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Projeto de fonte de alimentação

Finalidade
O propósito desta seção é fornecer um guia prático para a escolha do transformador e dos
componentes responsáveis pela filtragem da tensão alternada. Algumas de suposições básicas
são feitas para evitar discussão acadêmica desnecessária. Para quem estiver interessado em
uma análise teórica mais detalhada existe várias referências excelentes.

Uma das questões mais trabalhosas encontradas pelo projetista é a seleção das características
do transformador, para um projeto específico de uma fonte. Existe uma variedade de
configurações de retificadores e filtros. Em nome da simplicidade faremos algumas suposições
que serão válidas para 99% das aplicações habituais.

Filtros
Serão descartadas o uso de filtros que usam indutores (choke) e restringiremos nossa escolha
aos filtros que usam capacitores, pelo seguinte motivo:
1. É importante eliminar o peso e o custo dos indutores.
2. Podemos presumir que o circuito de regulação fornecerá uma redução da ondulação
(ripple), portanto, filtros LC não são necessários. Além disso, o regulador compensará uma
regulação imperfeita da tensão de saída, tão comuns em sistemas que usam circuitos com
capacitor, na entrada.
Outras desvantagens provocadas por um filtro capacitivo é a interrupção da corrente que circula
no secundário do transformador (corrente média direta que passa pelo diodo retificador). A
corrente é drenada em picos curtos e longos para repor a carga no capacitor durante os períodos
em que o diodo está em corte. Isto resulta no aumento do valor eficaz na corrente do secundário
do transformador.
Entretanto, o valor médio será o mesmo que usando um indutor, devido a uma tensão de saída
maior obtida no capacitor compensa este efeito.
Além disso, com exceção das fontes que fornecem correntes altíssimas, os diodos comuns se
adequarão as exigências de corrente inicial e de pico de um filtro capacitivo.

Circuito Retificador
Escolha da configuração do circuito retificador. Os tipos mais comuns em redes monofásicas são:
1. Meia-onda (apenas um diodo)
2. Onda completa com derivação central (dois diodos)
3. Onda completa em ponte (quatro diodos)
4. Dupla complementar com derivação central (dois diodos)

A única vantagem de um retificador de meia-onda é a sua simplicidade e a economia de um diodo.


Entretanto, as desvantagens são muitas.

1. Corrente, de pico, extremamente alta durante o período de carga do capacitor (apenas um


pico de corrente inicial por ciclo). Esta corrente é limitada pela impedância do enrolamento
do transformador e o diodo em série, mas se for muito alta, danificará o diodo. Este pico de
corrente inicial, provoca uma corrente eficaz (RMS) alta no enrolamento secundário.
2. Fluxo de corrente contínua no enrolamento secundário do transformador que provoca a
saturação do núcleo e consequentemente, a necessidade de um núcleo maior para evitá-
la. Só devemos considerar o uso de um retificador de meia-onda, em fontes de baixíssima
potencia, cerca de ½ watt ou menos. Mesmo com uma potência baixa o tamanho do
transformador não diminuirá muito e um filtro capacitivo deverá ser grande o suficiente
para diminuir as ondulações (ripple).

O outro tipo de retificador é o de onda completa. As corrente inicial de pico ocorre duas vezes por
ciclo e possui uma intensidade menor e a onda senoidal retificada, possui uma frequência de 120
Hz, em vez de 60 Hz, no retificador em meia-onda. Usando dois ou quatro diodos, possui a
mesma forma de onda na saída.

Outros Fatores

Onda completa com derivação central Onda completa em ponte


Usa metade do enrolamento secundário por ciclo Usa todo o enrolamento continuamente
Necessita de derivação central Não necessita de derivação central
Usa dois diodos Usa quatro diodos

Como podemos observar, na tabela, na escolha entre onda completa com derivação central ou em
ponte devemos levar em conta o maior benefício entre elas. No retificador de onda completa em
ponte, usa-se quatro diodos e os dois diodos extras provocam o dobro da queda de tensão do que
no retificador com derivação central, portanto devemos optar pelo uso de retificação de onda
completa, com derivação central, em fontes com tensão mais baixa.

O circuito retificador complementar (figura 1) é uma combinação entre dois circuitos de retificação
de onda completa com derivação central e é o modo mais eficiente de se obter duas tensões de
saída com polaridade invertida compartilhando o mesmo retorno (0V). É, também conhecido como
“retificador em ponte com derivação central”.

Figura 1

O diagrama (figura 2), a seguir, mostra um retificador de onda completa com derivação central
usando um filtro capacitivo e é uma escolha comum para uso geral. Podemos presumir que:

1. Vreg deve ser 3 Vdc ou maior


2. Vrect é 1,25 Vdc
3. Vripple é 10% da tensão contínua de pico
Figura 2

A fórmula, a seguir, pode ser usada para determinar a tensão secundária do transformador.

Vac = (Vout + Vret + Vreg + Vripple) x Vnom x 1


0,92 Vlow line √2

0,92 = eficiência da retificação (típica)


Vac – Tensão alternada no secundário
Vout – Tensão contínua de saída da fonte
Vret – Queda tensão em cada diodo retificador
Vripple – Tensão de flutuação no capacitor de filtragem
Vnom – Tensão nominal alternada da rede
Vlow line – Tensão alternada mínima da rede

Vnom = relação entre tensão nominal alternada e a tensão mínima fornecida


Vlow line

Nota do tradutor:
A Eletropaulo fornece, na conta de energia elétrica, os valores da tensão nominal, mínima e máxima da sua região. Esta informação
está ao lado do histórico de consumo.
Geralmente os valores são:

Nominal Mínimo Máximo


115/230V 108/218V 127/241V

Ilustrando a fórmula, acima, mostraremos um exemplo, a seguir, do que é necessário para uma
fonte de alimentação com saída de 5Vdc e uma corrente de 2Adc para funcionar com uma tensão
mínima de 95 Vac rms de entrada.

Vout = 5V
Vrect = 1.25
Vreg = 3V
Vripple = 0,5 (1Vp-p)

Somando os valores de Vout, Vrect, Vreg e Vripple, temos 9,75V

Vac = 9,75 x 115 x 1 = 9,07 Vac


0,92 95 √2

Portanto, a tensão do enrolamento secundário deve ser especificada em 18V (9V-0-9V), com
derivação central.

Para um retificador em ponte e as mesmas especificações, o valor Vrect passa a ser 2,5V
(2x1,25V). Como resultado, os valores serão:

Vac = 11 x 115 x 1 = 10,23 Vac


0,92 95 √2

E, portanto, a tensão enrolamento secundário deve ser 10V.

Cálculo da corrente do enrolamento secundário


O passo seguinte é determinar a corrente eficaz (RMS) do enrolamento secundário. O valor
preciso só pode ser determinado através de uma análise complexa, entretanto, para finalidades
práticas, a tabela, a seguir, pode ser usada.

Tipo de retificação Tipo do filtro Relação da corrente eficaz


necessária
Onda completa com derivação Com indutor na entrada 0,7 x Corrente Contínua
central (*)
Onda completa com derivação Com capacitor na entrada 1,2 x Corrente Contínua
central
Onda completa em ponte (*) Com indutor na entrada Corrente Contínua
Onda completa em ponte Com capacitor na entrada 1,8 x Corrente Contínua

(*) Apesar de não usarmos um indutor no projeto, foi incluso, na tabela, como referência.
Em nosso projeto (5V/2A), o valor eficaz (RMS) da corrente no secundário, deverá ser:

Onda completa com derivação central


1,2 x 2 = 2,4A

Onda completa em ponte


1,8 x 2 = 3.6A

A especificação da tensão, do secundário, do transformador, então, será:


Onda completa com derivação central
18V (9V-0-9V) @ 2,4Arms = 43,2 VA

Onda completa em ponte


10V @ 2,4Arms = 36 VA

Fonte complementar dupla


Outro exemplo (figura 3) que mostra o cálculo de uma fonte complementar dupla com ± 15V
@100ma dc.

Figura 3

Vout = ±15V
Vrect = 1.25
Vreg = 3V
Vripple = 0,75 (~ 1,5 Vp-p)

Vac = (15 + 3 + 1,25 + 0,75) x 115 x 1 = 18,6 Vac


0,92 95 √2

IAC = 1,8 x 100mA = 180mA rms

Portanto, a especificação, do secundário, do transformador, será: 37Vac @180mA rms.

Um cálculo adicional, como precaução, é necessário. O aumento da tensão no capacitor de filtro e


no regulador, provocado pelo, consequentemente, aumento da tensão da rede.
Supondo que o valor da tensão aumente para 130Vac, a relação entre Vnom e Vlow line, aumentará.

Na fonte, com saída de 5V, ocorrerá o seguinte:


Vac = 130 x 9 = 12,3V
95

E na fonte dupla complementar:

Vac = 130 x 18,6 = 25,5V


95

O aumento na tensão de saída deve ser absorvido pelo regulador de tensão e consequentemente,
ocorre um aumento da dissipação de calor. Os valores calculados são seguros para um regulador
de tensão comum, mas é importante, sempre consultar as especificações do componente.

Fatores adicionais a serem considerados na escolha de um transformador

Regulação da carga
Foi presumido, anteriormente, que a variação na tensão de entrada e no secundário, do
transformador, não deve ocorrer na corrente da carga. Entretanto, para que isso ocorra o
transformador deveria ser ideal e a tensão do secundário sempre a mesma.
Na verdade, todas as tensões foram calculadas, supostamente ,a plena carga. A maioria dos
fabricantes de transformadores fazem o mesmo.
Desde que não são ideais e possuem uma impedância interna ou característica de regulação, as
variações na carga, causam problemas. Com carga mínima a tensão no secundário aumenta e
além disso, devido ao aumento da tensão de entrada provoca uma queda de tensão no
enrolamento do transformador.
A maioria dos transformadores com baixa potência (menor do que 10VA), possuem uma regulação
de 20% ou mais. Isso significa que um transformador sem carga possuirá uma tensão 20%
maiores do que a plena carga. É importante levar em consideração estas características no
cálculo da carga mínima e da máxima.
Devido a características inerentes ao projeto de transformadores a “regulação” irá variar
inversamente com o seu tamanho ou potência (VA). Em transformadores com maior potência, o
tamanho é determinado pelo calor gerado por perdas internas e nos transformadores com menor
potência, o tamanho é determinado pela máxima e mínima regulação permitida (com e sem
carga). Mesmo sendo uma limitação de projeto importante, nenhum fabricante fornece este dado
em catálogo. Entretanto, pagaria para verificar com o fabricante em aplicações de menor
qualidade.

Aumento de temperatura
Nos transformadores de potência, acima de 25VA, o aumento de temperatura se torna um
elemento importante. O transformador pode ser construído com materiais capazes de resistir
temperaturas altas e se tornar um projeto viável. Entretanto, o calor gerado pode provocar
aquecimento nos componentes que estão próximos.
Devido a isso, as perdas se somam ao calor dissipado pelo circuito. O problema não está
relacionado com a temperatura interna do transformador, mas na verdade, com perda de potência
elétrica (Watt).
A perda efetiva de potência, também, não é fornecida pelos fabricantes de transformadores, mas
podem ser obtidas através de um pedido ao mesmo. Estas medidas são efetuadas através de
cálculos termodinâmicos da temperatura do equipamento.

Isolamento
Alguns tipos de ruído na rede elétrica e transientes serão intensificados através do enrolamento
secundário devido à capacitância entre os enrolamentos. Este problema é muito trabalhoso
verificar. Este problema é melhor determinado, em um projeto específico, empiricamente, apesar
das circunstâncias.
O problema mais comum é usar uma blindagem entre os enrolamentos para reduzir, efetivamente,
a capacitância gerada entre os mesmos. Uma abordagem interessante é colocar os enrolamentos
lado-a-lado (maior isolamento em alta tensão) ao invés de sobrepostos.
Certos tipos de isolamento não são afetados pelo projeto do transformador e outras abordagens
como filtros de linha ou MOV (Metal Oxide Varístor), supressor de transiente, devem ser
considerados.

Resumo
Esta foi uma tentativa de oferecer um método simples e prático de calcular as especificações de
um transformador. Algumas suposições foram feitas e não estão baseadas em análises
acadêmicas.
Espero que este passo-a-passo algumas lacunas no projeto de fontes de alimentação. Este
material está disponível em livros. A maioria dos catálogos de transformadores carecem de
detalhes adicionais, entretanto pedidos de informação ao fabricante ou alguns testes empíricos
podem ser necessários para alcançar bons resultados. A indústria de transformadores não possui
padrões estabelecidos mas cabe ao projetista um certo ceticismo para lidar com as informações
vigentes.

Escolha do capacitor
Para níveis de corrente (Iout) abaixo de 1A, a escolha do capacitor é relativamente simples. A
capacitância é determinada através da fórmula:
C = IL x 0,06
ΔV
Onde: IL é a corrente contínua de carga
ΔV é a tensão de ondulação pico-a-pico
Frequência de ondulação é de 120 Hz

Usa-se um capacitor de 2000 µF/A para uma ondulação de 3Vpp. Para correntes abaixo de 1A, o
aquecimento, normalmente, não é um problema e a ondulação pico-a-pico é determinada pelo
tamanho do capacitor.
Para valores maiores de capacitância onde a relação do volume da área de superfície externa do
capacitor é significativamente menor e o aquecimento interno se torna um problema.
A relação da corrente de ondulação pode ser determinante na escolha do capacitor em vez da
tensão de ondulação. Em muitos casos, o tamanho do capacitor deverá ser aumentado para
prevenir aquecimento interno excessivo.
As folhas de especificação dos fabricantes devem ser consultadas (após uma seleção inicial) para
assegurar que a relação da corrente de ondulação foi alcançada. Lembre-se de que a relação da
corrente eficaz de ondulação (RMS Ripple Current), especificada pelo fabricante, não é a mesma
que a corrente contínua de carga (DC Load Current).
A corrente eficaz de ondulação (RMS Ripple Current) em um capacitor de filtro está entre duas e
três vezes a corrente de carga. Além disso, o tempo de vida usado para avaliar um capacitor na
folha de especificação é, geralmente 10.000 horas.
Para uma vida de cinco anos (40.00 horas), a temperatura ambiente deve ser diminuída em 30°C
daquela que está nas especificações do fabricante.
A vida de um capacitor, aproximadamente, duplica diminuindo 15°C na temperatura de operação.
Os cálculos, a seguir, mostram um projeto típico.
Presumindo que IL= 3A, ∆L = 4pp e Vdc = 12V
C = 0,06 x 3 = 4500 µF
4
A especificação do fabricante para um capacitor de 4600 µF/20V @ Ta = 65°C é 3,1 Arms.
Divide-se por 2,5 para converter a corrente eficaz de ondulação (RMS ripple current) para a
corrente de saída para 1,24A. Certamente, um capacitor maior é necessário ou a redução da
temperatura ambiente.
Como observação final, tenha certeza de verificar se a folha de especificação determina estes
parâmetros para ventilação natural ou forçada. A especificação para aplicação em computadores
é somente pra ventilação forçada. Lembre-se de que os capacitores são os primeiros
responsáveis na falha de uma fonte de alimentação, não permita que seus projetos entrem para
as estatísticas.

Escolha do diodo
O valor eficaz (RMS) da corrente de carga, no capacitor de filtro, está entre duas e três vezes o
valor da corrente de saída porque é fornecida através de pulsos curtos. Presumindo que o uso de
retificação de onda completa, seja derivação central ou em ponte, significa que cada diodo conduz
apenas metade de cada ciclo, deveria ser especificado para carga máxima.
Para assegurar que o diodo suporte a corrente inicial, quando é energizado, a especificação do
mesmo deve ser de pelo menos o dobro da corrente de carga, especialmente para fontes que
fornecem altas correntes de saída, devido a valores altos dos capacitores.
Lembre-se que os diodos com terminais axiais dissipam o calor gerado através dos mesmos.
Portanto, recomendamos que os mantenha curtos e as trilhas, no circuito impresso, largas.
Para uma fonte com regulador com três terminais, adicionar um diodo entre o terminal de controle
e o de saída, previne a destruição do componente caso ocorra um curto-circuito na carga.
Entretanto, como a corrente que passa através do diodo, durante o curto-circuito, é alta, consulte
a folha de especificação do diodo para ter certeza que ele protegerá o componente.
Nas fontes com tensões de entrada mais elevadas a corrente, durante o curto-circuito, é menor do
que a corrente máxima de saída, minimizando o problema.

Traduzido por Francisco dos Santos (fcasantos@yahoo.com) para o Blog do Picco - http://blogdopicco.blogspot.com/