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SÓ CRISTO

Ao longo dos séculos a maioria dos cristãos teve quase sempre sérias dificuldades em
confiar plenamente no Senhor Jesus Cristo, de modo a encontrar n’Ele toda a
suficiência para o seu viver nesta peregrinação e para toda a eternidade.

Apesar dos ensinos de Cristo revelando que n’Ele e só n’Ele o homem será saciado de
toda a sua fome e sede espiritual, e encontrará a plenitude da vida que vale a pena ser
vivida porque se projecta na glória eterna, logo no início da era cristã os apóstolos
tiveram de enfrentar dentro da Igreja infiltrações de doutrinas que acrescentavam ao
Evangelho de Cristo ritos e ensinos inspirados quer nas filosofias e religiões pagãs, quer
na própria Lei mosaica. Apesar dos ensinos apostólicos, que proclamavam uma
salvação proveniente exclusivamente da fé em Jesus Cristo, houve quem defendesse a
necessidade de acrescentar a essa fé o rito da circuncisão e a guarda da Lei.

Na sua carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo enfatiza que tais ensinos são um “outro
evangelho”, e anatematiza aqueles que o defendem e propagam.

Com o decorrer dos séculos, as coisas foram piorando no seio da Cristandade.


Influências várias falsearam de tal modo o Evangelho de Cristo que este se tornou
irreconhecível na Igreja Medieval.

Foi então que Deus na Sua infinita Graça e misericórdia, levantou aqui e além homens
que defendiam a verdade do Evangelho revelado na Sagrada Escritura, que defendiam
um retorno ao puro ensino do Novo Testamento. Muitos desses homens foram
perseguidos, torturados e mortos ou exilados por causa da sua fé. Até que no século
XVI surgiu Matinho Lutero, na Alemanha, defendendo que o pecador era justificado
diante de Deus exclusivamente por meio da fé em Jesus Cristo. Finalmente o
Evangelho bíblico voltava a ser proclamado publicamente e, apesar de todas as
tentativas para o silenciarem, ele saiu das fronteiras alemãs e irradiou por quase toda
a Europa, encontrando sobretudo em João Calvino, na Suíça, o instrumento Divino
para dar sequência e aprofundar o fundamento bíblico do movimento nascente.

Tratava-se, afinal, de confrontar os homens com o puro ensino do Divino Mestre, o


Senhor Jesus Cristo, tal como estava revelado nas páginas do Novo Testamento.

A essência desse ensino, como já afirmámos atrás, é a revelação de que em Jesus


Cristo temos tudo o que é necessário não só para a nossa vida nesta peregrinação
terrena, mas também para a nossa eterna salvação.

A Lei dada a Moisés revela a vontade justa e santa de Deus para o homem. E o Criador
exige uma perfeita obediência da parte da criatura. No entanto, a natureza humana
corrompida em Adão pelo pecado não permite agora ao homem essa perfeita
obediência à vontade de Deus. O homem está espiritualmente morto no seu pecado e
impossibilitado, portanto, de fazer seja o que for que agrade a Deus e o leve de novo à
comunhão com o seu Criador.

Só quando o homem toma consciência dessa realidade poderá escutar com alegria a
boa nova de que aquilo que lhe é impossível a ele, é possível a Deus. Assim, pelo Seu
infinito amor, o Altíssimo enviou ao mundo o Seu Filho unigénito, o Seu Verbo Eterno,
o Qual se fez homem a fim de viver em nosso lugar e para nós a vida que Deus exige de
perfeita obediência à Lei. Jesus, com a sua perfeita obediência ao Pai, que O levou à
própria morte, alcançou a justiça com a qual somos revestidos por Deus quando
cremos nesta boa nova, ou seja, quando cremos que Jesus Cristo é o Senhor Justiça
nossa!

Não são as nossas obras ou méritos que nos justificam diante de Deus, mas tão só a
justiça que Jesus Cristo alcançou como homem, em lugar de todos os homens que
n’Ele crêem.

Surge então um outro problema a resolver: Deus é Justo e o nosso pecado tem de ser
punido. Ora o salário do pecado é a morte! Uma vez mais, é Jesus Cristo, enquanto
homem, Quem assume o nosso pecado e o leva sobre Si na cruz do Calvário. Deste
modo, o Santo e o Justo, Aquele que não conheceu pecado, foi feito pecado por nós,
para que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus.

Vemos, assim, que Jesus não só viveu em nosso lugar a vida de perfeita obediência que
Deus exige do homem, mas também morreu em nosso lugar, levando sobre Si os
nossos pecados e pagando totalmente o salário que lhes era devido. Ele foi feito
maldição por nós, a fim de que n’Ele sejamos abençoados por Deus com todas as
bênçãos espirituais nos lugares celestiais.

Conhecendo todas estas realidades que nos são reveladas na Sagrada Escritura, querer
acrescentar algo da nossa parte à obra realizada por Cristo em nosso lugar e em nosso
proveito, é uma injúria feita a Jesus Cristo, é considerar a Sua obra imperfeita e
incapaz de salvar plenamente o pecador que crê em Jesus Cristo. A genuína fé em
Jesus Cristo implica encontrar n’Ele tudo o que é necessário para a nossa justificação,
santificação e salvação eterna.

Apesar da clareza com que o Evangelho bíblico revela esta Graça de Deus em Jesus
Cristo, os homens sempre têm procurado e continuam a procurar acrescentar algo seu
à obra de Jesus Cristo.

Mau grado o retorno a esta verdade bíblica aquando da Reforma Protestante do


século XVI, quantos cristãos têm ainda hoje muita dificuldade em encontrar toda a sua
satisfação na Pessoa de Jesus Cristo.
Aqueles, porém, que pela Graça Divina têm o privilégio de compreender plenamente
os ensinos de Jesus Cristo, tendo um encontro real e transformador com o Mestre que
Se revela nas páginas da Sagrada Escritura, nomeadamente no Novo Testamento,
esses encontram n’Ele a paz, o descanso e a segurança de que carecem não só para
esta peregrinação terrena, mas igualmente para a sua eterna salvação. Quando Cristo
é tudo para nós, quando encontramos n’Ele toda a nossa suficiência, somos os homens
e as mulheres com o maior tesouro e riqueza deste mundo, pois possuímos um
tesouro eterno, o qual está guardado para nós nos céus pelo próprio Deus.

Em Jesus Cristo temos comunhão directa com Deus, acesso à Sua santa presença, não
temos necessidade, nem podemos ter qualquer outro mediador perante Deus. Um dos
grandes erros da Igreja Romana é colocar outros mediadores entre Deus e os homens,
não só Maria, mas também a própria Igreja e o seu magistério. Segundo o ensino
Católico-Romano são os sacramentos da Igreja, os instrumentos que Deus usa para ter
comunhão com o Seu povo e abençoá-lo.

Para o Cristão Evangélico, porém, visto fundamentar a sua fé exclusivamente nos


ensinos da Escritura, é em Jesus Cristo e só em Jesus Cristo que ele tem comunhão
com Deus e d’Ele recebe todas as bênçãos de que carece e a vida eterna.

Celestino Torres de Oliveira

20 Outubro 2014

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