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Técnicas de Demonstrações

Gentil Lopes da Silva


27 de novembro de 2008

Resumo:
Aqui reuniremos algumas técnicas de demonstrações matemáticas. Acre-
ditamos que todo aluno de matemática deva conhecê-las.
Nota: Este é um excerto retirado de um de nossos livros.

1 Técnicas (Engenharia) de Demonstração


Os problemas em matemática dividem-se em duas classes:

Determinação: calcule, encontre, ache, determine,. . .


Demonstração: mostre, prove, demonstre,. . .

Costumo mesmo dizer que a matemática começa com os problemas do se-


gundo tipo. De fato, a resolução da maioria dos problemas do primeiro tipo são
algoritmicas (mecânicas); enquanto os problemas do segundo tipo exigem muito
de criatividade (engenhosidade).
Um outro critério que utilizo para distinguir não-matemática (algoritmo)
de matemática, é que a não-matemática é susceptı́vel de programação - a exem-
plo dos poderosos softwares algébricos - enquanto que a matemática em si (de-
monstrações) não. Para se lidar com matemática torna-se indispensável o co-
nhecimento de algumas técnicas de demonstração.

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1.1 Operações Lógicas sobre Proposições


Faremos um resumo das operações do cálculo proposicional também cha-
madas operações lógicas. Os principais operadores (conectivos) lógicos são os
seguintes:
∨ Disjunção (“ou”)
∧ Conjunção (“e”)
¯ Negação
−→ Condicional (“se...então”)
←→ Bicondicional (“se e somente se”)
cujas tabelas-verdade são dadas a seguir∗

p q p∨q p q p∧q p p̄

V V V V V V V F
V F V V F F F V
F V V F V F
F F F F F F

p q p −→ q p q p ←→ q p p̄ q p̄ ∨q

V V V V V V V F V V
V F F V F F V F F F
F V V F V F F V V V
F F V F F V F V F V

Acrescentamos a tabela-verdade da proposição p̄ ∨q a qual nos será de grande


utilidade.

1.1.1 Equivalencias Notáveis


A seguir listamos algumas equivalencias entre proposições, as quais podem
ser demonstradas com o auxı́lio das respectivas tabelas-verdade.

1) p̄¯ ⇐⇒ p (Dupla Negação)


2) Leis Idempotentes
a) p ∨ p ⇐⇒ p
b) p ∧ p ⇐⇒ p
3) Leis Comutativas
a) p ∨ q ⇐⇒ q ∨ p
b) p ∧ p ⇐⇒ q ∧ p
4) Leis Associativas
a) p ∨ (q ∨ r) ⇐⇒ (p ∨ q) ∨ r
b) p ∧ (q ∧ r) ⇐⇒ (p ∧ q) ∧ r
∗ Estas tabelas definem os respectivos operadores.
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5) Leis de De Morgan∗
a) ( p ∨ q ) ⇐⇒ p̄ ∧ q̄

b) ( p ∧ q ) ⇐⇒ p̄ ∨ q̄
6) Leis Distributivas
a) p ∧ ( q ∨ r ) ⇐⇒ (p ∧ q) ∨ (p ∧ r)
b) p ∨ ( q ∧ r ) ⇐⇒ (p ∨ q) ∧ (p ∨ r)
1. Proposições Aparentadas
p −→ q : Direta

q −→ p : Recı́proca

p̄ −→ q̄ : Contrária

q̄ −→ p̄ : Contrapositiva (contra-recı́proca)

2. Equivalência Entre Proposições Aparentadas


2.1 A proposição direta equivale à contra-recı́proca.
p −→ q ⇐⇒ q̄ −→ p̄
Para provar isto faremos uso da seguinte identidade:
p −→ q = p̄ ∨ q
Esta identidade pode ser obtida das respectivas tabelas-verdade.
Prova:
(i) p −→ q = p̄ ∨ q

(ii) q̄ −→ p̄ = q̄¯ ∨ p̄
= p̄ ∨ q

Isto significa que as proposições p −→ q e q̄ −→ p̄ assumem
sempre os mesmos valores lógicos; isto é, ou são ambas verdadeiras
(V ) ou são ambas falsas (F ). Consultando a tabela do bicondicional
concluimos que a proposição
 
p −→ q ←→ q̄ −→ p̄
é tautológica. Logo, estas proposições são equivalentes, isto é
p −→ q ⇐⇒ q̄ −→ p̄
Sendo assim acabamos de estabelecer nossa primeira técnica de
demonstração indireta:

∗ Augustus De Morgan (1806 − 1873) lecionou no University College, Londres. Foi ma-

temático e lógico, e contribuiu para preparar o caminho da Lógica matemática moderna.


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(T-1) O teorema direto equivale ao contra-recı́proco†

H =⇒ T ⇐⇒ T̄ =⇒ H̄

Enunciemos nossa segunda técnica de demonstração indireta:


(T-2) Anexação à hipótese da negação da tese

H =⇒ T ⇐⇒ H ∧ T̄ =⇒ T

Prova: Provemos a seguinte equivalência:



p −→ q ⇐⇒ p ∧ q̄ −→ q

De fato,

(i) p −→ q = p̄ ∨ q.

(ii) p ∧ q̄ −→ q = (p ∧ q̄) ∨ q
= ( p̄ ∨ q̄¯) ∨ q
= p̄ ∨ q ∨ q
= p̄ ∨ q.


(T-3) Redução ao absurdo

H =⇒ T ⇐⇒ H ∧ T̄ =⇒ f

Onde: f é uma proposição de valor lógico falso (é qualquer con-


tradição).
Prova: Provemos a seguinte equivalência:

p −→ q ⇐⇒ p ∧ q̄ −→ f

De fato,

(i) p −→ q = p̄ ∨ q.
(ii) p ∧ q̄ −→ f = (p ∧ q̄) ∨ f
= (p ∧ q̄)
= p̄ ∨ p̄¯
= p̄ ∨ p.


Nota: Na tabela-verdade da proposição p ∨ q vemos que quando o
valor lógico de q é F , prevalece o valor lógico de p. Estamos dizendo
que p ∨ f = p.
† H: Hipótese, T : Tese, H̄: Negação da hipótese, T̄ : Negação da tese.
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1.1.2 Uma Equivalencia Notável


Uma das equivalências mais utilizadas em demonstrações ma-
temáticas é a que segue
(T-4) Teorema com hipótese composta (∧)
Se a hipótese de um teorema é formada pela conjunção de duas
outras, é válida a seguinte equivalência
 
H1 ∧ H2 =⇒ T ⇐⇒ H1 ∧ T̄ =⇒ H̄2

Isto é, junta-se a uma das hipóteses a negação da tese e demonstra-


se a negação da outra hipótese.
Prova: Provemos a seguinte equivalência
p ∧ q −→ r ⇐⇒ p ∧ r̄ −→ q̄
De fato,
p ∧ q −→ r = (p ∧ q) ∨ r
= (p̄ ∨ q̄) ∨ r
= p̄ ∨ q̄ ∨ r.
Por outro lado,
p ∧ r̄ −→ q̄ = (p ∧ r̄) ∨ q̄
= (p̄ ∨ r̄¯) ∨ q̄
= p̄ ∨ r ∨ q̄.

Vejamos alguns exemplos de aplicação desta equivalência:
1 ) Em teoria dos números: Se a divide b e a não divide c então b não divide c.
o


 H1 :
 a|b
⇒ T: b 6 | c.
 H2 :

a6|c

H1 ∧ T̄ =⇒ H̄2

Prova: Para algum n1 e algum n2 inteiros, resulta

 b
 H : = n1
 1 a


c c
=⇒ = = n2
 b a · n1


 T̄ : c
= n2
b

Observe que
c
= n1 · n2 ≡ H̄2
a

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2o ) Em Análise:
Se a ≤ b e b ≤ a então a = b.


 H1 :
 a≤b
⇒ T: a = b.
 H2 :

b≤a

H1 ∧ T̄ =⇒ H̄2

Prova: Suponha a ≤ b e a 6= b, então a < b. 


3o ) Em Análise:
Se n ∈ N, x ∈ R, e n < x < n + 1, então x 6∈ N.

 H1 :
 x>n
⇒ T: x 6∈ N.
 H2 :

x<n+1

H1 ∧ T̄ =⇒ H̄2

Prova: Se x > n e x ∈ N então x ≥ n + 1. 


4o ) Em Teologia (Unicidade de Deus)
Suponhamos que existam dois Deuses D e D′ :

 H1 :
 D é Deus
⇒ T: D = D′
 H2 : ′
D é Deus

Prova: H1 ∧ T̄ : Suponhamos que D é Deus e que D 6= D′ . Então existe


algum atributo em D não partilhado por D′ , por conseguinte D′ não é
Deus, o que contraria H2 . 
Corolário 1. Jesus Cristo não é Deus.

Sugestão: Quando você estudante encontrar-se frente a um teorema


tipo
H1 ∧ H2 =⇒ T

e, após bater o desespero (ou antes mesmo), tente demonstrar o equivalente

H1 ∧ T̄ =⇒ H̄2

(T-5) O seguinte teorema não é raro em matemática:



H1 ⇐⇒ H2 =⇒ T
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É um teorema, tipo “se e somente se”, isto é



H1 =⇒ H2 =⇒ T

H1 ⇐= H2 =⇒ T
Então

(i) H1 =⇒ H2 =⇒ T
Observemos que a tese do teorema acima é um outro teorema. Isto
significa que assumindo H1 devemos demonstrar H2 =⇒ T . Isto é, deve-
mos mostrar que H2 acarreta T . Ainda,
H1 ∧ H2 =⇒ T
Esta conclusão pode ser provada assim:
 
H1 −→ H2 −→ T = H̄1 ∨ H2 −→ T

= H̄1 ∨ H̄2 ∨ T
= (H1 ∧ H2 ) ∨ T
= H1 ∧ H2 −→ T.
Portanto subsiste a seguinte equivalência
 
H1 =⇒ H2 =⇒ T ⇐⇒ H1 ∧ H2 =⇒ T

(ii) H2 =⇒ T =⇒ H1

Consideremos a contrapositiva: H̄1 =⇒ H2 =⇒ T . Então,
 
H̄1 −→ H2 −→ T = H̄1 −→ H̄2 ∨ T
= H̄1 −→ H2 ∧ T̄
Portanto subsiste a seguinte equivalência
 
(H2 =⇒ T ) =⇒ H1 ⇐⇒ H̄1 =⇒ H2 ∧ T̄

(T-6) Teorema com hipótese composta (∨)


Se a hipótese de um teorema é formada pela disjunção de duas outras,
é válida a seguinte equivalência
  
H1 ∨ H2 =⇒ T ⇐⇒ H1 =⇒ T ∧ H2 =⇒ T

Prova: Provemos a seguinte equivalência


 
p ∨ q −→ r ⇐⇒ p −→ r ∧ q −→ r
De fato,
p ∨ q −→ r = (p ∨ q) ∨ r
= (p̄ ∧ q̄) ∨ r
 
= p̄ ∨ r ∧ q̄ ∨ r
 
= p −→ r ∧ q −→ r