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Consultor
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Editor-Chefe
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Autor das lições


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Ainda me lembro do impacto que o Intensivo de 9Marcas causou
em minha vida pessoal e na minha visão de igreja.
Cheguei com a expectativa de aprender alguma coisa a mais
sobre crescimento de igreja e entendi que deveria começar de
um ponto mais básico:

revendo o que é igreja.


Naqueles dias, fui edificado por pregações expositivas; ouvi
crentes falando de teologia bíblica nos grupos de estudo bíblico;
percebi uma forte convicção do evangelho no testemunho de
cada batizando; nas discussões dos presbíteros sobre os novos
membros, compreendi o entendimento bíblico que eles têm da
conversão, da evangelização e da membresia na igreja. Ainda
me lembro do seminário sobre disciplina. Quão intrigantes
foram as perguntas, e como Dever respondeu que antes de
aplicar esse entendimento na igreja, você deveria pregar sobre
o tema por quatro ou cinco anos! Nos corredores, nas
conversas, nos testemunhos, vi também que a ideia de
discipulado está presente e que desenvolvimento de liderança é
algo que faz parte do dia a dia, e não é um evento.

Uma inquietação paira na mente de todos os que participam, e


a pergunta é inevitável: o que fazer quando voltar para casa? O
que mudar? Como viver a vida cristã de maneira a demonstrar
essa visão mais simples de uma igreja cuja estrutura é
submetida às convicções bíblicas?

Enviado pela Editora Cristã Evangélica, nossa resposta não


podia ser outra: produzir algo que aumente o compartilhamento
dessas verdades fundamentais para a vida de uma igreja
frutífera. Oramos para que estas lições sejam instrumento de
Deus a fim de ajudar você a desenvolver uma visão bíblica de
igreja, uma experiência bíblica do evangelho de Cristo e o que
ele faz na vida do pecador.
Leia as lições, promova estudos em grupos, aprofunde-se nos
livros indicados, discuta, aplique e promova saúde na sua igreja
local por meio de meditar nessas verdades bíblicas
fundamentais.

André de Souza Lima


– Sumário –

1 O que é uma igreja saudável?


2 A igreja do Deus trino
3 Marca 1: Pregação expositiva
4 Marca 2: Teologia bíblica
5 Marca 3: Evangelho
6 Marca 4: Conversão
7 Marca 5: Evangelização
8 Marca 6: Membresia
9 Marca 7: Disciplina
10 Marca 8: Discipulado
11 Marca 9: Liderança
12 A igreja é o evangelho visível
Cristo planejou que Seus discípulos vivessem em
uma comunidade
de outros discípulos que iriam lhes ensinar a
obedecer a tudo quanto Ele ordenara.

INTRODUÇÃO
Vivemos hoje em uma sociedade que trocou a definição bíblica de
amor por uma visão marcada de individualismo e consumismo, com
fobia a comprometimentos e instituições. Jonathan Leeman, em seu
livro A Regra do Amor (2019), aponta que o imaginário amoroso
propagado no Romantismo do séc. XVIII era de casais
perdidamente apaixonados que se colocavam contra todas as
estruturas, hierarquias e tradições do passado em prol do que
queriam e sentiam.

Assim, a autorrealização e a autoexpressão foram exaltadas como


as marcas fundamentais do amor. Em vez de autonegação, as
pessoas buscam alguém que as aceite como elas são. Em vez de
altruísmo, desejam alguém que as complete, que as faça felizes e
realizadas. Quando, porém, valorizamos o “eu” acima dos outros,
passamos de uma troca relacional para o consumismo, no qual
usamos coisas e pessoas para nosso próprio proveito. Dentro dessa
visão, comprometer-se com algo é restringir possibilidades de
felicidade.

Discuta

1. Como homens e mulheres influenciados pelo individualismo e pelo


consumismo veem a igreja?
2. Como pessoas influenciadas pela fobia por comprometimentos e
instituições veem a igreja?
3. Você já percebeu algo assim em seu comportamento? E em sua igreja,
vê algum sinal disso?

1. IGREJA: O PLANO DE JESUS


“A igreja não é um acessório; é a forma de seguir a Jesus.” (Dever, 2018,
p.16)
Mateus é o único que registra a palavra “igreja” nos lábios de Jesus
(Mt 16.18; 18.17). É claro que, para o evangelista, a vida cristã deve
ser vivida em comunidade. Na Grande Comissão, Jesus orientou os
apóstolos sobre o que fazer após Sua partida. Eles deviam fazer
discípulos. Deviam proclamar o evangelho e batizar aqueles que
recebessem a Palavra, submetendo-se à suprema autoridade do
Rei Jesus. Entretanto, a comissão não para por aí. O Senhor
orientou os novos discípulos a não viverem desraigados, e sim
debaixo do ensino apostólico, aprendendo a obedecer a tudo quanto
o Mestre ordenara.

Discípulos que fazem novos discípulos, que vivem na


comunidade dos santos, aprendendo a viver seu discipulado e
a fazer novos discípulos.
E é justamente isso que os apóstolos fizeram. Quando lemos Atos,
vemos que, de forma geral, os apóstolos não foram evangelizando
pessoas e deixando-as dispersas, mas plantando igrejas e reunindo
os novos discípulos nessas comunidades.

Discuta

1. Diante do padrão do Novo Testamento, é normal um cristão não se unir a


uma igreja local?
2. O que Hebreus 10.24-25 nos ensina sobre a vida comunitária do cristão?
3. Observe o contexto de Hebreus 10.19-27. Por que o mandamento de
não deixar de congregar é importante?

2. O QUE É UMA IGREJA SAUDÁVEL?


Se é importante que o cristão viva unido a uma igreja, precisamos
então entender o que ela é e o que ela não é. Hoje, diversas
rejeições à igreja se devem por auditórios que podem até ter placa
com a inscrição “igreja”, porém, como Jesus mesmo disse, são
sinagogas de Satanás (Ap 3.9).

Quando sondamos o Novo Testamento, percebemos que há


momentos em que o termo “igreja” é usado no singular e outras
vezes, no plural. Hebreus 12.22-23 trata sobre a “assembleia
universal e igreja dos primogênitos arrolados nos céus”. É isso que
os teólogos costumam chamar de “igreja universal”. O texto nos diz
de uma única igreja, que é universal e cujo rol de membros está nos
céus. A igreja universal é composta de todos os eleitos, de todos os
tempos e de todos os lugares. Só Deus sabe quem está arrolado
nessa bendita assembleia.

No entanto, o uso da palavra no Novo Testamento parece ser não


no sentido universal, mas sim no sentido local — uma assembleia
que se reúne em determinado local e tempo, cujos membros estão
arrolados na terra (as sete igrejas em Apocalipse 1-3; as igrejas da
região da Galácia e da Judeia, em Gálatas 1.2,22).

Os usos, porém, nem sempre são tão nítidos e distintos quanto


gostaríamos. Um dos assuntos que a Epístola aos Efésios trabalha
é a unidade entre judeus e gentios na igreja local, porém, Paulo
constantemente fundamenta isso na unidade de um só corpo (Ef
4.4), porque a “união universal [de um crente com Cristo e com
todos os crentes] precisa ter uma existência viva e atuante em uma
igreja local”. (Dever, 2018, p.34)

Além de universal e local, a Reforma Protestante trouxe outra


distinção importante: verdadeira e falsa. Nem tudo aquilo que se diz
igreja é, de fato, uma congregação de Cristo. Então, como
diferenciar? Na teologia católica romana, a estrutura hierárquica
visível é o fator diferenciador, porém, a Reforma colocou o
evangelho como critério de identificação. Onde o evangelho é
puramente pregado, e a ceia e o batismo são corretamente
administrados (sem macular o evangelho), aí se tem uma igreja
verdadeira.

Os herdeiros da Reforma perceberam que além da distinção entre


verdadeira e falsa, outra era útil: distinguir entre igrejas mais ou
menos puras — o que hoje chamamos de saudável. Há igrejas mais
puras ou saudáveis e igrejas menos puras ou menos saudáveis, ou
mais doentes. Infelizmente, algumas igrejas se degeneraram tanto
que são igrejas mortas ou sinagogas de Satanás. Um lugar onde a
Palavra não é exposta e o evangelho de Cristo não é pregado não é
uma igreja verdadeira, mesmo que repita milhares de vezes o nome
de Jesus.
Discuta

1. Por que é importante fazer essas distinções entre igreja universal e local,
falsa e verdadeira, doente e saudável?
2. O que é uma igreja saudável para você? Liste marcas importantes que
uma igreja ideal deveria ter.
3. Em qual ordem você colocaria essas marcas?

3. O QUE É UMA IGREJA SAUDÁVEL


PARA DEUS?
Por mais que as perguntas anteriores sejam importantes, a mais
importante que devemos fazer é: o que é uma igreja saudável para
Deus? Como Mark Dever coloca:

“Deus criou a igreja, e isso implica que ele possui toda a


autoridade na igreja.
Deus nos diz o que a igreja é e como ela deve funcionar.”
(Dever, 2015, p.30)

Nossa lista demonstra o que é mais importante para nós, porém, ela
precisa se conformar às prioridades do Rei. Cristo fundou a igreja e
a comprou com Seu sangue, para apresentá-la perfeita (Mt 16.18; At
20.28; Ef 5.25-27). Seria pretensão nossa, que nem mesmo
conseguimos respirar sem Cristo, achar que podemos definir como
a assembleia de Jesus deve se organizar e se comportar, ou pensar
que nossos métodos são melhores que os planos Daquele que sabe
todas as coisas, o princípio e o fim, e que enviou Seu Espírito para
operar poderosamente na igreja com os meios que Ele prescreveu.

Nas últimas décadas, muitos experts em igreja, prometendo


crescimento numérico, ano após ano, trouxeram novas modas que
iriam “revolucionar” a igreja. Isso sem contar aqueles que pretensa e
arrogantemente afirmavam ter achado o segredo para o sucesso da
igreja — insinuando que Jesus deixou Sua amada igreja dois mil
anos sem informação tão importante.

Se há um expert em igreja, alguém que a conhece nos mínimos


detalhes, que sabe com perfeição o que lhe fará bem ou mal, esse é
Quem é mais sábio que Salomão. Jonathan Edwards expressou de
forma belíssima:

“Quaisquer que sejam as maneiras de se constituir a igreja que


nos pareçam oportunas, adequadas e razoáveis, a questão é,
não qual constituição da igreja de Cristo parece conveniente
para a sabedoria humana, mas qual constituição foi realmente
estabelecida pela infinita sabedoria de Cristo.” (Edwards citado
por Dever, 2001, p.305)

Não importa o que parece certo para nós, importa o que Jesus
ordenou. Ele governa Sua igreja por meio do cetro da Escritura.
Essa verdade traz imensa liberdade a pastores e igrejas. Isso
porque não mais precisam se exaurir tentando surfar a última
tendência. Eles podem ser ativamente fiéis, plantando e regando,
confiando que é Deus que dá o crescimento (1Co 3.6-7), podem
focar mais em ser fiéis do que bem-sucedidos ao olhos do mundo
(1Co 4.1-5).

Discuta

1. Você já ouviu alguma proposta de crescimento de igreja? Qual a última


tendência na sua região?
2. Qual seria a lista de Deus para uma igreja saudável?
3. Qual você imagina que seria a ordem de prioridade de Deus?

CONCLUSÃO

Conforme avançamos para refletir sobre as nove marcas de uma


igreja saudável, como propostas pelo Pr. Mark Dever, é importante
fazer algumas observações que o próprio autor destaca no prefácio
de seu livro. Estas não são todas as marcas possíveis de uma igreja
saudável, nem é um inventário completo de todos os sinais de
saúde da igreja. Talvez você sinta falta de alguma que considera
crucial. Dever e o ministério 9Marks, porém, entenderam que é
estratégico, fiel e correto continuar focalizando a atenção dos
cristãos nestes assuntos específicos. As nove marcas são:

Marca 1: Pregação Expositiva


Marca 2: Teologia Bíblica
Marca 3: O Evangelho
Marca 4: Um Entendimento Bíblico da Conversão
Marca 5: Um Entendimento Bíblico da Evangelização
Marca 6: Um Entendimento Bíblico da Membresia na Igreja
Marca 7: Disciplina Bíblica na Igreja
Marca 8: Interesse pelo Discipulado e Crescimento
Marca 9: Liderança Bíblica na Igreja

Cabe ressaltar também que há uma sequência lógica entre elas.


Conforme a Palavra é exposta, a igreja desenvolve uma teologia
que é saturada pela Bíblia e aprende com maior clareza o
evangelho. Isso fará com que saiba diferenciar as evidências do
arrependimento e da fé que seguem um entendimento bíblico da
conversão, e assim poderá evangelizar de forma mais bíblica. À
medida que as pessoas se convertem, elas devem unir-se a uma
igreja local, a qual precisa ter seu cercado bem delimitado pela
membresia e pela disciplina bíblica. Dentro desse cercado, um pasto
verdejante de vida cristã e discipulado vai levar a igreja a crescer e
formar líderes que vão pregar fielmente a Palavra — e voltamos ao
princípio.

Por fim, se essas marcas não são uma nova tendência, mas
resumos dos ensinos bíblicos sobre a igreja, então elas não são
opcionais. Se expressam aquilo que Jesus quer em todos os tempos
para Seu povo, então não podemos escolher qual marca preferimos,
mas precisamos buscar ter todas em nossas igrejas. Não podemos
achar que eram para outros tempos, mas precisamos compreender
que são também para o nosso século.

Certamente, o tempo e o modo como serão implantadas vão


depender da prudência pastoral e de caso a caso; bem como a
forma e o tempero de como cada marca se mostrará. Entretanto,
uma coisa é certa: quanto mais significativas e intencionais essas
marcas forem, mais encontraremos uma igreja saudável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Jonathan Leeman, Regra do Amor: Como a Igreja Local Deve Refletir o Amor e a
Autoridade de Deus (São José dos Campos, SP: Fiel, 2019).
Mark Dever (ed.), Polity: Biblical Arguments on How to Conduct Church
Life (Washington D.C.: Center for Church Reform, 2001).
Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2018).
Mark Dever, Igreja: O Evangelho Visível (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015).

MAIS RECURSOS
Mark Dever, O que é uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2016).
O evangelho salva um povo, a igreja, dando--lhe
um novo relacionamento com o Deus Trino.

INTRODUÇÃO
“A igreja é um povo, não um lugar, nem uma estatística.
É um corpo, unido a Cristo, que é a cabeça. É uma família,
unida por adoção por meio de Cristo.” (Dever, 2015. p.47)

Muitos tratam a igreja como se ela fosse algo optativo, pensando


que, se não é necessária para a salvação, então não é importante.
Certamente a salvação é somente por meio da fé em Cristo, porém,
separar a igreja do evangelho, do Deus Trino e dos planos de Deus
é grande erro.

Em Gálatas 1.1-9, Paulo abre a epístola falando do evangelho de


nosso Senhor Jesus Cristo, “o qual entregou a si mesmo pelos
nossos pecados, para nos livrar deste mundo perverso...” (v.4). Esse
evangelho gerou igrejas (v.2). Agora em contrapartida, as igrejas
devem proteger o evangelho das falsificações, mesmo que alguém
chegue com uma carteirinha de apóstolo ou seja um “anjo vindo do
céu” (v. 8-9), se pregar um evangelho falso, a igreja deve rejeitá-lo.
Assim, o evangelho gera a igreja, e a igreja deve promover e
proteger o evangelho. Há uma relação íntima entre o evangelho e a
igreja. Ao desprezar a igreja, menosprezamos aquilo que a obra de
Cristo realizou e como o Senhor planejou que Seu evangelho fosse
protegido e promovido, afinal a igreja do Deus vivo é coluna e
fundamento da verdade (1Tm 3.15).

Mas isso não é tudo. O evangelho concede à cada cristão e à igreja


um novo relacionamento com o Deus Trino. Em Efésios 2.11-22,
Paulo mostra como, “por meio da cruz”, Jesus destruiu a inimizade
entre Deus e os homens, e entre os povos distintos (em Efésios,
Paulo ressalta a parede da separação que havia entre judeus e
gentios). Na cruz, Jesus uniu Seus remidos a Si mesmo, ao Seu
corpo. Agora, todos os salvos são corpo do Filho; e, se estão unidos
com o Filho, são da família do Pai e templo do Espírito, assim como
o Ungido o é. Esse relacionamento não é temporário, é eterno. A
igreja sempre será família do Pai, corpo do Filho e templo do
Espírito.

Se a igreja está tão intimamente relacionada com o Deus Trino e


Seu plano de salvação, não é de estranhar que ela esteja no centro
dos planos de Deus. O Pai eternamente planejou glorificar Seu
Filho, e parte desse propósito envolve colocar “todas as coisas
debaixo dos pés de Cristo e, para [Jesus] ser o cabeça sobre todas
as coisas, o deu à igreja” (Ef 1.22). Cristo é exaltado, e a igreja
exaltada juntamente a Ele. Em contrapartida, o Filho glorifica o Pai,
e se a igreja está unida ao Filho, ela também glorifica o Pai. Veja
como Paulo coloca essa realidade em Efésios 3.21: “a ele seja a
glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo
o sempre. Amém!”

Uma das formas pelas quais o Pai é glorificado por meio da igreja é
quando a “multiforme sabedoria de Deus se torna conhecida dos
principados e das potestades nas regiões celestiais” (Ef 3.10), por
causa do mistério revelado de que “os gentios são coerdeiros,
membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo
Jesus por meio do evangelho” (Ef 3.6).

Assim, o propósito de Deus é que a igreja O glorifique pelo que ela é


e pelo que ela faz. O ministro do século XIX, Charles Bridges,
expressa isso de forma magnífica: “A igreja é o espelho que reflete a
completa fulgência do caráter divino. É o grande cenário, no qual as
perfeições de Jeová são exibidas para o universo.” (Bridges, 1967)

Assim vemos que a igreja está ligada intimamente com as três


verdades preciosas da fé cristã: o evangelho da nossa salvação; o
Deus Trino, que nos salva; e o propósito de Deus em glorificar a Si
mesmo. Ela não é trivial, nem opcional. Ela é amada pelo Deus
Altíssimo, que a comprou com o Seu próprio sangue (At 20.28).

Discuta

1. Normalmente, pensamos em nosso relacionamento pessoal com Deus.


Você já havia pensado sobre a relação comunitária da igreja com o Deus
Trino?
2. De que formas a igreja traz glória a Deus, pelo que ela é e pelo que ela
faz?
3. Diante do que foi discutido, você acha que a igreja é importante aos
olhos de Deus? Quais são alguns problemas de menosprezarmos a
igreja?
1. FAMÍLIA DO PAI
Um dos maiores privilégios da vida cristã é ser adotado por Deus,
poder chamar o Pai de Cristo de “Pai nosso, que estás nos céus”.
Se estamos unidos com o Filho, compartilhamos das bênçãos da
união e do relacionamento que Ele tem com o Pai.

O Filho é eternamente gerado pelo Pai; e nós, por crermos em


Cristo, somos nascidos de Deus (1Jo 5.1). Por estarmos no Verbo,
fomos gerados pela palavra da verdade de Deus e regenerados
mediante a Sua palavra viva e permanente para uma viva
esperança (Tg 1.18; 1Pe 1.3,23).

Assim como o Pai ama o Filho, somos amados em Deus Pai (Jd 1;
2Ts 2.16). De forma maravilhosa, Jesus nos diz que o Pai nos ama
com o mesmo amor que tem pelo Filho (Jo 17.22). Assim como o
Filho é um com o Pai e desfruta de plena comunhão com Ele, nós
também (Jo 17.20-22; 1Jo 1.3). Nós estávamos longe, mas fomos
aproximados (Ef 2.13).

E se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e


coerdeiros com Cristo de uma herança que não pode ser destruída,
que não fica manchada, que não murcha, que está reservada nos
céus para nós (Rm 8.17; Tt 3.7; 1Pe 1.4). De fato, sermos
chamados filhos de Deus é demonstração maravilhosa do grande
amor que o Pai nos tem concedido (1Jo 3.1).

Assim, como o Pai “nos predestinou para ele, para sermos adotados
como seus filhos”, Ele nos escolheu para sermos santos e
irrepreensíveis (Ef 1.4-5). Tal Pai, tal Filho, tais filhos. Pois nosso Pai
é santo, somos chamados a ser santos em todo o nosso
procedimento, lembrando que nosso Pai julga as obras de cada um
sem acepção de pessoas (1Pe 1.14-17). Deus Se importa tanto com
Sua família que disciplina, em amor, Seus filhos para serem
participantes da Sua santidade (Hb 12.10).
Somos chamados a amar o Pai e o Filho (1Jo 5.1); e somos
chamados ao amor fraternal não fingido — a amar de coração e
ardentemente nossos irmãos, pois fomos regenerados pela semente
do Deus, que é amor (1Pe 1.22-23). A marca dos filhos de Deus é o
amor; e isso é tão crucial que, se alguém afirma amar o Pai, mas
não ama seus irmãos, é considerado mentiroso, pois “quem não
ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não
vê” (1Jo 4.20). Não há como falar que ama a Deus sem amar a
igreja. A família do Pai deve ser um lar de amor.

Discuta

1. Quais são as implicações práticas de sermos família do Pai para nossa


vida de igreja?
2. Faz sentido alguém dizer que ama o Pai, mas se recusa a amar a família
Dele?

2. CORPO DO FILHO
Uma das mais importantes e negligenciadas doutrinas da salvação é
a união com Cristo. Como vimos, desfrutamos de um novo
relacionamento filial com Deus por estarmos no Filho. Millard
Erickson aponta, em sua Introdução à Teologia Sistemática,
diversas implicações de sermos corpo de Cristo. (Erickson, 1997, p.
441-442)

Primeiro, se somos corpo, Ele é a cabeça. O Pai O exaltou e pôs


todas as coisas debaixo de Seus pés, para que em todas as coisas
o Filho tivesse a primazia (Ef 1.22-23; Cl 1.18). Além disso, como
corpo, estamos unidos à cabeça. A igreja, como noiva de Cristo,
está unida espiritualmente ao Senhor e, assim como o marido é o
cabeça da mulher, “Cristo é o cabeça da igreja, sendo ele próprio o
salvador do corpo”, provendo tudo o que a sua amada precisa para
ser apresentada “gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa
semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.22-33). Cristo supre,
alimenta e cuida do Seu corpo como cuidamos do nosso (Ef 5.29-
30; Cl 2.19). Como esposa de Cristo, a igreja é submissa e sujeita à
piedosa liderança de seu Senhor (Ef 5.24).

Em segundo lugar, se somos corpo de Cristo, somos,


individualmente, membros desse corpo e estamos interligados uns
aos outros (1Co 12.27). Não há como afirmar estar unido com
Cristo, mas não se unir aos outros membros do corpo de Cristo.
Paulo ensina que, quando partimos o pão na ceia simbolizando
nossa comunhão com Cristo, isso invariavelmente também fala
sobre nossa comunhão, porque “nós, embora muitos, somos
unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do
único pão” (1Co 10.17).
As implicações dessa realidade são maravilhosas. Aqui estão
quatro.

a. União: nossa união em Cristo é maior que nossas diferenças


étnicas ou sociais (1Co 12.12-13; Ef 2.11-16; Cl 3.11), por isso
devemos preservar e crescer em unidade de fé (Ef 4.1-4,11-16).
Porque Cristo não está dividido, não deve haver divisões entre nós
(1Co 1.10-13).
b. Interligação: dependemos uns dos outros a ponto de um membro
do corpo não poder dizer que não precisa do outro (1Co 12.15-25).
Os dons e o serviço amoroso de cada membro são necessários
para a edificação do corpo (Rm 12.3-8; 1Co 12; Ef 4.15-16; Cl
2.19).
c. Sintonia: sermos um só corpo significa que “se um membro sofre,
todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, todos os outros
se alegram com ele” (1Co 12.26). Choramos com os que choram e
nos alegramos com os que se alegram (Rm 12.15).
d. Extensão: quando vivemos esse amor em união, interligação e
sintonia, refletimos o caráter de Cristo em nosso mundo, tornamos
o evangelho visível (Jo 13.35). Como Seu corpo, somos a
extensão de Seu ministério na terra, sendo chamados a continuar
a proclamação do evangelho do Verbo de Deus e a extensão da
compaixão do Supremo Pastor (Mt 28.10-20; Jo 14.12).

Quando batemos nosso dedinho do pé em um móvel, percebemos


como cada membro do nosso corpo está unido ao todo, como todos
sofremos se o menor de nós sofre, e como cada parte do nosso
corpo é importante para caminharmos em serviço neste mundo.

Discuta

1. Quais são as implicações práticas de sermos corpo do Filho para a


nossa vida de igreja? Liste pelo menos três.
2. Faz sentido alguém dizer que tem comunhão com Cristo, mas se recusa
a unir-se ao corpo Dele? Por quê?

3. TEMPLO DO ESPÍRITO
No Antigo Testamento, podemos ver que o templo era o foco,
o locus, da glória de Deus na terra, o lugar onde Deus Se
encontrava com Seu povo. No Novo Testamento, porém, Cristo
ensina que Seu corpo era o templo que seria destruído, mas em três
dias seria reconstruído (Jo 2.19-22). Jesus é o templo verdadeiro,
onde a glória de Deus habita e onde nos encontramos com Deus.

Como a igreja está unida com Cristo, ela também é “casa


espiritual” (1Pe 2.4-8), edifício e santuário de Deus (1Co 3.9,16-
17), “... para serem morada de Deus no Espírito” (Ef 2.21-22). Ou
seja, a igreja é o templo onde a glória de Deus habita e onde nos
encontramos com Deus neste mundo. Quando a igreja se reúne
para proclamar “as virtudes daquele que [nos] chamou das trevas
para a sua maravilhosa luz...” (1Pe 2.9-10), Deus está presente de
forma mais profunda do que quando adoramos sozinhos.

Por ser habitada pelo Espírito (que é) Santo e Deus andar entre nós,
a igreja é chamada a ser santuário dedicado ao Senhor (Ef 2.21-22)
e andar em pureza (2Co 6.14-7.1). Cada crente é uma pedra viva
desse santuário e chamado para ser sacerdócio santo, a fim de
oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de
Jesus Cristo (1Pe 2.4-8).

Como pedra viva, nenhum crente é dispensável. Estarmos juntos,


exercendo nosso papel, é crucial para o edifício crescer. Precisamos
todos desempenhar o papel de sacerdotes reais. O fato de sermos
sacerdotes não significa que vamos a Deus diretamente e não
precisamos de mediadores, assim não precisamos da igreja. De
fato, Cristo é o único mediador, e não precisamos de outros
mediadores humanos. Contudo, não somos sacerdotes para nós
mesmos, mas uns para os outros. Nós ministramos e intercedemos
uns pelos outros para que, por meio do nosso serviço, nossos
irmãos possam se achegar mais perto de Deus.

Discuta

1. Quais são as implicações práticas de sermos templo do Espírito para


nossa vida de igreja?
2. Faz sentido alguém afirmar ser habitado pelo Espírito, mas achar que
não tem problema ter um buraco com uma pedra a menos no edifício de
Deus?

CONCLUSÃO
[...] cada um de nós que somos discípulos do Senhor Jesus Cristo prestará
contas de haver ou não congregado regularmente na igreja, estimulado a
igreja ao amor e às boas obras e lutado para manter o ensino correto da
esperança do evangelho (Hb 10.23-25). (Dever, 2015, p.23)

Essas três imagens da igreja demonstram a importância de nos


envolvermos com ela. Antes de listar as nove marcas de saúde
propostas pelo Pr. Mark Dever, é importante compreendermos que
todos somos responsáveis para que a igreja seja edificada.
Em Efésios 4, Paulo alerta contra erros doutrinários que podem
minar a unidade que temos em Deus e no evangelho, a qual
precisamos preservar. E para que possamos fugir da imaturidade e
crescer conforme a estatura de Cristo, ao subir aos céus, nosso
Senhor deu dons a todos os santos. Os ministros da Palavra foram
dados a fim de treinarem e aperfeiçoarem os santos para o
desempenho do serviço e ministério dos santos (v.12) — não para
realizar todo o trabalho. E “todo o corpo, bem-ajustado e
consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa
cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a
edificação de si mesmo em amor” (v.16).

Faremos bem se nos atentarmos ao aviso de Paulo de não


menosprezarmos “a igreja de Deus” (1Co 11.22).

Discuta

1. Por que pensamos que só os pastores são responsáveis pela saúde da


igreja?
2. Você sente que tem feito sua parte para a edificação da igreja?
3. Que atitudes práticas você poderia tomar a fim de cooperar para a saúde
da igreja?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Charles Bridges, The Christian Ministry (Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust,
1967).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Millard Erickson, Introdução à Teologia Sistemática (São Paulo: Vida Nova, 1997).

MAIS RECURSOS
Mark Dever, Igreja: O Evangelho Visível (São José dos Campos, SP: Fiel, 2011).
Mez McConnell e Mike McKinley, Igreja em Lugares Difíceis: Como a Igreja Local
Traz Vida ao Pobre e Necessitado (São José dos Campos, SP: Fiel, 2016).
A pregação expositiva apresenta a palavra de Deus,
explicando uma passagem da Escritura e aplicando
o seu significado à vida da congregação.

INTRODUÇÃO
“A primeira marca de uma igreja saudável é a pregação expositiva.
Não é somente a primeira marca; é a mais importante de todas as marcas,
porque, se você desenvolvê-la corretamente, todas as outras a seguirão.
Esta é a marca essencial.” (Dever, 2007, p.40)

Se, conforme vimos na primeira lição, a pergunta central é “como é


uma igreja saudável para Deus?”, então precisamos saber o que Ele
deseja para a Sua igreja. E como saberemos isso? Pela Sua
Palavra.
A palavra de Deus deve ser absolutamente central em nossas
igrejas. Em sua primeira carta, Pedro (1Pe 1.23-2.2) ensina que
fomos regenerados “... não de semente corruptível, mas de semente
incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é
permanente...”. Em Tiago 1.18, lemos que Deus “nos gerou pela
palavra da verdade”, e em Romanos 10.17 aprendemos que nossa
fé vem pelo ouvir a pregação da palavra de Cristo. Ou seja, é pela
palavra de Deus que começamos a vida cristã. Sem a Palavra no
poder do Espírito, não há novo nascimento. Assim, o princípio da
vida cristã e o princípio da igreja estão na palavra de Deus.

O apóstolo Pedro continua e instrui seus leitores: “Como crianças


recém-nascidas, desejem o genuíno leite espiritual, para que, por
ele, lhes seja dado crescimento para a salvação” (1Pe 2.2). Ou seja,
a palavra de Deus é crucial em nosso novo nascimento e também
no desenvolvimento da nossa vida cristã. Afinal, Jesus orou para
que fôssemos santificados na verdade da palavra de Deus (Jo
17.17), recebendo consolação e esperança das Escrituras (Rm
15.4). Sem a Palavra no poder do Espírito, sem santificação. Assim,
o crescimento da vida cristã e da igreja estão na palavra de Deus.
Que isso significa para a igreja?

Significa apenas que a pregação da Palavra tem de ser


absolutamente central. Não deve causar surpresa ouvir que
pregação correta e expositiva da Palavra é a fonte de
crescimento da igreja. Estabeleça um bom ministério de
pregação expositiva e veja o que acontece. Esqueça o que
dizem os profissionais de crescimento de igreja. Observe
pessoas famintas terem sua vida transformada, à medida que o
Deus vivo fala com elas, por meio do poder de sua Palavra.”
(Dever, 2007, p.56-57)

Infelizmente, muitas vezes confiamos mais em métodos criados por


homens para ver nossas igrejas crescerem do que no poder da
palavra de Deus, no poder do Espírito, que é capaz de dar vida ao
vale de ossos secos (Ez 37).

Discuta
1. O que o Salmo 19.7-14 diz sobre a ação e a importância da palavra de
Deus?
2. De que maneira confiamos mais em métodos do que na palavra de
Deus?

1. A NECESSIDADE DA EXPOSIÇÃO
Se a Escritura é central e vital à vida da igreja, se é ela que faz a
igreja crescer, então é ela que deve ser exposta à igreja em todas
as atividades no culto. Os louvores devem ser baseados na Palavra;
as orações devem ser imersas da Bíblia; as pregações devem ser
exposições da Escritura.

A igreja é edificada com a palavra de Deus, e não com opiniões de


homens. Aliás, o Senhor alerta Seu povo a não dar ouvidos àqueles
que trazem mensagens de próprio coração e “não o que vem da
boca do S ” (Jr 23.16). Assim, os púlpitos devem transbordar
da verdade bíblica, devem expor o que Deus revelou nas Sagradas
Letras, que podem tornar as pessoas sábias para a salvação pela fé
em Cristo Jesus (2Tm 3.15).

Mas então, que é uma pregação expositiva? Certamente, muitas


definições já foram dadas, porém, Mark Dever nos oferece uma
definição simples, abrangente e útil:

“A pregação expositiva é o tipo de pregação que, em termos


bem simples, expõe a Palavra de Deus. Ela toma determinada
passagem da Escritura, explica-a e, em seguida, aplica o
significado da passagem à vida da congregação.” (Dever, 2015,
p.81)

Normalmente, a pregação expositiva é contrastada com a pregação


temática. Na mensagem temática, o pregador escolhe o que vai
falar, depois pensa no texto que se encaixa nesse objetivo. O perigo
desse tipo de abordagem é que pode impor uma ideia ao texto, em
vez de deixar o texto bíblico, com toda a sua riqueza e beleza, ditar
a mensagem do sermão.

Não que, se o sermão não for expositivo, a mensagem não será


bíblica. É possível pregar um conteúdo verdadeiro em um sermão
temático, porém o teor do sermão estará sempre limitado por aquilo
que o mensageiro já sabe. Como o pregador já vem com uma ideia
preconcebida ao texto, ele nunca vai aprofundar-se no rico terreno
da Escritura a fim de encontrar verdadeiras pepitas de glória.

Outro perigo — e este mais grave — é que o texto bíblico funcione


só como um trampolim para que o mensageiro fale o que bem
entender, muitas vezes até alegorizando o texto, em vez de explicar
seu sentido claro. Sendo assim, é essencial para a saúde e
segurança da igreja que a dieta normal do púlpito seja de
mensagens expositivas.

Agora, mensagens expositivas podem variar de estilo. Certa


mensagem pode ter falado muito com você e até ter seu conteúdo
baseado na Bíblia, mas ainda não ser expositiva. Por outro lado, é
necessário esclarecer que a mensagem expositiva não é um
comentário acadêmico frio e maçante. Afinal, para ser expositiva, a
pregação deve buscar aplicar a mensagem do texto bíblico ao
coração da congregação.

Exposições também não significam necessariamente sermões


longos ou que seguem certa metodologia. Não são essas coisas
que conferem piedade à igreja, mas ser impactada e conformar-se
com a palavra de Deus. Uma mensagem devocional de 15 minutos
pode ser expositiva se transmitir e aplicar o que o texto bíblico
ensina. O tempo e o método de um sermão variaram grandemente
durante a história da igreja e dependem de inúmeros fatores
culturais, eclesiásticos e pessoais.

Por fim, cabe ressaltar que um sermão expositivo também não é


uma explicação verso a verso percorrendo um livro inteiro da
Escritura. A escolha do trecho a ser pregado pode variar. É possível
pregar um sermão expositivo usando um verso, um parágrafo, um
capítulo e até mesmo um livro inteiro da Bíblia. Afinal, o princípio
não é o tamanho do texto, mas se a mensagem central daquele
trecho está sendo corretamente exposta.

No final das contas, a pregação expositiva é mais uma postura do


coração do que um método. “Um compromisso com a pregação
expositiva é um compromisso em ouvir a Palavra de Deus — é não
somente uma afirmação de que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas
também uma submissão de si mesmo à Palavra.” (Dever, 2007,
p.42) Esse é um compromisso que toda igreja, todo membro e todo
pastor devem ter.

Discuta

1. Qual é a sua opinião sobre a pregação expositiva?


2. Leia 2Timóteo 3.16-4.4 e responda:
a. De onde procede a Escritura?
b. Para que a Escritura é útil?
c. Qual o clamor que Paulo dá a Timóteo?
d. Com que base Paulo faz esse clamor?
e. Qual a urgência da pregação?
3. Leia Marcos 4.35-41. Qual o ponto principal da passagem bíblica? Para
onde ela está apontando e o que ela quer nos ensinar? Quais
mensagens com base nesse texto você já ouviu que não foram
expositivas?
3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA
IGREJA
3.1 Bons ouvintes da Palavra
Precisamos de um coração que se comprometa a ouvir e a
submeter-se à palavra de Deus. Afinal, é para este que o Senhor
olha:“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a
existir, diz o S . ‘Mas eis para quem olharei: para o aflito e
abatido de espírito e que treme diante da minha palavra’” (Is 66.2).

Sendo assim, se, por um lado, pastores precisam aprender a ser


bons expositores; por outro, membros precisam aprender a ser bons
ouvintes de sermões expositivos. Isso significa que precisamos
valorizar o culto dominical. É lá que recebemos a principal refeição
que vai nos suster pelo restante da semana.

No livro O que é um membro de igreja saudável?, Thabiti Anyabwile


sugere seis ideias práticas para que nos tornemos melhores
ouvintes da palavra de Deus:

• medite na passagem bíblica do sermão durante seu tempo de


devoção pessoal;
• compre um boa coleção de comentários bíblicos (peça
recomendações ao seu pastor);
• depois do culto, converse e ore com irmãos sobre o sermão;
• ouça e viva o sermão durante toda a semana;
• desenvolva o hábito de lidar com qualquer problema sobre o
texto bíblico;
• cultive a humildade e não se torne um “ouvinte profissional de
sermões” — que está sempre ouvindo, mas nunca
aprendendo.

3.2 Bons comunicadores da Palavra


Precisamos ser bons ouvintes; ir além, ser mais do que ouvintes.
Precisamos nos tornar “praticantes da palavra e não somente
ouvintes”(Tg 1.22), e “guardar todas as coisas” que Jesus nos
ordenou (Mt 28.20). Parte de obedecer a Jesus significa não deixar
a Palavra estancada em nós.

Em Colossenses 3.16, Paulo instrui a igreja afirmando que a palavra


de Cristo deveria habitar ricamente em todos eles. Contudo, a forma
de acumular o tesouro da Palavra não é por meio de uma poupança
individualista que leva à soberba (1Co 8.1), mas em investimentos
de amor edificante, instruindo e aconselhando outros membros em
toda a sabedoria. É papel de cada um na igreja falar a verdade em
amor para que a igreja seja edificada (Ef 4.15).

Jonathan Leeman, em seu livro A Igreja Centrada na


Palavra (Leeman, 2019), usa uma ilustração muito útil sobre o
ministério da Palavra na igreja. A ideia é que a voz de Deus deve
reverberar na congregação. O pastor ouve e proclama a Escritura
do púlpito; os membros ecoam a Palavra dentro da igreja (em seus
grupos pequenos, discipulados, relacionamentos e família),
testificando do Evangelho fora da igreja (evangelização e missões).

Discuta

1. Você tem sido bom ouvinte da Palavra? Quais formas você pode
melhorar?
2. Você tem sido bom propagador da Palavra? Quais formas você pode
melhorar?
3. Devemos valorizar o ministério da Palavra em nossa igreja. Quais são
formas práticas que você pode auxiliar e encorajar os pregadores de sua
igreja?

CONCLUSÃO
Todos os grandes avivamentos e as reformas da igreja tiveram a
palavra de Deus, regada de oração e no poder do Espírito, como
fundamento. A Escritura reforma a igreja e a conforma cada vez
mais com o desejo do Senhor. A Escritura aviva a igreja e a vivifica,
pelo poder do Espírito, a refletir melhor a glória de Deus.

Sendo assim, devemos ansiar por aquilo que procede da boca de


Deus mais do que o ouro depurado e mais que o destilar dos favos
(Sl 19.10). Afinal, “qualquer coisa que não esteja arraigada e
estritamente ligada à Palavra de Deus não é pregação, de modo
algum. É apenas um discurso.” (Mark Dever & Greg Gilbert, 2016,
p.56)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E
MAIS RECURSOS
David Helm, Pregação Expositiva: Proclamando a Palavra de Deus Hoje (São
Paulo: Vida Nova, 2016).
Jonathan Leeman, A Igreja Centrada na Palavra: Como as Escrituras Dão Vida e
Crescimento ao Povo de Deus (São Paulo: Vida Nova, 2019).
Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2007).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável? (São José dos Campos, SP: Fiel,
2015).Mark Dever & Greg Gilbert, Pregue: Quando a Teologia Encontra-se com
a Prática (São José dos Campos, SP: Fiel, 2016).
A teologia bíblica é uma teologia fiel ao ensino de
toda a Bíblia.

INTRODUÇÃO
Membros de igrejas cristãs continuam a nutrir pensamentos
insignificantes a respeito de Deus e pensamentos elevados sobre o
homem. Esse estado de coisas revela que muitos cristãos têm
negligenciado sua principal vocação: conhecer o seu Deus. Todo cristão
deve ser um teólogo no melhor e mais íntimo sentido da palavra. Se as
igrejas devem ter boa saúde, os seus membros precisam comprometer-se
em ser teólogos de acordo com sua capacidade. Essa é a segunda marca
de um membro de igreja saudável. (Anyabwile, 2016, p.34)

Mais e mais sociólogos e jornalistas têm apontado para a crescente


superficialidade da sociedade. A internet proporciona acesso rápido
à informação, mas estimula a pouca retenção e reflexão. As redes
sociais estão viciando-nos em manchetes bombásticas e conteúdo
curto e raso. Infelizmente, isso traz impactos sobre nossa vida de
igreja. Desde o princípio, porém, a igreja tem sido marcada por
perseverar devotadamente na doutrina dos apóstolos (At 2.42).

Isso significa que todo cristão é teólogo. Como o pastor e teólogo R.


C. Sproul bem nos lembra:

Nenhum cristão pode evitar a teologia. Todo cristão é um


teólogo. Talvez não um teólogo no sentido técnico ou
profissional, mas, ainda assim, um teólogo. A questão para os
cristãos não é se seremos teólogos, mas se seremos bons ou
maus teólogos. Um bom teólogo é aquele que é instruído por
Deus.
(Sproul, 1977, p.22)

Mas o que é teologia bíblica? Mark Dever afirma que “a teologia


bíblica exata é uma teologia fiel ao ensino de toda a Bíblia. É
confiável e interpreta com exatidão as partes em relação ao todo.”
(Dever, 2015, p.90) Isso significa que precisamos ter entendimento
tanto correto quanto completo da Escritura.

Quando o termo “teologia bíblica” é usado, ele pode ter dois


aspectos. O primeiro seria de uma teologia que é bíblica, que é fiel à
Escritura, que considera o que toda a Bíblia diz sobre determinado
tópico. Isso, dentro do estudo teológico, está normalmente dentro da
matéria de Teologia Sistemática. O segundo aspecto é de uma
teologia que considera a Bíblia como uma grande história divina da
redenção. Sem esses dois aspectos, acabaremos caindo num
grande perigo: impor nossos próprios significados ao texto bíblico.

Discuta
1. Você se considera um teólogo? Por quê?
2. Que formas cultivamos “pensamentos insignificantes a respeito de Deus
e pensamentos elevados sobre o homem”?

1. TEOLOGIA SISTEMÁTICA: SÃ
DOUTRINA
“[...] a sã doutrina é um resumo dos ensinos bíblicos que são tanto fiéis à
Bíblia
quanto úteis à vida.” (Jamieson, 2016, p.21)

Se a Bíblia interpreta a si mesma, então precisamos considerar o


que toda a Escritura diz sobre determinado assunto. Paulo trata
sobre sã doutrina em todas as suas cartas pastorais endereçadas a
Timóteo e a Tito. Sã doutrina significa ter uma teologia confiável,
exata, fiel, íntegra, saudável.

A primeira atitude para sermos fiéis nessa área é mudar a nossa


postura. Não raro, em vez de buscarmos a “sã doutrina”, afirmamos
“somos doutrina”. Ou seja, em vez de buscarmos compreender o
que a Escritura diz, tremendo em humildade diante da santa palavra
de Deus (1Sm 3.10; Is 66.2), inapropriadamente emitimos a nossa
opinião sobre assuntos importantes. Podemos até dizer “em minha
opinião…”, como se fosse uma capa de modéstia, porém, ela
esconde um coração orgulhoso que considera mais sua própria
opinião do que a do Senhor.

Uma área comum em que isso acontece é quando se trata do


conceito que temos de Deus. Talvez você já tenha dito ou ouvido as
seguintes palavras: “Para mim, Deus é assim”. Contudo, não
ganhamos um deus individual. Existe só um Deus que Se revelou na
Palavra encarnada e registrou essa revelação na Palavra escrita.
Então, nossa pergunta deve ser: como o Altíssimo Se revelou nas
Sagradas Letras?
Exemplo comum desse tipo de atitude ruim é quando alguns negam
a ira de Deus, afirmando que “o Deus que Se revelou em Cristo
Jesus é amor, então há algo de errado com o Antigo Testamento”.
Deus, porém, não muda! Os mandamentos de amarmos a Deus e o
próximo estão ambos no Antigo Testamento (Dt 6.5; Lv 19.18).
Muitos ficam chocados com a demonstração do justo juízo de Deus
contra os cananeus, mas se esquecem de que Apocalipse aponta
para um juízo de escala global.

Entendermos o que a Bíblia ensina sobre a natureza trina de nosso


Deus e sobre Seu perfeito caráter, sobre a dupla natureza de Cristo
e Sua obra redentora — ou seja, termos pensamentos grandes
sobre Deus — é crucial para a vida cristã, pois somos
transformados à medida que contemplamos a glória do Senhor (2Co
3.18).

Discuta

1. Você já se pegou afirmando “sou doutrina” em vez de buscar a “sã


doutrina”?
2. Liste algumas implicações em abandonarmos:
a. a sã doutrina;
b. a inspiração e a autoridade da Escritura;
c. o caráter glorioso de Deus;
d. a condição pecaminosa do homem;
e. a salvação somente pela graça de Deus, por meio da fé em Cristo
somente.

2. TEOLOGIA BÍBLICA: HISTÓRIA DA


REDENÇÃO
“A teologia bíblica nos ajuda a entender a Bíblia como um grande livro
constituído de vários livros menores que contam uma única grande história.
O herói e ponto central dessa história, de capa a capa, é Jesus Cristo.”
(Roark e Cline, 2018, p.30)
É importante considerarmos o que toda a Escritura diz sobre
determinado tópico, mas podemos cair no perigo de tirar o texto do
seu contexto. Além disso, Deus não nos deu uma enciclopédia
teológica, mas uma Santa Biblioteca que nos conta
progressivamente uma história, do Éden à Nova Jerusalém. Esse é
o papel da teologia bíblica. Nick Roark e Robert Cline definem a
teologia bíblica como:

“[...] um modo de ler a Bíblia como uma única história de um


único autor divino, que culmina em quem Jesus Cristo é e o
que ele fez; então, cada parte da Escritura é entendida em
relação a ele.” (Roark e Cline, 2018, p.30)

Infelizmente, muitos cristãos enxergam a Bíblia como um cordão de


pérolas — uma joia aqui, outra ali, ligadas por textos menos
relevantes. Toda a Escritura, porém, é inspirada e útil. Precisamos
considerar todo texto que lemos, especialmente os do Antigo
Testamento, dentro da história progressiva da Bíblia que culmina em
Cristo. A teologia bíblica nos ajuda a ver Jesus a partir de toda a
Escritura. Ela nos ajuda a sermos cristocêntricos, afinal Jesus
mesmo disse que toda a Escritura aponta para Ele (Lc 24.25-27; Jo
5.39).

Considere, por exemplo, a história de Deuteronômio 11 e 30,


quando o Senhor coloca o povo entre dois montes e pronuncia as
bênçãos para aqueles que obedecem à aliança e as maldições para
quem a quebra. Deus propõe “a vida e a morte, a bênção e a
maldição” e recomenda que escolhamos a vida (Dt 30.19).
Infelizmente, é comum ouvirmos pregações moralistas que dizem
que se obedecermos ao Senhor seremos abençoados. Essa
interpretação legalista, porém, ignora o que o próprio contexto diz
em Deuteronômio 31.16, quando o Senhor diz a Moisés que sabe
que o povo se prostituirá com ídolos e abandonará a aliança. A
pintura se torna ainda mais rica quando enxergamos toda a história
da redenção.
Gênesis 1 relata que Deus criou o mundo, e tudo era perfeita
bênção. Entretanto, com a rebelião de Adão e Eva, a humanidade
foi amaldiçoada. “Por um só ser humano entrou o pecado no mundo,
e pelo pecado veio a morte” (Rm 5.12). Deus, então, promete
abençoar novamente todas as famílias da terra por meio da família
de Abraão. Mas Israel e Judá acabam exilados por causa de
desobediência, por quebrarem a aliança. Será que a maldição seria
revertida? Será que a promessa de Deus se cumpriria?

É aí que chegamos em Mateus 1 e lemos que Jesus é filho de


Abraão. A obra de Cristo é dupla: Ele tanto nos livra da maldição
como nos traz a bênção de Deus. Por Sua morte, “Cristo nos
resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em
nosso lugar” (Gl 3.13) e “já não existe nenhuma condenação para os
que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). E por Sua vida de obediência,
Nele, somos abençoados por Deus “com todas as bênçãos
espirituais nas regiões celestiais” (Ef 1.3). Até que o dia chegará, em
que Cristo voltará e trará com Ele a cidade celestial na qual nunca
mais haverá qualquer maldição (Ap 22.3).
Discuta

1. Você tem dificuldade de ver a Bíblia como uma grande história? Por
quê?
2. Considere o texto de Davi e Golias em 1Samuel 17 (Roark e Cline, 2018,
p.30):
a. Qual normalmente é a mensagem que ouvimos deste texto? Devemos
ser como quem?
b. Quem normalmente é apresentado como o gigante?
c. Você já ouviu alguma interpretação sobre as cinco pedrinhas de Davi?
d. Se formos sinceros, será que somos mais como Davi ou como o povo
acovardado?
e. Como essa história nos aponta para o Cristo, o filho de Davi?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
O que isso significa para a vida igreja? Primeiro, significa que,
como “igreja do Deus vivo”, a igreja é “coluna e fundamento da
verdade”(1Tm 3.15). Ela deve sustentar e exibir em unidade a
verdade da palavra de Deus a todos.

Para isso precisamos nos unir na verdade. Muitos dizem que


doutrina divide, porém, a ênfase de todo o Novo Testamento é que o
erro traz divisão (2Pe 3.17). Quando lemos 1João 4.1-6, fica bem
claro que a verdade vai tornar nítida a separação entre o espírito da
verdade e o espírito do erro.

Assim, como há uma só fé, precisamos preservar a unidade do


Espírito no vínculo da paz (Ef 4.1-6). Isso significa evitar entrar em
disputas desnecessárias com nossos irmãos de igreja. O mote da
igreja primitiva continua verdadeiro: “nas coisas essenciais, unidade;
nas coisas não essenciais, diversidade; em todas as coisas, amor”.

Além de sustentar, a igreja precisa professar também a fé. Uma das


formas que a igreja pode crescer em união doutrinária e exibi-la é
por meio da confissão de fé. Confissões são recursos pedagógicos
úteis que ajudam a igreja a concordar sobre questões importantes
da fé. A igreja também professa a fé todo culto público, ao ler a
Palavra, pregar a Palavra, orar a Palavra, cantar a Palavra, ver a
Palavra (nas ordenanças), (Dever e Alexander, 2015, p.105) ao
ensinar um ao outro mutuamente e ao proclamar o evangelho aos
perdidos.

A segunda implicação da teologia bíblica para a vida da igreja é que


doutrina e vida não devem ser divorciadas. O apóstolo Paulo
entende que o pleno conhecimento da verdade é segundo a piedade
(Tt 1.1). Pedro vai além e diz que o “pleno conhecimento daquele
que nos chamou para a sua própria glória e virtude” é a forma pela
qual nos foram doadas “todas as coisas que conduzem à vida e à
piedade”(2Pe 1.3).

Por fim, a terceira implicação é que toda a igreja é chamada para


rejeitar falsos ensinos. O apóstolo João claramente instrui a igreja
dizendo que “muitos enganadores têm saído pelo mundo afora” e
que a igreja deve se acautelar e não receber “todo aquele que vai
além da doutrina de Cristo” (2Jo 7-10).

Não só pastores são chamados a vigiar contra lobos infiltrados, mas


todos nós somos chamados para batalhar, diligentemente, “pela fé
que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3-4). Todo
membro é responsável por garantir, com seus irmãos, que o púlpito
de sua igreja se mantenha fiel à Escritura, para o benefício de sua
vida, da congregação, e a evangelização do perdido e da próxima
geração.

Discuta

1. Você já se considerava responsável por manter a sã doutrina em sua


igreja? Quais são passos concretos que você pode dar a fim de melhorar
nesse ministério?
2. O que acontece se uma igreja abandona a sã doutrina?

CONCLUSÃO
Talvez você esteja se sentindo sobrecarregado diante da difícil
tarefa de entender a Escritura e ser bom teólogo bíblico. A boa
notícia é que Cristo capacitou Seu corpo com dons diferentes, para
que irmãos possam ajudar uns aos outros nessa tarefa. No fim das
contas, uma igreja saudável é aquela em que os pastores e os
membros possuem uma visão correta e completa sobre Deus, sobre
o ser humano, sobre a salvação e sobre a Bíblia. Se isso não fosse
importante para a igreja, Deus não teria nos deixado a Escritura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E
MAIS RECURSOS
Bobby Jamieson, Sã Doutrina: Como uma Igreja Cresce no Amor e na Santidade
de Deus (São Paulo: Vida Nova, 2016).
Duncan III (eds.), Give Praise to God: a Vision for Reforming
Worship (Phillipsburg, N.J.: Prebyterian & Reformed, 2003).
Greg Gilbert, Por que Confiar na Bíblia? (São José dos Campos, SP: Fiel, 2016).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Mark Dever e Paul Alexander, Igreja Intencional: Edificando Seu Ministério sobre o
Evangelho, 2ª ed. (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015). Apud. Philip Ryken,
Derek Thomas e J. Ligon
Nick Roark e Robert Cline, Teologia Bíblica: Como a Igreja Ensina o Evangelho
Com Fidelidade (São Paulo: Vida Nova, 2018).
R. C. Sproul, Knowing Scripture (Downers Grove: IVP, 1977).
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável? (São José dos
Campos, SP: Fiel, 2016).
O evangelho são as boas-novas de que Jesus morreu na cruz como
sacri cio vicário, em favor dos pecadores, e ressuscitou, estabelecendo
o meio de sermos reconciliados com Deus.

INTRODUÇÃO
Uma igreja saudável é uma igreja em que cada membro, novo ou velho,
maduro ou imaturo, une-se ao redor das maravilhosas boas-novas de
salvação por meio de Jesus Cristo. (Dever, 2015, p.97)
O que você responderia se lhe perguntassem: você pode falar para
mim, em um minuto, o que é o evangelho? E aí, o que você diria?
Certamente não daria para transmitir toda a profundidade das boas-
novas, então quais elementos vitais você incluiria?

Cristo é o centro da mensagem bíblica, e o evangelho é o centro da


mensagem cristã, então, espera-se que todo cristão saiba
compartilhar rapidamente a principal mensagem que carregamos.
Mas infelizmente isso nem sempre é verdade. Imagine um
cardiologista que não sabe o que é um coração, assim é o cristão
que não conhece o cerne da fé. Imagine um carteiro sem a
encomenda, assim é o crente que não carrega as boas-novas.
O problema é que, durante anos, muitos pastores e membros
consideraram conhecer o evangelho, afinal foram evangelizados um
dia. Contudo, não se ouvia mais as boas-novas nos púlpitos, nas
músicas, nas orações e nas conversas dos santos. E o evangelho
que foi presumido logo foi esquecido.

E para piorar, quando o evangelho não preenche a igreja, outras


mensagens começam a se espalhar, e meias verdades começam a
ser declaradas como fato completo. Por exemplo, muitos professam
que o evangelho é que “Deus ajuda quem ajuda a si mesmo”, que
na salvação “Jesus fez a parte dele e precisamos fazer a nossa”. E
isso é uma heresia plena. A mensagem cristã não é mero
moralismo.

Outros mutilam o evangelho e distorcem suas verdades. Alguns,


como Judas, tentam vender a Cristo dizendo “siga Jesus, dê o
dízimo e tudo na sua vida irá bem”, como se o Salvador fosse um
amuleto mágico de saúde e prosperidade. Outros querem
transformar o homem no centro das boas-novas, dizendo que a
mensagem é somente que “Deus nos ama” ou que “Deus tem um
plano para nossa vida” ou que “Jesus quer ser nosso amigo”, porém
deixam de fora qualquer menção sobre o pecado do homem e o
juízo de Deus.

Então, que é o evangelho?

Discuta

1. Que é o evangelho? Compartilhe em 60 segundos ou menos.


2. Que falsos evangelhos você já ouviu?

1. O EVANGELHO E VOCÊ
Conforme investigamos a Bíblia, embora o evangelho seja de infinita
profundidade, alguns elementos fundamentais se repetem. Mark
Dever os resumiu em: (1) Deus, (2) homem, (3) Cristo e (4)
resposta. (Dever, 2015, p.98)

Começamos com Deus. E devemos tomar cuidado em presumir que


pessoas entendem o mesmo significado quando dizemos a palavra
“Deus”. Alguns pensam que Deus é uma força impessoal, outros
que é o primeiro motor imóvel, ainda outros podem até afirmar o
monoteísmo, mas o concebem como um ser monopessoal (não
trinitário).

Na eternidade, existia um único Deus Trino, três pessoas e uma só


natureza. O Pai, o Filho e o Espírito Santo comungavam em perfeito
relacionamento de amor, alegria e bênção. Deus é espírito imortal,
imutável, eterno, puríssimo, justo, santo, poderoso, sábio, soberano.

Do transbordar de Seu amor, Deus criou o homem à Sua imagem e


semelhança para partilhar de Sua comunhão e bênção. O ser
humano, porém, se rebelou contra Deus e caiu de seu estado
original. O problema fundamental da humanidade é que todos
somos pecadores por natureza e por escolha e, portanto, estamos
sujeitos à ira de Deus, quando Ele julgar vivos e mortos. Somos
culpados e corruptos.

Contudo, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a
vida eterna” (Jo 3.16). Jesus Cristo encarnou, viveu perfeitamente
entre nós, “foi entregue por causa das nossas transgressões e
ressuscitou para a nossa justificação” (Rm 4.25), subiu aos céus,
sentando à destra do Pai, e voltará para “julgar vivos e mortos, pela
sua manifestação e pelo seu Reino” (2Tm 4.1). O Pai lidou com
nossa culpa, perdoando todos os nossos delitos na cruz de Cristo
(Cl 2.13-14), e com nossa corrupção, “mediante o lavar regenerador
e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).
Esse é o evangelho da nossa salvação (Ef 1.13). Só ouvir, porém,
essa mensagem não é suficiente. Nem é suficiente que
concordemos com ela. Uma resposta é necessária. Jesus, quando
iniciou Seu ministério, pregou o evangelho de Deus, dizendo que o
reino de Deus estava próximo e nos instruiu a nos arrependermos e
crermos no evangelho (Mc 1.14-15).

É importante ressaltar que não somos salvos por nossas obras.


Nada que possamos fazer pode pagar o imensurável preço da
nossa rebeldia contra o Deus, que é infinitamente digno.
Merecíamos morrer. Somos salvos somente pela graça (não por
nenhuma capacidade em nós), mediante a fé somente (não por
obras), em Cristo somente (e não por qualquer outro mérito ou
mediador), como nos ensina Efésios 2.7-8.
Na cruz, Cristo morreu em nosso lugar. A culpa do nosso pecado foi
colocada sobre Ele (expiação substitutiva: Gl 1.4; Ef 5.2; 1Pe 3.18).
Assim, Jesus aplacou a ira de Deus, derrubou a inimizade e Se
tornou propiciação (Rm 3.25-26; Hb 2.17; 1Jo 2.1-3; 4.10). Mais do
que somente perdoados, fomos justificados. Sem qualquer justiça
em nós mesmos, ainda pecadores, fomos cobertos pela justiça
perfeita de Cristo (justificação: Rm 3.24; 5.9; 1Co 1.30; 6.9-11; 2Co
5.21; Fp 3.8-9). Assim, Deus não nos vê como se estivéssemos na
estaca zero, Ele nos vê perfeitos em Cristo.

Nosso glorioso Salvador obteve perdão e reconciliação, vivificação e


adoção, justificação e propiciação para todo aquele que crê. Assim
Paulo resume o evangelho que recebeu: “Cristo morreu pelos
nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e
ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3-4).

Discuta

1. Leia Romanos 3.23-28 e responda:


a. Por que é importante entendermos que “todos pecaram” para
compreendermos as boas-novas?
b. O que significa dizer que fomos “justificados”?
c. Por que Paulo é redundante dizendo “gratuitamente, por Sua graça”?
d. Somos salvos por nossas obras ou mediante a fé? O que isso
significa?
e. O que Jesus fez pela nossa salvação?
f. É a nossa fé que salva ou a obra de Cristo?

2. O EVANGELHO E A IGREJA
“Deus, Homem, Cristo, Resposta” resume bem o evangelho em seu
aspecto pessoal, como podemos ser salvos. Seria, porém, errado
assumir que o evangelho é individualista. Afinal, o nome do nosso
Salvador é Jesus, porque Ele salvaria “o seu povo dos pecados
deles”. Cristo não deu Sua vida por crentes isolados, mas por Sua
igreja (Ef 5.25b-27). Assim, precisamos considerar o evangelho em
seu aspecto comunitário, em seu aspecto macro. Para isso,
podemos resumir a apresentação em outros quatro termos: (1)
Criação, (2) Queda, (3) Redenção, (4) Consumação.

Começamos em Deus, o Criador, assim como anteriormente,


afirmando que o Deus Trino criou um mundo bom e abençoado,
umacriação em plena submissão e comunhão consigo mesmo.
Deus criou o homem e a mulher à Sua imagem, e os colocou como
subgerentes da terra.

Satanás, porém, investiu contra a boa ordem de Deus e levou Adão


e Eva — e a humanidade — à rebelião. Pensávamos que seríamos
livres, mas a queda trouxe escravidão ao pecado, ao mundo e ao
diabo (Jo 8.34; At 26.28; Ef 2.2; 2Co 4.4; 1Jo 5.19). Até a própria
criação foi sujeita por Deus ao cativeiro da corrupção (Rm 8.20-21).
Enquanto a ênfase anterior do problema estava em questões
internas (culpa e corrupção — que, de fato, são a raiz de todos os
problemas), aqui nos deparamos com inimigos externos.
A boa notícia, porém, é que, se o Filho nos libertar, verdadeiramente
seremos livres (Jo 8.36); que Deus amou tanto o mundo, essa
criação caída, que proveu em Cristo redenção. O paralelo bíblico da
redenção é a libertação do Êxodo, das garras de faraó, do cativeiro
no Egito, rumo à terra prometida. Todo aquele que creu no Senhor,
sacrificando o cordeiro, saiu vitorioso da terra da servidão.

Da mesma forma, Cristo humilhou o “faraó” deste mundo,


despojou “os principados e as potestades, publicamente os expôs
ao desprezo, triunfando sobre eles na cruz” (Cl 2.15) e Deus “nos
libertou do poder das trevas e nos transportou para o Reino do seu
Filho amado” (Cl 1.13-14).

Não só o povo de Deus é libertado, mas “a própria criação será


libertada do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos
filhos de Deus” (Rm 8.20-21). Isso ocorrerá quando
a consumação chegar e Cristo vencer o mundo (a grande Babilônia,
Ap 18), o diabo (Ap 20), destruir a morte, o último inimigo (1Co
15.26), julgar vivos e mortos (Ap 20.11-15) e fazer “novas todas as
coisas” (Ap 21.5).

Discuta

1. Por que precisamos das duas ênfases (macro e micro) no entendimento


do evngelho?
2. Como fazemos para participar da nova criação? É suficiente dizer que
Jesus fará tudo novo e não explicarmos como podemos fazer parte?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
Se o evangelho é tão central à nossa vida como cristãos e como
igreja, não é de se assustar em pensar nas gloriosas implicações
que ele tem para nós.
3.1 Preservem o evangelho
A primeira responsabilidade que temos como igreja é de preservar o
evangelho. Sem o evangelho, não mais temos pessoas remidas
pelo Cordeiro, unidas por Cristo em uma igreja, mas religiosos
moralistas que se reúnem regularmente. “Sem o evangelho, a igreja
não tem nada a dizer – ou seja, nada a dizer que não possa ser dito
por qualquer outro instrumento humano.” (Anyabwile, 2016, p.50)

Pastores devem se atentar para os lobos vorazes que buscam


penetrar no meio do aprisco de Cristo (At 20.29-31). E membros
também! Paulo, ao escrever a carta às igrejas na região da Galácia,
repreende todos por estarem passando tão depressa daquele que
os chamou “na graça de Cristo para outro evangelho” (Gl 1.6-8). Ele
responsabiliza todos os membros daquelas igrejas por preservarem
o evangelho. Mesmo que alguém com carteirinha de apóstolo ou até
mesmo um ser reluzente com asas chegasse com outro evangelho,
eles deveriam dizer: “anátema”.

3.2 Saturarem-se do evangelho


O evangelho distingue a igreja do mundo, define a mensagem
e a missão da igreja no mundo e protege o povo de Deus
contra os dardos inflamados do Maligno e dos falsos encantos
do pecado. O evangelho é absolutamente vital para uma igreja
cristã e um cristão saudável, vibrante, alegre, perseverante e
esperançoso. O evangelho é tão essencial à vida cristã que
precisamos saturar-nos com ele para sermos membros de
igreja saudáveis. (Anyabwile, 2016, p.50)

Para preservarmos o evangelho, precisamos estar saturados dele,


pois o evangelho que é presumido, logo é esquecido!

Se um judeu entrasse em sua igreja, ele se sentiria à vontade com o


que é cantado ou seria confrontado com a gloriosa verdade do Deus
encarnado? Se um fariseu legalista chegasse ao culto em sua
igreja, ele se sentiria à vontade com o que é pregado ou ficaria
incomodado por ouvir sobre a graça de Deus?
Será que nossas orações, canções e pregações estão
transbordando do evangelho? Será que nossos grupos pequenos,
nossos discipulados, nossos ministérios estão centrados nas boas-
novas? Ou será que imaginamos que o evangelho é algo só para o
começo da vida cristã? Ou que podemos crescer em santidade por
meio de mensagens moralistas e de nossos próprios esforços?

Se removermos a cruz do centro do evangelho, se a movermos para


o canto ou a substituirmos com qualquer outra verdade “como o
centro, o âmago e a fonte das boas-novas”, então vamos
“apresentar ao mundo algo que não salva e, portanto, não é,
realmente, boas-novas” (Greg, 2011, p.149).

Discuta

1. Você entende sua responsabilidade de preservar o evangelho em sua


igreja?
2. Como você e sua igreja podem se saturar do evangelho?

CONCLUSÃO
Como vimos na primeira lição, sem o evangelho não temos uma
igreja verdadeira. Podemos ter um clube religioso, mas não a igreja
de Cristo. Sendo assim, precisamos conhecer, preservar e
proclamar o evangelho.

E aí, o que você vai responder se alguém lhe perguntar: que é o


evangelho, em um minuto?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Greg Gilbert, O que É o Evangelho? (São José dos Campos, SP: Fiel, 2011).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2016).

MAIS RECURSOS
Greg Gilbert, Quem É Jesus Cristo? (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015).
Ray Ortlund, O Evangelho: Como a Igreja Reflete a Beleza de Cristo (São Paulo:
Vida Nova, 2016).
Pela obra regeneradora do Espírito, o pecador
nasce de novo e responde em arrependimento e
fé, convertendo-se, com toda a sua vida, da
autojustificação para a justificação de Cristo, do
domínio do “ego” para o governo de Deus, da
adoração de ídolos para a adoração a Deus.
stevanovicigor / iStockPhoto

INTRODUÇÃO
Não foi por acidente que a natureza da verdadeira conversão começou a
ser esclarecida ao mesmo tempo que o evangelho da justificação somente
pela fé iniciou a sua restauração. Antes da Reforma, muitos se declaravam
cristãos apenas para afirmar o nome da família, da paróquia, da cidade e
até da nação à qual pertenciam. A Reforma levou a uma reapreciação da
natureza radical da conversão cristã. A conversão não resultava de um
rito de infância ou de membresia numa entidade política específica.
Resultava de uma profissão de fé autoconsciente na obra justificadora de
Deus em Cristo. (Dever, 2011, p.152)
Qual é a diferença entre o cristão e o incrédulo? Infelizmente, às
vezes, parece que muitos que professam a fé cristã vivem nos
mesmos pecados que as pessoas do mundo. Grande parte do
problema é que há pastores e igrejas que se esqueceram da
importância da conversão. Buscando crescer em números e
desejando não parecer desamoroso, muitas igrejas receberam
pessoas que afirmavam crer em Cristo sem considerarem o que isso
realmente significava.

Os padrões bíblicos da conversão foram substituídos por rituais


externos, como: repetir uma oração, ir à frente ou levantar uma das
mãos para aceitar Jesus. O problema em si não são essas ações
externas, mas entender que elas representam a mudança interna
que a Bíblia ensina sobre conversão.

Mas, então, o que é conversão? Será que é afirmar crer em Deus?


Tiago afirma que não, que até os demônios fazem isso — e vão
além: tremem (Tg 2.19). Será que é só concordar mentalmente com
a mensagem cristã e afirmar que Cristo é o Senhor? Jesus diz que
não, que muitos naquele dia hão de dizer “Senhor, Senhor”, mas
que Ele nunca os conheceu (Mt 7.21-23). Será que é ser membro de
uma igreja? Não, pois Paulo fala sobre falsos irmãos (2Co 11.26).

Então, quais são as marcas de um cristão? Que acontece na


conversão?

Discuta

1. Quais diferenças você acredita que deveriam haver entre o cristão e o


incrédulo?
2. Que seria um falso convertido?

1. CONVERSÃO: NOVO NASCIMENTO


A conversão é uma mudança tão dramática que exige a intervenção de
Deus,
o Espírito Santo. Na conversão, o Espírito de Deus outorga as duas graças
gêmeas –
o arrependimento e a fé – a pecadores que se voltam do pecado para Deus
por meio da fé em Jesus Cristo. (Anyabwile, 2016, p.65)

Para compreendermos corretamente a conversão, precisamos


entender primeiro o que a Escritura diz sobre o homem caído. Por
causa da queda de Adão, os homens “se tornaram
pecadores” e “veio o juízo sobre todos os seres humanos para
condenação” (Rm 5.18-19) — corrompido e culpado. Fomos
concebidos em iniquidade e nascidos em pecado (Sl 51.5). Estamos
mortos em delitos e pecados, andando segundo o curso deste
mundo, o diabo, a inclinação da carne e dos pensamentos caídos
(Ef 2.1-3). Nosso coração é duro, resistente a Deus, extremamente
enganoso e desesperadamente corrupto (Ef 4.18; Jr 17.9). Nossa
mente está obscurecida de entendimento e insensível (Ef 4.18-19),
cegada pelo diabo (2Co 4.4) e incapaz de aceitar as coisas do
Espírito de Deus (1Co 2.14). Amamos as trevas porque nossas
obras são más (Jo 3.19). Somos escravos voluntários do pecado (Jo
8.34). Romanos 8.7 inclusive diz que a inclinação da carne é
inimizade contra Deus, pois não está sujeita “à lei de Deus, nem
mesmo pode estar”.

“Nem mesmo pode estar.” Que palavras duras! Não há condição


daqueles que estão na carne saírem por si mesmos dessa
inclinação de inimizade contra Deus. Isso mostra que, se algo vai
mudar, então a iniciativa não poderá vir do ser humano. A mente do
homem caído rejeita a Cristo, seu coração ama o pecado e
despreza a Deus. Não é uma simples decisão ou um esforço da
carne que vai mudar essa situação.

Deus precisa agir poderosamente! Se o que nasce da carne é


carne, então precisamos nascer do alto, nascer do Espírito, nascer
de novo (Jo 3.1-15). Enquanto estávamos “mortos em nossas
transgressões, [Deus] nos deu vida juntamente com Cristo” (Ef 2.5).
Esse novo nascimento não vem de nós, mas é pela graça que
somos salvos, pelo movimento soberano do vento do Espírito. “...
não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua
misericórdia. Ele [Deus] nos salvou mediante o lavar regenerador e
renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente,
por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3.5-6).

Nessa obra de salvação da nova aliança, Deus concede novo


coração sensível e não mais resistente (Ez 36.26), com a lei
gravada dentro dele (Jr 31.33), e resplandece sobre ele a Sua luz,
para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de
Cristo (2Co 4.6). Deus nos dá coração para entender, olhos para ver
e ouvidos para ouvir as maravilhas da salvação (Dt 29.4). Deus nos
faz de novo, nos cria em Cristo Jesus, para andarmos agora não
segundo a carne, o mundo e o diabo, mas no caminho das boas
obras que Ele nos preparou de antemão (Ef 2.10).

É com o entendimento dessa gloriosa obra divina que Jeremias


clama: “Converte-nos a ti, S , e seremos convertidos” (Lm
5.21). Jeremias reconhece que a verdadeira conversão é obra
sobrenatural de Deus, que, apesar de sermos nós que nos
convertemos, é Deus quem nos concede a conversão. É o Senhor
que concede arrependimento para a vida (At 11.18) e a fé em Cristo
(Fp 1.29; Ef 2.8). De fato, nascemos da vontade de Deus e não da
vontade do homem (Jo 1.13).

Discuta

1. É possível o homem ir a Cristo pelos próprios esforços?


2. Pedro diz que somos regenerados mediante a palavra de Deus, como
semente que gera vida (1Pe 1.23-24). Se é Deus que nos concede a
conversão e se Ele faz isso por meio da palavra que é evangelizada,
devemos ter mais ou menos confiança ao anunciarmos as boas-novas?

2. CONVERSÃO: ARREPENDIMENTO
E FÉ
Quando Deus realiza sua maravilhosa obra de regeneração em uma pessoa
espiritualmente morta, isso sempre gera resultados. [...]
A Bíblia chama esse resultado de “conversão.” (McKinley, 2012, p.43)

Enquanto Jeremias apontou para a obra de Deus na conversão,


Paulo ressalta que também fazemos algo. Ele diz que os crentes de
Tessalônica, quando ouviram a Palavra, deixaram os ídolos e se
converteram a Deus, para servirem ao Deus vivo e verdadeiro (1Ts
1.8-9). É Deus que concede o arrependimento e a fé, mas Deus não
se converte por nós. Somos nós que nos arrependemos para com
Deus e exercemos a fé no Senhor Jesus (At 20.21). Somos nós que
rejeitamos o senhorio dos ídolos e passamos a servir ao Deus vivo e
verdadeiro. Nossas ações, porém, são o fruto (e não a razão) da
ação de Deus.

O que acontece de nossa parte na conversão? Como devemos


responder ao ouvir as boas-novas? Jesus deixa isso bem claro:
devemos nos arrepender e crer no evangelho (Mc 1.14-15). Esse é
o resumo que Marcos dá a respeito da pregação de Cristo. Em Atos
e nas epístolas, vemos a presença: arrependimento de obras mortas
e fé em Deus (Hb 6.1).

Assim, que são arrependimento e fé? O verdadeiro arrependimento


consiste em reconhecer, com tristeza, o horror e a culpa de suas
transgressões, e voltar-se do pecado para Deus. A fé salvífica
envolve conhecer, concordar e, principalmente, confiar em Cristo e
Sua obra redentora.

É bom lembrar que arrependimento e fé são graças inseparáveis.


Ninguém pode virar as costas para o pecado sem voltar-se para
Deus em fé, e não pode voltar-se para Deus em fé sem virar as
costas para o pecado. Se alguém rejeita o pecado, mas não recebe
a Cristo, cai em outro pecado. Se alguém recebe a Cristo e não se
arrepende do pecado, não recebeu o Senhor.

É bom também lembrar que arrependimento e fé são posturas do


coração. Sendo assim, é problemático igualarmos essas mudanças
internas a ritos externos, como repetir uma oração, levantar uma
das mãos ou ir até à frente. Essas coisas podem ou não
acompanhar a conversão, mas elas não são sinônimos de
arrependimento e fé genuínos.

Além disso, a verdadeira conversão pode ou não envolver uma


experiência emocionalmente intensa. Contudo, ela se evidenciará
em seus frutos. O arrependimento do coração vai se externar na
busca visível da santidade; e a fé do coração vai se externar em
confissão pública (batismo), de Jesus como Senhor (At 2.38; 18.8;
26.19-20; Rm 10.9; Ap 2.16). A evidência da genuína conversão é a
perseverança em guardar “os mandamentos de Deus e a fé em
Jesus” (Ap 14.12; Mt 24.13).

Discuta

1. É possível alguém afirmar que crê em Cristo como Salvador, mas não
estar disposto a recebê-Lo como Senhor e arrepender-se dos seus
pecados?
2. Qual o perigo de associarmos certos ritos externos à conversão do
coração?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
“Um entendimento correto da conversão se expressará nas expectativas da
igreja quanto aos novos membros.” (Dever, 2015, p.111)

Diante de tudo isso, a conclusão é que, sem conversão, sem igreja.


Sem um povo convertido, que nasceu de novo pelo poder do
Espírito e respondeu em arrependimento e fé, não há uma
congregação do Messias, mas uma assembleia religiosa.

Sendo assim, devemos esperar como algo normal que aqueles que
se dizem cristãos pelo menos se arrependam do pecado e creiam
em Cristo. Conversão não significa perfeição, mas significa uma
vida de arrependimento e fé. Como bem colocou o reformador
Martinho Lutero na primeira de suas 95 teses: “Dizendo nosso
Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos..., certamente quer
que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo
arrependimento.”

É certo que cristãos podem ficar endurecidos por um tempo, sendo


necessário admoestá-los (Gl 6.1). Contudo, alguém que
prolongadamente não dá evidência de fé e arrependimento não
deve ser considerado integrante do povo de Cristo — e, portanto,
não deve ser recebido ou mantido na membresia de nossas igrejas.

Devemos resistir ao impulso do crescimento numérico vazio. Nosso


alvo é ver mais pessoas na glória; e receber em membresia pessoas
não convertidas não vai aumentar esse número, só vai inchar nossa
igreja com bodes que não amam a Deus e Seus filhos, não estimam
a Cristo e Seu evangelho e não desejam a santificação e a obra do
Espírito. É impossível pastorear lobos.

Discuta

1. Ouça a pregação e discuta: Mark Dever chama falsas conversões de “o


suicídio da igreja”. Você concorda com essa afirmação? Por quê?
Acesse www.ensinodinamico.com e veja séries especiais: Marcas de
uma Igreja Saudável; o sermão Falsas Conversões: o Suicídio da Igreja.
2. Qual será a consequência de um entendimento errado do evangelho e
da conversão em nossa evangelização?

CONCLUSÃO
Compreender corretamente a doutrina da conversão é essencial
para o entendimento da natureza da igreja e também de sua
missão. É só quando as primeiras quatro marcas estão em seu
devido lugar que podemos seguir para as próximas. É só pela
exposição da Escritura e de sua sã doutrina, tendo entendimento
correto do evangelho e da conversão, que podemos proclamar com
fidelidade a mensagem cristã para o mundo. E é sobre isso que
veremos na próxima aula.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E
MAIS RECURSOS
Mark Dever, Igreja: O Evangelho Visível (São José dos Campos, SP: Fiel, 2011).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Mark Dever, Falsas Conversões: O Suicídio da Igreja – Mark Dever (Pregação
Completa), Voltemos ao Evangelho, 20 nov 2015.
Michael Lawrence, Conversão: Como Deus Cria um Povo (São Paulo: Vida Nova,
2017).
Mike McKinley, Eu Sou mesmo um Cristão? (São José dos Campos, SP: Fiel,
2012).
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2016).
Evangelização é o ensino do evangelho com o
objetivo de persuadir.INTRODUÇÃO
Sem um entendimento bíblico da conversão e da evangelização,
um membro de igreja será inútil em completar a missão da igreja em fazer
discípulos. (Anyabwile, 2016, p.74)

Antes de subir aos céus, Cristo deixou uma comissão a Seus


apóstolos. Assim como o Pai O enviou, Ele os enviaria no poder do
Espírito (Jo 20.21-23) para pregarem o evangelho a toda criatura
(Mc 16.15) e serem testemunhas até os confins da terra (At 1.8).
Debaixo da autoridade do nome do Messias ressurreto, deveriam ir,
pregar arrependimento para remissão de pecados (Lc 24.47), fazer
discípulos, batizando no nome Trino e ensinando a guardar todas as
coisas que Cristo tinha ordenado (Mt 28.18-20).

Essa comissão de proclamar o evangelho é passada dos apóstolos


a toda a igreja, já que a presença de Cristo acompanha a
comissão“todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28.20). Apóstolos,
evangelistas e pastores possuem encargo especial em proclamar as
boas-novas (At 4.29; 2Tm 4.1-5), porém, seria errado pensar que a
ordem evangelística foi dada somente a eles.

Em Atos 8.1-4 e 11.19-21, podemos ler que, após grande


perseguição, todos, exceto os apóstolos, foram dispersos, e que os
que foram dispersos iam por toda parte proclamando as boas-novas
da Palavra, o evangelho do Senhor Jesus. Eles ativamente
evangelizavam, mesmo diante do perigo da perseguição, bem como
estavam sempre prontos para santificar “a Cristo, como Senhor, no
seu coração, estando sempre preparados para responder a todo
aquele que pedir razão da esperança” que neles havia (1Pe 3.15-
16).

Discuta

1. Você acha que é possível ser obediente a Cristo e afirmar que não
precisa anunciar o evangelho?
2. Liste alguns motivos por que devemos evangelizar.

1. POR QUE DEVEMOS


EVANGELIZAR? E POR QUE NÃO O
FAZEMOS?
Primeiro, por amor a Deus, desejamos ser obedientes à Grande
Comissão que Cristo nos deixou. Ao guardarmos os mandamentos
de Cristo e darmos muito fruto, o Pai é glorificado (Jo 15.8-11). É a
alegria do cristão e sua oração que o nome de Deus seja santificado
neste mundo (Lc 11.2).
Em segundo lugar, é amor ao próximo. Será que podemos
realmente dizer que amamos o próximo como a nós mesmos se nos
recusamos a dizer a mensagem que pode livrá-los da perdição
eterna? Jesus Se compadeceu da multidão aflita, exausta e perdida
(Mt 9.36). Paulo desejava e suplicava pela salvação dos perdidos
(Rm 10.1; cf. 9.1-5). Ele procurava não o seu próprio interesse, mas
o de muitos, para que fossem salvos — e ele nos exorta a ser seus
imitadores, como também ele é de Cristo (1Co 10.32-11.1).

Contudo, muitas vezes, somos omissos em nosso papel. É normal


ouvir as seguintes desculpas:

a. Vai causar Racionalizamos dizendo que, se


problemas:
proclamarmos o evangelho aos nossos familiares, amigos ou
colegas de trabalho, causaremos algum problema ou
desentendimento. No fim, tentamos preservar nossa reputação à
custa do destino eterno do nosso próximo. Precisamos entender
que o sofrimento pelo nome de Cristo é algo normal na vida cristã
(At 14.22; 2Tm 3.12) e poder sofrer e ser perseguido pelo Nome é
fonte de alegria e bem-aventurança (Mt 5.11-12; At 5.41; 1Pe 4.12-
14).

b. Tenho vergonha: O evangelista Timóteo também passou por essa


tentação, e Paulo o encorajou, dizendo: “Porque Deus não nos deu
espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.
Portanto, não se envergonhe do testemunho de nosso
Senhor” (2Tm 1.7-8). Na tentação, podemos com fé orar pedindo
que o Espírito Santo nos dê espírito de poder, de amor e de
moderação. Se Deus nos declara justos em Cristo, então o que
significa ser julgado por meros mortais? (2Tm 1.3-4) Temamos
aquele que disse: “Pois quem se envergonhar de mim e das
minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do Homem” (Lc
9.26).

c. Não me sinto preparado: Em 2Coríntios 2.15-16, Paulo trata sobre o


papel evangelístico de anunciar as boas-novas, sabendo que
alguns aceitariam e outros rejeitariam. Diante dessa tarefa
gigantesca, ele se pergunta: “Quem, porém, é capaz de fazer estas
coisas?” A verdade é que ninguém é, nem o apóstolo é suficiente.
Contudo, ele responde sua indagação: “a nossa capacidade vem
de Deus” (2Co 3.5). Você possui o Espírito que o ensina (1Jo
2.27), então deixe que Ele guie o que você vai falar. E se não
souber uma resposta, simplesmente diga: “Ótima pergunta. Não
sei responder de prontidão, mas vou pesquisar.”

d. Outras prioridades: A vida moderna é frenética, e, certamente, há


períodos mais atarefados, mas a agenda do Rei não deve ser
abandonada por causa de nossos cronogramas. E, muitas vezes,
temos sim tempo disponível, mas preferimos usá-lo no excesso de
lazer, em entretenimento, nas redes sociais. Questões eternas
devem ter primazia sobre questões efêmeras.

e. Não conheço incrédulos: Isolamento talvez seja a desculpa mais


comum para a falta de evangelização. É a justificativa preferida de
cristãos maduros. Devemos, porém, reconhecer que Cristo nos
enviou para “ir e fazer discípulos” e não esperar que eles venham.
Então, precisamos tomar passos concretos para esse fim.
Podemos evangelizar na rua, convidar pessoas de nosso prédio ou
vizinhança para um estudo sobre quem foi Jesus, aproximar-nos
de funcionários de estabelecimentos que frequentamos a fim de
convidá-los para ir a um culto da igreja, pensar em interesses
comuns da sua fase de vida que poderia servir de ponte com
incrédulos. Sejamos fiéis em nossa apresentação do evangelho,
mas criativos em nossas abordagens.

Apesar de poder dar essas e outras desculpas, a realidade que não


queremos assumir é que, muitas vezes, não acreditamos ser o
evangelho o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Não
confiamos no evangelho e pensamos ser necessário fazer outras
coisas ou ser crentes melhores a fim de ganhar as pessoas. Crer
que é a Palavra no poder do Espírito que traz o novo nascimento
nos libera a proclamar o evangelho e deixar os resultados com
Deus.
Discuta

1. Qual desculpa você mais usa para não evangelizar?


2. Existem formas erradas ou incompletas de evangelizar? Quais?

2. QUE É EVANGELIZAÇÃO?
Evangelização é o ensino (anúncio, proclamação, pregação) do evangelho
(mensagem de Deus que nos conduz à salvação) com o objetivo
(esperança, desejo, meta) de persuadir (convencer, converter). (Stiles, 2015,
p.30)

Para alinhar nossa prática evangelística com as Escrituras,


precisamos definir evangelização de acordo com a Bíblia. Mack
Stiles afirma que “evangelização é o ensino do evangelho com o
objetivo de persuadir”. (Stiles, 2015, p.29) Simples, não?

Há alguns pontos importantes nesta definição. Sem eles talvez não


estejamos de fato evangelizando.

Ensino
Primeiro, precisamos reconhecer que evangelização é ensino,
anúncio, proclamação. No Antigo Testamento, em particular em
Isaías, o termo descreve o arauto das boas-novas anunciando que o
Deus de Israel derrotou os inimigos, libertou Seu povo e
estabeleceu Seu reinado (Is 40.9; 52.7-10; 60.6; 61.1). No mundo
pagão, o termo foi usado para descrever e anunciar o nascimento e
a ascensão ao poder de um novo rei e a paz que ele traria. (Mathis,
2003, p.671)
Isso significa que é impossível evangelizar sem comunicar Cristo e
Seu evangelho — seja em palavras, libras, letras. A ênfase da
época era certamente a proclamação verbal que o arauto fazia. Isso
significa que devemos rejeitar a máxima “pregue o Evangelho em
todo tempo; se necessário, use palavras”.

Nossas palavras e nossas obras não devem ser colocadas em


conflito ou substituição. Palavras e obras devem andar juntas (1Jo
3.18), mas nossas obras, sem o contexto da palavra do evangelho,
não apontarão para Cristo. As boas obras têm objetivo duplo. Por
um lado, nosso bom procedimento em Cristo (1Pe 3.16) faz com
que “o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (1Tm
6.1) e evita que a palavra de Deus seja difamada (Tt 2.5). Por outro
lado, nossas boas obras ornam a doutrina de Deus, nosso Salvador
(Tt 2.10), e podem levar as pessoas a glorificarem o Pai (Mt 5.16;
1Pe 2.12).

Evangelho
Segundo, precisamos anunciar uma mensagem específica: o
evangelho de Cristo. Paulo alerta contra a adulteração da palavra de
Deus (2Co 4.2) e ensina que “o que se requer destes encarregados
é que cada um deles seja encontrado fiel” (1Co 4.2). Se não
anunciamos a Cristo e este, crucificado, não proclamamos as boas-
novas (1Co 2.2).

Devemos evitar a tentação de esconder certas partes da mensagem


cristã para que ela fique mais agradável ao mundo. O homem caído
pensa que é fundamentalmente bom e que Cristo é só uma ajuda
para salvação. Ele nunca vai reconhecer por si mesmo a gravidade
do seu pecado, a justiça do juízo de Deus e a incapacidade de
salvar-se a si mesmo.

Além disso, nosso testemunho pessoal também não é o evangelho,


especialmente quando tantas vezes a ênfase não é a salvação, mas
as bênçãos. Nossa vida deve apontar para Cristo, mas é a vida e a
obra de Cristo que são as boas-novas. Também devemos tomar
cuidado em não anunciar uma mensagem parcial. Somente dizer
“Deus o ama” não é anunciar o evangelho (veja a lição sobre o
evangelho), bem como usar argumentos apologéticos. Estes podem
ser úteis para derrubar algumas barreiras, mas precisamos chegar
até à cruz.

Por isso é importante lembrar dos quatro pontos do evangelho: 1)


Deus, (2) homem, (3) Cristo e (4) resposta. Mark Dever faz as
seguintes perguntas para autoexame:

Eu expliquei que Deus é nosso santo e soberano


Criador?
Deixei claro que nós, humanos, somos uma mistura
esquisita, feitos de um modo maravilhoso à imagem de
Deus, mas horrivelmente caídos, pecaminosos e
alienados Dele?
Expliquei quem é Jesus e o que Ele fez — ou seja, que
Ele é o Deus-Homem, que permanece de modo
exclusivo entre Deus e o homem como substituto e
Senhor ressurreto?
E, finalmente, ainda que eu tenha compartilhado tudo
isso, afirmei com clareza que a pessoa tem de responder
ao evangelho e crer nesta mensagem, convertendo-se
de sua vida de egocentrismo e pecado? (Dever, 2015,
p.98-99)

Objetivo
Terceiro, devemos lembrar que, quando anunciamos o evangelho,
vida e morte eternas estão em jogo. Não podemos apresentar as
boas-novas de forma fria e indiferente. Por isso é importante lembrar
o ponto 4 do evangelho: resposta. Falamos com o objetivo que haja
uma resposta da pessoa que nos ouve. Ter objetivo vai nos ajudar a
manter perspectiva e postura corretas.

Persuadir
Por fim, em quarto lugar, nosso alvo é persuadir. Nosso alvo é que a
pessoa responda corretamente em arrependimento e fé — e é essa
resposta que devemos esperar. Precisamos, como Paulo, ter
ardente desejo em nosso coração de ver as pessoas virem a Cristo
e devemos rogar que elas se reconciliem com Deus (Rm 10.1; 2Co
5.20).

Contudo, enquanto fazemos isso, não podemos nos esquecer de


que é o Espírito que faz a obra. É bom lembrarmos que “a
evangelização não é fazer tudo que pudermos para que uma pessoa
tome uma decisão a favor de Cristo” e que “tentar forçar um
nascimento espiritual será tão ineficaz como se Ezequiel houvesse
tentado juntar os ossos de cadáveres para fazer uma pessoa (Ez
37), ou como se Nicodemos tentasse dar a si mesmo um novo
nascimento no Espírito (Jo 3)”. (Dever, 2015, p.115)

Assim, devemos buscar persuadir sem colocar nossa esperança em


nossos métodos ou em nossa habilidade, mas em Deus. Isso nos
levará a buscar persuadir, sem manipular. Não devemos
manipular as emoções. Não devemos impor nossa opinião. Não
devemos coagir uma resposta favorável.

Devemos dizer às pessoas, com honestidade, que, se elas se


arrependerem e crerem, serão salvas — mas isso terá um custo.
Longe de nós, escondermos a necessidade de tomar nossa cruz,
vendendo a Cristo como um amuleto para saúde e prosperidade.
Deixemos a obra de convencimento com o Espírito (Jo 16.8).

Discuta

1. Qual das quatro partes da evangelização (ensino, evangelho, objetivo,


persuadir) foi novidade para você?
2. É possível evangelizar corretamente sem uma dessas partes?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
“A igreja local é o plano de evangelização de Deus.
É o programa evangelístico de Deus.” (Dever, 2007, p.15)

A Grande Comissão foi dada à igreja. Cada membro tem sua parte,
mas vamos nos lembrar de que não a cumprimos sozinhos.
Precisamos tornar a igreja o elemento central de nossos esforços
evangelísticos.

Em nossas reuniões, o evangelho precisa ser claramente


comunicado aos incrédulos, incluindo a chamada ao arrependimento
e à fé (1Co 14.23-25), seja nas músicas, nas orações, ou na
pregação. Devemos tomar cuidado com linguajar totalmente
estranho ao visitante (o “evangeliquês”) e explicar termos preciosos
que talvez ele desconheça (evangelho, justificação, expiação, etc.).
Nosso culto é primariamente para a glória de Deus e a edificação
dos santos, mas isso não exclui o aspecto evangelístico.

Além disso, nossa vida como igreja deve mostrar que há algo
diferente em nós. Jesus diz que a nossa vida comunitária de
unidade e amor vai exibir e recomendar o evangelho ao mundo (Jo
13). Ao viver em amor, tornamos o evangelho visível. Entretanto, se
em nosso meio há divisões, intrigas e carnalidade, isso vai mentir
sobre quem Cristo é e será uma grande força antievangelística.
Por fim, devemos nos lembrar de que Cristo deu diferentes dons a
cada membro da igreja. Se temos dificuldade na abordagem ou na
explicação, peçamos ajuda a irmãos mais experientes. Eles podem
nos ensinar e até mesmo estar conosco, conforme buscamos
ganhar os perdidos.

Discuta

1. Analise: O culto em sua igreja tem apresentado dominicalmente o


evangelho e chamado pecadores ao arrependimento?
2. Você tem dificuldade de evangelizar? Como um irmão da igreja poderia
ajudá-lo?

CONCLUSÃO
Em 1Coríntios 9.16, Paulo chega a ponto de dizer: “ai de mim se
não pregar o evangelho!” E, de fato, ai de nós! Se não avisarmos os
incrédulos do perigo do pecado, o sangue deles poderá ser
requerido de nossa mão (Ez 3.16-21; At 18.6; 20.26). Quanto mais
próxima a pessoa é de nós, maior nossa responsabilidade.
Evangelização é um assunto sério. A glória de Deus e o destino
eterno dos homens estão na balança. Evangelização não é uma
questão irrelevante; é responsabilidade de todo cristão, é a marca
de uma igreja saudável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Donny Mathis, Gospel. Apud. Chad Brand, Charles Draper, Archie England, Steve
Bond, E. Ray Clendenen, e Trent C. Butler (orgs.). Holman Illustrated Bible
Dictionary (Nashville, TN: Holman Bible Publishers, 2003).
Mack Stiles, Evangelização: como Criar uma Cultura Contagiante de Evangelismo
na Igreja Local (São Paulo: Vida Nova, 2015).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2007).
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2016).

MAIS RECURSOS
Andy Johnson, Missões: Quando a Igreja Local se Torna Global (São Paulo: Vida
Nova, 2018).
Greg Gilbert, Quem É Jesus Cristo? (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015).
Mark Dever, O Evangelho e a Evangelização (São José dos Campos, SP: Fiel,
2011).
A membresia na igreja é uma relação formal entre a igreja e o
cristão, caracterizada pela confirmação e supervisão do discipulado
do cristão por parte da igreja e pela submissão do cristão para viver
seu discipulado sob os cuidados da igreja.

INTRODUÇÃO
“A igreja não é um acessório; é a forma de seguir a Jesus.” (Dever, 2007,
p.16)

Vivemos em uma era que traz desafios particulares à noção de


membresia. Outrora, a identidade conservadora era solidamente
ligada ao clã, à família, à religião e à nação. Devido aos abusos de
visões mais extremas, a identidade moderna é mais líquida. Ela não
se baseia em pilares fora de si, mas na autoafirmação.

Isso levou a geração atual a ser marcada, de muitas maneiras, por


individualismo (“minha felicidade é o mais importante”) e
consumismo (“estou disposto a utilizar cada vez mais outras
pessoas e outras coisas”), resultando em fobia a comprometimentos
(jovens vivem juntos, mas não se casam) e rejeição de instituições
(toda instituição é travada e corrupta).

Infelizmente, esse mundanismo entrou na igreja. Às vezes, reagindo


a abusos de autoridade e a um institucionalismo morto, a igreja caiu
no pragmatismo, fazendo de tudo, inclusive sacrificando algumas
doutrinas e práticas históricas, a fim de atrair a nova geração.

O impulso evangelístico é bom, porém, como Mack Stiles diz: “A


evangelização não bíblica é um método de suicídio assistido da
igreja” (Stiles, 2015, p.45). Quando a igreja se utiliza de métodos e
mensagens que contrariam princípios bíblicos para atrair as
pessoas, ela vai receber não convertidos em sua membresia — e
isso terá resultados devastadores.

Discuta

1. Você acha que a igreja é uma instituição?


2. Por que é problemático receber incrédulos na membresia da igreja?

1. QUE É MEMBRESIA DE IGREJA?


Muitas pessoas são favoráveis a uma igreja mais orgânica e menos
institucional. Todo organismo vivo, porém, possui uma organização.
Desde a parede celular, a casca de uma árvore até nossa pele,
estruturas que impedem o que é ruim de entrar e permitem o que é
bom têm sustentado a vida, debaixo do plano do Criador. A
organização existe para proteger e promover a vida do organismo.

Muitos enxergam a membresia formal de igreja como uma estrutura


arcaica e impessoal — e se abusada, pode ser. A membresia,
porém, é uma expressão da realidade espiritual que temos em
Cristo e uma manifestação concreta do nosso amor pelos nossos
irmãos. Como bem coloca o Pr. Mark Dever:

Como um templo possui tijolos. Um rebanho, ovelhas. Uma


vinha, ramos. E um corpo, membros. Em um sentido, ser
membro da igreja começa quando Cristo nos salva e nos torna
membros de seu corpo. Contudo, essa obra tem de expressar-
se em uma igreja local. Nesse sentido, a membresia de igreja
começa quando nos comprometemos com um corpo
específico. Ser um cristão significa estar unido a uma igreja.
(Dever, 2015, p.121)

Mas, então, que é membresia de igreja? Em Atos 2, temos o


Pentecostes e a primeira pregação após a descida do Espírito — o
começo do cumprimento da Grande Comissão — e Lucas nos dá
um resumo interessante sobre a vida da igreja nos versículos 41-42.

O versículo 41 nos apresenta o processo de membresia. Aqueles


que aceitaram a palavra (arrependeram-se e creram na pregação do
evangelho) foram batizados (professaram publicamente a fé) e isso
marcou o acréscimo à igreja. Ou seja, a igreja deve admitir em sua
membresia aqueles que receberam a Cristo e o sinal de entrada da
Nova Aliança.

É importante ressaltar que o batismo possui um aspecto inicial e


comunitário. Inicial, pois deve ser realizado próximo à conversão e
porque é necessário para a membresia e para a participação na
ceia. Comunitário, pois Paulo diz que “todos nós fomos batizados
em um só corpo” (1Co 12.13). Ou seja, o batismo que simboliza
nossa união com Cristo também simboliza nossa união com o corpo
de Cristo.

O versículo 42 nos apresenta o viver da membresia: aqueles que


foram acrescentados viviam de forma diferenciada dentro da cerca
da membresia. Eles se devotavam perseverantemente na doutrina,
na comunhão, no partir do pão e nas orações. Ali, havia um campo
verdejante de vida cristã.

O texto diz “partir do pão”, provavelmente apontando para a


celebração da ceia. É importante ressaltar que a ceia possui um
aspecto contínuo e comunitário. Contínuo, pois ela não é celebrada
só uma vez, mas é repetida periodicamente na vida da igreja.
Comunitário, pois Paulo diz que “somos unicamente um pão, um só
corpo; porque todos participamos do único pão” (1Co 10.16-17). Ou
seja, a ceia que simboliza nossa união com Cristo também simboliza
nossa união com o corpo de Cristo.

Repare, então, que a entrada na membresia e a vida da igreja são


reguladas pelas duas ordenanças dadas por Cristo. Não devemos
pensar no batismo e na ceia como algo individualista, mas como
algo que possui tanto aspectos pessoais quanto comunitários, que
são demonstrados visivelmente ao participarmos da ordenança que
é realizada ou dada a nós por outros: alguém nos batiza e alguém
nos serve o pão.

Isso significa que a igreja também proclama algo ao batizar e ao


servir a ceia. Ela afirma reconhecer naquela pessoa alguém que
recebeu a Cristo. Assim, “um membro de igreja é uma pessoa
reconhecida oficialmente e publicamente como um cristão diante
das nações” (Leeman, 2016, p.32).
A igreja recebeu autoridade de Jesus para analisar a vida e a
profissão de fé de uma pessoa, e emitir um veredicto em nome dos
céus (Mt 18.15-20), batizando em nome do Deus Trino aqueles que
se tornaram discípulos do Messias ressurreto (Mt 28.18-20).

Assim como uma embaixada não torna alguém um cidadão, mas


reconhece quem pertence à nação, a igreja não torna alguém um
cristão (o Espírito faz isso), mas reconhece aqueles que aceitaram o
evangelho por meio do batismo (Leeman, 2016, p.32). Ela declara
local e visivelmente — no tempo e no espaço — o que cremos ser
verdadeiro, universal e invisivelmente (Leeman, 2019, p.170).

Então, que é a membresia de igreja? Jonathan Leeman define da


seguinte forma:

A membresia da igreja é (1) uma aliança de união entre uma


igreja específica e um crente; uma aliança que consiste (2) na
confirmação que a igreja faz da profissão de fé no evangelho
por parte do crente, (3) na promessa da igreja de oferecer
supervisão ao crente, e (4) na promessa do crente de se reunir
com a igreja e de se submeter à sua supervisão (Leeman,
2013, p.266).

Vamos desempacotar essa definição.

a. Aliança: é um acordo solene entre um cristão e uma igreja local.


b. Confirmação: a igreja, por meio do batismo e da ceia, confirma a
profissão de fé dos seus membros.
c. Supervisão: os pastores e os membros buscam ensinar, exortar,
admoestar crente para que ele persevere na fé.
d. Reunir e se submeter: o crente promete não deixar de congregar e
viver sua vida de discipulado a Cristo debaixo do ensino daqueles
discípulos.

Discuta
1. Que ações práticas você pode tomar para supervisionar amorosamente
a fé de seus irmãos de igreja?
2. Que ações práticas você pode tomar para se submeter à igreja local?

2. É BÍBLICO?
Atos 2.41-42 mostra a realidade da membresia na igreja apostólica.
Entretanto, muitos ainda duvidam se a membresia formal é algo
bíblico. Aqui estão mais argumentos em prol da membresia de
igreja.

Primeiro, Deus sempre buscou demarcar uma clara diferença entre


Seu povo e o mundo. Já na criação, sem a mácula do pecado, Deus
colocou o homem em um lugar separado do restante da terra, um
jardim. O trabalho de Adão era guardar o jardim de invasores e
cultivá-lo para que se expandisse sobre a terra (Gn 2.8,16).

No dilúvio, a arca era uma divisão clara entre aqueles que, como
Noé, haviam achado graça diante de Deus, temido Seu nome e
obedecido a Ele, e o mundo de ímpios que rejeitou a pregação da
justiça. Dentro da arca, salvação; fora, condenação (Gn 6.7-8; cf. Hb
11.7; 1Pe 3.20; 2Pe 2.5).

Ao chamar Abraão, Deus mostrou que fazer parte do povo da


aliança implicava: ter a mesma fé justificadora de Abraão na
Palavra, que recebe o Senhor como seu Deus; observar o sinal da
aliança, a circuncisão; e viver de acordo com essas realidades.
Quem assim não se portasse teria quebrado a aliança com Deus e
deveria ser eliminado do meio do povo pactual (Gn 17.7-14).

Ainda no Antigo Testamento, poderíamos citar o contraste entre


Israel e as nações (Êx 19.1-6; Dt 9.5; cf. Rm 9.4-5), e a história de
Raabe que, por sua fé viva no Deus de Israel, foi liberta e incluída
no povo e na linhagem do Messias (Js 2; 6; Hb 11.31; Tg 2.25).

Esse padrão prossegue no Novo Testamento, alcançando sua


plenitude na igreja. Pedro escreve que antes estávamos do lado de
fora, mas agora estamos do lado de dentro (1Pe 2.9-10). Não
éramos povo, mas agora somos povo de propriedade exclusiva,
raça eleita, sacerdócio real, nação santa. E é nessa nova realidade
de um povo separado para Deus que proclamamos as virtudes do
Redentor.

Em segundo lugar, as imagens da igreja incluem a noção de


membresia. Como vimos na 2ª lição, não podemos dizer que somos
filhos de Deus sem ser irmãos dos outros filhos e nos comprometer
a amá-los (1Jo 3.1,16). Não podemos afirmar estar em Cristo, a
cabeça, se recusamos fazer parte do corpo e ser membros um dos
outros, servindo com nossos dons (Ef 4.15-16; Rm 12.3-8; 1Co 12).
Não podemos afirmar ser habitados pelo Espírito se recusarmos a
ser uma pedra no templo que é a igreja e buscar edificá-la (1Pe 2.5;
1Co 3.16-17).

Em terceiro lugar, a membresia de igreja é pressuposta por todo o


Novo Testamento. Ela é pressuposta pela Grande Comissão, pois o
novo discípulo deve se submeter ao batismo e ao ensino de outros
discípulos (Mt 28.19-20). É pressuposta pela contagem de membros
e pelas votações, mostrando que a igreja sabia quem eram seus
integrantes (At 1.15; 2.41; 6.3-5; 15.22). É pressuposta pela
responsabilidade dos presbíteros e das ovelhas, pois os pastores
devem saber de quem vão prestar contas, e os membros, quem são
seus líderes (Hb 13.17). E é pressuposta pela disciplina eclesiástica,
pois não faz sentido colocar para fora quem nunca foi considerado
de dentro (Mt 18.15-20; 1Co 5; 2Co 2.6).

Paulo explicitamente diz em 1Coríntios 5 que há aqueles de dentro


e aqueles de fora; e não devemos ofuscar a separação entre a
igreja e o mundo, em nome de um pretenso amor que pensa ser
mais sábio que Deus.
Discuta

1. Por que Deus quis delimitar tão claramente quem está dentro e quem
está fora?
2. É coerente dizer-se cristão e se recusar a ser membro de uma igreja?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
Diante da importância do assunto, precisamos entender que a
membresia deve ser significativa em nossa igreja. Um rol de
membros relaxado, com irmãos que há muito não participam da vida
comunitária, passa a mensagem que alguém pode dizer amar a
Deus sem amar os irmãos, enganando a pessoa afastada e
desencorajando os membros ativos.

Além disso, precisamos abolir a ideia de que há membros


comprometidos e membros não engajados. A membresia é o
comprometimento, o pacto e o compromisso de amar e servir aos
irmãos, vivendo em unidade e comunhão. O compromisso que
alguém assume com a igreja não deve ser baseado no conforto. Ela
não deve pensar que pode envolver-se com a comunidade conforme
seu gosto. Não é isso que somos ensinados no Novo Testamento.

Para ser uma comunidade cativante, que torna o evangelho visível,


precisamos que nosso compromisso seja baseado no chamado
(Dever e Dunlop, 2016, p.65-91), no chamado de Deus de vivermos
os mandamentos uns aos outros mesmo que seja difícil,
desconfortável e sacrificial. Somos chamados a amar (Rm 12.13-
16), a saudar (Rm 16.16), a acolher (Rm 15.7), a suportar (Cl 3.12-
14), a perdoar (Ef 4.31-32), a encorajar (Hb 10.24), a guardar (Hb
3.12-13), a cuidar (1Co 12.24-25), a sujeitar (Ef 5.18-21) uns aos
outros. Isso é, termos o mesmo sentimento que houve também em
Cristo Jesus, o qual Se humilhou por nós e nos amou até a morte, e
morte de cruz (Fp 2.1-11).
Discuta

1. Algumas pessoas entendem que devemos envolver os incrédulos em


toda a vida da igreja para que ele possa, aos poucos, se converter. Ele
deve “pertencer antes de crer”. Qual o problema com essa visão?
2. Seu compromisso com a igreja está mais baseado no seu conforto ou no
chamado de Deus para sua vida? Quais são formas que você pode
melhorar?

CONCLUSÃO
Jonathan Leeman lista doze razões por que a membresia é
importante. Ele diz: (1) é bíblico; (2) a igreja são seus membros; (3)
é um pré-requisito da ceia do Senhor; (4) é como oficialmente
representamos a Cristo; (5) é como declaramos nossa maior
lealdade; (6) é como tornamos real e experimentamos as imagens
bíblicas da igreja; (7) é como servimos uns aos outros; (8) é como
seguimos a líderes cristãos; (9) é como ajudamos líderes cristãos a
liderarem; (10) torna a disciplina eclesiástica possível; (11) dá
estrutura a sua vida cristã; e (12) constrói um testemunho e convida
as nações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Jonathan Leeman, A Igreja e a Surpreendente Ofensa do Amor de Deus:
Reintroduzindo as Doutrinas sobre a Membresia e a Disciplina da Igreja (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2013).
Jonathan Leeman, A Regra do Amor: Como a Igreja Local Deve Refletir o Amor e
a Autoridade de Deus (São José dos Campos, SP: Fiel, 2019).
Jonathan Leeman, Membresia na Igreja: Como o Mundo Sabe Quem Representa
Jesus (São Paulo: Vida Nova, 2016).
Mack Stiles, Evangelização: Como Criar uma Cultura Contagiante de Evangelismo
na Igreja Local (São Paulo:Vida Nova, 2015).
Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2007).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Mark Dever e Jamie Dunlop, Comunidade Cativante: Onde o Poder de Deus
Torna uma Igreja Atraente (São José dos Campos, SP: Fiel, 2016).
A disciplina corretiva é tudo que a igreja faz para
corrigir o pecado em seus membros, podendo
chegar ao ato de excluir da membresia e da
comunhão na ceia do Senhor alguém que
confesse ser cristão, mas que vive de forma
impenitente no pecado.

INTRODUÇÃO
O que é a disciplina eclesiástica? A resposta ampla é dizer que se trata de
corrigir
o pecado na igreja. (Leeman, 2019, p.20-21)

Você gosta de ser disciplinado? De fato, toda disciplina no momento


não parece ser motivo de alegria, mas a Bíblia ensina que, se não
somos corrigidos pelo Senhor, então não somos Seus filhos.
Hebreus 12.10 diz que Deus “nos disciplina para o nosso próprio
bem, a fim de sermos participantes da sua santidade”. Ou seja, a
disciplina não é Deus torcendo o rosto para nós. Ela é um convite de
Deus para que possamos nos achegar mais perto Dele e
compartilharmos da Sua santidade. Afinal, o Senhor repreende e
disciplina aqueles que Ele ama (Ap 3.19).

Agora, muitos até podem aceitar a ideia de Deus discipliná-los, mas


rejeitam com veemência o plano de Deus que é usar a igreja para
isso. Hebreus 10.19-31 traz um retrato esclarecedor sobre. No
começo do texto, o autor nos encoraja a, com ousadia, “entrar no
Santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho” (v.19-
20). Diante da obra de Cristo na cruz, temos a promessa da glória e
precisamos então guardar “firme a confissão da esperança”(v.23).

Entretanto, no final do trecho, as cores não são tão vívidas. O autor


de Hebreus nos lembra sobre o terrível perigo de “continuarmos a
pecar de propósito” (v.26). Aqueles que, tendo“recebido o
conhecimento da verdade” (v.26), rejeitam com atrevimento a Cristo
e decidem viver sem arrependimento estão colocando-se numa
situação terrível, pois, não resta outro“sacrifício pelos
pecados” (v.26), não há outro Cordeiro de Deus. Ao rejeitarmos a
Jesus, só nos resta a ira de Deus, resta-nos “apenas uma terrível
expectativa de juízo e fogo vingador”(v.27).

De um lado, a glória; do outro, o inferno. E no meio de tudo isso, o


autor de Hebreus dá a recomendação para a perseverança: viva e
vá para a igreja. Confira:

Cuidemos também de nos animar uns aos outros no amor e na


prática de boas obras. Não deixemos de nos congregar, como
é costume de alguns. Pelo contrário, façamos admoestações,
ainda mais agora que vocês veem que o Dia se aproxima (v.24-
25).

Para a Escritura, perseverança na fé é um projeto comunitário.


Precisamos estimular e admoestar uns aos outros, vivendo unidos e
não deixando de congregar.

Mas o que fazer quando um membro de igreja que afirma ser cristão
vive deliberadamente em pecado sem arrepender-se?

Discuta

1. Você já havia pensado na importância que o mandamento “não deixar de


congregar” tem em seu contexto?
2. Por que as pessoas deixam de congregar? É possível perseverar na fé
sozinho?

1. DISCIPLINA É BÍBLICA?
Há vários textos bíblicos que mostram a importância de tratar o
pecado na vida do corpo, mas há dois textos principais que abordam
a questão da disciplina de forma mais extensa.

“Se o seu irmão pecar contra você” (Mt 18.15-20)

O primeiro está em Mateus 18.15-20. Jesus aborda aqui um pecado


individual. Alguém pecou contra você. Cristo ensina que esse tipo
de pecado deve ser tratado no menor círculo possível. Primeiro,
você deve ir até seu irmão (e não esperar que ele venha!). Se seu
irmão se arrependeu, então você ganhou seu irmão, e a situação foi
resolvida. Fim do assunto.

Entretanto, se ele não se arrependeu, então, deve-se chamar duas


ou três pessoas, um pequeno grupo de pessoas que possa analisar
a situação de forma imparcial (e não seus amigos que vão ficar do
seu lado). Se ele ouvir o grupo, então pronto.

O último passo, se o irmão continua sem se arrepender, é levar para


a igreja. Se ele ouvir a igreja, glória a Deus, há reconciliação. Se
não ouvir, então Jesus nos instrui a fazer algo que pode nos parecer
chocante. Ele diz para tratarmos aquela pessoa que não se
arrependeu como gentio ou publicano. Gentio era quem não era
judeu, ou seja, alguém fora do povo da aliança. “Publicano” vai um
pouco além — era um coletor de impostos. Ele havia se aliado com
Roma para extorquir seu próprio povo. Um traidor da pátria. Jesus
(sim, Jesus!) está nos ensinando a tratar aqueles que vivem uma
vida sem arrependimento dos pecados como alguém de fora do
povo de Deus, alguém que traiu o povo de Deus e preferiu o inimigo!

Jesus também diz que a igreja faz isso em nome dos céus. Lembre-
se da última lição: a igreja funciona como uma embaixada falando
em nome do reino de Cristo. A igreja está apontando para o futuro e
dizendo: “se você não se arrepender hoje, não há garantia nenhuma
que você fará parte do povo de Deus no juízo final”.

Então, Jesus afirma que, onde dois ou três estiverem em Seu nome,
a presença poderosa e cheia de autoridade Dele estará ali. Sim,
esse texto não é sobre a reunião de oração que ninguém foi. Este
texto é o Rei Jesus dando autoridade para Seu povo agir em
disciplina eclesiástica, em Seu nome (ou seja, agir como Ele agiria).
Sim, é sério! Mas quem ensinou mesmo?

Discuta
Jesus disse para não julgarmos. Será que Ele se contradisse ou será que
entendemos mal? Leia Mateus 7.1-5 e João 7.24. Qual tipo de julgamento Jesus
é contra?

“Expulsem o malfeitor do meio de vocês” (1Co 5.13)

O próximo texto está em 1Coríntios 5. Certa pessoa havia cometido


um pecado sexual que até mesmo a promíscua cidade de Corinto
estava escandalizada.

O que você esperaria que a igreja fizesse nesse caso? Alguns


acham que a igreja deve ser “graciosa” e tolerar o pecado não
arrependido. O apóstolo, porém, não estava nada feliz! Ele condena
a passividade orgulhosa daquela igreja e diz que a ação dela estava
permitindo uma catástrofe na vida daquela pessoa e na vida da
própria igreja.

Paulo fundamenta tudo no evangelho. Ele afirma que Cristo, nosso


Cordeiro Pascal, foi sacrificado (v.7), então devemos viver uma vida
diferente. A festa da Páscoa, e dos pães asmos do Antigo
Testamento apontava para Cristo. Naquela festa, a oferta pelos
pecados era feita, mas o povo não deveria ter fermento em suas
casas — e quem tivesse deveria ser eliminado de Israel (Êx 12.15;
Dt 15.1-8). Paulo diz que nós vivemos a realidade espiritual dessa
festa em Cristo. Nossa vida deve ser uma celebração de pureza:
não com o fermento do mal e da maldade, mas com os pães asmos
da sinceridade e verdade (v.8).

Sendo assim, aquela pessoa que vivia em pecado escandaloso não


estava vivendo a nova vida em Cristo. Paulo usa os seguintes
termos para descrevê-la aquela pessoa: diz-se “irmão”, está
“dentro”, mas é “impuro” e “malfeitor”. E diz que o ato daquela
pessoa foi de “imoralidade”, “ultraje”, “infâmia”, “maldade’ e
“malícia”.

O que a igreja deveria, então, fazer? Toda a igreja deveria lamentar


que tal loucura fora realizada no meio do povo de Deus. Paulo usa
os seguintes termos: eles não deveriam “associar-se” ou até mesmo
“comer” com aquela pessoa, mas deveriam “julgar”, “tirar”, “lançar
fora”, “expulsar”, “entregar a Satanás”. Entregar a Satanás significa
expulsar a pessoa de volta para o mundo. Nas palavras de Jesus,
tratar como gentio e publicano.

Novamente, vemos neste texto que a igreja deveria fazer isso “em
nome de nosso Senhor Jesus”, “com o poder de Jesus” (v.4). Sim, é
sério! Mas quem ensinou mesmo?

Podemos não gostar da ideia, mas ela é bíblica!

Discuta
Essas ações parecem pesadas, mas há três questões em jogo. Procure em
1Coríntios 5 quais seriam as consequências de não se tratar aquele pecado: (a)
para a vida daquela pessoa, (b) a vida da igreja, (c) o nome de Jesus.

2. QUE É DISCIPLINA?
De forma ampla, disciplina eclesiástica é tudo o que a igreja faz para
corrigir o pecado em sua vida (pregação, discipulado,
aconselhamento, etc.). Contudo, de forma mais específica:

A disciplina eclesiástica formal é o caminho adequado quando


a falha de um membro em sua representação de Jesus se
torna tão marcante e habitual que a igreja deixa de acreditar
que ele é cristão. A igreja deve, então, revogar sua confirmação
da profissão de fé dessa pessoa. (Leeman, 2016, p.31)

Como vimos no estudo sobre conversão, o básico da vida cristã é


arrependimento e fé. O cristão peca, ele não é perfeito. Todos na
igreja pecam. A questão é se a pessoa está se arrependendo do
seu pecado, lutando contra ele e colocando sua confiança em
Jesus. Se ela não está, se vive de forma marcante e habitual no
pecado, então a igreja não tem mais como afirmar que aquela
pessoa é cristã.

A igreja, como uma embaixada, deve revogar aquela afirmação de


cidadania. Isso significa retirar tal pessoa da membresia e da
comunhão da ceia, o que é chamado de excomunhão. Lembre-se
de que a ceia tem aspecto corporativo. Quando tomamos a ceia,
tomamos como corpo. Se a pessoa não faz parte do corpo, não
deve fazer parte da ceia.

Contudo, é bom ressaltar que a disciplina não deve ser uma


opressão apressada ou capricho da liderança. O ambiente da igreja
não deve ser de legalismo policial, em que as pessoas inventam
pecados para expulsar os outros. A excomunhão não deve ser
entendida como enviar a pessoa para o inferno. O juízo final
pertence a Deus. Nosso trabalho hoje é de proclamação. Nós
alertamos, rogamos, suplicamos que as pessoas se reconciliem com
Deus. Esse é o alvo. Devemos buscar uma disciplina compassiva.

A disciplina eclesiástica feita de modo bíblico é amorosa. Afinal


quem ensina sobre disciplina é Jesus, em Mateus 18, o mesmo que
em Mateus 19 nos ensina a amar nosso próximo. Quem ensina
sobre disciplina eclesiástica é Paulo, em 1Coríntios 5, a mesma
epístola que tem o capítulo do amor (1Co 13).

Disciplina é (1) amor pelo indivíduo, para que seja alertado de seu
estado e engano; (2) amor pela igreja, para evitar contaminação e
proteger as ovelhas mais fracas; (3) amor pelo mundo, para
preservar o testemunho da igreja de Cristo; e (4) amor por Cristo,
para que o nome de Deus não seja blasfemado por nossa causa
(Rm 2.24).
Será que amamos mais que Deus? Somos mais misericordiosos
que Deus? Somos mais sábios que Deus?

Discuta

1. Se todos pecamos, então, não deveríamos praticar disciplina


eclesiástica?
2. Qual seria melhor: deixar a pessoa vivendo enganada no pecado para
descobrir no juízo final que ela nunca fez parte do povo de Deus ou
avisá-la insistentemente, mesmo que isso envolva o último passo de
expulsá-la da membresia da igreja?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
Esteja aberto à exortação
Quando pensamos em disciplina, nosso orgulho nos leva sempre a
pensar no pecado dos outros. Mas primeiro precisamos cuidar da
trave em nossos olhos. Precisamos ter postura humilde e estar
abertos a ser corrigidos pelos outros irmãos da igreja. Hebreus 3.12-
13 ensina que o pecado é enganoso e que para isso precisamos
que nossos irmãos nos exortem a cada dia. Considere graça de
Deus que você tenha irmãos que amam tanto a sua vida a ponto de
falar a verdade em amor para você.

Esteja disposto a buscar seu irmão


Paulo nos instrui a buscarmos corrigir em espírito de brandura se
algum irmão for surpreendido nalguma falta (Gl 6.1). Então, se
alguém pecar contra nós ou se percebermos algum pecado na vida
de um irmão, devemos ir até ele, fazendo isso com discrição e com
sabedoria.

Se o irmão não nos ouvir, devemos envolver pessoas mais maduras


(dependendo do caso, sempre é bom envolver os pastores) para
que ajudem no processo. Lembrando que não devemos cair na
forma “gospel” da fofoca: pedir orações. Mantenha no menor grupo
possível.

Se o caso não for tratado e for levado à toda a igreja, então


devemos continuar tentando persuadir a pessoa a se arrepender,
especialmente quanto mais próximos formos dela.

Se a excomunhão acontecer, não devemos nos voltar contra a


decisão da igreja, a menos que seja extremamente claro que a
igreja errou — e mesmo nesses casos devemos buscar conversar
com os pastores primeiro. Nosso relacionamento com a pessoa
disciplinada deve mudar. Se ela continua afirmando ser cristã, mas
vivendo em pecado, não devemos ter uma relação casual com ela,
como se estivesse tudo bem (1Co 5.9-11; 2Ts 3.6-15; 2Tm 3.5; Tt
3.10; 2Jo 10). Devemos tratá-la como um campo missionário. Se a
pessoa faz parte da nossa família, devemos continuar cumprindo
nossos deveres familiares (Ef 6.1-3; 1Tm 5.8; 1Pe 3.1-2), mas
exortando, quando oportuno, para que ela se arrependa.

Discuta

1. Você está disposto a ser corrigido?


2. Você está disposto a corrigir outros irmãos?

CONCLUSÃO
Disciplina bíblica é um assunto difícil, mas ela é bíblica e amorosa.
É uma implicação do evangelho e promove a saúde da igreja. Ela
“ilumina e aperfeiçoa o testemunho da igreja perante as nações;
alerta os pecadores sobre um julgamento ainda maior que está por
vir; e (o mais importante) protege o nome e a reputação de Jesus
Cristo na terra.” (Leeman, 2016, p.24)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Jonathan Leeman, Disciplina na Igreja: Como a Igreja Protege o Nome de
Jesus (São Paulo: Vida Nova, 2016).
Jonathan Leeman, Entendendo a Disciplina na Igreja (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2019).

MAIS RECURSOS
Jonathan Leeman, A Igreja e a Surpreendente Ofensa do Amor de Deus:
Reintroduzindo as Doutrinas sobre a Membresia e a Disciplina da Igreja (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2013).
Jonathan Leeman, A Regra do Amor: Como a Igreja Local Deve Refletir o Amor e
a Autoridade de Deus (São José dos Campos, SP: Fiel, 2019).
Discipular é ajudar outra pessoa a seguir
a Jesus, buscando seu bem espiritual,
para que ela seja mais como Cristo.

INTRODUÇÃO
De todas as “nove marcas” abordadas neste livro, esta foi a primeira com a
qual me preocupei. (Dever, 2018, p.237)

Qual é mais importante: quantidade ou qualidade? Crescimento em


números ou em maturidade cristã? Essa é uma falsa dicotomia, pois
na Escritura os dois andam juntos. Quando Cristo entregou a
Grande Comissão, Ele disse: “Portanto, vão e façam discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho
ordenado a vocês...” (Mt 28.19-20).
Perceba que os discípulos deveriam tanto crescer em quantidade
(“batizando”) quanto em qualidade (“ensinando”). Esse é o alvo de
Jesus: ver mais discípulos, e discípulos melhores.

Assim, uma igreja que preza pela qualidade, mas que não
evangeliza, não está crescendo em maturidade cristã. Uma igreja
saudável evangeliza. Entretanto, uma igreja que preza pela
quantidade, mas não ensina, não está formando discípulos. Uma
igreja saudável discipula.

Esse também é o padrão que vemos na igreja primitiva. Lucas dá


vários resumos sobre a igreja em Atos (2.46-47; 6.7; 9.31; 12.23-24;
16.5; 19.20; 28.30-31). O primeiro diz que a igreja perseverava
diariamente em união, comunhão e testemunho (qualidade), e o
Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos
(quantidade).

No fim das contas, as duas coisas procedem de Deus. É Ele que faz
Seu povo crescer. Não podemos fazer as pessoas crescerem na fé,
como não podemos convertê-las. O Espírito faz isso. Nós só
podemos ser instrumentos fiéis nas mãos de Deus (1Co 3.6-7).

Isso significa que precisamos tanto nos dedicar a evangelizar


(marca 5) quanto a crescer em maturidade. Muitos tratam o
crescimento na fé como algo exclusivo para “supercrentes”.
Devemos abandonar essa ideia. Todos nós somos chamados a
crescer na fé (2Co 10.15). Assim como é estranho um bebê que não
cresce, há algo de errado com um cristão estagnado. Pedro nos
exorta: “Como crianças recém-nascidas, desejem o genuíno leite
espiritual, para que, por ele, lhes seja dado crescimento para a
salvação” (1Pe 2.2).

Além disso, também precisamos crescer em ajudar outros a


crescerem na fé.
Discuta

1. Devemos ficar incomodados se não estamos crescendo na fé, seja como


cristãos, seja como igreja?
2. É possível uma igreja fiel ficar um período sem crescer, mesmo
anunciando a verdade de Deus?

1. VOCÊ, UM DISCIPULADOR
“Os discípulos discipulam.” (Dever, 2016, p.18)

Quando pensamos em Mateus 28, logo missões veem à nossa


mente. Contudo, esse texto é mais que um chamado missionário a
terras distantes. É um chamado para que todo discípulo de Cristo
viva como missionário onde estiver. Nas palavras de Colin Marshal e
Tony Payne:

“A comissão não é fundamentalmente sobre missões em algum


lugar de outro país. É uma comissão que torna o fazer
discípulos a agenda e a prioridade normal de cada igreja e de
cada discípulo cristão. [...] Ser um discípulo significa ser
chamado a fazer novos discípulos.” (Marshall e Payne, 2015,
p.19-20)

Há um ciclo ininterrupto na Grande Comissão. Cristo ordenou que


Seus discípulos fossem e fizessem discípulos, batizando e
ensinando novos discípulos a guardarem tudo que Cristo ordenou,
que envolve ir e fazer novos discípulos, batizando e ensinando… e
assim por diante. O evangelho chegou assim até nós. O que
significa: Você foi chamado para fazer discípulos!
Talvez você pense: “Eu? Discipular? Eu não sou perfeito!” Bom, nem
Paulo afirmava ter alcançado a perfeição. Ele diz em Filipenses
3.12-17:

Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a


perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que
também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a
mim, não julgo havê-lo alcançado, mas uma coisa faço:
esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando
para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, para o
prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. [...]
Irmãos, sejam meus imitadores e observem os que vivem
segundo o exemplo que temos dado a vocês.

Paulo progredia para o alvo e chamou outros para o imitarem, assim


como ele buscava imitar a Cristo (1Co 11.1). A vida cristã é uma
vida de arrependimento e fé. Assim, essas são as primeiras atitudes
que precisamos modelar.

Talvez você pense: “Minha vida não é exemplar!” Bom, se você está
vivendo uma vida de pecado sem arrependimento, então você
precisa urgentemente buscar ajuda de um irmão mais maduro,
precisa ser discipulado. Não buscar ajuda pode colocar a sua vida
espiritual em risco (Hb 3.12-14).

Ou, ainda: “Não estou pronto para isso!” Não vai existir um ponto em
que você dirá “agora estou pronto para discipular”, pois jamais
seremos perfeitos deste lado da glória. Entretanto, se sabemos abrir
e ler a Bíblia com alguém, se podemos nos reunir e orar com um
irmão, então já estamos, pela ajuda do Espírito, mais capacitados
do que imaginamos.

O que na verdade precisamos é de amor. Primeiro amor pelo Deus


Trino; amor por Cristo, que nos salvou e nos mandou fazer
discípulos (Jo 14.21). Além disso, mostramos amor pelo Pai ao
cuidar dos Seus filhos. E praticamos amor pelo Espírito ao ser
canais de Sua graça na vida de outros.

Além disso, amor pelo próximo. A vida dedicada a fazer discípulos é


uma vida voltada ao próximo. O Pr. Mark Dever comenta:

Ser discípulo de Jesus significa orientar nossa vida em relação


ao próximo, como Jesus fez; significa trabalhar pelo bem de
outras pessoas. Esse amor ao próximo é o ponto crucial do
fazer discípulos. Focamo-nos em servir às pessoas por causa
de Cristo: assim como Jesus veio ao mundo não para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.
(Dever, 2016, p.32)

Discuta

1. Alguém já o ajudou a crescer na fé?


2. Você já discipulou alguém?

2. QUE É DISCIPULAR?
Então, vem a pergunta-chave: Que é discipular? Milhares de
definições complexas e programas intrincados podem ser dados,
mas o Pr. Mark Dever define de forma surpreendente: Discipular é
ajudar outras pessoas a seguirem a Jesus (Dever, 2016, p.15).
Precisamos parar de complicar! Muitas vezes, dificultamos o
discipulado para dar a desculpa que é muito complicado.

Paulo, em Colossenses 1.28-29, diz que se empenhava,


esforçando-se o mais possível, segundo o poder de Deus para
anunciar o evangelho e para apresentar todo homem perfeito em
Cristo. Anunciar e apresentar, batizar e ensinar, essa é a bomba
dupla do coração do discipulador.

Discipular é exercer uma boa influência espiritual sobre


alguém, de modo deliberado, de forma que essa pessoa se
torne mais parecida com Cristo. (Dever, 2016, p.15)

O alvo é grandioso: ser como Jesus. Então, precisamos ser


intencionais. “Isso significa que discipular necessariamente envolve
tomar iniciativa. Não é algo passivo.” (Dever, 2016, p.42) Envolve
buscar uma pessoa que deseja crescer. Mas como faremos isso?
Há vários elementos que poderiam ser ditos, mas envolve pelo
menos ensinar, corrigir, servir de modelo e amar.

Discípulo é um aluno, então discipular envolve “ensinar a guardar”


tudo o que Jesus ordenou. Em relacionamentos interpessoais, isso
acontece quando há conversas espirituais significativas. Mais do
que conversar sobre a vida, discipular envolve conversar sobre a
Bíblia, sobre Cristo, sobre o evangelho e aplicar essas gloriosas
verdades à nossa vida. O que ensinar? Vai depender da
necessidade de cada fase da vida da pessoa que está sendo
discipulada. Mais do que passar a pessoa por uma classe de
doutrina, é ser sensível às áreas em que ela precisa se desenvolver,
o que pode ser feito conversando sobre o sermão do domingo,
lendo a Bíblia juntos, lendo um bom livro cristão.

Parte do ensino envolverá corrigir em amor erros e pecados —


alguns que a pessoa, muitas vezes, não enxerga, e até discorda. É
buscar exortar, consolar e admoestar, para que a pessoa viva por
modo digno de Deus, que a chama para o Seu reino e glória (1Ts
2.12). É falar a verdade, visando ao amor que procede de coração
puro, de boa consciência e de fé sem hipocrisia (1Tm 1.5). Talvez
chegue um ponto em que a lição sobre disciplina precisa ser
aplicada, mas saiba que a maior parte da disciplina que acontece na
igreja é informal e restauradora.

Além de ensinar e corrigir com palavras, também precisaremos


ensinar com nossos exemplos, afinal Jesus disse que é para
“ensinar a guardar” — o alvo é a obediência. Lógico que nosso
exemplo só é válido conforme reflete a Cristo, que nos deixou
exemplo para seguirmos os Seus passos (1Pe 2.21). Isso vai
envolver ser hospitaleiro e receber a pessoa em nossa vida, em
nossa casa, em nossos relacionamentos familiares. Jovens e
adolescentes de famílias desestruturadas poderão ver como um pai
piedoso lidera um culto familiar. Moças poderão testemunhar como
uma mãe de três crianças faz para lidar com elas. Isso não significa
que seremos modelos perfeitos, mas que até em nossas fraquezas
poderemos dar exemplo de arrependimento e fé.

Por fim, envolve amar. Envolve receber em seu coração e gostar de


estar juntos. Envolve chorar nas dificuldades e ser ombro amigo na
morte de um parente próximo. Envolve alegrar-se com as bênçãos
de Deus e o nascimento de um bebê. Envolve se importar e buscar
os interesses daquela pessoa primeiro. Envolve ser paciente com as
imaturidades e agir em bondade. Envolve orar continuamente e, até
mesmo, sofrer como que dores de parto, até Cristo ser formado
naquela pessoa.

Discipulado não é um programa, é um relacionamento centrado em


Cristo.

Discuta

1. Você achava que o discipulado era complicado? Como a definição do Pr.


Mark Dever o ajudou?
2. Que mais podemos fazer em um discipulado?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
A igreja é o projeto de discipulado de Jesus! Mark Dever
O que isso significa para a vida da igreja? Significa que você deve
buscar um irmão mais maduro, ou mesmo seu pastor, para que eles
o ajudem a seguir a Cristo. E significa que você deve ajudar um
irmão mais novo a crescer na fé. É responsabilidade de cada
membro da igreja.

O alvo é criar uma cultura em que todos entendam que o


discipulado é algo normal da vida cristã, que ajudar outros a
seguirem Jesus é a forma como seguimos Jesus. É para isso que a
igreja existe!

Essa cultura também é marcada por valorizar os relacionamentos


em vez de programas. O livro A Treliça e a Videira traz um
importante aviso:

“[...] as estruturas não fazem o ministério se desenvolver, assim


como a treliça não dá crescimento à videira, e que a maioria
das igrejas precisa fazer uma mudança consciente – do
estabelecimento e manutenção de estruturas para o
crescimento de pessoas que são discípulos que fazem
discípulos de Cristo.” (Marshall e Payne, 2015, p.23)

É comum, quando se fala de discipulado, pastores pensarem em


programas para executar. Não que estruturas sejam inerentemente
ruins, mas elas devem existir somente à medida que ajudem a
sustentar o ministério real de anunciar, de apresentar, de batizar e
de ensinar. Programas podem até fomentar uma ação inicial, mas é
somente uma cultura que vai sustentar a prática ao longo do tempo.

Discuta

1. Por que muitas vezes focamos mais na estrutura (treliça) do que na vida
(videira)?
2. Pense em uma pessoa que você poderia discipular. Quais são formas
que você poderia intencionalmente buscar aquela pessoa?

CONCLUSÃO
Na primeira marca, vimos que a exposição da Palavra deve
reverberar na igreja, e o primeiro eco deve ser nos relacionamentos
de discipulado. A palavra de Cristo deve habitar ricamente na igreja
e transbordar em instrução e aconselhamento — discipulado.
Se não estamos fazendo isso, estamos desobedecendo e
regredindo. Ninguém vai se fortalecer na graça se não ajudar outros
a crescerem na fé. Nenhum relacionamento com Cristo vai se
aprofundar se não ajudarmos outros a seguirem a Cristo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Mark Dever, Discipulado: Como Ajudar Outras Pessoas a Seguir Jesus (São
Paulo: Vida Nova, 2016).
Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2018).
Colin Marshall e Tony Payne, A Treliça e a Videira: A Mentalidade de Discipulado
que Muda Tudo (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015).

MAIS RECURSOS
John Onwuchekwa, Oração: Como a Oração Comunitária Molda a Igreja (São
Paulo: Vida Nova, 2019).
Deus chamou diáconos para servirem às
necessidades materiais da igreja,
pastores para liderarem a igreja por meio
da Palavra, e os santos para se
submeterem a essa boa liderança.

INTRODUÇÃO
Autoridade é algo ruim? Nossa geração parece acreditar que sim,
que toda autoridade vai levar ao despotismo, que todo poder vai
levar à corrupção. A Bíblia, porém, tem uma visão diferente sobre
autoridade, e podemos ver isso já em Gênesis 1.

Deus disse a Adão e Eva que dominassem sobre a terra e


sujeitassem os animais (Gn 1.26-28). Esses dois verbos soam
altamente negativos aos nossos ouvidos. Domínio, porém, tem
relação direta com o fato de o ser humano ser criado à imagem e
conforme a semelhança de Deus. Então, não pode ser algo
necessariamente negativo.

Ser imagem e semelhança de Deus significa que Deus criou o


homem para ser parecido com Ele e para representá-Lo (Grudem,
1999, p.364). Homem e mulher foram colocados como vice-regentes
sobre a Criação. Eles deveriam representar e refletir o bom governo
de Deus sobre a terra, tendo um modelo de autoridade e liderança
para observar: o próprio Deus.

Nos versículos anteriores de Gênesis 1, lemos que Deus usou


justamente a Sua autoridade para dominar e sujeitar a Criação. Qual
foi o resultado? O mundo, que era sem forma e vazio, um abismo
trevoso, pela ação de Deus, de Sua Palavra e de Seu Espírito, se
tornou um lugar cheio de beleza e de vida.

A autoridade é um bom presente de Deus que reflete Seu domínio


sobre nós. Entretanto, abusos de autoridade são horríveis, pois
mentem sobre quem é Deus. Isso é extremamente importante para
as relações em nossas famílias, nosso país, nossas igrejas.
Em Filipenses 1.1, Paulo lista dois ofícios que exercem liderança
servil de formas diferentes sobre a igreja: bispos e diáconos.

Discuta

1. Por que as pessoas rejeitam o exercício da autoridade?


2. Você já serviu debaixo de um bom líder? Como foi?
1. DIÁCONOS
Diáconos devem cuidar das necessidades físicas com o objetivo de unir o
corpo
sob os ministros da Palavra. Eles devem ser encorajadores, pacificadores e
servos.
(Dever, 2019, p.40)

Em Atos 6, lemos que a jovem igreja de Jerusalém enfrentou um


problema com a distribuição de comida às viúvas. Os apóstolos
entenderam que não seria razoável abandonar o serviço da Palavra
em prol do serviço das mesas. Então, homens piedosos foram
escolhidos para exercerem esse ministério material. Aqui
provavelmente temos o nascimento do conceito do diaconato.

O termo diakonos no Novo Testamento é geralmente traduzido


como “servo”, às vezes, como “ministro”, e outras vezes
transliterado como “diácono” (Dever, 2019, p.23-26). O termo era
usado de forma geral simplesmente com a ideia de servir: “Mas o
maior entre vocês será o servo (diácono) de vocês” (Mt 23.11). Até
mesmo Jesus Se colocou como um tipo de diácono (Mt 20.28).

Atos 6, porém, indica dois tipos de serviços, dois tipos de ministério:


o ministério das mesas e o ministério da Palavra — e ambos são
necessários! Os presbíteros são especialmente consagrados à
oração e ao ministério da Palavra para a igreja, enquanto os
diáconos cooperam para manter as atividades materiais da igreja.
Diáconos buscam cuidar de todo o aspecto material da igreja (e isso
não está ligado só ao patrimônio!) para que os ministros da Palavra
possam se dedicar sem preocupação ao seu chamado.

Essa divisão de áreas de responsabilidade foi entendida como boa


pela igreja primitiva (At 6.5), beneficiando a união do povo de Deus,
promovendo o crescimento da Palavra e a multiplicação dos
discípulos (At 6.7). Por essa razão, deve-se escolher pessoas
qualificadas para o diaconato — ou, em vez de unidade e paz,
desunião e contenda podem ser semeadas. O chamado do diácono
é liberar os pastores de tais preocupações materiais, porém, alguém
não qualificado pode acabar sendo mais um peso que um alívio
para o ministério pastoral.

As qualificações em 1Timóteo 3 podem ser resumidas em uma


palavra: maturidade. O diácono deve ser um crente maduro,
respeitável, verdadeiro, controlado e experimentado. Seu lar deve
refletir a boa liderança que ele vai exercer na igreja.

Diáconos devem possuir a confiança da congregação, assumindo,


voluntária e diligentemente, a responsabilidade pelas necessidades
particulares de seu ministério. E “os que desempenharem bem o
diaconato alcançarão para si mesmos uma posição de honra e
muita ousadia na fé em Cristo Jesus” (1Tm 3.13).

Discuta

1. Quais as vantagens da divisão de responsabilidades entre os ministros


da mesa e os ministros da Palavra que vemos em Atos 6?
2. Quais são algumas necessidades em sua igreja que precisariam de um
serviço diaconal? O pastor está sendo sobrecarregado com questões
materiais?

2. PASTORES
O outro ofício que vemos em Filipenses 1.1 e que a igreja recebe
instrução das qualificações é o ministério pastoral. No Novo
Testamento, presbíteros, bispos e pastores são usados de forma
intercambiável. Por exemplo, em Atos 20.17, 28, Paulo chama
os presbíteros de Éfeso e diz que “o Espírito Santo os
colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus” (cf. 1Pe
5.1-2; Tt 1.5-9).

“Presbíteros” ou “anciãos” indicam a maturidade que a pessoa deve


ter. “Bispo” ou “supervisor” aponta para a posição de supervisão e
liderança. “Pastor” mostra o trabalho de nutrir e proteger as ovelhas
de Cristo. Diante da importância desse ministério, a igreja deve
procurar uma liderança que seja qualificada, plural e capacitadora.

Liderança qualificada
Infelizmente, o que se observa em várias igrejas, em momento de
sucessão pastoral, não é a busca por um candidato que atenda às
qualificações e prioridades bíblicas. Muitas vezes, procura-se um
currículo brilhoso, em vez de um caráter piedoso; um administrador,
em vez de um pregador; um coach motivacional, em vez de um
homem de Deus que lidere pelo ministério fiel da Palavra.

O que buscar em um pastor, então? Paulo traz a lista em 1Timóteo 3


e Tito 1. E a lista não é muito surpreendente. Ela é bem parecida
com as qualificações do diácono. Em essência, o presbítero precisa
ser um homem irrepreensível; alguém exemplar, maduro, piedoso;
que saiba liderar em amor seu lar a fim de fazer o mesmo na igreja;
que seja apto para ensinar.

Apto para ensinar é a única diferença substancial entre as duas


listas de qualificações. O pastor deve ser capaz de cuidar das
ovelhas de Cristo por meio da Palavra, em seus diferentes contextos
(aulas, pregações, aconselhamentos, discipulados). Para ensinar,
ele deve manejar bem a palavra da verdade (2Tm 2.15) — o que
envolverá um bom conhecimento da Bíblia, da teologia e da igreja
(sendo as nove marcas algo bíblico e importante para a igreja,
espera-se que ele concorde com elas e as valorize).

Liderança plural
Outra verdade importante que podemos perceber na Escritura, e
que foi em grande parte esquecida em muitas igrejas, é que o Novo
Testamento aponta para uma liderança plural em cada igreja. O
padrão é sempre presbíteros/bispos/pastores no plural, e igreja, no
singular. Atos nos mostra que havia múltiplos presbíteros na igreja
de Jerusalém (At 11.30; 15.4), de Filipos (Fp 1.1), de Éfeso (At
20.17).
Este era o procedimento de Paulo: “E, promovendo-lhes, em cada
igreja [singular], a eleição de presbíteros [plural]…” (At 14.23; cf. Tt
1.5). Esta era a suposição de Pedro (1Pe 5.1) e de Tiago: “Alguém
de vocês está doente? Chame os presbíteros [plural] da
igreja [singular]…”(Tg 5.14). É interessante notar que Tiago escreve
uma carta aberta, para uma ampla região, mas presume que em
cada igreja haveria uma pluralidade de presbíteros. Até mesmo o
autor de Hebreus instrui seus leitores a obedecerem e se
submeterem aos seus notáveis guias/líderes (Hb 13.17).

Tal fato pode parecer estranho a igrejas cuja tradição é ter um só


pastor, porém era algo comum após a Reforma Protestante, nas
mais diferentes denominações.

Isso não significa que todo pastor precisa ocupar o púlpito


igualmente, mas que todos vão cuidar do povo de Deus por meio da
Palavra, em seus múltiplos contextos, e vão liderar juntos o rebanho
de Cristo. Também não significa que a igreja conseguirá sustentar
todos esses ministros. Assim como Paulo, muitos talvez farão
tendas para sustentar o ministério, o que não deve ser impeditivo.
Efésios 4.7-11 diz que pastores-mestres são presentes de Cristo —
e não queremos rejeitar o que o Senhor nos dá.

Além do mais, uma pluralidade de bispos vai contribuir para maior


prestação de contas entre eles, para maior sabedoria na tomada de
decisões, para suplementação dos dons de cada um e para divisão
da pesada carga do ministério pastoral. O Pr. Mark Dever considera
que um dos momentos-chaves para o crescimento em saúde de sua
igreja foi quando ela reconheceu a pluralidade de presbíteros.

Liderança capacitadora
Além de qualificada, de plural, a liderança pastoral deve ser
capacitadora. Muitos enxergam o pastor como provedor de serviços
espirituais. Ele que faz e deve fazer todo aconselhamento,
discipulado, visitação e evangelismo, enquanto o papel dos
membros é consumir bens espirituais, participando do culto e dando
ofertas. Outros enxergam o pastor como diretor executivo, um CEO,
que deve prover um culto atrativo e gerenciar os múltiplos
ministérios e programas da igreja, enquanto os membros devem se
envolver em um dos inúmeros departamentos.

Essas duas visões trazem parte da verdade. O pastor deve nutrir o


povo com a Palavra e deve liderar a igreja em serviço. Entretanto,
uma visão mais bíblica é enxergar o pastor como treinador,
(Marshall e Payne, 2015, p.101-117) alguém que treina discípulos
para se engajarem na Grande Comissão e realizarem seus
ministérios.

É essa visão e filosofia de ministério que Paulo apresenta em


Efésios 4.7-16. O versículo 12 diz que pastores-mestres foram
dados “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o
desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”.
Esse “seu serviço”(diakonias) é o serviço dos santos. O papel dos
presbíteros é aperfeiçoar, treinar, equipar os santos para que eles
realizem o ministério deles. E quando os pastores e os santos
realizam adequadamente seu papel, o corpo é edificado até chegar
à medida da estatura da plenitude de Cristo (v.13).

Devemos buscar uma pluralidade de presbíteros que esteja


engajada em treinar toda a igreja para o ministério cristão.
Discuta

1. O que você acha de uma igreja ter mais de um pastor?


2. Você enxergava o pastor mais como provedor de serviços espirituais,
diretor executivo ou treinador?

3. IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DA


IGREJA
A maneira como os membros da igreja aceitam ou rejeitam seus líderes tem
um efeito direto sobre as possibilidades de um ministério fiel e sobre a
saúde da igreja. (Anyabwile, 2016, p.127)

A igreja deve escolher bem seus líderes, rejeitando os falsos


mestres e acolhendo os bons pastores, o que terá um impacto
profundo na saúde dela.

Primeiro, precisamos compreender que é papel de cada membro e


da igreja como um todo manter o púlpito fiel por gerações. Quantas
e quantas igrejas que tinham pregações bíblicas foram destroçadas
por lobos após uma sucessão pastoral! Presbíteros devem ensinar,
e até mesmo liderar a igreja no reconhecimento de um homem de
Deus que maneja bem a palavra da verdade. Uma das vantagens
da pluralidade de presbíteros é justamente ter homens piedosos,
experientes e qualificados que podem liderar a igreja na escolha do
próximo pregador. E membros devem se atentar à exortação do
apóstolo João que alerta para nem mesmo receber falsos mestres
(2Jo 10-11).

Segundo, cada membro precisa entender que ele pode tornar o


ministério do pastor um fardo ou uma alegria. O autor de Hebreus
diz: “Obedeçam aos seus líderes e sejam submissos a eles; pois
zelam pela alma de vocês, como quem deve prestar contas. Que
eles possam fazer isto com alegria e não gemendo; do contrário,
isso não trará proveito nenhum para vocês”(Hb 13.17).
Quando membros murmuram em vez de orar, fofocam em vez de
encorajar, opõem-se em vez de se submeter, a vida do pastor e da
congregação se torna um amargor total. Não há paz; não há alegria;
há gemidos; o que não é benéfico nem para os pastores e suas
famílias, nem para igreja.

A menos que os pastores estejam liderando a igreja em direção a


algo pecaminoso ou herético, somos chamados a nos submeter a
eles. Se discordamos, em vez de gerar discórdia, podemos
perguntar por que eles entenderam que aquela seria a melhor
opção.

Pense: você se acha uma pessoa fácil? Sem problemas? Sem


fraquezas? Sem dificuldades? Imagine dezenas, centenas de
pessoas como você sobre os ombros dos pastores. Então, seja
paciente. Se você está com algum problema, não suma
orgulhosamente do culto e depois culpe os pastores por não irem
atrás de você. Busque ajuda. Todo bom pastor vai correndo ao ouvir
uma ovelha em perigo.

Assim como alegremente nos submetemos à boa liderança de


Deus, devemos ouvir nossos líderes. Devemos honrá-los tanto em
atitude quanto em sustento (1Tm 5.17-19), precisamos estar
dispostos a aprender e seguir seu exemplo (1Tm 4.12; 1Pe 5.3),
temos de interceder por eles (Cl 4.2-4) e amá-los (2Co 6.11-13).
Muitas vezes, temos um relacionamento de uma via só com os
pastores: queremos receber. Mas precisamos entender que, quanto
mais cuidarmos deles, mais esse cuidado vai refletir em zelo e
saúde para a igreja.

Discuta

1. Quais são formas práticas que membros dificultam a vida do pastor?


2. Quais são formas práticas que membros tornam o ministério pastoral
uma alegria?
CONCLUSÃO
Você quer saber como uma igreja cresce em saúde? Paulo nos diz
em Efésios 4.16: “de quem todo o corpo, bem ajustado e
consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa
cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a
edificação de si mesmo em amor.” Quando todo o corpo, todos os
membros, bem ajustados e consolidados pelo auxílio dos ministros
da Palavra fazem sua parte e cumprem seu ministério, então haverá
edificação. Essa igreja vai refletir ao mundo a autoridade geradora
de vida de Deus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2016).
Mark Dever, Entendendo a Liderança da Igreja (São José dos Campos, SP: Fiel,
2019).
Wayne Grudem, Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva (São Paulo: Vida Nova,
1999).
Colin Marshall e Tony Payne, A Treliça e a Videira: A Mentalidade de Discipulado
que Muda Tudo (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015).

MAIS RECURSOS
Jeramie Rinne, Presbíteros: Pastoreando o Povo de Deus como Jesus (São
Paulo: Vida Nova, 2016).
Jeremy Pierre e Deepak Reju, O Pastor e o Aconselhamento: Um Guia Básico
para o Pastoreio de Membros em Necessidade (São José dos Campos, SP: Fiel,
2015).
Mark Dever e Paul Alexander, Igreja Intencional: Edificando seu Ministério sobre o
Evangelho, 2ª ed. (São José dos Campos, SP: Fiel, 2015).
Mike McKinley, Plantar Igrejas É para os Fracos: Como Deus Usa Pessoas
Confusas para Plantar Igrejas Comuns que Fazem Coisas Extraordinárias (São
José dos Campos, SP: Fiel, 2013).
Thabiti Anyabwile, Encontrando Presbíteros e Diáconos Fiéis (São José dos
Campos, SP: Fiel, 2015).
Para matar uma igreja, não precisamos fazer nada;
para torná--la saudável, devemos nos comprometer
com o exercício dessas marcas biblicas.

INTRODUÇÃO“Ó Senhores, que a igreja de Deus


repouse perto de seus corações, pois repousa
perto do coração de Deus” — Elizabeth Heywood
– 1661 (Citado por Murray, 1965, p.10),em seu
leito de morte.Nesta revista, estudamos algumas
marcas de igreja saudável. Lembre-se de que elas
não são todas as marcas existentes para a saúde de
uma igreja. Oração, por exemplo, é algo crucial para
a vida eclesiástica e certamente uma das marcas de
igreja saudável. O Pr. Thabiti diz: “Um membro de
igreja saudável guerreia em oração” (Anyabwile,
2016, p.141). Ninguém negaria a importância da
oração, porém, ao eleger nove marcas, o Pr. Mark
Dever privilegiou aquelas que, em muitos lugares,
foram esquecidas — ou até mesmo rejeitadas. Elas
são cruciais para a saúde da igreja. Por serem
bíblicas, nenhuma delas é opcional ou descartável.•
Pregação: amor por ouvir e pregar a palavra de
Deus.• Teologia bíblica: compreensão a respeito de
Deus.• Evangelho: percepção das boas notícias
bíblicas.• Conversão: entendimento do que é a nova
vida em Cristo.• Evangelização: desejo ardente em
obediência à Grande Comissão.•
Membresia: reflexo do compromisso do povo de
Deus com sua comunidade.• Disciplina: maneira
para crescentemente refletir a imagem de Deus na
terra.• Discipulado: experiência de nutrição e
aprofundamento espiritual.• Liderança: modelo
prático de piedade cristã.
Discuta

1. Antes de começar estas lições, você já havia estudado com


profundidade os assuntos de que tratam?
2. Quais outras marcas você considera importantes para a vida da igreja?
1. UMA IGREJA DOENTE: UMA FORÇA
ANTIMISSIONÁRIA
“Igrejas doentes são forças antimissionárias terrivelmente eficazes.”
(Dever, 2007, p.13)

Muitas vezes não percebemos o impacto que uma igreja doente


possui. Ela mente sobre quem Cristo é! Ela leva as pessoas a
difamarem o nome de Deus. Portar o nome de Jesus, mas viver
como o diabo é a principal estratégia satânica para trair a causa do
Messias (vide Judas).
O que é uma igreja doente? É uma igreja na qual:

a pregação não passa de clichês e repetições da cabeça do


pregador;
a doutrina é moralista e centrada no homem;
o evangelho é remodelado para uma mensagem de
autoajuda;
a conversão é vista como mera decisão humana;
a evangelização é deixada de lado;
o rol de membros é maior que o número de participantes do
culto;
o pecado é ignorado;
os relacionamentos são centrados em coisas deste mundo;
a liderança pensa mais em si mesma que nas ovelhas.

Como matar uma igreja sem fazer nada


E o pior é que, para termos uma igreja doente, até mesmo para
matarmos a igreja, tudo o que precisamos fazer é não fazer nada.
Se a Palavra não for fielmente exposta, fundamentada na teologia
bíblica e centrada no evangelho, os membros não saberão o que é a
verdadeira vida cristã, terão uma concepção errada da conversão e
não vão anunciar corretamente as boas-novas.
Sem a preocupação em ser fiéis, desejaremos acima de tudo ser
bem-sucedidos. Desejaremos que a igreja cresça em números — e
números nunca foram um padrão de fidelidade para Deus. Então,
não praticaremos membresia e disciplina, pois queremos o maior
número de pessoas dentro da igreja.

A igreja, então, se encherá de falsos convertidos não disciplinados


que estarão tranquilos em seus pecados, e a congregação deixará
de ser a comunhão dos santos. As ordenanças não serão
administradas corretamente, pois perderão uma de suas
características que é a demarcação de quem entra na aliança
(batismo) e quem permanece nela (ceia) e, em breve, muitos
estarão comendo para sua condenação.

Não demorará muito e os falsos convertidos juntarão mestres que


os agradam, e a igreja deixará de pregar o evangelho apostólico.
Sem a genuína pregação do evangelho, você não tem mais uma
igreja, mesmo que doente, mas uma sinagoga de Satanás.

E tudo o que você precisou fazer foi não se importar com essas
questões. Pode parecer dramático, mas é triste ver o número de
igrejas que sumiram do mapa ou que negaram o evangelho
justamente por isso.

2. UMA IGREJA SAUDÁVEL: O


EVANGELHO VISÍVEL
A autoridade permanente dos mandamentos de Cristo deve compelir os
cristãos a estudarem o ensino bíblico sobre a igreja. Ensino e práticas
eclesiásticas errados obscurecem o evangelho, enquanto ensino e práticas
eclesiásticas corretos clarificam o evangelho. Em outras palavras, a
proclamação cristã pode tornar o evangelho audível, no entanto, cristãos
vivendo juntos na congregação local podem tornar o evangelho visível. A
igreja é o evangelho visível. (Dever, 2011, p.21)

Igrejas saudáveis vão refletir crescentemente o caráter de Deus em


seu bairro, vão enviar proclamadores das boas-novas aos confins
da terra e até mesmo servirão de testemunho da sabedoria de Deus
aos seres espirituais. Por meio de vidas transformadas pelo
evangelho, a sabedoria e o poder de Deus serão mostrados (Ef
3.10). Por meio de uma comunidade amorosa e unida, o discipulado
de Cristo e o amor do Pai se tornarão manifestos (Jo 13.35; 17.23).

Mas isso envolve empenho perseverante. Mudar a cultura de uma


igreja exige trabalho e tempo. Demanda não desanimarmos na
primeira tentativa. Cristo não desiste de Sua igreja. Podemos ter
certeza de que Ele vai apresentar a Si mesmo Sua noiva gloriosa,
sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem
defeito.

3. IMPLICAÇÕES PARA A SUA VIDA


DE IGREJA
Como Efésios 4.16 ensina, a edificação da igreja depende da justa
cooperação de cada parte. Todo membro de igreja tem sua
responsabilidade de amar a família do Pai, de servir o corpo de
Cristo e de ministrar ao templo do Espírito. Uma igreja doente ou
saudável não depende só dos pastores, depende de cada membro,
depende de você.

Autoavaliação
A seguir, há uma autoavaliação para você considerar como está
indo em cada marca. Avaliar a si mesmo é útil, mas pode ser
perigoso. Antes de tudo, precisamos nos lembrar de que nossa
aceitação não vem da nossa pontuação. Em Cristo, já temos um 10
diante de Deus. Nossa autoavaliação deve vir de um desejo de
amar mais a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós
mesmos. Nos pontos (que marcamos fracos ou regulares), devemos
nos arrepender e pedir ajuda de Deus, sem nunca nos esquecer de
que nada podemos fazer sem Jesus, não podemos frutificar o Seu
Espírito.

Em cada frase, assinale de 1 a 4, conforme a indicação a seguir:


1 - Fraco 2 - Regular 3 - Bom 4 - Excelente

MARCA 1: PREGAÇÃO
Área avaliada Avaliação
Ao ouvir as pregações na igreja, anoto, destaco na Bíblia,
faço algum registro por escrito.
Compartilho com minha família e continuo pensando
naquilo que o Senhor falou no texto pregado no domingo.
Consigo me perceber mais servo e mais dependente com
resultado das pregações.
Dou valor prioritário à exposição sistemática das
Escrituras. Isso influencia como opino sobre a saúde da
minha igreja.
Total:

MARCA 2: TEOLOGIA
Área avaliada Avaliação
Vejo a Bíblia como a grande história da redenção e sou
capaz de explicar isso.
Considero-me responsável por ajudar minha igreja a
caminhar na sã doutrina.
Entendo as consequências para a minha comunidade se
caminharmos longe da sã doutrina.
Sei dizer o que devem fazer para preservar a sã doutrina
na igreja local.
Total:

MARCA 3: EVANGELHO
Área avaliada Avaliação
Quando ouço a palavra “evangelho”, sei explicar os
quatro pontos principais: Deus, homem, Cristo, resposta.
Como cristão, entendo a importância de ouvir
constantemente o evangelho.
O evangelho é um tema recorrente nas reuniões da
minha igreja local.
Quando ouço o evangelho, sinto o peso do meu pecado
e a alegria pela salvação que recebi.
Total:

MARCA 4: CONVERSÃO
Área avaliada Avaliação
Entendo claramente o que é conversão.
Percebo mudança na minha vida pessoal, mesmo ainda
sendo imperfeito.
Tenho convicção de minha natureza pecaminosa e isso
me faz buscar mais o Senhor.
Minha família e os que vivem perto de mim percebem
que estou deixando de ser orgulhoso e pecaminoso.
Total:

MARCA 5: EVANGELIZAÇÃO
Área avaliada Avaliação
Obedeço à Grande Comissão em Mateus 28.18-20.
Concordo que minha vida e meu anúncio do evangelho
têm que combinar.
Sei diferenciar o que é evangelização do que é apenas
atrair pessoas de maneira habilidosa.
Sou envolvido no calendário evangelístico de minha
igreja.
Total:
MARCA 6: MEMBRESIA
Área avaliada Avaliação
Tenho entendido a importância de ser membro de uma
igreja local.
Tenho compromisso de servir e amar os meus irmãos de
igreja.
Sou frequente e atendo às atividades da igreja com
alegria.
Estou envolvido no cuidado da igreja tanto
ministerialmente como financeiramente.
Total:

MARCA 7: DISCIPLINA
Área avaliada Avaliação
Entendo a igreja como um ambiente onde o pecado é
confrontado.
Estimulo meus irmãos a uma vida de santidade.
Tomo a iniciativa de buscar o irmão que peca contra mim.
Considero os processos de disciplina na minha igreja
como cheios de ensino, amor, correção e restauração.
Total:

MARCA 8: DISCIPULADO
Área avaliada Avaliação
Entendo e invisto no crescimento espiritual de indivíduos
na igreja local.
Tenho buscado ser discipulado por crentes mais
maduros.
Busco alcançar os membros que se afastam da
comunhão da igreja.
Percebo que tenho crescido e amadurecido
espiritualmente, e noto a qualidade desse crescimento.
Total:

MARCA 9: LIDERANÇA
Área avaliada Avaliação
Oro pela liderança da igreja constantemente.
Colaboro quando percebo a atuação da liderança em
situações específicas na igreja.
Vejo novos líderes sendo treinados e coopero com isso.
Cultivo relacionamento fraterno com a liderança da minha
igreja.
Total:

CONCLUSÃO
Ser membro de uma igreja é estar aliançado com Cristo e com os
irmãos. Temos uma relação de pacto uns com os outros. Quando
nos tornamos membros de uma igreja, fazemos uma promessa
solene de viver a nossa vida e discipulado cristão com aqueles
irmãos, de obedecermos aos mandamentos “uns aos outros”. Segue
o pacto da igreja do Pr. Mark Dever para que você possa refletir
sobre isso.

Tendo, como cremos, sido trazidos pela graça divina ao


arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo para render nossa
vida a Ele, e tendo sido batizados sobre nossa profissão de fé,
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, confiando na
ajuda de sua graça, solene e alegremente renovamos agora
nosso pacto uns com os outros.
Trabalharemos e oraremos pela unidade do Espírito no vínculo
da paz.
Caminharemos juntos em amor fraternal, desde o momento em
que nos tornamos membros de uma igreja cristã; exercitaremos
o cuidado em amor, velaremos uns pelos outros e, fielmente,
nos admoestaremos com súplicas uns aos outros conforme
exija a ocasião.
Não abandonaremos as reuniões de nossa congregação, nem
negligenciaremos a oração por nós e pelos demais.
Esforçar-nos-emos no educar tantos quantos possam estar sob
o nosso cuidado, na disciplina e na admoestação do Senhor e,
com um exemplo puro e amoroso, buscaremos a salvação da
nossa família e amigos.
Alegrar-nos-emos com a felicidade dos outros, e nos
esforçaremos em levar as cargas e tristezas uns dos outros,
com ternura e compaixão.
Buscaremos, com a ajuda divina, viver cuidadosamente no
mundo, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, e
lembrando que, assim como fomos voluntariamente sepultados
mediante o batismo e levantados de novo da sepultura
simbólica, existe agora em nós uma obrigação especial que
nos leva a uma vida nova e santa.
Trabalharemos juntos para a continuidade de um ministério fiel
de evangelização nesta igreja, bem como sustentaremos sua
adoração, ordenanças, disciplina e doutrinas. Contribuiremos
alegre e regularmente para o sustento do ministério, para as
despesas da igreja, para o socorro aos pobres e a difusão do
evangelho por todas as nações.
Quando mudarmos deste local, tão logo quanto possível, nos
uniremos a outra igreja onde possamos cumprir o espírito deste
pacto e os princípios da Palavra de Deus.
Que a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a
comunhão do Espírito Santo sejam com todos nós. Amém.
(Dever, 2015, p.159-160)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Iain Murray (ed.), The Reformation of the Church (Carlisle: The Banner of Truth
Trust: 1965).
Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2007).
Mark Dever, Igreja: O Evangelho Visível (São José dos Campos, SP: Fiel, 2011).
Mark Dever, O que É uma Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José dos Campos, SP:
Fiel, 2015).
Thabiti Anyabwile, O que É um Membro de Igreja Saudável?, 2ª ed. (São José
dos Campos, SP: Fiel, 2016).

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