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Resenha

“Agiste conforme o teu desejo?” moveram sua escrita: “Por que Lacan,
Antígona e a ética trágica da ao formular a ética própria à psicanálise
psicanálise, de Ingrid Vorsatz. Rio de como sendo uma ética do desejo, recorreu
Janeiro: Zahar, 2013, 248p. à Antígona de Sófocles?”, “Em que a tragédia
antiga ilumina a ética própria à psica-
Betty B. Fuks nálise?”. Essas indagações são o próprio
Professora da Pós-Graduação em questionamento do que move uma escrita
Psicanálise, Saúde e Sociedade da que, na trilha aberta por Freud, tem como
Universidade Veiga de Almeida/RJ.
referência teórica a aliança entre o psica-
nalista e aquele que o antecede, o poeta,
seu mais precioso aliado. Ora, um traba-
Dizia Mário Quintana que quem escreve lho deste porte não poderia ser realizado
poesia resgata um afogado. Ligar este dito caso a autora tivesse sido acometida pelo
à escrita de um livro extremamente didá- conhecido furor obsceno de muitos ana-
tico é a tarefa a que me proponho nesta listas em aplicar conceitos psicanalíticos
resenha de Antígona e a ética trágica da psicanálise. à arte. Muito ao contrário: seu método de
Ingrid Vorsatz, psicanalista, conhecedora investigação consistiu em abordar a bela
exímia do apogeu da civilização ática no e trágica figura de Antígona pelo avesso,
século V anterior à era crista, mergulha, até extrair o elemento que teria capturado
a um só tempo, em universos separados Lacan em sua fundamentação da ética
pelo tempo cronológico — Antígona, de da psicanálise — a posição de absoluta
Sófocles e a psicanálise. O resultado sur- solidão da filha de Édipo, do que nela
preende: a autora desenvolve, de forma resulta “inantecipável e imprevisível, do
precisa e extremamente poética, uma que ainda não fez a passagem do silêncio
analogia entre a cena da tragédia antiga, à palavra”.
apresentada pela decisão inarredável e Assim, entre os passos e rastros da
solitária de uma mulher em enterrar o obra do mestre de Paris, Ingrid apresenta
corpo do irmão, sob pena de ser levada a problemática da ética na tragédia como
à morte pelo rei de Tebas, e a cena analí- portadora de uma enunciação singular,
tica, na qual ao sujeito moderno cabe se sem com isso constituir um saber sobre
responsabilizar pelo desejo inconsciente, ética, como o é a filosofia. A tragédia in-
ao preço de uma perda. terroga, questiona, problematiza em ato,
Tudo começa pela coragem de Ingrid ao invés de buscar respostas em deter-
em permanecer fiel à letra de Lacan e de minado saber. Ela escancara a céu aberto
se responsabilizar, com muita proprieda- o paradoxo daquilo que, mesmo tendo
de, por tal escolha. À moda de Antígona, advindo da injunção divina, não exime a
isto é, sem concessões e reconciliações, responsabilidade humana; ao contrário,
não abdica de perseguir as questões que a convoca.

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Face essa diferença, surge uma nova consonância com a formulação lacania-
indagação: Qual é a relação entre ato e na sobre juízo ético apresentado em A
desejo? — a qual serve de dobradiça para ética da psicanálise — “Agiste conforme o
a autora articular tragédia antiga e cena teu desejo?”. Aqui se clarifica por que
analítica. O leitor é então convidado a se o desejo move e convoca o sujeito à
inteirar da função real da tragédia antiga, responsabilidade por aquilo que, sendo
ao mesmo tempo em que a autora, no o mais radicalmente alheio, é também
esteio da teorização lacaniana, apresenta paradoxalmente, o mais íntimo. A análise
o campo do desejo incidindo sobre o real. da complementaridade entre o incons-
Tal enfoque deixa claro que, na aurora do ciente freudiano e juízo ético é a base da
século XX, a psicanálise resgata o retorno formulação de que “desde a perspectiva
da tensão característica da tragédia antiga da ética da psicanálise o desejo se formula
pela qual um sujeito é convocado a res- em impasse: ‘Deseje!’. Este imperativo é
ponder por aquilo que se lhe apresenta descontínuo com a lei (mas em referência
como radicalmente exterior, bem como a esta) e se realiza em ato, sob a regência
inassimilável ao conhecimento, o real. do mais além do princípio do prazer. É
Os desdobramentos dessa tese inicial essa mesma ordem de acontecimento que
não poderiam deixar de desembocar num a Antígona de Sófocles apresenta: a heroína
estudo sobre a tragédia Antígona. Acompa- trágica age em conformidade à injunção
nhada por helenistas, filósofos e mitólogos que, advinda de um lugar Outro, a torna
apaixonados pela última peça da trilogia sua lei, aquela que fundamenta o seu ato.
tebana, Ingrid convoca o leitor a conhecer E se Antígona está no centro da elaboração
o universo, tão distante quanto próximo a lacaniana da ética da psicanálise é porque
si mesmo, da tragédia antiga. Dona de uma seu ato é o emblema “da ética do sujeito
invejável erudição e poder de transmissão, posto em cena”.
consegue aberturas para o infinito da peça A ética na qual o analista deve basear
de Sófocles sem o menor constrangimen- sua práxis não é da mesma ordem daquela
to, graças ao seu estilo de narrar claro e atribuída a outras profissões ou ofícios
sintético. Sob a força dessa abordagem regidos por um código de regras. Na ética
interdisciplinar, o livro torna-se referên- da psicanálise, o que rege o ato do analista,
cia obrigatória para todos os campos do não pode sustentar-se em nenhum suposto
saber que se interessam pela ética, como Bem Supremo, pois não se trata de uma
escreve o filósofo e escritor renomado, técnica voltada para a felicidade. Nem
Luiz Alfredo Garcia-Roza, na contracapa. poderia ser, como demonstra Ingrid em
No campo da psicanálise, a astúcia da seu estudo consequente sobre o seminá-
autora em fazer o analista mergulhar no rio de Lacan O ato analítico, cujas diretrizes
universo grego significa uma confortável permitem sublinhar a dimensão objetal
antessala para que possa apreender melhor do sujeito da psicanálise que, como o
a enigmática ideia lacaniana do desejo herói trágico, advém de uma perda. É a
como dever ético. essa consideração que se dedica a autora,
Sobre o tema da responsabilidade de maneira audaciosa e apaixonada, ao
trágica, a autora propõe uma interessante demonstrar que a problemática ética posta
torção entre causalidade e responsabili- em causa pela psicanálise encontra-se
dade, retomando as raízes do conceito implicada tal como condensada na for-
freudiano do inconsciente em íntima mulação freudiana elevada à condição de

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imperativo ético por Lacan: “Onde isso


estava, o eu advirá”.
Na babel lacaniana do cenário psi-
canalítico contemporâneo, Antígona e a
ética trágica da psicanálise merece saudações
pela audácia das teses sustentadas e pela
escrita totalmente despida de jargões que
frequentam as publicações psicanalíticas
contemporâneas. Sem dúvidas, Ingrid Vor-
satz mergulhou na terceira margem do rio,
como o herói do conto de Guimarães Rosa
que decide abandonar a família e ir-se
numa canoa para o meio do rio sem nunca
voltar a uma das duas margens possíveis.
Desse lugar solitário, nossa autora sustenta
a decisão de exercer, em ato, o desejo de
transmissão de um saber que não se sabe.

Recebida em 20/7/2013.
Aprovada em 10/9/2013.

Betty B. Fuks
betty.fuks@gmail.com

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