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j na TV
A língua rola solta

Por Lilia Diniz em 25/5/2011


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Distribuída a mais de 480 mil alunos pelo Programa Nacional do Livro Didático para a c
Educação de Jovens e Adultos, a obra foi adotada por escolas públicas em todo o
território nacional. Em meio ao barulho da mídia e ao debate levantado na comunidade
acadêmica, a autora garante que obedece aos Parâmetros Curriculares Nacionais
estabelecidos em 1997 pelo Ministério da Educação (MEC) para o ensino fundamental e
para a educação de jovens adultos. E defende que o conceito de "correto e incorreto" no
uso da língua portuguesa seja substituído por "adequado e inadequado". O MEC afirmou
que não irá recolher os exemplares já fornecidos aos alunos mas, após os protestos, a
autora disse que pode rever alguns trechos da publicação em uma nova edição. O
j 
   exibido ao vivo na terça-feira (24/05) pela TV Brasil analisou
a cobertura da mídia no episódio.

Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro os
professores Sérgio Nogueira e Deonísio da Silva. Em Brasília, participou o também
professor Marcos Bagno. Deonísio da Silva, colunista deste j 
, é doutor em
Letras pela Universidade de São Paulo, escreveu mais de 30 livros e assina colunas sobre
Língua Portuguesa na imprensa. É pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade
Estácio de Sá. Sérgio Nogueira é formado em Letras pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Assina a coluna "Dicas de Português" no portal G1, o boletim "Língua
Solta" na Rádio Bandeirantes de São Paulo, é consultor de Língua Portuguesa do
Jornalismo do sistema Globo. Marcos Bagno é professor do Instituto de Letras da
Universidade de Brasília (UnB). Autor premiado, Bagno tem se dedicado à produção de
obras voltadas para a educação. Seus estudos no campo da Linguística se concentram nas
questões da crítica ao ensino da língua portuguesa nos moldes tradicionais.

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Em editorial, Dines sublinhou que a língua portuguesa falada no Brasil está cada vez
mais distante da escrita. Para o jornalista, o debate em torno do livro é salutar e deveria
tornar-se constante, uma vez que "a própria mídia tenta usar a norma culta quando
escreve, porém mostra-se indulgente e até relapsa ao usar os meios eletrônicos". Dines
ressaltou que, em Portugal a diferença entre a norma culta e a língua falada nas ruas,
mesmo entre as camadas mais populares é "quase inexistente": "Isso nada tem a ver com
o poeta Camões e o padre Vieira, que também são cultuados por aqui. É que na escola ou
no liceu português investe-se na correção do idioma, porque lá a gramática é vista como
ferramenta para tornar a comunicação mais efetiva.

Esta é a questão: "os livro" não fere apenas a concordância, fere a compreensão".

A reportagem exibida antes do debate ao vivo ouviu a opinião de especialistas no


assunto. Para Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do MEC, muitos
jornalistas que criticaram enfaticamente a obra sequer leram a publicação. "Quando as
pessoas começaram a ler o livro, começaram a entender que o livro não defende que se
fale errado, mas explica que existe uma forma coloquial dali, daquela comunidade,
daquela cultura, de se falar, e que existem outras formas".

O livro, na avaliação da representante do MEC, conduz o aluno ± neste caso, um jovem


ou um adulto ± a refletir sobre a sua forma de falar sem humilhar, discriminar ou excluir
o estudante que cometa erros de português. A representante do MEC sinalizou que parte
da mídia afirmou de forma equivocada que o MEC pretendia "que todos os brasileiros
falem errado". "Eu posso dizer, como cidadã, que este é um jornalismo que não contribui
para melhorar a informação das pessoas", avaliou a secretária.

   

Heloísa Ramos constatou que a mídia "estranhou" o trecho do livro onde afirma que a
concordância nominal e verbal nem sempre é observada na sua totalidade na linguagem
popular. "Não dissemos, em nenhum momento, que é para escrever assim [errado] na
norma culta. Nós não estamos ensinando a escrever assim, estamos admitindo que, na
fala, exista esta possibilidade, esta variante", assegurou a autora.

O escritor e colunista Affonso Romano de Sant¶Anna ponderou que todos cometem erros
gramaticais, inclusive os jornalistas. Atualmente, na avaliação do escritor, há uma
espécie de "cinismo" na sociedade: "Na cultura contemporânea, a exceção virou a norma.
A ruptura virou a norma. E isto, é claro, acontece na gramática também".

Para Sant¶Anna, o livro mostra as duas vertentes í a falada e a escrita í mas ensina, de
fato, a norma culta. "Existe um sistema, uma ordem na sociedade. Todo este papo de que
não há limite, não há ordem, não há fronteira, não há regras, é um papo da moderna
contemporaneidade que deixa as pessoas confusas", analisou. A imprensa, para Affonso
Romano, amplificou opiniões sem fundamento: "Eu voltei um pouco às fontes para ver o
texto, o que tinha sido dito e, na verdade, são coisas que estão sendo ditas na linguística
há muito tempo".

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João Ubaldo Ribeiro, autor consagrado e colunista do jornal j   , defendeu que se


mostre ao usuário da norma "não-culta" que a língua falada por ele tem tanta dignidade
quanto qualquer outra, mas que o ensino da norma culta prevaleça: "Não apenas como
privilégio de alguns, mas que a norma culta seja compreensível, acessível e utilizável por
todos os brasileiros, que continuarão a falar seus outros dialetos", disse Ubaldo.

Para o advogado Sérgio Bermudes, a linguagem de um livro didático tem que ser correta.
Embora a sociedade hoje não viva mais sob padrões linguísticos rígidos, é preciso manter
o hábito de falar com correção. "Quanto mais correta a linguagem, mais ela traduzirá o
pensamento e efetivará a comunicação. Se nós começarmos a esparramar um linguajar
diferente, nós teremos uma outra língua", alertou Bermudes.

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O professor Evanildo Bechara, autor de uma das mais importantes gramáticas adotadas
no país e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), avaliou que o livro J 
  
   ensina boas lições aos alunos, mas comete erro ao confundir a função
de linguista com a de professor: "O linguista estuda a língua como a língua funciona
naquela região, naquele meio social, naquele momento histórico. Já o professor de
português, não. O professor de português estuda a língua na sua produção ou na sua
norma culta".

Bechara avaliou que a imprensa se ateve apenas a um aspecto da obra. "Foi apresentada a
frase µnós pega o peixe¶, que a professora declara linguisticamente correta e que é uma
frase correta porque aparece em um determinado momento. Mas em um livro didático
aquilo soou como se fosse a lição permanente, em lugar de a imprensa ter mostrado que
aquilo foi um momento, por sinal, ao meu ver, um momento infeliz, na hora de escrever
um capítulo muito bem escrito sobre língua padrão", disse Bechara.

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No debate no estúdio, o professor e escritor Deonísio da Silva disse que acha "bonito" a
mídia tratar de "livros e autores" porque, de maneira geral, os jornais promovem um
"ocultamento" deste tema. Na avaliação de Deonísio, o professor que usa o já restrito
espaço da aula de Língua Portuguesa para tratar de questões da Linguística, disciplina
que não pertence ao Ensino Médio, presta um desserviço ao povo brasileiro. Deonísio
acredita que é preciso democratizar a norma culta e não promover a inclusão na língua
sem o esforço do aluno para aprender o correto: "A gente não se incluí na língua culta
sem estudá-la. E está faltando muito no Brasil a relação µbunda-cadeira-hora¶. Nós
queremos facilitar, mas aprender é difícil".

A trajetória do escritor Machado de Assis (1839-1908), fundador da ABL, foi lembrada


pelo professor como um exemplo de inclusão na norma culta. De origem humilde, negro,
gago e portador de epilepsia, Machado de Assis precisou se adaptar a rígidos padrões
gramaticais para ingressar na sociedade literata de sua época. "Ele teve que aprender
aquela língua que não era a dele. Ele era lá do morro", sublinhou Deonísio.

Machado de Assis "se apropriou" da norma que não conhecia e acabou por se converter
em mestre daqueles que usavam a língua culta para excluí-lo da sociedade. "Esta á a
verdadeira inclusão: você tirar o sujeito da ignorância", declarou. Deonísio da Silva
ressaltou que o professor de Língua Portuguesa é pago pelo Estado ou pela iniciativa
privada para ensinar este disciplina aos que precisam aprendê-la.

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A atuação da imprensa neste episódio foi duramente criticada por Marcos Bagno. O
professor da UnB chamou a atenção para a "leviandade gigantesca" da mídia e a
"profunda ignorância" jornalistas e fontes que têm comentado o teor deste livro didático
nos jornais. "As pessoas estão falando sem ter lido e sem saber o que acontece na
educação brasileira há mais de 20 anos, quais são as diretrizes da nossa educação hoje em
dia e, principalmente, o que é ensinar Português hoje em dia. As pessoas estão ainda no
século XIX, fazendo comentários do século XVIII, enquanto a educação brasileira, o
Ministério da Educação e os livros didáticos já estão no século XXI", censurou Bagno.

A mídia, na avaliação de Bagno, age como se tivesse "descoberto a pólvora", quando o


tratamento da variação linguística em sala de aula é absolutamente corriqueiro. E todos
os livros de Língua Portuguesa disponíveis hoje no mercado brasileiro apresentam pelo
menos uma parte dedicada ao tema. "Não é surpresa para ninguém, a não ser para uma
mídia que é profundamente ignorante e desinformada", disparou o professor.

     

Sérgio Nogueira defendeu que a luta contra o preconceito seja um dever de todo
educador e explicou que diversos livros já trataram deste assunto, mas a obra J   

   foi mais ousada. Na avaliação do professor, o livro é louvável ao ensinar que
há preconceito linguístico na sociedade. No entanto, Nogueira tem o receio de que a
diferença entre a língua falada e a escrita possa ser mal aproveitada caso não haja um
treinamento adequado dos professores. "Pode haver uma acomodação e é este o temor
que nós temos", alertou. Nogueira destacou que o ensino da língua padrão está sendo
mostrado como um "pecado" por defensores deste livro e denunciou que os professores
que ensinam a norma culta estão sendo ridicularizados.

"Não sei o porquê desta agressividade que muitas vezes existe contra aqueles que, de
alguma forma, tentam manter esta língua padrão o mais próxima possível da fala. É óbvio
que nós temos variantes sociais, culturais, regionais. Todas são válidas, todas merecem
respeito. Agora, por que não ensinar a língua padrão?", questionou. Para Nogueira, a
distância entre a fala e a escrita no Brasil se mantém porque o ensino da Língua
Portuguesa nas escolas não é satisfatório.

U     
 

Dines levou ao debate no estúdio um dos temas tratados do editorial: a semelhança entre
a língua falada e a norma culta em Portugal. O jornalista comentou que, naquele país, os
diversos extratos da sociedade falam corretamente e lembrou que se "deliciava" ao ouvir
o português correto dos motoristas de táxi nos oito anos que viveu em Portugal. Dines
questionou se, no Brasil, a norma padronizada e codificada poderia se aproximar da
linguagem falada.

Marcos Bagno discordou e sublinhou que o português brasileiro culto e contemporâneo é


diferente do falado do outro lado do Atlântico: "Em Portugal, se fala uma língua diferente
da nossa. A nossa só se chama português por razões históricas. Mas, 500 anos depois, o
português brasileiro já é diferente do português europeu". Dines contestou: na sua
avaliação a língua dos dois países é a mesma. E insistiu que há uma convergência
inquestionável entre a norma culta e a língua falada em Portugal que facilita a
compreensão.
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Política

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A esperança dos amantes da paz repousa na juventude árabe, sequiosa por democracia. E se as suas demandas não forem atendidas ?
Por Mino Carta. Foto: Chris Kleponis/AFP

O terrorismo não morre com Bin Laden, o próprio Barack Obama reconheceu no
discurso do anúncio da ação fulminante que entregou a Alá o príncipe do terror. Não é
prova de otimismo exagerado, contudo, admitir que o caminho da Al-Qaeda estreitou-
se. A começar pelo fato de que não há substituto à altura para personagem tão
carismática, feroz e determinada até a obsessão.

Herdeiro natural poderia ser Ayman al-Zawahiri, médico egípcio tido como ideólogo do
terrorismo islâmico. Segundo fontes paquistanesas, sua investidura se seguiria a um
período de comando exercido por parte do ³Conselho´, chamado a reunir um grupo de
notáveis. Sabe-se, porém, que Zawahiri conta com opositores poderosos, acusam-no de
falar muito, e sempre a favor de operações extremadas, e realizar pouco.

Outra figura cotada é Abu Yahya Al-Libi, de origem líbia, 48 anos. Trata-se de um
orador empolgado, tido como intelectual vocacionado para a poesia e, ao mesmo tempo,
liderança dura, inclinada a misturar terror com insurreição. Já foi capturado pelos
americanos, e conseguiu evadir-se do cárcere de Bagram, no Afeganistão, herói de uma
fuga rocambolesca. Foi declarado morto mais de uma vez. Estaria vivo? Mistério.
Terceira personagem focalizada pelos analistas europeus é o imã Anwar al-Awlaki,
porta-voz da facção iemenita, singular por dispor de nacionalidade dupla, americana a
segunda, pois nascido no México, em Las Cruces, e expressar-se com fluência em
inglês. Mas, se é difícil substituir Bin Laden, outro gênero de dificuldades se apresenta
na rota da Al-Qaeda.

As revoltas que abalam há meses o mundo árabe do Magreb ao Oriente Médio levam às
praças, dispostas a lutar, massas sequiosas de democracia e por ora claramente infensas
ao terrorismo como instrumento de sua reivindicação. Há bons motivos para acreditar
que sobretudo a juventude árabe milita na frente oposta àquela dos crentes do insanável
conflito entre Islã e Ocidente. Neste ponto também Barack- Obama insistiu no seu
discurso de 3 de maio, para acentuar, com a devida veemência, que os EUA não fazem
guerra ao Islã.

As inquietações dos muçulmanos, amiúde- vincadas por resultados violentos, são, de


verdade, evento que precede a morte de Bin Laden. Mostram que, no mundo do príncipe
do terrorismo, a sua pregação não comove as massas. E temos aqui mais um motivo de
esperança em relação ao futuro próximo. Mesmo assim, uma pergunta cabe: caso as
demandas das populações forem frustradas, não seria inevitável que os herdeiros de Bin
Laden cuidassem de explorar a desilusão? Ou mesmo a raiva?

A Al-Qaeda mantém a tradição de agir com notável senso de oportunidade em áreas


agitadas. E a agitação de nações desatendidas por quem de início parecia pronto a lhes
dar ouvidos não é hipótese arriscada demais. Egito e Tunísia aí estão na espera, até
agora vã, da mudança que a maioria pretendia. Nem se fale da Síria e dos emirados onde
a diplomacia ocidental finge-se de cega. A Líbia é uma incógnita, a despeito de rejeição
de Kaddafi à Al-Qaeda: na Tripolitânia o ditador continua a contar com o apoio popular
enquanto as tribos da Cirenaica têm seus motivos para constatar o lado patético do
apoio ocidental.

O terrorismo é anacrônico nos dias de hoje, há quem diga, mas a hipocrisia dos mais
fortes não deixa por menos. Tanto um quanto outra funcionaram admiravelmente até
ontem, mas agora dão sinais de obsolescência. Ainda assim, aquele habilita-se a ter mais
durabilidade. Quanto à hipocrisia, está sempre disposta a seguir adiante, basicamente
inalterada, com a expressão impávida de Buster Keaton. Eis o perigo, porque, de certa
forma, uma alimenta o outro. Como a desigualdade social põe a fermentar os índices de
criminalidade.

Há fortes evidências de que o mundo atual já não suporta a retórica urdida para
salvaguardar interesses estritamente materiais e estratégicos (petróleo em primeiro
lugar) por trás de lições inflamadas de democracia. Por que o Ocidente se move em
certas direções e não em outras, quando, a ser coerente, teria de agir em ambas? Nunca,
talvez, certos aspectos do comportamento ocidental, americano especialmente, ficaram
tão evidentes.

Que a morte de Bin Laden seja celebrada por fluvial euforia nos Estados Unidos, e tanto
mais no ground zero, é compreensível. Que a operação cinematográfica levada a cabo
no Paquistão seja ovacionada em praças e calçadas justifica-se, mesmo porque a
vingança é sentimento de força imensa, apreciado até por Aristóteles. Que fosse
inimaginável prender Bin Laden para processá-lo à moda de Nuremberg está a
intermináveis léguas do óbvio. O que choca é o renovado ufanismo ianque.

O nacionalismo exaltado é deplorável em qualquer latitude. Mesmo porque revela, antes


do provincianismo, a insegurança. Não é desagradável, muito pelo contrário, que
Barack Obama se fortaleça nessa circunstância na perspectiva das próximas eleições
presidenciais contra o reacionarismo do Tea Party e quejandos republicanos. Falta,
porém, bastante tempo para o pleito e CartaCapital supõe que, na hora azada, a questão
econômica, com seus reflexos no bolso dos cidadãos, terá mais peso do que qualquer
outra sobre a decisão final da maioria dos eleitores.

Obama, aliás, e infelizmente, não desiste da retórica, e lá vem ele com sua God Bless
America. Tudo até o momento indica que Deus não tem maior interesse pelo ser criado
à sua imagem e semelhança, mas se houver a mais pálida chance de sermos ouvidos por
Ele, rogamos que abençoe o mundo todo, a viver, e o Altíssimo sabe como ninguém, em
eterna turbulência.

å 

Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de
Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da
Tarde. redacao@cartacapital.com.br

31 Respostas para ³O Terror é anacrônico?´

— r  
 disse:

7 de maio de 2011 às 21:37

Pode ser que não entendi bem, mas causou-me atencão a colocacão de Mino de
que não se deveria esperar a captura de Bin laden e submetê-lo a um Tribunal
como aquele de Nuremnberg««.!!!!!

Não propriamente por Nuremberg««., mas pela colocacão que sugere que em
³´certas ocasiões«.sic´" deva prevalecer algo como olho por olho , dente por
dente««!!!!

— a a  disse:

7 de maio de 2011 às 15:28

Carissimo Mino,

embora apreenda (penso) a sua posiçao sobre a dificuldade de se ter procedido a


³um Nuremberg´ (prender Bin Laden e levà-lo a julgamento con seus seguazes),
por todas as razoes òbvias como voce disse, acho importante assinalar,
spifferando dappertutto, che os USA perderam uma grande opportunidade de se
mostrarem mais civilizados que os fundamentalistas e, com eles, o mundo todo,
pois era a hora sublime para o diàlogo planetàrio: o que querem afinal o oriente
e o ocidente e como a comunidade global passaria a tratar de assuntos
aparentemente locais como aquilo que verdadeiramente sao: mundiais,
collettivos. Agindo como agiram, sò demonstraram a baixeza de asassinar um
homem desarmado, che tinha motivos de sobra para odiar o american way of
doing it. Vez mais, è a demonstraçao de força bruta, de infantilismo primitivo o
que, provavelmente, apenas alimentarà a (aristotèlica) vendetta. Um grande
pecado.

— „   „    disse:

7 de maio de 2011 às 12:15

Codenável o terrorismo do Osama.Porém, condenável também o terrorismo de


estado do Obama.
Qualquer facínora merece julgamento antes da condenação.

— u  u  disse:

7 de maio de 2011 às 12:14

Quanto a criação de novos Bins Ladens, é só auferir pra quem a CIA está
despejando dinheiro no momento no Oriente Médio« Os EUA financiaram,
treinaram e doutrinaram radicais para lutar contra o inimigo externo, na época a
URSS, o que aconteceu é que inimigo externo é um conceito fluido,
indeterminado, podendo encaixar vários sujeitos, e foi o que aconteceu, vencida
a URSS os EUA se encaixaram perfeitamente(principalmente por sua ação no
EGITO) no conceito e passaram a ser o alvo do fortificado radicalismo de sua
criatura: as organizações terroriastas que exploram o Fundamentalismo Islâmico.

— £
 „  disse:

7 de maio de 2011 às 11:38

Anacrônico tanto quanto são as guerras fomentadas pelos EUA e demais países
ricos; tanto quanto a inconsequência de se gastar fortunas para exploração do
espaço quando se sabe que são mais de 200 bilhões de galáxias e que nunca
chegaremos a algo de concreto em benefício da humanidade, não passando de
um desperdício enquanto a miséria e doenças grassam na Terra descuidada em
especial pela ganância irrefletida das grandes potências; tanto quanto a fome que
persiste no mundo ceifando a vida de milhões de inocentes enquanto se gastam
trilhões em odiosas guerras, maioria perdidas vergonhosamente pelos que
ostentam maior poder bélico nem sempre eficiente, mas que não se saciam. O
terror é apenas a expressão fora dos limites racionais, mais estúpida e
inconsequente talvez, de se reclamar contra as injustiças perpetuadas pelos
senhores loucos que governam o mundo.
hildebertoaquino@yahoo.com.br

— º 
 disse:

7 de maio de 2011 às 10:42

³O prêmio Nobel da Paz e advogado Barack Obama prometera em seus


discursos de campanha à presidência fechar a base militar de Guantánamo no
prazo de um ano. Ela continua de pé, firme e forte. E de fato cumprindo o seu
papel, que é ser um ponto sobre a terra em que não há leis e que o governo
democrático dos EUA autoriza o uso da tortura para a obtenção de informações
de acusados que não possuem direito a defesa. Espero que a euforia proveniente
da morte de Bin Laden não prolongue ainda mais a sobrevida de Guantánamo.´

—  „ £ disse:

7 de maio de 2011 às 8:30

A sua velha Olivetti é um espanto, como o brilhantismo das suas análises. Com
isenção,insofismável,vem apartada do velho complexo zileiro, o de vira-latas. O
império se esvai, está quebrado mas não perde a pose. E com esses
espetáculo,acaba por bombar o já efervecente fundamentalismo islâmico.Agora
é só tapar os ouvidos.

— Vºa disse:

7 de maio de 2011 às 0:55

Bom o meu conceito de democracia poder ser um tanto pré-historico,mas ate


onde sei Democracia vem a ser a soberania de um povo e paticipação da maioria
e não exploração de uns em cima de outros com argumentações ilusórias com
tendencias submissivas,então a onda de explosões árabes vem a se tornar um
grave problema pra o USA!!

— å 
  disse:

7 de maio de 2011 às 0:07

O nosso planeta tem bilhões de anos, se sabe, e, nós homens, alguns milhões.
Animais como outro qualquer nunca deixaremos de ser selvagens. É a natureza.
Quando ainda não pensávavos e falávamos conhecíamos o nosso semelhante.
Jogávamos limpo. Com o advento do pensamento , da fala, do funcionamento da
nossa mente, vieram as mentiras, pois a mente, mente. Assim as palavras como
instrumento de nossa mente levam a corrupção sentimentalizando os mais fracos
com as ideologias e religiões com suas mentiras de um mundo perfeito.
Acreditar naquilo produzido pela própria mente já não é boa coisa, quanto mais
em produtos da mente alheia.
A verdade só se manifesta em nossos sentidos.

— u„
 disse:

6 de maio de 2011 às 19:59

Prezados leitores,

Generalizando, enquanto o µOcidente¶ continuar com sua hipocrisia e seu


próprio fundamentalismo (econômico?) haverá povos revoltados agindo e as
reclamações, lamentações e até comemorações ocidentais continuarão a ser
cenas patéticas.

Abraços!

— a  „ disse:

6 de maio de 2011 às 18:57

Caramba Mino, parabéns!Vocé escreveu isso e ainda nem tinha ouvido o


discurso que o Barack Osama Obama terminou há pouco de fazer no Kentanky
para as forças especiais da marinha americana?Ele foi lá condeconrar os heróis
que prenderam e mataram o Bin Laden.Os mocinhos não apareceram na fita,
mas seu ³comandante em chefe´ fez um discurso arrumado para o resto da
tropa.Todos vindos do Afeganistão.especialistas em trabalho noturno.Eu pensei
estar ouvindo de novo o Bush depois que ele destruiu o Iraque, mas o
republicano é branco.Então era mesmo ³o comandante em chefe´ Barack Osama
Obama.O novo imperador do Universo.Foi um discurso deprimente para um
Nobel da Paz.E eu que cheguei até a torcer para o primeiro presidente negro da
história americana«Agora vejo que ele é preto por fora, mas branco por
dentro.Os republicanos não precisam procurar um candidato para as próximas
eleições para a presidência dos EEUU.Já tem um:Obama.O mundo que se
cuide.Esse moço mandou um aviso.Mostrou que não liga à mínima para a tal de
Democracia.

— J  disse:

6 de maio de 2011 às 18:01


Preocupa-me a parte do argumento que menciona ³Que fosse inimaginável
prender Bin Laden para processá-lo à moda de Nuremberg está a intermináveis
léguas do óbvio´. Que eu tenha aprendido quando ocorre um assassinato o que
deve ser feito é captura-lo e julga-lo, e não matá-lo a sangue frio pois assim nada
separa o estado do criminoso. Em especial matá-lo a sangue frio em território
estrangeiro sem o conhecimento e autorização do país em questão ± abre-se
periogoso precedente. Parece uma versão moderna da justiça da Babilônia
antiga.

— ' 

 disse:

6 de maio de 2011 às 11:23

Quando vejo estas cenas dos norte americanos comemorando a morte do Bin
Laden lembro muito dos árabes comemorando a morte de seus ³inimigos´.
Parece que assim como os terroristas árabes a população norte americana
(generalizando) possui o mesmo ideal, a mesma formação e moral, olho por olho
dente por dente.
Os Norte Americanos são loucos e terroristas, desrespeitam as leis internacionais
como se não fosse nada. Isso sim é muito grave, muito mais grave que qualquer
atentado que já tenha ocorrido.

— åº  disse:

6 de maio de 2011 às 11:07

Meu cara mino, é um prazer muito grande fazer parte dos leitores assíduos de
Carta Capital, e ao mesmo tempo, me sinto tranquilo tendo o Sr. à frente de uma
publicação tão isenta e importante para a informação de qualidade no Brasil. É
assustador assistir a que nível chegou o PIG para defender interesses sabe-se lá
de quem e pra quem. No entanto, vejo em Carta Capital um meio de
comunicação de oposição de fato à grande mídia, que sinceramente, cheira
muito mal. Um grnade abraço. Mocrácio Ribeiro ± Belo Horizonte ± MG ±
mocracio@oi.com.br.

— £ å„„ disse:

6 de maio de 2011 às 10:51

Prezado Mino,

Gostaria, muito, de vê-lo expandir o argumento ³Que fosse inimaginável


prender Bin Laden para processá-lo à moda de Nuremberg está a intermináveis
léguas do óbvio.´ Por que? Não existem os tribunais penais internacionais,
criados para julgar crimes contra a Humanidade (Yugoslávia, Ruanda«)? Não
constitui o ataque ao World Trade Center um crime contra a Humanidade?
De minha parte, creio que sim. Contudo, apreciaria muito saber sua opinião a
respeito. Até, talvez, para retificar a minha. Porquanto óbvio me parace ser ³o
ufanismo ianque´, presente vigorosamente em todos os roteiros hollywoodianos
desde o final da Primeira Guerra Mundial. Refiro-me à cinematografia
estadunidense a la John Wayne e seus Boinas Verdas.

Cordialmente,
Homero

‰ , 90 ANOS
A ‰ desdobrada (e algumas sensações teóricas)
Jor Eugênio Bucci em 22/2/2011

o       
                
            O presente 
 se expande em
ondas                        
           
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oivaldo Manzano foi até recentemente coordenador de macroeconomia, meio ambiente,
políticas públicas e ciência da u „ å „
. Ao deixar seu último emprego, fez um
balanço de 32 anos de jornalismo exercido no Brasil e no exterior e percebeu que o tempo
de permanência em cada emprego caíra sistematicamente. Embora não haja estatísticas
sobre o assunto, oivaldo supõe que seu tempo médio de permanência em cada emprego
seja inferior ao da categoria dos jornalistas. Estaria ficando mais instável? Ou se trataria
de uma manifestação individual do fenômeno mais amplo da precarização dos empregos?

Depois do exercício de reflexão sobre o ferido, resolveu contemplar os autores da ferida e


constatou que, à redução do intervalo entre suas demissões, correspondia uma diminuição
da média de idade dos responsáveis por elas.

Apresenta no lúcido ensaio abaixo conclusões preliminares cujo


 é o seguinte:

"Estamos vivendo um Camboja em nossa vida profissional, desde o advento dos novos
bárbaros, que passaram a dar feições pavorosas ao exercício do poder nas redações."

O texto de Manzano faz lembrar outro libelo, um discurso de Gabriel García Márquez
publicado neste 'rº º em outubro de 1996 (ver remissão abaixo). Mas há
entre os dois uma singular diferença. Enquanto García Márquez se dirige aos patrões, na
abertura de uma reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa, oivaldo Manzano,
após esclarecer que exerceu funções de chefia durante pelo menos metade de sua vida
profissional, faz ver que prepostos estão exercendo nas redações um tipo de mando
selvagem que não lhes foi encomendando nem recomendado.

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Nos meus 32 anos de profissão, permaneci em média 20 meses em cada


emprego, média que suponho esteja abaixo da da categoria. Assim ocorreu
em parte por convites que recebi para trabalhar em outro lugar, em parte
porque fui demitido. A primeira demissão ocorreu quinze anos depois de ter
iniciado a vida profissional; a segunda, oito anos depois da primeira; a
terceira, cinco anos depois da segunda; a quarta, um ano depois da terceira.
Notei, assim, que o intervalo entre minhas demissões vinha se reduzindo, ao
mesmo tempo em que caía a média de idade dos responsáveis por elas.

Estava aí uma pauta a ser trabalhada. Estaria isso ocorrendo somente


comigo ou seria eu um caso entre muitos? Qual a razão de tantas demissões,
cada vez mais freqüentes na vida de cada um? O interesse no assunto
cresceu ainda mais quando me dei conta, a partir de meu caso, de que os
motivos disciplinares constam em porcentagem tão ínfima que não
mereceriam consideração. Saí a campo, e são minhas conclusões
preliminares que submeto agora à apreciação de você, colega. Para
aprofundar o tema, seria necessário que nossos sindicatos tabulassem as
estatísticas de que dispõem sobre o assunto, e somente então estaríamos
seguros de que não tem furo na nossa matéria. Enquanto o estudo definitivo
não vem, vou fazendo aqui minhas elucubrações.

Estamos vivendo um Camboja em nossa vida profissional, desde o advento


dos novos bárbaros, que passaram a dar feições pavorosas ao exercício do
poder nas redações. Não haveria por que deter-se no lado sombrio de nosso
cotidiano - na verdade, mera extensão da violência institucional que grassa
por toda parte, abatendo gente ainda mais indefesa que nós. Ocorre que à
diferença de muitos, nós, jornalistas, nos consideramos por profissão e
vocação um dos instrumentos das mudanças que apontam para um convívio
melhor entre os homens. Sabemos, mais do que ninguém, que o
autoritarismo é a mais pesada das poitas que nos retém próximos da
selvageria. Mas como converter nossa fé e esperança em tarefa, se nos
golpeiam fundo na vontade, castram nosso moral, anulam nossas energias e
comprometem a eficácia de nosso trabalho?

A quem interessa e a quem beneficia o saldo do mando a bel-prazer?

Aos nossos empregadores, em primeiro lugar, certamente que não. Embora


sejam senhores absolutos da decisão de contratar e demitir, não pode passar
pela cabeça de ninguém que estejam jogando dinheiro fora ao recrutar com
o esmero de hoje os talentos que sua máquina irá moer amanhã. A propósito,
por muito tempo o debate foi bloqueado pelo maniqueísmo. Por isso,
retomá-lo na direção aqui proposta pode sugerir que se pretende escamotear
o essencial, desviando-o para o conforto do oportunismo. Aos que assim
pensam, respondo: pelo menos metade de minha vida profissional
consumiu-se em funções de chefia - a serviço dos patrões, portanto. Nunca
jamais me foi sequer de longe insinuado que perpetrasse as barbaridades que
hoje presenciamos, algumas das quais relato aqui, apenas a título de
exemplo. Peço paciência ao leitor, que lá chegaremos.

Ao longo da década de 90, nós, jornalistas, despejamos sobre os leitores os


princípios que devem informar o "novo" conceito de capital humano.
Divulgamos aos quatro ventos que, depois da era do músculo e da era da
máquina, havíamos chegado finalmente à era propriamente humana do
trabalho intelectual.

Fomos ainda enfáticos, apregoando que o futuro dos povos está na


dependência do reconhecimento de uma descoberta absolutamente inédito
na história das relações capital-trabalho: a cabeça - desde a do peão da
fábrica até à do penúltimo executivo no topo da hierarquia, já não pode ser
considerada como mero suporte do capacete.

Nos últimos anos do século, estamos divulgando inovações ainda mais


surpreendentes, como a importância de se zelar pelas emoções e afeições no
mundo do trabalho, de modo a liberar a criatividade e extrair mais
excedentes. Assim, já se começa a admitir no ambiente de trabalho a
presença de cães - animais agora convertidos em amansadores de seus
próprios donos. E não estranhará que amanhã veremos o cão puxado pela
criança puxada pela babá puxada pela patroa - todos rumo ao escritório, para
o melhor desempenho profissional do "chefe de família".

Por mais que se queira ver nisso tudo mera retórica das teorias da
organização, ainda assim será preciso render-se à evidência de uma grande
mudança: a retórica organizacional humaniza-se cada vez mais.

Assim, ficam cada vez mais distantes os tempos em que Henry Ford e
Alfred Sloan sonhavam com um robô que substituísse à perfeição a força
muscular do operário-camarão, cuja cabeça não lhes interessava. Reduzido a
força mecânica, esse simulacro de gente, acionado por comandos de voz ou
elétricos, ainda apresentava o inconveniente de portar uma cabeça debaixo
do capacete - um fator de dirupção na rígida estrutura hierárquica piramidal,
concebida segundo o modo de funcionar da própria máquina.

Diferentemente do mundo da fábrica, a corporação jornalística não passou


pela primeira revolução na organização do trabalho nem pela última. Desde
a invenção da imprensa até os dias de hoje, pouca coisa mudou na forma
como estabelecemos nossa rotina de trabalho ou no modo como
promovemos a interação entre os indivíduos que dela participam.

Ao contrário do que ocorria na fábrica de Ford, não operamos como partes


mecânicas, isoladas e inertes, sem interação. Se a cor do capacete devesse
indicar o lugar que ocupamos na estrutura arborescente de Ford e Sloan,
cada um de nós deles portaria uma coleção inteira - não importa a função,
fazemos necessariamente de tudo um pouco e conjuntamente, de modo que
a obra final é sempre resultado de um esforço comum.

Os vínculos funcionais que nos ligam uns aos outros não são apenas do tipo
linear, como na fábrica de Ford. Podem estabelecer-se entre nós
interdependências tanto num mesmo nível de ramificação quanto em níveis
diferentes - e essas interdependências assumem a forma de circuitos de
retroalimentação, conceito que operamos séculos antes de Wiener valorizá-
lo na Cibernética.

Assim, nas redações o trabalho de A pode tornar possível o aprimoramento


do trabalho de B, e o trabalho de B, por sua vez, pode ser utilizado para
melhorar o trabalho de A. E a melhoria de A tornará possível o crescimento
da eficácia de B, e assim por diante. Um por todos e todos por um é o lema
de nossa prática mosqueteira que está por trás de cada matéria, de cada
título, de cada manchete.

E por que é assim? Porque o método de ataque e de resolução de problemas


nas redações deve corresponder ao objeto com o qual lidamos.

O objeto com que lidamos é a história do presente - e essa é feita de


liberdade. Ela se inventa. E é para darmos conta da invenção - que não
sabemos quando, onde, por que, por quem e como vai ocorrer - que a
organização de nosso trabalho só é comparável em flexibilidade, agilidade,
leveza e improvisação às asas da imaginação. Tudo orientado para captar o
novo, o singular. E estamos tão seguros de nossa escolha que, mesmo que os
físicos nos quisessem demonstrar que a existência do Universo é uma
improbabilidade estatística, lá estaríamos nós, incrédulos, à espera de que
algo pudesse ocorrer, porque para nós uma improbabilidade ainda não é uma
impossibilidade.

Sem o brilho dos poetas, estamos sempre enunciando algo como que pela
primeira vez, ainda que na forma de rascunho. Sabendo que a notícia altera
o contexto em que cai, obrigamo-nos a cada momento a recalibrar nossa
percepção, de modo a não deixar escapar o evento que está por vir. Temos,
assim, as habilidades requeridas da mais celebrada das profissões do futuro -
a perspicácia para identificar novos contextos.

Mas é verdade também que, como rascunhadores da história do presente,


não dispomos do saber categórico. Nossa pauta é sempre resultado de um
compromisso precário entre o passado de ontem, que já não é o mesmo, ante
o que acaba de ocorrer, e o futuro que ainda não veio. É desse fundo turvo e
movediço que tiramos nossas certezas, saltando do que não é mais para o
que ainda não é. E, assim, como os engajados na ação política, pagamos por
nossas apostas.

É a essa organização-modelo, feita para lidar com o imponderável, que faz


da solidariedade objetiva condição de trabalho e aceno à virtude, que os
novos bárbaros querem pôr abaixo, reduzindo-nos a autômatos que Ford
recusaria, tivesse ele o robô, pela impossibilidade de cortar-lhes a cabeça.
Uma diretora de redação de uma revista de circulação nacional passa a
exigir como critério de seleção do pessoal o mapa astrológico. Outro diretor
exige que eu demita a secretária por causa da cor do batom, muito viva para
seu gosto soberano. Um terceiro me recrimina por manter a porta aberta a
todos os subordinados, mesmo sabendo que os problemas por eles trazidos
serão resolvidos somente na instância em que ocorreram e à qual eles estão
vinculados. Um editor, recém-chegado ao jornal, demite toda a equipe,
contrata um bando de amigos bichos-grilos, e, vendo-se então incapaz de
editar, pede demissão vinte dias depois.

No momento em que digito este texto, sem que ninguém soubesse que
pretendia fazê-lo, sou interrompido pelo telefone que me faz saber da
demissão de uma repórter, por se ter recusado a fornecer ao chefe imediato
suas fontes. O primata que a demitiu tem dois meses de casa; a repórter, dez
anos de excelentes serviços prestados, na opinião unânime dos colegas. Do
currículo do mesmo primata consta a decisão de ter demitido de forma
igualmente sumária, sem consulta a ninguém, outro repórter que (pediu, e
depois) exigiu retificação na edição do dia seguinte de uma informação
crucial que havia sido alterada na sua matéria.

Seria o caso de prosseguir em relatos de casos conhecidos de todos?

Ausente durante cinco anos da grande imprensa, constato ao meu retorno


como cresceu o império do arbítrio. Restringindo minhas observações
apenas ao que ocorre nas cinco maiores empresas de comunicação, verifico
que não passa um dia sequer sem notícia de alguma demissão
profundamente injusta e atrabiliária.

As novas gerações precisam saber que nem sempre foi assim e que não deve
ser assim.

De minha infância e adolescência profissional lembro-me com saudade do


ambiente nervosamente alegre e ruidoso das redações, lideradas por gente
que entendia a autoridade como um valor a conquistar junto aos liderados,
razão por que não receavam mover-se entre nossas baias, como um mortal
comum, eventualmente responsável por um aporte superior de
discernimento. Seria impensável esperar de quaisquer de meus ex-chefes de
então que patrocinassem a demissão de quem se recusou, por aplicação no
trabalho, a morder a isca do trote do boimate, ou que demitissem a redatora,
impossibilitada de mudar o horário de trabalho em menos de doze horas,
como lhe foi exigido, por não ter ainda quem buscasse o filho na escola.
Seria aquela sua intolerância com a intolerância manifestação de uma
postura superior de caráter?

Hoje vejo insinuar-se nas grandes redações um silêncio tumular. Vejo as


pessoas moverem-se cautelosamente pelos cantos, como que com medo de
que o chefe as flagre no exercício culposo de existir. O terror parece tornar-
se onipresente, ainda não ostensivo como um pelourinho na praça, mas já
veladamente insidioso como um câncer da próstata.
"Vais conhecer o mundo", disse o pai do menino Raul Pompéia à porta do
Ateneu. Li-o na adolescência, para saber cedo na vida que não haveria por
que esperar que em nossas redações os sonhos devessem manter-se ao
abrigo do risco de serem moídos pela brutalidade. Mas, ao contrário do que
se passava no Ateneu, nossa vida cá fora tem a ver com responsabilidades
públicas, como atesta a lei que rege nossa atividade.

Como o flagelo espalha-se em ondas avassaladoras, começo a recear pelo


destino das novas gerações, sensíveis igualmente à brutalidade, mas
desprovidas de nossas referências passadas, e tendentes, como observo, a
encarar como "natural" esse caminhar moralmente de cócoras. Assim,
deixam que os chefes metam a mão em seus textos, às vezes suprimindo ou
alterando conteúdos de importância crucial, sem se dar conta de que ao
repórter cabe responder ética e civilmente perante a fonte e o leitor.

Da castração moral à infantilização beócia das equipes, o passo é apenas


lógico, como o foi no fascismo. Assim, uma editora jovem alçada
subitamente à condição de editora sênior - digo, melhor, demiurgo - convoca
editores e repórteres, alguns deles com mais de quinze anos de jornalismo,
para ministrar-lhes durante uma hora, com despudor anedótico, lições
transcendentais sobre como falar ao telefone com o entrevistado.

Explica-se: ao tempo em que o mundo se debruça sobre nosso modelo de


organização, para dele colher o segredo das estruturas versáteis, os novos
bárbaros, avançando sobre os escombros de nosso orgulho, fazem escola nas
redações - e são esses padrões de mando despótico que passam a moldar o
comportamento dos mais novos, do subchefe ao último repórter ou
paginador na escala hierárquica. Estaria aí o começo da explicação de uma
das tendências a que me propus investigar no início?

Conhecendo-lhe a matriz histórica, sabemos que o despotismo esterilizante


de nossos dias não é uma fatalidade. Trabalhei em organizações jornalísticas
exemplares, como é a TV e Rádio Suécia e a BBC londrina. Ali, já no início
dos anos 70 tamanha era a preocupação com remover do ambiente de
trabalho empecilhos que pudessem dificultar o exercício da inteligência, que
se suprimiu, simplesmente, a figura do chefe. Nem por isso ruiu a hierarquia
para instalar-se a anarquia.

Criou-se em seu lugar a figura do líder de grupo de quem, por precaução, se


retirou o poder de vida e de morte sobre os subordinados. O objetivo era
remover da relação hierárquica a possibilidade de prevalecer na decisão das
chefias elementos de força, de uso inteiramente inadequado no caso.
Subjacente a essa postura, que reconcilia a natureza de nossa atividade com
a forma de organização que lhe convém, está o entendimento de que a arma
do argumento - e não o porrete - é o instrumento por excelência de nosso
trabalho.

É brandindo o argumento, às vezes com veemência como fazíamos no


passado, que se faz vir à luz a manchete. E é sempre em razão dos
argumentos que se armam os qüiproquós, tônico da criatividade que dá
origem ao melhor lead, ao melhor título, à escolha da melhor foto, ao
melhor texto final, que, embora assinado, traz as marcas da contribuição de
cada um. (Diga-me, colega, haverá profissão mais apaixonante que a nossa?
Não é assim que o operário alienado do produto de seu trabalho fantasiou
seu paraíso?)

Esse é o grande debate, que sem ódio nem ressentimento precisamos ter
coragem de levar às redações e aos sindicatos da categoria. Quando se tiver
removido o despotismo atual, as novas gerações poderão ver com mais
clareza que o jornalismo alimenta-se exclusivamente dessa substância
seminal, que é o dissenso. Entre nós, os embates, longe de visar à
eliminação do contendor, são funcionais: seu objetivo é produzir o mesmo
efeito polifônico do choque entre metais e cordas na orquestra.

É, assim, com o propósito de restabelecer o princípio da dissonância em


nossa atividade, que convoco os colegas para uma cruzada cultural, que
sabemos longa, e que nos conduza ao seguinte:

1 - suspensão das demissões sumárias, à parte as questões disciplinares,


assunto que não é objeto de nossas considerações;

2 - remoção da possibilidade do arbítrio, cassando-se o "direito" do chefe de


decidir sobre o destino dos colegas sem consulta a ninguém (na BBC são
necessárias pelo menos três pessoas para formalizar o processo e tomar a
decisão);

3 - levar aos empregadores, mediante negociação com os sindicatos, uma


proposta de adoção de uma política de pessoal   .

Aprendemos com Tocqueville que o mais terrível dos poderes é o poder de


mandar a bel-prazer. Assim concebido, ele é, nas palavras do gênio,
infinitamente perigoso. Não pelo fato de mandar - mas pelo fato de que pode
tomar conta da sociedade. Não pelo fato de controlar - mas pelo fato de que
pode privar os cidadãos de qualquer iniciativa política e, mais grave que
tudo, porque pode privá-los do desejo de tomar iniciativas. Daí a urgência
desta cruzada.

Estou confiante na compreensão de nossos empregadores, a quem, como a


nós, não interessa a asfixia de nossa criatividade e a ineficácia de nosso
trabalho. Vejo como possível restabelecerem-se as responsabilidades
compartilhadas nos erros e nos acertos, o espírito de confiança, o princípio
do dissenso e a paixão pelo trabalho, para melhor proveito de nossos
leitores.

Meu endereço: Rua Piauí, 359, apto. 61.


01241-001, Higienópolis.
São Paulo - SP.
Fone: (011) 255 17 58.
García Márquez ensina aos empresários o que é o jornalismo humanista

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j NA TV
A cobertura da tragédia na Região Serrana

Por Lilia Diniz em 3/3/2011


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No editorial que abre o programa, Alberto Dines comentou que a grande imprensa,
principalmente as redes de televisão, trouxe a tragédia para dentro das casas do Brasil
inteiro. "Esta é a sua função, para isso dispõem de fabulosos recursos financeiros,
técnicos e humanos. Pouco se falou sobre o papel desempenhado pela mídia local da
região serrana, os pequenos jornais comunitários, as emissoras de rádio, as repetidoras de
TV, os serviços de alto-falantes, os sites, os blogs. Pouco se falou sobre o cidadão-
repórter e o repórter-cidadão que, com precários celulares, webcams e tocados pela
intensa ligação com a sua terra e a sua gente, cumpriram o doloroso dever de relatar o
que acontecia sem abater-se", avaliou. Dines comentou que o poder político deseja uma
imprensa regional "inofensiva, atrelada e submissa aos seus interesses" e que os
anunciantes locais não têm coragem para "bancar" um jornalismo independente.

Em Nova Friburgo, as chuvas atingiram em cheio o centro da cidade, causando mortes e


afetando drasticamente setores essenciais da economia. Com as ruas tomadas pela lama,
o primeiro desafio da equipe da afiliada do SBT no interior do estado foi chegar à
redação, na Praça Getúlio Vargas. Mesmo com as dificuldades de locomoção, as
primeiras imagens gravadas em solo foram transmitidas por esta equipe. Nelson Cunha,
editor-chefe do canal, contou que, em função da falta de energia elétrica e do colapso no
sistema de telefonia, o mais difícil nas primeiras horas era ter a noção exata da situação.
A estrutura da repetidora do SBT é proporcional à realidade pacata de Nova Friburgo.
Por isso, os funcionários precisaram se redobrar para cobrir a catástrofe. "A gente passou,
de um dia para o outro, a ter que, praticamente, preencher toda a grade do jornal da
emissora", disse Cunha. Conciliar o lado profissional com a triste realidade da tragédia
que assolou a cidade foi um dos grandes desafios desta cobertura, na avaliação do editor.

   

Próxima a um rio, a sede do canal a cabo Luau TV, no bairro de Olaria, ficou alagada.
Voltada habitualmente para o entretenimento, a emissora passou a transmitir para a
população local as principais notícias sobre os transtornos causados pelas chuvas. "A
informação é de que realmente o que havia acontecido com a cidade era algo muito sério,
muito grande, já se percebia nas primeiras horas da manhã um número grande de
helicópteros sobrevoando, o que não era normal. Por volta de 13 horas a energia foi
restabelecida e o nosso telefone começou a funcionar. Imediatamente o Daniel [técnico
do canal] pegou todos os equipamentos que nós tínhamos e levou pra parte de cima e lá
nós improvisamos um espaço para passar as primeiras informações daquilo que estava
acontecendo", contou Walter Thuller, diretor da Luau TV. A apresentadora Bruna Verly
relembrou que foi a pé até a emissora, com lama até o joelho. Luzêni Penna acredita que,
como jornalista, está tendo uma responsabilidade social muito maior do que imaginava.

A repórter Karime Leão, do SBT, voltou com a equipe do j 


ao local onde
houve o maior desabamento no centro da cidade. Prédios e casas foram destruídos por
toneladas de terra. Nove pessoas morreram, três delas integrantes do Corpo de
Bombeiros. "A impressão era de um cenário de guerra, parecia que a gente estava em um
filme de ficção científica", relembrou. Uma mãe que, aos prantos, pedia a funcionários do
Instituto Médico Legal (IML) de Nova Friburgo para limpar a lama do corpo do filho foi
uma das cenas que mais marcaram a jornalista. "Ela falava: µmas ele só tem seis anos, ele
está sozinho lá dentro¶. Acaba com qualquer um, né? Não tem como você não se
emocionar. Não tem como eu ainda não estar em estado de choque", disse Karime. Por
ter um contato próximo com autoridades e moradores, as equipes locais cobriram os fatos
com maior "conhecimento de causa", na avaliação da jornalista.

Outro veículo de informação que sofreu as conseqüências das chuvas em Nova Friburgo
foi $%  &. Os 170 mil habitantes da cidade ficaram seis dias sem o jornal mais
antigo e importante da região. Nos mais de 70 anos de história do diário, esta foi a
primeira vez que deixou de circular. A redação e a gráfica não foram atingidas pela
enxurrada, mas as dificuldades na distribuição impediram que os exemplares chegassem
às bancas e aos assinantes. A maioria dos 30 funcionários foi afetada pela forte chuva e
não conseguiu trabalhar nos primeiros dias. O diretor do jornal, Laércio Ventura,
explicou que os fotógrafos da publicação percorreram a cidade "de forma muito
empírica", pois estavam sem telefone para a comunicação com os editores, para registrar
as imagens da tragédia para as edições posteriores.

    

Em Teresópolis, o temporal devastou dezenas de bairros, mas deixou o centro da cidade


intacto. Sem luz e telefone e com ruas e estradas bloqueadas pela queda de barreiras, o
trabalho da imprensa nas primeiras horas foi caótico e a mídia local demorou a perceber a
dimensão da tragédia. André Oliveira, da Rádio Teresópolis, contou: "Já saí com a minha
câmera de fotografia a tira-colo, parei em alguns pontos onde tinha uma laminha, uma
sujeirinha, achando que eu estava abafando, tirando foto daquilo tudo, falando µvou levar
para o jornal porque a chuva deu a maior sujeira¶. Quando eu cheguei à emissora, nós
estávamos sem luz também, sem energia elétrica tanto no estúdio quanto nos
transmissores e o colega que estava aqui falou µolha, deu muito problema, muita gente
morta, a cidade está acabando¶. E foi aí que começou a cair a ficha do que estava
acontecendo". Ao longo do dia, a equipe contou com a parceria dos ouvintes para
transmitir informações sobre o estado em que se encontravam os bairros mais afastados
do centro.

O Grupo Diário, que edita o jornal 



  '  
, sofreu com as informações
desencontradas nos primeiros momentos. "A gente não tinha idéia que a coisa ia tomar
aquela proporção, mas a gente sabia que alguma coisa ia acontecer ou que estava
acontecendo. Já nas primeiras horas da madrugada a gente recebeu telefonemas de
pessoas nessas localidades que estavam numa situação muito difícil, como no distrito da
Posse. Tinha gente dizendo que estava vendo coisas absurdas como ondas de 15 metros,
não estava entendendo o que estava acontecendo, pedindo informações, perguntando se
eu sabia de alguma coisa. Aí eu fui unindo uma coisa com a outra. Nas primeiras horas a
gente já estava mais ou menos pautado e, evidentemente, quando chegamos aos locais,
vimos que a coisa era mesmo assustadora e que aquilo iria tomar proporções
inimagináveis", relembrou Anderson Duarte, diretor de jornalismo do grupo.

Para muitos habitantes de localidades que ficaram isoladas, o rádio à pilha foi a solução
para saber as notícias. "Você não precisa de energia elétrica para ouvir rádio. Se você
tiver um radinho à pilha você vai ouvir por um determinado número de horas, enquanto a
pilha durar. Isso serviu de informação no momento da tragédia para muita gente que
estava isolada. As torres de telefonia não estavam funcionando. Não havia energia
elétrica, não havia nada, mas o radinho estava ligado", disse André Oliveira. "A estrutura
de uma rádio pequena nos deixa longe dos helicópteros, nos deixa longe dos acessos aos
bairros mais distantes. Aí é que entrou a parceria dos ouvintes porque muito do que nós
noticiamos foi trazido por eles", explicou o jornalista.

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Claucio Misael, repórter da Rádio Teresópolis, estava em férias na semana em que a


catástrofe ocorreu, mas acabou sendo contagiado pela necessidade de registrar os fatos e
ajudar a população. Ao longo da BR 116, interditada pela queda de barreiras em diversos
pontos, acompanhou resgates, relatos de dor e o desespero de pessoas que caminhavam
quilômetros na chuva em busca de notícias de parentes. Uma das entrevistas que
emocionaram o jornalista foi a de uma mãe que perdera a filha de 15 anos levada pela
força das águas do rio que passava ao lado de sua casa. "Para um repórter, com certeza é
muito difícil, apesar de eu já ter visto muita coisa ruim. Por conta do meu trabalho de rua,
a gente está
 , acompanhando alguns casos, mas algo igual ao que eu acompanhei,
nunca", afirmou Claucio.

O resgate de D. Ilair, em São José do Vale do Rio Preto, comoveu o Brasil. O rio que
corta a cidade invadiu as ruas rapidamente e deixou a dona de casa isolada em um terraço
com seus cachorros. Poucos instantes antes da construção ser levada pela enxurrada,
vizinhos jogaram uma corda e conseguiram salvar a vida de D.Ilair. As dramáticas
imagens registradas por uma equipe da InterTV, afiliada da TVGlobo, foram exibidas por
telejornais de todo o país. "Eu não acreditava que ia correr o mundo. Para mim, era uma
imagem como outra qualquer. Uma imagem normal, do meu dia-a-dia", disse o repórter-
cinematográfico Rogério de Paula. O jornalista Bruno Micelli contou que, enquanto as
imagens eram captadas, a equipe ajudava a orientar D.Ilair.

No município de Petrópolis, o centro histórico e comercial não foi afetado pelo temporal,
mas o Vale do Cuiabá, no distrito de Itaipava, foi parcialmente destruído. "Eu consegui
contato com uma fonte na região do Brejal que confirmou que havia duas vítimas fatais e
a partir daí eu entrei em contato com a redação do jornal e a gente foi para lá. Só que
chegando na estrada do Gentio a gente ficou sabendo que na verdade a tragédia maior
estaria no Vale do Cuiabá. A gente ouvia as pessoas falando µo Vale do Cuiabá acabou¶,
mas a gente queria saber o que aconteceu lá. Aí nós fomos, passamos por uma localidade
conhecida como Buraco do Sapo, que fica perto da estrada Petrópolis-Teresópolis, e lá
vimos que pelo menos umas seis a oito pessoas estavam sendo retiradas e que o quadro
era de destruição total. Indo para o Vale do Cuiabá, a gente levou umas duas horas para
chegar por causa da dificuldade de acesso, o quadro de destruição só aumentava",
relembrou Jaqueline Costa, repórter da '
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Uma semana depois das fortes chuvas que atingiram a região serrana, a '
 
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 publicou um editorial na primeira página criticando a grande imprensa. Para o
jornal, a cobertura da mídia nacional foi leviana e pode prejudicar o turismo e o
comércio, vitais para a recuperação da cidade. "Eu fui a várias reuniões da Firjan [
Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro] e da prefeitura e havia um clamor
muito grande em relação à imprensa do Rio, a imprensa dita nacional, de outros estados.
Há televisões que focaram muito que Petrópolis tinha acabado. O pessoal achava que em
Petrópolis tinha água dentro do Museu Imperial, quando nada disso aconteceu. As
pessoas trocam bastante o nome dos lugares. O Vale do Cuiabá, por exemplo. Ninguém
sabe direito onde fica", criticou Francisco de Orleans e Bragança, diretor do jornal. Para
o diretor, as informações sobre a tragédia, muitas vezes, ficavam truncadas.

Com pouco tempo para checar as notícias em meio à catástrofe, a imprensa acabou
divulgando informações erradas. Entre os equívocos, o caso do cachorro Caramelo
ganhou repercussão. "Naquela série de túmulos que foram cavados para as vítimas da
tragédia, tinha um cachorrinho do lado de um desses túmulos, e por acaso o único que
estava coberto, ou seja, o único que tinha alguém enterrado. Foi publicado em quase
todos os sites de notícias do Brasil, sites de notícias internacionais, que aquele cachorro
estaria ali há 3 dias velando a sua antiga dona que foi vítima no Caleme. Existiu
realmente um cachorro que estava velando, ou estava próximo de onde a sua família de
origem havia sido vitimada. Esse cachorro ficou perambulando pelo bairro do Caleme
durante alguns dias. Na verdade o cachorrinho que estava do lado do túmulo lá no
cemitério é o cachorrinho do coveiro", explicou Anderson Duarte, do Grupo Diário.

Uma solução simples e criativa salvou a vida de muitos habitantes da cidade de Areal, a
100 quilômetros do Rio de Janeiro. O prefeito foi informado das fortes chuvas que
atingiram a região na madrugada anterior e percebeu que em pouco tempo as águas dos
rios Preto e Piabanha invadiriam as casas. Em menos de meia hora, o carro de som usado
para os comunicados do dia a dia da prefeitura começou a percorrer a cidade e alertar os
moradores sobre o perigo da inundação. Não havia chovido em Areal, mas ainda assim a
população ribeirinha levou a sério o aviso e procurou um local seguro. Dos cerca de 12
mil habitantes, nenhum morreu. No encerramento do programa Dines comentou: "A
tragédia da região serrana do Rio nos mostrou que o sistema midiático é essencialmente
pluralista, holista. A sociedade precisa tanto da agilidade e emoção dos pequenos
veículos, capazes de antecipar e prevenir, como precisa das grandes empresas, capazes de
repercutir e movimentar a esfera federal. Esta tragédia, se quisermos, pode nos levar a
uma revalorização da brava pequena imprensa".
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