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O FORNO SOLAR E

A QUESTÃO DA POBREZA

Salete Maria Salomoni


A DESCOBERTA DO FORNO SOLAR

Conheci a proposta do Forno Solar durante uma visita à casa do ambientalista e fotógrafo
cearense José Albano. O forno é um recurso de captação de energia solar, utilizada como
combustível no preparo dos alimentos, e que foi inventado, em sua concepção original, em
meados do século XVII, pelo naturalista suíço Horace de Saussure.

Através de uma pesquisa na internet, José Albano chegou aos sites ‘Solar Cookers Inter-
national e Solar Cooking Archive’, criados pelas norte-americanas Barbara Kerr e Sherry
Cole, principais incentivadoras do Forno Solar atualmente. A partir da idéia inicial, foram
instaladas algumas adaptações como uso de caixas de papelão e de plásticos.

Hoje, o Forno Solar encontra adeptos notadamente nos países como o Peru, Índia e China,
entre outros. Segundo estudos realizados pela comunidade científica internacional, o nú-
mero de fornos solares em operação supera a casa das 100.000 unidades, somente na Índia
e na China.

Aqui no Ceará, José Albano fez algumas inovações, tornando-o mais ajustável à posição
mais alta do sol na latitude do nordeste brasileiro e vem difundido e utilizando o Forno
Solar há mais de um ano.

Tive a oportunidade de participar de um almoço solar, no ano de 2005. O almoço foi ser-
vido no salão verde da residência do José Albano – ambiente no meio da vegetação natural
de Sabiaguaba – bairro afastado do centro de Fortaleza, onde fica localizada a sua casa. O
alimento foi retirado de caixas de papelão, totalmente cozido com a luz solar. A comida
era diversificada e tinha sabor muito agradável – arroz integral com cenoura e amendoim,
polenta com molho de tomate, feijão com jerimum, soja com batata inglesa. Como sobre-
mesa, bolo de milho e banana caramelada com canela, também preparados no Forno Solar.
Este evento me tocou profundamente. Coloquei-me à disposição como colaboradora na
sua difusão. Nasceu também daí uma grande amizade – entre eu e o amigo Zé.

LEVANDO A DESCOBERTA PARA


A COMUNIDADE DO PARQUE SANTA ROSA

Como trabalhadora social, tal invento me fez lembrar das famílias de baixa renda com as
quais tenho oportunidade de conviver ao longo de minha prática profissional. Em especial,
reportou-me ao Grupo de Agentes Ambientais do Parque Santa Rosa, por ter sido a expe-
riência comunitária mais recente e pelo fato do grupo possuir um galpão de reciclagem de
resíduos sólidos, espaço onde se encontra com facilidade a maior parte dos materiais uti-
lizados para confeccionar o Forno Solar (papelão, ferro, saco plástico, câmera de ar, dentre
outros).

O grupo é apoiado pela Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza, da qual sou voluntária. Desde
2001, a Cáritas gerencia esse empreendimento de forma coletiva, produzindo ocupação e
renda para 23 famílias, com as quais tive oportunidade de conviver e contribuir com o pro-
cesso de organização grupal durante o segundo semestre de 2004. Neste período, fui cedi-
da pela Secretaria da Ação Social - SAS, órgão com o qual mantenho vínculo empregatício
e que é responsável pela implantação das políticas públicas de assistência social do Estado
do Ceará.
Trabalhar com esse segmento da população é mergulhar no cotidiano da vida e perceber sua
adversidade, é chegar perto dos que mais sofrem para sobreviver num sistema desigual,
concentrador e injusto.

Para essas famílias, sobreviver é catar lixo, é viver com uma renda média inferior a um
salário mínimo mensal. Adquirir o gás para o cozimento dos alimentos é algo de difícil
acesso, o que as leva também a utilizarem-se do fogão à lenha, reforçando o desmatamento
inconseqüente e predatório que compromete a fauna e a flora. Segundo informações, 30%
da madeira retirada na caatinga são transformadas em lenha.

Partindo dessa compreensão, em outubro de 2005, levamos a proposta de difusão do Forno


Solar aos Agentes Ambientais do Parque Santa Rosa. A proposta foi aceita pelo grupo e o
projeto de capacitação (ver em anexo) foi aprovado pela Cáritas Arquidiocesana.

CARACTERIZANDO AS FAMÍLIAS
DO PARQUE SANTA ROSA

Iniciamos nosso trabalho com a aplicação de um questionário para estudo sobre a realidade
dessas famílias, além das conversas em rodas de encontros, em que buscamos observar o
olhar que essas famílias têm a respeito da atual situação planetária, o que pensam sobre
os recursos naturais e as causas dos problemas ambientais. Para incentivar esse processo,
utilizamos algumas dinâmicas grupais.

As famílias desconheciam a possibilidade de cozinhar alimento com recurso da luz do sol.


Apenas uma delas mencionou ter visto um programa de televisão apresentado informações
sobre fogões ecológicos.

De acordo com a pesquisa realizada, essas famílias vivem num contexto familiar numero-
so, constituído em média por 5 pessoas em cada residência. Algumas são agregadas (abri-
gam filhos casados e netos) e recebem uma renda mensal inferior a um salário mínimo
(R$350,00).
A maioria pratica apenas duas refeições por dia, em que o almoço e a janta acontecem no
mesmo horário, no final da tarde quando retornam do trabalho. Gastam em média 2 a 3
horas preparando o alimento. Consomem arroz, feijão, macarrão, ovos ou mortadela. Ra-
ramente cozinham proteína animal (carne, frango ou peixe). Em média, gastam R$47,00
por mês para cozinhar seus alimentos, sendo R$ 33,00 referentes a um botijão de gás e R$
7,00 no complemento com duas sacas de lenha. Isso corresponde a mais de 20% do ganho
mensal dessas famílias.

Além do aspecto do investimento financeiro para o cozimento dos alimentos, percebemos


que elas têm alterado seu hábito alimentar, substituindo a alimentação à base de feijão,
principal fonte de proteína vegetal e fonte de fibra solúvel e de ferro, pela alimentação à
base de carboidratos, devido à facilidade de cozimento, consumindo assim pouco gás ou
lenha. Esse dado revelado durante a pesquisa vem sendo foco de discussões entre o poder
público diante da incidência de doenças nessa faixa da população, o que implica maiores
gastos na área da saúde.

Em média 85% das famílias são abastecidas pelo sistema de energia elétrica e de água da
rede pública, porém 25% não possuem filtro para tratamento da água. Dessas, algumas fa-
zem tratamento através da fervura da água, implicando no gasto excessivo de combustível.
Porém, nenhuma delas conhece o processo de pasteurização da água, procedimento pro-
piciado também pelo Forno Solar. Este é um aspecto de fundamental importância para a
manutenção da saúde das famílias de baixa renda, que, por suas condições precárias, são
impossibilitadas de adquirir água filtrada.

Outro aspecto relacionado à questão da saúde desconhecido pela maioria da população e


por todas as famílias do Grupo de Agentes Ambientais do Parque Santa Rosa refere-se aos
dados veiculados em 2002 pela Organização Mundial de Saúde sobre os efeitos globais da
poluição doméstica na saúde humana. Os dados mostram que “a cada ano cerca de 1,6 mi-
lhões de pessoas morrem em decorrência a fumaça no ambiente doméstico, o que coloca a
poluição doméstica na mesma ordem de grandeza de problemas globais de saúde como é o
caso da AIDS e da Malária”.
Segundo o Grupo de Intermediação do Desenvolvimento Tecnológico Britânico, “a fumaça
que é liberada ao se cozinhar dentro de casa ou de outro ambiente fechado mata uma pessoa
a cada 20 segundos nos países em desenvolvimento”. A Organização das Nações Unidas
– ONU afirma que “fogões ineficientes podem ser tão prejudiciais à saúde quanto fumar
dois maços de cigarros por dia”.

Cerca de 90 % das famílias pesquisadas residem em casas próprias de construção simples,


sendo a maioria situada em becos de ruas e às margens de rios. 15% das famílias não dis-
ponibilizam espaço externo nas residências, aspecto que interfere na utilização do forno.
Para essa faixa da população, o alimento é o bem precioso. Ter ‘o pão nosso de cada dia’ é
garantir a sobrevivência. Expor seu ‘tesouro’ em espaço sem segurança é arriscar a vida de
toda família.

AVALIANDO OS RESULTADOS
DA EXPERIÊNCIA DO PARQUE SANTA ROSA

Durante a avaliação de resultados, 90 dias após a realização das oficinas no Galpão de Re-
ciclagem de Resíduo Sólido no Parque Santa Rosa, percebeu-se que nem todos os agentes
ambientais estavam cozinhando com o Forno Solar.

O uso do Forno Solar encontra-se totalmente imbricado à tipologia de habitação disponível


por cada família, onde deve haver um espaço seguro para expor o alimento diário à luz do
sol.

Parte desse público não disponibiliza espaço adequado em suas moradias para deixar o ali-
mento no Forno Solar exposto ao sol com segurança. O lado externo da casa é protegido
apenas por cerca de arame e, algumas vezes, esta é inexistente.
Prover a alimentação da família é a maior preocupação diária dessa faixa da população. O
alimento torna-se seu bem mais precioso. Bem esse que a torna, no dia a dia, sobrevivente
à adversidade da vida.

Essas condições demonstraram a inviabilidade do uso do Forno Solar para parte dessas fa-
mílias. Algumas delas afirmaram utilizar os Fornos apenas em finais de semana, quando há
movimento de pessoas na casa embora seja real a economia na aquisição do gás ou lenha.

PARA ALÉM DA EXPERIÊNCIA

O projeto de Forno Solar lida diretamente com a questão de mudança de hábitos e valores
culturais. Percebemos que só repassar a técnica de fabricação do Forno e ensinar o cozi-
mento dos alimentos não é suficiente. É preciso haver um investimento maior no acom-
panhamento e incentivo das famílias na utilização do Forno, através de visitas, encontros e
outros incentivos, até que esse novo hábito seja incorporado.

Existem muitos tabus e preconceitos rondando no imaginário popular. O consumo da ‘co-


mida quente do sol faz mal para a saúde’ é presente nos costumes dessas famílias. Ele é cul-
tuado há muito tempo, está encravado no universo de crenças populares. Estudos sinalizam
que esse preconceito é oriundo do período da escravidão. Foi criado para produzir medo
e utilizado como instrumento de controle e dominação. Apesar de discutirmos esse tabu
nas rodas de conversas, desmistificando-o, percebemos que ele afeta níveis profundos da
mentalidade humana. O esforço de superá-lo requer tempo e investimento até incorporar
novos conceitos e valores.

Percebemos que embora os Agentes Ambientais do Parque Santa Rosa tenham clareza so-
bre a importância de sua ação para o meio ambiente na coleta de resíduo sólido, muitos
deles não tem consciência clara sobre a relação local e global e concebem os bens naturais
como ilimitados.

Desenvolver esta proposta em comunidades é, portanto, não só oferecer uma oficina de


confecção do Forno Solar, repassando informações técnicas acerca do trabalho e sobre
o seu funcionamento. É, sobretudo, levar informações sobre a atual situação planetária,
criando espaço que potencialize pensar sobre a vida.

É compreender que a mesma energia cósmica que perpassa o universo atravessa nossa
interioridade humana, numa complexa rede de interdependências. A relação com o meio
ambiente perpassa por nós mesmos, pelo outro e pelo Universo. Há uma relação entre o
local e o global.

Criar um ambiente em que os moradores de uma mesma comunidade possam confeccio-


nar o Forno Solar é criar um espaço para pensar a sustentabilidade da vida. É propiciar um
lugar para recriar a vida. Porque deve haver algo a mais nos movimentos para confecção
dos Fornos Solarres. Estamos não só cortando papelão, mas sim eliminando nosso distan-
ciamento e apatia em relação ao meio ambiente. Estamos colando não só o papel alumínio
nas paredes das caixas de papelão, mas também estamos fortalecendo vínculos entre os
moradores. Colando afetos entre o eu e o tu. Estamos não só segurando o plástico com o
auxílio do outro para reparti-lo com precisão, estamos também sendo solidários e coope-
rativos. Estamos potencializando a criatividade quando buscamos dar novas formas ao lixo,
transformando o material reciclável em um instrumento para cozinhar alimentos. Estamos
criando, mesmo que inconscientemente, uma nova forma de estar no mundo.
FORNO SOLAR: UM PRETEXTO
PARA PENSARMOS A ALQUIMIA SOCIAL
E O EMOCIONAL COMUNITÁRIO

O professor da Universidade de Quito – Equador, Carlos Júlio Jará, menciona que quando
falamos de pobreza estamos abordando uma questão que se concretiza no cotidiano das
pessoas e mergulha na subjetividade.

Se avaliarmos as condições de vida e a situação social das famílias pobres, veremos que,
além da falta de recursos, a pobreza angustia, desespera, exclui, mata, subordina e destrói
a criatividade e a liberdade.

Certamente que é muito mais fácil ver a fome que a falta de participação, ver a doença que a
falta de afeto, ver o desemprego que a subalternidade. É muito mais fácil ver a violência nas
ruas que o desespero nas almas. Pois nunca penetramos no invisível da pobreza.

Quando falamos em pobre estamos não só nos referindo as pessoas que não dispõem de
uma renda situada no patamar mais baixo da pirâmide social, mas, sobretudo, aos despo-
derados, desesperados, excluídos, desinformados, marginalizados, desconsiderados, dis
criminados, desorganizados, desprotegidos, desmobilizados, desabrigados, injustiçados,
instrumentalizados, despreparados, subalternizados e desqualificados.

Como trabalhadora social, acredito que a oficina de Forno Solar pode ser um espaço poten-
cialmente constituído para desenvolver os relacionamentos invisíveis, que formam parte
da dimensão cultural e espiritual e que privilegia, mesmo que inconscientemente, indica-
dores de empoderamento, criatividade e liberdade.

Portanto, penso que as oficinas realizadas com grupos de moradores e/ou familiares po-
tencializam o desenvolvimento comunitário, instrumento social de construção de siner-
gias e solidariedades que se constitui na forma mais abrangente de estratégia de luta contra
os relacionamentos determinantes da pobreza.

Texto produzido por Salete Maria Salomoni – Assistente social, com formação em Políticas
Públicas, Gestalt Terapia, Abordagem Sistêmica, Biodança, Arte Terapia.