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As Idéias de

Ayn Rand

Rodrigo Constantino
Artigos:
A Destruição do Ego
A Imoralidade de Robin Hood
A Praga do Coletivismo
A Raiz do Mal
A Virtude do Egoísmo
Dos Direitos
Em Defesa da Minoria
Grandes Empresários: Uma Minoria Perseguida
Letargia Mental
O Pecado Original
Os Intermediários
Os Relativistas
A Fábrica da Inveja
Caridade ou Justiça?

Bibliografia:
The Virtue of Selfishness
Capitalism: The Unknown Ideal
Atlas Shrugged
Philosophy: Who Needs It?
A Nascente
Objetivismo: A Filosofia de Ayn Rand (Leonard Peikoff)
A Destruição do Ego

“Não se dê aos outros a ponto de não poder mais se dar a si mesmo.” (Baltasar Gracián)

Não há nada mais valioso num indivíduo que o seu ego, seu “eu”. A integridade humana exige uma
mente independente, que utiliza a razão como instrumento epistemológico maior, e considera sua
felicidade própria como o mais elevado objetivo a ser atingido. Negar seu ego é negar sua
existência. Viver para os outros é ser um escravo. Abdicar da razão é viver como um animal
irracional, reagindo por instinto. Enfim, é não ser homem!

Muitos tentam combater isso, seja por desejo de poder sobre os outros, seja por um patológico
ódio ao homem, à vida e à liberdade. Existem diversas maneiras de destruir esse ego, esse
individualismo que nasce com os homens. Estar ciente desses métodos utilizados por todos os
inimigos do ego é crucial para o combate desta praga que é a anulação do indivíduo como um fim
em si mesmo.

Uma das formas de destruir o indivíduo é fazê-lo sentir-se pequeno, incutir culpa nele, matar suas
aspirações e sua integridade. Fazem isso pregando a abnegação, afirmando que o homem deve
viver para o bem dos outros, não o seu próprio. Afirmam que o altruísmo é o ideal, ou seja, o
sacrifício de seus próprios interesses em prol do “bem geral”. Ninguém consegue chegar lá, viver
desta forma. A natureza humana clama contra isso. O homem percebe ser incapaz de atender
aquilo que aceitou como a mais nobre das virtudes, passando a sentir-se culpado. Ele se vê como
um pecador, um inútil. Estando o ideal supremo acima de seu alcance, ele acaba desistindo de
seus ideais, de suas aspirações. Seu valor pessoal entra em colapso. Sente-se obrigado a pregar
como certo o que não consegue praticar. Sua honestidade, seu senso de integridade, desaparece.
Isso faz com que o homem perca a confiança em si, sentindo-se inseguro, sujo. Torna-se assim
uma presa fácil, pronto para obedecer aquele que preencher este vácuo.

Outra forma é acabar com a noção de valores do homem, matando sua capacidade de reconhecer
a grandeza ou de alcançá-la. A mediocridade é colocada num altar, tudo que é “lugar-comum”
passa a ser enaltecido, e desta maneira os templos estarão demolidos. Como no filme Os Incríveis,
quando o filho com super poderes protesta que dizer que todos são especiais é o mesmo que dizer
que ninguém o é. Acabando com a reverência, matam o heróico no homem.

Um outro mecanismo usado para o assassínio do ego é não deixar o homem ser feliz. Homens
felizes não têm tempo nem interesse em servir. São livres. Por isso, os inimigos do ego não
permitem a felicidade, não deixam os indivíduos terem o que querem. Fazem com que as pessoas
sintam que os desejos pessoais são um mal, um pecado. As vítimas irão em busca de consolo,
apoio, fuga. Os sistemas éticos estabelecidos ao longo de séculos pregam que o sacrifício está
acima do prazer individual. A renúncia dos interesses particulares é colocada acima da busca
individual da felicidade. A felicidade é atrelada à culpa. Jogar o primogênito no fogo é prova de
amor a deus, é nobre. Deitar numa cama de pregos é nobre. Ir para um deserto, mortificar a carne,
tudo que é sacrifício passa a ser visto como a meta da vida, o leitmotiv da existência humana.
Porém, onde há sacrifício, existe sempre alguém recebendo as oferendas. Onde há servidão,
existe um mestre. Por trás dessa pregação toda, enaltecendo o sacrifício humano, está um desejo
de poder, de controlar os outros. Aceitar tais valores como nobres é o caminho da desgraça
individual.

Como a razão é a maior arma contra tudo isso, claro que anular o seu valor passa a ser outro
método utilizado pelos que querem destruir o ego. Assim, fazem com que a razão perca força entre
os demais instrumentos cognitivos. Afirmam que ela é limitada, que há sempre algo acima dela.
Que o importante não é pensar, mas “sentir”. Que ninguém é dono da verdade, logo qualquer
teoria é igualmente válida. As vítimas disso sequer notam que para concluírem que a razão não
importa tanto, faz-se preciso usar dela.
No objetivo pérfido dessa gente, vale tudo. A meta é uma só: matar o indivíduo e chegar ao poder.
A defesa é utilizar justamente a capacidade humana que tanto nos distingue dos demais animais: a
razão. Somente ela pode salvar o ego, colocar o homem no seu devido lugar. Não como algo
sacrificável para outros fins. Não como uma insignificante parte de um coletivismo qualquer. Não
como apenas uma casca para uma outra vida qualquer. Mas como uma finalidade em si, com total
direito da busca pela sua felicidade.
A Imoralidade de Robin Hood

"When one acts on pity against justice, it is the good whom one punishes for the sake of the evil."
(Ayn Rand)

Não há como localizar historicamente Robin Hood com certeza. A existência de um fora-da-lei nas
florestas de Sherwood durante a Idade Média parece ser um fato. Mas evidências apontam para
vários possíveis indivíduos que se encaixam nas narrações lendárias, e como Robin Hood tornou-
se um apelido comum para foras-da-lei, fica praticamente impossível determinar qual foi o
verdadeiro. Uma das fontes da lenda Robin Hood foi o historiador escocês John Major, que retrata
em 1521 suas ações, que teriam ocorrido no final do século XII. Mas qual foi o verdadeiro e original
Robin Hood, e quando exatamente ocorreram suas ações, não são pontos importantes para o
objetivo desse texto. Aqui pretendo apenas tratar da "herança maldita", para usar termo em moda,
que essa lenda representa até os dias atuais.

Vale antes um caveat, para esclarecer uma distinção importante. Alguns defendem que Robin
Hood não fazia mais do que recuperar o que era tomado à força, via impostos, pelas autoridades.
Ele estaria, nesse caso, tirando de quem roubou de verdade o bem, e devolvendo-o a quem este
pertencia. Mas não é esta a imagem que perdurou de Robin Hood. Quando mencionam este nome,
estão se referindo aos que tiram à força dos que têm mais, para distribuir aos que necessitam, não
importando quem produziu os bens, ou a quem eles pertenciam a priori. Estão declaradamente
concordando que a necessidade basta como conceito de justiça, não importando o direito à
propriedade. É esta segunda visão, a predominante, que irei atacar como totalmente imoral.

Um princípio moral básico é o direito à propriedade, começando pelo seu próprio corpo. Se não
somos os donos dele, não passamos de escravos, de seres sacrificáveis para algum outro objetivo
alheio qualquer. A consequência natural desse direito básico é que devemos ser donos também
dos frutos do nosso esforço físico ou mental, da nossa produção, seja física ou intelectual. Há uma
confusão aqui, normalmente por parte dos marxistas, no conceito de exploração dessa produção.
Um trabalhador que não é autônomo, mas sim faz parte de uma organização maior, não vive da
venda de produtos do seu trabalho, mas sim da venda do seu trabalho em si. Os benefícios dessa
divisão de trabalho já são amplamente conhecidos desde David Ricardo. Alguém que executa uma
tarefa específica pode obter, via a troca voluntária, inúmeros bens e serviços, que seriam
impossíveis individualmente. Ele não está produzindo os bens finais que demanda, mas sim
trocando voluntariamente sua habilidade específica por dinheiro, apenas um meio de troca para a
obtenção dos bens desejados. Como é algo voluntário, não há exploração. O conceito de mais-
valia é falacioso, portanto. E o critério de justiça ou moralidade aqui parece evidente: que o
indivíduo possa ser o dono daquilo que ele ou produziu ou vendeu voluntariamente como seu
trabalho para outro produzir. Nem mais, nem menos!

Assim, todos seriam livres para realizar trocas voluntárias, tendo que sempre oferecer algo de
valor, no julgamento dos outros, para obter os bens e serviços que ele julga valiosos. Sua
produção é sua única ferramenta para a sobrevivência digna, e a troca livre o único meio justo para
obter o que não produziu, mas deseja. A alternativa é o roubo, é a apropriação indevida, através da
força, coerção ou fraude, daquilo que ele não produziu nem obteve livremente oferecendo algo de
valor em troca. Para esses, chamados marginais, existe o Estado, com seu papel precípuo de
polícia, protegendo os cidadãos livres e honestos. O problema, cada vez mais comum e grave, é
quando o próprio Estado resolve bancar o Robin Hood, ignorando esse aspecto moral de justiça, e
invocando o abstrato e arbitrário termo "justiça social", como se a necessidade passasse a garantir
o direito de expropriação da propriedade privada. Fica, nesse caso, legalizado o roubo, o direito de
escravizar alguém e tomar a força sua produção, somente porque outro dela necessita, mas não
quer ou pode oferecer nada de valor em troca. Os que produzem se tornam escravos dos que
necessitam. Em pouco tempo, quem irá produzir assim?

Tais inescrupulosos escondem-se sob o manto de um suposto altruísmo, como se ser solidário
com a propriedade dos outros fosse nobre e moral. Um indivíduo sentir pena de um miserável ou
necessitado, e tentar ajudá-lo com seu esforço pessoal, é algo notável. Mas alguém que, em nome
dessa pena, escraviza inocentes, rouba-lhes os frutos de seus trabalhos e ainda chama isso de
justiça, não passa de um imoral. A solidariedade precisa ser voluntária. Discursos nobres e
românticos, que pregam o altruísmo, mas que acabam defendendo medidas que utilizam recursos
alheios para tal "altruísmo", são pura perfídia. E infelizmente a institucionalização dessa
imoralidade à lá Robin Hood dá-se no próprio Estado, que passa a existir não para proteger a
liberdade individual, mas para tirar de alguns à força para distribuir aos pobres, como se
necessidade fosse critério de justiça. Se fosse, um carente necessitado de sexo teria o direito de
estuprar uma donzela inocente, já que o consentimento não importa. Sem falar que achar que os
bens roubados chegarão aos pobres é uma utopia, dado que para possibilitar a existência desse
Robin Hood gigante e legalizado, concentram poder absurdo no governo, e concentração de poder
em poucos é garantia de corrupção.

Nem o conceito de justiça, nem o argumento de resultado prático, sustentam a defesa de legalizar
Robin Hood na figura do Estado. A mentalidade precisa mudar. As pessoas têm que entender que
a necessidade não é uma carta branca para que indivíduos tornem-se objetos sacrificáveis,
escravos dos que necessitam. Quem tem necessidades, tem que trabalhar para supri-las. Tem que
oferecer algo de valor em troca daquilo que necessita. E em último caso, dependerá da
solidariedade alheia, que por definição não pode ser imposta, compulsoriamente, mas sim
voluntária de cada indivíduo. Tirar dos ricos para dar aos pobres é imoral. Precisamos abandonar o
romantismo do mito de Robin Hood, que não passa de imoralidade transvestida de altruísmo.
A Praga do Coletivismo

Rodrigo Constantino

“The smallest minority on earth is the individual. Those who deny individual rights, cannot claim to
be defenders of minorities.” (Ayn Rand)

Se me fosse questionado qual a maior praga da Humanidade, não hesitaria muito em responder
que é o coletivismo. Entendo o coletivismo aqui como a supressão do indivíduo como um ser e
uma finalidade em si mesmo. Como exemplo de diferentes vertentes do coletivismo, temos várias
ideologias que deixaram um rastro enorme de sangue na História. O nazismo partia de uma visão
coletivista de raças, enquanto o marxismo aderia ao prisma coletivista das classes. O nacionalismo
colocava a nação como um fim em si, transformando seus indivíduos em simples meios para algo
maior. Há ainda um coletivismo mais complexo, das culturas, que vê o indivíduo como nada mais
que um produto delas. Entre estes tipos de coletivismo, pode haver intercâmbio, evidentemente.
Mas o verdadeiro denominador comum deles é o inimigo, que claramente é o indivíduo.

Na ótica coletivista, os indivíduos são apenas representantes de suas classes, raças, credos,
nações ou culturas. Não são seres ativos, moldando o próprio destino, ainda que sob influência de
todas essas características. São autômatos, como marionetes sem qualquer autonomia, sem
responsabilidade, ou seja, habilidade de resposta. Os valores, o futuro, os interesses, tudo foi
determinado pelo coletivo. Neste tipo de mentalidade, há um verdadeiro assassinato do
individualismo. Cada ideologia coletivista dá prioridade a uma única característica, entre infinitas
que formam cada indivíduo. Para o nacionalista, o simples local de nascimento no mapa vale mais
que qualquer outro valor. Para o marxista, um burguês sempre terá mais afinidade com outro
burguês, partindo de um determinismo de classes. Para o fanático religioso, apenas o credo
importa, e um pérfido pode ser mais querido que um sujeito honesto, caso a religião deste seja
alguma outra qualquer. Nenhuma dessas ideologias considera de forma mais equilibrada as
inúmeras características individuais, assumindo ainda que cada indivíduo é um fim em si mesmo.
Assim, nazistas podem exterminar judeus em nome da “raça pura”, marxistas podem meter uma
bala na cabeça dos burgueses em nome da “ditadura do proletariado”, nacionalistas podem
sacrificar alguns indivíduos em nome da “prosperidade da nação”, religiosos podem lançar bombas
em outros em nome da “fé redentora”, e por aí vai. É o coletivismo suprimindo o indivíduo.

Essa praga coletivista vem de longa data. Platão, no livro A República, traça o que seria o Estado
ideal, ainda que não exeqüível na prática. Há um claro viés coletivista, colocando os indivíduos
como nada mais que instrumentos para a felicidade da “república”, como se esta não fosse mais
que o somatório dos indivíduos que a compõem. Caberia aos sábios, claro, determinar as regras
todas, aniquilando as escolhas individuais. Normalmente, o coletivista parte do pressuposto que
ele estará sempre do lado legislador, criando as regras e decidindo o rumo da felicidade alheia. O
coletivista é prepotente, enquanto os individualistas respeitam as preferências individuais, com
maior humildade. Voltando a Platão, temos passagens bastante autoritárias no livro, proferidas
supostamente por Sócrates, como: “Deixaremos ao cuidado dos magistrados regular o número dos
casamentos, de forma que o número dos cidadãos seja sempre, mais ou menos, o mesmo,
suprindo os claros abertos pelas guerras, enfermidades e vários acidentes, a fim de que a
república nunca se torne nem demasiado grande nem demasiado pequena”. Ou ainda: “Os filhos
bem nascidos serão levados ao berço comum e confiados a amas de leite que terão habitações à
parte em um bairro da cidade. Quanto às crianças enfermiças e às que sofrerem qualquer
deformidade, serão levadas, como convém, a paradeiro desconhecido e secreto”. O avanço dos
“iluminados” sobre a liberdade individual não acaba por aí: “As mulheres gerarão filhos desde os
vinte até os quarenta anos; os homens logo depois de passado o primeiro fogo de juventude, até
os cinqüenta e cinco”.

Platão foi muito além, defendendo o fim das propriedades dos guerreiros, e deixando todas as
decisões importantes para os poucos sábios. Essa outra passagem deixa claro que a república
estaria muito acima, em grau de importância, dos indivíduos: “Assim, em nossa república, quando
ocorrer algo de bom ou de mau a um cidadão, todos dirão a um tempo meus negócios vão bem ou
meus negócios vão mal”. Todos participarão das mesmas alegrias e das mesmas dores, segundo
suas próprias palavras. Homens, desta forma, não são mais homens, mas cupins! A república
platônica conquistou sempre uma legião de seguidores românticos. O fim da propriedade
individual, tudo comum a todos. Nada mais coletivista. Nada mais absurdo!

Thomas More iria resgatar esse sonho coletivista com força em seu Utopia, bastante influenciado
por Platão. A utopia de More muito se assemelha ao comunismo, tanto que este mereceu uma
estátua na União Soviética. Infelizmente, o resultado prático é bem diferente do imaginado, e
Utopus acabou em um gulag da Sibéria. Nessa passagem notamos a semelhança: “Esse grande
sábio (Platão) já havia percebido que um único caminho conduz à salvação pública, a saber, a
igual repartição dos recursos”. Para isso, seria suprimida a propriedade privada. Os marxistas
foram em linha semelhante, com a máxima “de cada um de acordo com a capacidade, para cada
um de acordo com a necessidade”. Ora, quem decide quais as necessidades individuais? E quem
decide sobre as capacidades individuais? Claro, os “sábios”. Os defensores dessas atrocidades
sempre se colocam como parte integrante dos “iluminados” que irão moldar a sociedade, controlar
os demais indivíduos, meios para o “bem maior”. Com o tempo, ninguém mais pode nada, e todos
precisam de tudo. Não há como o resultado ser diferente do terror soviético.

Tommaso Campanella surgiu apenas requentando o mesmo prato azedo, em sua Cidade do Sol. A
mesma linha coletivista, tratando homens como abelhas, que trabalham para a felicidade da
“colméia”. Campanella sugere roupas iguais, tudo igual, e os filhos também serão propriedade
“comum”. Todos iguais, mas sempre uns mais iguais que os outros. Os tais “sábios” sempre
entram em cena, para comandar o show. Os indivíduos são apenas ratos de laboratórios,
ferramentas “científicas”.

Os nacionalistas representam também um enorme câncer coletivista. Friedrich List, no século XIX,
já dizia que somente onde o interesse dos indivíduos estivesse subordinado ao da nação, haveria
desenvolvimento decente. Como se nação tivesse interesse! List foi totalmente contrário ao
individualismo de Adam Smith, e colocava a nação como um ente vivo, com desejos e interesses,
que justificavam inclusive o sacrifício de uns “simples” indivíduos. Quem saberia dizer quais os
interesses da tal nação? Com certeza, os sábios, List incluído. Assim, a glória futura da nação
valeria mais que tudo. Hitler não foi lá muito inovador...

Existem outros infinitos exemplos dos males que a mentalidade coletivista gera, mas creio ter
deixado claro o ponto. Somente quando os indivíduos forem tratados como um fim em si, como
agentes ativos de suas próprias vidas, ainda que influenciados pelas diversas características
mencionadas, mas com responsabilidades individuais, o mundo será mais justo. Cada um deve
tentar ser feliz à sua maneira, respeitando a liberdade alheia. Devemos ter cuidado com os “sábios
iluminados”, que conhecem o caminho “certo”. Os valores e as atitudes individuais são o que
importam. Onde nasceu, qual religião pratica, a qual classe pertence, tudo isso me parece
completamente secundário, ou pelo menos nenhuma dessas características merece o monopólio
da relevância. Fora isso, jamais os fins justificam os meios. Eis o que defende o Liberalismo, na
contramão das ideologias coletivistas, quase sempre genocidas. A melhor arma contra a praga do
coletivismo é, sem dúvida, a defesa da ampla liberdade individual.
A Raiz do Mal

“The worst guilt is to accept an undeserved guilt.” (Ayn Rand)

Muitos repetem automaticamente que o dinheiro é a raiz de todos os males. Essas pessoas
costumam condenar a riqueza alheia, ao mesmo tempo que aplaudem medidas que punem o bem
sucedido, tirando-lhe parte desse dinheiro compulsoriamente. Afirmam que o dinheiro gera
infelicidade, como se acumular uma fortuna fosse algum pecado. Os bons samaritanos vão salvar
as almas dos infelizes pecadores ricos, e de tão bondosos que são, aceitam carregar o fardo da
transferência desse dinheiro para suas contas. Hipocrisia à parte, o que interessa refutar aqui é a
idéia de que o dinheiro em si representa algo ruim. O que é o dinheiro? Qual a raiz do dinheiro?

Dinheiro é uma ferramenta de troca, que não pode existir a menos que existam bens e serviços
produzidos para serem trocados. Dinheiro é a forma material do princípio que homens que
pretendem negociar com outros homens têm que trocar livremente no mercado, oferendo valor em
troca de valor. Dinheiro não é gerado pelos que reclamam, imóveis, da miséria, nem pelos que
utilizam a força para adquiri-lo. Ele só é possível pela existência de homens que produzem. Seria
isso a raiz do mal?

Os que alegam que o trabalho braçal apenas é que gera produção, deveriam tentar obter comida e
outros bens indispensáveis sozinhos na natureza. Irão aprender que são as mentes de homens
que estão por trás dos bens produzidos e da riqueza gerada no mundo. A riqueza é o produto da
capacidade humana de pensar. Ela não é dada, estática e disponível na natureza para o bel prazer
da humanidade. Ela é criada, possível pelos que inventam, arriscam, pensam. Isso não é feito às
custas dos incompetentes, preguiçosos ou tolos. Não é resultado de exploração alguma. Mas sim
fruto do potencial e habilidade de alguns homens. Um homem honesto é aquele que sabe que não
pode consumir mais do que produz, pois precisa consumir os bens de acordo com trocas livres,
oferecendo algo de valor em troca, seu esforço, sua produção. Simplificando, um produtor de
calçados troca parte de sua produção pelo leite produzido pelo outro, pois cada um julga mais
valioso o que está recebendo em troca. Uma troca livre necessariamente satisfaz ambas as partes
envolvidas. E dinheiro não é nada mais que um meio de troca, um facilitador dos escambos, por
representar um denominador comum, expressar na mesma unidade o valor que cada indivíduo
atribui ao produto, cujo preço de mercado será o encontro da oferta com a demanda.

O dinheiro não permite que nenhuma outra força além da escolha voluntária do homem disposto a
troca determine o valor do seu esforço em relação ao esforço obtido em retorno. Ninguém irá trocar
algo mais valioso, na sua avaliação subjetiva, por algo menos valioso. O dinheiro não permite
nenhum negócio exceto aqueles de benefício mútuo, pelo julgamento livre de coerção dos
envolvidos. O dinheiro exige o reconhecimento de que os homens devem trabalhar para seu
benefício próprio, não sofrimento, para seu lucro, não prejuízo. Alguém que demanda algo
produzido por outro, precisa oferecer alguma coisa de valor em troca. O dinheiro exige que você
venda, não sua fraqueza para a estupidez alheia, mas seu talento para a razão dos demais. E
quando temos liberdade de escolha, é o melhor produto que vence, a melhor performance, e o
grau de produtividade de alguém é que determina o grau de remuneração. Os melhores produtos,
os que maior utilidade geram, pelo julgamento dos outros, trarão os maiores lucros. Esse é o
código que existe cuja ferramenta e símbolo é o dinheiro. Isso é a raiz do mal?

Claro que o dinheiro em si não trará felicidade para o homem que não sabe o que quer. O dinheiro
em si não lhe dará um código de valores, se ele se esquivar do conhecimento de o que é valor. O
dinheiro não irá lhe prover um objetivo. Mas para o homem que sabe seu objetivo, que possui um
código correto de valores, que honestamente produz para trocar pelos bens que demanda, o
dinheiro será o resultado de seu sucesso, a prova de sua utilidade, a conquista de suas
habilidades. Normalmente, o homem que condena o dinheiro o ganhou desonestamente, ou inveja
o sucesso alheio que ofusca seu fracasso. Os que o ganharam honestamente, como fruto de seus
esforços produtivos, o respeitam.
Portanto, o homem que pede desculpas por ser rico, que se sente culpado pelo seu sucesso,
costuma ser vítima dos parasitas, dos que distorcem os códigos de valores para explorarem o
sucesso alheio, como se o rico tivesse obrigação moral de ceder suas conquistas pela
necessidade e vontade dos demais, e não pelo esforço deles oferecendo algo de valor em troca.
Não se obtém carne do açougueiro pela sua benevolência, mas oferecendo algo de seu interesse
e valor em troca. Quando o crime de tirar à força dos ricos para dar aos parasitas passa a ser
legalizado, quando os meios de subsistência via trocas livres são vistos como maléficos, quando o
dinheiro migra dos que trocam bens para os que trocam favores, é porque os valores morais da
sociedade já foram para o espaço.

Não devemos esperar que os homens produzam quando a produção é punida e a extorsão
remunerada. Quando o dinheiro é visto como a raiz do mal, não esperem que os homens
trabalhem para fazer dinheiro, lembrando que ele precisa ser feito, já que não nasce em árvore
nem em máquinas do governo. Um mal maior que assassinar um homem, é vendê-lo o seu suicídio
como um ato de virtude. Exigir o sacrifício de alguém é imoral. Os homens devem ser livres para
buscar a felicidade, tendo que trocar valor por valor com os demais. Um vencedor não deve ser
forçado a abdicar da vitória para se unir a mediocridade. A meritocracia não deve ceder lugar à
idealização da inveja. Os homens que carregam o mundo nas costas, produzindo boa parte da
riqueza que facilita a vida da maioria, não devem ser torturados justamente pelas suas virtudes e
sucesso. Não devem ser condenados por aqueles que do seu sucesso necessitam. O dinheiro, em
um mundo competitivo e livre, é resultado do sucesso dos homens que produzem bens desejados.
Ele não é raiz do mal, mas fruto do bem. Que ele fique nas mãos de quem o fez e o merece!
A Virtude do Egoísmo

Rodrigo Constantino

Para se falar da virtude do egoísmo, vamos primeiro definir o que se entende por egoísmo aqui.
Não estamos falando do conceito pejorativo da palavra, mas simplesmente da preocupação com
os interesses particulares de certo indivíduo. Isso vai contra o altruísmo, que declara que qualquer
ação realizada para o benefício dos outros é boa e qualquer ação visando ao benefício próprio é
ruim. Como a natureza não fornece ao homem uma maneira automática de sobrevivência, e ele
precisa se sustentar através do esforço próprio, uma doutrina que diz que se preocupar com os
interesses particulares é ruim diz também que o desejo do homem viver é ruim. Este seria o
significado do altruísmo em sua essência.

Os interesses particulares do homem não podem ser determinados por desejos cegos ou
aleatórios, mas sim devem ser descobertos e alcançados através de princípios racionais. O
egoísmo bom é o egoísmo racional. É justamente aí que entra o papel fundamental da moral e da
ética. Seriam códigos de valores para guiar as escolhas e ações dos homens. A ética representa
exatamente a busca de tais valores. Não devemos tomar a ética como algo dado, e sim buscar
compreender suas origens e causas metafísicas. Esta busca através da razão contradiz a limitada
visão de que "assim Deus quis" ou outras explicações místicas para a ética. Ela não nos foi
revelada, e sim deve ser descoberta através da razão humana.

Se tomarmos como valor máximo a vida, então tudo aquilo que ajuda a viver deve ser visto como
positivo e tudo aquilo que ameaça a vida é negativo. Somente este objetivo máximo de viver torna
possível a existência de valores. Assim como o mecanismo de dor e prazer do corpo humano
possui a função de alerta quanto à direção correta ou errada de uma ação física, a consciência do
homem será a guardiã dos meios corretos para sua sobrevivência. Diferente das plantas, que
funcionam somente através de mecanismos automáticos, o homem possui o poder da percepção,
que seria a faculdade de reter sensações. Ele não possui códigos automáticos de sobrevivência,
não sabe a priori o que é ruim ou bom para sua vida. Sua consciência é volitiva, depende de sua
vontade. A capacidade de trabalhar os conceitos e conhecimentos importantes para formar esse
código chama-se razão, e o processo em si chama-se pensar. Este processo não é automático, e
depende da escolha do homem.

Para o homem, o meio básico de sobrevivência é a razão. Tudo que ele deseja e precisa tem que
ser aprendido, descoberto e produzido por ele, através de sua escolha própria, esforço e
consciência. Para caçar, desenvolveu armas. Para se aquecer, descobriu o fogo e depois a
eletricidade. A agricultura veio para alimentá-lo. O avião foi criado para o transporte. São todos
exemplos práticos que nos distinguem de outros animais, que sobrevivem através de um processo
mais automático, sem consciência ou razão.

O homem é livre para fazer sua própria escolha, e esta pode ser a errada, mas ele não está livre
de suas conseqüências. Ele pode se esquivar da realidade, pode seguir cegamente um curso ou a
estrada que quiser, mas não tem como evitar o precipício a frente que ele se recusa a enxergar.
Em resumo, ele é livre para escolher não ser consciente, mas não consegue escapar das
penalidades de sua inconsciência: sua própria destruição.

A ética, então, seria algo objetivo, uma necessidade metafísica para a sobrevivência do homem, e
não algo proveniente da graça sobrenatural ou dos desejos de nossos vizinhos. Se alguns homens
optam por não pensar, e sobrevivem imitando outros e repetindo, como animais treinados, a rotina
aprendida com terceiros, sem fazer o esforço de compreender por conta própria sua conduta,
ainda assim sua sobrevivência só é possível pois alguém pensou por ele. A sobrevivência de tais
parasitas depende de puro acaso, pois suas mentes sem foco precisam decidir quem copiar e
seguir. São facilmente vítimas, os seguidores que se atiram do abismo, se auto destruindo em
nome de alguém que prometeu assumir as responsabilidades que eles se esquivaram, a
responsabilidade de ser consciente.
Se o homem não quer depender do puro acaso para sobreviver, se não quer tomar um caminho
que leva a sua própria destruição, precisa escolher pensar, adotar um código de ética que o ensine
como viver, não dependendo assim de sensações e instinto. O homem tem que escolher ser
homem, caso contrário vive como sub-humano, pouco mais que os outros animais, sobrevivendo,
com sorte, apenas via mecanismos automáticos. Assim, o pior vício que pode existir num homem,
fonte de todos os males, é o ato de não focar sua mente, suspender sua autoconsciência, que não
significa cegueira, mas sim a recusa de enxergar, não a ignorância, mas a recusa em saber.

O princípio básico da ética objetivista é que, da mesma forma que a vida é um fim em si, cada ser
humano é um fim em si também, e não simplesmente um meio para outros fins ou o bem de
outros. Portanto, ele deve viver focando em sua própria felicidade, e não se sacrificando por
outros. O alcance da felicidade seria o maior objetivo moral do homem.

A felicidade seria o estado consciente que procede ao alcance dos seus valores. Se um homem
valoriza a destruição, como um sádico ou masoquista, ou então a vida após a morte, como os
místicos, sua "felicidade" aparente será medida pelo sucesso de ações que levam a sua própria
destruição. Nem a felicidade nem a vida podem ser alcançadas através da busca de desejos
irracionais. A tarefa da ética é definir o código de valores adequado para que o homem possa
atingir sua felicidade. Declarar que o valor adequado é aquele que dê prazer, não importa qual, é o
mesmo que dizer que o valor correto é qualquer um que alguém escolha. Mas se somente o desejo
é o padrão dos valores éticos, o desejo de um homem produzir e o desejo de outro o roubar teriam
a mesma validade ética. O desejo de alguém ser livre e de outro escravizá-lo teria a mesma
validade. A ética objetivista advoga e defende o egoísmo racional, não valores produzidos por
desejos ou emoções e aspirações, que podem ser irracionais.

Em resumo, o egoísmo, entendido como o foco nos interesses particulares – que coloca cada
indivíduo como um fim em si mesmo – é uma virtude, não um pecado. O instrumento
epistemológico para a busca dos valores deve ser a razão, não emoções irracionais e avulsas. O
sacrifício humano despreza a vida como valor máximo. Na sua essência, o altruísmo diz que
sacrificar seu próprio filho para salvar dez estranhos é um ato nobre. Para o bem da humanidade e
até mesmo sua sobrevivência, isso deve ser condenado. Humanos não são cupins que vivem
como meios sacrificáveis para o bem da colônia. Está na hora de reconhecermos a virtude do
egoísmo.
Dos Direitos

"The most certain test by which we judge whether a country is really free is the amount of security
enjoyed by minorities." (Lord Acton)

Os direitos constituem um conceito moral aplicável aos indivíduos num contexto social. Não faz
sentido falar em direito no caso de um ser isolado numa ilha. Direitos estão ligados ao
relacionamento entre indivíduos, protegendo a liberdade de cada pessoa dentro do grupo. É
fundamental atentar para o fato de que não há algo como um direito da sociedade, dado que esta
nada mais é que o somatório de indivíduos. Será, portanto, o guia moral determinante dos direitos,
a liberdade individual, permitindo que cada ser humano seja dono de si, livre para pensar e agir, e
protegido da coerção física externa.

Essa visão é bastante recente, e praticamente inexistente na história da humanidade. Desde os


direitos divinos dos reis, a teocracia do Egito, o ilimitado poder da maioria em Atenas, o poder
arbitrário dos imperadores romanos, a monarquia francesa, o welfare state de Bismark na Prússia,
as câmaras de gás dos nazistas na Alemanha e os gulags dos comunistas russos, algum tipo de
“ética” altruísta-coletivista dominava os sistemas políticos. O “bem público” ofuscava a liberdade
individual. Foi apenas na criação dos Estados Unidos que tivemos a primeira sociedade moral da
história, eliminando a idéia de que o homem é algo sacrificável para algum fim maior. A Declaração
da Independência Americana iria introduzir a idéia de que cada indivíduo deve ser livre, e o
governo deve existir apenas para garantir essa liberdade.

O direito para cada indivíduo deve ser de natureza positiva, garantindo sua liberdade para agir de
acordo com seu próprio julgamento, seus objetivos particulares, sua escolha voluntária e sem
coerção. Para seus vizinhos, os seus direitos não impõem nenhuma obrigação exceto de caráter
negativo: a proibição de violarem os seus direitos. Existe basicamente um método para se violar o
direito individual, que é via força física. E são dois os potenciais agentes para isso: os criminosos e
o governo. A grande conquista americana foi justamente separar ambos, proibindo o segundo de
se tornar uma versão legalizada do primeiro. O Bill of Rights não foi escrito para proteger os
indivíduos dos demais indivíduos, mas sim do governo. Em qualquer civilização existente, os
criminosos sempre foram uma minoria. É o governo que pode causar um mal incalculável, e por
isso precisa ter seu poder limitado. O próprio guardião dos direitos individuais pode se transformar
na maior ameaça ao indivíduo.

Mas com o tempo, até nos Estados Unidos esse conceito de direito foi sendo deturpado. Os
políticos foram conquistando mais poder, e através do populismo, foram garantindo “direitos” que
ferem diretamente a liberdade individual, pois demandam necessariamente a escravidão de
alguma contraparte. A plataforma política do Partido Democrata em 1960, por exemplo, explicitava
uma lista de “direitos” como emprego bem remunerado, salário adequado para prover comida e
roupas decentes, preço justo para os produtos agrícolas, casa decente para as famílias, saúde
adequada, boa educação e seguro desemprego. Enfim, uma nobre lista, mas ignorando uma
simples pergunta: às custas de quem? Empregos, comida, roupas, casas, medicamentos e
educação não nascem do nada na natureza, são bens e serviços produzidos por homens. Quem
deve então assumir o dever de produzi-los gratuitamente para que outros tenham tal “direito”?
Milton Friedman já dizia que “não existe almoço grátis”, e para o governo prometer “direitos” desse
tipo, precisa arbitrariamente escravizar uma parcela da população, coisa claramente rejeitada pelos
“pais fundadores” da nação americana. O “direito” de um homem que exige a violação dos direitos
de outro não pode ser considerado um direito.

Outros exemplos tornam essa distinção mais clara. O direito a liberdade de expressão diz que cada
homem tem o direito de expressar suas idéias sem o risco de repressão ou punição, mas não
significa que outros são obrigados a oferecer uma estação de rádio, um palco ou um jornal para
que o indivíduo expresse suas idéias. O direito a vida significa que cada um pode se sustentar pelo
seu esforço pessoal, mas não diz que outros devem provê-lo com suas necessidades básicas.
Qualquer ato que envolva mais de uma pessoa necessita de consentimento voluntário de cada
participante. Cada indivíduo tem a liberdade de fazer sua própria decisão, mas nenhum tem a
liberdade de forçar sua decisão aos demais. Não há algo como “direito” a emprego, mas sim à
troca livre, ou seja, o direito de alguém aceitar um emprego se outro decidir lhe oferecer tal
emprego. Não pode existir um “direito” a um salário ou preço justo, apenas o direito de cada
cidadão escolher quanto pretende pagar pelo trabalho ou produto do outro.

As duas grandes vantagens de se viver em sociedade são o conhecimento e a troca. O homem é o


único animal que transmite e expande seu estoque de conhecimento de geração para geração.
Todo indivíduo desfruta de um benefício incalculável pelo conhecimento descoberto por outros. E o
outro enorme ganho é a divisão de trabalho, que permite que um homem devote seu esforço a um
campo particular de trabalho e troque com os demais que se especializaram em outras áreas.
Essas são, basicamente, as vantagens da sociedade, e é condição necessária para o
desenvolvimento delas a presença da liberdade individual. Não foi por acaso que os americanos
avançaram em dois séculos o que outras nações não conseguiram em milênios.

A função precípua do governo deve ser somente a de garantir os direitos individuais. Saindo da
teoria para a prática, isso significa dizer que o governo deve ter o monopólio da força para impor as
leis, que serão impessoais e objetivas. Uma sociedade não pode viver direito com leis subjetivas,
que dependem da arbitrariedade do burocrata, que seja aplicável ex post facto. O indivíduo pode
fazer qualquer coisa que não esteja legalmente proibido, enquanto o oficial do governo não deve
fazer nada que não esteja legalmente permitido. O povo deve ser governado por leis, não por
homens. Fora isso, o governo será o árbitro em disputas entre indivíduos de acordo com as leis
objetivas, forçando o cumprimento dos contratos. Em resumo, se o homem possui o direito moral
de ser livre, deverá caber ao governo o papel de polícia, para proteger os indivíduos dos
criminosos, de forças armadas, para proteger os cidadãos de invasores estrangeiros, e de juiz,
para arbitrar disputas entre indivíduos baseadas nas leis objetivas. E nada mais!
Em Defesa da Minoria

"The smallest minority on earth is the individual. Those who deny individual rights, cannot claim to
be defenders of minorities." (Ayn Rand)

Normalmente, as pessoas consideram nobre defender minorias. O problema reside em como


colocar isto em prática. Muitos acabam pregando privilégios a certos grupos "excluídos",
considerando que assim estão fazendo justiça. Infelizmente, o tiro sai pela culatra.

Qual a menor minoria de todas? Sem sombra de dúvidas, é o indivíduo. Se o objetivo é realmente
defender as minorias, temos que lutar pelos direitos individuais, independente de sexo, cor,
riqueza, raça ou religião. Qualquer outra alternativa não passa de racismo, disfarçado de "justiça
social".

O princípio da isonomia de tratamento precede o da demokratia, que surgiu na verdade


exatamente para tentar garantir a participação de todos no governo. A isonomia é um fim, defende
a igualdade das leis para qualquer tipo de pessoa, enquanto a democracia é um meio para se
chegar a este fim. Aristóteles já defendia em seu livro Politics o conceito de leis gerais nos
governarem, não pessoas. Isto visa justamente a impedir que maiorias possam controlar minorias,
discriminando certos grupos para privilegiar outros.

Não é porque a maioria deseja alguma coisa que tal coisa será correta. Muitas pessoas não
compreendem este conceito, tomando como correta certa medida somente porque mais da metade
do povo a aprova. Tal modelo não passa de um governo de gangues, um sistema instável que
depende dos interesses randômicos da maioria do momento. O melhor exemplo que temos é a
Alemanha nazista, já que Hitler teve apoio da maioria da população, mas isso não garante de
forma alguma a justiça dos seus atos.

Um país deve ser governado por leis gerais e impessoais, e não ficar a mercê dos desejos da
maioria. Qualquer alternativa não pode ser considerada justa, pois gera a arbitrariedade de
decisões, ofusca e limita a liberdade individual. Lembremos que privilégio vem de privi leges, ou
leis privadas, feitas ad hoc para beneficiar algum grupo específico em detrimento dos excluídos.
Fica evidente que qualquer medida adotada pelo governo para favorecer alguma classe vai de
encontro ao princípio de isonomia, e por consequência, não pode ser justo.

Reparem que estou criticando apenas o uso do aparato legal para criar privilégios. Se alguém
nasce numa família rica e pode ter melhor formação, ou se outro nasce com uma bela voz ou um
rosto bonito, isso não se caracteriza como privilégio. Estaríamos falando apenas da natureza, que
nunca foi igualitária. Não devemos utilizar a força do Estado, sob o comando de algum grupo, para
remodelar a sociedade, penalizando o mais sortudo ou esforçado para ajudar os mais fracos ou
preguiçosos. Isto seria apenas a idealização da inveja, onde teríamos injustiças geradas pelo viés
do Estado.

Como exemplo, podemos citar as cotas defendidas em universidades. Tal medida visa remediar
uma injustiça no passado sofrida por negros. Mas e quanto ao branco que será penalizado ao ser
exluído da faculdade mesmo com nota igual a do negro? E se ele não teve nenhuma ligação com
as injustiças passadas cometidas contra os negros? Isso não se caracteriza como uma nova
injustiça? Não é cometendo novas injustiças que iremos consertar erros do passado.

Além disso, podemos argumentar que cada grupo terá sua estória triste para contar. Vamos
privilegiar os judeus por causa do Holocausto? Vamos favorecer os índios por causa do extermínio
no passado? Vamos criar privilégios para todos os não-cristãos devido à Inquisição?

A falha de raciocínio cometida pelos supostos defensores de minorias é que eles nunca se
perguntam quem pagará a conta de tais privilégios. Ficam apenas na primeira fase nobre do apelo
social. Não seria bom se os negros pudessem ter o acesso facilitado em universidades? Não seria
desejável que os pobres trabalhadores tivessem segurança de emprego? Não seria ótimo se os
aposentados ganhassem mais e tivessem remédios grátis? Nunca dão continuidade a tais
perguntas, como questionar quem irá garantir tais benefícios e privilégios. Às custas de quem
vamos estender privilégios a tantos grupos? Alguém sempre terá que pagar a conta, e serão
sempre os excluídos de tais privilégios. Os recursos são escassos. Cada novo privilégio gera um
novo discriminado. Isso não é justiça.

O único método justo é abolir qualquer privilégio, por mais nobre que possa parecer do ponto de
vista social. As leis devem ser impessoais e gerais, sempre. O governo deve garantir as regras do
jogo, claras e bem definidas, mas sem favorecer lado algum. Não é papel de governo obrigar uma
empresa privada a contratar um certo número de minorias. Isso agride a liberdade individual do
dono da empresa, de livre escolha. O governo não deve ter o direito de decidir tirar dinheiro do
Pavarotti e dar para algum grupo específico, escolhido por ele. Não pode penalizar a Gisele
Bündchen por ter nascido bonita e se esforçado para ser modelo, obrigando-a através da coerção
a pagar mais pelos mesmos serviços (o que ocorre num imposto de renda escalonado, por
exemplo). O governo não pode se intrometer num programa de demissões de uma empresa. Ela
deve ser livre para tomar suas decisões, apenas respeitando os contratos.

O papel do governo é evitar fraudes, mas não impor sua idéia de "justiça social" de forma arbitrária,
privilegiando algumas categorias em detrimento de outras. Sua função não é redesenhar a
sociedade de acordo com sua idéia pré-concebida de justiça, mas sim manter as mesmas regras
para todos e deixar as leis naturais de mercado fazerem justiça. Seu objetivo deveria ser
justamente impedir que grupos cada vez mais organizados, como fortes sindicatos, grupos de
empresários ou políticos, sequestrem a democracia de facto, trocando justiça por "justiça social",
direito por "direitos humanos", certo por "legítimo", como se o respaldo da lei fosse suficiente para
garantir a justiça.

Infelizmente, sabemos que em política os benefícios precisam ser concentrados e os custos


dispersos. Acabamos sempre num modelo de privilégios que ameaça a liberdade da verdadeira
minoria, o indivíduo. Caminhamos cada vez mais para o Big Government, Big Labor, Big
Companies. Grupos fortes e organizados, em parceria com o governo, alteram as regras do jogo
de acordo com seus interesses particulares, ameaçando a isonomia e verdadeira justiça. Para
defender a minoria, só existe um jeito correto: limitar bastante o escopo do seu maior inimigo, o
Estado.
Grandes Empresários: Uma Minoria Perseguida

"While you can buy your way to growth, you absolutely cannot buy your way to greatness. Two big
mediocrities joined together never make one great company." (Jim Collins)

Existe um forte preconceito contra os homens de negócios, basicamente devido a inveja e apelo
por bodes expiatórios. Quando um trabalhador luta por maiores salários, isso é justiça social, mas
quando um empresário busca maiores lucros, isso é ganância condenável, mesmo que essa busca
seja a causa do enriquecimento geral da nação, possibilitando inovações, melhor qualidade de vida
e justamente os maiores salários dos empregados. É a minúscula minoria de empreendedores que
possibilita os avanços da humanidade através dos ganhos de produtividade, mas eles acabam
levando a culpa pelos erros dos burocratas, cuja intervenção no mercado gera ineficiência e
inúmeras crises.

Através do livre mercado, cada indivíduo é livre para voluntariamente trocar os frutos de sua
produção por outros bens e serviços. O governo é o único que detém o monopólio legal da coerção
física, e por isso pode alterar arbitrariamente o resultado do jogo, não pela interação natural das
diferentes preferências individuais, mas pela vontade de poucos políticos. A função adequada de
um governo num país livre deve ser a de protetor dos direitos individuais, e quando ele toma
medidas que privilegiam determinada categoria em detrimento de outra, está fugindo de seu
escopo e cometendo uma injustiça, ironicamente em nome da tal justiça social. A enorme demanda
que existe para prejudicar a minoria dos empresários não passa da idealização da inveja, e o efeito
prático disso, ainda por cima, é piorar a situação da maioria, favorecendo somente os políticos.

O poder econômico consiste em liberdade para produzir e trocar, enquanto o poder político
caracteriza-se pelo uso da força coercitiva do Estado. A lógica econômica força que o empresário
foque nos interesses do consumidor, enquanto a lógica política leva automaticamente ao
populismo para obtenção de votos. A lei antitruste é um exemplo claro de abuso do poder político
sobre o poder econômico, pois tolhe a liberdade dos agentes do mercado, transferindo seu poder
para burocratas do governo. O empresário encontra-se numa situação delicada, pois se aumenta
seus preços pode ser acusado de monopólio, se abaixa eles pode ser acusado de dumping, e se
os coloca iguais aos do competidor pode ser condenado por conspiração, cartel. O governo
interfere na livre competição, já que políticas de preços fazem parte das estratégias competitivas
das empresas. Através de leis ambíguas, não objetivas, o governo prejudica profundamente as
ações competitivas, que tanto beneficiam as massas. Para proteger a competição, o Estado
paradoxalmente condena o laissez-faire, i.e., a livre competição.

Leis retroativas, ou ex post facto, que punem indivíduos por ações que não eram previamente
definidas como ilegais, são totalmente rejeitadas pela tradição anglo-saxônica, e estritamente
proibidas pela Constituição americana. Mas é justamente o que fez o Sherman Act de 1890, que
visava a proteger a sociedade dos trustes, na época encarnado nas ferrovias. Os empresários
passam a ficar totalmente a mercê das interpretações dos burocratas, que podem retroativamente
condenar as decisões de negócios que no ato não eram claramente ilegais. O Sherman Act
adicionou uma flexibilidade absurda nas leis, um eufemismo para poder arbitrário, onde poucos
governantes concentram poder abusivo, como em ditaduras. O império impessoal das leis objetivas
cede lugar para a decisão particular de poucos homens poderosos. O conceito de livre competição
forçada pela lei é uma contradição em termos. A lei antitruste asfixia o livre mercado.

No caso das ferrovias, havia forte competição através de serviços alternativos de transporte, e o
livre mercado do leste americano forçava o aprimoramento da produtividade de todos, criando
enorme externalidade positiva. Mas o governo, em nome do "bem público", definido sempre pelos
próprios políticos, criou mecanismos artificiais para levar as ferrovias para o oeste, dando subsídios
e terras para empresários em busca de lucro fácil, sem a dura competição do livre mercado. Foi,
portanto, pela benção estatal que criaram-se monopólios forçados, livres da competição,
controlados por "amigos do rei". Se as ferrovias ficassem livres da mão estatal, poderiam até obter
status de monopólio, porém apenas através da eficiência, do mérito delas. E esse monopólio não é
perigoso como o concedido pelo governo, pois as forças naturais do mercado cuidam deles com o
tempo. Produtos substitutos são inventados, o dinamismo dos mercados impede a manutenção do
status-quo por tempo indeterminado. Basta verificar o impacto que a invenção do avião teve nas
ferrovias, ou perguntar quantas empresas sobrevivem mais de um século.

As pessoas temem os monopólios, mas por desconhecimento técnico, não compreendem que
estes só podem ser garantidos quando há barreiras à entrada de novos competidores, possível
apenas por restrições ou privilégios concedidos pelo governo. Num mercado verdadeiramente livre,
enquanto os retornos sobre o investimento forem elevados demais, novos competidores irão entrar
na disputa, e o monopólio sem interferência governamental pode ser obtido somente através de
vantagens comparativas em custos, não em preço abusivo. Ora, se o monopólio existe porque a
empresa é mais eficiente em custos, melhor para todos, pois os preços serão menores no
mercado.

O preconceito contra grandes empresas é muito comum, como se o fato de ser grande em si fosse
um problema. O tamanho não é o relevante, mas sim as conseqüências desse tamanho. A
genialidade enorme de um Thomas Edison muito contribuiu para o mundo, enquanto o excesso de
influência de um Hitler trouxe incrível desgraça. Uma Wal-Mart é gigantesca, mas sua existência
beneficia muita gente. Alguns críticos do capitalismo gostam de apontar os perdedores como
vítimas da crueldade do mercado, como um tradicional dono de uma loja pequena afetada pela
avassaladora competição com uma Wal-Mart. O que eles esquecem é que manter a tal loja
representa tirar de todo o resto a oportunidade de serviços melhores e preços menores. O
capitalismo, pela exigência da excelência, favorece sempre o consumidor, e não há espaço para
os acomodados ou ineficientes. Se os melhores crescem e ganham mercado, bom para todos.
Quando o tamanho da empresa é fruto de um privilégio governamental, isso deve ser condenado.
Mas se é resultado do mérito próprio da empresa, do sucesso de suas estratégias e eficiência,
deve ser respeitado, e somente as leis naturais do mercado poderão ameaçar tal posição. No
mundo, parece que o fato de ser bem sucedido gera revolta, e o sucesso é condenado justamente
por ser sucesso. Todos, com a exceção dos burocratas poderosos e seus "empresários" aliados,
perdem com isso. A humanidade ganha quando o mercado é livre, e se uma empresa obtém
tamanho aparentemente excessivo pelo seu próprio mérito, não há mal algum nisso.

Um caso recente que exemplifica muito bem isso é a Microsoft. Uma empresa que cresceu de
forma fantástica em poucos anos, totalmente devido ao esforço e genialidade de seus funcionários
e donos. Não obstante o avanço que a criação de Bill Gates possibilitou ao mundo, a inveja é o
sentimento predominante em relação a Microsoft, não a admiração. Os políticos exploram isso, e
através dessas populistas leis antitrustes, arrancam dinheiro das empresas bem sucedidas em
nome da justa competição, ignorando a contradição de que justa competição existe somente
através do livre mercado, não da decisão arbitrária de poucos burocratas. Acusam e condenam a
empresa porque é bem sucedida, e via coerção estatal, tentam transformar este sucesso em algo
mais próximo da mediocridade que domina o mundo. No extremo, gostariam de ver Bill Gates
perder tudo, em nome da igualdade, igualando assim todos na miséria.

Os que se dizem defensores de minorias precisam lembrar que uma das menores minorias de
todas é justamente a classe dos empreendedores, pessoas que arriscam, ousam, inovam e
garantem a evolução da humanidade. Sem falar que a menor minoria de todas é o indivíduo, e
quando a sociedade, tomada pela inveja, crucifica a priori o empresário bem sucedido, está
cometendo uma injustiça. Um criminoso merece o benefício da dúvida, é inocente até que provem
sua culpa. Já um empresário é condenado sem direito de defesa, por uma massa de ressentidos
que adora o sucesso, mas detesta o bem sucedido.
Letargia Mental

“A qualquer hora, envolvendo qualquer problema de sua vida, você é livre para pensar ou se evadir
desse esforço.” (Ayn Rand)

Pensar ou não pensar, eis a questão! Diferente dos animais e plantas, o ser humano não sobrevive
na base de reações automáticas. Sua consciência é volitiva, depende de sua vontade e esforço. O
primeiro estágio da consciência é a sensação, um estado de apreensão produzido pela ação de
um estímulo sobre um órgão dos sentidos. O segundo estágio é a percepção, um grupo de
sensações automaticamente retidas e integradas pelo cérebro. Por fim, temos o estágio conceitual,
onde os homens desenvolvem o conhecimento através do uso da lógica. Este estágio é o que
tanto nos distancia dos demais organismos vivos. Entretanto, não se trata de um processo
automático, mas sim voluntário. O homem deve querer pensar, respeitando seu mais fiel
instrumento epistemológico: a razão.

Como o ato de pensar não é um processo mecânico e as conexões da lógica não são feitas por
instinto, diferente das funções do estômago, pulmões ou coração, o indivíduo depara com a
escolha entre ser ou não consciente. Para tanto, o homem deve decidir focar ou não sua mente.
Da mesma forma que a faculdade da visão não é muito útil até estar focada, do contrário produz
nada mais que um borrão, a mente também deve estar focada. Isso exige esforço contínuo. Em um
extremo, temos o indivíduo que possui a mente ativa, atenta para entender tudo com que ela lida,
na luta para apreender os fatos com clareza, sem preguiça na busca dos dados e de
denominadores comuns para os concretos observados. Tal indivíduo não permite contradições,
buscando a verdade com total honestidade intelectual. No outro extremo, está o homem para quem
tudo além do nível sensório-perceptual é um borrão, uma névoa. A mente encontra-se entorpecida,
tal como a de um bêbado pouco antes de desmaiar. Ela é passiva, errante, atordoada, vivenciando
estímulos ao acaso. Esse homem encontra-se num estágio de completa letargia mental.

Se a escolha individual for pela anti-razão, na crença de que o conhecimento humano ou é


impossível ou cai do além, de alguma divindade qualquer, a pessoa será vítima de constante falta
de foco da mente. Ela irá se sentir cada vez mais cega, insegura e ansiosa. Após algum tempo, o
indivíduo sentirá o foco como uma tensão nada natural, fazendo com que o processo de
pensamento seja relativamente tortuoso e improdutivo. Tal indivíduo ficará bastante tentado a fugir
para um estado passivo. Num grau extremo, a letargia transforma-se em total evasão mental,
quando o indivíduo revoga a própria consciência por vontade própria. Ele se recusa a pensar, na
fuga da responsabilidade de julgamento. Diferente do letárgico, que não se esforça, o evasivo
esforça-se para não enxergar, na esperança de que o fato desaparecerá caso ele não o
reconheça. Podemos dar como exemplo todos aqueles que cometeram suicídio coletivo sob o
comando do reverendo Jim Jones. O caminho inevitável, cedo ou tarde, para quem adota a evasão
mental como filosofia de vida, é a autodestruição. “Deixar a vida levar” costuma levar ao precipício.

Em resumo, o poder de escolha de um homem num processo de pensamento é manter ou não o


vínculo entre sua mente e a realidade. Trata-se de uma questão de volição, onde o homem tem
que escolher ser homem, um ser racional com livre-arbítrio. A alternativa é entregar-se ao acaso,
sendo guiado por forças ocultas, sem a compreensão objetiva da realidade. Este indivíduo será
uma presa fácil para oportunistas de plantão, seguindo como autômato o comando de algum líder,
seja o vizinho, a maioria, o papa, o presidente ou até o reverendo Jim Jones. Para evitar tal destino
e assumir o controle de sua vida, o homem tem que escolher ser homem. Ele deve optar pelo foco
constante de sua mente, num processo que exige esforço contínuo para o ato de pensar. Ser ou
não ser, eis a questão. E para tanto, fica a pergunta: pensar ou não pensar, eis a verdadeira
questão!
O Pecado Original

“A moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, não é de modo algum
dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela.” (Humboldt)

Aquilo que está fora do alcance da escolha está fora da questão da moralidade. Não há como
julgar, sob a ótica moral, o ato de um tubarão devorar sua presa. Ele não tem escolha. Se
consideramos que o homem já nasce mal, ou com tendência a praticar o mal, ele não tem
liberdade de escolha. Se esta “tendência” não está sujeita à sua escolha, o homem e seus desejos
não seriam livres. Tal crença anularia qualquer capacidade de julgamento racional, e os homens
não poderiam sequer falar em moral.

O mito do Pecado Original declara que o homem comeu o fruto proibido, da Árvore do
Conhecimento do Bem e do Mal. Deus havia ameaçado Adão, sob pena de sofrer com sua ira.
Nem mesmo a pergunta inocente do que era o bem e o mal agradara Deus. No Jardim do Éden
não havia espaço para questionamentos e conhecimento humano. Não havia lugar para a razão! O
castigo para o homem foi o trabalho, posto que ele teria que arrancar com seu suor o alimento da
terra. Adão e Eva perderam a pureza, que por esta ótica, nada mais é que ignorância absoluta e
obediência cega, sem questionamentos. O que quer que fossem aqueles seres do Jardim do Éden,
sem valores, razão e trabalho, não eram humanos.

Esta visão religiosa cortou o homem em duas partes, corpo e mente, e fez pior, colocando ambas
em conflito. Um corpo sem mente não passa de uma carcaça, enquanto uma mente sem corpo é
apenas um fantasma. Surgem, então, dois grupos de místicos, os do espírito e os do músculo
(materialistas). Uns acreditam na consciência sem existência e outros crêem na existência sem
consciência. O Bem, para os primeiros, seria Deus, cuja definição é apenas algo além da
compreensão humana. Para os últimos, o Bem seria a Sociedade, um ente que ganha vida própria
e forma física, cujo “prazer” fica acima dos indivíduos. O propósito da vida do homem, para ambos
os grupos, é tornar-se um zumbi que serve um objetivo desconhecido, por razões que ele sequer
deve questionar. O egoísmo racional, entendido como a busca pela satisfação dos interesses
pessoais, é combatido pelas duas vertentes místicas, que pregam o sacrifício humano como o mais
alto valor moral. O homem deve renunciar seus interesses individuais, abandonar seus desejos, e
virar um escravo, seja de Deus ou da Sociedade.

Os místicos espirituais estão bem representados pelos fanáticos religiosos, que defendem um livro
como sendo a Verdade revelada, mesmo que ninguém siga, na prática, todos aqueles
“ensinamentos”. A hipocrisia não tem limite! Esses fanáticos consideram-se conhecedores do
caminho da “retidão”, e querem impor seu modus vivendi aos demais. Do outro lado, os místicos do
músculo estão bem representados pelos marxistas. Se a religião é o ópio do povo, o marxismo é a
cocaína! Marx apenas criou uma nova religião, onde não há lugar para a lógica e a razão. Nos dois
casos, quem perde é o indivíduo, que passa a ser um meio apenas para algum bem maior. Ele se
transforma em um ser sacrificável.

Os místicos transformaram o egoísmo racional no maior vilão de todos. Se o indivíduo devota sua
vida servindo homens que odeia, esta seria a maior virtude que ele pode praticar. Oferecer a outra
face ao inimigo, eis o que pregam, e eis o caminho da desgraça humana. Se um homem obtém
satisfação ou algum benefício ao ajudar alguém, isto não é visto como bom o suficiente, pois não
há sacrifício. Belo é sacrificar sua filha para salvar dez estranhos, pela ótica mística. Tem que
detestar muito a Humanidade para pensar assim. Estamos lidando com uma moral da morte, que
anula a busca dos interesses individuais, que coloca a vida do homem na Terra como mera
passagem para algo melhor, para a vida eterna e perfeita. Marx foi mais esperto, e defendeu o
paraíso terrestre mesmo, em sua “religião”.

Como disse Ayn Rand, pelas palavras proferidas por John Galt em Atlas Shrugged, o homem é sua
mente, e a renúncia disso o transforma em um pedaço de carne pronto para ser devorado por
canibais. A coisa mais egoísta que tem é uma mente independente que não reconhece autoridade
acima dela e nenhum valor maior que seu julgamento da verdade. Eis o grande inimigo dos
místicos, que defendem o sacrifício, que dizem possuir um meio de conhecimento acima da mente
humana, um instrumento superior à razão. Por trás disso, jaz um desejo de poder, de suprimir a
consciência individual para que o rebanho possa ser governado pela força. Os místicos são
potenciais ditadores, que exigem obediência, não convicção real. Questionar é pecado, para essa
gente.

Abdicar da razão, eis o verdadeiro pecado. Deixar de questionar, eis o verdadeiro pecado.
Abandonar os interesses individuais, eis o verdadeiro pecado. Ignorar a liberdade de escolha, eis o
verdadeiro pecado. Não comer o fruto do conhecimento, eis o verdadeiro pecado!
Os Intermediários

“O jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão.” (Benjamin Franklin)

Utopias são, de certa forma, como certas religiões. Uma mensagem nobre, um objetivo abstrato
inalcançável, uma busca por conforto e a certa figura de algum intermediário para apresentar a
fatura de tanta perfeição. Seja o paraíso ofertado nesta vida ou após a morte, existe sempre
alguém, bem vivo e humano, para cobrar pelas chaves que garantem o acesso ao Édem.

Vejamos o caso da grande utopia socialista, calcada no coletivismo, no “bem-estar geral“. Vende-
se o sonho da perfeição mundana, onde cada indivíduo fará parte de um lindo grupo onde ajudar o
próximo é o leitmotiv da vida de cada um. Todos os dias as pessoas acordariam pensando em
como se sacrificar para ver outro feliz. A satisfação buscada é a da abstrata “sociedade”, não dos
indivíduos em si. Curioso que para isso os indivíduos possam sofrer e serem sacrificados,
enquanto sociedade não sente, de fato. Mas um dia Utopia existirá, afirmam, ignorando que o
homem teria que deixar de ser homem para isso, tornando-se uma abelha. Acusam a religião de
ópio do povo, e oferecem em troca o crack. A prova é o Gulag.

Para tal mundo perfeito ser possível, faz-se necessário, claro, a existência dos seus construtores,
dos “sábios” iluminados. Eles, representados na nomenklatura, terão que concentrar poder para
atingirem a “nobre” causa. Os fins são lindos, e justificam quaisquer meios. Como não é o indivíduo
um fim em si, mas sim o “bem geral”, sacrificar algumas pessoas no altar da ideologia não tem
problema. Fidel Castro, por exemplo, está ainda hoje tentando apenas construir esse “belo”
mundo. Foram “só” pouco mais de 40 anos de luta pela “boa” causa, e algumas milhares de perdas
no caminho, com o resto na total miséria e escravidão. Um “pequeno” preço a se pagar pelo sonho
socialista...

Como os adeptos dogmáticos dessas ideologias consideram-se monopolistas da virtude e da


Verdade, somente através da fé, jamais ocorre sentimento racional de culpa. Eles lutam pela boa
causa, assim como os terroristas que jogam aviões em prédios por Alá, ou explodem um metrô.
Claro que neste processo, resultados bem concretos e terrestres acontecem, como a morte de
inocentes e o enriquecimento ou concentração de poder de outros humanos, os intermediários da
boa causa. Brasília, para “distribuir” riqueza, precisa antes acumular muita, como vemos.

Para o indivíduo entrar em contato com o deus específico de alguma religião, deverá pagar uma
módica quantia para o mensageiro. Assim, miseráveis pagam o dízimo para uma igreja, enquanto
os pastores utilizam o dinheiro em vida. O saldo devedor fica a cargo da divindade, para o credor
cobrar quando seu coração parar de bater. Se isso for impossível, paciência: será tarde demais!
Desta forma, vemos vários pastores vivendo na riqueza, representantes de Alá com confortável
vida em Paris e a própria Igreja Católica concentrando uma invejável riqueza material, enquanto
prega a humildade e pobreza. De maneira similar, os súditos sustentam a burocracia em nome do
“bem geral”, do coletivo, enquanto os burocratas agradecem, e vivem no conforto, com abusivos
poderes. O povo paga a conta, com impostos que chegam a 40% do PIB.

Os dissidentes precisam desaparecer! Representam um empecilho à causa. Os pagãos merecem


a Inquisição, e os individualistas, que recusam-se a ver suas vidas como desprezíveis para o bem
da “coletividade” abstrata, merecem os gulags. Direita religiosa totalitária de um lado, esquerda
socialista do outro, e no meio as vítimas! Obedecer algum deus ou o Estado, eis as opções. O
primeiro representado por alguns homens que descobriram “A” Verdade revelada, e o último
representado pelos políticos e burocratas “iluminados”.

Mas o individualismo é que é uma praga! Onde já se viu alguém defender que cada indivíduo é um
fim em si? Que ele não deve ser sacrificável em nome de outro bem qualquer, seja divino ou
terrestre? Que a busca da sua felicidade é o moralmente correto? Que, contanto que suas ações
não invadam a liberdade dos demais, ninguém tem nada com isso? Que, se ele acredita em deus,
pode tentar entrar em contato direto na sua solidão? Nesse caso, sem que o indivíduo tivesse que
depender de outro para ser feliz ou chegar ao “paraíso”, o que seriam dos intermediários? Melhor
oferecer ópio e crack, para criar dependência. O burocrata socialista e o pastor agradecem...
Os Relativistas

“That which you do not know, is not a moral charge against you; but that which you refuse to know,
is an account of infamy growing in your soul.” (Ayn Rand)

Os homens são seres racionais, mas é preciso lembrar que a racionalidade é uma questão de
escolha. É preciso querer ser homem, já que temos consciência volitiva, dependente da nossa
vontade de pensar, que não é um ato automático. Portanto, decidir buscar a razão e a lógica é o
que nos torna homo sapiens, e não chimpanzés reagindo apenas por instinto.

O primeiro axioma lógico é que a existência existe, e se algo existe e o percebemos, isso implica
que quem o percebe possui consciência, sendo ela a faculdade de perceber aquilo que existe.
Logo, descartamos de cara os místicos que alegam que nada existe de fato, pois a consciência de
que nada existe é uma contradição. A fórmula básica que define essa existência seria A é A, dado
que a existência é uma identidade, e a consciência uma identificação. Essa lógica é a arte da
identificação não-contraditória. Contradições não podem existir em um mundo lógico. E somente o
uso da razão, através do pensamento, pode aprimorar nosso conhecimento lógico.

É desumano e irracional, portanto, abdicar dessa ferramenta. Infelizmente, não são poucos os que
abandonam o raciocínio lógico na busca honesta pela verdade. Muitos esquivam-se da
responsabilidade de pensar, renunciando à necessidade de julgamento dos fatos. Assumem que é
impossível conhecer certas verdades, alegam que não existem absolutos, e partem para um
mundo nebuloso onde a realidade é negada, e a lógica é solapada pela ignorância opcional.
Entretanto, a realidade é objetiva, e sua negação não altera este fato, não anula sua existência,
podendo somente aniquilar o autor de tal desejo irracional. Seria como um ignorante que se joga
de um penhasco desconhecendo a lógica da física, na esperança de que uma fé mística qualquer
no desconhecido poderia impedir sua queda. O resultado é sua destruição no solo. Uma verdade
absoluta!

Os relativistas de plantão não gostam de reconhecer fatos. Afirmam que, pelo fato do homem não
ter certeza absoluta de nada, qualquer debate lógico é improfícuo e desnecessário. Fogem,
quando confrontados por uma verdade que os incomoda, pela afirmação de que cada um tem sua
opinião, sendo o veredicto desconhecido. Repetem que aquele que nada sabe é o mais sábio,
enaltecendo a ignorância, sem perceber a contradição de que precisam contar com uma suposta
sabedoria para validar tal conclusão. Colocam o “sentir” acima do pensar, ignorando a contradição
de que é preciso pensar para defender isso. Pregam que o desejo é superior à razão, sem se dar
conta que os desejos são reflexos dos valores que podem e devem ser questionados pela razão.
Defendem-se da ignorância na alegação de que não existem absolutos, ignorando a contradição
de que este seria um absoluto. Em resumo, partem para o relativismo quando não mais possuem
argumentos concretos e lógicos para defender algo irracional.

O conhecimento dos homens é limitado, evidentemente. Mas isso nem de perto é o mesmo que
afirmar que nada sabemos. E não é porque ninguém é "dono" da verdade que o conhecimento de
um asno e um sábio são equivalentes. Saímos da Idade das Trevas, um apagão da mente humana
pela supressão do misticismo, por conta da lógica de certos indivíduos, do conhecimento objetivo
de alguns. Adotar uma postura humilde de poder estar errado é fundamental, mas admitir que a
verdade existe e que podemos testar as teorias objetivamente é mais importante ainda. Um
inventor é alguém que não deixa nada ficar entre seus questionamentos e a verdade. Foram esses
questionamentos concretos e suas respostas lógicas que nos trouxeram avanços medicinais,
tecnológicos e culturais. Um avião não voa por um milagre oculto qualquer, mas pela lógica das
mentes brilhantes de seres racionais. Um remédio não salva uma vida por sorte, mas pelo
conhecimento humano. Tentem imaginar como sobreviveriam sozinhos numa caverna, e se teriam
capacidade de criar o mundo moderno, para terem noção do que nos distancia dos primatas: o
conhecimento objetivo.
Dogmas são perigosos pois partem de uma "certeza" baseada na fé, não na razão. Mas verdades
existem e os homens possuem capacidade de conhecê-las. Como saber o que é bom ou mau?
Como reconhecer algo moral ou imoral? Como definir uma mentira ou verdade? Eis as perguntas
que o relativista usa, somente quando o debate em questão é contrário, pela lógica, ao seu ponto
de vista irracional. Um pai estuprar um filho é imoral e errado, ele sabe. Um feio estuprar uma bela
donzela também é imoral. Mas um pobre “estuprar” a propriedade de um rico em nome da
“necessidade” pode ser considerado moral, quando tal flexibilidade o interessa. Um relativista é um
mestre dos dois pesos e duas medidas. Atrocidades cometidas por orientais não passam de
"diferenças culturais", mas as praticadas pelos ocidentais, de preferência americanos, são
condenáveis objetivamente. Ele não pode ter certeza de nada, mas tem certeza que o capitalismo
é maléfico ao homem. O relativista é um hipócrita.

Para não deixar a realidade aparecer e ser forçado a reconhecer um erro, o intelectualmente
desonesto ignora os fatos, mas não troca a teoria. Não liga que para sugerir o “caminho do meio” é
necessário definir antes os extremos. Condena qualquer extremo como se não fizesse diferença
entre ser extremamente burro ou extremamente inteligente, extremamente íntegro ou
extremamente pérfido. Defende um ponto de encontro no meio, condenando claramente o bom em
detrimento do ruim. O covarde que se nega a julgar, nem concordando nem discordando,
esquivando-se da responsabilidade de buscar a verdade objetiva, acaba contemporizando com o
mal. E quando o veneno se junta à comida saudável, é o veneno que vence. Eis a única
consequência plausível do mundo dos relativistas.
A Fábrica da Inveja

A lei moral de que o justo é tirar de cada um de acordo com sua habilidade e dar para cada um de
acordo com sua necessidade corrompeu milhões de corações ao longo dos anos, e ainda o faz. No
entanto, nada poderia ser mais imoral, injusto e ineficaz que este conceito. A novelista Ayn Rand
fez um dos melhores retratos das conseqüências dessa máxima colocada em prática, no seu livro
Atlas Shrugged, assim como expôs com perfeição os reais motivadores de seus defensores.

Na ficção, infelizmente nada distante da realidade de muitos, uma fábrica de motores decidiu votar
um plano onde todos os funcionários iriam trabalhar de acordo com suas habilidades, mas o
pagamento seria de acordo com as necessidades. Falaram que o plano objetivava um nobre ideal
de justiça. Era chegada a hora de acabar com a ganância individual, com a busca pelo lucro, com
a competição selvagem. Todos os trabalhadores seriam uma grande família, e o bem coletivo seria
colocado à frente dos interesses particulares.

Um ex-operário relata como o plano funcionou. Tente colocar água num tanque onde há um duto
no fundo drenando o líquido mais rápido do que você é capaz de enchê-lo, e quanto mais você
joga água dentro, maior fica o duto. Quanto mais você trabalha, mais é demandado de você, até
que suas horas trabalhadas multiplicam-se para que seu vizinho tenha sua refeição diária, a
esposa dele tenha a operação necessária, sua mãe tenha a cadeira de rodas, o tio dele tenha a
camiseta, o sobrinho a escola etc. Até pelo bebê que ainda não veio, por todos à sua volta, mais e
mais é demandado de você, sempre em nome da “família”. A cada um pela necessidade, de cada
um pela habilidade.

Foi necessário apenas uma reunião para perceberem que todos haviam se transformado em
vagabundos pedindo esmolas, pois ninguém poderia reclamar um pagamento justo, não havia
direitos e salários, seu trabalho não lhe pertencia, mas sim à “família”, e nada era devido em troca,
sendo o único direito sobre ela a “necessidade”. Cada um tinha que demandar tudo, alegar
misérias, pois suas misérias, não seu trabalho, tinham tornado-se a moeda de troca. Ninguém
podia mais nada. Afinal, ninguém era pago pelo trabalho, pelo valor gerado, mas apenas de acordo
com a “necessidade”. Em pouco tempo, sendo a necessidade algo subjetivo, todos passam a
necessitar de tudo, e a “família” experimenta enorme crescimento de ressentimento mútuo,
trapaças, mentiras. A cirurgia da mãe do vizinho passa a ser vista com desconfiança, pois seu
trabalho que paga a conta. Cada nova demanda através do apelo de “necessidade” gera mais
intrigas e brigas.

Bebês foram o único item de produção em alta, pois ninguém tinha que se preocupar com os
custos dos cuidados de um filho, já que a conta recaía sobre a “família”. Além disso, não havia
muito o que fazer, pois a diversão era vista como algo totalmente supérfluo, um dos primeiros itens
a ser cortado em nome da “necessidade” de todos. A diversão passa a ser vista quase como um
pecado. Um dos meios mais fáceis de se conseguir um aumento no pagamento era justamente
pedir uma permissão para ter filhos ou alegar alguma doença grave.

Não há meio mais seguro de destruir um homem que forçá-lo a um mecanismo de incentivo onde
seu objetivo passa a ser não fazer o seu melhor, onde sua luta é por fazer um trabalho ruim, dia
após dia. Isso irá acabar com ele mais rápido que qualquer bebida ou o ócio. A acusação mais
temida era a de ser mais habilidoso que o demonstrado, pois sua habilidade era como uma
hipoteca que os outros tinham sobre você. Mas para que alguém iria querer ser mais habilidoso, se
seus ganhos estavam limitados pela “necessidade”, e suas habilidades significariam apenas mais
trabalho pesado para que outros ficassem com os benefícios?

A explicação dos motivos que levaram tal plano a ser aprovado está na passagem em que o ex-
operário diz que não havia um único homem votando que não pensasse que sob tais regras
poderia avançar sobre os lucros de outros homens mais habilidosos que ele. Não havia alguém
rico ou esperto o suficiente que não achasse que alguém seria mais rico ou mais esperto, e que tal
plano daria a ele uma parcela de sua maior fortuna ou cérebro. O trabalhador que gostava da idéia
de que sua “necessidade” lhe daria o direito a ter o carro que seu chefe tinha, esquecia que todos
os vagabundos do mundo poderiam demandar aquilo que ele tinha conquistado pelo seu trabalho.
Este era o verdadeiro motivo para a aprovação deste plano igualitário, mas ninguém gostava de
refletir sobre o assunto, e quanto menos gostavam da idéia, mais alto gritavam sobre o amor pelo
bem geral.

A fábrica continuou perdendo os melhores homens, pois os habilidosos “egoístas” fugiam como
podiam para lugares onde pudessem trabalhar pelos seus próprios interesses, sem terem o fardo
de sustentar os parasitas. Em pouco tempo, não havia mais nada além dos homens
“necessitados”, pois não tinha um único homem de habilidade. E a fábrica teve que começar a
apelar para as suas necessidades tentando não perder todos os seus clientes, pois seus produtos
não mais eram competitivos ou eficientes. Mas qual o bem que faz aos passageiros de um avião
um motor que falha em pleno vôo? Se o produto for comprado não pelo seu mérito, mas por causa
da necessidade dos empregados da fábrica ineficiente, seria isso correto, bom ou a coisa moral a
ser feita pelo dono da empresa aérea? Se um cirurgião compra um equipamento não pela sua
qualidade, mas pela necessidade dos funcionários do produtor, seria isso correto com seu
paciente?

No entanto, é esta a lei moral pregada por vários líderes, intelectuais e filósofos do mundo. A cada
um pela necessidade, de cada um pela capacidade. A fábrica da inveja, na brilhante novela de Ayn
Rand, faliu, virou uma fábrica de miséria, assim como os países socialistas que tentaram adotar a
mesma máxima de vida.
Caridade ou Justiça?

“Amar a Humanidade é fácil; difícil é amar o próximo.” (Nelson Rodrigues)

O discurso “politicamente correto” diz que nobre é o amor incondicional, que não faz distinções
entre indivíduos, que não julga atitudes, que não depende da razão. Seres humanos deveriam
apenas sentir o amor, sem buscar entender o porquê desse sentimento. Deveriam amar todos,
independente de quem são. E desta forma seriam caridosos com todo tipo de gente, incluindo os
imorais, pérfidos e marginais. Afinal, tais características não são levadas em conta quando o amor
é incondicional, quando o relativismo diz para não julgarmos, pois não sabemos o que é certo ou
errado, moral ou imoral. Amar um assassino! Eis o recado, no limite, dessa visão “nobre” do amor
incondicional.

Peguemos como exemplo o sociólogo e psicólogo Erich Fromm, que foi bastante reconhecido pela
elite pseudo-intelectual nos anos 50. Ele teria defendido a idéia de que o homem é uma aberração
do universo, alienado por ter perdido a harmonia com a natureza, presente nos demais animais.
Em resumo, a culpa dessa alienação seria sua mente, sua capacidade de pensar. O conhecimento
da morte, por exemplo, tiraria o processo natural instintivo que está presente nos outros animais
irracionais. O ideal é a fuga pela ignorância, para essas pessoas. Fromm apresenta como solução
para a alienação humana o amor, devendo ser este incondicional, independente do mérito dos
indivíduos, já que o mérito invoca dúvida e incerteza, através da necessidade de julgamento do
merecimento ou não desse sentimento. Assim, todos deveriam amar todos, não importando os
valores racionais que cada indivíduo possui. “Todos são parte de um mesmo todo”, explica o autor.

Não é preciso muita inteligência para perceber quem ganha e quem perde com esse tipo de “amor”
incondicional. A pessoa virtuosa, o íntegro, honesto, inteligente, determinado, não é merecedor, na
ótica de Fromm, de um amor melhor ou diferenciado em relação a um inescrupuloso, safado,
pérfido e mau caráter. Amar a todos de forma igualitária é dispensar o julgamento de valores, é
colocar todos no mesmo saco, é abdicar da razão, é condenar os bons e enaltecer os maus. O
maior elogio que alguém racional pode receber é outro ser humano falar-lhe que o ama pelo que
ele é, pelos seus valores e caráter, e por causa dessas características, ele é fundamental para a
felicidade do outro. Mas para Fromm e muitos outros defensores do amor incondicional e irracional,
isso está errado, pois considera necessário para o sentimento de amor o merecimento ou não dele,
coisas dispensáveis quando se deve amar por amar, sem lógica ou razão. Os “igualitários”, que
pretendem atacar a meritocracia, seja no capitalismo econômico, seja no amor, se julgam
defensores dos fracos e oprimidos, mas são na verdade combatentes dos valores corretos e do
sucesso justo. Separar amor de valores racionais é confessar que o sujeito deve receber o que não
merece, uma agressão completa ao conceito de justiça.

Os indivíduos que são íntegros, honestos, detentores de sólidos valores, não podem desejar
admiração sem causa racional, cegamente e instintivamente, somente pelo inexplicável e
incompreensível coração. Essas pessoas têm muito de bom para mostrar, para dizer, e são
confiantes de seus sólidos princípios, para considerarem aceitável uma dissociação entre coração
e mente, entre sentir e pensar. Um é reflexo do outro. E portanto o amor será um reconhecimento
desses valores, será fruto de um julgamento justo e racional. Como teria dito Blaise Pascal, o amor
pode ter razões que a própria razão desconhece, mas nem por isso devemos aceitar essa
ignorância humana como justificativa para não precisarmos buscar racionalmente os valores que
nos levam a amar alguém. O amor verdadeiro, que não é somente uma patologia, é o amor que
reconhece os valores racionais do outro.

Mas tal justiça acaba sendo condenada pelos que não se julgam merecedores de reconhecimento
racional. E esses inescrupulosos invertem os fatos, acusando os justos de insensíveis, pregando a
caridade como ato mais nobre que a justiça, onde quem não merece o reconhecimento dos seus
valores é exatamente quem deveria ser reconhecido e amado. Defendem o sentimento do amor
sem a necessidade da razão, dos valores morais, da lógica, justamente porque tais critérios iriam
demonstrar que essas pessoas não são merecedoras desse sentimento. Essas pessoas são
simpáticas à culpa, sem nenhuma estima pelos inocentes. Colocam a culpa dos seus fracassos,
assim como o mérito do sucesso alheio, em fatores exógenos, para não terem que admitir a justiça
da meritocracia. Estão, assim, buscando nivelar todos por baixo, destruindo o mérito do correto
para valorizar o incorreto. E acusam os justos de frios e insensíveis, pois a justiça os colocaria
novamente no seu devido lugar. Os inescrupulosos utilizam as qualidades dos virtuosos, não seus
defeitos, para os agredir. Afinal, chamar de insensível um insensível, ou de sem caráter quem não
possui caráter, não surtiria efeito algum no alvo. É preciso que o acusado tenha sensibilidade para
que a acusação de insensível o atinja, e os pérfidos usam isso contra eles. Quanta inversão de
valores!

A defesa da caridade, no sentido de dispensar o julgamento de mérito da pessoa em questão, é


contraditória aos valores de justiça. Caridoso, para essas pessoas, é quem ama sem motivo, quem
dá sem merecimento, quem recusa o julgamento racional de valores. Caridoso seria quem amasse
o inescrupuloso, dado que amar o virtuoso não seria mais que justo. Caridoso seria quem amasse
incondicionalmente. Não pode haver nada mais injusto que isso. A verdadeira caridade, para quem
valoriza a moral, o correto e o bom, é defender a justiça!

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