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Mal-estar Docente e Modos

Atuais do Sintoma
Marcelo Ricardo Pereira

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Desautorização
para editar oe estilo
adoecimento
do
subtítulomental
mestredo professor
No interior da escola...

Discurso docente
permeado por
produções
imaginárias

“Desvalorização” “Desrespeito” “Desautorização”


Cede um lugar...
l A função do professor, de acordo com o discurso dos teóricos da
profissão, sofreu desgaste intelectual, social, cultural e econômico.
l O “mestre” cedeu lugar a um profissional de massificação industrial,
comunicacional e tecnológica, inabilitado a lidar com diversidade
cultural das escolas.
l Desde o início, a formação docente ocupou-se dos fundamentos
éticos-morais, que ordenam por meio de atos que infundem
condutas e controlam a disciplina, respondendo a ordem social.
l Com o aumento de estabelecimentos de ensino, os professores
deixam de ser filhos de familias nobres e passam também a ser
formados pela classe trabalhadora (sec. XIX e XX).
l No espaço educacioanal, surgem o drama do cotidiano individual,
despauperamento das condições de trabalho, pouco
reconhecimento profissional, sobrecarga de tarefa, pouco tempo
para dedicar a planejamentos, ínfimos recursos para pesquisa...
O professor se esforça...
l Desdobrando para estudar novas formas de dar
aula e formas de planejamento;
l Metodologias e estratégias de ensinos menos
tradicionais;
l Aquecimento das aulas com novas tecnologias;
l práticas avaliativas menos ortodoxas;
l Encontra alunos “que não querem saber de nada” e
a escola que afirma um “não saber fazer” por
parte do professor.
E o que encontram...
l Realidade precária;
l Dificuldade de manter disciplina e uma rotina de envolver
seus alunos;
l “Adoecimento mental”;
l Crise de autoridade – declínio patriarcal que segundo
Freud é marcado por indícios de Vatersehnsucht
(nostalgia do pai) – deixando vazio o lugar do Pai, de
Deus, da Lei, do Estado e de toda Instituição Social;
l Desautorização política;
l Igualidade aos discentes;
“Eis uma posição difícil de sustentar
nos dias atuais”
l Um professor todo poderoso, evocando a
ancestralidade de uma mestria imaginária,
diante de uma massa de dóceis alunos
subordinados.
A partir desta frase, deixamos um ponto de
questionamento: será que queremos de
nossos alunos apenas uma subordinação?
Seria esta uma questão para os professores
de hoje, pelo que trazem em sua prática a
partir do adoecimento pela escolha da
profissão?
“Tribalização” juvenil da
sociedade contemporânea
l Se for verdade que vivemos em tempos de violência fria e
apatia generalizada a causa,em parte, reside na
“nostalgia do pai” – Impossibilidade de fazermos o luto
de certas ideologias.
l Vivemos em tempos melancólicos com a suspensão do
desejo, apatia, transbordamento do gozo, que visa uma
satisfação imediata e vazia.
l O que nos leva a um mundo da ordem do politicamente
correta com a ilusão suprema de não termos ilusões – O
que leva a acharmos que todas as coisas são
emparelhadas, sem profundidade e sem adesão.
l Perda da noção de totalidade das experiências sociais.
Onde estou?
Subjetividade
l As subjetividades tendem a ser asfixiadas,
mas ressurgem violentas, fragmentadas, em
atitudes individualistas e pseudolibertárias.
l A massificação do estilo de vida e a
valorização do imediato contribuem para
transformar a subjetividade já fragmentada
em cultura do espetáculo, em inflação de
narcisismos, mas não em luta política.
Cenário da subjetividade e suas
consequências
l É nesse cenário que adolescentes e jovens constituem sua subjetividade.
l Surgem as tribos urbanas, ídolos e modismos.
l “Porém ao igualar-se a seus pares para diferenciar-se dos demais, todo
jovem se depara com imagens ilusórias que podem favorecer
comportamentos de risco e acirramento das divergências
sociais”(Oliveira).
l Segundo Lacan é nesse momento que facilmente o jovem se associa ao
“discurso capitalista”, ou seja oferece ao adolescente a ilusão de
completude com objetos de consumo curtos, rápidos e descartáveis,
porém não promove o laço social, mas sim uma parceria
desconectável-a-qualquer-momento.
l Nossos jovens são educados para uma sociedade que os objetaliza –
Imperativo do TER.
Formas de se colocar...
l Esses jovens tribais não deixam de expressar
em público seus descompassos com a
moral adulta-racional-padrão e a ordem do
capital, entretanto usam do mesmo
dispositivo: a segregação.
l Diferente-idealista/Diferente-dejeto: Marcas no
corpo, idealismo, acanhamento, depressão
ao lado de cinismo, escárnio, indisciplina,
desvio de conduta, hipersexualização.
Sociedade Tecnológica
l Surgimento de uma sociedade aceleradamente tecnológica –
Quebra de paradigma – O jovem sabe mais.Surge daí um
abismo entre os jovens, os pais e educadores.
l De um lado os jovens, que sabem mais, e querem mudar o
mundo dos mais velhos, porém com a impossibilidade de
serem suficientemente autônomos. Se tem alguma vive na
perene possibilidade de perdê-la já que não é adulto.
l O adulto lhe diz “Está na hora de você ser alguma coisa, já
que você não é criança”. Surge então um conflito que o
leva para o diferente-dejeto. O jovem responde por meio
da tribalização, quando não pelas drogas,
hipersexualização, marcas no corpo, etc...
Sociedade Contemporânea
l Provocações endereçadas ao outro adulto com
a finalidade de escarnecê-lo e
principalmente paralizá-lo mediante a
impossibilidade de o adolescente ter alguma
resposta sobre seu dilema de ser algo
desejável para alguém.
l Adulto teen – Desejo de perenidade de
condição juvenil e principalmente promover
um apagamento radical da diferença, onde o
adulto e o adolescente são iguais.
Novas possibilidades...
l Respostas subversivas do adolescente não
deixam de ser maneiras inventivas de se
colocarem no mundo.
l Professor acolher essa subversão e associá-la a
palavra, para se ter uma sustentação
simbólica, ou seja, um laço com a cultura.
l Cinismo desdenhoso transformado em queixa
que o motiva → a queixa em manifesto ou
produção que congregue pessoas em torno de
uma causa.
Assumindo a diferença...
l Nesses tempos de volatilidade o professor pode
permitir que a palavra seja salva para que se
preserve a experiência, a memória e a lei.
l É provável que se o adulto se colocar como
autoridade política, aquele que por meio de si, de
suas palavras e memórias, lembra que a lei está
aí a nos humanizar, o jovem tenha mais chance
de se colocar no mundo como diferente e
estabelecer suas escolhas.
“Isso não é um cachimbo”
“Isso não é um cachimbo”
ou o mestre provisório
l O enigmático cachimbo de René Magritte trata-se de uma obra
que trás um cachimbo artisticamente pintado sobre a frase:
Ceci n’est pas une pipe (isto não é um cachimbo), conhecido
também como livro do Michael Foucault. Através da relação
entre a arte e a realidade, Foucault desdobra o jogo das
palavras e das imagens.” Este quadro, esta frase escrita, este
desenho, tudo não é um cachimbo”. Texto e desenho não se
encontram.
l O quadro de Magritte é precioso em propiciar a qualquer um de
nós o mal-entendido da experiência ou das certezas do
cotidiano escolar.É ambíguo justamente por trazer a presença
e a ausência da coisa ao mesmo tempo: a disjunção. A arte é
ao mesmo tempo verdadeira e falsa, ambivalente, por
excelência, além de provisória.
Questões relevantes
l Até que ponto necessitamos de professores absolutos situados
como senhores do tudo saber?
l Ou até que ponto os mesmos serão desautorizados, destituídos
pelo escárnio, apatia ou violência de seus alunos ao serem
emparelhados ao nada saber?
l Como não sofrer os efeitos dessa desautorização?
l Como não se deixar adoecer ou padecer dos modos de sintoma
que a contemporaneidade reserva aos professores?
l Como assegurar a si um significante consistente para poderem
dizer “isto não é um cachimbo”, de modo que todos, sem
exceção, compreedam?
Arte à docência
l Não se trata de ponto de equilíbrio ou de harmonia, como se
houvesse uma condição paradisíaca a se chegar. Situar-se
como provisório é afastar-se desse dualismo entre o nada e o
tudo saber.O professor, sem a tirania de um modelo absoluto a
seguir, pode inscrever seu ato de ensinar sob a forma de um
estilo. Como reivindica a arte, no ensino, ele particulariza seu
ato. A arte- sempre um pouco impostora por tentar dar
contorno ao incontornável- leva o artista ao inusitado, ao que
não se espera, ou á singularidade de seu estilo. Dessa forma
queremos evocar a arte à docência.
l A autoridade do professor está não em fazer, como aquele que
detém o saber categórico, o código inviolável de uma moral,
mas como aquele que ativa o desejo de saber por também
desejá-lo. Isso produz pensamento.
Professor-sujeito
l O ato de ensinar do professor, depende de um interesse, como
também de uma razão para se efetivar. O professor se
apresenta aos seus alunos e á sua instituição como “inteiro”,
mas igualmente ele se encontra lá, sempre um pouco no ar,
não muito vigilante de si, um tanto destituído e, quem sabe,
um pouco desinteressado ou em suspensão.
l O professor-sujeito deve responder a isso com uma estilística ou
uma produção própria na sua estrita singularidade em relação
ao que dele sempre se espera ou ao que para ele sempre já
está prescrito. A estilística do professor depende muito dessa
condição provisória: algo que seja intuído, antes de analisado;
experimentado antes de descrito. Se o seu estilo lhe for
também um sintoma social, que este, então, não o adoeça.
Estilo provisório
l Se o professor pode se apresentar no estado da arte que seu
exercício evoca, talvez seja possível não lhe exigir o
improvável: que ele tenha a boa pedagogia da hora, que a
condição docente não o afete, que suporte eficazmente as
constantes alterações políticas dos sistemas de ensino, que
seja impermeável aos modos de sintoma dos infantes e
jovens que o desautorizam, que sadio exerça seu cotidiano
sem mal-estar.
l Talvez seja possível, que o professor responda ao impossível de
educar com um estilo que admita ser ele provisório mediante
o vácuo deixado pelo vazio dos céus, pelo declínio moderno
da autoridade, pela ineficiência das instituições ou, à maneira
freudiana, pela irrefutável e fundante “nostalgia do pai”.