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TOTALIDADE DIALÉTICA E A TEORIA DA COMPLEXIDADE

O conceito de totalidade dialética se propõe a ser dinâmico e é demonstrado através

das mediações e transformações da realidade objetiva, que é historicamente mutável. A

totalidade é uma categoria que existe na realidade, mas é construída teoricamente, significa

dizer que o fenômeno pretendido ao estudo é construído teórico e metodologicamente a partir

de um “concreto abstrato” à caminho de um “concreto pensado”, deste modo, o fenômeno é

visto a priori por uma visão caótica que através da analise são precisadas as informações

chegando-se a conceitos mais simples, que aos poucos, caminha-se a “abstrações mais

delimitadas”. Admitindo estas considerações, pode-se afirmar a existência do pesquisador

como sujeito cognocente, pois é ele que define os processos de abstração. O objeto de

pesquisa depende de para onde se focaliza o objetivo da pesquisa, e insere-se dentro de um

contexto histórico (se material) na qual existem múltiplas determinações, quanto mais se

aproxima do objeto, mais se conhece as determinações que o constituem. Conhecer a

realidade necessita a compreensão das relações de determinação que atuam sobre determinado

fenômeno, esta análise é presenciada em vários trechos da obra de Marx: "na produção social

da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias,

independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau

determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais" (MARX apud

MARXISTS, 2005). O processo de análise que se faz em direção à “essência” depende da

compreensão interna do fenômeno, da identificação das dimensões maiores em que o

fenômeno está envolvido e da explicação do fenômeno em relação aos seus determinantes

externos. Pode-se notar a existência de uma análise de conjuntura, onde existem dimensões

menores, maiores e externas que se relacionam, determinam-se e são sobredeterminadas,

assim, o fenômeno estudado possui múltiplas determinações inseridas em “totalidades


relativas” que dependem das absolutizações do sujeito pesquisador. Assim "a totalidade

dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a

qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais

determinadas de consciência” (MARX apud MARXISTS, 2005). Por esta análise pode-se

distinguir a base econômica ou infra-estrutura, constituída pelas forças e pelas relações de

produção e a superestrutura que é constituída pelas instituições jurídicas e políticas, assim

como pelos modos de pensar ou pela consciência social. "Não é a consciência dos homens que

determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência” (MARX

apud MARXISTS, 2005), do que decorre que para explicar a maneira de pensar dos homens é

preciso analisar as relações sociais às quais eles estão integrados.

A relação entre sujeito que pretende conhecer a realidade e a realidade a ser conhecida,

explica-se na conversibilidade entre o campo de objetividade e da subjetividade o que implica

no reconhecimento de uma determinação reflexiva efetivada pela mediação de uma “atividade

sensível”, a partir da qual transpassa de um campo para outro, de tal modo que interioridade

subjetiva e exterioridade objetiva são enlaçadas e fundidas. Admite-se então uma

“objetividade subjetivada” que orienta a pesquisa e a interpretação da realidade estudada, e

nesse sentido, a força de abstração é uma das formas peculiares da apropriação dos objetos

pelos homens em sua atividade objetiva, determinada pelo seu próprio ser e em consonância

com a natureza do objeto. Em outras palavras,

“... a figura resultante do processo cognitivo um concreto de pensamentos, isto é, uma determinada
massa estruturada de abstrações, a totalidade deste complexo ideal, em qualquer grau de seus
emaranhados, nunca pode ser outra coisa do que um produto do trabalho das abstrações, ou seja, um
modulado de abstrações trabalhadas, cuja matéria prima única são as próprias abstrações, sobre as
quais incide a atividade propriamente dita da elaboração, constituída pelos atos de depuração,
intensificação, delimitação, articulação e quaisquer outros do gênero compreendidos pela teoria das
abstrações” (CHASIN, J. apud CHASIN, J, 2005)

Assim como a teoria da totalidade dialética, a teoria da complexidade surgiu em

questionamento ao pensamento linear, especialista e simplificador, que perpassam o século

XIX. A teoria da complexidade parte da noção de totalidade e incorpora a solidariedade,


colocando, lado a lado, razão e subjetividade humana, ponto comum à teoria da totalidade

dialética, que admite o conhecimento como construção repleta de subjetividades. A

solidariedade, presente na complexidade, coloca-se por meio da transdisciplinaridade (admite

relações e dependências multidimensionais de todos os saberes, tais como a biologia, a

antropologia, a sociologia e a física, e ainda coloca o pensamento mítico-simbólico-mágico ao

lado do racional-lógico-científico), considerando aspectos como princípio da incerteza,

perspectiva dialética (existência da contradição), dialógica e dimensão espiritual do humano.

Para atingir a transdisciplinaridade, é necessário o rompimento com idéias preconcebidas ou

reducionistas. Morin (2000) sustenta que a noção reducionista trabalha apenas com partes

isoladas e separadas do todo e,o pensamento complexo constitui outra forma de abordar a

totalidade. De um modo geral, sua proposta é a complementaridade e a transacionalidade

entre as concepções linear (reducionista) e "holística" (sistêmica), para isso é necessário

compreender o ser, a existência e a vida com a ajuda do “sistema". O pensamento complexo

baseia-se em dois princípios, o da emergência (o todo é superior à soma das partes) e o da

imposição (o todo é inferior à soma de suas partes, pois as qualidades ou propriedades das

partes, quando consideradas separadamente, diluem-se no sistema). Para que o todo possa

existir como todo é preciso que ele se imponha às partes, que assim ficam impedidas de

exercer algumas (ou muitas) de suas qualidades e potencialidades, o que caracteriza uma

repressão, tornando-as virtualizadas. Essa imposição do todo sobre as partes é uma

característica básica dos sistemas que estabelece sua relação organizacional. Toda relação

organizacional (sistema), inclui e produz antagonismos e, ao mesmo tempo,

complementaridade. Sendo assim, o sistema não é apenas partes nem apenas todo: é uma

inter-relação complementar e, se antagonismos fossem deixados sem repressão acabariam,

tornando-se anti-organizacionais, e, portanto ameaçador à própria existência do sistema, pode-

se então dizer que um sistema não é harmônico nem desarmônico, é as duas coisas ao mesmo
tempo, é complexo. No pensamento complexo está presente a idéia de rede relacional: os

objetos dão lugar aos sistemas e as unidades simples dão lugar às unidades complexas,

levando em consideração fenômenos como tempo e espaço. Não destoando muito da idéia da

totalidade dialética, que enuncia a contextualização temporal do fenômeno levando em conta

as múltiplas determinações que o constituem.

O pensamento complexo evidencia a falta de certezas e de verdades absolutas e,

considera a diversidade e a incompatibilidade de idéias, crenças e percepções, integrando-as à

sua complementaridade. “A consciência nunca tem a certeza de transpor a ambigüidade e a

incerteza” (MORIN apud PETRAGLIA). Morin (2000) refere-se ao princípio da incerteza tal

como formulado por Werner Heisenberg, físico, um dos precursores da mecânica quântica.

Esse princípio baseia-se na falibilidade lógica, no surgimento da contradição presente na

realidade física e na indeterminabilidade da verdade científica. É interessante notar que nos

pressupostos da totalidade dialética, o principio de verdade científica também é relativizado,

este, porém ocorre a partir das aproximações do sujeito pesquisador, feitas ao objeto de estudo

em busca de sua essência. Enquanto que a lógica dialética incorpora os princípios da

contradição, onde a causa fundamental do desenvolvimento dos fenômenos não é externa,

mas interna (reside no contraditório do interior dos próprios fenômenos, sendo que no interior

de todo fenômeno há contradições), a teoria da complexidade coliga a noção de ordem,

desordem e organização, sendo estas inerente aos sistemas rumo a auto-organização. Ordem-

desordem é uma relação inseparável que tende a estabelecer a organização e, este é o processo

fundamental para o desenvolvimento dos fenômenos, sendo o norteador da relação dialógica,

una, complementar, concorrente e antagônica.

Na visão da teoria da complexidade (MORIN, 2000) o sujeito é aquele capaz de se

auto-organizar e de estabelecer relações com o outro, transformando-se continuamente, uma

relação de alteridade que ele encontra a autotranscendência, interferindo e modificando o seu


meio numa “auto-eco-organização” a partir de sua dimensão ética, que não é imposta cultural

ou universalmente a cada indivíduo, mas reflete as suas escolhas, percepções, valores e ideais.

Na visão da “dialética da natureza” de Engels (primeira natureza ou natureza não socializada)

a realidade é objetiva, independe da existência de projetos, de intenções ou de motivações do

homem, e não age diretamente sobre a história humana. Sendo assim, a idéia de “auto-eco-

organização” não coincide sobre o mesmo patamar de análise da “dialética da natureza”, pois

esta desconsidera as relações de determinação na “natureza não socializada” sobre as

estruturas de organização social, sendo que apenas a “natureza socializada” impõe seus

delineamentos e imprimem o resultado da ação concreta do homem sobre o meio.

BIBLIOGRAFIA

CHASIN, J. Redescobrindo Marx - A Teoria das Abstrações. Disponível em:


<http://www.unicamp.br/cemarx/antoniorago.htm> Acesso em 22 de out. 2005.

MARXISTS. A Doutrina Marxista. Disponível em <http://www.marxists.org/portugues/lenin/


1914/11/karlmarx/01_marxismo.htm> Acesso em 22 de out. 2005.

MORIN, Edgar, LE MOIGNE, Jean-Louis. A Inteligência da Complexidade. São Paulo:


Peirópolis, 2000.

PETRAGLIA, Izabel Cristina. Complexidade e auto-ética. Disponível em:


<http://paginas.terra.com.br/saude/oconsultorio1/autetica.htm> Acesso em: 22 de out. 2005.

KARINE KRUNN
26 / 10 / 2005