Você está na página 1de 27

HISTÓRIA DA TEOLOGIA CRISTÃ 1

Professor: Cornélio Póvoa de Oliveira


http://www.semeandoabiblia.blogspot.com/

Introdução

A história da teologia cristã é marcada por várias lutas. Algumas dessas lutas se deram
no campo das palavras e muitas outras de armas nas mãos. Estamos falando de um
período de mais de dois mil anos, onde muitos homens deram suas vidas em defesa de
sua fé e de sua compreensão bíblica.
Para seu melhor estudo, a teologia cristã foi dividida em períodos, os quais são:

• O período Patrístico, d.C. 100 - 451;

• A idade Média e o Renascimento, 1050 - c.1500;

• Os períodos das Reformas e da pós-Reforma, 1500 - c. 1750;

• O período Moderno e o pós-Moderno, 1750 - até os dias atuais.

Para nosso melhor estudo estaremos dividindo nossa disciplina em duas partes:

• História da Teologia Cristã I - O Período Patrístico: Os Pais Apostólicos até Agostinho

• História da Teologia Cristã II - Idade Média: De Agostinho a Lutero

• História da Teologia Cristã III - O Período Moderno: Desde a Reforma até o Presente

A história da teologia não se inicia no começo. Isto é, a teologia cristã começou muito
tempo depois de Jesus Cristo ter caminhado na terra com seus discípulos e mesmo
depois de ter morrido o último discípulo e apóstolo.
O último apóstolo de Jesus a morrer foi João “o amado”, que morreu por volta de 90,
embora a data exata seja incerta. João é o pivô da história da teologia cristã, porque sua
morte marcou um momento decisivo.
Com a sua morte, o cristianismo entrou numa nova era, para a qual não estava
inteiramente preparado. Já não seria possível solucionar debates doutrinários, ou
quaisquer que fossem, apelando para um apóstolo.
Enquanto os apóstolos viviam, não havia necessidade da teologia no mesmo sentido que
depois de sua morte. A teologia nasceu à medida que os herdeiros dos apóstolos
começaram a refletir sobre os ensinamentos de Jesus e deles a fim de explicá-los em
novos contextos e situações, e de resolver controvérsias quanto à crença e conduta
cristãs.
O que podemos afirmar é que a história da Teologia Cristã começa no século II, cerca de
cem anos depois da morte e ressurreição de Cristo, com o inicio da confusão entre os
cristãos no Império Romano, tanto dentro quanto fora da Igreja. Os desafios internos
principais eram semelhantes a cacofonia de vozes que muitos cristãos em nossos dias
chamariam de "seitas", ao passo que os desafios externos eram semelhantes as vozes
que muitos hoje chamariam "céticos". É dessas vozes desafiadoras que surgiu a
necessidade e os primórdios da ortodoxia - uma declaração definitiva daquilo que é
teologicamente correto.
Esses desafios à mensagem apostólica e à autoridade dos sucessores nomeados pelos
apóstolos tiveram tanto sucesso em criar caos e confusões que se tornou imprescindível o
desenvolvimento de uma reflexão teológica formal para combatê-los.

Bibliografias:

OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São
Paulo: Editora Vida.
HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Editora Concórdia.

AULA 1

A ERA DOS PAIS ECLESIÁSTICOS OU PAIS DA IGREJA

Os grandes perturbadores do cristianismo apostólico no século II foram os gnósticos,


Montano e os montanistas e o orador anticristão Celso.
Nesta primeira parte de nosso estudo vamos identificar esses movimentos que trouxeram
perturbações a Igreja de Cristo.

CLASSIFICANDO OS MOVIMENTOS DESSE PERÍODO

• 1 – O Gnosticismo
• 2 – O Montanismo
• 3 – Filósofo Celso

1 – O GNOSTICISMO

O gnosticismo é um rótulo genérico aplicado a uma grande variedade de mestres e


escolas cristãs que existiam às margens da igreja primitiva e que chegaram a se tornar
um grande problema para os líderes cristãos no século II. O nome provém da palavra
grega gnosis, que significa “conhecimento” ou “sabedoria”.
Certa tradição do século II descreve o embate entre o discípulo João e um eminente
mestre gnóstico de Éfeso por volta de 90 a.C., seu nome era Cerinto. Possivelmente este
tenha sido um dos primeiros mestres gnósticos e perturbadores do cristianismo do final do
século I.
Os gnósticos não tinham organização unificada e discordavam entre si a respeito de
muitos assuntos, mas todos acreditavam possuir um conhecimento ou sabedoria espiritual
superior à que possuíam e ensinavam os bispos e outros líderes eclesiásticos do século
II. Em resumo, acreditavam:
• Ser a matéria, incluindo o corpo, uma prisão inerentemente limitante ou até mesmo um
obstáculo maligno para a boa alma ou espírito do ser humano.
• Quanto ao espírito acreditavam ser este essencialmente divino, uma “centelha de Deus”
e que estava aprisionado no túmulo que é o corpo.
• Para todos os gnósticos, a salvação significava alcançar um tipo especial de
conhecimento, que não era conhecido pelos cristãos comuns. Tal gnosis ou
conhecimento, implica reconhecer a verdadeira origem celestial do espírito, sua natureza
divina essencial, como uma parte do próprio Deus.
• Cristo era o mensageiro espiritual imaterial enviado por esse Deus desconhecido que
desejava resgatar as centelhas dispersas de seu ser, agora aprisionadas em corpos
materiais.
• Todos os gnósticos acreditavam que Cristo não havia encarnado, mas que
simplesmente tinha a aparência de um ser humano.

No século XX, diversos grupos e indivíduos que se proclamam “cristãos da Nova Era”
ressuscitaram a mensagem gnóstica do século II. George Trevelyan e Elizabeth Clare
Prophet são dois nomes entre estes que propagam a Nova Era.

2 – O MONTANISMO

Seus partidários o chamavam Nova Revelação e Nova Profecia e seus oponentes o


chamavam montanismo, por causa do nome do fundador e principal profeta: Montano.
Montano foi um sacerdote pagão da região da Ásia Menor chamada Frigia que se
converteu ao cristianismo em meados do século II.
Montano rejeitava a crescente fé na autoridade especial dos bispos (como herdeiros dos
apóstolos) e dos escritos apostólicos. Considerava as igrejas e seus líderes
espiritualmente mortos e reivindicava uma “nova profecia” com todos os sinais e milagres
dos dias ideais da igreja primitiva no Pentecostes.
Para os bispos e líderes das igrejas o problema não era tanto a crítica feita por Montano à
falta de vida espiritual e seus apelos em prol do reavivamento, mas sua auto-identificação
como o “Porta-voz do Espírito Santo” e acusava os líderes oficiais da igreja de prender o
Espírito Santo dentro de um livro, ao tentar limitar a inspiração divina aos escritos
apostólicos.
Duas mulheres, Priscila e Maximila, uniram-se a ele, e o trio passou a profetizar o breve
retorno de Cristo à sua comunidade e a condenar os bispos e líderes das principais sés
metropolitana (áreas dirigidas pelos bispos) como destituídas de vida, corruptos e até
mesmo apóstatas. Montano e as duas profetizas entravam em transe e frenesi espirituais,
falando na primeira pessoa como se Deus, o Espírito Santo, falasse diretamente através
deles.
Durante décadas a igreja mostrou-se extremamente desconfiada quanto a profetas
autoproclamados, temendo que talvez pretendessem substituir os apóstolos como
autoridades especiais suscitadas por Deus, à parte das estruturas da igreja. As igrejas
principais do Império Romano e seus bispos, a fim de preservar a união em uma estrutura
visível e nos ensinos, decidiram adotar um conceito de “sucessão apostólica” semelhante
ao posteriormente criado.
Mas, entre os cristãos da metade do século II, ainda havia profetas carismáticos
itinerantes e estacionários. E, por vezes, podiam ser bem problemáticos, como revela um
dos escritos pós-apostólicos mais antigos, o Didaquê. Esse texto anônimo do começo do
século II oferece conselhos conflitantes aos cristãos sobre como lidar com tais profetas
aventureiros que falavam em nome de Deus.
A dura resposta dos líderes eclesiásticos a Montano não foi tanto porque ele e suas
companheiras proclamavam palavras da parte de Deus ou defendiam o ascetismo
rigoroso (proibição do casamento e das relações sexuais, jejuns severos, etc.), mas sim
porque rejeitavam os herdeiros dos apóstolos e reivindicavam inspiração e autoridade
especiais para as próprias mensagens. Quando os seguidores de Montano começaram a
fundar congregações separadas que rivalizavam com bispos de todas as partes do
Império Romano, estes reagiram com rapidez e severidade. Talvez até com severidade
demais.
Alguns diriam que se trata de um caso clássico de jogar o bebê fora junto com a água
suja do banho. Alguns bispos se reuniram secretamente, pois não tinham o apoio do
Império Romano (Estado da época), e excomungaram a Montano e todos seus
seguidores.
Talvez esse tenha sido o primeiro cisma, ou divisão organizacional, real dentro do
cristianismo. Desde o ano de 160, em muitas cidades do Império Romano havia duas
congregações cristãs distintas: uma seguia a liderança de um bispo na sucessão
apostólica e outra seguia a Nova Profecia de Montano.

Sempre e onde quer que a profecia for elevada a uma posição igual, ou superior, ás
Escrituras, lá estará o montanismo em ação.

3 – FILÓSOFO CELSO

O gnosticismo e o montanismo constituíam duas ameaças internas à igreja e à sua


mensagem apostólica, ou seja, a união e à integridade do cristianismo primitivo.
Um desafio externo de grande peso surgiu de escritores e oradores judeus e pagãos,
como: Fronto, Tácito, Luciano, Porfírio e especialmente Celso.
O filósofo pagão Celso que, por volta de 175 ou 180, escreveu um livro contra a fé dos
cristãos intitulado: A verdadeira doutrina: um discurso contra os cristãos. O conteúdo do
livro foi preservado na integra pelo filósofo e teólogo Orígenes de Alexandria, que deu sua
resposta em Contra Celso [Contra Celsum].
No período em que aumentavam os boatos e as falsas acusações contra os cristãos e em
que eram extensivamente perseguidos e considerados ignorantes e supersticiosos, senão
até desleais, tanto pelos imperadores quanto pelos plebeus, Celso fez uma crítica
extremamente brilhante e articulada contra a fé cristã. Ele destacou os pontos que
pareciam ser inconsistentes dentro da doutrina cristã, a partir de sua visão filosófica.
Uma coisa era os cristãos refutar boatos obviamente falsos, como o de se envolver em
rituais de sangue nos quais assavam e comiam criancinhas. Outra coisa bem diferente
era responder racional e até filosoficamente a um orador romano culto e bem-articulado.
Mas era preciso responder pois, ao que parece, Celso tinha a atenção do imperador.
Marco Aurélio, imperador romano do final do século II, era filósofo e opositor do
cristianismo. Refutar Celso era uma maneira de acalmar a ira do imperador contra o
cristianismo e refutar que o cristianismo era um perigo para o império.
O ataque de Celso ao cristianismo é rico em informações sobre a vida e a fé cristã do
século II. Por exemplo:

• Celso deixou absolutamente claro que os cristãos de sua época criam em Jesus Cristo e
adoravam esse homem como um Deus.

Em resposta à adoração dos cristãos por Jesus, Celso escreveu que “é impossível que
Deus tenha descido à terra pois, se o fizesse, teria de mudar sua natureza”. Foi esse o
desafio de Celso. Portanto, a principal “contribuição” de Celso ao cristianismo foi o desafio
de pensar cuidadosamente sobre duas declarações aparentemente conflitantes e, de
alguma forma, torná-las coerentes.

A razão do surgimento da teologia cristã

Os cristãos se viram diante um dilema: ou ignoravam Celso e outros críticos semelhantes


a ele e retraíam-se em uma religião folclórica sem apresentar uma defesa lógica ou
enfrentavam o desafio e criavam doutrinas coerentes que reconciliariam crenças
aparentemente contraditórias como o monoteísmo e a divindade de Jesus Cristo.
Os cristãos enfrentaram o desafio apresentado por Celso. Suas respostas a oponentes
pagãos como Celso, fanáticos como Montano e hereges como os gnósticos deram origem
à teologia cristã. Mas por quê eles decidiram dar respostas a estes?
Para preservar a integridade do evangelho e pelo bem do evangelismo, responderam
teologicamente. A teologia nasceu para responder perguntas, satisfazer as necessidades
de mentes indagadoras tanto de dentro quanto de fora da igreja.

CLASSIFICANDO A ERA DOS PAIS DA IGREJA

Os Pais da Igreja são normalmente, classificados em quatro grupos:

• 1 - Os Pais Apostólicos (0-120 d.C).


• 2 - Os Apologistas (120-220 d.C).
• 3 - Os Polemistas (180-250 d.C.).
• 4 - Os Teólogos (325-460 d.C.).

1 - OS PAIS APOSTÓLICOS

Quando falamos nos Pais Apostólicos, geralmente nos referimos a alguns autores cristãos
do fim do primeiro século e do inicio do segundo, cujos escritos chegaram até nós.
A maioria destes escritos foram escritos em formas de cartas (homilias), e os mesmos
não tinham a finalidade de serem usados ou transformados em material de estudo
doutrinário.
Os mais importantes destes escritos são os seguintes:

• A Primeira Epístola de Clemente, escrita em Roma, por volta de 95.


• As Epístolas de Inácio; sete cartas a vários destinatários, escritas por volta de 115
durante a viagem de Inácio a Roma e para sua morte de mártir já prevista.
• A Epístola de Policarpo, escrita e Esmirna, por volta de 110.
• A Segunda Epístola de Clemente, escrita em Roma ou Corinto, por volta de 140.
• O pastor de Hermas, escrito em Roma, por volta de 150.
• Fragmentos de Papias, escritos em Hierápolis na Frigia, por volta de 150, citados nas
obras de Eusébio e Irineu (entre outros).
• A Didaché (Os Ensinamentos dos Doze Apóstolos), escrita na primeira metade do
século, provavelmente na Síria.

Os Pais Apostólicos são caracterizados pela edificação e fortalecimento dos crentes na fé.


·        Data: Primeiro Século (30 - 100).
·        Objetivo: Exortar e edificar a Igreja.
·        Preeminentes do Ocidente: Clemente de Roma.
·        Preeminentes do Oriente: Inácio, Policarpo, Epistola de Barnabé, Fragmentos de
Papias, O Pastor de Hermas e a Didaquê.

1.1 – A Ênfase nos Ensinos dos Pais Apostólicos


Embora os Pais Apostólicos tenham vivido em um período tão próximo dos
apóstolos a diferença entre eles já eram grandes.
Comparados com o Novo Testamento, os Pais Apostólicos se distinguem
especialmente devido a ênfase no que geralmente se denomina moralismo (melhor
traduzido para nós como “legalismo”). A proclamação da lei ocupa lugar de destaque nos
escritos dos Pais Apostólicos. Isto acontece em parte porque se dirigem a novas
congregações cujos membros recentemente abandonaram o paganismo. Fazia-se
necessário substituir seus antigos hábitos com praxe e costumes cristãos. A vida cristã
dizia-se consistir, acima de tudo, em obediência a esta nova lei, pregada por Cristo.
Graça era entendida com um dom que Deus outorga ao homem, por intermédio de
Cristo, concedendo a este poder interno, associado com o Espírito Santo, pelo qual o
homem pode buscar a justiça e andar no caminho da nova obediência. A graça conferia
poder ao homem para obedecer a Cristo, desta forma alcançar a justiça e ser salvo.
A salvação, embora ensinada como conquistada por Jesus Cristo aos homens, ela
era dada somente aqueles que conseguiam viver em justiça, isto é, que obedeciam
fielmente a lei de Cristo. Em outras palavras, a obediência era uma exigência para
salvação.
As Escrituras tanto do A.T. como os escritos dos apóstolos, já eram consideradas
como Escrituras Sagradas e usadas para ensino. É bem verdade que o N.T. ainda vinha
conquistando espaço e se firmando neste período.
Muitas das cartas dos Pais Apostólicos chegaram a fazer parte por um breve
período no cânone do Novo Testamento.
A Doutrina de Deus era baseada praticamente na afirmação da existência de um
único Deus poderoso e criador de todas as coisas. Embora usassem a fórmula trinitária
no batismo, neste tempo, ainda não tinham desenvolvido a doutrina de um Deus Trino.
Jesus Cristo era afirmado como Deus.
Inácio defendia a vida de Cristo como real na terra em oposição àqueles que
mantinham, que Jesus tão-somente parecia existir em forma humana, e apenas parecia
ter sofrido na cruz e que depois da ressurreição retornou a uma existência espiritual
incorpórea (posição defendida pelos gnósticos judaico-cristãos – chamada de docetismo).
As Igrejas que estavam sendo consolidadas naquela época começaram a dar
maior valor ao cargo dos Bispos. Segundo Inácio, o bispo era o símbolo da unidade cristã
e o portador da tradição apostólica. As congregações eram admoestadas a serem fiéis
aos seus bispos, que deveriam mantê-las fiéis a sã doutrina. Originalmente os anciãos e
os bispos estavam no mesmo nível, mas a esta altura dos acontecimentos os bispos
ocupavam posição superior aos dos presbíteros. Este assim chamado episcopado
monárquico apareceu um primeiro lugar na Ásia Menor e é claramente salientado nas
epístolas de Inácio. Os bispos passaram a ter maior primazia, pois foram considerados os
verdadeiros portadores dos ensinos apostólicos, seus sucessores diretos. Como resultado
direto, começou a se desenvolver a partir deste pensamento uma ordem eclesiástica.
A Escatologia dos Pais Apostólicos incluía a idéia que o fim dos tempos era
iminente, e alguns deles (Papias, Barnabé) também sustentavam a doutrina de um
milênio terreno. Barnabé aceitava a idéia judaica que o mundo existiria por 6.000 anos,
prefigurados nos seis dias da criação. E, por conseguinte, dizia-se, que seguiria o sétimo
milênio, em que Cristo reinaria visivelmente na terra com a ajuda de seus fiéis (cf. Ap 20).
Este daria lugar ao oitavo dia, a eternidade, que tinha seu protótipo no domingo.
 1.2 – Principais Nomes dos Chamados Pais Apostólicos
Clemente de Roma (30-100)
Clemente foi bispo de Roma na última década do século I.
Várias hipóteses já foram levantadas sobre Clemente para identificá-lo. Para
alguns, ele pertencia à família real. Para outros, ele era colaborador do apóstolo Paulo.
Outros ainda sugeriram que ele escreveu a carta aos Hebreus. Em verdade, as
informações a respeito de Clemente de Roma vão desde lendárias a testemunhas
fidedignas. Alguns pais, como Orígenes, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo, Irineu de Lião,
entre outros, aceitaram como verdadeira a identificação de Clemente de Roma como
colaborador do apóstolo Paulo.
A principal obra de Clemente de Roma é uma carta redigida em grego, endereçada
aos crentes da cidade de Corinto (1 Clemente), mais ou menos no final do reinado de
Domiciano (81-96) ou no começo do reino de Nerva (96-98). A epístola trata,
principalmente, da ordem e da paz na Igreja. Seu conteúdo traz à tona o fato de os
crentes formarem um corpo em Cristo, logo deve reinar nesse corpo a unidade, e não a
desordem, pois Deus deseja a ordem em suas alianças. Traz, ainda, a analogia da
adoração ordeira do Antigo Israel e do princípio apostólico de apontar uma continuidade
de homens de boa reputação.
Esta carta, certamente, contribuiu para uma mudança sutil e geral rumo ao
moralismo cristão, no cristianismo do século II, que associava o discipulado à total
obediência aos líderes devidamente nomeados e à prática de uma vida moralmente
correta.
Um aspecto interessante dessa epístola é o estranho apelo de Clemente ao mito
da fênix para reforçar a crença na ressurreição.

O Didaquê
O Didaquê, também conhecido por O Ensino dos Doze Apóstolos. Nada se sabe a
respeito do autor, mas acredita-se que foi escrito no ano 101 d.C. Contudo alguns
acreditam que foi escrito em uma data anterior a essa.
O Didaquê parece ter sido escrito com o intuito de reforçar a moralidade cristã e
instruir os cristãos a respeito de como tratar os profetas que os procurassem alegando
falar em nome do Senhor.
Segundo o Didaquê o caminho da vida é claramente o caminho do amor a Deus e
ao próximo e da rigorosa observância às regras morais. O caminho da salvação nele
descrito ensina um estilo de vida de fidelidade e obediência aos mandamentos de Deus e
aos ministros cristãos.
O Didaquê, assim como outros pais apostólicos, coloca diante dos cristãos mais
uma moralidade rigorosa em uma visão um tanto legalista do que um evangelho da
liberdade cristã sem a escravidão à lei.
Incluídas no Didaquê, há instruções bastante pormenorizadas a respeito do
batismo e da ceia do Senhor.
O Didaquê descreve como um dos sinais de um falso profeta era que eles
permaneciam no lugar por mais do que dois ou três dias, pediam dinheiro e refeições “no
espírito”, o que provavelmente significava exigir comida em troca das profecias.

Inácio de Antioquia (35-110 d.C)


Mesmo sendo de Antioquia, seu nome, Ignacius, deriva-se do latim: igne: “fogo”, e
natus: “nascido”.
Conforme seu nome sugere, Inácio era um homem nascido do fogo, ardente,
apaixonado por Cristo. Segundo Eusébio, após a morte de Evódio, que teria sido o
primeiro bispo de Antioquia, da Síria, Inácio fora nomeado o segundo bispo dessa
influente cidade. Alguns estudiosos o consideram o terceiro bispo de Antioquia da Siria
pois contam o apóstolo Pedro como o primeiro bispo da mesma.
Inácio foi discípulo do apóstolo João, também conheceu São Paulo e foi sucessor
de São Pedro na igreja em Antioquia fundada pelo próprio apóstolo.
Santo Inácio foi detido pelas autoridades e transportado para Roma, por ordem do
imperador Trajano (98-117 d.C), onde foi condenado à morte no Coliseu, e foi martirizado
por leões.
As autoridades romanas esperavam fazer dele um exemplo e, assim, desencorajar
o cristianismo, porém sua viagem a Roma ofereceu-lhe a oportunidade de conhecer e
ensinar os conceitos cristãos, e no seu percurso, Inácio escreveu seis cartas para as
igrejas da região e uma para um colega bispo. Ao falar sobre sua execução, Inácio disse
a famosa expressão: "trigo de Cristo, moído nos dentes das feras". E na iminência do
martírio prometeu aos cristãos que mesmo depois da morte continuaria a orar por eles
junto de Deus:
Meu espírito se sacrifica por vós, não somente agora, mas também quando eu
chegar a Deus. Eu ainda estou exposto ao perigo, mas o Pai é fiel, em Jesus Cristo, para
atender minha oração e a vossa. Que sejais encontrados nele sem reprovação.
Inácio escreveu algumas epístolas às comunidades cristãs asiáticas: à igreja de
Éfeso, às igrejas de Magnésia, situada no Meander, à igreja de Trales, às igrejas de
Filadélfia e Esmirna e, por fim, à igreja de Roma. O objetivo da carta a Roma era solicitar
que os irmãos não impedissem seu martírio, o que aconteceria durante o reinado de
Trajano (98-117).
Inácio tratou de todo tipo de questões em suas cartas e talvez seja justo dizer que
elas contêm a primeira teologia, propriamente dita, do cristianismo.
Inácio enfatizava veementemente a obediência cristã aos bispos. Certamente o
sentimento de Inácio a respeito dos bispos é um salto quântico para além do que se pode
achar nos escritos dos próprios apóstolos e, decerto, surgiu de uma necessidade iminente
de manter a ordem em um cristianismo cada vez mais diverso e desgovernado.
Inácio também condenou a cristologia doceta do gnosticismo. Afirmou muito
enfaticamente a verdadeira divindade e humanidade de Jesus Cristo como Deus
aparecendo em forma humana.
O bispo de Antioquia, Inácio, parece ter inventado um termo teologicamente rico
para a ceia do Senhor: a eucaristia ou cerimônia da comunhão. Inácio claramente
concebia a Eucaristia como sacramento, meio de graça que transforma a pessoa que dela
participa. Ele não elaborou uma teologia a respeito, mas queria enfatizar que, ao
participar do pão e do vinho da refeição do Senhor, a pessoa ganha uma participação na
imortalidade divina que sobrepuja a maldição da morte trazida pelo pecado.
Inácio, assim como outros pais apostólicos, deixou um legado útil e perturbador
com o qual o cristianismo teria de lidar. Para os cristãos que dão muito valor à hierarquia
da liderança da igreja e têm um conceito altamente sacramental da salvação – a graça
que transforma pessoas mediante os ritos sacramentais – Inácio é um herói e uma
comprovação de que essa interpretação da igreja e do evangelho é antiga e autêntica.
Inácio legou com autoridade uma cristologia da encarnação que afirmava Jesus
Cristo como verdadeiramente Deus e verdadeiramente humano e que, com isso, ajudou a
preparar o caminho para a plena afirmação do dogma da Trindade.

Antioquia
Foi fundada por volta do ano 300 a.C., por Seleuco Nicátor, com o nome de
Antiokkeia, (cidade de Antíoco). Tornou-se capital do império selêucida e grande centro
do Oriente helenístico. Conquistada pelos romanos por volta do ano 64 a.C., conservou
seu estatuto de cidade livre e foi a terceira cidade do Império depois de Roma e
Alexandria (no Egito), chegando a abrigar 500 mil habitantes. Evangelizada pelos
apóstolos Pedro, Paulo e Barnabé, tornou-se metrópole religiosa, sede de um patriarcado
e centro de numerosas controvérsias, entre elas, o arianismo, o monofisismo, o
nestorianismo. Era considerada a igreja-mãe do Oriente.

Policarpo (69-159)
Sobre sua infância, família e formação, não temos informações precisas, contudo
há documentos históricos sobre ele. Graças a alguns testemunhos fidedignos, podemos
reconstruir sua personalidade. Foi discípulo do apóstolo João, amigo e mestre de Irineu,
tendo ainda conhecido Inácio, sendo consagrado bispo da igreja de Esmirna.
Quanto aos seus escritos, o único que restou desse antigo pai da igreja foi a
sua epístola aos filipenses, exortando-os a uma vida virtuosa de boas obras e a
permanecerem firmes na fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Seu estilo é informal, com
muitas citações do Velho e do Novo Testamentos.
Faz, ainda, 34 citações do apóstolo Paulo, evidenciando que conhecia bem a carta
desse apóstolo aos filipenses, entre outras epístolas de Paulo. Há, também, os
depoimentos de Eusébio e Irineu, relatando a intimidade de Policarpo com testemunhas
oculares do evangelho. Segundo Tertuliano, Policarpo teria sido ordenado bispo pelas
mãos do próprio apóstolo João.

O martírio de Policarpo
O martírio de Policarpo é descrito um ano depois de sua morte, em uma carta
enviada pela Igreja de Esmirna à Igreja de Filomélio. Esse registro é o mais antigo
martirológio cristão existente. Diz a história que o procônsul romano, Antonino Pius, e as
autoridades civis tentaram persuadi-lo a abandonar sua fé, quando já avançado em idade,
para que pudesse ser livre.
Ele, entretanto, respondeu com autoridade: “Eu tenho servido a Cristo por 86 anos
e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou?
Eu sou um crente!”.

Nota 1: Os pais apostólicos forneceram uma ponte entre os apóstolos e o


cristianismo católico ortodoxo e ajudaram a preservar e a estabelecer uma igreja
relativamente unificada e teologicamente sadia. Por outro lado, em menor ou maior grau,
falharam em transmitir em suas tradições o evangelho puro da salvação como uma dádiva
que não vem das obras mas unicamente da graça.

2 – OS APOLOGISTAS
Os Apologistas são caracterizados pela sua defesa aos ataques contra o
Cristianismo proferidos pelos gregos (gnosticismo[1]) e os judeus cristãos (o cristianismo
judaico herético – era conhecido como ebionismo[2]). Por causa dessa defesa receberam
o nome de “apologistas”.
O mais notável destes apologistas foi Justino, cognominado “o mártir”.
Os apologistas ocupam lugar de destaque na história do dogma, não só devido a
sua descrição do cristianismo como a verdadeira filosofia como também por sua tentativa
de elucidar ensinamentos teológicos com o auxílio de terminologia filosófica
contemporânea ( por exemplo: na assim chamada “cristologia do Logos”). O que neles
encontramos, por conseguinte, é a primeira tentativa de definir, de maneira lógica, o
conteúdo da fé cristã, bem como a primeira conexão entre teologia e ciência, entre
cristianismo e filosofia grega.
·        Data: Segundo Século (120 - 220).
·        Objetivo: Defender o Cristianismo.
·        Preeminentes do Ocidente: Tertuliano.
·        Preeminentes do Oriente: Justino – o Mártir, Taciano, Teófilo, Aristides e Atenágoras.

As escolas de Alexandria e Roma, os dois centros culturais mais importantes do


Império Romano, foram as que mais defenderam o uso de uma abordagem filosófica na
defesa da fé cristã. Possivelmente porque estas duas escolas foram as que mais sofreram
influência de Filo, um judeu estudioso.
Filo por exemplo, ensinou que a filosofia de Platão e os ensinamentos de Moisés
baseavam-se na revelação divina e que, no âmago, eram semelhantes ou idênticos. Para
fazer esse sistema funcionar, foi levado a interpretar de modo alegórico as Escrituras
hebraixas. Com esse método, conseguiu combinar os pensamentos grego e hebraico a
respeito de Deus da criação e da humanidade.

Obs1.: Os apologistas refutaram as objeções do mundo pagão e apresentaram o


cristianismo como a verdadeira filosofia.

Obs2.: Uma fenda que divide toda a teologia cristã desde o início é a que existe
entre os pensadores cristãos que querem enfrentar seus críticos no próprio terreno deles
e debater a fé de forma coerente e mesmo filosófica e os que consideram esse esforço
uma acomodação perigosa aos inimigos da fé. (A questão é: devemos falar a mesma
linguagem “mundana” para alcançarmos os ímpios?).

2.1 – Contexto Histórico


O império estava eivado de religiões de mistério – cultos de iniciação cheios de
mitos elaborados sobre deuses que morriam e renasciam, e caminhos para a imortalidade
mediante cerimônias secretas de iniciação que envolviam coisas do tipo batismos com
sangue de um touro abatido. Havia, ainda, filosofias sobrenaturais de vários mágicos
como Apolônio de Tiana e Pitágoras, cujos seguidores se reuniam secretamente para por
em prática seus poderes paranormais e estudar os significados esotéricos dos números e
corpos celestes. Existiam, também, diversas cerimônias e mitos de templos sobre
panteões gregos e romanos de deuses e deusas do Olimpo como Zeus, Apolo e Diana.
Os apologistas cristãos do século II decidiram, então, defender a veracidade do
cristianismo com base nas filosofias do platonismo e do estoicismo, ou numa mistura das
duas, que eram normalmente aceitas como superiores às mencionadas.

2.2 – Características da Filosofia Grega


·        A filosofia grega rejeitava o politeísmo das religiões populares. Afirmavam a existência
de apenas uma divindade.
·        Rejeitava também os mitos e cerimônias de iniciação das religiões de mistério.
·        Afirmava a imortalidade da alma e a importância de se ter uma vida virtuosa.
·        Os seguidores do estoicismo[3] costumavam identificar o divino com a natureza e com
a ordem natural das coisas. Deus é a fonte última de todas as coisas, embora não tenha
criado o universo “do nada” (ex nihilo), Ele é a fonte de tudo.

2.3 – Principais Nomes dos Chamados Apologistas

Atenágoras de Atenas (Século I)


Assim como Justino, Atenágoras, o ateniense, era tanto filósofo como cristão. Entre
outros documentos escreveu Petição a Favor dos Cristãos em forma de carta aberta ao
imperador Marco Aurélio quando este estava para visitar Atenas.
Teófilo de Antioquia (aproximadamente 115-180)
Teófilo de Antioquia escreveu três livros A Autólico por volta de 180. Pouco se
sabe a respeito de Teófilo além de que foi bispo dos cristãos em Antioquia.
Autólico foi um amigo pagão de Teófilo e este escreveu três livros a fim de responder aos
comentários depreciativos que o amigo fizera em relação ao cristianismo.

Justino, o mártir (100-170)


Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém, na Palestina, no início do segundo século
e morreu mártir no ano 170. Depois de peregrinar pelas mais diversas escolas filosóficas
(peripatética, estóica e pitagórica) em busca da verdade para a solução do problema da
vida, abandonou o platonismo, último estágio de sua peregrinação filosófica. O amor à
verdade fez que ele rejeitasse, pouco a pouco, os sistemas filosóficos pagãos e se
convertesse ao cristianismo. Em sua época, foi o mais ilustre defensor das verdades
cristãs contra os preconceitos pagãos.
Embora leigo, é considerado o primeiro “pai apologista” da Igreja, logo depois dos
primitivos “pais apostólicos”, pois dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo.
Em Roma, abriu uma escola para o ensino da doutrina cristã e, ainda nessa cidade,
dedicou-se ao apostolado, especialmente nos meios cultos, onde se movimentava com
desembaraço. Escreveu muitas obras, mas somente três chegaram até nós: duas
apologias contra os pagãos e um diálogo com o judeu Trifão ou Trifo. Foi açoitado e,
depois, decapitado.
Sem dúvida alguma, Justino Mártir merece reputação de “o apologista mais
importante do século II” por causa das idéias criativa respeito de Cristo como Logos
cósmico e de o cristianismo ser a filosofia verdadeira.

Nota 2: Não fossem os apologistas e a sua obra, o cristianismo poderia facilmente


ter sido reduzido a uma religião esotérica de mistério ou, talvez, a uma mera religião
folclórica sem qualquer influência na esfera pública mais ampla da cultura. Os apologistas
levaram a mensagem cristã a público e defenderam-na, com vigor e rigor, dos mal-
entendidos e das falsas acusações. Com isso, colocaram a teologia cristã além das
pequenas e simples reflexões dos pais apostólicos, em um novo plano de pensamento
formal e racional a respeito das implicações da mensagem apostólica para a crença cristã
de Deus, de Cristo, da salvação e de outras crenças importantes.

Nota 3: Muitos críticos acusam os apologistas de criarem, inconscientemente, uma


mistura do pensamento hebraico e cristão a respeito de Deus com as idéias gregas,
especialmente platônicas, de deidade.

[1] Gnosticismo à Este era resultado da mistura da religião helenística com o cristianismo.


Os elementos mais marcantes neste sistema eram certas especulações místicas e
cosmológicas, além do dualismo entre o mundo do espírito e o mundo material. Sua
doutrina da salvação salientava o livramento do espírito de sua servidão na esfera
material. Esta religião tinha seus próprios mistérios e cerimônias sacramentais, além de
uma ética que preconizava ou o ascetismo ou a libertinagem.
[2] Ebionitas à Estes sustentavam a validade da lei de Moisés; uma fração julgava que
isto só se aplicava a eles, mas outra fração, mais militante, insistia que os cristãos de
origem pagã também eram obrigados a cumprir a lei de Moisés. Outra idéia básica
associada aos ebionitas era que esperavam o estabelecimento de um reino
messiânico em Jerusalém. Isto reflete sua identificação de judaísmo e cristianismo
(Benget Hängglund).
[3] O estoicismo é uma doutrina filosófica fundada por Zenão de Cíito, que afirma que
todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino (noção que os estoicos
tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com este princípio divino,
como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as
coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos
(termo que em grego significa "harmonia").

3 – OS POLEMISTAS
Os Polemistas são caracterizados, pela defesa contra heresias dentro da Igreja.

·        Data: Terceiro Século (180 - 250).


·        Objetivo: Lutar contra as falsas doutrinas.
·        Preeminentes do Ocidente: Irineu, Tertuliano e Cipriano.
·        Preeminentes do Oriente: Panteno, Clemente, Orígenes e Hipólito.

Obs1.: Irineu, Tertuliano e Hipólito eram conhecidos também como os pais


antignósticos devido ao conflito com o gnosticismo. Para estes teólogos da igreja
primitiva, a crença na criação divina ocupou lugar central de modo mais destacado que na
tradição ocidental posterior, onde a doutrina da salvação foi frequentemente enfatizada às
custas de outras facetas do cristianismo. Foi o idealismo gnóstico, com seu repúdio da
criação, que levou os Pais Eclesiásticos a tratar tão pormenorizadamente da doutrina de
Deus e da criação, bem como o problema do homem, a encarnação e a ressurreição do
corpo.

Obs2.: Os pais antignósticos desenvolveram, com base na Escritura e na tradição,


uma teologia destinada a proteger a ortodoxia das especulações do gnosticismo e da
filosofia grega.

3.1 – Principais Nomes dos Chamados Polemistas


Irineu (130-202)
Nascido no ano 130, em Esmirna, na Ásia Menor (Turquia), e filho de uma família
cristã, Irineu era grego e foi influenciado pela pregação de Policarpo, bispo daquela
cidade. Anos depois, Irineu mudou-se para Gália (atual sul da França), para a cidade de
Lyon, onde foi presbítero ou bispo no lugar do bispo que havia sido martirizado em 177.
Além da pregação de Policarpo, Irineu recebeu influência de Justino, cujo ministério
foi um elo entre a teologia grega e a latina, atuando, no início, junto com um de seus
contemporâneos, Tertuliano.
Enquanto Justino era primariamente um apologista, Irineu contribuiu na refutação
contra as heresias e na exposição do cristianismo apostólico. Sua maior obra foi
desenvolvida no campo da literatura polêmica contra o gnosticismo.

Obras:
- Adversus Haereses (refutação ao gnosticismo)
- Epideixis (apresenta as doutrinas básicas da proclamação apostólica)

Irineu é denominado o pai da dogmática católica. Há algo de verdade nesta


expressão, visto ter sido ele o primeiro a procurar apresentar um sumário de toda a
Escritura. Irineu rejeitou o conceito de cristianismo mantido pelos apologistas, a saber,
que ele (o cristianismo) é a verdadeira filosofia [...] não concordava que o conteúdo da
revelação era simplesmente uma nova e mais perfeita filosofia. Para ele, a Bíblia era a
única fonte de fé.
Ao desmascarar os gnósticos, Irineu também desenvolveu uma interpretação cristã
da redenção que influenciou profundamente o curso e a direção de toda a teologia cristã,
especialmente nas regiões orientais da igreja cristã onde o grego era o idioma principal.
Irineu morreu em Lião durante um massacre de cristãos em 202.
Com certeza, Irineu é personagem crucial na história da teologia cristã porque foi
um agente que contribuiu para a derrota do gnosticismo e porque foi o primeiro pensador
cristão que elaborou teorias compreensivas do pecado original e da redenção.

A Teoria de Irineu Sobre a Redenção


Os teólogos históricos rotularam a contribuição de Irineu de “teoria da
recapitulação”. Irineu expôs o que acreditava ser o ensino apostólico cristão a respeito da
obra de Cristo na redenção de prover uma nova “cabeça” para a humanidade, a
recapitulação.
Irineu procurou demonstrar que o evangelho da salvação ensinado pelos apóstolos
e transmitido por eles centralizava-se na encarnação, a existência humana do Verbo, o
Filho de Deus, em carne e osso. Por isso, enfatizava todos os aspectos da vida de Jesus
como necessários para a salvação. A obra de Cristo em nosso favor foi muito além de
seus ensinamentos e estendeu-se à própria encarnação. Para Irineu a própria encarnação
é redentora e não meramente um passo necessário em direção aos ensinos de Cristo ou
ao evento da cruz.
Essa idéia ficou conhecida como a encarnação salvífica e foi crucial para o curso
de toda a teologia depois de Irineu. É por isso que, sempre que surgia uma teologia que
de alguma forma ameaçava a encarnação de Deus em Jesus, os pais da igreja reagiam
tão fortemente. Qualquer ameaça à encarnação, por menor que fosse, era vista como
uma ameaça a salvação. Se Jesus não fosse verdadeiramente humano bem como
verdadeiramente divino, a salvação seria incompleta e impossível. A redenção, na sua
inteireza, repousa na realidade do nascimento de Cristo em carne e osso, de sua vida,
seu sofrimento e sua ressurreição, além do seu eterno pode e divindade.
Estritamente falando, a raça humana inteira “nasce de novo” na encarnação de
Jesus Cristo. Ela recebe uma nova “cabeça”, uma nova fonte, origem ou base de
existência, que não é caída, mas pura e saudável, vitoriosa e imortal.
Irineu acreditava na solidariedade da humanidade tanto no pecado como na
redenção.
Sem a encarnação, Cristo não poderia ter invertido a queda de Adão, e a redenção
não seria levada a efeito. O pecado e a morte continuariam sendo, para sempre,
características básicas da condição humana.
Para Irineu, Jesus Cristo proveu a redenção passando pelo escopo inteiro da vida
humana e, em cada conjuntura, invertendo a desobediência de Adão.
O que participa voluntariamente da nova humanidade de Cristo escolhendo ele, e
não ao primeiro Adão, como sua “cabeça”, pelo arrependimento, pela fé e pelos
sacramentos, recebe a transformação que se tornou possível pela encarnação do Filho de
Deus.
Para Irineu, portanto, a redenção foi uma restauração da criação, e não uma
evasão da criação, como na soteriologia dos gnósticos.
Irineu claramente concebia a salvação como a transformação dos seres humanos
em participantes da natureza divina (2 Pe 1.4).
Obs.5: No fim do século II e início do século III (200/201), o gnosticismo e o
montanismo começaram a perder sua importância e influência. Estavam surgindo novas
heresias que seriam enfrentadas por Tertuliano, Cipriano e outros pais eclesiásticos do
século III.

Obs.6: Os bispos na sucessão apostólica estavam conseguindo o monopólio na


autoridade das igrejas, de modo que cada vez mais pessoas de dentro e de fora os
reconheciam como a autoridade da igreja.

Obs.7: A idéia da salvação sendo recebida primariamente por meio dos


sacramentos incluindo-se o batismo infantil e o da eucaristia, estava se tornando
normativa, embora algumas vozes se levantassem em protesto. A igreja e sua estrutura e
teologia estavam paulatinamente se formalizando e padronizando. Uma certa linha de
ortodoxia (doutrina – verdadeira doutrina) estava sendo amplamente reconhecida.

Nota 4: Quando o século II chegava ao fim, surgia uma nova história da teologia. A
localização central geográfica e cultural da história mudou-se para a África do Norte. Das
cidades da África do Norte, como Alexandria e Cartago (na região hoje chamada Tunísia)
surgiram os grandes defensores, intérpretes e organizadores do pensamento e da vida
cristã do século III.

Nota 5: Durante o século III, as primeiras construções eclesiásticas – chamadas


“basílicas” – foram levantadas para a adoração cristã. O cânon das Escrituras cristãs foi
praticamente solidificado, embora seu reconhecimento oficial e sua aceitação universal
tenham vindo apenas quase um século mais tarde.

Clemente de Alexandria
Clemente seguiu os passos de Justino, o grande apologista e mártir do século II, e
considerava o cristianismo a verdadeira filosofia que não contradiz nem anula a filosofia
grega, mas a completa.
Certamente, Clemente não tentou reduzir o cristianismo a uma filosofia grega
genérica revestida do evangelho para torná-lo mais agradável e aceitável às mentes
alexandrinas sofisticadas.
Os pormenores da vida de Clemente da Alexandria são cercados de mistério. Sua
ligação com a hierarquia formal da igreja de Alexandria é uma incógnita. Não parece ter
sido ordenado como ministro ou sacerdote e seus escritos rejeitam notoriamente as
considerações sobre a comunidade dos cristãos e, em vez disso, evidenciam a
espiritualidade e a vida intelectual do crente. Sem dúvida alguma, estava contaminado
pelo platonismo médio que formava a filosofia genérica da maioria dos alexandrinos cultos
e pode ter contribuído para o surgimento de um novo tipo de filosofia platônica conhecido
como neoplatonismo.
Mais do que qualquer outro escritor cristão antigo, Clemente de Alexandria dava
valor à integração da fé cristã com a melhor cultura dos seus dias. Seu lema era: “toda a
verdade é a verdade de Deus, venha de onde vier”.
Clemente via na filosofia platônica uma aliada viável para o cristianismo do mundo
pagão. O platonismo tinha um conceito da vida além da morte e de uma dimensão
espiritual para tudo, e, desviava a atenção das pessoas dos prazeres físicos e corporais
para as realidades espirituais e superiores. Por tudo isso, e muito mais, Clemente
encontrou reflexos e paralelismos da verdade cristã no melhor da filosofia grega.
Clemente acreditava que a filosofia ajudaria na luta do cristianismo contra as
heresias. Os falsos ensinos frequentemente surgem do mau entendimento; a filosofia
procura ser lógica e emprega a dialética para testar as alegações da verdade e as
crenças.
Ensinos de Clemente
·        O verdadeiro gnóstico - Uma das áreas mais contravertidas da teologia de Clemente
é o seu ideal do cristão como “o verdadeiro gnóstico” ou “o gnóstico perfeito”. Clemente
chegou a ponto de declarar que o verdadeiro gnóstico cristão pode “se tornar Deus” nesta
vida, despindo-se do “desejo” e tornando-se “impassível, livre da ira”. Ele queria dizer que
essa pessoa se reveste da imagem de Deus e se torna realmente boa, embora somente
sob a forma de um ser criado e dependente de Deus. Ele tinha em mente a idéia da
divinização, a idéia de que o alvo da salvação é compartilhar da natureza divina refletindo
a imagem de Deus e alcançando a imortalidade.
·        Jesus Cristo - Clemente enxergava Jesus Cristo não apenas como um homem que
ensinava coisas boas e que teve a morte de um mártir como Sócrates, mas como a
encarnação da Sabedoria divina, e, de certo modo, o próprio Deus.
·        Corpo físico – Ele tratava o corpo e a matéria como uma “natureza inferior” e os
contrastava nitidamente com a natureza “superior e melhor” da alma, que descrevia como
a parte racional do indivíduo. Nesse ponto ele difere do gnosticismo, pois nega
expressamente que a matéria ou o corpo são iníquos. São apenas inferiores ao espírito e
a alma. Essa idéia da humanidade e da criação é, naturalmente, mais platônica do que
bíblica. Platão e seus seguidores enfatizavam o lado espiritual da pessoa como superior e
melhor do que o lado físico e equiparavam-no com a razão.
·        Deus – As idéias de Clemente a respeito de Deus e da imagem de Deus no ser
humano revelam sua instrução grega. Repetidas vezes, Clemente reitera a opinião de que
Deus não tem paixões e que é assim que o verdadeiro gnóstico deve ser. As paixões e os
desejos são limitantes por natureza e Deus, de acordo com Clemente e com a filosofia
grega predominante naquele tempo, é livre por natureza de todas as limitações das
criaturas, inclusive de paixões (desejos e emoções).
          Uma pergunta óbvia para a interpretação de Clemente a respeito da natureza divina é:
como se explica a ira de Iavé? Se Deus não tem partes nem paixões, por que as
Escrituras hebraicas descrevem-no como irado, zangado e vingativo? Clemente
respondeu: “antropomorfismos!”.[1] Quando perguntado sobre a ira de Jesus ao virar a
mesa ou outra manifestação de sentimentos. Clemente responde que são manifestações
do homem Jesus.

Obras: Cinco livros de Clemente existem ainda hoje: Exortações aos pagãos; O


instrutor; Stromata; Quem é o rico que será salvo? Seleções de Teodócio.

[1] Antropomorfismo – Figuras de linguagem ou forma como os seres humanos


percebem e sentem Deus.

Tertuliano de Cartago (150-212)


Nasceu por volta de 150 d.C., em Cartago (cidade ao nordeste da África), onde
provavelmente passou toda a sua vida, embora alguns estudiosos afirmem que ele
morasse em Roma. Por profissão, sabe-se que era advogado em Roma. Fazia visitas
com freqüência a Roma, sendo que, aos 40 anos, se converteu ao cristianismo,
dedicando seus conhecimentos e habilidades jurídicas ao esclarecimento da fé cristã
ortodoxa contra os pagãos e os hereges.
Nunca foi ordenado ao sacerdócio, nem chegou a ser canonizado pela igreja
católica e ortodoxa, a qual abandonou por volta de 207. Neste período de 207 Tertuliano
associou-se ao movimento montanista, que posteriormente manifestou tendências
sectárias.
Tertuliano foi o precursor de Cipriano, que se tornou seu discípulo, bem como de
Agostinho.
O legado escrito de Tertuliano que ainda existe inclui cerca de trinta obras. Vamos
destacar somente duas.

Obras:
·        Contra Marcião – Marcião foi um mestre entre os cristãos de Roma no século II que
tentou forçar uma separação permanente entre o cristianismo e tudo quanto era hebraico,
inclusive o Deus de Israel (Iavé) e o Pai de Jesus Cristo. Marcião também tentou definir
um cânon de Escrituras cristãs, limitado a escritos gentios. Alguns dos seu pensamentos
a respeito da humanidade e da criação tinham uma pitada de gnosticismo e Tertuliano
nada poupou no seu ataque contra os ensinos de Marcião.
·        Contra Práxeas – Práxeas foi, talvez, o primeiro teólogo cristão que tentou explicar a
doutrina da Trindade com detalhes sistemáticos. Ao fazê-lo, porém, parece que obliterou
com suas explicações a verdade ontológica da trindade das pessoas Divinas. Isto é,
Práxeas negou que os cristãos cressem em três identidades, ou até mesmo relações,
dentro do único ser. A teoria de Práxeas posteriormente veio a ser chamada “modalismo”
e foi revivificada por outro mestre posterior do cristianismo em Roma chamado Sabélio.

A teologia de Tertuliano foi, em grande parte, condicionada pelo seu conflito com


os gnósticos. Suas conhecidas afirmações contra a filosofia devem ser vistas neste
contexto, pois em sua opinião, a filosofia era a fonte de heresias gnósticas.
Foi o pai das doutrinas ortodoxas da Trindade e da pessoa de Jesus Cristo. Suas
doutrinas a respeito da Trindade e da pessoa de Cristo foram forjadas no calor da
controvérsia com Práxeas[1] que, segundo Tertuliano, “sustenta que existe um só Senhor,
o Todo-Poderoso criador do mundo, apenas para poder elaborar uma heresia com a
doutrina da unidade. Ele afirma que o próprio Pai desceu para dentro da virgem, que Ele
mesmo nasceu dela, que Ele mesmo sofreu e que, realmente, era o próprio Jesus Cristo”.
Segundo parece, Práxeas ensinava que existe uma só identidade pessoal em Deus
e que essa identidade singular podia ser manifestada como o Pai, ou como o Filho, ou
como o Espírito Santo. (Este é o conceito do Modalismo à mais tarde veio a surgir o
monarquianismo modalista[i]).
Tertuliano foi o primeiro teólogo cristão a confrontar e a rejeitar com grande vigor e
clareza intelectual essa visão aparentemente singela da Trindade e da unidade de Deus.
Ele declarou que se esse conceito fosse verdade, então o Pai tinha morrido na cruz, e
isso, além de ser impróprio para o Pai, é absurdo.
Contra o modalismo de Práxeas, Tertuliano desenvolveu o conceito um pouco mais
complexo do “monoteísmo orgânico”, isto é, a “unicidade” de Deus não impede nem exclui
qualquer tipo de multiplicidade, assim como os organismos biológicos podem ser “um” e,
ao mesmo tempo, consistir em partes interligadas e mútuas. Em outras palavras, de
acordo com Tertuliano, o Deus no qual os cristãos acreditam está em uma só substância
e três pessoas; sendo que substância se refere a existência ontológica fundamental que
faz com que uma coisa seja o que é; e pessoa se refere a identidade de ação que fornece
a qualidade de ser distinto.
Tertuliano elaborou pormenores minuciosos da doutrina da Trindade por contraste
com as heresias de Práxeas. Talvez por se desviar para o montanismo, a contribuição de
Tertuliano nessa área foi deixada de lado.
Tertuliano rejeitava o ideal do cristão maduro como o “verdadeiro gnóstico” exposto
por seu contemporâneo, Clemente de Alexandria. Para Tertuliano o cristão maduro não
tinha o menor interesse na especulação mental além das Escrituras, dos ensinos
apostólicos e da regra de fé da igreja.
Influenciado pelo Pastor de Hermas, livro, que particularmente gostava muito, e,
que ensinava que os cristãos são perdoados somente uma vez de um pecado grave após
o batismo, o levou argumentar com veemência que o batismo devia ser adiado até
quando o crente tivesse certeza de possuir forças para não mais pecar.

Obs8.: Orígenes e Clemente eram conhecidos como teólogos Alexandrinos[2]. A


escola alexandrina esteve por muitas vezes em discussões acirradas com a escola
antioquiana[3].

Obs9.: Os alexandrinos ofereceram uma cosmovisão sistemática baseada em


princípios filosóficos, em que o cristianismo foi inserido e conservado como a mais
elevada sabedoria.

Os teólogos alexandrinos queriam preservar a tradição cristã de maneira fiel, e


para consegui-lo apoiavam-se firmemente na Escritura. Ao mesmo tempo também
possuíam um ponto de vista filosófico coerente, em cujo contexto procuravam inserir o
conteúdo da revelação de modo a criar novo sistema teológico.

[1] Práxeas era um representante modalista. Durante os últimos anos do segundo


século surgiram duas correntes teológicas chamadas pelo mesmo nome: monarquianismo
(dinamista e modalismo). O conceito “monarquiano” do qual estas duas escolas tomam
seu nome, apareceu nos escritos de Tertuliano, que o usou com referência à unidade de
Deus.
Devemos destacar que a doutrina da igreja opô-se ao monarquianismo de modo
especial nos seguintes pontos: a doutrina da consubstancialidade do Filho com o Pai
(contra o dinamismo);  a doutrina das três pessoas da Divindade (contra o modalismo); a
doutrina do nascimento do Filho na eternidade (contra ambos).
Entre os que se opuseram ao monarquismo e contribuíram para desenvolvimento
teológico dentro da igreja no final do terceiro século encontram-se Novaciano e Metódio.
[2] Teólogos Alexandrinos à Alexandria (localizada no Egito), foi o grande centro
cultural da época, mesmo do ponto de vista católico. Naquele famoso didascaléion,
naquela celebrizada escola catequética, espécie de faculdade teológica, foram luminares
Clemente e Orígenes.
Alexandria competiu com Antioquia, e em especial com Constantinopla pelo
domínio eclesiástico do Oriente, e nesta luta pelo poder entraram também questões
teológicas.
Os teologos alexandrinos se referiam a Maria como theotókos (a mãe de Deus).
Esta conclusão harmonizava-se com a adoração à Maria que estava crescendo naquela
época. Diziam que Maria não foi contaminada pela máculo do pecado original e
afirmavam também que Maria permanecera Virgem durante toda sua vida. O Sinodo de
Éfeso (em 431) decidiu em favor da teologia alexandrina contra a teologia de nestoriana
que não reconhecia Maria como theotókos (Nestório – Escola de Antioquia).
[3] A Escola de Antioquia foi uma das duas grandes escolas no estudo
da exegese bíblica e da teologia durante o final da antiguidade. Este grupo ficou
conhecido por este nome por que os seus principais defensores moravam na cidade
de Antioquia, um das maiores do antigo Império Romano.
A Escola de Antioquia (localizada na Síria) foi fundada por Luciano de Samosata
( 240-312 DC ), um teólogo cristão que deu origem a uma linha de interpretação de
estudos bíblicos conhecida pela sua erudição e conhecimento das línguas originais. Essa
escola se tornou famosa por sua abordagem literal e histórica dos contextos das sagradas
escrituras. Buscavam principalmente descobrir a intenção do autor, como meio para
determinar o sentido de uma passagem bíblica.

Orígenes (185-254)
Nasceu de pais cristãos em 185 ou 186 da nossa era, provavelmente em
Alexandria. Era escritor cristão de vasta erudição, de expressão grega e, inicialmente,
com ação em sua cidade natal. Estudou letras e aprendeu de cor textos bíblicos com seu
pai, que foi morto por ocasião da repressão do imperador Sétimo Severo às novas
religiões.
O bispo de Alexandria passou a Orígenes a direção da Escola Catequética, sendo
então sucessor de Clemente. Estudou na escola neoplatônica de “Ammonios”. Viajou a
Roma, em 212, onde ouviu ao sábio cristão Hipólito. Em 215, organizou em Alexandria
uma escola superior de Exegese Bíblica. Devido ao seu vasto conhecimento, viajava
muito e ministrava ao público nas igrejas.
O fato de se haver castrado por devoção lhe criou dificuldades com alguns bispos,
que contrariavam o sacerdócio dos eunucos. Em 232, transferiu-se para Cesaréia, na
Palestina, onde se dedicou exaustivamente aos seus estudos. Sobreviveu aos tormentos
de que foi vítima sob o domínio do imperador Décio (250-252). Posteriormente a esta
data, morreu em Tiro, não se sabendo exatamente quando.
Era considerado o membro mais eminente da escola de Alexandria e estudioso dos
filósofos gregos. Acreditava que a alma preexiste e está subordinada à metempsicose
(mudança da alma, transmigração da alma e um corpo para outro corpo). Aqui vemos
nele uma tese tipicamente pitagórica e platônica, sendo abandonada depois pelo
cristianismo oficial. Todavia, é relembrada ainda hoje por aqueles que a defendem como
doutrina cristã: os espíritas.

Obra mais importante: - Hexapla (Sêxtupla).

Origem da palavra cânon – Orígenes


A palavra cânon vem do assírio “Qânu”. É usada 61 vezes no Antigo Testamento,
sempre em seu sentido literal, que significa “cana”, “balança”. O primeiro a usar esse
termo foi Orígenes, para se referir à coleção de livros sagrados, que eram ou serviam de
regra e fé para o ensino cristão.

Cipriano (200-258)
Tharsius Caecilius Cyprianus. Converteu-se em 246 d.C. e, três anos depois, foi
nomeado bispo de Cartago, no norte da África.
Durante dez anos, conduziu seu rebanho sob a perseguição do imperador Décio,
uma das mais cruéis. Foi também o grande sustentáculo moral e espiritual da cidade de
Cartago no período em que esta foi atacada por uma epidemia. Além disso, escreveu e
batalhou pela unidade da Igreja.
Seu nome está ligado a uma grande controvérsia a respeito do batismo e da
ordenação efetuada por hereges. No entender de Cipriano, essas cerimônias não valiam,
pelo fato de os oficiantes estarem em desacordo com a ortodoxia. Assim, deveriam ser
rebatizados e reordenados todos os que entrassem pela verdadeira Igreja. Estevão, bispo
de Roma, discordou com ele e isso gerou um cisma, uma vez que Cipriano, além de
rejeitar a autoridade do bispo romano, convocou um concílio no norte da África para
resolver a questão.
Seus escritos consistem em tratados de caráter pastoral e de cartas, 82 ao todo,
das quais 14 eram dirigidas a ele mesmo e as restantes tratavam de questões de sua
época.
Como mártir, morreu decapitado em 14 de setembro de 258 d.C, durante a
perseguição do imperador Valeriano

4 – OS TEÓLOGOS
Os Teólogos são caracterizados pela aplicação da Teologia em áreas filosóficas e
científicas.

·        Data: Quarto Século (325 - 460).


·        Objetivo: Aplicar métodos científicos na interpretação bíblica.
·        Preeminentes do Ocidente: Jerônimo, Ambrósio e Agostinho.
·        Preeminentes do Oriente: Crisóstomo e Teodoro.
·        Preeminentes de Alexandria: Atanásio, Basílio de Cesaréia e Cirilo.

O desafio do monarquianismo retornou de forma mais aguda nas violentas


controvérsias eclesiásticas do quarto século. Foi então que a ameaça do arianismo foi
combatida e que a fórmula trinitária da igreja foi estabelecida nos concílios[ii] ecumênicos
de Nicéia (325) e Constantinopla (381).
Há também uma conexão puramente histórica entre Ario, o herético que provocou
os maiores conflitos do século quarto, e o monarquianismo dinamista. Ario, presbítero em
Alexandria por volta de 310, foi discípulo de Luciano de Antioquia, que por sua vez, era
seguidor de Paulo de Samósata.
Na opinião de Ario, Cristo não podia ser Deus no sentido pleno do termo; devia, em
vez disso, fazer parte da criação. Como resultado, Ario considerava Cristo como “ser
intermediário”, menos do que Deus e mais do que homem. Também dizia ser Cristo
criatura, tendo sido criado ou no tempo ou antes do tempo. Ario, portanto, negava a
preexistência do Filho em toda a eternidade.
O próprio bispo de Ario, Alexandre, voltou-se contra ele e o excomungou por
motivo de heresias por volta de 320. As idéias de Ario se alastraram por todo o Oriente, e
Ario recebeu o apoio de Eusébio de Nicomédia, entre outras. O imperador Romano
Constantino tentou resolver este problema, pois o mesmo já afetava não somente a
unidade da igreja como a coesão do próprio império. Em vista de resolver este problema
foi convocado o primeiro Concílio de Nicéia no ano 325.

4.1 – PRINCIPAIS NOMES DO CHAMADOS TEOLÓGOS


Eusébio de Cesáreia (265-339)
Incentivado por Constantino, Eusébio fez a narração da primeira história do
cristianismo, coroando-a com a sua imperial adesão a Cristo. “A ortodoxia era apenas
uma das várias formas de cristianismo, durante o século III, e pode só ter se tornado
dominante no tempo de Eusébio” (JOHNSON, 2001: 69).
Eusébio entrou em disputa com Eustátio de Antióquia, que se opunha à crescente
aceitação das teorias de Orígenes e, em especial, por este ter praticado
uma exegese alegórica das escrituras, o que interpretava como sendo a
origem teológica do arianismo (veja Escola de Antioquia). Eusébio, admirador de
Orígenes, foi repreendido por Eustátio que o acusou de se afastar da fé de Niceia.
Eusébio retorquiu, acusando Eustátio de seguir ideias sabelianas. Eustátio foi acusado,
condenado e deposto num sínodo, em Antióquia. Grande parte do povo de Antióquia
rebelou-se contra esta decisão eclesiástica, enquanto os anti-eustatianos propunham
Eusébio como novo Bispo. Ele recusou a oferta.

Cesaréia
Fundada pelo rei Herodes no século I a.C. em um porto comercial fenício e grego
denominado Torre de Straton, Cesaréia foi assim denominada pelo monarca em
homenagem ao imperador romano César Augusto.
A cidade foi detalhadamente descrita pelo historiador judeu Flávio Josefo. Era uma
cidade murada, com o maior porto na costa oriental do Mediterrâneo chamado
“Sebastos”, nome grego do imperador Augusto.

Atanásio (295-373 d.C.).


O mais zeloso defensor da fé, no conflito da igreja contra o arianismo e o poder
imperial que apoiava os heréticos, por longo tempo, foi Atanásio.
Quando morreu em 373, a controvérsia ariana ainda estava em andamento, mas
como resultado de suas contribuições, o caminho estava aberto para a vitória final da
teologia nicena no Concílio de Constantinipla de 381.
Na luta contra o arianismo, Atanásio desenvolveu a doutrina eclesiástica da
Trindade e do Logos.
Em sua doutrina da Trindade, que se dirigia especialmente contra o arianismo,
Atanásio salientava de modo enfático que o Filho é da mesma substância do Pai
(homooúsios[6]). Esta idéia não era aceita por Apolinário[7].
Embora a apresentação de Atanásio de ortodoxia nicena fosse fundamental a seu
desenvolvimento subseqüente, suas fomulações não foram seguidas estritamente na
doutrina da Trindade sancionada pela igreja.
Foi em grande parte devido à influência dos três capadocianos (Basílio – o grande,
379; Gregório de Nissa – por volta de 384; Gregório de Nazianzo - por volta de 390) que a
teologia nicena finalmente triunfou como verdadeira posição média entre o arianismo e o
modalismo.
No que tange à teologia oriental, os capadocianos chegaram a formular a doutrina
da Trindade de modo mais ou menos definitivo. Desenvolvimento correspondente também
ocorreu no Ocidente, em parte como resultado da influência da teologia oriental.
Agostinho, mais que qualquer outro, deu forma definitiva à posição ocidental neste ponto,
especialmente em seu livro De Trinitate. A teologia de Agostinho forneceu a base para a
posição trinitária encontrada no Credo Atanasiano, o último dos três Credos Ecumênicos.

Jerônimo (325-378)
Erudito das Escrituras e tradutor da Bíblia para o latim. Sua tradução, conhecida
como a Vulgata, ou Bíblia do Povo, foi amplamente utilizada nos séculos posteriores
como compêndio para o estudo da língua latina, assim como para o estudo das
Escrituras.
Nascido por volta do ano 345 em Aquiléia (Veneza), extremo norte do Mar
Adriático, na Itália, Jerônimo passou a maior parte da sua juventude em Roma, estudando
línguas e filosofia. Apesar de a história não relatar pormenores de sua conversão, sabe-
se, porém, que ele foi batizado quando tinha entre 19 e 20 anos. Depois disso, ele
embarcou em uma peregrinação pelo Império que levou vinte anos.

Crisóstomo (344-407)
Criado em Antioquia, seus grandes dotes de graça e eloqüência, como pregador,
levaram-no a ser chamado a Constantinopla, onde se tornou patriarca (ou arcebispo).
Como os outros apologistas, harmonizou o ensinamento cristão com a erudição grega,
dando novos significados cristãos a antigos termos filosóficos, como a caridade.
Em seus sermões, defendia uma moralidade que não fizesse qualquer transigência
com a conveniência e a paixão, e uma caridade que conduzisse todos os cristãos a uma
vida apostólica de devoção e de pobreza comunal. Essa piedosa mensagem, entretanto,
tornou-o impopular na corte imperial, e também entre alguns membros do clero de
Constantinopla, por isso acabou sendo banido e morreu no exílio.

Agostinho (354-430)
Aurélio Agostinho nasceu no ano de 354, na cidade de Tagaste de Numídia,
província romana ao norte da África, atual região da Argélia. Agostinho iniciou seus
estudos em sua cidade natal, seguindo depois para Cartago. Ensinou retórica e
gramática, tanto no Norte da África como na Itália. Ficou conhecido como o filósofo e
teólogo de Hipona. Polemista capaz, pregador de talento, administrador episcopal
competente e teólogo notável, criou uma filosofia cristã da história que continua válida até
hoje em sua essência.
Inspirado no tratado filosófico denominado “Hortensius”, de Cícero, converteu-se
em ardoroso pesquisador da verdade, abraçando o maniqueísmo. Com vinte anos,
perdeu o pai e tornou-se o responsável pelo sustento da família. Ao resolver que iria para
Roma, sua mãe foi contra, então teve de enganá-la na hora da viagem. De Roma, foi para
Milão, onde novamente passou a lecionar retórica.
Influenciado pelos estóicos, por Platão e pelo neoplatonismo, também estava entre
os adeptos do ceticismo. Em Milão, porém, conheceu Ambrósio, que o converteu ao
cristianismo. Depois disso, voltou ao norte da África, onde foi ordenado sacerdote e, mais
tarde, consagrado bispo de Hipona. Combateu a heresia maniqueísta que antes defendia
e participou de dois grandes conflitos religiosos: o Donatismo e o Pelagianismo. Sua obra
mais conhecida é a autobiografia “Confissões”, escrita, possivelmente, no ano 400. Em “A
cidade de Deus” (413-426) formulou uma filosofia teológica da história.

Abaixo segue uma lista com os nomes de alguns dos chamados “pais da
igreja” por ordem de nascimento:
Inácio: Bispo de Antioquia na Síria, I e II século.
Policarpo: Bispo de Esmirna, 70-155.
Justino, o Mártir: Apologista de Samaria, 100-165.
Irineu: Polemista antignóstico de Esmirna, 130-200.
Clemente: Escritor de Alexandria, 155-220.
Tertuliano: Escritor e Apologista de Cartago, 160-230.
Orígenes: Escritor e Teólogo de Alexandria, 185-254.
Cipriano: Polemista anti-novaciano de Cartago, 246-258.
Eusébio: Historiador da Igreja, 265-339.
Jerônimo: Tradutor da Bíblia para o Latim, a Vulgata, 325-378.
Crisóstomo: Expositor e Orador de Antioquia, 347-407.
Agostinho: Filósofo e Teólogo de Hipona, Norte da África, 354-430.
John Wycliff: Reformador e Tradutor da Bíblia para o Inglês, 1328-1384.
John Huss: Professor e Reformador da Boêmia, 1372-1415.
Martinho Lutero: Reformador da Alemanha, 1483-1546.
William Tyndale: Reformador e Tradutor do Novo Testamento, 1494-1536.
João Ferreira de Almeida: Tradutor da Bíblia para o Português, 1691.

[1] Gnosticismo à Este era resultado da mistura da religião helenística com o


cristianismo. Os elementos mais marcantes neste sistema eram certas especulações
místicas e cosmológicas, além do dualismo entre o mundo do espírito e o mundo material.
Sua doutrina da salvação salientava o livramento do espírito de sua servidão na esfera
material. Esta religião tinha seus próprios mistérios e cerimônias sacramentais, além de
uma ética que preconizava ou o ascetismo ou a libertinagem.
[2] Ebionitas à Estes sustentavam a validade da lei de Moisés; uma fração julgava que
isto só se aplicava a eles, mas outra fração, mais militante, insistia que os cristãos de
origem pagã também eram obrigados a cumprir a lei de Moisés. Outra idéia básica
associada aos ebionitas era que esperavam o estabelecimento de um reino
messiânico em Jerusalém. Isto reflete sua identificação de judaísmo e cristianismo
(Benget Hängglund).
[3] Práxeas era um representante modalista. Durante os últimos anos do segundo século
surgiram duas correntes teológicas chamadas pelo mesmo nome: monarquianismo
(dinamista e modalismo). O conceito “monarquiano” do qual estas duas escolas tomam
seu nome, apareceu nos escritos de Tertuliano, que o usou com referência à unidade de
Deus.
Devemos destacar que a doutrina da igreja opô-se ao monarquianismo de modo especial
nos seguintes pontos: a doutrina da consubstancialidade do Filho com o Pai (contra o
dinamismo);  a doutrina das três pessoas da Divindade (contra o modalismo); a doutrina
do nascimento do Filho na eternidade (contra ambos).
Entre os que se opuseram ao monarquismo e contribuíram para desenvolvimento
teológico dentro da igreja no final do terceiro século encontram-se Novaciano e Metódio.
[4] Teólogos Alexandrinos à Alexandria (localizada no Egito), foi o grande centro cultural
da época, mesmo do ponto de vista católico. Naquele famoso didascaléion, naquela
celebrizada escola catequética, espécie de faculdade teológica, foram luminares
Clemente e Orígenes.
Alexandria competiu com Antioquia, e em especial com Constantinopla pelo domínio
eclesiástico do Oriente, e nesta luta pelo poder entraram também questões teológicas.
Os teologos alexandrinos se referiam a Maria como theotókos (a mãe de Deus). Esta
conclusão harmonizava-se com a adoração à Maria que estava crescendo naquela época.
Diziam que Maria não foi contaminada pela máculo do pecado original e afirmavam
também que Maria permanecera Virgem durante toda sua vida. O Sinodo de Éfeso (em
431) decidiu em favor da teologia alexandrina contra a teologia de nestoriana que não
reconhecia Maria como theotókos (Nestório – Escola de Antioquia).
[5] A Escola de Antioquia foi uma das duas grandes escolas no estudo
da exegese bíblica e da teologia durante o final da antiguidade. Este grupo ficou
conhecido por este nome por que os seus principais defensores moravam na cidade
de Antioquia, um das maiores do antigo Império Romano.
A Escola de Antioquia (localizada na Síria) foi fundada por Luciano de Samosata ( 240-
312 DC ), um teólogo cristão que deu origem a uma linha de interpretação de estudos
bíblicos conhecida pela sua erudição e conhecimento das línguas originais. Essa escola
se tornou famosa por sua abordagem literal e histórica dos contextos das sagradas
escrituras. Buscavam principalmente descobrir a intenção do autor, como meio para
determinar o sentido de uma passagem bíblica.

[6] Homooúsios (doutrina que afirma que Cristo tem a mesma substância do Pai) cria
uma nova discussão cristológica. Como se relaciona a divindade de Cristo com sua
humanidade? Como pode aquele que é verdadeiro Deus ser também homem ao mesmo
tempo?
Perguntas deste teor já haviam brotado no período inicial da história da igreja,
especialmente no conflito com os docetistas e na rejeição dos ebionitas. As tendências
heréticas, implícitas nessas escolas de pensamento reapareceram em novas formas
durante as assim chamadas controvérsias cristológicas, que tiveram lugar de destaque no
desenvolvimento do dogma a partir de meados do quarto século.
[7] Apolinário não aceitava a tese de que o Filho (Logos) sendo da mesma substância do
Pai aparecer em forma humana. Como poderia ser Deus e homem ao mesmo tempo?
Apolinário acreditava que Cristo tinha apenas uma natureza e uma hipóstase
(subsistência, uma realidade permanente). Para ele a natureza do logos foi transmutada
em carne, assumindo uma qualidade divina. Apolinário enfatizava a divindade de Cristo
perdendo de vista sua verdadeira humanidade.
A oposição a Apolinário partiu especialmente dos capadocianos e da escola de Antioquia.
No conflito contra ele, a oposição salientava que a verdadeira humanidade de Cristo tem
de significar que ele não só tinha corpo humano, mas também alma humana, pois corpo e
alma juntos é que  formam a essência da humanidade. Sem a razão humana o homem
não é mais homem.

[i]Monarquianismo à Nessa época surgiram os que Tertulíano chamou de


monarquianistas (do grego monarchia - governo exercido por uma única pessoa). Os
monarquianistas dinâmicos (do grego dynamis “força, poder”, pois diziam que Deus deu
força e poder a Jesus, adotando-o como Filho), negavam a divindade absoluta de Jesus,
e também a Trindade. Esta heresia era o prenúncio do arianismo, que, no início de
terceiro século, negava a eternidade de Jesus, pois considerava Cristo um deus de
segunda categoria, igual ao ensino das Testemunhas de Jeová. Essa doutrina dos
dinâmicos era defendida por Teodoro de Bizâncio, Artemão e Paulo de Samosata.
Monarquianistas modais ou modalistas ensinavam que as três pessoas da
Trindade manifestavam-se de vários modos, daí o nome modalista. Defendidos por Noeto
de Esmirna e Práxeas de Cartago, ensinavam que o Pai nasceu e sofreu, e que Jesus era
o Pai. Por essa razão, no Ocidente, eles eram chamados de patripassianistas (do latim
Pater “Pai” e passus de patrior “sofrer” - o Pai encarnou-se em Cristo e sofreu com Ele).
No Oriente eram chamados sabelianistas, pois o heresiarca Sabélio foi quem mais se
destacou na propagação dessa heresia. Segundo essa doutrina, o Pai, o Filho e o Espírito
Santo são apenas três aspectos da Divindade, sendo, portanto, uma só Pessoa. Esse
ensinamento do bispo Sabélio é hoje chamado de sabelianísmo ou modalismo.
Sabélio usava a palavra “pessoa” para cada Pessoa da Trindade, mas para ele
essa “pessoa” tinha o sentido de máscara ou manifestações diferentes de uma mesma
Pessoa Divina. Na sua concepção o Pai, o Filho e o Espírito Santo são nomes de três
estágios ou fases diferentes. Ele era Pai na criação e na promulgação da Lei; Filho na
encarnação, Espírito Santo na regeneração. Essa doutrina foi combatida por
Tertuliano em Contra Prãxeas, quando pela primeira vez este apologista usa o termo
Trinitas (“Trindade”) para a Divindade:

“Todos são de um, por unidade de substância, embora ainda esteja oculto o
mistério da dispensação que distribui a unidade em uma Trindade, colocando em sua
ordem os três: Pai, Filho e Espírito Santo; três contudo,... não em substância, mas em
forma, não em poder, mas em aparência, pois eles são de uma só substância e de uma
só essência e de um poder só, pois é de um só Deus que esses graus, formas e aspectos
são reconhecidos com o nome de Pai, Filho e Espírito Santo.”

Modalismo moderno
Restauração do modalismo. O sabelianismo ganhou espaço por mais ou menos
cem anos em Roma, Ásia Menor, Síria e Egito. Em 263 A.D., Dionísio de Alexandria
enfrentou o próprio Sabélio, derrotando o sabelianismo. Depois disso o cristianismo
passou a repudiar o sabelianísmo, e o combate a essa heresia continuou até que ela
desapareceu completamente da história. Depois de muitos séculos, esse ensinamento
retornou das profundezas do Inferno, por John G. Schepp, fundador da seita “Só Jesus”,
em 1913. Temos no Instituto Cristão de Pesquisas (ICP) uma lista de mais de quinze
seitas modalístas. Não é possível, aqui, um comentário sobre todas elas, mas
apresentaremos apenas as principais:
Só Jesus
Fundada por John 8. Schepp em 1913, ensina que o batismo salva, igual à doutrina
da Congregação Cristã no Brasil, e deve ser realizado só em nome de Jesus. Seus
adeptos não seguem a fórmula batismal de Mateus 28.19:
“Em nome do Pai, e do Filho, e do Espfrito Santo”. Essa seita provocou muitas
divisões nas igrejas evangélicas da época. Ela mesma depois se dividiu em várias
facções, entre as quais a Igreja Pentecostal Unida do Brasil, presente em outros países,
que também é modalista e batiza só em nome de Jesus. (Não confundir com a Igreja
Unida.)

Tabernáculo da Fé
Fundado por William Marrion Branham (1906-1965), chamado por seus adeptos de
“o profeta do século e mensageiro do Apocalipse”, William Marrion Branham, como os
demais funda dores de seitas, arroga para si a mesma autoridade dos profetas e
apóstolos da Bíblia e nega a doutrina bíblica da Trindade. Seus adeptos são modalistas,
pois seguem o ensino de seu líder, e o batismo nas águas é realizado só em nome de
Jesus.

Voz da Verdade
Igreja que utiliza o mesmo nome do conjunto Voz da Verdade. Suas músicas são
cantadas sem restrição alguma na maioria de nossas igrejas. Muitos ainda não se deram
conta dessa gravidade. Eles são uma seita e atacam a doutrina bíblica da Trindade, e seu
batismo nas águas é realizado em nome de Jesus. Seus hinos que enfatizam a divindade
de Jesus constituem a doutrina unicista, e estão “sacrificando o Pai”, como disse
Tertuliano, dos modalistas de sua época.

Igreja Local de Witness Lee


Conhecida por seu ônibus “Expo-livro” e por seu jornal Árvore da Vida. É a que
mais suscita problema entre os evangélicos, por causa de seu proselitismo sectário e
desleal. Eles perturbam nossas igrejas e camuflam-se facilmente em nosso meio. Dizem
que não são modalistas porque Sabélio dizia que Pai, Filho e Espírito Santo são três
aspectos temporários da Divindade, ao passo que a Igreja Local afirma que são três
aspectos eternos da Divindade. O ponto divergente entre eles é que ambos declaram ser
a Divindade uma só Pessoa. Como Sabélio, usam com freqüência a palavra “pessoa”
para cada Pessoa da Trindade, mas com outro sentido. Empregam até o nome Trindade,
mas não é o mesmo trinitarianismo do Credo Atanasiano.

Testemunhas de Ierrochua ou Iehoshua


Fundado em 1987, em Curitiba, PR. Além de modalistas, pregam que o nome do
Salvador não é Jesus, mas Yehoshua, forma hebraica do nome “Josué”. Os manuscritos
gregos do Novo Testamento destroem completamente essa teoria das Testemunhas de
Ierrochua. Há diversos disparates em sua doutrina.

[ii] Concílios:

Concílios da Igreja Indivisa

50     C. de Jerusalém             As leis judaicas e os cristãos}


325   1º C. de Niceia             Contra o arianismo. Credo

381    1º Constantinopla        Finalização do Credo

432   C. de Éfeso                 Contra o nestorianismo

451   C. de Calcedónia         Contra o monofisitismo princípio da união hipostática

553   2º Constantinopla        Contra os nestorianos

681   3º Constantinopla        Contra o monotelitismo

767   2º C. de Niceia           Legaliza veneração de imagens

867 e 1064       -     Cismas entre as Igrejas Romana e Ortodoxas

Concílios da Igreja Romana

869      4º Constantinopla                                  A paz entre o Ocidente e o Oriente

1123    1º de Latrão                                          Disciplina. contra os Valdenses e


Albigenses.

1139    2º de Latrão                                           Idem

1179    3º de Latrão                                            Idem

1215    4º de Latrão                                            Idem

1245    1º de Lião
1274    2º de Lião

1311    C. de Viena

1414    C. de Constância                                      Fim da rivalidade entre os papas

1431    Basileia-Ferrara- Florença-Lausana          Reforma e união com as igrejas orientais

1512    5º de Latrão

A partir de 1517: Reforma e surgimento das Igrejas Protestantes


1545    Concílio de Trento         Contra- Reforma

1870    1º Concílio Vaticano      Doutrina da infalibilidade papal

1962    2º Concílio Vaticano      Aggiornamento da Igreja

Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira

Você também pode gostar