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San Tiago Dantas – Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais

Paula de Campos Elias

A mídia e a percepção da sociedade civil nas relações internacionais

“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!” Aforismo popular

Resumo

Este trabalho tem como objetivo analisar a influência da mídia nas percepções da
sociedade civil nas relações internacionais. O presente artigo está dividido em introdução,
análise do poder político midiático, uma revisão teórica do conceito de percepção nas relações
internacionais, análise relação entre mídia e as classes governantes baseada em teorias de
estudiosos de comunicação e política, e uma análise da guerra do Iraque como caso prático.

Palavras-chave: mídia, percepção, relações internacionais, Iraque.

Introdução
Introdução

As décadas de 1980 e 1990 trouxeram grandes mudanças às relações internacionais,


notoriamente às maneiras que a sociedade civil se relaciona com Estados e, notoriamente,
com as sociedades civis de outras nacionalidades. O avanço tecnológico fez com que o mundo
ficasse menor, encurtou as distâncias: melhores meios de transporte e, principalmente,
melhores meios de comunicação tornaram possível uma interação humana muito mais fácil e
rápida. Pela primeira vez na história, a mídia jornalística foi capaz de transmitir um fluxo
constante de notícias globais em tempo real.1Ademais, uma vez livres do cerceamento que a
batalha ideológica da Guerra Fria impunha à redação e transmissão de notícias, jornalistas se
viram livres para não só reportarem o que desejassem, mas também avaliar e opinar sobre as

1
PIERS, Robinson. The CNN Effect: The myth of news, foreign policy and intervention. New York:
Routledge, 2002. 177 p.
ações do governo norte americano.2 O colapso do consenso da Guerra Fria significou que
diferenças entre elites políticas são regra, não exceção: defesa das ações presidenciais deixou
de ser automática ou durar indefinidamente, e acabou o controle exclusivo do governo sobre a
maioria das notícias de política externa.3
As novas tecnologias fizeram com que o escopo do debate político fosse aumentado,
pois a mídia passou a prover informação suficiente de forma que, além passar a ser um fator a
ser considerado no jogo político – pois os governantes e elite política teriam de calcular a
repercussão midiática de suas ações -, fez com que a sociedade civil tivesse conhecimento o
suficiente para conseguir discutir políticas públicas com embasamento4. Uma mídia mais
rápida e acessível combinada com melhores meios de comunicação levou ao surgimento de
novas arenas de debate e novos canais para que a população pudesse expressar suas demandas
e preferências políticas; também fazendo com que sociedades de países diferentes pudessem
se comunicar, se relacionar e até se identificar uma com a outra.

O poder político midiático

Desde a década de 1970 estudiosos das relações internacionais vinham chamando a


atenção para a emergência de novos atores no sistema internacional, em oposição à visão
realista – até então predominante – de que os Estados eram os únicos atores relevantes e que
qualquer mudança na política internacional era decorrente de um rearranjo da distribuição de
poder entre os Estados. A concepção tradicional segundo a qual os agentes das relações
internacionais eram o diplomata e o soldado passou a ser questionado, e novas análises
acadêmicas passaram a destacar a importância de novos atores e novos processos – ainda que
o caráter estadocêntrico das teorias de Relações Internacionais só fosse de fato questionado
décadas mais tarde. Conforme destacado por Keohane e Nye, passou-se a ter a noção de que
as relações internacionais não acontecem no vácuo e que são fortemente influenciadas pela
natureza da política doméstica nos vários Estados, conforme ilustrado na figura que se
segue5:

2
Ibid.
3
ENTMAN, Robert M. Projections of Power: Framing News, Public Opinion, and U.S. Foreign
Policy. Chicago, University of Chicago Press, 2003. 200p.
4
PIERS, Robinson. The CNN Effect: The myth of news, foreign policy and intervention. New York:
Routledge, 2002. 177 p.
5
KEOHANE, Robert e NYE, Joseph (orgs). Transnational Relations and World Politcs. Cambridge,
Harvard University Press, 1971.
A mídia constitui uma parte importante dos processos políticos domésticos e
internacionais: é através de notícias, artigos e reportagens que o cidadão comum se informa
sobre os principais eventos mundiais e constrói gradualmente sua visão de mundo e
percepções sobre temas (como guerra, paz, armamentos, meio ambiente), atores (Estados,
instituições, políticos, empresas, ONGs) e processos (globalização, integração regional,
interdependência). Dessa forma, os agentes envolvidos no jogo político passam a incluir a
imprensa nos cálculos de tomada de decisão: uma notícia com um enquadramento favorável
pode influir, por exemplo, no apoio popular a um certo candidato ou uma certa política
publica. Os governos passaram a ser sensíveis à grande mídia, prestando contas, divulgando
projetos, dando entrevistas coletivas, em suma, sendo em certa medida responsivos ao
jornalismo; justamente por terem ciência que seus eleitores e demais elites políticas buscarão
na mídia informação na qual basear suas escolhas.
A influência política da imprensa decorre de sua prerrogativa de retratar as noticias de
maneiras que possa favorecer alguns em detrimento de outros ao interferir diretamente na
formação de opinião e percepção dos indivíduos6. Para melhor entender o poder midiático e
seu impacto na vida política de um país, basta trazer à tona alguns casos de escândalos
políticos – como o caso Watergate7. Também é de vital importância destacar que com o
avanço da tecnologia que permite que um fluxo cada vez maior de informações seja adquirido
por jornalistas e repassado para o grande público, a vida pessoal dos líderes políticos também

6
ENTMAN, Robert M. Projections of Power: Framing News, Public Opinion, and U.S. Foreign
Policy. Chicago, University of Chicago Press, 2003. 200p.
7
Para mais informações sobre o caso Watergate consultar: http://www.washingtonpost.com/wp-
srv/politics/special/watergate/ (acessado em agosto de 2010)
vira alvo de escrutínio e, por vezes, motivo de escândalo, conforme aconteceu com Bill
Clinton e seu suposto caso com uma estagiária da Casa Branca8. Pode-se dizer que as
questões políticas e os próprios governantes passam a ser julgados a todos tempo por
parâmetros morais, por conjuntos de valores específicos.
Apesar dos líderes políticos terem suas ações e suas vidas analisadas minuciosa e
constantemente pela imprensa, é de vital importância destacar que o poder midiático pode ser
e é freqüentemente usado para promover ou validar planos de governo de políticas públicas.
As elites políticas, cientes do poder midiático e sua capacidade, provém informações e relatos
calculando o impacto que sua divulgação para o grande público causará, e como usá-lo em
benefício próprio: seja para se eleger, aprovar certas medidas, criticar outras elites políticas ou
aumentar a aceitação de sua própria percepção do mundo.
Esse não é um fenômeno novo: desde de seu nascimento a imprensa – e também, muitas
vezes, a arte - serviu como meio de disseminar, propagandear ou validar as vontades, idéias e
projetos dos mais poderosos. Seja em jornais impressos, peças de teatro, programas de rádio,
propagandas televisivas, filmes ou cartazes; muitos governos já usaram a mídia como meio
para promover suas ações ou visões de mundo. Um dos exemplos mais ilustrativos é a
propaganda nazista, veiculada no rádio, no cinema, na mídia impressa, sob a direção de
Joseph Goebbels. Não obstante, o avanço da tecnologia faz com que seja possível circular
certas opiniões em maior fluxo e em mais meios de comunicação, de fato, estende o alcance
de certas elites na formação da opinião pública.
Idealmente, uma imprensa livre equilibra a posição oficial com uma perspectiva mais
imparcial que permita ao público deliberar sobre as decisões de forma independente e
informada. Mas, na prática, a relação entre as elites governantes e organizações de notícias é
menos distante e mais cooperativa do que o ideal, especialmente em assuntos externos: os
políticos, cientes da importância da percepção pública de sua atuação, dão entrevistas
exclusivas, informações privilegiadas em troca de uma notícia retratando o que lhe convém. A
questão é realmente uma questão de grau: o quão perto é a associação? Como é exatamente
esta conexão refletida no noticiário? E quais são os efeitos sobre a política externa e de
responsabilidade democrática?
Antes de analisar um caso prático que elucide essas questões, cabe um interlúdio para
tratar de dois tópicos relevantes para uma compreensão mais plena da relação entre mídia,
governo e percepção publica: o próprio conceito de percepção segundo estudiosos de

8
Para mais informações consultar: http://www.washingtonpost.com/wp-
srv/politics/special/clinton/players/lewinsky.htm
Relações Internacionais, e uma pequena revisão teórica sobre o que acadêmicos de
comunicação e política escreveram sobre as relações mídia e governo.

O conceito de percepção
percepção e as Relações Internacionais

Percepção é um processo psicológico básico através do qual indivíduos se identificam


com o ambiente no qual estão inseridos, o qual tem como característica básica o ato de
seleção, que escolhe alguns estímulos em detrimento de outros para definir uma certa
situação, pessoa ou “idéia”, “valor”.9 Assim, em última instância, a opinião pública é o
conjunto das percepções de cada indivíduo que a compõe sobre o assunto em questão,
formadas pelos estímulos por ele recebidos – dentre eles, notoriamente, o tipo de mídia que
consome. Assim, a tomada de decisão de indivíduos – seja do eleitor no voto, seja do
presidente ao decidir, por exemplo, intervir num país – é extremamente influenciada pelas
percepções que são ativadas por aquela situação em particular. Na passagem a seguir
Alexander Wendt elucida a importância das percepções nas relações internacionais com
exemplos práticos, assinalando quão relevante elas são no processo de decision-making.

10

Conforme assinalado por Wendt, são os “significados coletivos”, as noções e


percepções compartilhadas que constituem as estruturas na qual nossas ações são organizadas,
que preenchem o espaço para que as relações internacionais não aconteçam no vácuo, como

9
EVANS, Graham e NEWNHAM, Jeffrey. Dictionary of International Relations. London, Penguin
Reference, 1998. 623p.
10 WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics.
International Organizations, 46, 2, Primavera de 1992. PP. 391-425.
assinalado por Nye e Keohane11. Os avanços na tecnologia que possibilitam um fluxo de
informações mais constante e maior fazem com que os cidadãos tenham mais estímulos que
geram percepções, gerando significados para mais situações, influenciando crescentemente no
processo de decisão dos governantes.
Robert Cox, em seu artigo Social Forces, States and World Orders: Beyond
International Relations Theory12 trata da influência do quadro histórico como estrutura para a
ação e da importância das idéias para configuração desse quadro:

(...)

Vê-se, assim, que para Cox idéias, percepções coletivas são relevantes para as relações
internacionais na medida em que são parte importante da estrutura histórica na qual as ações
dos agentes estão inseridos. O autor converge com Wendt na medida que também assinala a
importância das percepções no sistema internacional, porém vai um pouco alem no sentido de
sugerir que a mudança pode emergir do choque de conjuntos de idéias distintos.

11KEOHANE, Robert e NYE, Joseph (orgs). Transnational Relations and World Politcs. Cambridge,
Harvard University Press, 1971.
12
COX, Robert. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations
Theory. Millenium: Journal of International Relations, Vol.10 N.2. PP. 126-155.
O nexo entre mídia e classes governantes

Estudiosos da comunicação política desenvolveram duas abordagens principais para a


compreensão da relação governo e da mídia no que diz respeito à política externa: a
hegemonia e indexação. Teóricos da hegemonia acreditam que funcionários do governo
mantém as informações acessíveis ao público dentro de limites ideológicos tão estreitos que a
deliberação democrática e influência da sociedade civil na formulação e aplicação de políticas
publicas não são possíveis.13
Em contraste, a estratégia de indexação se foca no desacordo entre as elites políticas,
alegando que a mídia "indexa", ou seja, reflete esse debate elite de perto. Quando irrompe um
caso de contestação suficientemente vigoroso à atuação da casa Casa Branca irrompe dentro
do establishment da política externa, opiniões críticas aparecem no noticiário. Segundo a
teoria de indexação a imprensa não oferece uma análise crítica das decisões políticas da Casa
Branca, a menos que os atores advindos de dentro do governo (na maioria das vezes do
Congresso) o façam antes. Isto significa que o mídia age, na sua maior parte, como um
veículo para funcionários do governo criticarem uns aos outros”. Contrariamente à opinião
hegemonia, teóricos da indexação acreditam que quando as elites discordam sobre a política
externa, a imprensa reflete a discórdia de um modo que pode culminar em mudanças de ritmo
em sua condução, e isso significa que o seu papel, embora ainda limitado, transcende a mera
transmissão de propaganda.14
Neste artigo não será feita uma análise extensa e tampouco detalhada dessas duas
teorias, contudo, é de vital importância ressaltar que ambas, no extremo, representam forte
grande de preocupação no que diz respeito à preservação de uma real democracia.

O caso da Guerra do Iraque

A seguir encontram-se tabelas que mostram os resultados de uma pesquisa realizada


pelo PIPA (Program on International Policy Attitudes) em 2003 sobre equívocos15 sobre fatos

13 ENTMAN, Robert M. Projections of Power: Framing News, Public Opinion, and U.S. Foreign
Policy. Chicago, University of Chicago Press, 2003. 200p.
14
Ibid
15
O termo no original é “misperception”.
relacionados ao Iraque e propensão à ser a favor da guerra. Foram escolhidos os seguintes
equívocos:16
A) Que foram encontrados links claros entre o Iraque e a Al Qaeda
B) Que foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque
C) Que a opinião pública mundial era a favor da guerra.

Esses três equívocos foram escolhidos por poderem ser estímulos para que os
americanos construíssem uma percepção, definissem a situação de maneira que fossem
favoráveis à guerra. Como, conforme descrito no trecho a seguir, equívocos não se criam no
vácuo, os resultados foram organizados por consumidores de cada canal de televisão
específica e da mídia escrita em geral.17

Serão comentados agora alguns resultados da pesquisa que são especialmente relevantes
para este artigo. Primeiro as tabela que os contem serão relacionadas, para que então sejam
feitas considerações sobre seu conteúdo.

16
Os resultados da pesquisa aqui relacionados são resultado do trabalho da PIPA, contudo, foram
extraídos – assim como a análise dos dados, do seguinte artigo: KULL, Steven, LEWIS, Evan e
RAMSAY, Clay. Misperceptions, the Media, and the Iraq war. Political Science Quarterly, Vol. 118,
No.4 (inverno, 2003/2004), PP 569-598
17 Ibid
A análise dos resultados aqui relacionados nos permite fazer algumas observações sobre
o nexo entre o tipo de mídia consumida pelo cidadão americano comum, sua percepção sobre
o Iraque, e as decisões e opiniões formadas a partir dessa percepção.
O primeiro ponto importante a ser levantado é que os resultados das pesquisas não
variaram entre o começo e o fim das entrevistas: meses se passaram sem que a maioria dos
entrevistados não mudasse de opinião, não corrigisse seus equívocos, mesmo com o
desenrolar dos eventos ligados à guerra.
O segundo ponto, talvez um dos mais importantes, é que as os entrevistados que
estavam equivocados sobre qualquer um dos três pontos eram muito mais favoráveis a guerra
do que os que tinham percepções corretas. De fato, aqueles que estavam equivocados em pelo
menos um ponto eram 4.3 vezes mais propensos à serem favoráveis à guerra em relação aos
que tinham percepções corretas sobre os 3 pontos.18 De fato, de acordo com a pesquisa,
quanto mais equivocada a pessoa fosse, quanto mais percepções inverossímeis tivesse sobre a
guerra do Iraque, mais a apoiaria: aqueles com apenas um equívoco eram 2.9 vezes mais
propensos a apoiar a guerra, o número sobe para 8.1 para aqueles com dois equívocos e,
finalmente, pessoas equivocadas sobre os 3 pontos levantados eram 9.8 vezes mais propensos
a apoiar a guerra em relação aos que tinham percepções verossímeis.
O terceiro ponto a ser levantado é que a fonte de informação importa, que consumidores
de certas agências de notícias tendem a ser mais equivocados que outros, o que nos traz de
volta à importância da relação entre governo e imprensa e seus efeitos para a democracia. Os
resultados nos mostram que 80% dos telespectadores da Fox News apresentavam visões

18 Ibid
equivocadas sobre pelo menos um dos pontos levantados na pesquisa, sendo, portanto, mais
propensos a serem favoráveis à guerra que os entrevistados consumidores a outro tipo de
imprensa. Isso se torna mais preocupante no que concerne a democracia quando analisamos o
seguinte gráfico:

As pesquisas mostraram que os eleitores de George W. Bush, estatisticamente,


apresentavam mais misperceptions, ou seja, equívocos, do que os que pretendiam votar no
candidato democrata.
Estabelece-se, então, relações e paralelos complicados e impactantes: pessoas que tem
visões de mundo mais equivocadas são muito mais propensas, novamente, em termos
estatísticos, a serem telespectadoras da Fox News, favoráveis à guerra e votarem no partido
republicano.
Os significados dos pontos aqui levantados e dos paralelos entre os resultados
encontrados destacam a importância da relação entre mídia e governo para a qualidade da
democracia, assim como para a influência da imprensa na formação da opinião pública e seu
impacto, ainda que indireto, nas relações internacionais.
Algumas questões surgem na análise de dados, abrindo novas agendas de pesquisa na
área de relações internacionais, mídia e democracia: qual era a proximidade entre o governo
Bush e a Fox News? Onde está o limiar entre a reportagem e a propaganda política? Quais os
impactos do relacionamento de agências de notícias e governantes para a democracia?
Essas questões não serão abordadas nesse artigo, mas registra-se aqui sua relevância e a
necessidade de aprofundar o conhecimento promovendo mais estudos sobre mídia, as relações
internacionais e democracia.

Conclusão

Não cabe aqui estabelecer um nexo causal entre consumo midiático, preferências
políticas e apoio à guerra, contudo, é de vital importância assinalar que as relações governo-
mídia são um fator importante, na medida em que a imprensa exerce um papel central na
formação pública, conforme demonstrado pelos autores supracitados pelos dados aqui
apresentados. Apesar de não ser possível afirmar concretamente que o consumo de
determinada fonte de informação leva a uma certa percepção de mundo, pode-se ver que
percepções corretas ou equivocadas sobre situações influem de forma substancial na formação
de opinião pública e tomada de decisões sobre temas internacionais.
Se os avanços tecnológicos e a globalização fazem com que a sociedade civil exerça um
papel cada vez mais central nas relações internacionais, quão poderosos são aqueles que
moldam a opinião pública? Os dados mostram que Nye e Keohane fizeram um diagnóstico
acertado: as relações internacionais não acontecem no vácuo, e os seus agentes não são
exclusivamente o diplomata e o soldado.19A mídia exerce um papel central na formação de
opinião dos indivíduos que apóiam ou criticam políticas e iniciativas internacionais, assim
como elegem seus formuladores e executores, e seu relacionamento com as elites governantes
tem impacto direto na democracia de cada país, em sua responsividade e accountability; assim
como nos rumos que o sistema internacional toma, dado que faz parte da framework histórica
assinalada por Cox.20Ademais a importância das percepções nas relações internacionais
cresce na mesma medida que a tecnologia na comunicação que permite que indivíduos do
mundo se comuniquem e se envolvam em política internacional, sem estarem necessariamente
vinculados a política estatal.
Dado que a tecnologia de telecomunicações está cada vez mais avançada, e que
informações chegam ao público muito mais rápido e facilmente a cada dia que passa, a
questão da influência da mídia nas relações internacionais se tornará cada vez mais central.

19 KEOHANE, Robert e NYE, Joseph (orgs). Transnational Relations and World Politcs. Cambridge,
Harvard University Press, 1971.
20 COX, Robert. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory.
Millenium: Journal of International Relations, Vol.10 N.2. PP. 126-155.
Terá chegado a hora, talvez, de nos perguntarmos até que ponto as relações internacionais não
são o que as percepções fazem delas.
Bibliografia

COX, Robert. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations
Theory. Millenium: Journal of International Relations, Vol.10 N.2. PP. 126-155.
ENTMAN, Robert M. Projections of Power: Framing News, Public Opinion, and U.S.
Foreign Policy. Chicago, University of Chicago Press, 2003. 200p.
EVANS, Graham e NEWNHAM, Jeffrey. Dictionary of International Relations.
London, Penguin Reference, 1998. 623p.
KEOHANE, Robert e NYE, Joseph (orgs). Transnational Relations and World Politcs.
Cambridge, Harvard University Press, 1971.
KULL, Steven, LEWIS, Evan e RAMSAY, Clay. Misperceptions, the Media, and the
Iraq war. Political Science Quarterly, Vol. 118, No.4 (inverno, 2003/2004), PP 569-598
PIERS, Robinson. The CNN Effect: The myth of news, foreign policy and intervention.
New York: Routledge, 2002. 177 p.
WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of
power politics. International Organizations, 46, 2, Primavera de 1992. PP. 391-425.

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