito do crescente lombo residual, torna-se impos-
fundos – produzidos desde os interesse do público pelas pro- sível, aqui, listá-las em sua to-
povos originários e emergidos duções negras – o que obriga talidade, e é sabido que nem
da entranha das comunida- as maiores editoras do país a todas alcançam a amplitude
des tradicionais – saberes sem considerar, mesmo que reduzi- merecida. Entretanto, a fim de
os quais o Brasil não pode ser damente, esta pauta em seus tentar estabelecer uma bre-
lido, sequer pensado, na sua catálogos –, enfim, a despeito víssima diacronia inexata das
inteireza cultural. Significa, em das sucessivas mudanças, ain- literaturas negras, faz-se neces-
segundo lugar e ainda no es- da parece muito tímida a cir- sário assinalar alguns nomes:
teio da premissa anterior, com- culação da prosa e da poesia agente central das articula-
preender as literaturas negras periféricas quando compara- ções iniciais em torno da institu-
brasileiras, em cujo arquivo sal- da à de autores não-negros. cionalização dos movimentos
ta a veemência com que o sig- Para se ter ideia, uma in- negros do país, o paulista Ab-
no da revisão se impõe frente vestigação realizada pelo Gru- dias do Nascimento produziu,
à necessidade de expressar a po de Estudos em Literatura especialmente entre os anos
memória, muitas vezes traumá- Brasileira Contemporânea da de 1960 e 1980, uma poesia à
tica, compreendê-las como al- UnB, entre 2003 e 2018, a par- brasileira de combate ao racis-
ternativa de retorno à própria tir de um corpus de quase se- mo, muito sob a influência das
história da nação, desta vez tecentos romances nacionais, teses do Pan-africanismo, das
emanada dos sujeitos que lhe publicados ao longo das seis transformações advindas do
constituem a base e que re- últimas décadas, concluiu que Harlem Renaissance e das lutas
presentam, por isso, parte sig- a autoria negra não ocupa pelos direitos civis nos Estados
nificativa de seu currículo mais nem 3% desse universo. A por- Unidos.
genuíno. Como corolário, esta centagem, ínfima, torna-se ain- Nesta cepa estão presen-
espécie de sublevação das da mais aviltante ao ser con- tes o poeta recifense Solano
vozes negras (que aqui ganha frontada com os resultados do Trindade e o também paulista
sentido de um quilombo residu- Censo demográfico, produzido Carlos de Assumpção; a força
al, todo insurgido nas trincheiras pelo IBGE em 2010, que revela do bardo alargou horizontes,
da criação literária) desautori- que mais da metade da popu- atraindo pessoas, a um só tem-
za o discurso da pretensa uni- lação brasileira é formada por po, identificadas e comprome-

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tidas com a pauta da igualda- cialmente para o tema das Sobral, Lívia Natália e Fábio
de racial, a garantia de direitos relações étnico-raciais, entre Mandingo.
às minorias e a luta em defesa as quais, a Nandyala Livros, Com a possibilidade de
da representatividade. Muitas a Ciclo Contínuo Editorial, a ampliação da circulação dos
delas ensejaram esforços em Ogum’s Toques Negros, a Edito- textos por via também das
prol de uma política mais or- ra Malê e a Padê Editorial. Atra- mídias sociais, vozes negras
gânica quanto à publicação vessando cenas importantes seguem no front, a produzir
e distribuição das produções da história nacional, passando discursos de enfrentamento e
negras. É com este espírito que pela tragédia da ditadura mili- a questionar a “ordem” unila-
nascem alguns grupos literários tar, iniciada em 1964, até a re- teral das coisas; conectadas
ativistas no país, a exemplo do democratização do país, duas com as questões que marcam
longevo Quilombhoje, em São décadas mais tarde, as vozes o conturbado início do século
Paulo, do Negrícia, no Rio de que emergiram nesse período XXI, com o crescimento de se-
Janeiro, do GENS (Grupo de e as que se firmaram um pou- tores conservadores no país,
Escritores Negros de Salvador), co depois, nos anos 90 e mes- de ataques ao conhecimento
na Bahia, e do Palmares, em mo nos anos 2000, tratam do e à cultura, de sufocamento
Porto Alegre. Neste ínterim, dá- corpo, do passado e do Brasil das políticas de inclusão, com
-se também a criação da Ma- negros como símbolos do que a violência da necropolítica ar-
zza Edições, editora fundada resistiu à requintada empresa ticulada pelo Estado contra as
em 1981, pela militante negra racista. Nesta fase profícua de populações mais vulneráveis,
Maria Mazarello Rodrigues, e aprofundamento da crítica e tais vozes emergem de cam-
já antes, no ano de 1975, es- da criação literária, destacam- pos distintos de interesse e de
treava no comércio dos livros -se, inicialmente, nomes como atuação, mas, não obstante as
a Pallas Editora, que, desde os de Ruth Guimarães, Oswal- muitas afiliações que assinam,
então, abriga em seu portfólio do de Camargo, Paulo Colina, convergem na construção de
uma expressiva quantidade de Abelardo Rodrigues, Oliveira um projeto sólido em torno da
vozes negras. e Silveira, Beatriz Nascimento, diversidade, sendo possível ci-
Fato marcante ocorre em Conceição Evaristo, Geni Gui- tar Alex Simões, Cidinha da
1978, com a idealização dos marães, Joel Rufino dos Santos, Silva, Jeferson Tenório, Allan
Cadernos Negros, série que Cuti, José Carlos Limeira, Éle da Rosa, Cássia Vale, Nelson
passou a ser coordenada pelo Semog, Salgado Maranhão, Maca, Davi Nunes, Jairo Pinto,
grupo Quilombhoje, a partir Jônatas Conceição, Mirian Al- Hildália Fernandes, Lubi Prates,
de 1980, e que até o presen- ves, Fátima Trinchão, Esmeral- Eliana Alves Cruz, Vagner Ama-
te permanece como um dos da Ribeiro, Aline França e, mais ro, Tatiana Nascimento, Vânia
principais veículos de divulga- tarde, Ronald Augusto, Edmil- Melo, Negafya, Marcelo Ricar-
ção das textualidades negras son de Almeida Pereira, Miró do, Gonesa Gonçalves, Jac-
brasileiras; passados mais de da Muribeca, Lande Onawale, quinha Nogueira dentre tantas
quarenta anos desde o feito, Ricardo Aleixo, Elisa Lucinda, Outras, Outros e Outres que
tem-se, como saldo, a presen- Jovina Souza, Ana Maria Gon- abastecem a utopia de um
ça de editoras voltadas espe- çalves, Rita Santana, Cristiane Brasil menos destoante
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Referências bibliográficas JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo.
ADICHE, Chimamanda Nigozi. O perigo de uma 9.ed. São Paulo: Ática, 2007.
história única; Trad. Julia Romeu. Rio de janeiro: LITERAFRO: Universidade Federal de Minas Ge-
Companhia das Letras, 2019. rais. Disponível em:<http://www.letras.ufmg.br/
DALCASTAGNÈ, R. A personagem do romance literafro/>. Acesso em: 26. out. 2020.
brasileiro contemporâneo: 1990-2004. Estudos de MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3. ed. São Paulo:
Literatura Brasileira Contemporânea, n. 26, p. n-1 edições, 2018.
13-71, 14 jan. 2011. NATALIA. LIVIA. A lírica menor: por uma teoria
DALCASTAGNÈ, R. Entre silêncios e estereótipos: da literatura das Literaturas Africanas de Língua
relações raciais na literatura brasileira contem- Portuguesa. In: SANTOS, José Henrique dos; RISO,
porânea. Estudos de Literatura Brasileira Con- Ricardo (Org.) Afro-rizomas na diáspora negra:
temporânea, n. 31, p. 87-110, 5 jan. 2011. as literaturas africanas na encruzilhada brasileira.
DUARTE, Constância L; CÔRTES, Cristiane; PEREI- Rio de Janeiro: Kitabu, 2013.
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out. 2020.

11
A escrevivência como
fundamento Henrique Marques Samyn

O conceito de escrevivên- artigo homônimo – quanto em mento de uma prática literária.


cia emerge na produção inte- sua obra literária – no âmbito Considerando-se a com-
lectual de Conceição Evaristo da qual demanda relevo seu plexidade do desenvolvimento
como resultado de um longo primeiro romance, Becos da do conceito de escrevivência,
processo dialético, enraizan- Memória –, ainda que perpas- impõe-se determinar um ponto
do-se tanto em seus trabalhos se toda a sua escrita, nos mais de partida. Com esse propósi-
acadêmicos – constituindo um diversos gêneros. Não obstan- to, resgato um trecho do de-
momento fulcral sua disserta- te, meu propósito aqui não é poimento concedido por Eva-
ção de mestrado, Literatura Ne- proceder a uma historicização risto, em 2017, ao jornal Nexo,
gra: uma poética de nossa afro- do conceito, mas sim investigar sob o título Minha escrita é con-
-brasilidade, cujas ideias foram suas condições de possibilida- taminada pela condição de
posteriormente sintetizadas em de e seu estatuto como funda- mulher negra:
12
Foto: Lucas Jones

13
Quando falei da escrevivên- crevivência. – e, consequentemente, das
cia, em momento algum Extraio dessa citação um produções literárias que a ele
estava pensando em criar conjunto de considerações estão associadas.
um conceito. Eu venho tra- que podem constituir subsídios A “mãe preta” é uma de-
balhando com esse termo
para uma análise que, pres- rivação estereotípica da “ama
desde 1995 – na minha dis-
sertação de mestrado, vá-
cindindo de perspectivas ge- de leite”, expressão que de-
rias vezes fiz um jogo com o nealógicas ou historicizantes, signava as mulheres escravi-
vocabulário e as ideias de faculte a construção de uma zadas que eram compradas
escrever, viver, se ver. Usei hermenêutica: ou alugadas com o objetivo
“escrevivência” pela primei- (i) o conceito de escrevi- de amamentar os filhos das
ra vez em uma mesa de es- vência propõe a rasura de um senhoras brancas, durante o
critoras negras no seminário elemento do imaginário his- período de aleitamento; a per-
“Mulher e Literatura”. Termi- tórico – qual seja: a figura da cepção folclórica fez destas
nei meu texto dizendo que “mãe preta” – associado a um mulheres “um apêndice da
a nossa escrevivência não é
modo particular de contar his- família patriarcal-escravista”,
para adormecer os da Casa
Grande, e sim para incomo-
tórias, propondo, no lugar des- no dizer de Clóvis Moura. Não
dá-los em seus sonos injustos. ta, uma outra perspectivação; obstante, cabe ressaltar que
Este termo nasce fundamen- (ii) a perspectivação sub- essa figuração imaginária im-
tado no imaginário histórico jacente à contação de histó- plica a ocultação de um siste-
que eu quero borrar, rasurar. rias desde a escrevivência é ma profundamente opressor;
Esse imaginário traz a figura indissociável das vivências par- nesse sentido, a “mãe preta”
da “mãe preta” contando ticulares e coletivas das mulhe- pode ser compreendida como
histórias para adormecer a res negras; uma “imagem de controle”,
prole da Casa Grande. E é (iii) a escrevivência desig- como proposto por Patricia Hill
uma figura que a literatura
na, mais especificamente, a Collins – isto é: uma imagem
brasileira, principalmente no
período Romântico, desta-
escrita da vivência da mulher cujo propósito é naturalizar e
ca muito. negra na sociedade brasileira. normalizar o racismo, o sexismo
Desse modo, viabiliza-se e a pobreza, assim como ou-
Quero rasurar essa imagem o estabelecimento de uma tras formas de injustiça social.
da “mãe preta” contando his- via analítica tripartite, o que Com efeito, resguardando-se
tória. A nossa “escrevivência” me permitirá desenvolver com as (não poucas) especificida-
conta as nossas histórias a par- mais pormenores as reflexões des dos distintos contextos so-
tir das nossas perspectivas, é em torno do conceito. Para ciais e culturais, podem-se divi-
uma escrita que se dá colada tanto, recorrerei, sobretudo – sar analogias entre as imagens
à nossa vivência, seja particular embora não exclusivamente de controle da “mãe preta”,
ou coletiva, justamente para – a considerações da própria no Brasil, e da “mammy”, nos
acordar os da Casa Grande. Conceição Evaristo, assim re- Estados Unidos: dispensando
[A escrevivência] seria es- conhecendo a posição da às crianças brancas mais cui-
crever a escrita dessa vivência escritora como intelectual ne- dado e amor do que os confe-
de mulher negra na sociedade gra, ou seja: como pensadora ridos às suas próprias crianças,
brasileira. Eu acho muito difícil crítica e teórica cultural, auto- as “mammies” constituem uma
a subjetividade de qualquer ra também de uma relevante representação simbólica das
escritor ou escritora não con- obra não ficcional – embora
taminar a sua escrita. De certa essa seja deslocada para se-
forma, todos fazem uma escre- gundo plano, consoante a di-
vivência, a partir da escolha te- nâmica opressora que incide
mática, do vocabulário que se sobre as intelectuais negras, já
usa, do enredo a partir de suas denunciada por bell hooks.
vivências e opções. A minha
escrevivência e a escrevivên- Rasurar a “mãe preta”
cia de autoria de mulheres ne- Conforme reconhece
gras se dá contaminada pela Conceição Evaristo, a emer-
nossa condição de mulher ne- gência do conceito de escrevi-
gra na sociedade brasileira. vência deriva de uma motiva-
Toda minha escrita é con- ção em particular: o propósito
taminada por essa condição. de borrar ou rasurar a figura
É isso que formata e sustenta da “mãe preta”, constante do
o que estou chamando de es- imaginário histórico brasileiro
Foto; Elaine Campos

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mulheres negras como ideal- formando-o no “pretuguês”, mentes nas “tenras alminhas”
mente concebidas pelo grupo e por inscrever figuras como o das crianças brancas.
dominante. Zumbi na mentalidade senho- Importa observar, por con-
Assim como as “muca- rial. Na verdade, essa atuação seguinte, que a proposta de ra-
mas”, as “amas de leite” ou não passou despercebida aos sura da “mãe preta” por parte
“mães pretas”, presentes no olhos dos dominadores, que de Conceição Evaristo não im-
âmbito doméstico, foram sub- em diversos momentos alerta- plica um desconhecimento da
metidas às múltiplas formas de ram para a influência “corrup- real condição das mulheres ne-
violência constantes do espa- tora” das “mães pretas” sobre gras escravizadas, mas sim uma
ço senhorial – tanto os castigos as famílias brancas – já a partir recusa do modo como o ima-
físicos e as violações sexuais das cantilenas entoadas junto ginário romântico e folclórico
quanto as decorrentes da do- aos berços, que acabavam produziu uma distorção da atu-
minação simbólica ou psicoló- por plantar indesejáveis se- ação efetiva dessas mulheres
gica. Para além disso, ao pas-
so que às “mães pretas” era
imposto o dever de cuidar da
prole dos dominadores bran-
cos, recusava-se-lhes o direito
ao exercício da maternidade
no que diz respeito a seus pró-
prios filhos e filhas. Isso é algo
perceptível em anúncios de
periódicos oitocentistas, de
modo implícito (quando não
se referiam às “crias”) ou explí-
cito (quando ostensivamente
mencionavam a venda ou o
aluguel de amas de leite “sem
cria”); não menos reveladora
é a negociação de amas de
leite acompanhadas de suas
“crias” por preços mais baixos,
bem como a venda ou oferta
de crianças negras de poucos
meses.
Contudo, enquanto produ-
ção folclórica concebida pelo
imaginário senhorial, a “mãe
preta” opera em articulação
com outro elemento ficcional –
a saber: o mito do escravizado
pacífico, que resignadamente
se submetia à opressão, sem
empreender quaisquer formas
de resistência. Entretanto, vale
resgatar as ponderações de
Lélia González acerca da “mu-
lher negra, essa quilombola”:
precisamente pela posição
que ocupavam no sistema es-
cravista, as “mães pretas” pu-
deram desenvolver formas de
“resistência passiva”, inserindo
as categorias das culturas ne-
gro-africanas no imaginário do
dominador; foram elas as res-
ponsáveis por africanizar o por-
tuguês falado no Brasil, trans-
Foto: Lucas Jones

15
a partir de um falseamento O fundamento da dife- tos e condições da vida subje-
das relações opressoras. É con- rença tiva, social e política; destarte,
tra essa ficcionalização que a É de crucial importância no que tange à desigualdade
intelectual negra investe ao perceber que a “rasura” pro- social, as vidas particulares e a
denunciar a negação da ima- posta por Conceição Evaris- organização do poder devem
gem de mulher-mãe às perso- to diz respeito à subversão de ser compreendidas como pro-
nagens negras femininas na li- uma prática. Se, no imaginário dutos de eixos que operam em
teratura brasileira, a quem não folclórico branco, a função da conjunto, influenciando-se re-
era permitido afirmar-se como “mãe preta” é contar histórias ciprocamente. Não obstante,
“centro de uma descendên- falseadoras que meramente em tempos recentes, os usos
cia”: restava-lhes o lugar da reproduzem as relações de po- do conceito de intersecciona-
“mãe preta”, a que direciona- der, a ultrapassagem daquela lidade podem ser questiona-
va seus cuidados para os filhos imagem de controle desvela dos, à luz da advertência de
dos brancos; ademais, a infe- uma nova possibilidade – já Ann Ducille, sobre um interesse
cundidade das “mães pretas” investida de um sentido revo- pela produção de pensado-
pode ser interpretada como lucionário e emancipatório: a ras negras não como uma dis-
um dispositivo literário cujo de que a contação de histórias ciplina com uma história, um
propósito é rasurar os sentidos tenha lugar enquanto movi- corpus acadêmico e represen-
intrínsecos à matriz africana, mento disruptor das estruturas tantes intelectuais, mas como
deliberadamente ignorando o opressoras. É preciso enfatizar, um campo aberto, disponível
papel desempenhado pelas todavia, que isso implica o res- e ilimitado, para que qualquer
mulheres negras na formação gate de atos originários, en- pessoa nele recolha o que qui-
da sociedade brasileira. quanto recuperação dos ges- ser; assim, importa considerar
Note-se, portanto, a pre- tos subversores empreendidos que o conceito demarca “o
sença de um postulado se- por mulheres negras escraviza- paradigma teórico e metodo-
gundo o qual a resignação da das que, como observou Lélia lógico da tradição feminista
“mãe preta” se refletiria tam- González, desestabilizavam a negra”, como observa Carla
bém no âmbito subjetivo, uma cultura dominante “por den- Akotirene.
vez que ela seria meramente tro”. Podemos evocar, aqui, a O entendimento do senti-
a reprodutora de narrativas reflexão de Audre Lorde, se- do das vivências de mulheres
produzidas na esfera da cul- gundo a qual a casa-grande negras demanda, por conse-
tura dominante; daí seu papel nunca poderá ser derrubada guinte, uma atenção para he-
como contadora de histórias pelas ferramentas do senhor: é ranças históricas que foram, e
“para adormecer a prole da preciso mobilizar um conjunto continuam a ser, invisibilizadas.
Casa Grande”, nas palavras de práticas e saberes manti- Quando indagou sobre a inci-
de Evaristo. Desde essa (racista das longe do espaço senhorial, dência do sexismo na experi-
e reacionária) leitura, a “mãe mas preservadas pelas mulhe- ência das mulheres negras es-
preta” seria uma cúmplice res “forjadas nos cadinhos da cravizadas, bell hooks chamou
no falseamento das relações diferença”. a atenção para a subestima-
opressoras, contribuindo decisi- No caso específico de que ção desse fato a partir do pres-
vamente para o assujeitamen- tratamos, o fundamento des- suposto de que elas eram, sim-
to da população negra – em sa diferença tem um sentido plesmente, menos importantes;
oposição, portanto, à “resis- triplo: diz respeito à condição por sua vez, Angela Davis enfa-
tência passiva” enfatizada por racial (ou seja: à negritude), tizou a condição anômala das
Lélia González. Nesse sentido, ao gênero (ou seja: à condi- mulheres escravizadas, vistas
quando Conceição Evaristo ção feminina) e a um lugar na como unidades de trabalho
propõe uma inversão dessa ordem política e econômica lucrativas pelos proprietários e
dinâmica, “rasurando” essa (ou seja: à “classe”, lato sensu). incompatíveis com a ideolo-
imagem, pode-se entrever um É imprescindível, portanto, a gia epocal da feminilidade. No
resgate estratégico da real evocação do conceito de in- Brasil, as mulheres negras tive-
atuação das mulheres negras terseccionalidade, sobretudo ram crucial importância para a
escondidas sob a figura este- como cunhado por Kimberlé organização da comunidade
reotipada das “mães pretas”: Crenshaw – não se desconsi- negra, através da formação
não como agentes conforma- derando uma história intelectu- de famílias matrifocais e de ini-
dos a serviço da elite senhorial, al que remonta aos anos 1970 ciativas culturais que favorece-
mas como elementos desesta- –, considerando-se os muitos ram a formação da identida-
bilizadores da sociedade es- fatores que diversamente e de e a coesão entre os grupos
cravista. mutuamente afetam os even- africanos e seus descenden-

16
tes, como observou Jurema tripla autorresponsabilização de um avassalador conjunto
Werneck; no mais, sobejam (pelo corpo, pela raça e pe- de processos de invisibilização,
análises acerca do impacto los ancestrais) no que tange de silenciamento e de episte-
histórico da escravidão sobre às mulheres negras; ou como micídio – tarefa que tem pro-
situação das mulheres negras, o “olhar objetivo” dirigido a si fundas implicações históricas e
podendo-se destacar os no- mesmo, determinante da des- ontológicas. Por outro lado, a
mes de Lélia González, Beatriz coberta da negridão, deve ser própria possibilidade de cons-
Nascimento e Sueli Carneiro, entendido, no que diz respei- trução do discurso sobre essas
entre outras pensadoras de in- to às mulheres negras. Quan- vivências implica uma ruptura
discutível representatividade. do, em Pele negra, máscaras de ordem epistemológica. O
A compreensão do senti- brancas, Fanon manifesta o fato de que as narrativas lite-
do da vivência negra implica a desejo de ser simplesmente um rárias não prescindem de pro-
evocação de um processo his- homem entre outros homens, cessos de validação pode ser
tórico constitutivo de uma on- ou de ser nada mais do que comprovado pela constituição
tologia que impede a compre- um homem, ele ainda não al- de cânones tributários dos va-
ensão do ser do negro – que, cança a questão particular da lores e interesses da branquitu-
como sustentou Frantz Fanon, existência das mulheres negras; de, em evidente articulação
não tem resistência ontológica trata-se da expressão de uma com critérios patriarcais; é isso
aos olhos do branco. Se con- ânsia que não chega àquele o que, no caso do Brasil, expli-
sideramos a autoelaboração “território medial” por elas ocu- ca a ausência de nomes de
descrita pelo intelectual mar- pado, para evocar expressão incontestável representativi-
tinicano, percebemos que os de Grada Kilomba. dade no campo da literatura
esquemas propostos (corporal, negro-brasileira, como Maria
histórico-racial e epidérmico) Vivências-escritas Firmina dos Reis ou Carolina
não contemplam a dimensão Desse modo, falar sobre Maria de Jesus. No que tange à
do gênero. Podemos, assim, vivências de mulheres negras epistemologia feminista negra,
indagar pelo significado da demanda o enfrentamento Patricia Hill Collins destaca, a

Foto: Ana Maria Nascimento

17
propósito das mulheres afro-a-
mericanas, diversos fatores que
estruturam suas vivências: as
organizações da comunidade
negra, que refletem princípios
dos sistemas de crença influen-
ciados por valores africanos;
tradições maternistas que es-
timulam entendimentos poli-
tizados do trabalho maternal
efetuado por mulheres negras;
e um sistema de classes que
relega às posições mais baixas
da hierarquia social as mulhe-
res negras trabalhadoras. Se
atentamos para as convergên-
cias possíveis com a realidade
brasileira, percebemos que as

Foto: Joyce Fonseca


mulheres negras, enquanto
agentes de conhecimento – e
produtoras de discursos, tanto
literários quanto não-literários
–, ocupam lugares sociais es-
pecíficos, tendo acesso a luga-
res de fala particulares (como
enfatizado por Djamila Ribeiro) A enumeração de ima- além da tradição canônica ou
e a lugares de pertencimento gens propicia a reconstituição erudita.
marcados pela ausência (alu- de uma ambiência preservada No texto que introduz o
do, aqui, à “dororidade” con- na memória. A mescla entre as quinto conjunto de poemas
ceituada por Vilma Piedade). dimensões objetiva e subjeti- da obra, Conceição Evaristo
A escrita das vivências das va, alusiva a uma relação de relembra o momento em que
mulheres negras é indissociável pertencimento, é evidenciada a lamparina do pequeno cô-
de uma subversão epistemoló- pela presença de indícios e ele- modo no qual dormia, com as
gica fundamental, cujas con- mentos associados aos objetos irmãs, era apagada:
dições de viabilidade perma- concretos: sob a luz do sol, as
“roupas estendidas no varal” Ao apagar das luzes, minhas
necem para além dos espaços
ensejam a felicidade materna; irmãs logo-logo adorme-
senhoriais. No caso de Concei-
os lençóis estão molhados por ciam, confortadas com as
ção Evaristo, isso pode ser per- lembranças de nossas fa-
cebido pela leitura de alguns “pequenas lágrimas”; os fiapos
lantes brincadeiras, em que,
trechos dos textos introdutórios das “nuvens solitárias” ao redor
muitas vezes, a mãe era a
às seções de Poemas da recor- das bacias e das tinas mani- protagonista. Aí, sim, a noite
dação e outros movimentos. No festa uma percepção particu- e seus mistérios se abatiam
parágrafo que abre o primeiro lar da realidade, mediada por sobre mim. E tudo parecia
conjunto de poemas, lemos: uma sensibilidade apurada. A vazio a pedir algum gesto
“comoção maior” alude à lei- de preenchimento. Escuta-
O olho do sol batia sobre as tura do mundo que determina va ainda os passos de mi-
roupas estendidas no varal a emergência do estado poé- nha mãe se afastando. Ins-
e mamãe sorria feliz. Gotí- tico, reconhecido pela subjeti- tantes depois, podia colher
culas de água aspergindo vidade – ainda que essa não pedaços da voz dela, cola-
a minha vida-menina balan- dos a outros de minhas tias
dispusesse dos recursos para
çavam ao vento. Pequenas e de vizinhas mais próximas.
nomeá-lo. O que subjaz a essa Apurava os sentidos, mas o
lágrimas dos lençóis. Pedri- impossibilidade de nomeação
nhas azuis, pedaços de anil, teor profundo das conver-
é o desconhecimento formal sas me fugia, diluindo-se no
fiapos de nuvens solitárias
caídas do céu eram encon-
do conceito de poesia; entre- escuro. Então eu inventava
tradas ao redor das bacias e tanto, é também isso o que dizeres para completar e as-
tinas das lavagens de roupa. oferece as condições necessá- sim me intrometer nas falas
Tudo me causava uma co- rias para a eclosão das raízes distantes delas. Todas as noi-
moção maior. A poesia me de uma produção literária a tes, esse era o meu jogo de
visitava e eu nem sabia… partir daquela realidade, para escrever no escuro.

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Cabe atentar para o fato ao manifestar-se como prática destinado à literatura produzi-
de que o “gesto de preen- de resistência contra uma so- da por mulheres negras, tanto
chimento” – ou seja: o ato de ciedade patriarcal e racista, no que diz respeito às circuns-
criação poética – se efetiva constitui um gesto disruptivo no tâncias de recepção quanto
a partir de uma demanda do que tange aos próprios funda- no que tange aos obstáculos
ambiente exterior sobre a sub- mentos da nação brasileira. editoriais impostos. Contra isso,
jetividade, o que explicita a No desfecho da fala trans- entre as possibilidades de en-
essência de uma poética não crita no início deste ensaio, frentamento, podem-se desta-
contingente, mas tributária de Conceição Evaristo admite a car a recente ampliação dos
uma relação dialética com o possibilidade de um entendi- estudos acadêmicos em torno
mundo. Os mistérios da noite mento da escrevivência em da literatura produzida por mu-
propiciam a quietude que de- um sentido amplo, manifesta lheres negras e a fundação de
termina uma escuta: os peda- em elementos como a escolha casas editoriais que viabilizam
ços das vozes das mães e das temática, a seleção vocabu- a publicação de suas obras.
tias oferecem uma matéria lar e a construção do enredo, Segundo: cabe destacar
fragmentária a partir da qual por exemplo; não obstante, o que, no restrito sentido antes
a subjetividade inventa novos sentido que esse conceito ad- aludido, a escrevivência é um
dizeres, intrometendo-se nas quiriu a partir de uma compre- apanágio das mulheres negras
falas distantes; assim, torna-se ensão da literatura produzida – porque apenas a sua condi-
possível participar do real – ou por mulheres negras como um ção existencial faculta a pro-
(re)construí-lo – por meio de ato político é o que, de fato, dução de textos literários que
uma intervenção ficcional e singulariza esse termo, con- mobilizem as vivências e as ex-
poética. Repetindo-se todas cedendo-lhe todo o seu po- periências imprescindíveis para
as noites, essa ação se conver- tencial enquanto instrumento “escreviver”, determinando o
te em uma prática, enquanto hermenêutico ou como con- que é acrescentado ou supri-
modo de existência intrinseca- ceito alusivo a um modo es- mido entre o acontecimento e
mente associado ao ato cria- pecífico de criação literária. a narração. Não cabe pensar
tivo. Contudo, é importante A invenção da escrita men- em termos de um “privilégio”,
perceber que, ao mencionar cionada em “Da construção no sentido convencional, visto
o “jogo de escrever no escu- de becos”, texto prefacial a que se trata da escrita própria
ro”, Conceição Evaristo ainda Becos da Memória, ou a eclo- de um contingente social histo-
não trata da escrita em sen- são da pergunta mencionada ricamente oprimido e desfavo-
tido convencional: o “escre- na abertura do conto Olhos recido; trata-se de compreen-
ver”, aqui, tem um significado d’água – dentre tantos outros der a escrevivência como um
abstrato, aludindo ao gesto de exemplos possíveis – conver- ato que deliberadamente in-
criação cujo potencial literário gem para um mesmo ponto: veste contra os pilares racistas
é latente, mas ainda não ma- a possibilidade de construção e sexistas da sociedade brasi-
nifesto; uma vivência que de- do discurso literário enquanto leira, questionando seus valo-
termina uma escrita ainda não produção escrita que reelabo- res mais profundamente enrai-
concretizada, mas já fabulada ra e registra experiências que zados. Se isso não significa que,
subjetivamente. pertencem, inalienavelmente, em sentido lato, deslizamentos
às mulheres negras. Isso faculta não possam se revelar profícu-
Escritas-vivências duas conclusões relevantes. os – sobretudo no que diz res-
O gesto em que uma mu- Primeiro: importa ressaltar peito a vidas precarizadas ou
lher negra toma em suas mãos que a escrevivência se situa no subjetividades marginalizadas,
um lápis ou uma caneta, ou polo diametralmente oposto que podem se apropriar do
leva às teclas seus dedos, pro- àquele ocupado pelos princi- conceito como uma via para
duzindo um discurso literário pais modos de escrita que sedi- a humanização –, admitir a vin-
a partir de suas vivências, é mentaram o cânone da litera- culação fundamental entre as
sempre um ato subversivo e tura brasileira, se consideramos mulheres negras e as escrevi-
revolucionário. Trata-se de um que este foi constituído por vências implica respeitar uma
movimento que se efetiva em autores homens brancos (ou relação de pertencimento; e
sentido contrário ao que deter- mesmo embranquecidos pela prestar o reconhecimento que
minam as narrativas e os discur- tradição intelectual brasilei- lhes é devido, como escritoras
sos opressores; uma ação que, ra). Isso determina o não-lugar e intelectuais.

19
Inéditos
APRESENTAÇÃO
Simone Ricco
Sete meses, centenas de
dias e longas noites de Pande-
mia. Leituras intensificadas e
um contato mais estreito com
textos que oxigenam o isola-
mento. A palavra oscilando
entre o desencantar existente
na maioria das notícias e o (re)
encantar promovido por escri-
tas literárias que, quebrando
protocolos de biossegurança,
nos abraçam ou nos fazem cir-
cular por cenários diferentes
da surrealidade paralisante.
Enquanto os corpos circu-
lam com moderação, cresce a
demanda para soltar o verbo. A
palavra se faz escrita, invade te-
las e papéis onde são registradas
narrativas derivadas da leitura
do livro do mundo pandêmico.
Nesta seção, publica-
mos alguns desses textos. São
poemas criados a partir da
provocação de pensar as im-
bricações entre literatura e
pandemia. Atravessados por
subjetividades e atravessando
territórios diversos, 14 convida-
des refletem a pluriversidade
da cena poética preta.
Aquilombadas, vozes e
escritas remetem à sabedoria
ancestral de Conceição Eva-
risto, no poema Todas as ma-
nhãs, no qual a autora afirma * A Revista Mahin Convidou o Jornalista Niltim Lopes para
acreditar “que os nossos so- apresentar um ensaio fotográfico para a seção inéditos. Niltim é
nhos protegidos/pelos lençóis jornalista, educomunicador, coordenador da CIPÓ - Comunica-
da noite/ ao se abrirem um a ção Interativa.
um/no varal de um novo tem-
po/escorrem as nossas lágri-
mas / fertilizando toda a terra/
onde negras sementes resistem
/reamanhecendo esperanças
em nós”.
20
TUDO ISSO VAI PASSAR
Angela Peres

Meu mestre é um preto velho que vem andan- As crianças brincam felizes, sabendo que não
do devagarinho precisam lutar contra ninguém
Tocando seu berimbau… Apenas fazer a sua parte e construir sempre o
Na sua cantiga revelou que há 2 mundos bem
O antigo, que está passando; e o novo, que Jogo contrário perdeu a graça, ali só joga jun-
vem chegando to, em conjunto
Concorrência, competição… nada disso existe
Viajei no seu cantar e enxerguei o novo mundo mais
Um mundo em que pessoas se importam com Estão todos numa mesma missão
as outras Nesse mundo não existe solidão
Nenhuma diferença é vista desigual
Cada um conforme seu cada qual De repente ouço um toque de iúna,
E o amor é o imperativo ideal E na voz daquele gunga descobri minha missão
Qualquer outro humano, animal, Enxerguei antigos mestres, guiando a caminha-
Qualquer consciência numa só, universal da
Apresentando a estrada pra esse futuro acon-
Um mundo em que a harmonia reina tecer
Em que não se sabe mais o que é guerra
Encontrou-se a paz consigo mesmo Deixe sua semente florescer daqui pra frente
As fronteiras nacionais não existem mais Faça dessa ponte o lugar de onde se vê o ho-
Cada um está onde deseja estar rizonte
Cada um faz o que deseja fazer Não acredite no final que eles querem fazer
E só os antigos lembram do tempo crer
Em que se trabalhava por uma coisa chamada O novo mundo é feito agora, o portal está
dinheiro aberto
Em que se vivia pra pagar conta O farol, que é interno, indica a liberdade
E quase ninguém fazia o que veio com dom Caminhe com humildade e na origem está o vir
pra fazer a ser da humanidade

Ali no novo mundo o trabalho expressa a es- Voltei para onde estava, e meu Mestre o toque
sência terminava
Ninguém aliena nem explora Na roseira que ao seu lado estava, uma flor de-
A vida é o que mais importa sabrochava
Não há lucro, só o justo Ele disse apenas: gratidão,
Cada um tem o que precisa para si e para os Sorriu com sapiência
seus Gratidão era a chave para acessar a nova
E ninguém ambiciona ter além. consciência
Além pra quê?
Acumular é verbo de histórias antigas de um A nova possibilidade que está aberta para
mundo que se foi toda a humanidade

21
DESCOBERTA
Carmen Faustino

Descoberta
Nos dias de reclusão
Me vi em silêncio
E o não ter para onde ir
Diante a morte e a revolta
Movimentou as rotas
Das histórias que carrego
Em minha corpa
Longas caminhadas
De choros e gozos
Que desaguei
Nas andanças
E camas
Que passei
Mulher Preta que sou
Servir e zelar
Foi o pote cheio deixado
Sem opção
Para a escolha
Sem tempo
Para o próprio cuidado
Olhei dentro
Me vi lamaçal fecundo
E mergulhada em minha
Íntima cabaça
Líquida da vida e morte
Despertei a colmeia
Que trago no ventre
E lambuzada no mel do meu
gozo
Recebi o sopro ancestral da li-
bertação
Sagrado também é meu tesão
Sou uma Preta erótica!
E em tempos
De doença e luto
Águas profundas e frias
Tenho urgências pelo prazer
Práticas da desobediência
Para eu gozar viço e rebeldia Foto: Niltim Lopes
Curar as dores
Transbordar
De amor comigo
E aquecer os meus dias

22
AUTO-BORRADO
Dandara Suburbana

30 dias
Eu sem maquiagem, adornos,
Disfarces ou coisa que valha
Inteira, contraditória e nua
Menina lua
Cíclica e, porventura,
Farta nas ancas e nas palavras.
Pequena como um passarinho
Gigante como a fome
Madeira podre
Somática e delirante
Tornozelo rachado
Composto intercambiante,
Ressecamento.
Sedimentado resultado entre
Vulva molhada
Os ultrajes do sensor
Mãos abertas
E o peso da audiência.
Acolhimento.
90 dias
110 dias
Eu, instalação De outros tempos
Matéria bruta feita de água
E não sem dor, Na garganta
salgada
Também incongruência Proprietária descapitalizada
E pimenta doce
Rebolado matinal Dona de um
De um azedume poroso…
Flor murcha Conta-gotas sedento
Adubo cínico
Impermanência Cabeça de cimento
Pés largos,
A inexata sequência de Ladeira empoçada
Passos estreitos.
Flamejantes momentos. Dedo em riste
Janelas azuis
Lótus Procedimentos.
Me abrem a vida
Poeira em movimento Unhas pretas
Portais ancestrais
Entre dois mundos. Em desatento…
O visível,
Que me atormenta Não sei nem o significado
E o invisível, E a dimensão disso tudo
Que me emociona. Na dúvida entre ser
E entender
Parei de contar Sigo
Carrego casas Colecionando
Memórias seculares
Cheias de coroas
De espinhos
E linhas vasculares
Sem apocalipse
Em mim
O sangue mensal
Morre
E
Nasce.

23
VOCÊ, EU, NÓS
Jenyffer Nascimento

Hermana, Agora que o tempo parou


Tenho pensado tanto em você. E todos os dias são quase iguais
Queria que estivesse aqui Tenho lido para não enlouquecer
Penso em tudo o que já vivemos Tenho escrito para não me afogar
No horror dessa guerra declarada
As pessoas de nossa cor E ando de um lado para o outro da casa
Desesperança nunca habitou Para não endurecer de vez
Seus passos, nem sua mirada Preciso saber das suas estratégias
Ter você por perto me deu horizonte Para manter a sanidade mental
Diante da ameaça rotunda da morte
A solidão tem me arrebatado Quero ler poemas que te façam voar
Sinto muita falta da rua Como aqueles de ontem
Não consigo me adaptar Em Canções de amor e dengo**
A essa liberdade cerceada Irmã,
O isolamento é um cárcere Nunca fui boa com despedidas
Lamento pelos abraços Você, melhor que ninguém, sabe
Tão preciosos em outros tempos Tem alguns livros que nunca li o final
Que não se fazem possíveis Tenho medo de saber o que acontece
Ao menos por enquanto Encerrar, acabar e deixar ir
São verbos que nunca soube conjugar
Sista, O mundo inteiro vivendo a mesma crise
Não consigo dormir à noite Será que assim entenderão nossa dor?
Parei de ver os noticiários na televisão Será que reverenciarão nossa sabedoria?
E não quero me acostumar Será que nos devolverão nossa paz?
Com a virtualidade como única opção Não tenho certeza
Você sabe, sempre fui a mais medrosa de nós
Não posso duvidar do tempo
Agora que os ponteiros do relógio Enquanto vivemos sob ameaça
Marcam a repetição, agoniantes horas Espelho-me em seus ensinamentos
Eu me recordo da Celie Sobre cruzar fronteiras dentro e fora
As cartas que escrevia para Deus e sua irmã Na força das histórias escritas
Nettie Por mulheres como nós
A propósito, a Cor Púrpura* Leitura é alento, alimento, vida
Foi o primeiro livro que lemos juntas Onde habitar a poesia
Engraçado como a literatura Sei que você estará
Sempre nos uniu
Cuide-se
Eu vou ficar bem

24
Foto: Niltim Lopes
APESAR DE
Waleska Barbosa
Narrativas Vestir sua roupa Costurada amarrada camisa
Pandêmicas Estar no seu lugar forçada
Para falar do nada
Assassinada Exclama
Se é mulher periférica subem- Subjugada Brada
pregada, Estuprada Berra
Em tudo o que dizem você é Abusada Urra
negritada Vulnerável Ruge
Invisibilizada Chama-se palavra
Letras empaladas Multiatarefada
Emboladas na garganta Escreve
Há sinônimo para grito
Silenciada É para ser desafogar respirar
Caleja as cordas suspirar gemer chorar gozar
Verbo-mulher Batuca a expressão pouca
Não se vende não se compra A letra rouca Apesar de
não se troca A fala louca da louca que ten-
Ninguém quer ta falar Mulher.
25
EXPECTATIVA DE FIM DE MUNDO
Gênesis

Expectativa de fim de mundo Nem o Cristo retornou sempre foi precisa


E ninguém sabe que por aqui Mas as palavras ainda são sa- Chamaremos anos ou eras,
ainda nem começou gradas e o meu sangue ainda chamaremos começo ou fim.
Bem-vinda consciência corpo profana Ou não diremos nada, nenhu-
– casa – terra Sorrio, um riso malicioso ma palavra. Daremos nossa
Bem-vinda! Digo a mim mesma Que é quase um pranto, um cara de espanto.
Bem-vinda a um futuro que tu luto… Alma, ergue-se! Verdade, er-
nunca planejou É o fim, é o fim! Anunciam os gue-se!
Dar adeus e bom dia às incer- desesperados. Cantaremos o fim e o cumpri-
tezas E o silêncio das pedras ergue- mento das leis cósmicas
Recriar-se no ventre sagrado -se em coro Expectativa de fim de mundo,
de uma prostituta É o fim do fim das certezas! clima de assombro
Ah! Que dois sóis não surgiram A matemática da recriação Não há consolo e nem nunca
existiu. Éramos todos sóis.

Foto: Niltim Lopes

26
NESSES TEMPOS
Miriam Alves
O olhar da cachorrinha Muita responsabilidade para o Nada terá sido em vão
O sorriso da menina olhar Usei máscaras, naquele tempo,
As lembranças penetram Para esconder a intensidade
Os pés descalços na areia Era a perenidade de uma era que fluía ao seu toque
O abraço que só ficou no olhar Aquela que vivi E agora?
O beijo que não saiu da pala-
vra Os olhos da cachorrinha O olhar da cachorrinha
O afeto que era perene O sorriso da menina O sorriso da menina
Resistiu ao tempo Faz lembrar você
Na lembrança O que vi Hoje a máscara é de pano
Nesses tempos Parecia que não ia acabar E toque não há
Em que a máscara encobre nunca
meu sorriso Assim como o mar
Os olhos têm que dar conta de O sal das águas
dizer sentimentos O salgado das lágrimas

TRANSCENDER
Patrícia Borges e Simone Ricco

Decretada a pan pan pandemia Empurrando para a clandestinidade quem lhes


caos total dá muito prazer
março, mar de contratos cancelados mas não merece o gozo de bem viver…
trans e travestis cheios de boletos para pagar Somos vistas como putas baratas
isolados, confinados e tendo que se reinventar Por homens e mulheres convertidos à hipocrisia
corpos dissidentes à margem, Que oram e agem para tirar nossos direitos, ferir
mais vulneráveis em tempos de máscaras e co- nossa cidadania
vardia desmascarada Fecham os caminhos para a poesia

Como não sair de casa com aluguel pra pa- Vou além dessa condição marginalizada,
gar? Criada por uma sociedade equivocada,
Tendo que se alimentar? que não respeita opinião dissidente,
O vírus pode ser mortal, com a fome é igual destrata trans, artista, preto e tudo o que diz ser
O corpo que tem fome também é o ganha diferente.
pão… Transforma preconceito em piada
Se a transfobia não fosse uma epidemia E faz adoecer, sofrer e morrer por conta da vida
Seria mais fácil ter profissão precarizada
Por se ser quem é…
Pra muites de nós foi assim:
no tempo de estudar, viramos professores de Tenho muitos motivos para lamentar e lutar
nós mesmes. Vivo lutos, mas tô na batalha pra ser
Caímos no mundo, correndo atrás do pão e da transpoeta
sobrevivência de cada dia. Transcender demandas com literatura
Desde criança deu pra ver que a sociedade Romper isolamento afetivo
normativa é mascarada Repor poesia na vida real com o Transarau
Quando convém, dá uma disfarçada no pre- Afetar com versos que fazem, das dores e ale-
conceito, grias, inspiração.
Usa estratégia de rotular e desqualificar Escrever movida pelo desejo de mostrar quem
Faz piada pra nos ferir e aliviar a própria liberti- somos
nagem E de exigir reparação
Nos chama de “mulher de pau”,
Ensina “homens de bem” a agir do modo mais
boçal,
27
CAÍ E SEGUREI-ME EM PALAVRAS
Tati Villela
Palavras atravessadas, aper- Passeei por séries procurando É de ferro também é alvo das
tadas lá dentro daquele peito me perder de mim investigações
meio sem jeito Maratonei, me perdi e quase É tudo de 89 mil pra lá, mermão
Vivendo uma agonia até en- sumi Bem pra lá mesmo
tão desconhecida Assumi Do lado de cá ainda recorda-
Palavras e seus embates com Que eu precisava me encon- mos os 80 tiros no peito
o lockdown nas avenidas da trar Temos aí nosso sexto governa-
vida Meu horizonte umbigo dor preso
Sinal vermelho Me joguei quando eu queria Nesse hell de janeura apoiado
Palavras e seus anseios de che- apenas sorrir por pastores, fascisteiros, car-
gada aos ouvidos e olhos afli- Medo de mim? niceiros, baderneiros, ladrões,
tos Dos monstros que me habitam? sanguinários
À espera de ritos em meio a um Talvez Balbúrdia!
isolamento Cacos quebrados, amores mal Eles dizem defender o povo e o
Palavras num híbrido de dor, curados nosso próprio estado
esperança e lamento Ou descasos da minha saúde Onde, por ironia, a maioria é a
Palavras e suas angústias do pelo próprio estado favor de Deus
caos que as cercam numa Como pode, estou há tanto O mesmo das cruzadas, que
pandemia tempo comigo e nunca comi- não é o mesmo de nossas en-
Palavras que precisavam poe- go tanto fiquei cruzilhadas
siar a vida Valorizei alguns momentos do É o das catequizações dos es-
Mais do que nunca, naquele meu dia, respirei cravizados e indígenas
momento de disritmia social, Meditação, yoga kemética, Milíciasss!! Capitães no mato à
Poderia ser o amor e coisa e tal terapia vista! Terra planiiiiista!
Mas as palavras salivavam um O ar estava rarefeito Um tal de Everaldo ficou Tristão
grande horror Ele disse: “Não consigo respi- nesse caso
Que ficou cada dia mais evi- rar” A presidência irmã da calami-
dente Fiz da sala a minha academia dade da nossa Pátria armada
comprometendo corações, A cozinha minha melhor amiga Brazil exportado
corpos e mentes O sofá-cama-celular meu Que hoje é tomado por Bozos
Governabilidades incompe- amor e naros e narcos e barcos ami-
tentes A pia de louça minha maior ini- gos de Queiroz!
Incoerentes, porém já sabidas miga Traz a mala p/ nóis!
As máscaras subiram em uns E lá no portão ou em cima do O meu Deus continua sendo
rostos e desceram em outros muro, a dor uma mulher preta subindo e
Pálidas máscaras caídas Amanhã vai ser outro dia descendo ladeira
Hipocrisias até então escondi- A DOR MECI Com filhos nas costas e lata
das, mas não desconhecidas Ao acordar numa sexta enso- d’agua na cabeça
Fizeram-se assumidas larada, Essas latas têm sido furadas.
Do morro desciam as pretas to- Me deparo com medidas to- E o sangue de um vermelho ru-
dos os dias madas bro preto continua escorrendo
Pra cuidar e pegar a tal co- Por determinação do Superior por vielas e escadas
vid-19 de outras famílias Tribunal de Justiça (STJ) E a gente sabe de onde pra
Filhas, sobrinhas, primas, mães, Preguiça onde
tias Isso tudo nós já sabíamos e sen- Do topo só escorre o leite
Das pobres casas sumiram os tíamos desde a nuca ao umbi- Seja das suas mesas heranças
sustentos go do café com leite
Das mesas sumiram os manti- Tá lá! O governador do Rio foi Ou a laia dos donos do gado
mentos afastado do cargo que afasta e mata nossos po-
A rua virou meu sonho com a Por suspeita de participação vos indígenas e nossos aqui-
esquina devaneio em esquema de corrupção lombados
precisava passar o tempo Primeira-dama- cloroquina que Um Rio contaminado e um céu
não nublado

28
Se for favelado, o céu é só traçante
e caveirão aprumado
Ser for Pantanal, é queimado
Se for Amazônia… Quem dá mais?
Se for ônibus é lotado, quando ainda
passa é apertado
Com espirros do lado e ponto final
certeiro no SUS
— Vai descer, Motô!
Parecia que eu estava caindo

A COR DEI

Seria esse um pesadelo?


Me fortifiquei com minhas palavras-
-raízes
Declamando no espelho
Eu dizia: Escreva, preta, escreva.

Foto: Niltim Lopes

TRANS-DEMIA
Bruno Santana
Isolamento Incêndios
Lamento Criminosos?
Isolar-me da humanidade Devastação!
Que retira direitos O Agro é pop? O Agro é vida?
Que é extermina Calor, calor, calor
E consome corpos trans Horror.
Todos os dias. Alô, alô
Lamento Dinheiro, cueca, corrupção
O aumento das mortes, Mais desgoverno!
A transfobia não dorme A pandemia acabou?
70%! Cloroquina, vacina?
Não há descanso na pandemia. Segunda onda…
Dos altos postos de suas mansões Cadê os surfistas?
Porcos se lambuzam Lamento
Enquanto crianças passam fome Isolar-me
iFood, Uber Eats Alarme
Exploração, desemprego! 35 anos, expectativa?
UTIs lotadas Brutalização!
Máscaras Lamento
Caem sobre sepulturas Isolar-me
Desgoverno! Não deu tempo de me despedir.
200 lobos Quem chora pelas vidas trans e travestis?
Arroz e feijão
Inflação!
Animais mortos
29
O MONSTRO INVISÍVEL
Wesley Correia
No silêncio empalhado Penso em suas garras afiadas Penso no monstro aritmético
dos cômodos, ao desafio do visgo em quem a pulsação indissolúvel
agiganta-se que lhe escapa, cumpre certa didática amorosa,
o monstro invisível. quase como quem o nega, a de afetar, no exílio, que é
no rastro sem cor, seu método e mistério,
Penso na desventura sem cheiro ou substância, a existência rancorosa.
de suas multiplicadas presas, e penso na vida avessa,
se à ideia da mínima força sua presença Viva de instância. O manto de símbolos,
da mais frágil delas se aquece o monstro,
tomba a insólita empresa Penso nos mil olhos de sombra parece enfurecê-lo ao sabor
do meu corpo de poeta. deste monstro prolongável, da loucura mais letal
em seus tentáculos perturbado- onde habita
Penso em meus pequenos res, o sintoma universal
sustos crônicos, nutrindo e no seu modo de testemunhar, do que somos o monstro e eu.
o riso do monstro mudo: assim onipresente,
tanto maior que o mundo o desespero com que me armo, Tudo ao dissabor se cala,
quanto menor que tudo. disposto a alvejar o nada, não há assepsia que valha,
nos dias da guerra inglória. nem há por que chorar.

DESMASCARADOS
Cizinho Afreeka
Nesses tempos confinados Depois que essa maré baixar Naquele ponto cheio de calor
O racismo anda ainda mais sol- É botar para fudê humano
to Tomara que dê, naquele filho Já deixar agendado
Corrosivo, mastigando corpos adiado Logo depois que a onda passar
pretos Pela facul, mestrado Estudar violão, teclado
Todos os dias “Dia dos Finados” Chega de dar mamadeira, lim- Culinária, meu grande amor
Implacável, exacerbando a par o rabo do filho do patrão Socializar os afetos
iniquidade Tirar aquele projeto da gaveta Pois abraços acumulados
Segue imune reduzindo huma- Ter para geração Não rendem como tesouro di-
nidade reto
Sem lavar as mãos, no lugar de Corre que dá tempo
assepsia Que a vida passa Torcer para que, nesse sorteio
Como de costume acepção Sem máscara branca fúnebre,
São tantos mortos, tantos pran- Gozar a vida Não saiam os nossos RGs
tos Em diversas posições Com tantos planos, sonhos em
Que a saliva já não represente quarentena
Na pia, uma montanha de pra- perigo Tarde pra abraçar
tos Seu gosto ignição Sem fibra, febre, paladar
Tem gente que, tendo, só faz Em plenos pulmões Não sentia olfato, dor nem afeto
comer Ficar sem ar de prazer Não tinha medo nem falta de ar
Jura que, ao reabrirem as aca- Saiu de cena sem se despedir
demias, vai correr Marcar o casório, o encontro, Petrificado, frio, só ele e as flo-
Ver os netos, a mãe, irmãs conhecer você res naquele lugar
As filhas, todas as manhãs

30
Foto: Niltim Lopes

31
QUARENTENA, AGORA
Daniel Brazil

Chegamos ao estado Do outro lado do abismo


De termos que usar máscaras A esquerda quer trancar as ruas
Por cima das máscaras que já usávamos. Porque não pode mais reivindicá-las.
E a direita as ocupa
Decoradas, Enquanto alguém, longe de casa,
Ostentando identidades, Lava suas máscaras verde-amarelas.
Ajudando a garantir o pão,
De papelão, Bandeiras, hashtags,
De folhas de flandres, Fake-narrativas,
De grifes que se recusam Curas milagrosas,
A desaquecer a economia… Campanhas,
Máscaras que diferem Oportunismos,
Quem vai Promessas…
E quem não vai morrer.
E segue em disputa a ideologia do vírus.
As ruas são a própria pandemia. “Uma resposta do meio ambiente…”
“Consequência do capitalismo…”
E as crianças “Conspiração comunista…”
Que ainda não foram ensinadas a usar másca- “Praga de Deus…”
ras “Castigo de Omulu…”
Não estão usando máscaras.
“Só vão morrer os velhos”, E eu continuo
Disseram, projetando uma curva. Isolado
Então quer dizer Da família,
Que jovens negros De gente que votou em mitos,
Deixarão de ser assassinados nas favelas Dos amigos que já não via,
Em intervalos de linha reta? Do ambiente de trabalho que me adoece.

Quarentena, agora: Há quem afirme que no fim será bom,


Mais uma criança morta Que teremos que repensar nossos hábitos
Que não viu os rostos de seus assassinos. E ritmos de vida.
.
.
.
Qual vida?

32
Foto: Niltim Lopes

33
A ÚLTIMA SOLIDÃO DE JOSÉ JURANDIR DE
CAIOABA
Éle Semog

A terra é boa e a gente daque- Passageiro ido de um útero va- frágio.


le lugar zio, enjoou
não é tão diferente de outras no balanço lúgubre do Atlânti- Seus iguais sofreram mais que
gentes, co e outros mares. ave Maria,
de lugares alhures por onde se Viveu no minguado berço, que zombando dos algozes, igno-
passam a um só tempo rou o que podia,
fazendo negócios, escambos, era esquife e ataúde, donde enquanto dentro de si a ferida
trocando cultura, pelas brechas mais fervia
cada pessoa é, em si, seu pró- via bizarras estrelas, e sentia a José Jurandir de Caioaba fez
prio quinhão. Era. água nos ossos. muitas revoluções
Num repente chegou a alma E assim, por ser tão vida, como no corpo, na fé, na fala, no
branca e a cruz a vida exigia, olhar, nos sentimentos
carregadas de infernos, purga- sobreviveu à voracidade da que se espalhavam dia e noite,
ções, doenças, primeira pandemia. noite e dia. E hoje.
e dor, e miséria, e fome, e de- A mais cruel, a mais suja, a mais Renitente, as trevas expandiam
savenças… longa, a mesma pandemia,
Veio pronta, inevitável como a que se inaugurou na nefasta semovente, algodão, açúcar,
terrível endemia travessia. fumo, minério e café,
e a pele preta de José Jurandir E por quatro séculos não houve de tanto ser engolido fez-se
de Caioaba reza, feitiço, paisagem da doença
viveu sua primeira solidão em simpatia, ou remédio que para nos levar a tão, agora,
sórdida agonia. curasse a maldita poderosa resistência
Mesmo quem não sabia ler sor- escravização e as sequelas da- como se fossemos rizomas,
tilégios, viu quela pandemia. teias de uma mesma
a coisa branca se espalhar. E E a pele preta de José Jurandir urdidura, onde toda a gente
noutro repente de Caioaba preta, sem igualdade
o que era endemia alcançou viveu sua terceira solidão em ou lamúria, quer reaver seus
a gente que era boa sórdida agonia. haveres reparados.
e as terras daqueles lugares, Não foi pela manhã ou à noite
devorando tudo, naquele chão, Agora que a doença mata
ouro, ciência, saberes, corpos, foi exato quando parido no qualquer cor de gente,
como voraz endemia. tempo explicito José Jurandir de Caioaba, viu
E a pele preta de José Jurandir de vinte e oito dias no porão um asno de terno,
de Caioaba do tumbeiro, broche na lapela, falando ar-
viveu sua segunda solidão em na sina insana do seu primeiro rouba, como arroba,
sórdida agonia. e único exílio. tratou de se recolher com seus
E feito um rio que desagua em queridos entes,
Caçado, dominado, submeti- nada foi ser solidão até a pandemia
do, revoltado vagou por muitos caminhos verborrágica passar.
chegou aqui e acolá desnasci- d’águas
do, mas havido. sem ser a barco, peixe ou nau-

34
Foto: Fernando Soledade

Literatura,
amor e cura.
Por Vagner Amaro

35
Lançado em 2020, pela que é fragmentado, sem trans- direção ao céu, o corpo num
Mjiba, Filha do fogo: 12 con- missão estreita de influências, giro desfocava o ambiente.
tos de amor e cura traz uma mas que é fortificado sempre Os pés pareciam suspensos no
diversidade temática muito que posto em diálogo com ar”. Gosto de pensar que nes-
interessante, orbitando nas ex- um porvir literário, deste chão te movimento de suspensão
periências humanas expressas que as narrativas de Elizandra e mirada livre e alegre para o
em seus personagens. “Quan- Souza promovem sua guinada mundo, descrito para a perso-
do tinha dois anos, conheci autoral. nagem Zaji “feito um incenso
a mandinga praticada pela Uma autoria nitidamente de jasmim”, “fazendo presente
minha vó”, de Filha do fogo, identificável como um projeto no seu espaço”, que Elizandra
“Apesar de vozinha não gos- único, na estruturação dos en- Souza compôs seu livro-contri-
tar, a devoção de meu pedi- redos, na forma como faz uso buição de cura para leitores
do ao meu avô foi tão forte de provérbios, na tematização afetados pelo mal das violên-
que”, de A primeira vez que fui dos afetos e do respeito em re- cias contra a população ne-
ao céu, “Dona Dudu era uma lação aos idosos e aos saberes gra e pelo desamor ampliado
das moradoras mais antigas do populares, na constituição de pelas novas formas de estar na
bairro”, de Dona da cumbuca, uma narradora negra que res- vida e em relação com o ou-
“Os provérbios que minha vó peita seus personagens, permi- tro.
ficava o tempo todo repetin- tindo que eles sejam o que são, Uma contribuição que se
do”, de Muita trovoada é sinal sem interferências/julgamentos efetiva ao escrever literatura
de pouca chuva. A presença que costumam poluir muitos com os enfrentamentos inarre-
marcante dos mais velhos em textos, equivocadamente no- dáveis e ao enriquecer o uni-
Filha do fogo e sua importân- meados como literatura. verso da literatura negro-brasi-
cia para ensinar, alegrar, curar Por tentar ler o “livro den- leira enunciando cura e amor.
é bem destacada, sugerindo tro do livro”, talvez, tudo que
que a ancestralidade é um tenha apresentado até então
dos pilares de sustentação da fale pouco sobre o que Filha
literatura de Elizandra. Se a lite- do fogo é em sua superfície, e
ratura brasileira que encontrou isso se dá em razão de que as
mais espaço de publicação, duas características mais mar-
estudos e circulação se ancora cantes da obra são a sutileza
em um tipo de tradição, ouso e a liberdade. Neste sentido,
elaborar que a literatura de Eli- os doze contos de amor e cura
zandra Souza se funda em uma também podem ser lidos como
noção de ancestralidade, em competentes narrativas, apre-
que se mesclam, entre outros sentado histórias de mulheres
elementos, a história oral afri- e homens negros que, com al-
cana e afro-brasileira, o senso gumas exceções, transitam em
de pertencimento étnico, a espaços urbanos da contem-
consciência de raça e clas- poraneidade. A cantora de
se e gênero, o conhecimento música negra, a empreende-
afro-religioso e as elaborações dora no ramo de calcinhas, a
contemporâneas para se pen- digital influencer, o militante do
sar a autoria negra, legado da movimento negro, a estudan-
Geração Cadernos Negros, te de uma escola pública, são
e, mais especificamente, dos personagens que representam Título: Filha do Fogo - 12 Con-
pensamentos do escritor Cuti pessoas que poderiam passar tos de Amor e Cura
(Luís Silva) ao formular o con- por nós em uma rua agitada Autora: Elizandra Souza
ceito de literatura negro-bra- de São Paulo. No entanto, por Ilustradora: Vanessa Ferreira
sileira e da escritora Concei- dentro do texto, Elizandra cos- Editora: Mjiba – Comunica-
ção Evaristo, na elaboração tura os grandes temas, e pode ção, Produção e Literatura
do conceito de Escrevivência. dentro dele, exercita sua liber- Negra
É uma literatura que dialoga dade como autora. Páginas: 96
em subsentido com a literatura As ilustrações de Vanessa Ano: 2020
de Maria Firmina dos Reis, Luís Ferreira são de uma beleza ím-
Gama, Lima Barreto, Carolina par, a que antecede o conto
Maria de Jesus, Miriam Alves, disritmia é de uma mulher ne-
Cristiane Sobral, e deste chão, gra “de braços erguidos em

36
PERFIL:

Stefano
Volp Por Marlon Souza
Stefano Volp é autor
de 4 livros de ficção e atua
como idealizador e produ-
tor editorial do Clube da
Caixa Preta, um clube de
resgate de contos clássicos
escritos por autores negros.
Volp é formado como rotei-
rista pela Academia Interna-
cional de Cinema e produz
música nas horas vagas. Seu
próximo trabalho é o Ho-
mens pretos (não) choram,
que será lançado em breve.

Stefano, você é escritor, rotei-


rista, jornalista, compositor e
cantor. Como faz para conci-
liar todas essas funções no dia
a dia?
É difícil viver da arte do Brasil. Eu
tento diferentes frentes e por-
tas, em busca de me expressar
artisticamente. Hoje vivo de
projetos literários e do roteiro
audiovisual. A música fica um
pouco mais de lado, mas uma
hora ou outra também surge,
Foto: divulgação

de modo a complementar um
projeto, ou só pra eu me diver-
tir mesmo. Brasileiro sabe e tem
que se virar nos 30.

37
Você publica muitas histórias 160% da meta, mas só eu sou- negros importantes no renas-
voltadas para o público mais be o tamanho da ansiedade cimento do Harlem. São todos
jovem, trazendo protagonistas e do preparo antes da cam- fundamentais pra mim. Du Bois,
negros e uma certa reparação, panha. Ainda assim, é um pro- Zora Neale Hurston, Jessie Fau-
já que a maioria das produ- cesso que vale a pena. Não só set, James Baldwin… todos!
ções do mercado editorial con- te permite financiar uma obra,
ta com personagens brancos. mas criar uma base de apoia- Como é seu processo de escri-
Nesse sentido, como tem sido a dores que segura sua mão e ta? Você segue algum roteiro,
recepção de seus leitores? te acompanha por onde você faz muitas pesquisas?
Acho que as pessoas racializa- for. Tenho vivido experiências Só começo a escrever depois
das estão, mais do que nunca, incríveis graças a esse método. que o outline está pronto. Em
em busca de algo com o que E lucrado muito mais do que meu processo não existe sentar
possam se identificar de verda- em uma editora. pra escrever sem antes saber
de. Quando encontram isso, exatamente para onde estou
dão muito valor. O processo O que você busca ao publi- indo. Estruturo toda a história,
de conscientização racial te car? Quais histórias quer pas- inclusive limito caracteres an-
faz perceber tantas lacunas sar com cada trabalho? tes de começar a escrever.
no mercado que, de repente, Autoconhecimento. Acho que Só começo depois de ter uma
não faz mais sentido não querer todas as minhas histórias, no fi- sinopse clara de todos os ca-
contar suas próprias histórias em nal das contas, giram em torno pítulos. Os acidentes da cami-
seu lugar de fala. Representati- do ato de se conhecer. Real- nhada recheiam o plot.
vidade tá na moda, mas ainda mente acredito que só encon-
há muito estereótipo a ser que- tramos propósito na vida se es- Este ano foi totalmente inespe-
brado. Sigo tentando somar. tivermos dispostos a embarcar rado por todos. Como tem sido
numa jornada dentro de nós produzir no período de pande-
Em O Segredo das Larvas você mesmos. Escrevo sobre isso, de mia, além de viver nessa incer-
traz uma distopia que reúne diversas formas. teza?
racismo, violência contra a Foi melhor do que imaginei.
mulher, abuso sexual e outros Poderia nos falar sobre seu Abri mão do meu antigo tra-
temas relacionais. Como foi o próximo lançamento, Homens balho convencional como
processo de escrita dessa obra? pretos (não) choram? webdesigner para trabalhar
Foi o livro mais complicado que É uma coletânea de crônicas apenas escrevendo. Montei
escrevi. Precisei estudar prota- escritas durante a pandemia. campanhas de financiamento
gonistas femininas e trocar mui- Um ensaio sobre masculinida- coletivo, recebi muito apoio,
ta ideia com mulheres. Depois des e negritudes. Tenho ana- sobrevivi e me reinventei. É
de pronto, foi betado por um lisado arquétipos do homem claro que tudo isso no meio
público feminino e feminista. Ali preto e masculinidades não- de surtos, crises de ansiedade
descobri a quantidade de falhas -convencionais. Nem sabia e desespero. Mas tô vivo, com
sobre as quais minha visão, cons- que eu podia ser cronista, mas saúde e trabalhando com o
truída em uma sociedade pa- esses textos apareceram e re- que amo. Não posso reclamar
triarcal e machista, me levou a solvi experimentar. A meta do de nada.
escrever. Daí veio um novo repa- financiamento coletivo foi ba-
ro, e assim o livro foi sendo cons- tida em 10 dias, e percebi que,
truído. Aos trancos e barrancos. mais do que necessário, esse
Considero a missão cumprida. é um assunto sobre o qual as
pessoas querem falar. Será pu-
Apesar de já ter publicado por blicado em dezembro.
algumas editoras, você tem
dedicado as suas últimas pu- Quais são suas inspirações li-
blicações à campanhas de fi- terárias? Quais autores e livros
nanciamento coletivo de forma você acredita que são funda-
independente. Como tem sido mentais para sua formação?
realizar essas campanhas? Estive numa onda cronista, en-
Eu amo! Dá muito trabalho tão minhas inspirações foram a
Foto: divulgação

montar uma campanha de dona Conceição Evaristo e a


financiamento coletivo e sus- Cíntia Moscovich. No geral, sou
tentá-la até o fim. Muito mes- muito fã de thrillers psicológi-
mo! Em Homens pretos (não) cos e distopias. E agora tenho
choram cheguei a arrecadar consumido as obras de autores
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Lançamentos
O AVESSO DA PELE
Jeferson Tenório
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 194
ISBN: 9788535933390
Um romance sobre identidade e as complexas relações ra-
ciais, sobre violência e negritude, O avesso da pele é uma obra
contundente no panorama da nova ficção literária brasileira.
É a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado
numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar
o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma
narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfí-
cie um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional
falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos.
O que está em jogo é a vida de um homem abalado pelas
inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de negro em um
país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas tam-
bém de redenção, superação e liberdade. Com habilidade inco-
mum para conceber e estruturar personagens e de lidar com as
complexidades e pequenas tragédias das relações familiares, Jeferson Tenório se consolida como
uma das vozes mais potentes e estilisticamente corajosas da literatura brasileira contemporânea.

BLACK BAZAR
Alain Mabanckou
Editora: Malê
Páginas: 220
ISBN: 9786587746005
Após ser abandonado por sua companheira e por sua filha, o
protagonista de Black Bazar, seguindo o conselho de um amigo,
o escritor haitiano Louis-Philippe Dalembert, compra uma máqui-
na de escrever e começa a registrar um diário das experiências e
sentimentos que a separação o faz suscitar.
Apelidado pelos amigos do Jip’s bar – um bar afro-cubano
em Paris –, como Bundólogo, pela paixão que nutre por nádegas
femininas, a ponto de inferir a personalidade de cada mulher que
observa a partir das características do bumbum, o narrador de
Black Bazar nutre outra paixão: a moda. Vivendo em um apar-
tamento simples, mas se vestindo com os melhores ternos, como
um dândi africano, o narrador segue o padrão estético da SAPE
– Sociedade de Ambientadores e de Pessoas Elegantes, fundada na favela de Bacongo, na Re-
pública Democrática do Congo, nos anos 1960, quando o país estava sob comando do ditador
Mobutu Sese Seko e era ainda conhecido como Zaire. Os sapeurs usavam ternos de cores fortes
e corte meticuloso, destoando do cenário de pobreza e representando uma ofensa ao governo

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da época.

VELHOS DE-
AKIN: O REI ANTOLOGIA
MAIS PARA
DE IGBO NEGRAS
Marcos Cajé
Várias autoras MORRER
Ilustrador: Dom Lito
Editora: Independente Vinícius Neves Ma-
Páginas: 70
Editora: Malê Negras de tons claros, mé- riano
ISBN: 9786587746012 dios, escuros, tão diferentes e Editora: Malê
Páginas: 72 completamente iguais em sua ISBN: 9786587746210
O livro Akin: o rei de Igbo, luta constante de mostrar que Páginas: 280
do escritor baiano Marcos a quantidade de melanina Quando os idosos se tor-
Cajé, fabula um reino africano na pele não as define, não as nam a maioria da população,
anterior à colonização ociden- diminui, não as isola e nem as o mundo entra em colapso
tal na Nigéria. O autor constrói transforma em algo além de econômico e uma crise social
uma narrativa itan, alicerçado seres perfeitos em suas imper- se instaura. Enquanto jovens
nos ensinamentos dos mitos das feições. recorrem a tratamentos anti-
religiões de matriz africana. Ele O que você diz, como -idade cada vez mais avan-
nos envolve com a jornada de olha, pensa, julga e classifica çados, velhos são jogados à
aventura do personagem Akin, não define somente a si, mas margem da sociedade. É nes-
o prometido pelas profecias do àquela que é seu objeto de se lugar que três personagens
oráculo a salvar o reino da tira- atenção. Essa antologia tem de diferentes idades se per-
nia do rei déspota, Enitan, e da como o objetivo trazer à luz as guntam sobre qual o sentido
feiticeira Adanna. Cajé encru- realidades de mulheres negras de envelhecer em um mundo
zilha, desde o início, a trajetó- e o seu convívio em socieda- que despreza a velhice. Velhos
ria de Akin, criança protegida de. demais para morrer, de Vinícius
pela mãe, Azira, guerreira Igbo, Qual o seu tom? Neves Mariano, foi o vencedor
ao treinamento com as guer- Uma antologia voltada na categoria romance do Prê-
reiras do Círculo da pedra em para mulheres negras, feita por mio Malê de Literatura. Vinícius
uma dimensão espiritual, até a mulheres negras que mostram constrói uma distopia, em que
sua transformação em grande suas realidades. a imposição antienvelheci-
guerreiro, em rei, em Xangô. Vamos dar voz a seis gran- mento da sociedade atual é
des autoras que vêm trazer o projetada em outra sociedade
que é ser uma mulher na selva ficcional, onde a luta desespe-
de pedra, convivendo com a rada contra os efeitos da pas-
minimização do ser por causa sagem do tempo, se configura
de um simples fator biológico. em um romance original, insti-
gante e envolvente.
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POEMAS DO ROLETA DE POESIA
REGRESSO GENOCÍDIO REUNIDA
Geni Guimarães Daniel Brazil
Editora: Malê Editora: Oríkì Paulo Colina
ISBN: 9786587746241 Páginas: 81 Editora: Ciclo Contínuo
Páginas: 138 ISBN: 9786580762019 Editorial
A coletânea Poemas do Roleta do Genocídio é o Páginas:
regresso marca o reencontro primeiro livro de Daniel Brazil.
de Geni Guimarães com a po- Os poemas partem de dados Editado por Eunice Sou-
esia. A última publicação da violentos de um mapa que re- za e Marciano Ventura, com
autora no gênero foi Balé das vela a interrupção precoce de apresentação do jornalista e
emoções, em 1993. Os sessenta jovens negros a cada 23 minu- escritor Oswaldo de Camar-
e dois poemas que compõem tos, do choque e de um outro go e posfácio do pesquisador
o livro demostram que o senso modo de pensar o tempo a e crítico de literatura Ricardo
poético de Geni permaneceu partir de então. São signos de Riso, Poesia reunida, de Paulo
guarnecido neste longo tempo uma diáspora africana que ex- Colina, traz a reedição do tra-
ausente. A leitura de Poemas põem marcas graves do racis- balho poético de um grande
do regresso é uma possibilida- mo e de suas estruturas, e que nome da poesia brasileira das
de de encontro com a subje- também revelam modos de décadas de 1980 e 1990.
tividade de uma escritora que sobreviver, resistir e existir num Publicada em saudação
regressa à literatura nos con- país que insiste na eliminação ao septuagésimo aniversário
tando vivências emocionais e dos corpos, da cultura e dos do autor (1950-1999), esta reu-
visões de mundo, uma narra- saberes negros. nião apresenta ao leitor, em
dora poética, comprometida uma edição portátil, os 3 livros
com suas intenções artísticas: de poesias publicados pelo au-
“Dar à luz a um verso, que seja tor, de 1984 a 1989.
tão palpável e de tamanha
exatidão, que nele o próprio
coração respingue” .

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MEUS PAIS E EU
Deko Lipe
Editora: Se liga editorial
Páginas: 104
ISBN: 9786599085956
Nada de novo acontecia na vida de Ana Clara: crianças
mais novas passavam o dia fora do Lar, e ela, cada vez mais per-
to de completar quatorze anos, sentia a insegurança de não ser
mais adotada. Até que um papel mudou toda a sua vida. Num
piscar de olhos, passou a ter tudo com o que sempre sonhou: um
quarto só dela, uma biblioteca própria, novos amigos, um colégio
legal e dois pais.

GUARDEI NO ARMÁRIO
Samuel Gomes
Editora: Paralela
Páginas: 351
ISBN: 9788584391776
O relato de como um jovem nascido na periferia de São Pau-
lo superou o racismo e a homofobia para lutar pelos próprios direi-
tos — e de muitos outros como ele —, acompanhado de diversas
entrevistas com personalidades LGBTQIA+. Samuel Gomes teve
uma infância parecida com a de vários outros meninos nascidos
na periferia das grandes cidades brasileiras: dividia o quintal de
sua casa com muitos parentes, estudava em uma escola do bair-
ro e via seus pais batalharem para dar um futuro melhor a ele e à
sua irmã. Porém, logo começou a perceber que era diferente da-
queles que o cercavam: ele sentia atração por outros meninos.
Assim, o medo de ser quem é foi um fio condutor do seu amadu-
recimento, ainda mais por ser negro e fazer parte de uma família
extremamente evangélica. Além das várias situações de racismo
e discriminação que teve que enfrentar, tinha a Igreja, que não era apenas um lugar que frequen-
tava aos domingos com sua família, mas sim uma instância onipresente em sua vida, que ditava
seu modo de vestir, de se comportar, de pensar e de viver.

O AUSENTE
Edimilson Almeida Pereira
Editora: Relicário
páginas: 124
isbn: 9786586279177
Primeiro romance de uma das principais vozes da poesia bra-
sileira contemporânea, O ausente traz uma narrativa que retrata
os embates dos personagens entre as exigências do destino e a
ânsia da liberdade. A vida rural é o cenário vivo e atemporal em
que se desenrola a trama, cenário reconstruído também pela lin-
guagem poética e potente do narrador.

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A PUPILA É PRETA
Cuti
Editora: Malê
Páginas: 102
Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, lança o livro de contos A pu-
pila é preta pela Editora Malê. Em um dos contos, um casal dis-
cute. O namorado questiona por que não é apresentado ao pai
da moça. Ela responde, “Você não viu a foto do meu vô?”. No
que ele diz “A tua pupila é mais preta do que eu e teu avô.” Em
A pupila é preta, Cuti emula conduz o leitor para ver com mais
ou menos nitidez os objetos que revela em seu universo ficcional
literário, onde espelha, a partir de uma experiência estética vigo-
rosa, as imagens de uma sociedade racista, violenta e desigual
em diversos aspectos.

ESCRITOS NEGROS: CRÍTICA


E JORNALISMO LITERÁRIO
Tom Farias
Editora: Malê
Páginas: 382
O escritor e jornalista Tom Farias lança Escritos negros: crítica
e jornalismo literário pela Editora Malê. A publicação reúne maté-
rias, entrevistas e resenhas sobre a cena literária negra nos últimos
trinta anos, tempo em que o jornalista se dedicou ao ofício de
produzir fortuna crítica para obras de Conceição Evaristo, Éle Se-
mog, Elisa Lucinda, Salgado Maranhão, Carolina Maria de Jesus,
Cristiane Sobral, Maria Firmina dos Reis, Paulo Lins, entre tantos ou-
tros escritores negros. Tom Farias é biógrafo de figuras essenciais
para se entender a formação cultural brasileira, como José do
Patrocínio (1853-1905), Cruz e Sousa (1861-1898) e Carolina Maria
de Jesus (1914-1977), e reúne, além da seleção preciosa de crí-
tica literária, cinquenta verbetes biográficos que dimensionam a
atuação de escritores e escritoras negras na literatura brasileira.

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Foto: André Martins
A POESIA NEGRA-FEMININA DE
CONCEIÇÃO EVARISTO, LÍVIA NATÁLIA E
TATIANA NASCIMENTO
Heleine Fernandes de Souza
Aza Njeri - Doutora em Literaturas Africanas (UFRJ) e pós-doc em
Filosofias Africanas (UFRJ)

Poesia é fôlego vital de feminina e negra na literatu- emparedamentos da negritude


resistência negra-feminina e é ra, evidenciando o quanto para reforçar a identidade na
esse o fio condutor da obra A essa arte – que se quer ca- luta antirracista e antigenocida.
poesia negra-feminina de Con- nônica – reproduz o ethos Considero esta obra uma refe-
ceição Evaristo, Lívia Natália e ocidental calcado na lógica rência para os estudos de po-
Tatiana Nascimento, de Helei- patriarcal, colonizadora e su- esia feminina negra, pois, não
ne Fernandes. A autora mergu- premacista branca. Em segui- apenas aponta o problema do
lha nas Escrevivências poéticas da, aprofunda a reflexão em racismo estrutural e o machismo
das três poetas afro-brasileiras torno do epistemicídio, esse vigente na literatura brasileira,
para fazer emergir reflexões so- silenciamento e apagamen- mas, sobretudo, desvela a pro-
bre o labor estético como pul- to genocida que recai sobre dução epistêmica afrodiaspó-
são de vida, resistência e per- as produções, tecnologias e rica usando três artistas negras
manência de mulheres negras. saberes negros, apontando o da contemporaneidade de di-
Para tal tarefa, Heleine Fer- quanto a literatura afro-brasi- ferentes gerações e compreen-
nandes apresenta um pano- leira tem uma agenda contra- sões de sua identidade.
rama que localiza a produção epistemicida, que localiza os

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