Você está na página 1de 21

Accelerat ing t he world's research.

Escravidão negra, capitalismo e


tráfico interno de escravos no Pará
oitocentista: aspectos gerais e o caso
de Sa...
Luiz Laurindo

Anais do 8º Encontro de Escravidão e Liberdade do Brasil Meridional

Cite this paper Downloaded from Academia.edu 

Get the citation in MLA, APA, or Chicago styles

Related papers Download a PDF Pack of t he best relat ed papers 

Tráfico int erno de escravos no Pará durant e as décadas finais da escravidão: t raçando rot as,…
Luiz Laurindo

Alguns vêm de lá, out ros de cá: a Amazônia no t ráfico int erno brasileiro de escravos (século XIX)
Luiz Laurindo

À margem da segunda escravidão? A escravidão no vale amazônico nos quadros da economia-mund…


Luiz Laurindo, Daniel S Barroso
ESCRAVIDÃO NEGRA, CAPITALISMO E TRÁFICO INTERNO DE
ESCRAVOS NO PARÁ OITOCENTISTA: ASPECTOS GERAIS E O CASO
DE SANTARÉM

Luiz Carlos Laurindo Junior1

Introdução

Fechadas as rotas do tráfico transatlântico para o Império do Brasil, o tráfico interno de


escravos se tornou determinante para a continuidade do sistema escravista brasileiro na segunda
metade do século XIX e foi responsável pela negociação e migração forçada de grande contingente
de escravos de várias províncias e regiões do Império para o sudeste cafeeiro. A Província do Pará,
no entanto, apesar de sua população escrava relativamente estável e significativa nas décadas de
1850 e 1870, forneceu parcela proporcionalmente pequena de escravos para outras províncias, e, no
balanço dos fluxos de entrada e saída do tráfico interprovincial de escravos, ficou com “saldo
positivo”. No presente texto, resultado de pesquisa em andamento, a partir da historiografia e de um
conjunto inicial de escrituras de venda de escravos, analiso essa situação excepcional do Pará e a
consequente retenção de sua população escrava na segunda metade do século XIX.
O texto está organizado em duas partes, desdobradas de duas abordagens interdependentes.
A primeira relaciona o fortalecimento e a continuidade da escravidão na província do Pará e no vale
amazônico em geral à chamada segunda escravidão e ao processo de inserção da região na
economia-mundo capitalista do século XIX (o que se deu por meio da expansão e da produção e
exportação de cacau e borracha). A segunda parte enfoca o tráfico interno no e a partir do Pará –
organizado em torno dos principais municípios escravistas da província –, com destaque para os
predominantes fluxos locais e intraprovinciais, responsáveis pela formação de um mercado de
escravos circunscrito geograficamente, que distribuiu a população escrava entre as diferentes
regiões da província e atendeu parte da demanda por força de trabalho tanto dos setores da
economia conectados ao mercado interno (regional ou nacional) quanto daqueles ligados direta ou

1
Docente do curso de História da Universidade Federal do Oeste do Pará, doutorando do Programa de Pós-Graduação
em História Social da Universidade de São Paulo. E-mail: luizcarloslaurindo@gmail.com.

1
indiretamente ao mercado mundial. Em razão do estado atual da pesquisa, essa parte do texto se
voltará apenas ao município de Santarém, situado no Baixo Amazonas, durante o período
delimitado na documentação utilizada, de 1877 a 1886.

O Pará e a segunda escravidão

O historiador norte-americano Dale Tomich, em Pelo prisma da escravidão, chama atenção


para a necessidade de balizarmos as diferentes espacialidades e temporalidades da escravidão negra
de origem africana implementada ao redor do Atlântico, algo salutar para o dimensionamento de
suas especificidades, mudanças e interconexões estruturais no sistema-mundo capitalista.2 Assim
sendo, no século XIX, quando o Império Britânico se tornou hegemônico no Ocidente, teria se
configurado nas Américas um segundo ciclo da escravidão, chamada de segunda escravidão, que,
diferentemente da escravidão colonial, teria sido construída e fortalecida sistemicamente a partir da
Revolução Industrial, do redimensionamento da divisão mundial do trabalho e da expansão da
produção-exportação em espaços específicos de três commodities de grande circulação e consumo
no mercado mundial: açúcar em Cuba, algodão no sul dos Estados Unidos e café no sudeste do
Brasil.3 Parafraseando Robin Blackburn, a segunda escravidão, embora não possa ser separada de
forma tão brusca da escravidão colonial, pois “muitas das características essenciais da escravidão
nas plantantions se conservaram e foram adaptadas a novas condições e tecnologias”, foi “um
regime escravista mais autônomo, mais duradouro e, em termos de mercado, mais ‘produtivo’,
capaz de suportar a ofensiva da Era das Revoluções e de atender à crescente demanda pelos
produtos das plantations”.4
Tomich coloca ainda que a escravidão e outras formas não-assalariadas de trabalho precisam
ser concebidas dentro da totalidade das relações articuladas no capitalismo, pois a produção deve
ser entendida junto com a distribuição, a troca e o consumo num “campo unificado (...) pela forma

2
TOMICH, Dale W. Pelo prisma da escravidão: trabalho, capital e economia mundo. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2011, pp. 51-52. Essa abordagem pressupõe o dimensionamento histórico do próprio
capitalismo enquanto sistema-mundo, como delineado em WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo histórico e
Civilização capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.
3
TOMICH, op. cit.
4
BLACKBURN, Robin. Por que segunda escravidão?. In: MARQUESE, R. & SALLES, R. (Orgs.). Escravidão e
capitalismo histórico no século XIX: Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, pp.
13-54, pp. 17-18.

2
mercadoria”, onde “cada termo se define mediante sua relação com os demais”. Considerando,
então, que a divisão mundial do trabalho é formada historicamente como “uma relação entre
processos materiais específicos e formas sociais de trabalho em lugares particulares, integrados pelo
mercado mundial, mudando em relação um ao outro através do tempo e do espaço”, não seria
absurda a correlação entre trabalho escravo e assalariado, revelando a “totalidade complexa,
multidimensional e estruturada das relações que formam a economia mundo capitalista”. 5
A análise do vale amazônico oitocentista por esse ângulo, ou seja, relacionando a região
com a segunda escravidão e considerando sua inserção no sistema-mundo capitalista, é um caminho
em potencial para a percepção das estruturas daquela sociedade e pode suscitar problematizações
pouco aventadas na historiografia atual. Na Província do Grão-Pará, principal unidade política da
região no século XIX (única unidade até 1850, quando da criação da província do Amazonas), ainda
que, comparativamente, a economia não tenha atingido dinamicidade semelhante à dos espaços
centrais da segunda escravidão, houve forte atrelamento ao mercado mundial por meio da produção
e exportação de cacau e borracha.6 O cacau foi o principal produto do vale amazônico na primeira
metade do século XIX e teve grande peso na pauta de exportações da província paraense até pelo
menos a década de 1860.7 Descoberto o processo de vulcanização do látex, a exportação de
borracha, no penúltimo quartel do século XIX, superou a de cacau e o Pará se tornou o principal
fornecedor mundial dessa commodity, o que dinamizou a economia da região, inseriu a província de
modo mais significativo no mercado mundial, impulsionou a reestruturação de suas principais áreas
urbanas e rurais – sob o discurso do progresso e da civilização – e resultou na reorganização do

5
TOMICH, op. cit., pp. 48-51.
6
Sobre as diferentes facetas e apreensões da economia paraense no século XIX: SANTOS, Roberto. História
Econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A. Queiroz, 1980; WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na
Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo: Hucitec; Edusp, 1993; CANCELA, Cristina D. Casamento
e relações familiares na economia da borracha (Belém, 1870-1920). 2006. 343 fls. Tese (Doutorado em História
Econômica) – Universidade de São Paulo, São Paulo; BATISTA, Luciana M. Muito além dos seringais: elites, fortunas
e hierarquias no Grão-Pará, c.1850 - c.1870. 2004. 283 fls. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro; NUNES, Francivaldo A. Sob o signo do moderno cultivo: Estado Imperial e
Agricultura na Amazônia. 2011. 422 fls. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói;
BARROSO, Daniel S. O cativeiro à sombra: estrutura da posse de cativos e família escrava no Grão-Pará (1810-1888).
2017. Em revisão. Tese (Doutorado em História Econômica), Universidade de São Paulo. São Paulo; BEZERRA
NETO, José Maia. Escravidão negra no Grão-Pará (séculos XVII-XIX). 2.ed. Belém: Paka-Tatu, 2012; entre outros.
7
BATISTA, op. cit. e BARROSO, op. cit.

3
mundo do trabalho – visto o aumento da população livre, mas também a retenção de sua população
escrava (ver Tabela 1).8

Tabela 1
População total e escrava no Grão-Pará (século XIX)

ANO POPULAÇÃO ESCRAVOS ESCRAVOS %


1823 128.127 28.051 22,25
1833 149.854 29.977 20,00
1848 164.949 33.542 20,28
1850 179.415 33.323 18,57
1854 198.756 30.847 15,52
1862 215.923 30.623 14,18
1872 275.237 27.458 9,98
1874 264.159 31.537 11,9
1882 274.883 24.763 9,00
1884 274.883 20.849 7,58
1888 280.676 10.535 3,75
Fonte: BEZERRA NETO, 2012, op. cit., p. 221.

As informações sobre a população escrava no século XIX, apresentadas na Tabela 1, onde se


observa que, em termos absolutos, o contingente escravo só reduz significativamente na década de
1880, contrariam a interpretação reproduzida na historiografia voltada à economia da borracha,
segundo a qual o escravo negro de origem africana, após o boom dessa commodity, teria perdido
importância e sido substituído pelo trabalhador livre pobre, com destaque para os migrantes
oriundos da região atualmente conhecido como nordeste.9 Trabalhos recentes sobre a escravidão na
região já questionaram essa ideia e, atualmente, é consensual que, no vale amazônico como um
todo, a escravidão negra teve a devida relevância desde o fim do século XVII até a última década
em que existiu legalmente,10 tendo sido fortalecida, todavia, na segunda metade do século XVIII –
quando da criação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, uma das medidas

8
WEINSTEIN, op. cit., CANCELA, op. cit., BATISTA, op. cit., NUNES, op. cit.
9
Cf., por exemplo, SANTOS, op. cit., pp. 60-63 e WEINSTEIN, op. cit., p. 24.
10
Cf. BEZERRA NETO, 2012, op. cit.; CHAMBOULEYRON, Rafael. Escravos do Atlântico equatorial: tráfico
negreiro para o Estado do Maranhão e Pará (século XVII e início do século XVIII). Revista Brasileira de História, São
Paulo, v. 26, n. 52, 2006, pp. 79-114; e SAMPAIO, Patrícia Melo (org.). O fim do silêncio: presença negra na
Amazônia. Belém: Editora Açaí/CNPq, 2011.

4
de Marques de Pombal para a região –11 e nas primeiras décadas do XIX – em sintonia com a
estruturação da segunda escravidão. Em pesquisa recente sobre o tráfico transatlântico para a
região, José Maia Bezerra Neto calculou que dos 58.895 africanos ingressados no Grão-Pará entre o
final do século XVII e a década de 1840, aproximadamente 60% ingressaram entre 1756 e 1800 e
35% entre 1801 e 1841.12
O fortalecimento da escravidão em fins do XVIII e sua permanência até a década de 1880 no
Pará se conectam a dois aspectos essenciais. Primeiramente, ao papel das alforrias na relação entre
senhores e escravos, questão que ainda não foi suficientemente estudada na região amazônica.
Como aponta Rafael Marquese, a relação de contrapeso entre tráfico negreiro e alforrias na
experiência histórica colonial foi fundamental para que a ordem social escravista não fosse alterada
entre os séculos XVIII e XIX e assumisse, pelo contrário, nova lógica sistêmica no âmbito do
Estado nacional brasileiro.13 Há evidências do peso da alforria no Pará, por exemplo, no
recenseamento geral do Império de 1872. Naquele ano, 44,62% de sua população livre era
composta por pardos e pretos, o equivalente a 110.556 do total de 274.883 homens e mulheres. Se
incluirmos no cômputo os caboclos, a população branca corresponderia a apenas 37,38%.14 O
comprometimento da parcela negra livre e liberta da população com o sistema escravista contribuiu
para a segurança, continuidade e reestruturação deste na passagem para o século XIX.15
O segundo aspecto, talvez o mais importante, corresponde ao entrecruzamento de diferentes
atividades econômicas no vale amazônico, uma de suas marcas ao longo da história. Sobre a
Província do Pará, especificamente, Luciana Marinho destaca que a sua economia, no século XIX,
esteve assentada em “uma estreita combinação das atividades extrativas e agrícolas, além da pesca e

11
Com essa afirmação, não pretendo reiterar o equívoco historiográfico segundo o qual a escravidão negra teria sido
insignificante antes da criação desta companhia monopolista, em 1755, conforme asseveram MACLACHLAN, Colin
M. African slavery and economic development in Amazonia, 1700-1800. In: TOPLIN, Robert Brent (Ed.). Slavery and
race relations in Latin America, contributions in afro-american and african studies. Westport, Connecticut, London,
England: Greenwood Press, 1974, number 17, p. 112-145 e CARDOSO, Ciro Flamarion. Economia e sociedade em
áreas coloniais periféricas. Rio de Janeiro: Graal, 1984; e é reproduzido em trabalhos sobre temáticas diversas.
12
O último desembarque de escravos africanos no Pará data de 1841. Cf. BEZERRA NETO, op. cit.
13
MARQUESE, Rafael de Bivar. A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos
XVII a XIX. Novos Estudos CEBRAP, vol. 74, 2006, pp. 107-123.
14
BRASIL. Diretoria Geral de Estatística. Recenseamento Geral do Império de 1872, v. 1. Rio de Janeiro: Typ.
Leuzinger/Tip. Commercial, 1876.
15
MARQUESE, 2006, op. cit.

5
da caça”.16 O extrativismo, portanto, não anulou o desenvolvimento das atividades agrícolas.17
Inclusive, foi de grande relevância nesse cenário a plantation (produção agrícola em larga escala,
racionalizada e voltada para exportação, geralmente com uso de trabalho escravo), que, tanto no
período colonial quanto no século XIX, esteve no horizonte das autoridades, de grandes
proprietários de terras e escravos e mesmo de lavradores,18 sem com isso inibir a prática de outros
tipos de lavoura, a pecuária, a extração de “produtos da floresta” e posteriormente do látex da
seringueira, entre outras atividades, produtoras de gêneros tanto para o consumo interno quanto para
exportação. Em que pese a importância da agricultura, a produção-exportação de borracha foi
crucial para a conexão com a economia-mundo capitalista e a dinamização econômica interna, que,
reitero, oportunizou a retenção da força de trabalho escrava disponível.
Como desdobramento, o Pará, ao contrário da ampla maioria das províncias dos atuais norte
e nordeste e de outras regiões do Império, não perdeu escravos no balanço do tráfico interprovincial
para o sudeste cafeeiro, configurando-se como exceção, neste quesito, à segunda escravidão.19 A
entrada de escravos na província, superou a saída, sendo a capital paraense um “mercado atraente
aos negociantes da mão de obra escrava”.20 Segundo Bezerra Neto, os senhores de engenho,
comerciantes e seringalistas insistiam em manter seus plantéis de escravos e até adquirir novos,

16
BATISTA, op. cit., p. 102. Cf., ainda: CHAMBOULEYRON, 2006, op. cit.; BEZERRA NETO, José Maia. Por
Todos os Meios Legítimos e Legais: As Lutas contra a Escravidão e os Limites da Abolição (Brasil, Grão-Pará: 1850-
1888). 2009. 505 fls. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Univ. Católica de São Paulo, São Paulo; e SAMPAIO,
Patrícia Melo. Os fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880. Manaus: Editora
da Universidade do Amazonas, 1997;
17
A ideia de que as características ecológicas e geográficas da região teriam inibido o desenvolvimento da agricultura
na região (apresentada em MACLACHLAN, op. cit.; SANTOS, op. cit., WEINSTEIN, op. cit. e outros) já foi
devidamente contraposta pela historiografia. Cf., por exemplo, NUNES, op. cit.; e BATISTA, op. cit.; e
CHAMBOULEYRON, R. Povoamento, ocupação e agricultura na Amazônia Colonial (1640-1706). Belém: Ed. Açaí,
Programa de Pós-graduação em História Social da Amazônia (UFPA), Centro de Memória da Amazônia (UFPA), 2010.
18
Cf.: CHAMBOULEYRON, 2010, op. cit., BEZERRA NETO, 2012, op. cit. e NUNES, op. cit..
19
O tráfico interprovincial, ao alimentar o mercado nacional de escravos, foi de fundamental importância para a
manutenção da escravidão no Brasil após 1850 e para o seu posicionamento na segunda escravidão. Cf. MARQUESE,
R. & SALLES, R. A escravidão no Brasil oitocentista: história e historiografia. In: MARQUESE, R. & SALLES, R.
(Orgs.). Escravidão e capitalismo histórico no século XIX: Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2016, pp. 99-162. Ainda sobre o tráfico interno no Brasil, cf., além dos trabalhos já mencionados: MOTTA,
José Flávio. Escravos daqui, dali e de mais além. O tráfico interno de cativos na expansão cafeeira paulista (Areias,
Guaratinguetá, Constituição/Piracicaba e Casa Branca, 1861-1887). São Paulo: Alameda, 2012; e GRAHAM, Richard.
Nos tumbeiros mais uma vez? O comércio interprovincial de escravos no Brasil. Afro-Ásia, n. 27, 2002, pp. 121-160.
20
BEZERRA NETO, 2012, op. cit., p. 83 e SLENES, Robert W. The Demography and Economics of Brazilian Slavery,
1850-1888. 1976. 728 fls. PhD. Dissertation (History) – Stanford University, Palo Alto.

6
através do tráfico interprovincial.21 Portanto, a imagem de uma torrente carregando escravos no
sentido norte-sul, responsável por ter apressado a transição da escravidão para o trabalho livre nas
províncias do norte, não se aplica ao Pará. O aumento expressivo de sua população livre, conforme
é apresentado na Tabela 1, não foi acompanhado por redução da população escrava, o que
aconteceu de forma acentuada apenas na década de 1880.22 A partir da divisão internacional do
trabalho resultante da Revolução Industrial, houve uma reorganização e o entrecruzamento de
relações e formas de trabalho no vale amazônico, principalmente por conta de sua diversidade
étnica, social e cultural, prevalecendo, no mundo do trabalho, o uso concomitante e quiçá no mesmo
espaço produtivo de trabalhadores em diferentes condições, de diferentes origens, com diferentes
experiências e inserções culturais. Nesse cenário, os escravos existentes no Pará foram
redistribuídos via tráfico intraprovincial.
A crise da segunda escravidão, contudo, não tardaria a abarcar o Pará. Extinguidas as fontes
de fornecimento de escravos africanos para o Império, em 1850, restaram apenas a reprodução
endógena e o tráfico interno (inter e intraprovincial) como recurso para aqueles que almejassem
adquirir novas “peças”. Porém, o saldo positivo no tráfico interno não significou ganho expressivo
de escravos por esse meio. Nas décadas de 1860 e 1870, dois acontecimentos interconectados foram
decisivos para a desestruturação da segunda escravidão e o estopim da crise da escravidão no Brasil
como um todo: a Guerra Civil nos Estados Unidos e a aprovação da Lei do Ventre Livre. O
primeiro acabou com um dos eixos da segunda escravidão, a produção algodoeira escravista no sul
dos Estados Unidos; o segundo, ao gerar mudanças na lógica do controle senhorial, nos preços
praticados no mercado de escravos e, sobretudo, ao interromper a reprodução endógena, abalou
outro eixo, a produção cafeeira escravista no sudeste brasileiro.23 Já na década de 1880, o
movimento abolicionista se fortaleceu e a aprovação da Lei dos Sexagenários, que objetivava

21
BEZERRA NETO, 2009, op. cit., p. 412-413.
22
Tendo em vista o balanço positivo no tráfico interprovincial, a diminuição da população escrava pode ser explicada
pela mortalidade, pelas alforrias e fugas. Somado a esses fatores, a Lei do Ventre Livre cessa a possibilidade de
reprodução endógena da população escrava. Cf. BARROSO, op. cit. Sobre a suposta perda de escravos no sentido
norte-sul e consequente aceleração da transição para o trabalho livre no norte, cf. CONRAD, R. Os últimos anos da
escravatura no Brasil – 1850-1888. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
23
Sobre a influência da Guerra Civil norte-americana na crise da escravidão brasileira, cf. MARQUESE, Rafael de
Bivar. A Guerra Civil dos Estados Unidos e a crise da escravidão no Brasil. Afro-Ásia, n. 51, 2015, pp. 37-71. Sobre
os impactos causados pela Lei do Ventre Livre, cf. AZEVEDO, Célia Maria Marinho. Onda Negra, medo branco: o
negro no imaginário das elites - século XIX. São Paulo: Annablume, 2004, p. 156.

7
apaziguar a opinião pública e prolongar o máximo possível a vida do sistema escravista, contribuiu
ainda mais para o seu fim, agora iminente.24 Em todo esse processo, tanto a agência escrava25
quanto questões de ordem global, como a pressão política e militar da Inglaterra, tiveram
influência.26 Logo, por mais que a segunda escravidão não tenha drenado a população escrava
paraense para as fazendas do sudeste cafeeiro, sua desestruturação desmontou a escravidão no
Império e, obviamente, na região amazônica.
O tráfico interno interferiu nessa crise, pois contribuiu, dialeticamente, tanto para a
continuidade da escravidão após a Lei Eusébio de Queirós, quanto para o seu fim. Robert Slenes
destaca que a configuração do mercado interno de escravos no Brasil pós-1850 – subdividido em
dois mercados regionais de escravos relativamente autônomos, vinculados um ao outro, um situado
no eixo norte-nordeste, outro no centro-sul – explica a força política e econômica da escravidão
enquanto instituição nacional. Por outro lado, ao crescer acentuadamente após 1850, o tráfico
interno impactou os laços sociais dos escravos, contribuiu para o aumento da insatisfação escrava
(principalmente por rearranjar as relações com seus senhores e seus pares)27 e ocasionou certo
receio entre os senhores do centro-sul pela concentração de escravos nas áreas de expansão
econômica – sobretudo num contexto de mobilização nacional e internacional contra a escravidão.
O tráfico interno se transforma, então, num campo de luta política acerca do futuro da escravidão, o
que leva Slenes a enxergar em sua queda quantitativa, entre os anos de 1881-1883, fator decisivo na

24
MENDONÇA, Joseli Maria Nunes. Entre a mão e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição no
Brasil. Campinas: Editora da UNICAMP, 2008, p. 319.
25
Sobre a agência escrava, mencionando apenas os trabalhos referenciados ao longo deste texto, cf: MENDONÇA, op.
cit.; MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista (Brasil, século XIX).
3.ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013; FERREIRA, Roberto Guedes. Autonomia escrava e (des)governo senhorial
na cidade do Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. In: FLORENTINO, Manolo (Org.). Tráfico, cativeiro e
liberdade (Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, pp. 229-284; LAURINDO
JUNIOR, Luiz Carlos. A cidade de Camilo: escravidão urbana em Belém do Pará (1871-1888). 2012. 209 fls.
Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Pará. Belém.
26
MARQUESE, 2006, op. cit., MARQUESE, 2015, op. cit.
27
A partir da intensificação do tráfico na década de 1870, os escravos se depararam com condições mais instáveis nos
plantéis e poucos escaparam da experiência de serem vendidos e separados de amigos, familiares e amantes, situação
distante das relações senhor-escravo características do período anterior a 1850, pautadas na relativa estabilidade
familiar, nos acordos paternalistas e no fortalecimento da comunidade escrava. Se, no entanto, o horizonte de
expectativas dos escravos nascidos e/ou ambientados no próprio Brasil foi reduzido, aumentou a circulação de
experiências de escravidão e liberdade e a potencialidade da revolta escrava, que contribuiu enormemente para a
corrosão da escravidão. Cf. MATTOS, op. cit. e SLENES, R. W. The Brazilian Internal Slave Trade, 1850-1888:
Regional Economics, Slave Experience, and the Politics of a Peculiar Market. In: JOHNSON, W (Ed.). The Chattel
Principle: Internal Slave Trades in the Americas. New Haven: Yale University Press, 2004, pp. 325-370.

8
história da escravidão brasileira.28 Para Rafael Marquese e Ricardo Salles, o tráfico acentuado para
o sudeste, ao produzir desequilíbrios demográficos, sociais e políticos, suscitou a implementação de
medidas anti-tráfico que, juntamente com o arrefecimento das alforrias e a concentração cada vez
maior da posse de escravos (visto os altos preços dos escravos), dificultaram tanto o acesso de
diferentes estratos da sociedade à mão de obra escrava quanto o acesso dos escravos à liberdade.29
Embora os desdobramentos nacionais e globais da escravidão tenham alcançado o Pará, sua
população escrava, como visto acima, manteve certa estabilidade até a década de 1880. As
especificidades do tráfico interno nessa parte do Império, na segunda metade do século XIX, desde
que cotejadas com fatores nacionais e globais, enformam uma das chaves de entendimento desta
questão, considerando que: a demanda pela força de trabalho escrava não cessou na segunda metade
do século XIX, em razão da dinamização da economia regional; a introdução da navegação a vapor
no rio Amazonas, redimensionando temporal e espacialmente as rotas fluviais (que se somavam às
terrestres), facilitou a circulação de mercadorias e pessoas; o aumento da taxação sobre o comércio
de escravos em várias províncias (a exemplo das do centro-sul cafeeiro)30 e os bons preços
praticados no Pará foram elementos que transformaram em bom negócio a manutenção de escravos
entre a classe senhorial estabelecida (causando, inclusive, o outrora referido arrefecimento das
alforrias), mas também a venda de escravos dentro da própria província. Dessa forma, ganha fôlego
e é redimensionado o chamado tráfico local e intraprovincial, responsável por redistribuir a mão de
obra escrava existente entre as diferentes regiões do Pará e pela formação do que acredito ter sido
um terceiro mercado regionalizado de escravos, cujo eixo estaria no vale amazônico. A próxima
parte do trabalho, construída a partir do estado inicial da pesquisa, direciona-se para a principal
cidade, Santarém, de uma das regiões do Pará englobadas nesse mercado, o Baixo Amazonas.

Tráfico interno de escravos em Santarém, no Baixo Amazonas: o micro no sistêmico

A região do Baixo Amazonas é situada em torno da foz do Rio Tapajós, noroeste do atual
Estado do Pará, lugar historicamente ocupado por diversos grupos indígenas. No século XVII,
28
SLENES, 2004, op. cit.
29
MARQUESE & SALLES, op. cit.
30
Essas taxações, somadas aos preços das passagens fluviais e aos lucros dos intermediários (procuradores, negociantes
especializados, entre outros), dificultaram ainda mais a aquisição de novos escravos. Cf. SLENES, 2004, op. cit.,
AZEVEDO, op. cit.; MOTTA, op. cit., GRAHAM, op. cit.; BEZERRA NETO, 2012, op. cit.

9
começou a ser colonizada pelos portugueses, processo intensificado no período pombalino,
momento em que a força de trabalho escrava de origem africana começou a ser ali inserida em
maiores proporções. No século XIX, sua localização se tornou estratégica, pois perto da fronteira
com a província do Amazonas (criada em 1850) e pela importância do rio Tapajós como via de
conexão com a província do Mato Grosso. Na década de 1870, abrangia essencialmente sete
municipalidades (Monte Alegre, Santarém, Vila Franca, Itaituba, Alenquer, Óbidos e Faro) e sua
economia girava em torno da criação de gado, comercializado no mercado interno, e da produção e
exportação de cacau e borracha.31
Com base em documentação cartorial e paroquial de Santarém, Óbidos e Alenquer,
Eurípedes Funes apresentou algumas características gerais da escravidão na região: a maioria dos
africanos para ela traficados era do sudoeste e centro da África; no século XIX, predominaram
plantéis de poucos escravos, o que favoreceu a convivência próxima entre senhores e escravos;
como em outras partes do império, os escravos contavam com certa margem de negociação e
espaços de autonomia. Naquele quadrante, as diferentes facetas da experiência dos escravos (como
o trabalho, a sociabilidade, a resistência) eram permeadas pelo contato interétnico e influenciadas
pelo meio ambiente.32 Santarém e Óbidos eram seus municípios mais populosos e importantes
geográfica e economicamente no século XIX. No primeiro, principal centro urbano e comercial do
Baixo Amazonas, caracterizado pelo cultivo de diversos gêneros agrícolas, com destaque para o
cacau (também coletado na floresta), houve a maior concentração de escravos da região entre a
segunda metade do XVIII e o fim da escravidão.33
No censo de 1872, os municípios que integravam o Baixo Amazonas somavam 38.907
habitantes livres e 2.596 escravos. Entre os livres, 13.240 eram pretos e pardos. Santarém, com duas
freguesias, era o município com mais escravos: 10,73% (995) da população total do município
(9.270) e 38,32% dos escravos de toda a região. Além do contingente de escravos, 20,51% (1.902)
de sua população livre eram pretos e pardos e 34,13% (3.164) caboclos, que, ao que tudo indica,
correspondiam à parcela mestiça da população ou de origem indígena, abrangendo diferentes

31
Cf. BEZERRA NETO, 2012, op. cit., WEINSTEIN, op. cit. e FUNES, Eurípedes A. “Nasci nas matas, nunca tive
senhor”. História e memória dos mocambos do baixo Amazonas. In: REIS, João José & GOMES, Flávio. Liberdade por
um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 467-497;
32
FUNES, op. cit.
33
BEZERRA NETO, 2012, op. cit., pp. 178-179. Óbidos será incluída na análise em fase posterior da pesquisa.

10
origens étnicas. Os brancos, portanto, eram minoria, como no Baixo Amazonas em geral, onde
representavam pouco mais de um quarto da população total: 27,55% ou 10.720 dos 38.907
habitantes.34 Nota-se, então, a significância da presença negra, indígena e mestiça na sociedade
local, o que dá margem para retomarmos a percepção antes esboçada, segundo a qual a expressiva
quantitativa de negros (pretos e pardos) livres e libertos, relacionada à disseminação da prática da
alforria na sociedade brasileira oitocentista, teria contribuído para a continuidade da escravidão no
Brasil ao longo do século XIX, até a década de 1880.
No livro de escrituras de compra e venda de escravos do Cartório Nogueira Sirotheau,35 em
Santarém, há uma pequena mostra do tráfico interno envolvendo o Pará, que pode ser organizado
em três escalas: o tráfico no âmbito da região do Baixo Amazonas, caracterizado aqui como tráfico
local; o tráfico entre as diferentes regiões do Pará, de caráter intraprovincial; e o tráfico de escravos
entre províncias distintas ou interprovincial. Iniciado em julho de 1877 e encerrado em dezembro de
1886,36 o livro aglomera o registro de 82 transações (76 relacionadas à compra e venda de escravos,
5 escrituras de penhor e 1 de liberdade), envolvendo 89 escravos (sendo que alguns foram
transacionados mais de uma vez). Deste total, em virtude do estado atual da pesquisa e dos
objetivos do texto, apenas as escrituras relacionadas à compra e venda serão utilizadas, portanto, 73
escrituras, envolvendo 79 escravos (foram excluídas 3 escrituras daquele total de 76, uma de
cancelamento de venda, outra de ratificação e explicação de venda e a terceira considerada sem
efeito), a partir das quais, nos próximos parágrafos, serão esboçadas algumas considerações.
Ao longo dos anos englobados pelo livro, houve redução paulatina da quantidade de vendas
de escravos, como se observa na Tabela 2, que pode ser relacionada ao contexto de crise da
escravidão no Brasil, quando a população escrava e a disponibilidade de escravos para serem
transacionados diminuem acentuadamente. Porém, contraditoriamente, pode ter resultado: da
dinamicidade da economia regional, lembrando que o aumento da demanda por força de trabalho
nos diferentes setores da economia provincial, na segunda metade do século XIX, ligados ou não à
economia-mundo, fora atendido por trabalhadores livres, mas também por escravos; e da própria

34
BRASIL. Diretoria Geral de Estatística, op. cit.
35
O Decreto n° 2.699, de 28 de novembro de 1860, tornou obrigatório o registro das transações de escravos em
cartórios. Cf. MOTTA, op. cit.
36
Não há nenhuma escritura registrada no ano de 1884 e não há qualquer referência no livro a esta ausência.

11
lógica do mercado de escravos na Província do Pará e no vale amazônico, visto que, ou os altos
preços dos escravos no início da década de 1880 dificultaram a venda, ou transformaram a
manutenção da propriedade escrava (enquanto capital líquido e flexível) em bom investimento.

Tabela 2
Escravos vendidos por biênio e valores médios de cada escravo nas transações (1878-1886)37
VALOR MÉDIO
QUANTIDADE DE
BIÊNIO APROXIMADO DE CADA
ESCRAVOS VENDIDOS
ESCRAVO (EM RÉIS)
1878-1879 26 740$384
1880-1881 21 909$523
1882-1883 13 1.007$692
1885-1886 7 528$571

TOTAL 67 -
Fonte: SANTARÉM. Cartório Nogueira Sirotheau – 1º Ofício de Notas e Registro de
Imóveis, Livro de escrituras de compra e venda de escravos, Santarém, 1877.

Os valores médios dos escravos vendidos no mercado de Santarém podem ser divididos em
dois momentos, conforme a Tabela 2: o primeiro, entre os biênios 1878-1879 e 1882-1883 é
marcado por aumento constante; o segundo, entre 1882-1883 e 1885-1886, por queda brusca nos
valores. As questões acionadas no parágrafo anterior explicam também o aumento dos valores, já a
explicação para a queda pode ser dividida em três eixos: [1] internacionalmente, o antiescravismo
generalizado e a pressão inglesa atingiram o ápice na década de 1880 e os últimos pilares da
segunda escravidão se desmontavam; [2] no Império do Brasil, a abolição já era aventada – apesar
da defesa ainda intransigente da escravidão em certos segmentos das elites econômicas nacionais –,
o tráfico interno tinha se tornado excessivamente custoso e não mais garantia a reprodução da força
de trabalho nos setores mais dinâmicos da economia nacional, o movimento abolicionista se
fortalecia, a resistência escrava crescia e as alforrias se multiplicavam exponencialmente; [3] na
Província do Pará, a população escrava existente, sob as mesmas forças atuantes no Brasil, diminuiu
acentuadamente em meados da década de 1880, tornando-se definitivamente insuficiente para

37
Os dados da tabela ainda precisam ser reorganizados em razão da idade e do sexo dos escravos, fatores que, como
tem apontado a historiografia sobre o tráfico interno, influenciaram os valores praticados. Ainda sobre a tabela, foi
excluído o ano de 1877, pois o livro foi aberto em julho e a série referente ao mesmo está incompleta.

12
atender a demanda da multifacetada economia da região. Todos esses fatores, entre outros,
influenciaram em diferentes medidas o mercado e, consequentemente, os valores de escravos.

Tabela 3
Rotas do tráfico interno de escravos registrado em Santarém conforme a residência dos senhores e a
abrangência do tráfico (1877-1886)
N° DE N° DE
ROTAS ROTAS
ESCRAVOS ESCRAVOS
Tráfico local no Baixo Amazonas (Pará) Tráfico intraprovincial no Pará
Santarém – Santarém 38
47 Santarém – Belém 3
Santarém – Vila Franca 1 Santarém – Breves 1
Santarém – Aveiro 3 Aveiro – Breves 1
Santarém – Itaituba 2 Belém – Santarém 5
Santarém – Monte Alegre 1 Belém – Itaituba 1
Alenquer – Santarém 3 SUBTOTAL 11
Vila Franca – Santarém 1 Tráfico interprovincial envolvendo o Pará
Aveiro – Aveiro 1 Pará (Santarém) – Amazonas 1
Itaituba – Itaituba 2 Amazonas (Manaus) – Pará (Santarém) 1
Itaituba – Santarém 2 SUBTOTAL 2
Óbidos – Santarém 2
Monte Alegre – Santarém 1 TOTAL 79
SUBTOTAL 66
Fonte: SANTARÉM. Cartório Nogueira Sirotheau, op. cit.

No Pará, durante as décadas de 1870/80, destacou-se o tráfico local e intraprovincial. A


ampla maioria das vendas de escravos registradas no Cartório Sirotheau tinha como ponto de
partida e destino Santarém, o que se explica, em grande medida, pelo fato do cartório estar nele
situado, mas também pela importância do seu mercado de escravos. Na Tabela 3, 59 dos 79
escravos vendidos – seja no âmbito do Baixo Amazonas, da província ou em rotas interprovinciais –
eram de senhores com residência neste município. Dos demais 20 escravos, 15 foram comprados
por senhores de Santarém, tendo os senhores aí residentes comprado, ao todo, 62 dos escravos
vendidos. Os vendedores e compradores dos 5 escravos traficados em rotas externas a Santarém, ou

38
Neste item foram consideradas tanto as localidades rurais (Tapará, Arapixuna e Itaqui) quanto o próprio núcleo
urbano do município de Santarém.

13
seja, que não envolveram senhores desse município, ali registraram seus negócios provavelmente
por se tratar do principal entreposto comercial da região à época.
Ao contrário do tráfico local e intraprovincial, o tráfico interprovincial, como indica a
Tabela 3, é irrisório no conjunto das transações registradas em Santarém, salientando-se a
consistente retenção de escravos no Pará, mesmo em meio à crise da instituição escravista. Até as
rotas que adentravam no Tapajós (englobando Vila Franca, Aveiro e Itaituba), através das quais os
escravos poderiam ser revendidos rio acima, para o Mato Grosso, são escassas, totalizando a venda
de apenas 14 escravos. Na escala intraprovincial, apesar do número escravos traficados não ter sido
tão significativo, tem algum peso, em especial a rota entre Santarém e a capital da província, por
meio da qual foram comercializados 8 escravos. Ao todo, considerando a venda de 12 escravos de
Santarém para outras localidades (excetuando as 47 transações entre senhores residentes no próprio
município), e a compra de 15 escravos de outras localidades por senhores de Santarém, há um saldo
positivo de 3 escravos para este município nos registros de compra e venda do Cartório Sirotheau,
entre 1877 e 1886. No tráfico intraprovincial o saldo positivo é de 1 escravo para o Baixo
Amazonas, no interprovincial não houve perda nem ganho de escravos, pois há total equivalência
entre escravos vendidos/comprados para/de outras províncias.
Entre os escravos vendidos: 30 eram mulheres, 49 homens; 60 eram solteiros, 13 casados
(um casal foi vendido para o mesmo senhor, na mesma escritura) e de 6 não havia qualquer
informação do tipo; 46 escravos aparecem com filiação materna mencionadas, 4 com a filiação
paterna; 9 escravas foram vendidas acompanhadas de seus filhos, 5 ainda escravos e 8 ingênuos.
Sem avançar, momentaneamente, no debate acerca da relação entre tráfico e família escrava,
pontuo, em compasso com essa pequena amostragem e com a historiografia, que, se houve interesse
de alguns senhores na manutenção dos vínculos familiares dos seus escravos, a quebra desses
vínculos foi muito comum no âmbito do tráfico, demandando dos escravos perspicácia para a
manutenção ou reconstituição de laços afetivos, bem como sagacidade para resistir às imposições
senhoriais, abrir, reabrir e manter margens de negociação e autonomia.39

39
Como pondera Flávio Motta, a presença de laços familiares nas escrituras de venda não significa necessariamente que
as famílias tenham sido preservadas. Sobre os ingênuos, ainda segundo o autor, nem sempre eles eram vendidos na
companhia de seus pais, o que representa clara burla da Lei do Ventre Livre Cf. MOTTA, op. cit.

14
Como era de se esperar, a maioria dos escravos vendidos (45 dos 79) estava nas faixas
etárias mais produtivas e valorizadas pelo mercado: 24 (30,37%) possuíam entre 21 a 30 anos de
idade; 21 (26,58%) entre 31 a 40 anos. A quantidade de escravos entre 13 e 20 anos vendidos
também é expressiva: 16, correspondendo a 20,25%. As crianças com menos de 13 anos e os
adultos com mais de 40 anos, apesar de menos negociados, respectivamente 8 (10,12%) e 9
(11,39%) do total, também não podem ser ignorados, porque os impactos do tráfico nestes grupos
poderiam ser mais calamitosos. A força de trabalho absorvida no tráfico local e intraprovincial,
portanto, era produtiva e aparentemente apta para ser empregada em diversas funções, como
acontecia comumente com os escravos.40

Tabela 4
Escravos vendidos em Santarém conforme o sexo e a ocupação/qualificação profissional (1877-
1886)

OCUPAÇÃO/QUALIFICAÇÃO HOMENS MULHERES Nº DE ESCRAVOS

Doméstico 19 14 33

Serviço doméstico e rural - 1 1


Lavadeira - 1 1

Costureira - 3 3
Servente 2 1 3
Lavrador 6 3 9

Carpinteiro 1 - 1
Pedreiro 3 - 3

Vaqueiro 5 - 5
Pescador 1 - 1
Sem ofício 5 - 5

Não informado 7 7 14

TOTAL 49 30 79
Fonte: SANTARÉM. Cartório Nogueira Sirotheau, op. cit.

40
LAURINDO JUNIOR, op. cit. As informações sobre as idades foram abstraídas de SANTARÉM. Cartório Nogueira
Sirotheau, op. cit. A idade de apenas 1 escravo não foi informada.

15
Nas escrituras de venda de 65 escravos podem ser encontradas informações sobre seus
ofícios e qualificações profissionais (Tabela 4). Salientam-se os escravos domésticos, 41,25% do
total, o que pode ser explicado pela amplitude do termo “doméstico”. Roberto Guedes Ferreira, ao
estudar a autonomia dos escravos no Rio de Janeiro oitocentista, destaca que a caracterização
“doméstico” significava mais do que trabalhar no interior dos lares e nos afazeres domésticos. Para
o senhor, provavelmente, “escravo doméstico era aquele que não lhe fornecia rendimentos”. 41
Acrescento na definição os escravos que prestavam serviços exclusiva e diretamente aos seus
próprios senhores, empregados em atividades essenciais do dia-a-dia, não apenas nas casas como
também nos locais de trabalho destes, realizando tarefas na rua, em estabelecimentos comerciais, na
fábrica, na mata e outros ambientes, no meio urbano ou rural. Suponho também que comumente
pertenciam a senhores de poucos escravos, o que ainda precisa, todavia, ser investigado. A história
do escravo João, vendido em abril de 1879 por 1 conto de réis por Anna Francisca Pereira (de
Santarém), sua senhora, a Américo de Oliveira Lima (de Itaituba), é um exemplo. Carafuz, com 27
anos, natural de Santarém, casado com Florência (mulher livre), embora tenha sido caracterizado
como doméstico, trabalhava no Alto Tapajós na fabricação de borracha no momento de sua venda.42
Na Tabela 4 também aparecem com alguma expressão os escravos lavradores, vaqueiros e
sem ofício específico. Os dois primeiros casos estão ligados à importância da agricultura e criação
de gado na região, atividades que absorviam grande parte da força de trabalho escrava. Os escravos
sem ofício, por outro lado, poderiam ser escravos utilizados de múltiplas formas e em uma gama
variada de funções (o que não significa que o mesmo não acontecia com escravos de ofício
definido). Essa categoria corresponde a 6,25% dos escravos vendidos, que, somados aos 15
escravos cujo ofício não foi informado, possivelmente também empregados em vários lugares e
funções, atingem o percentual de 25%. A filtragem dos escravos segundo a ocupação/qualificação
profissional e o sexo traz à tona um conjunto de funções e ofícios exercidos exclusivamente por
homens, outro por mulheres; apenas entre os escravos cujo ofício não foi informado, os lavradores,
serventes e mais equilibradamente os domésticos havia tanto homens quanto mulheres.

41
Cf. FERREIRA, 2005, op. cit., pp. 239-242 e LAURINDO JUNIOR, op. cit.
42
SANTARÉM. Cartório Nogueira Sirotheau, op. cit.

16
Tabela 5
Naturalidade dos escravos vendidos em Santarém conforme a origem da venda ou a residência dos
senhores (1877-1886)

ORIGEM NATURALIDADE
DA Vila Piauí
VENDA Santarém Alenquer Óbidos Pará Maranhão Ceará TOTAL
Franca (Batalha)
Santarém 33 7 2 1 6 - 1 - 50
Itaituba 2 - - - - 1 - - 3
Alenquer - 3 - - - - - - 3

Aveiro - - - - 2 - - - 2
Vila
- - - - 1 - - - 1
Franca
Belém - - - - 3 1 - 1 5
Manaus
1 - - - - - - - 1
(AM)
TOTAL 36 10 2 1 12 2 1 1 65
Fonte: SANTARÉM. Cartório Nogueira Sirotheau, op. cit.

Quase todos os escravos vendidos haviam sido matriculados nos municípios onde nasceram,
mas muitos não eram naturais dos municípios onde residiam seus senhores (onde, muito
provavelmente, vinham sendo empregados) quando as escrituras de suas vendas foram registradas
no Cartório Sirotheau, o que aponta para a existência de rotas e vivências anteriores de tráfico. A
Tabela 5 reúne os escravos cuja naturalidade foi informada nas escrituras: pelo menos 11 dos 50
escravos vendidos de Santarém não eram naturais do município; os 3 vendidos de Itaituba eram
naturais de outras localidades; 2 de Belém e 1 de Manaus também não eram nascidos nestas
capitais. Ao todo, portanto, no mínimo 17 escravos já haviam transitado intra e interprovincialmente
antes dos registros de venda, isso sem contar que, visto a amplitude geográfica das municipalidades
no século XIX, sobretudo de suas áreas rurais, até transações entre espacialidades do mesmo
município poderiam significar centenas de quilômetros de deslocamento.

Conclusão

Em síntese, o tráfico interno de escravos registrado em Santarém, entre 1877 e 1886,


organizou-se essencialmente em rotas locais, no âmbito do Baixo Amazonas, não havendo perda de

17
escravos para outras regiões do Pará (ainda que o tráfico intraprovincial tenha tido alguma
importância) ou para outras províncias; os escravos mais comumente vendidos eram homens,
solteiros, em idade produtiva, com algum ofício ou qualificação profissional; a vivência do tráfico
era comum entre os escravos e o tráfico impactou diretamente a família escrava, por mais que as
mesmas fossem ocasionalmente respeitadas pelos senhores; houve alterações na quantidade de
escravos vendidos e nos valores médios dos escravos ao longo dos anos. Todas essas características
do tráfico em Santarém estão vinculadas, em diferentes medidas, à dinamicidade da economia
regional e à sua ligação com a economia-mundo capitalista do século XIX, à lógica de
funcionamento do mercado de escravos no Pará e no Império em geral, bem como à relação entre a
escravidão no vale amazônico e a segunda escravidão nas Américas. A observação e análise das
conexões entre diferentes dimensões temporais e escalas espaciais tem propiciado, no andamento
desta pesquisa, a ampliação do leque de problematizações e um melhor balizamento das
especificidades do tráfico de escravos e da própria escravidão paraense na segunda metade do
século XIX, cenário no qual o tráfico intraprovincial se torna estrutural. Trata-se, enfim, de um
caminho proveitoso para o enfrentamento dos problemas relativos à formação da sociedade
amazônica oitocentista, ainda a ser explorado com mais afinco.

Fontes
BRASIL. Diretoria Geral de Estatística. Recenseamento Geral do Império de 1872, v. 1. Rio de
Janeiro: Typ. Leuzinger/Tip. Commercial, 1876, v. 01.
SANTARÉM. Cartório Nogueira Sirotheau – 1º Ofício de Notas e Registro de Imóveis. Livro de
escrituras de compra e venda de escravos, 1877.

Bibliografia
AZEVEDO, Célia Maria Marinho. Onda Negra, medo branco: o negro no imaginário das elites -
século XIX. São Paulo: Annablume, 2004.
BARROSO, Daniel S. O cativeiro à sombra: estrutura da posse de cativos e família escrava no
Grão-Pará (1810-1888). 2017. Em revisão. Tese (Doutorado em História Econômica), Universidade
de São Paulo. São Paulo.
BATISTA, Luciana Marinho. Muito além dos seringais: elites, fortunas e hierarquias no Grão-Pará,
c.1850 - c.1870. 2004. 283 fls. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

18
BEZERRA NETO, José Maia. Escravidão negra no Grão-Pará (séculos XVII-XIX). 2.ed. Belém:
Paka-Tatu, 2012.
_______________. Por Todos os Meios Legítimos e Legais: As Lutas contra a Escravidão e os
Limites da Abolição (Brasil, Grão-Pará: 1850-1888). 2009. 505 fls. Tese (Doutorado em História) –
Pontifícia Univ. Católica de São Paulo, São Paulo
BLACKBURN, Robin. Por que segunda escravidão?. In: MARQUESE, R. & SALLES, R. (Orgs.).
Escravidão e capitalismo histórico no século XIX: Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2016, pp. 13-54, pp. 17-18.
CANCELA, Cristina Donza. Casamento e relações familiares na economia da borracha (Belém,
1870-1920). 2006. 343 fls. Tese (Doutorado em História Econômica) – Universidade de São Paulo,
São Paulo.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Economia e sociedade em áreas coloniais periféricas. Rio de Janeiro:
Graal, 1984.
CHAMBOULEYRON, Rafael. Escravos do Atlântico equatorial: tráfico negreiro para o Estado do
Maranhão e Pará (século XVII e início do século XVIII). Revista Brasileira de História, São Paulo,
v. 26, n. 52, 2006, pp. 79-114.
_______________. Povoamento, ocupação e agricultura na Amazônia Colonial (1640-1706).
Belém: Ed. Açaí, Programa de Pós-graduação em História Social da Amazônia (UFPA), Centro de
Memória da Amazônia (UFPA), 2010.
CONRAD, R. Os últimos anos da escravatura no Brasil – 1850-1888. 2.ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1978.
FERREIRA, Roberto Guedes. Autonomia escrava e (des)governo senhorial na cidade do Rio de
Janeiro da primeira metade do século XIX. In: FLORENTINO, Manolo (Org.). Tráfico, cativeiro e
liberdade (Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX). Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 2005, pp. 229-284.
FUNES, Eurípedes A. “Nasci nas matas, nunca tive senhor”. História e memória dos mocambos do
baixo Amazonas. In: REIS, João José & GOMES, Flávio. Liberdade por um fio: história dos
quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 467-497.
GRAHAM, Richard. Nos tumbeiros mais uma vez? O comércio interprovincial de escravos no
Brasil. Afro-Ásia, n. 27, 2002, pp. 121-160. Disponível em: <
https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/21034/13633>. Acesso em: 03/2017.
LAURINDO JUNIOR, Luiz C. A cidade de Camilo: escravidão urbana em Belém do Pará (1871-
1888). 2012. 209 fls. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Pará. Belém.
MACLACHLAN, Colin M. African slavery and economic development in Amazonia, 1700-1800.
In: TOPLIN, Robert Brent (Ed.). Slavery and race relations in Latin America, contributions in afro-
american and african studies. Westport, Connecticut, London, England: Greenwood Press, 1974,
number 17, p. 112-145.
MARQUESE, Rafael de Bivar. A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e
alforrias, séculos XVII a XIX. Novos Estudos CEBRAP, vol. 74, 2006, pp. 107-123. Disponível em:

19
< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002006000100007>. Acesso
em: 03/2017.
_______________. A Guerra Civil dos Estados Unidos e a crise da escravidão no Brasil. Afro-
Ásia, n. 51, 2015, pp. 37-71. Disponível em: <
https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/17663/11464>. Acessado em: 03/2017.
MARQUESE, Rafael de Bivar; & SALLES, Ricardo. A escravidão no Brasil oitocentista: história e
historiografia. In: MARQUESE, R. & SALLES, R. (Orgs.). Escravidão e capitalismo histórico no
século XIX: Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, p. 99-162.
MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista (Brasil,
século XIX). 3.ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.
MENDONÇA, Joseli Maria Nunes. Entre a mão e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os caminhos
da abolição no Brasil. Campinas: Editora da UNICAMP, 2008.
MOTTA, José Flávio. Escravos daqui, dali e de mais além. O tráfico interno de cativos na expansão
cafeeira paulista (Areias, Guaratinguetá, Constituição/Piracicaba e Casa Branca, 1861-1887). São
Paulo: Alameda, 2012.
NUNES, Francivaldo A. Sob o signo do moderno cultivo: Estado Imperial e Agricultura na
Amazônia. 2011. 422 fls. Tese (Doutorado em História) – Univ. Federal Fluminense, Niterói.
SAMPAIO, Patrícia Melo (org.). O fim do silêncio: presença negra na Amazônia. Belém: Editora
Açaí/CNPq, 2011.
_______________. Os fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus:
1840-1880. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1997
SANTOS, Roberto. História Econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T.A. Queiroz, 1980.
SLENES, Robert. W. The Brazilian Internal Slave Trade, 1850-1888: Regional Economics, Slave
Experience, and the Politics of a Peculiar Market. In: JOHNSON, W. (Ed.). The Chattel Principle:
Internal Slave Trades in the Americas. New Haven: Yale University Press, 2004, pp. 325-370.
_______________. The Demography and Economics of Brazilian Slavery, 1850-1888. 1976. 728
fls. PhD. Dissertation (History) – Stanford University, Palo Alto.
TOMICH, Dale W. Pelo prisma da escravidão: trabalho, capital e economia mundo. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 2011.
WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
Hucitec; Edusp, 1993.
WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo histórico e Civilização capitalista. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2001.

20

Você também pode gostar