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CANTANDO COISAS DE AMOR

Pedro Gobett
Ele mal ganhara a maioridade e seu pai comprou-lhe um carro - um Ford KA, um pouco usado, mas
em boas condições. “Gatinhas, cheguei!”.
Não demorou muito para que seu pai ouvisse a primeira queixa: as gatinhas olhavam mais para a moto
CB400 que para o seu tímido Ford que cá não trazia gatinhas.
Da janela de meu consultório avisto uma praça. É outono e a brisa da tarde acaricia o rosto de
pedestres apressados de cenho cerrado, crianças correndo e velhos trocando ‘causos’, como se diz por
essas bandas. Passei a observar as mulheres... e suas bolsas. Passados uns 10 minutos não havia
contabilizado nem 5 mulheres sem uma bolsa a tiracolo. Mulheres simples, mulheres exuberantes, bem
tratadas, maltratadas, de boa aparência, de má-aparência; todas carregavam a sua, cada qual conforme a
posição social. Não é acaso. Há um certo recato para a mulher em mostrar tudo que é pessoal .
Ninguém ousa abrir uma bolsa. É uma invasão à privacidade. Mas... seria esse seu principal motivo no
que concerne à sexualidade feminina?
Situações coletivas nos dão alguma pista. Nos banheiros públicos é flagrante a distinção: os homens
dividem o mesmo espaço enquanto que as mulheres tem o seu espaço ‘privado’. Os homens tem um
certo orgulho em exibir coletivamente sua virilidade, provando ser igual... ou superior ao seu vizinho,
enquanto que a mulher o faz defronte ao espelho, quando se prepara para sair bela... ou mais que sua
vizinha, e os últimos retoques incluem a certa posição de suas bolsas. Há algo de secreto na mulher, e
essa bolsa, de certa forma, materializa esse segredo. Um segredo destinado a causar o desejo. Pelo
menos o de sabê-lo.
Freud já havia sinalizado o significado da bolsa para a mulher. Refiro-me a uma paciente - ‘uma
senhora que não era mais jovem’ (Freud, 1905) que após retirar uma caixa de marfim de dentro de sua
bolsa, aplicando-lhe muita força abriu-a e retirou um doce para comer. Ela insistia que ele
experimentasse abri-la também para constatar como era mesmo difícil de ser aberta. Há um ano e meio
em tratamento, era a primeira vez que exibia tal caixa. E ela continha doces para se comer... e saborear.
A caixa era bem lacrada, continha coisas gostosas de comer e só depois de muito tempo é que a
paciente apresentou-a a Freud. Não há aí algo que se assemelha ao jeito feminino de se introduzir na
vida de um homem?
Mas o que tudo isso tem a ver com o Ford KA? Cá nós temos que um aspirante a homem e já
desejando exibir seus signos viris em contraposição a escondê-los. Mas a potência deste é
imprescindível, tem de ser invejável. Um grande negócio realizado, uma megaviagem de virada de
milênio, relações políticas, empresariais,... são alguns símbolos fálicos, procurando nos parar para vê-
los passar.
Então temos a bolsa da mulher como o objeto a, enquanto a exibição do domínio sobre o potente motor
o próprio gozo fálico. Então entendo porque Lacan diz não haver relação sexual.
O motor potente, o celular, o lap-top – símbolos fálicos modernos – passaram a ser também desejo da
mulher, mas o homem continua sem atração por guardar seus segredos, o que é extremamente
significativo do ponto de vista da psicanálise.
Como podemos perceber, a bolsa e um motor potente nos fazem parar para vê-los passar. Afinal eles
cantam ou não coisas de amor?