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DAN B.

ALLENDER

LÁGRIMAS SECRETAS

Cura para as Vítimas de Abuso Sexual na Infância

1
SUMÁRIO
Prefácio...........................................................................................................................................................................04

Prólogo
Em busca da cura............................................................................................................................................................06

Prefácio da edição revisada


Uma questão de lembrança.............................................................................................................................................11

Parte I
A dinâmica do abuso.......................................................................................................................................................20
1. A realidade de uma guerra; encarando a batalha .........................................................................................21
2. O inimigo: pecado e vergonha.....................................................................................................................27
3. Desvio: em choque com a crítica....................................................................................................................36
4. A zona de batalha: estratégias de abuso.......................................................................................................42

Parte II
Os danos do abuso......................................................................................................................................................52
5. Impotência..................................................................................................................................................53
6. Traição........................................................................................................................................................60
7. Ambivalência...............................................................................................................................................67
8. Sintomas secundários..................................................................................................................................74
9. Estilo de relacionamento..............................................................................................................................80

Parte III
Pré-requisitos para o crescimento...............................................................................................................................87
10. A improvável rota para a alegria.................................................................................................................88
11. Honestidade................................................................................................................................................93
12. Arrependimento.........................................................................................................................................100
13. Amor intenso.............................................................................................................................................109

Epílogo
Palavras aos sábios........................................................................................................................................................119

Notas.............................................................................................................................................................................122

2
AGRADECIMENTOS
Minha filha de oito anos perguntou-me certo dia: "Papai, por que você está interessado em abuso sexual?".
Felizmente, antes que eu pudesse começar a responder, ela me fez outra pergunta: "Papai, é verdade que as pessoas
que sofreram abuso têm paredes em seus corações que impedem que sejam felizes e, depois de lerem o seu livro, elas
terão menos tijolos nas paredes?". Chorei. Suas perguntas simples expressavam o cerne de minha vocação pessoal
(por que estou interessado em abuso?), de minha atividade profissional (este livro será útil?), além de abrir as portas
para que eu pudesse expressar uma enorme gratidão. Aquelas perguntas, a vocação e as tarefas não poderiam ser
executadas sem um enorme grupo de pessoas - clientes, amigos, meu mentor e minha família -, os quais me deram a
liberdade de fazer perguntas difíceis e formular respostas que nem sempre foram (ou até agora não estão) claras,
precisas ou úteis, sem medo de rejeição ou condenação. Isto é uma coisa única na comunidade cristã.

As faces de incontáveis homens e mulheres passaram diante de mim enquanto escrevia este livro. Suas
vidas me ensinaram, partiram meu coração e aprofundaram minha convicção de que um Deus bondoso está
trabalhando, ainda que de maneira singular e surpreendente. Não posso mencionar seus nomes, mas muitos ouvirão
nestas páginas os ecos de nossas conversas, alegrando-se ou chorando. Não posso agradecer-lhes do modo como
vocês merecem.

Fui profundamente encorajado pelos diversos amigos que separaram um tempo para ler os manuscritos e
comentar ou interagir com o material. Menciono aqueles cujo envolvimento tem sido de mais longo prazo, de
maneira firme e desprendida: Al e Nita Andrews, Sandy Burdick, Karla Denlinger, Sandy Edwards, Lottie Hillard,
Nancy Lodwick, Tremper Longman III, Shannon Rainey, Robin Reisert, Melissa Trevathon, Tom Varney e Lori
Wheeler. Uma mulher que literalmente transformou o material através de sua sabedoria, bondade e bom humor foi
minha editora, Traci Mullins. Eu jamais teria suportado o processo todo sem sua ministração competente e sem sua
poesia tão expressiva. Seu coração está presente em cada página.

De uma forma ainda mais sensível, o coração e a alma de meu colega, mentor e melhor amigo, Larry Crabb,
estão transcritos na vida desta obra. Sua honestidade íntegra e inexorável e seu apaixonado desejo de conhecer mais e
mais a Deus foram o impulso que me levou a querer alcançar almas abatidas e feridas com a esperança de profunda e
eterna transformação. Sou seu devedor e apreciador.

Finalmente, minha esposa Rebecca, minha Estrela do Norte. Sua sensibilidade e poderosa voz em favor
daqueles que têm um coração ferido deu-me ainda mais prazer em desenvolver este trabalho. Seu coração é um
presente que me traz alegria indescritível. Rebecca, minha gratidão a você nunca será corretamente expressa, mesmo
que eu passasse o resto de minha vida agradecendo-lhe por seu amor. Os anos gastos na preparação deste trabalho
não seriam possíveis sem seu coração gentil.

3
PREFÁCIO
Eu queria que as coisas fossem simples. Gostaria que todos os problemas pudessem ser resolvidos
facilmente através da sincera determinação em obedecer a Deus, de investir tempo regularmente na leitura de sua
Palavra e em fervorosa oração.

De certo modo, eles podem. O coração que se preocupa de modo sincero com seu compromisso de seguir a
Cristo vai conhecer um amor altruísta, vai ser consumido pela maravilha de Deus, e proporcionar alegria a outros será
um prazer tão grande para essa pessoa que as preocupações passarão a ter uma merecida segunda prioridade.

Mas nossos corações são enganosos. A simples decisão de render-se completamente a Jesus pode dar início
a um processo bom; mas existe dentro de nós uma legião tão grande de coisas más, feias e difíceis de serem tratadas,
que preferimos nos omitir ao invés de nos rendermos totalmente.

Às vezes tentamos provar a nós mesmos que Deus está contente com nosso grau de maturidade, ao passo
que, de fato, o Espírito Santo está gentilmente nos levando às regiões mais escuras de nossa alma, as quais fazemos
de conta que não existem.
Cristãos que têm a coragem de seguir o Espírito pelas regiões menos amigáveis de nossas almas passam por maus
momentos quando acham que o processo de amadurecimento acontece de um modo calmo e tranqüilo. Eles encaram
o fato de que viver em um mundo decaído muitas vezes expõe as pessoas a experiências que nenhum filho de Deus
jamais imaginou enfrentar; e nossas reações a estas experiências são muitas vezes manchadas por nossa própria ruína.

Quando as pessoas são confrontadas - ainda que não por sua própria vontade - com terríveis pecados e
crimes contra Deus, como abuso sexual, forças poderosas começam a agir dentro delas dc modo a fazê-las odiar a
experiência de dar-se a outras pessoas. Exortá-las a que "confiem em Deus" geralmente causa frustração e provoca
dúvidas atrozes sobre a realidade e validade da fé cristã.

Um dos grandes desafios da igreja de hoje é trocar um modelo simplista de santificação por uma
compreensão do Evangelho que seja ao mesmo tempo simples e contundente, penetrando com poder no íntimo de
almas arruinadas e cheias de pecado. Esta mudança exige um trabalho pioneiro voltado à questão de problemas como
abuso sexual na infância. Problemas que, pelo fato de não permitirem que reconheçamos tão facilmente a vitória
absoluta de Cristo, tendem a ser ignorados.

Se este esforço pioneiro é bíblico, ele deve enfatizar que a imagem de Deus é o ponto central ao redor do
qual deve-se desenvolver uma visão sólida da personalidade; deve ratificar que nossa propensão ao pecado - e não os
pecados que foram cometidos contra nós - é que é o nosso maior problema; deve proclamar que o perdão - e não a
plenitude - é a nossa maior necessidade neste momento; deve asseverar que o arrependimento - não insights - é que
vai promover a verdadeira mudança.

Lágrimas Secretas é um livro notável. Vai muito além das idéias tradicionais de mudança, mas continua
firmemente alicerçado nos princípios bíblicos à medida que explora com profundidade os danos causados às vítimas
de abuso sexual. Considero-o como um trabalho realmente pioneiro. Não dá a última palavra sobre o tratamento
destas pessoas, mas apresenta muito mais do que palavras iniciais.

As discussões cuidadosamente fundamentadas sobre como o abuso sexual danifica a alma e quais as
primeiras coisas que a vítima deverá superar vão, inicialmente, causar dor; posteriormente talvez resistência, mas
sempre trarão esperanças ao leitor sincero, seja ele uma vítima ou uma pessoa querendo ajudar.

O Dr. Allender resolveu escrever sobre um assunto que é alvo fácil do sensacionalismo, sem cruzar a linha
da decência, mantendo-se focado no Evangelho. Proclama a confiança no poder das Escrituras de restaurar as vítimas
de abuso à sua dignidade original de pessoas perdoadas, voltando a amar sem medo e podendo perdoar com o coração
- antes triste - agora repleto de alegria.

A leitura do livro vai dar uma idéia do preço pago pelo autor em sua abnegada busca pela compreensão dos
problemas relativos ao abuso. Acompanhei Dan durante os vários anos em que ele esteve imerso nas centenas de
detalhes sobre a questão do abuso sexual, alguns dos quais impublicáveis por suas características grotescas. Vi seu
sofrimento. Ele leu muito, pensou muito, conversou muito, importou-se sinceramente com as pessoas e não se
afastou, mesmo nos momentos em que era requerido mais do que ele podia dar para ajudar estas vítimas. Este livro
representa sua resposta ao chamado de Deus.

Não fiz nenhum esforço para escrever um prefácio isento, simplesmente porque sou incapaz de fazê-lo.
Tenho grande apreço por este homem. Pude acompanhar sua vida desde que Deus iniciou uma grande mudança nele,
transformando-o de um brilhante seminarista, com mais ousadia que sabedoria, em um psicólogo maduro, possuidor
da poderosa combinação de insights penetrantes com paciência gentil, os quais advêm de uma rica consciência de ter
sido perdoado. Dan e eu somos ligados por uma lealdade mútua, afeição e respeito, desenvolvidos através de
momentos bons e ruins, que é a melhor definição da palavra amizade.

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Mas não pense, em momento algum, que minhas palavras favoráveis têm a ver apenas com nossa
proximidade. Com a maior objetividade que pude desenvolver - e eu sou um amigo extremamente crítico - concluí
que Lágrimas Secretas não somente é o melhor livro disponível para ajudar de modo mais profundo a abordagem do
assunto abuso sexual na infância, como é um ótimo exemplo de como se podem abordar temas que não são tratados
diretamente pelas Escrituras.

Nada é mais importante do que saber que o Evangelho de Cristo aborda todas as questões da vida com
compaixão e poder. Este livro ajudou-me a ver mais claramente esta verdade. Creio que ele fará o mesmo com você.

Dr. Larry Crabb

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PRÓLOGO

Em Busca da Cura
Todo aquele que escolhe ler um livro sobre abuso sexual tem um propósito bem definido em mente. Alguns
se chateariam demais em ter nas mãos um livro que fala de dor e sofrimento se seu objetivo fosse distrair-se com a
leitura. Na maioria dos casos, este livro será lido por aqueles que estão lutando para compreender o próprio abuso que
sofreram. Outros poderão lê-lo para entender melhor o problema que seu irmão da igreja, cliente ou cônjuge estão
enfrentando. Qualquer que seja a razão para a leitura deste material, creio ser justo que o leitor faça a seguinte
pergunta: Por que outro livro sobre este assunto?

Uma resposta óbvia seria: oferecer ajuda àqueles que experimentaram o abuso sexual em suas vidas e dar
subsídios aos que lidam com estas pessoas. Uma das principais mensagens dos livros sobre abuso, incluindo a deste, é
a libertação da culpa do passado. O que aconteceu não foi culpa sua!

Infelizmente, esta mensagem é ouvida primeiro como uma boa notícia, mas com freqüência não dura por
muito tempo.

Tenho ouvido várias vítimas de abuso sexual dizerem: "Outros são perdoados, mas não eu. Meu caso foi
diferente. Se você soubesse dos fatos, saberia que, ao menos parcialmente, eu fui culpada. Eu o levei a isso. Eu não
falava com ninguém sobre o assunto, e sei que deveria ter encontrado uma saída para frear seus avanços".

Por alguma razão, essa anistia geral oferecida às vítimas de abuso sexual se esvai após o alívio inicial. Esta
diminuição não invalida as boas novas. Simplesmente sinaliza que há mais coisas a serem feitas do que apoiar as
pessoas que sofreram abuso e implorar que elas perdoem a si próprias.

Quem é o inimigo? Quais são os fatores que fazem com que o abuso sexual seja tão vergonhoso? Quais são
os fundamentos deste doloroso autodesprezo? O que precisa ser feito para levantar este véu de vergonha e rejeição? A
resposta envolve uma estratégia que parece intensificar o problema: analise profundamente o coração machucado. O
primeiro grande inimigo da cura permanente é a propensão a tirarmos os olhos da ferida e fingir que as coisas estão
bem. O trabalho de restauração não pode ser iniciado até que o problema seja encarado de frente.

Este é um livro sobre danos: danos causados à alma pelo abuso sexual. Também é um livro que fala de
esperança, mas esperança que surge somente depois que o perigo do abuso tenha sido encarado. Se há um propósito
central para este livro, ele é visto na necessidade de enxergar o que de fato o abuso faz à alma, e os danos causados a
outras pessoas relacionadas com o abuso.

Há uma relutância natural em encarar o problema. Cristãos tendem a desprezar a realidade1. Tendemos a
ficar melindrados quando vemos os efeitos devastadores do pecado. Não há prazer em ver as conseqüências do
pecado - seja nosso ou de outros. Fazer isso nos dá a idéia de estarmos menosprezando o trabalho de nosso Salvador.
Assim, fingimos que estamos bem quando, de fato, alguma coisa está perturbando nossa alma.

Ocasionalmente alguma dor aflora, algumas lembranças vagas retornam durante os sonhos ou surgem em
devaneios durante o dia. Mas por que se preocupar com estes estranhos sentimentos se nossa salvação está garantida e
a única tarefa que temos na vida é confiar e obedecer?

A cultura da descrença não é tão desonesta. Nossa sociedade passa por situações que, em outros tempos,
foram deixadas de lado. Infelizmente, contudo, ela oferece soluções que levam a negações ainda maiores. O caminho
secular (afastado de Deus) para a mudança parece envolver alguma forma de auto-afirmação, em que cada um
estabelece seus próprios limites e escolhe viver baseado em seu próprio sistema de valores. Invariavelmente, o
resultado é um humanismo centrado no eu de maneira ainda mais forte, e que valoriza mais os benefícios e vantagens
pessoais do que o amar a outros.

A solução do caminho secular está, na verdade, enchendo um copo furado com água morna: deixa a alma
tanto insatisfeita quanto vazia. Nunca admite que o maior dano não é aquilo que alguém me fez, mas o que eu fiz em
relação ao Criador do Universo. O dano causado pelo abuso é horrível e hediondo, mas é considerado menor quando
comparado com a dinâmica que distorce o relacionamento da vítima com Deus e que lhe tira a alegria de amar e ser
amada por outros.

Este processo é o fim das soluções que o mundo oferece, mas muitas alternativas chamadas cristãs são, em
diversos casos, até piores. Várias saídas apresentadas às vítimas de abuso freqüentemente aumentam o fardo e levam
a um novo tipo de culpa: o perdão baseado na negação, pressões para amar e alívio rápido da dor através de
dramáticas intervenções espirituais.

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Perdão baseado na negação

Perdão baseado no esquecimento é a versão cristã de uma lobotomia frontal2 (cirurgia realizada nos lobos
cerebrais em casos de síndromes esquizofrênicas ou de dores intratáveis de outras formas). Uma mulher que havia
sofrido abuso ouviu de seu pastor que ela deveria esquecer o passado e parar de se penitenciar, porque muitas pessoas
haviam suportado coisas piores do que sofrer abuso por parte dos pais. Este conselho não provocou nenhuma reflexão
sobre o egoísmo e ilegitimidade do abuso. Seu comentário foi tão doloroso quanto o próprio abuso que ela sofreu.

Ouvir: "o passado é passado e nós somos novas criaturas em Cristo; portanto não se preocupe com o que
você não pode mudar" a priori alivia o peso de encarar a realidade destrutiva do passado.

Depois de um tempo, entretanto, a dor não resolvida do passado clama por um desfecho e a única solução é
continuar negando3. O resultado é um sentimento de autodesprezo pela inabilidade de perdoar e esquecer, ou o
aprofundamento de um sentimento de traição por parte daqueles que tentam calar a dor de quem sofreu abuso,
semelhantemente à atitude daquele que cometeu o abuso e queria calar a vítima.

Esconder o passado sempre implica negação; negação do passado é sempre a negação de Deus. Esquecer
sua história pessoal é o equivalente a tentar esquecer-se de si mesmo e da jornada que Deus o chamou a trilhar.

Qual deve ser a motivação para aqueles que são adeptos da filosofia do "perdoar e esquecer"? A resposta
pode ser encontrada num legítimo e profundo desejo de proteger a honra de Deus. Uma pergunta fundamental na
mente da vítima de abuso é: "Onde Deus estava?". Isto leva muitos a responderem negando a influência de eventos
passados sobre os acontecimentos de hoje. Se o passado é insignificante, então eu não preciso ficar ponderando sobre
a questão "por que Deus não interveio?".

O mundo incrédulo se dispõe a ver o dano do abuso porque ele não sente necessidade de defender o Deus
que poderia ter feito algum tipo de intervenção para impedir aquele ato. Por outro lado, a comunidade cristã se dispõe
a negar qualquer dado que possa lançar alguma dúvida sobre a presença de Deus ou sobre seu desejo de agir em favor
de um de seus filhos.

"Onde Deus estava?" é um lamento legítimo da alma, visando entender o que significa confiar em Deus.
Independentemente da resposta, a pergunta não deve ser evitada. Se Deus é digno de confiança, então podemos
confiar nele sem nossos esforços em distorcer ou negar o passado.

Há outro fator que pode estar envolvido na questão de "esquecer" o passado. Os cristãos acreditam na
possibilidade da cura ou de uma mudança profunda. Mudança - ou, melhor dizendo, o fruto do Espírito - é o resultado
do trabalho de Deus em uma pessoa.

Este trabalho nos habilita a amarmos como Cristo amou, a servir como ele serviu e a estarmos unidos a
outras pessoas da mesma forma como ele é um com o Pai. São objetivos altos. Os resultados raramente chegam perto
do ideal - se é que chegam a acontecer. Basta observar nossa propensão à crendice, materialismo e superficialidade,
bem como nosso senso crítico exacerbado em relação àqueles que diferem de nossas posições doutrinárias, para
colocarmos em dúvida o processo de mudança promovido pelo Espírito Santo.

Uma pessoa não crente poderia facilmente nos processar por propaganda enganosa... Será que o Evangelho
realmente transforma vidas? Esta informação muitas vezes é questionável. Daí a comunidade cristã se sentir disposta
a negar qualquer coisa que aponte para os espinhos e cardos na vicia daqueles que clamam por serem cheios do poder
de Deus.

O mundo incrédulo reconhece os efeitos do pecado mas oferece soluções incompletas; o mundo cristão é,
muitas vezes, descrente com relação aos atuais efeitos do pecado, mas pode trazer cura eficaz.

A resposta é bastante simples. Nós, cristãos, precisamos reconhecer, sem vergonha ou medo, que a
regeneração não alivia ou diminui rapidamente - ou até permanentemente - os efeitos do pecado na vida da pessoa.
Ao aceitarmos este fato, estaremos livres para encarar as partes de nossas almas que continuam aterrorizadas e
danificadas pelos efeitos do abuso sexual, sem sentir com isto que estamos negando o Evangelho.

Encarar a realidade da queda do homem e iniciar o processo de recuperação da terra coberta de mato é o
maravilhoso trabalho que o jardineiro do Reino deve executar. É um trabalho eminentemente digno para cada cristão
recuperar as partes da alma de alguém que continua separado e incapaz de produzir frutos. E a negação do passado
retarda este trabalho de recuperação.

Pressão para amar

Uma mulher ouviu de suas amigas que ela estava se expondo ao julgamento de Deus pelo fato de estar
levando seu agressor a um tribunal. Disseram-lhe que seu desejo de processá-lo não revelava amor, mas vingança.

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Ela fez um comentário sarcástico dizendo que um amigo comum havia recebido recentemente uma quantia razoável
em dinheiro por um acordo judicial feito em função de um acidente automobilístico, e ninguém moveu um músculo
para expressar desaprovação. Parece que é aceitável ir à justiça por danos materiais, mas não o é para os danos da
alma.

Outro homem se recusa a visitar, receber telefonemas ou abrir cartas de seu pai, que o violentou dos sete
aos dez anos. O pai, um honrado membro de uma igreja, está irritado com a teimosia de seu filho em não se
relacionar com ele, mas nega terminantemente ter cometido o abuso, chegando ao ponto de questionar a sanidade e
salvação do filho.

O que significa amar nossos inimigos? Significa simplesmente fazer o bem, apesar daquilo que você esteja
sentindo? Se a resposta é sim, então o que significa fazer o bem a um pai cuja total teimosia em encarar o abuso do
passado é equivalente a viver uma mentira, enraizada em um coração tomado pelo mal? Como odiar o que é mau e se
apegar ao que é bom, e ao mesmo tempo amar o inimigo?

Há respostas para estas perguntas, mas a típica solução de ser pressionado a amar implica ser bondoso, não
causar conflito, e fazer de conta que os relacionamentos estão em ordem quando as palavras nem sempre são
amáveis.

Sob esta versão do cristianismo, a pessoa que sofreu o abuso sente-se segura e morta. Há segurança na
rigidez que entorpece a alma, a qual não exige nenhum pensamento, reflexão ou risco. Mas uma pessoa honesta sabe
que esta conformidade cruel nunca leva à mudança que vivifica.

Não se pode definir facilmente o que é amor, e ele também não nasce apenas de um pequeno desejo. Amar
um inimigo, particularmente, requer que o coração esteja cheio da liberdade e do poder que Deus introduz em alguém
que deseja estender a graça a um inimigo. O amor pode ser forçado, mas será que atinge sua plenitude somente pelo
exercício de fazer as coisas correias, em detrimento da falta de paixão, desejo ou autenticidade demonstrada em
relação à pessoa que causou o dano?

Muito freqüentemente a pessoa que sofreu abuso é forçada a fazer o bem ou a amar a pessoa que abusou
dela sem explorar as complexidades do que significa amar ou do que pode estar bloqueando o desejo de amar dado
por Deus. O resultado mais freqüente é um enfraquecimento da alma, visando abrir caminho para a execução desta
pesada tarefa, ou então um ataque de raiva contra Deus ou contra qualquer outra pessoa que o encoraje a trilhar este
doloroso caminho.

O que se ensina em muitos grupos cristãos é que as emoções vão caminhar de acordo com a escolha de sua
vontade. Se você sente raiva, faça coisas boas, pois, ao fazê-las, você vai terminar deixando de ficar irado. Melhor
ainda se você continuar fazendo estas coisas boas, pois vai começar a sentir algumas emoções semelhantes ao amor
com relação à pessoa que lhe causou danos.

Este não é o foro adequado para a discussão das intrincadas relações entre escolhas, pensamentos, emoções
e desejos, mas uma conclusão óbvia deve ser tirada. Todos os esforços do mundo para se chegar ao lugar "certo"
serão de pouca valia se aquele que caminha está se movendo na direção errada ou tem razões, conhecidas ou não,
para querer chegar ao destino. Algo mais precisa ser feito do que simplesmente dar-se ordens para amar.

O amor está no centro do processo de mudança. Mas, como já definido por alguém, ele carece de propósito,
paixão e força. Em reação a uma cultura que vê o amor como um capricho baseado na imprevisibilidade da emoção,
alguns cristãos optaram por uma decisão firmada na atitude de ser agradável e não ofender, sem qualquer emoção. O
amor significa muitas coisas, mas nunca fraqueza ou falta de paixão. Simplesmente dizer a uma pessoa que sofreu o
abuso que deve amar seu agressor não ajuda em nada, ainda que o amor seja uma parte importante do processo de
mudança.

Intervenções espirituais dramáticas

Recentemente conversei com uma mulher que fazia parte de uma igreja carismática, ligada a um ministério
nacional de cura e milagres, o qual assume que pessoas que sofreram abuso sexual são oprimidas pelo diabo. As
lembranças podem ser uma trama dos demônios, o que anula a veracidade do abuso; ou as lembranças são eventos
reais colocados na mente pela entidade maligna que habita na pessoa. Em ambos os casos, a estratégia é expulsar os
demônios através do ritual do exorcismo.

Os diversos anos de abuso sofrido pela mulher com quem falei a ensinaram a manter a boca fechada. Se ela
discordava de alguém, logo presumia que deveria estar fazendo algo errado. A pessoa que sofre abuso procura por
alguém forte e autoritário e logo se convence de que o dano pode ser curado rapidamente e sem dor. Aquela igreja
dava esta esperança.

Por fim, ela passou por várias sessões de exorcismo, nas quais vivenciou a situação abusiva e vexatória
criada por aqueles que intervinham, apesar de, às vezes, sentir-se aliviada e descansada. Este período acabou no

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momento em que conseguiu manter sua débil fé um pouco mais estável, especialmente quando passava por situações
de apoio constante ou de entusiasmo emocional, semelhante a um estado de embriaguez ou entorpecimento.

Curas rápidas nunca resolvem problemas profundos. Ao contrário, oferecem uma mudança que requer
pouco mais do que se deixar anestesiar antes de uma cirurgia: relaxe e deixe os especialistas fazerem seu trabalho. A
confiança é definida como a permissão para que o processo ocorra, sem criar barreiras que retardem o trabalho.

Passividade santa é a chave para a maioria das soluções dadas pela cura rápida. A mulher foi sincera o
suficiente para reconhecer que a cura não aconteceu e que os exorcistas estavam cegos quanto ao real dano de sua
alma. Uma vez que uma "cura mágica" ocorrera, alguns justificavam que ainda havia muito mais a ser tratado.

A cura rápida não é exclusividade de um único grupo. Muitos oferecem solução para emoções ou
lembranças indesejadas através da tentativa de abordar o problema de uma forma "positiva". O resultado é uma
recuperação agradável dos eventos passados. É como se as lembranças dolorosas pudessem ser vistas de um modo
seguro, sem temer a destruição ou vingança.

Receio que muitos parem no ponto em que surge o alívio inicial, sem se aprofundar no dano. Simplesmente
limpar a ferida não é suficiente para curar a infecção, a não ser que remédios mais fortes sejam usados. O anseio por
uma cura rápida é tão forte quanto o desejo de ir para o céu. A tragédia acontece quando muitos se contentam com a
cura barata e se desviam do caminho do alívio verdadeiro que somente será obtido no céu.

O melhor caminho

Existem muitas opções para os cristãos lidarem com o abuso passado, mas o resultado não é atraente:
perdão e esquecimento - negação; amor imposto - conformismo; cura rápida - passividade irresponsável. Não é difícil
de entender porque cristãos que sofreram abusos preferem buscar ajuda fora da igreja ou aprender por si próprios a
como lidar com a situação fazendo de conta que ela simplesmente não existe. Creio firmemente que as Escrituras
oferecem melhores caminhos para se alcançar esperança e obter mudanças.

Qual é o melhor caminho? O argumento deste livro baseia-se na idéia de que o melhor caminho passa pelo
vale da sombra da morte. Os penhascos da dúvida e os vales do desespero oferecem um visão do trabalho de Deus
que nenhum outro terreno pode dar. Deus se mostra fiel; mas a geografia freqüentemente é a de um deserto seco e
montanhoso, de tal forma que o caminho parece ser doloroso demais para ser trilhado. Quem gostaria de viajar com
os parcos recursos de que dispomos ou com os mapas desatualizados que aparentemente estamos seguindo, se guias e
recursos muito mais modernos estão à nossa disposição?

A jornada envolve a entrega de nossos corações machucados a Deus, um coração cheio de ódio,
sobrepujado pela dúvida, ensangüentado mas não partido, rebelde, manchado e solitário. Não nos parece possível que
alguém possa cuidar dele, abraçá-lo, ou que alguém se importe com nosso coração cheio de pecado. Mas o caminho
envolve o risco de colocarmos em palavras a condição de nosso ser e colocar estas palavras perante Deus, aguardando
sua resposta.

Deus prometeu que não esmagaria a cana quebrada e não apagaria a torcida (ou tição) que fumega (Is 42:3).
Mas outras promessas já foram feitas por pessoas que se mostravam dignas de confiança, e juramos que a última
coisa que faríamos seria trairmos estas promessas. O obstáculo para a vida é a convicção de Deus vai nos machucar
e destruir. O problema é que o caminho realmente implica a questão de Deus nos ferir, mas somente com o objetivo
de nos curar.

Por que o abuso faz com que seja tão difícil nossa aproximação do Senhor por cujo socorro e vida
ansiamos? Qual é o inimigo do processo de cura? De modo resumido, o inimigo é a vergonha e o desprezo. O dano
do passado coloca em ação um complexo esquema de defesas e autoproteção que atua muito além de nossa
consciência, guiando nosso relacionamento com os outros, determinando o cônjuge que escolhemos, o emprego que
desejamos, as teologias que adotamos e o sistema de nossa vida inteira. Este livro lança um olhar sobre o trabalho
interior desta dinâmica, com a esperança de que um quadro mais claro do dano possa fazer com que tomemos
decisões mais conscientes e piedosas para o tratamento de outros e de nós mesmos.

Há limites daquilo que pode ser tratado em um livro. O leitor perceberá rapidamente que o foco do livro
não é lidar com crianças e adolescentes que sofreram abuso. Há possibilidade de se usar material para estes grupos,
mas o ponto principal não é este. De modo semelhante, a maioria de minhas ilustrações envolve mulheres. Pode-se
inferir, portanto, que o abuso de garotos é limitado tanto em quantidade quanto nas conseqüências negativas;
nenhuma destas conclusões é precisa ou representa meu ponto de vista.

Há duas razões para que minha concentração seja direcionada a vítimas de abuso do sexo feminino. A
primeira é que é muito mais provável que mulheres busquem conselhos ou orientação na questão do abuso; portanto,
minha ênfase se concentra no provável grupo interessado na leitura deste livro.

A segunda é que o foco está no dano que toda vítima vai vivenciar, independentemente do grau e natureza

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do abuso; portanto, as ilustrações revelam as questões principais comuns a todas as vítimas do abuso, lançando uma
base teórica que, espero, ofereça uma direção para aplicações específicas em problemas individuais.

Há outra razão para escrever este livro. Todo livro é uma odisséia. Alguns são teóricos, outros são buscas
pessoais pelas respostas que ultrapassam nossa compreensão. Esta minha odisseia abrange as duas coisas.

Primeiramente, é uma aventura que tenta colocar em palavras as experiências de muitos amigos que
confiaram suas vidas a mim. Um conselheiro é um memorial do sofrimento passado e uma esperança de seus amigos,
semelhante ao memorial do Museu do Holocausto em Jerusalém, o qual leva todos a encararem os danos causados
por se viver em um mundo caído e freqüentemente diabólico.

As histórias de meus amigos clamam por cura, por justiça, pelo dia em que todas as lágrimas serão
enxugadas e todos os erros corrigidos. Minha oração é que eu seja digno das palavras que me foram ditas.

Este livro também é uma discussão bastante pessoal sobre o abuso sexual. Tanto minha esposa quanto eu
compartilhamos histórias de abuso no passado. O fato de eu ter um episódio pessoal de abuso sexual e, portanto, uma
vivência no assunto, não assegura a validade de minhas reflexões ou a utilidade deste material. Contudo, requer sim
que eu trilhe o caminho da compreensão do abuso sexual, por aqueles cujas histórias estou contando e por mim
mesmo. Minha oração não é apenas no sentido de fazer justiça às suas palavras, mas oferecer a perspectiva daquele
cuja história é o fato mais importante da vida; aquele cujo abuso sofrido na cruz dá perspectiva e direção para que
lidemos com todos os abusos menores que cada um de nós sofre neste mundo perdido. Assim, eu realmente terei feito
um bom trabalho ao contar as histórias de todos nós.

Convido-os, com pesar e alegria, a se juntarem a mim nesta busca por uma nova perspectiva.

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PREFÁCIO DA EDIÇÃO REVISADA

Uma Questão de Lembrança


Desde a publicação da primeira edição de Lágrimas Secretas em 1990, milhares de pessoas, de ex-coroinhas a ex-
misses América têm vindo a público para dizer que sofreram abuso sexual quando crianças. Alguns dos agressores
e/ou suas famílias contestam tais acusações, alegando que as lembranças das pessoas são falsas. Em alguns casos, as
supostas vítimas culpam seus analistas e terapeutas por haverem criado as "lembranças" de modo falso. Em outros
casos, ainda, as supostas vítimas alegam haver sido lembradas subitamente de seus eventos traumáticos após anos de
esquecimento.

Ser falsamente acusado de um crime tão hediondo quanto o de abuso sexual é devastador. Ser uma vítima
real de abuso e ser desmentido por sua família é igualmente terrível. As questões levantadas pelo debate da falsa
lembrança merecem tratamento intensivo, e espero tratar delas mais profundamente em outro livro. Entretanto,
gostaria de abordá-las aqui, ainda que de maneira superficial, de forma que o leitor possa estar pelo menos ciente de
suas conseqüências à medida que surgirem no resto do texto.

Minha prática em aconselhamento tem se desenvolvido especialmente entre as pessoas que sofreram abuso
sexual. A grande maioria se lembra muito bem do ato. Um grupo menor tem lembranças fragmentadas e incompletas,
mas indicam a existência de abuso no passado. Um grupo ainda menor não tem recordações do abuso, mas durante o
processo de aconselhamento se lembram de traumas antigos que foram bloqueados do consciente.

Há dois lados nestas informações. Alguns dizem que lembranças "reprimidas" são comumente o resultado
da dor do trauma. Outros asseveram que, se a pessoa não se lembra do abuso passado e, de alguma forma,
repentinamente se lembra dele, esta lembrança é falsa, sendo, na verdade, o resultado de alguma "sugestão" que tenha
sido feita por um terapeuta ou outro tipo de autoridade (como um grupo de amigos). Esta é uma questão amplamente
debatida, mas insuficientemente pesquisada, sendo impossível respondê-la agora. Contudo, creio que existem
parâmetros bíblicos capazes de nos guiar no processo de avaliação do abuso na vida de alguém.

Em meu trabalho com vítimas, criminosos e supostos agressores que alegam ter sido falsamente acusados,
tenho chegado a uma conclusão sobre afirmações e reivindicações relativas ao abuso: O clamor verdadeiro de uma
vítima que diz "Acredite em mim " e a alegação daqueles que dizem estar sendo falsamente acusados estão quase
sempre fora do âmbito da comprovação. É praticamente impossível avaliar as afirmações de ambos os lados e chegar
a uma conclusão incontestável sobre o que é realmente verdade, a não ser que haja outros fatos, como testemunhas
oculares, registros médicos e/ou testemunho de outras vítimas.

Isto quer dizer que estamos atolados no pântano da incerteza sobre alegações quanto ao abuso passado?
Não creio. Mas a questão realmente nos leva a fazer perguntas ainda mais duras, tais como: "A alegação de abuso é
real, aparentemente verdadeira, ou falsa?". O ponto da comprovação leva ao cerne do problema: "O que são
lembranças?". O que é verdade e o que é tomado como verdadeiro? Que partes de nossas lembranças podem ser
consideradas verdadeiras? Como sabemos se uma coisa é verdadeira? É possível acreditar que uma lembrança do
passado possa ser verdadeira quando ela mais parece uma ficção ou uma mescla de fragmentos da imaginação,
conjecturas e fatos reais?

Há verdade nas afirmações sobre o passado - o passado não é uma mera construção mental. A morte de
Jesus, por exemplo, ocorreu no tempo e no espaço. Se alguém estivesse presente, então a afirmação da veracidade do
evento seria incontestável, ainda que os registros do fato reflitam diferentes perspectivas. Uma leitura cuidadosa dos
Evangelhos nos mostra diferentes considerações de um mesmo evento. Isto torna o evento falso? A visão diferenciada
das testemunhas oculares faz com que o evento do Gólgota se transforme numa falsa lembrança? É óbvio que não,
mas isto mostra que as lembranças registradas nas narrativas bíblicas não são uma reportagem fotográfica que não se
altera, independente do modo como sejam exibidas, mantendo sempre o mesmo nível de detalhe e significância.

Três aspectos devem ser considerados em meio a esta trágica questão:

1. Qual é a natureza e o efeito do trauma no ser humano, especialmente com relação ao abuso
sexual? O efeito daquilo que ocorre com o coração quando se sofre o abuso é algo acidental ou
trágico? Se é algo trágico, então qual é o dano e, portanto, o potencial para o bem ou para o mal
que o abuso traz?

2. Qual é a relação entre lembranças, abuso e sintomas? Pode o abuso apagar memórias do
consciente de uma pessoa? Se pode, esta perda segue o mesmo processo empregado no
esquecimento ou trabalha com uma dinâmica diferente de percepção, armazenamento e,
posteriormente, um processo de recuperação baseada em outras regras que não as normalmente
utilizadas nas funções da memória? É possível que alguém nos sugira a ocorrência de um abuso e

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que nossa mente, então, comece a gerar lembranças que, na verdade, podem ser falsas? E qual é a
relação entre lembranças -conscientes ou não - e os claros sintomas de angústia, normalmente
associados a um abuso passado, como depressão, vícios e problemas de relacionamento?

3. Se o abuso de fato ocorreu, qual é o processo bíblico e mais útil para se lidar com estas feridas?
Qual é o objetivo do aconselhamento e que processos podem retardá-lo? Em outras palavras, é
prudente procurar por lembranças através de técnicas como busca diretiva, regressão e hipnose?
Ou é melhor manter-se os olhos no passado, assumindo que a verdadeira cura não pode ocorrer a
não ser que o passado seja recuperado? Como deve agir uma pessoa no momento em que um
analista se concentra em recuperar lembranças que podem ter sido reprimidas?

Permita-me esquematizar respostas para estas três questões neste momento. O resto do livro vai tornar estes
esquemas mais claros, mas a abordagem profunda será destinada a outro livro.

Qual é o problema?
O que o trauma faz ao coração?

Necessidade psicológica?

Os irmãos Menéndez, que incontestavelmente assassinaram seus pais, foram defendidos por um grupo de
advogados, liderados por Leslie Abrahms. Ele argumentou que os réus tinham uma "necessidade psicológica" de
matar seus pais devido aos efeitos do abuso que sofreram. Eu gritei. Lembrei-me que o mesmo argumento foi usado
para defender Richard Speck, o assassino de seis enfermeiras em Chicago. Isto é uma linha de defesa muito bem
armada, especialmente quando o crime é grotesco ou bizarro. A idéia é simples: se a ação é anormal, então ela deve
ter sido consumada por alguém levado, compelido ou impossibilitado de impedir suas próprias atitudes. E, se a
pessoa é "anormal", algo deve ter acontecido de forma que ela não pode ser responsabilizada.

Esta argumentação nega a existência do mal, que pode agir com calma, deliberação e firme propósito para
executar crimes terríveis. Nega também que todo comportamento - destrutivo, bizarro ou de desobediência completa -
é de responsabilidade do agente, independentemente da história, das circunstâncias e/ou motivações que
influenciaram suas escolhas. Em outras palavras, não acredito que uma vítima de abuso possa ter razão ao dizer: "Eu
não tenho nenhuma condição para, agora ou no futuro, impedir reações destrutivas ou mudar a direção de minha
vida".

É imaturo assumir que nossas escolhas são livres em todas as questões, seja com relação a conforto, sucesso
ou tranqüilidade. Uma vítima de abuso pode tremer com a experiência ou simplesmente a idéia de ter momentos de
intimidade com seu cônjuge, e o processo de mudança (seja nesta ou em outras áreas) pode envolver tempo,
meditação e experimentação, todas acompanhadas de lutas e derrotas. Mas dizer "o abuso de que fui vítima 'fez' com
que eu cometesse este ato ou 'evita' que eu faça ou não faça certas coisas" é uma violação da glória, liberdade e
responsabilidade humanas.

A escolha por desconfiar de Deus

Portanto, o que o trauma do abuso causa ao coração humano? Qual é o dano causado pelo abuso? De
maneira simplista, o abuso cria o ambiente propício que tenta nos convencer de que Deus não é bom. A vítima
imagina que Deus é semelhante a seu pai agressor ou sua mãe preocupada (partindo-se da premissa que as crianças
aprendem de seus pais suas primeiras lições sobre Deus). Ou então a vítima determina que Deus é alguém que estava
olhando para o outro lado quando seu primo a molestava. Conclusão: confiar é bobagem; portanto, sou compelido a
viver minha vida independente da vontade de Deus. Minha experiência contradiz diretamente as promessas feitas por
Deus de cuidar de minha alma e de nutri-la, de modo que posso me escusar das pesadas cobranças para me tornar
santo e a justificativa está em minha falha por não refletir a glória de Deus em minha vida.

A tragédia do abuso se apresenta de diversos modos, mas uma característica que se repete em muitos casos
é que as vítimas do abuso freqüentemente se vêem repetindo padrões e iniciando relacionamentos em que passam por
violações semelhantes ao abuso sofrido no passado. A nova ofensa apenas intensifica a decisão de se refugiar em suas
próprias fontes de força e defesa. A conseqüência é perda e tristeza, para eles e para outros. Mas, o que é pior, é que
eles afastaram seus corações do anseio pela glória de Deus.

Esta falta de paixão por Deus pode não ser óbvia. Eles podem ser ateus militantes ou agnósticos frios, ou
mesmo cristãos devotos e interessados nas atividades de promoção da doutrina cristã. Podem até mesmo desejar
desesperadamente crer em um Deus que é digno de confiança. Mas até que eles confrontem as escolhas que fizeram
em função de seu abuso, nem seu ativismo nem o desespero vai levá-los a uma genuína paixão pelo Deus que
realmente existe. Sua paixão (se é que eles têm alguma) será por um deus distorcido, um deus que é apenas um ídolo
criado por sua própria imaginação.

Não escapamos de confiar em alguém ou alguma coisa quando deixamos de confiar no Deus verdadeiro.

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Confiar, assim como respirar e, na verdade, adorar, é algo inevitável. A questão não é que alguns confiam, outros
respiram, outros adoram e ainda outros não fazem nada disso. Se falhamos em confiar em Deus, essa confiança será
desviada inevitavelmente para outra coisa, que acaba se tornando o nosso deus.

Quando a experiência de abuso faz um corte profundo no coração, a vítima se distancia mais facilmente de
Deus ou banaliza o abuso, transformando a confiança em algo com o que se pode lidar. Em qualquer uma das
situações, a confiança se volta para deuses que não são Deus. O problema, então, não é o abuso em si, mas a energia
pecaminosa que confia naquilo que não é confiável, presente em seu coração.

Isto vale apenas para as vítimas de abuso? É claro que não. A propensão para não crer em Deus e confiar
em ídolos está profundamente enraizada na humanidade desde seu nascimento. Como conseqüência, o problema
principal e a cura para uma vítima de abuso sexual não difere de nenhum outro pecador em sua essência.

Alguns leitores devem estar aterrorizados com a insinuação de que uma menina de cinco anos de idade
estuprada por seu pai é pecadora por concluir que Deus não é digno de confiança. Entenda: não creio que nenhuma
criança de cinco anos, com exceção de Jesus que nunca teve pecado, possa continuar a confiar plenamente em Deus
depois de sofrer tal abuso.

A criança que tenha sido vitimada, machucada e sofrido abuso tomará a mesma decisão que qualquer outra
criança tomaria na mesma situação. Fiz esta escolha várias vezes quando criança. Mas é uma escolha manchada pelo
pecado e, à medida que esta criança caminha em direção à sua vida adulta, esta mesma escolha trágica continuará a
assombrá-la.

Apesar de todo coração humano ser inclinado à idolatria (confiar em outros deuses para prover vida), a
vítima do abuso lutará mais ainda para confiar a Deus sua vida e seus relacionamentos.

Nenhuma vítima é responsável pelo abuso, mas ele fornece subsídios fortíssimos para que algumas
perguntas sejam levantadas: "Onde estava Deus naquele momento? Deus me ama? Posso confiar nele? Se posso, o
que me leva a confiar nele?"

O fator diabólico do abuso é que ele executa o trabalho de Satanás de iludir a vítima quanto à verdadeira
natureza de Deus, encorajando-a a desconfiar do Senhor. Ao temer confiar em Deus, a vítima do abuso vai
naturalmente procurar por outros deuses que lhe dêem vida, seja através do álcool, da promiscuidade ou da busca de
aprovação.

Portanto, o principal inimigo da vítima do abuso é o pecado: a recusa em confiar em Deus, com quem ela
está magoada. O Espírito Santo está trabalhando duro cm seu coração para revelar a verdadeira natureza de Deus e
confrontá-la com seu medo e desconfiança, mas esse trabalho precisa da cooperação da pessoa.

O propósito de encarar as lembranças

O foco no ponto principal - se e o quanto confiamos em Deus, independentemente da situação ou do


relacionamento - coloca a questão do abuso em seu devido lugar. A dor do abuso não é o principal problema a ser
resolvido. O abuso sexual não deve ser visto como o equivalente psicológico do herpes. Herpes pode ser curado com
medicação adequada e tratamento. É extremamente doloroso mas, na maioria dos casos, dcsenvol-ve-se de uma
forma previsível se tratado adequadamente.

Por outro lado, o abuso sexual é uma tragédia, mas não é uma doença. À luz de minha teoria, a doença é o
pecado. Ele é o problema principal, alimentado por lembranças ou histórias que expõem a luta de nosso coração
contra Deus.

Portanto, a decisão de encarar nossas lembranças e lamentar nosso sofrimento não é apenas um tipo de
catarse. O objetivo é expor nossa visão distorcida de Deus, encontrar as raízes de nossa descrença nele e eliminar o
poder que nosso sofrimento tem de nos levar a fazer escolhas erradas. Ao encararmos a dor, a luta e a vitimização de
um modo que honre a Deus, estaremos primeira e principalmente lidando com nosso relacionamento com Deus -
ainda que pareça que tenhamos um foco horizontalmente humano.

A mulher que enfrenta seu complexo com a beleza comprando um belo vestido parece estar agindo de
modo puramente comportamental, tentando mudar apenas no nível horizontal. Na verdade, pode ser exatamente isto.
Mas, para um crente, isto pode ser tão grande quanto um ato de fé, um reconhecimento da confiança, tal como
ocorreu com os amigos de Daniel que passaram uma longa noite na fornalha.

A escolha por não obedecer a Deus é rebelião, mas não adianta nada admoestar a vítima sobre seu pecado
ou exortá-la a viver uma vida mais santa. Ela deveria fazer de tudo para crer cm um Deus bondoso, mas suas escolhas
feitas já na infância impedem que ela veja Deus pelo prisma correto. Estas lembranças vão impedi-la de, mesmo
adulta, decidir-se por confiar em Deus, até que encare as escolhas e razões que a conduziram a tomar tais decisões.

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O que são lembranças?
Como devo encarar minhas recordações do passado?

O debate sobre repressão cai numa questão importante: "É possível que as lembranças sejam tão
radicalmente esquecidas de modo que não apenas os fatos, mas o próprio processo de esquecimento seja
inconsciente?". Muitos dos que lerem este livro jamais se esquecerão de seu passado. Pode ser que eles nunca tenham
contado nada a ninguém, nem dado muito importância ao fato, mas eles estavam plenamente cientes de sua história.
Outros, porém, alegam não ter nenhum tipo de lembrança, nenhum traço de qualquer recordação do abuso passado e,
de repente, ao assistir um programa de TV sobre abuso, as memórias entram na área do consciente. Os assustadores
fragmentos antigos de memória se juntam como um quebra-cabeças que revela a natureza, o contexto e o executor do
abuso.

Será que esta repressão e recuperação são reais, ou são a piada do século como o psicólogo social Richard
Ofshe sustenta?1 Há dois fatos que complicam o assunto: influência cultural e dificuldade de pesquisa.

Freud usou o termo repressão como uma metáfora para descrever a relutância de uma pessoa em encarar
informações dolorosas que terminaram instalando-se no inconsciente. Outros vêem o termo como um fenômeno
muito específico e assumiram-no como real, sem muito esforço para validar ou se aprofundar no processo. O que
começou como uma metáfora criou vida própria.

A tradição da psicanálise tem sido contaminada pela ação de muitos terapeutas que presumem que a
repressão ocorre quando um evento é muito doloroso para ser encarado. O evento passa simplesmente para uma
gaveta do inconsciente, perdido, até que alguma coisa provoque seu retorno ao consciente.

Repressão é como atirar uma pedra na areia movediça: a lembrança vai afundando calmamente e sem
qualquer obstáculo até que desapareça da visão; ela não será vista até que um cataclisma lance-a das profundezas, ou
até que um especialista comece a cavar e procurar por ela, tirando-a de seu esconderijo.

Este modelo de repressão torna a pessoa passiva no processo de lembrança e mudança. Ele reforça a
convicção de que eu não tenho nada a ver com o processo. "Sou uma vítima - como você pode me culpar pela dor que
estou sentindo?". E de consenso geral que este tipo de repressão é praticamente impossível de ser desafiado.

Uma segunda questão envolve pesquisa e validação. Pode-se provar a existência da repressão? De certo
modo, é um enigma da pesquisa: como podemos medir algo que, supostamente, a pessoa sequer sabe que possui? A
psicóloga Elizabeth Loftus, uma especialista em lembranças da Universidade de Washington, diz o seguinte:

Mas como um cientista busca por evidências que provem ou contestem um processo mental inconsciente
envolvendo uma série de eventos internos e espontâneos sem estar ciente ou ter qualquer sinal exterior que
indique que alguma coisa está prestes a acontecer, está acontecendo ou já aconteceu? E como pode um
cientista provar ou contestar que uma lembrança recuperada espontaneamente representa a verdade e nada
mais que a verdade ao invés de ser algum tipo de mistura de realidade e imaginação ou, talvez, um plano ou
pura invenção?2

Há dados que indicam que vítimas de abuso sexual esquecem ou reprimem lembranças. Lenore Terr relata:

A pesquisadora do tema abuso sexual Linda Meyer Williams entrevistou um grupo de cem mulheres que,
quando tinham menos de 12 anos de idade, passaram por exames na sala de emergência de um grande
hospital pelo fato de elas ou seus parentes haverem relatado às autoridades a ocorrência de abuso sexual.
Fia descobriu que 38 mulheres não tinham qualquer lembrança deste incidente. Ao invés de mostrar
relutância em conversar sobre um assunto tão embaraçoso como este, estas mulheres pareciam
completamente incapazes de se lembrar até mesmo da visita à sala de emergência, sobre as quais as
autoridades tinham registros em suas mãos. Isto foi repressão, ou algum outro tipo de defesa baseado no
esquecimento estava acontecendo3.

Mas este estudo apenas indica que as lembranças podem ser "esquecidas", e não que elas estejam
escondidas em algum canto esperando para serem recuperadas por alguma força exterior. Isto é enganoso e requer o
reconhecimento honesto de todas as partes de que não há pesquisas ou trabalhos suficientes para assumir como válida
a questão da repressão.

Por outro lado, torna-se cada vez mais claro que as lembranças do abuso passado podem se misturar com
conjecturas, fantasias e imaginação. Nestes casos, o evento do abuso é verdadeiro, mas alguns dos detalhes não.
Especialistas em lembranças afirmam que informações presenciadas, armazenadas e posteriormente recuperadas em
meio a uma situação de grande estresse emocional são frequentemente imprecisas com relação a certos detalhes ou à
sequência dos eventos4.

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Neste caso não se questiona o evento, mas a precisão dos detalhes. Loftus pediu a um aluno que roubasse a
carteira de outro no início de uma aula. Ela pediu a descrição do ladrão e disse, no começo das investigações, que ele
usava barba. Várias descrições feitas pelos alunos foram compiladas - e a maioria incluía a barba. Na verdade, o
ladrão tinha o rosto muito bem barbeado5.

Loftus argumentou que a figura de uma autoridade pode influenciar a lembrança de uma pessoa suscetível
de modo que ela inclua detalhes que simplesmente não são verdadeiros. Outro de seus alunos investigou se era
realmente possível introduzir falsas lembranças. Perguntou-se aos alunos se eles se lembravam de estarem perdidos
numa loja de departamentos. Por várias vezes, os alunos se lembraram de situações como esta, acrescentando
diversos detalhes e narrativas ao evento, sem, na verdade, nunca terem passado por tal situação6.

Estes estudos sugerem que detalhes e até lembranças completas podem ser sugeridas e elaboradas até que o
evento ganhe vida própria. Obviamente, estes estudos não tratam de questões traumáticas e lembranças pessoais. É
um processo difícil de ser estudado e não seria ético submeter alguém a um abuso para estudar suas reações.

Como se estudam, então, lembranças traumáticas? Seria necessário o estudo cuidadoso de vítimas que
sofreram comprovadamente abuso sexual durante décadas para se saber exatamente como a memória é afetada, quais
variáveis da personalidade estão relacionadas com a lembrança ou com o "esquecimento", e qual é o efeito da terapia
sobre os relacionamentos, sintomas psicológicos e desenvolvimento da personalidade. Estes estudos são de altíssimo
custo e não sei de nenhum que esteja em andamento. Portanto, é tolice definir uma posição final sobre estes assuntos.
Minhas convicções atuais, porém, levam-me a definir as seguintes premissas:

Lembrança não é uma fita de vídeo do passado

A lembrança é, de certo modo, uma reconstrução do passado bastante suscetível à erosão, às opiniões
tendenciosas e à inexatidão. E um erro considerar as lembranças de uma pessoa como algo completamente perfeito
sem levar em conta o nível de intensidade emocional ou os detalhes associados àquela lembrança.

Deveríamos lançar uma visão aberta, especulativa e não dogmática sobre nossas lembranças. Vítimas de
abuso que mantiveram presente em suas vidas a lembrança do sofrimento causado por aquele evento deveriam
admitir que detalhes importantes podem ser construídos de maneira errônea, ser esquecidos, ou podem simplesmente
não retratar a realidade com perfeição.

O que ela deve fazer, então? Há duas possibilidades: Uma é pedir ao agressor a confirmação do ato e a
descrição de detalhes. Na maioria dos casos, ele vai negar o abuso ou também já se terá esquecido de muitos detalhes.
Em ambos os casos é possível que as lembranças não sejam tão precisas quanto eram originalmente.

A outra opção é viver sem "requerer precisão fotográfica". Esta opção nos leva a uma pergunta: Afinal de
contas, para que se lembrar? Por que buscar lembranças potencialmente imprecisas?

Em parte, a resposta é: para elucidar o presente. Nossas lembranças passam a ser importantes quando
permitem uma compreensão repentina e intuitiva do nosso presente. Sugiro duas áreas em que as lembranças são
importantes:

• As lembranças nos ajudam a perceber como temos desenvolvido nossos padrões de afastamento
de Deus e definido nossos próprios caminhos para encontrar significância longe de Deus.

• As lembranças nos ajudam a compreender por que escolhemos não confiar em Deus.

O passado não nos exime de nossa rebelião, mas põe nossa desobediência no contexto relativo ao por que
achamos ser difícil confiar em Deus. Estas imagens abrem as portas para uma maior consciência de nossa luta contra
Deus e nos permitem ver a dimensão do que significará nos humilharmos perante ele em arrependimento.

Há um fenômeno de esquecimento que impede que nos lembremos daquilo que é verdadeiro em relação a
Deus, à vida e a nós mesmos

A Bíblia é clara ao dizer que escondemos a verdade em função da injustiça (Rm 1:18-23). Muitos
psicólogos pensam que supressão é diferente de repressão. Se a repressão é um ato inconsciente de "esquecimento",
na maioria dos círculos de psicólogos a supressão é considerada como a atitude deliberada de alguém de tirar os olhos
de um problema que o aflige.

As Escrituras, porém, nos mostram a supressão como algo mais traiçoeiro. Supressão significa manter
alguma coisa escondida - semelhante a colocar uma bola de futebol embaixo da água e sentar em cima dela para que
não venha à tona. O subproduto da supressão, conforme o relato de Romanos, é o culto à criatura em vez de ao
Criador. Paulo vê isso como uma insanidade moral que gera graves sintomas e conseqüências.

Uma das conseqüências é o endurecimento do coração, que leva à cegueira pessoal e moral. Se dermos

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lugar à supressão, nossos olhos se fecharão e seremos iludidos tanto moralmente quanto em nossos relacionamentos.
O processo parece caminhar de uma recusa consciente de encarar a verdade para uma inabilidade de perceber
facilmente essa verdade. É esse o fenômeno que Freud e outros chamam de repressão? Se é, então ele envolve uma
diferença fundamental: supressão é a recusa consciente de encarar o que é verdadeiro. Num certo momento, isso pode
se transformar numa distorção e, finalmente, levar a aceitar uma ilusão.

As Escrituras nada falam sobre repressão passiva, mas elas realmente tratam de nossa propensão natural ao
esquecimento, aqui representado não pela falha em se lembrar de algo, mas como uma determinação teimosa de
empurrar para bem longe aquilo que é verdadeiro, e abraçar uma "verdade" que viola a natureza da realidade.

Sou da opinião de que não existe a repressão, no sentido de um processo de esquecimento passivo e
inconsciente. Ao contrário, nós realmente esquecemos - muitas vezes de lembranças trágicas e traumáticas - mas
apenas como uma estratégia para esconder constantemente a verdade atrás da injustiça.

Freqüentemente me perguntam: "Você está dizendo que uma criança de cinco anos que foi violentada está
escondendo a verdade atrás da injustiça?" Gostaria que a resposta não fosse nem complexa nem facilmente mal
interpretada.

Paulo não está abordando esta questão em Romanos 1, mas está descrevendo o processo através do qual
todo coração humano fica cego e insensível à verdade. Será que isto é verdade no caso de uma criança de cinco anos?
Tal criança peca? Eu creio que meus filhos fizeram isso aos cinco anos de idade.

O pecado está presente em nós desde o nascimento, apesar de inocente e rudimentar. O que determina a
dimensão em que o pecado vai se desenvolver? Apesar de este ser um assunto extremamente complexo, creio que os
eventos que compõem nossa vida dão forma à matéria-prima do pecado como um meio de defesa contra um mundo
pecaminoso e caído e de clamar por algum tipo de similaridade com o Éden, que, intuitivamente, achamos que
merecemos.

Conseqüentemente, creio que o processo de "bloquear lembranças" surge, em qualquer idade, a partir da
confusão, da vergonha e da tristeza. De modo objetivo, o que causa o bloqueio é algo maior que a dor. É a sensação
de vermos o mundo desmoronar sem a ajuda de que gostaríamos: ordem sendo substituída pelo caos; relacionamentos
rompidos pela traição; alegria e felicidade subjugadas pelo desespero. Alguém com cinco anos de idade é incapaz de
articular as coisas desta forma, e sua fuga da realidade pode ser inevitável, natural e não censurável, mas tem sua
origem no mesmo tipo de rebelião que uma pessoa mais velha apresenta ao dizer em alto e bom som: "Por que eu
devo confiar em Deus se ele permitiu que isto acontecesse comigo?".

Em resumo, creio que a supressão consciente pode se transformar numa distorção e até mesmo numa ilusão
que bloqueia completamente as lembranças do passado. Sendo assim, nunca somos chamados primeiramente a nos
lembrar de coisas passadas, mas sim a entendermos em que momento demos lugar à idolatria - a crer em outra coisa
que não Deus. Em alguns casos, as lembranças de abusos realmente voltam, mas recuperar a memória não é nem a
base da mudança, nem a prova dos fatos. Ao contrário, as lembranças são informações que nos ajudam a ver mais
claramente a energia que alimentou nossa idolatria e como temos expressado esta idolatria em nosso relacionamento
com Deus e com os outros.

Lembranças imprecisas ou totalmente falsas podem ser consideradas verdadeiras quando baseadas em
confirmação emocional, explicações forçadas e/ou concordância com uma autoridade

Dados extraídos de pesquisas e observações indicam que falsas lembranças podem ser geradas e misturadas
com fantasias, com outras lembranças imprecisas e suposições e, então, serem consideradas verdadeiras. Mais do que
isso. Sabemos através das Escrituras que é extremamente difícil conhecer o coração humano e que somos criaturas
dadas à imaginação. Somos capazes de magoar a nós mesmos com a mais sincera, honrosa e boa intenção. Isto é
verdade, também, quando se refere a crentes, e não apenas àqueles que passam a vida inteira escondendo a verdade
atrás da injustiça.

Atualmente a questão da lembrança está sob severa investigação como um lugar de decepção e ilusão - não
como uma distorção fingida e inconsciente da verdade, mas como um aterrorizante, sincero e bem-intencionado
truque.

A história de pais acusados de danos hediondos é cada dia mais comum. Alguns que afirmam terem sofrido
abuso estão errados. Outros que dizem estar sendo falsamente acusados estão mentindo. Mas a batalha contra falsas
lembranças não está sendo motivada por vítimas sedentas de vingança, nem por pais mentirosos. Parece que as falsas
lembranças estão mais presentes quando:

• O terapeuta pressupõe que certos sintomas, sinais ou sonhos de seu cliente são a prova de abusos
passados, e afirma com segurança e confiança que o abuso ocorreu e está sendo reprimido.

• O cliente, presumindo que o terapeuta é o especialista que conhece a verdade, concorda com

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técnicas usadas para recuperar lembranças "reprimidas" com o objetivo de explicar seus sintomas
e suas dificuldades.
• O terapeuta usa técnicas dissociativas — como regressão, hipnose, indução ou análise de sonhos
— para recuperar os fragmentos da imaginação, das fantasias, suposições e memórias de seu
cliente e transformá-los numa "história" supostamente verdadeira, que explica as dificuldades e
alivia o cliente da responsabilidade de encarar seu próprio pecado.

Quando estes elementos estão presentes, creio que há uma enorme possibilidade de se desenvolver falsas
lembranças. Eu sinceramente duvido (apesar de tudo ser possível quando se fala de seres humanos) que uma
lembrança falsa possa ser implantada apenas por sugestão, assistindo a um programa de entrevistas ou ouvindo
alguém falar sobre abuso sexual. Lembranças que surgem de modo espontâneo nas atividades do dia-a-dia raramente
têm as mesmas "características" de lembranças recuperadas através de técnicas destrutivas de processos terapêuticos.

Na imensa maioria dos casos, o advento das lembranças falsas não é uma conspiração sinistra arquitetada
por um terapeuta malévolo que queria causar dano a alguém. Se este fosse o caso, a questão de falsas lembranças
seria habilmente tratada pelo sistema judiciário. Ela tem sido tragicamente trazida à tona por pais sinceros, clientes e
terapeutas pegos numa rede de confusão, injúria e dogmatismo. Levará anos até que se possa articular uma linha de
pensamento e disseminá-la entre os meios profissionais e leigos. O que fazer até que isto aconteça?

A coisa mais sábia a fazer é se concentrar em quem nós somos

Encorajo aqueles que mantêm lembranças reminiscentes a se concentrarem naquilo que aprenderam —com
esses eventos— sobre tipos de relacionamento que visem a autopreservação, e sobre o seu relacionamento com Deus,
em vez de se concentrarem em obter lembranças mais precisas.

Incentivo aqueles com os quais trabalho as questões de lembranças parciais a conversarem com outras
pessoas associadas ao fato para que busquem dados que possam preencher os espaços vazios na memória. Uma visita
ao local onde ocorreu o evento freqüentemente adiciona mais detalhes. Os detalhes se tornam mais claros quando o
cliente se dispõe a escrever aquilo de que realmente se lembra, embora seja importante orientá-los para que não se
afastem demais da verdade.

Fazer deduções lógicas a partir daquilo que é relatado também é bom ("lembro-me de estar em uma
banheira, o que me leva a concluir que a ação ocorreu à noite, pois só tomo banho antes de dormir"), contanto que
tanto eu quanto meu cliente saibamos separar exatamente o que é de fato lembrança daquilo que é dedução. Deduções
relativas à identidade do agressor ("deve ter sido meu pai, pois ele era o único homem por ali") devem ser encaradas
com extremo cuidado e não ser usadas como base para acusações.

Mas é muito mais importante perguntar: "O que vai me levar a desistir de querer saber?". Se as lembranças
são do período em que a pessoa tinha três ou quatro anos, então todas elas serão apenas flashes, sempre incompletas
devido ao processo pelo qual o cérebro humano amadurece. Lembranças abaixo dos três anos são quase sempre
suspeitas e, a não ser que sejam corroboradas por fatos, devem ser recebidas com desconfiança.

Lembranças de idades mais avançadas, porém, estão normalmente bloqueadas pelo fato de carregarem
profunda mágoa. Podem existir várias razões para que as lembranças não sejam trazidas, mas é legítimo pedir:

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum
caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno
Salmo 139:23,24

Para aqueles que não estão plenamente certos de que o abuso ocorreu de fato, incentivo a pensarem que as
lembranças não são a chave para a mudança. Ao nos concentrarmos no passado ou na recuperação de lembranças,
estaremos sendo levados a crer na ilusão de que conhecer o passado pode mudar o presente. De fato, o oposto é que é
verdadeiro. De acordo com a intensidade com que lutamos com o presente, assumindo a responsabilidade da idolatria
expressa na autoglorificação e na autoproteção, o que precisamos saber sobre o passado irá se tornando claro a cada
dia. Neste sentido, o passado é servo do presente. Mudar no presente abre caminho para qualquer coisa que Deus
queira que saibamos sobre o passado.

Ainda estou tentado a crer que as lembranças do abuso passado podem ser esquecidas, mas normalmente
haverá informação suficiente para indicar que a pessoa tem uma longa história de fuga da realidade. A supressão da
verdade requer uma energia enorme e os sintomas da "opção pelo esquecimento" serão crônicos e destrutivos.

Infelizmente nenhum sintoma ou até uma constelação de sintomas pode ser "lido" como uma chapa de raios
X através da qual se possa diagnosticar a possibilidade de o esquecimento ter sido uma opção. Portanto, meu
relacionamento com Deus e minha decisão quanto a amar ou não os outros representam o fator dominante e
impulsionador que vai abrir meu coração à realidade e à possibilidade de acessar lembranças ainda congeladas pela
supressão.

17
Se entendermos o arrependimento (deixar de lado a confiança idólatra em alguém ou alguma coisa que não
seja Deus e lutar para conhecê-lo mais, desejando sua glória e confiando em sua bondade) como a chave para a
mudança, então estaremos nos precavendo contra a busca destrutiva de lembranças, sem negar que o passado
representa um papel crucial na definição de nosso presente. Mas se virmos a idolatria, ao invés da recuperação do
"eu", como a questão central do aconselhamento, então acharemos mais difícil explicar, satisfatoriamente, o pecado
por causa do abuso.

Isto nos leva à terceira pergunta: Qual é o melhor contexto para a mudança? Ou, mais especificamente: O
aconselhamento realmente ajuda ou causará na pessoa um dano significativo?

Preciso de ajuda para mudar?


Qual a validade do aconselhamento?

A questão levantada pela controvérsia das falsas lembranças leva-nos ao cerne daquilo que chamamos
terapia ou aconselhamento. O que o aconselhamento faz diferentemente de um relacionamento bom, estável e
interessado? O terapeuta faz algo tão importante que não pode ser encontrado em nenhum outro lugar? É óbvio que
ninguém mais deve tratar de uma cárie a não ser um dentista. Uma ponte pode ser projetada somente por um
engenheiro. Mas isto também é verdade na área da psique humana?

Em certas queixas de distúrbios psicológicos, como depressão, a melhor coisa a fazer é procurar um
psiquiatra e conversar com pessoas que saibam como lidar com esta situação. Mas será que esta pessoa deveria
procurar um terapeuta? O que dizer de alguém excessivamente ansioso ou que sente nojo ao manter relações com seu
cônjuge?

Estes não são assuntos fáceis, nem podem ser abordados de modo apropriado em apenas alguns parágrafos.
Na maioria dos casos, as pessoas mais bem preparadas para lidar com ansiedade e nojo em relações sexuais são os
terapeutas. E não é errado procurar ajuda de alguém que investiu grande parte de sua vida para tratar de questões tão
complexas. Mas o que qualifica uma pessoa a poder falar com outra sobre questões existenciais?

Creio que o treinamento profissional não é a qualificação mais importante, apesar de eu lecionar no curso
de mestrado na área de aconselhamento. Creio, em vez disso, que o que habilita uma pessoa a conversar sobre
questões existenciais de forma produtiva é o hábito constante de pensar, ler e discutir questões existenciais.

Na minha opinião, a terapia é uma concessão à recusa de nossa cultura de falar e pensar de modo sério
sobre nossa existência à luz da vontade revelada de Deus - a Bíblia. Conversas sérias sobre nossa existência que
incluam discussão honesta e orientada à nossa dignidade como pessoas feitas à imagem de Deus e, ao mesmo tempo,
destruídas pelo pecado é o ponto principal do que deveria ser abordado no aconselhamento.

Infelizmente, este tipo de interação em que tanto se valoriza a dignidade quanto se expõem os perniciosos
tentáculos da depravação são raros na comunidade cristã. Por esta razão, o aconselhamento existe como um meio de
se encarar a realidade com mais integridade.

Isto quer dizer que a terapia não é cristã ou é necessariamente destrutiva? Claro que não - contanto que o
terapeuta leve em conta tanto a dignidade quanto a depravação. A "conversa" será distorcida e suas conseqüências
destrutivas na mesma proporção em que algum dos componentes da personalidade humana sejam ignorados ou
desvalorizados.

Creio que a mudança mais profunda dentro de nós ocorre no momento em que nos mantemos fiéis, abertos
e engajados em um relacionamento. Igreja é comunidade - ela falha, machuca e não cumpre seu papel como noiva de
Cristo, mas nenhuma outra forma de relação consegue refletir melhor o envolvimento horizontal com outros crentes e
vertical com Deus, em oração.

Esta intersecção constante entre oração e discussão revigora nossa fome de Deus, elimina ideias falsas e
cria um clima perfeito para a adoração. Portanto, vejo o aconselhamento como uma concessão - não imoral, mas
trágica, pois o aconselhamento produz o tipo de comunhão que deveria ser providenciado no contexto normal, na
intimidade diária e na palavra profética, que é mútua, igualitária e livre.

Espero que todos aqueles que procuram seriamente conhecer melhor a vontade Deus leiam este e quaisquer
outros livros que julguem interessantes sobre este assunto mantendo como pano de fundo a conversação. Conversas
precisam de comunhão. Exigem diálogo, discordância e liberdade de expressão, mantendo, ao mesmo tempo, um
relacionamento sincero e comprometido. Esta discussão pode acontecer com um terapeuta, dentro de um pequeno
grupo de estudo bíblico, entre cônjuges ou com um bom amigo. Mas deve-se perguntar:

• Minha "comunidade" assume que o problema principal é o abuso sexual (ou de qualquer outro tipo),
lembranças reprimidas e problemas de personalidade? Se sim, subitamente haverá uma pressão para
recuperar, encarar o passado e se sentir pleno e livre. O resultado será um distanciamento gradual do
arrependimento e da fé como os componentes principais e centrais para que a mudança ocorra. Ou então

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estes elementos de um contexto bíblico serão transformados de modo a significar: "pare de se machucar,
faça o que quiser e não permita que ninguém exerça qualquer tipo de influência sobre você". Se deixará,
então, o Evangelho para acolher as boas-novas da auto-ajuda da indústria da psicologia.

• Minha "comunidade" usa técnicas para se lembrar do passado - hipnose, regressão, imagens ou qualquer
outra técnica dissociativa - com a convicção de que aquilo que é recuperado com emoção é verdadeiro? Se
usa, não apenas a questão principal não foi compreendida, como o processo de mudança é alguma coisa
diferente do arrependimento. Este é o solo fértil para a criação de falsas lembranças. Eu recomendo
fortemente que você não participe de grupos que utilizam técnicas dissociativas, que reduzem o problema a
uma questão de lembranças reprimidas. Minha "comunidade" determina que o abuso sofrido requer
automaticamente um rompimento com o agressor ou sua família? Em nenhum lugar das Escrituras
encontramos uma orientação para confrontar cada pecado ou para quebrarmos o relacionamento com
aqueles que tenham nos causado algum dano. Há um ponto em que devemos limitar o dano; há também
momentos em que devemos nos separar daqueles que vivem na maldade ou daqueles que decidem viver
longe do Evangelho ao escolher o pecado. Muitos dos que sofreram abuso, porém, escolhem o caminho do
confronto com o agressor ou sua família e, quando as coisas não dão certo, preferem romper o
relacionamento. Esta decisão tem separado famílias de maneira trágica e criado um clima propício para as
acusações e separações. Um bom ajudador - seja um terapeuta, um amigo próximo ou um grupo - tentará,
antes de tudo, levar em consideração o clamor e o paradoxo do amor que ousa.

Ao procurar um terapeuta ou uma comunidade, é sábio considerar como ele (ou ela) encara o tipo de problema a
ser tratado, como promoverá a transformação e quão persistente ele ou ela será em avaliar o crescimento da vítima de
abuso quanto ao seu amor a Deus e aos outros. Estas preocupações devem intensificar nossa abertura para que
vejamos as ciladas de Satanás ao tentar levar muitos cativos a ignorar o passado ou a transformar o abuso no
problema principal. Se estivermos atentos a isto, até mesmo a incerteza quanto a estas questões evitará que caiamos
nas armadilhas colocadas no caminho por Satanás. Então poderemos continuar a difícil mas vivificante busca do
conhecimento de Deus.

19
Parte I

A Dinâmica do
Abuso

20
CAPÍTULO 01

A Realidade de uma Guerra: Encarando a Batalha

Às vezes fico pensando se cada pessoa do mundo, homem ou mulher, jovem ou velho, sofreu abuso sexual.
A natureza de meu trabalho, sem dúvida, cria uma visão tendenciosa, talvez até demais. Como psicólogo e professor
na área de aconselhamento, sou convidado a entrar na vida de inúmeras pessoas: pessoas que moram na vizinhança, o
professor da escola dominical, o pastor, o médico e - este pode machucar -sua esposa ou marido. Para muitos deles, a
história do abuso sexual permanece como uma dor de dente crônica, tão familiar que nem se percebe mais a sua
existência, amortecendo os sentidos mas sem impedir a execução da rotina diária.

Na maioria dos casos você não vai nem imaginar que passou por uma situação de abuso sexual. Se forem
questionados diretamente, muitos sequer vão se lembrar do abuso; outros mentiriam para evitar a vergonha de admitir
que foram vítimas de um dos poucos crimes em que a vítima se sente mais sozinha e rejeitada do que o próprio
criminoso.

Abuso sexual é um assunto difícil. Muito mais que outros, este tema causa um sentimento de vergonha
horrível e desconfortável, tanto no conselheiro quanto na vítima. Em muitos grupos, a pessoa que admite ter um
histórico de abuso torna-se o pára-raios do temor e do ódio daqueles que sofreram o mesmo mas não admitem. Para
as vítimas é realmente muito fácil negar o passado, ignorando as lembranças, a dor e o sofrimento atual que possam
estar relacionados ao abuso.

Lembro-me das palavras melancólicas de uma jovem senhora que estava enfrentando as lembranças do
abuso cometido por seu pai, um respeitado pastor: "Eu preferia estar morta a encarar a verdade das lembranças. Se
admitir que elas são verdadeiras, serei totalmente abandonada por meus pais, pela família e pela igreja. Se continuar a
viver uma mentira, começarei a apodrecer de dentro para fora, fingindo que tudo está bem quando eu sei que não é
verdade".

Suas escolhas eram claras: mentir, e morrer lentamente; falar, e ser imediatamente rejeitada. Colocar deste
modo pode parecer um pouco trágico mas, em sua mente, viver (ou seja, admitir que tudo aquilo era verdadeiro)
implicava esquecer sua única esperança de vida: o apoio da família e dos amigos.

Seu pacto não é incomum. Parece que um terrível preço precisa ser pago todas as vezes que homens e
mulheres que sofreram abuso entram no horror de seu passado. Esta situação é similar à de um amigo meu, que
quebrou o pulso quando era criança. Devido à negligência de seus pais, o osso nunca foi tratado corretamente, mas a
união dos ossos aconteceu.

O osso se uniu de um modo que permitia uma função normal, exceto o movimento de dobrar o pulso. Ele
estava curado, mas de um jeito que não lhe permitia praticar, corretamente, nenhum esporte que usasse raquetes. Ele
aceitou isso bem, mas os efeitos da negligência de seus pais estão constantemente com ele.

Se quisesse corrigir o problema, teria que quebrar seu pulso novamente, passar por um longo processo de
recuperação, colocando um fardo razoável sobre sua família durante algum tempo. Por que se importar se ele já
aprendeu a conviver tão bem com seu problema? Uma pergunta semelhante a esta invade a alma das vítimas de
abuso.

O processo de penetrar no passado causará uma ruptura na vida, ou pelo menos naquela existência
travestida de vida. O caminho fácil da negação silenciosa que transforma alguém num ser servil e vazio, ainda que
com aparência feliz, ou num articulado líder de estudo bíblico, será substituído pelo tumulto, medo, confusão,
angústia e mudança. Casamentos precisarão passar por mudanças; relações sexuais poderão ser postergadas durante o
período em que o casal se dedicar a jejum e oração. O tecido da vida vai precisar ser desfiado linha por linha,
enquanto o Mestre tece novamente a vida da pessoa conforme seus desígnios.

O processo seria difícil mesmo num mundo ideal, com parceiros, amigos e igrejas que dessem total apoio.
Em muitos casos a batalha exterior é dramaticamente difícil pelo fato de que os outros preferem que aquela doce
mulher continue simpática; que a mulher competente continue no controle, e que aquele "arroz de festa" continue
sendo a alegria da reunião.

Quando a mudança é radical e desastrosa e se, particularmente, ela impele outros a mudarem também, é
vista com suspeita e com o mesmo rancor reservado aos piores hereges. Mas aquilo que é visto como a maior heresia
é em geral o que motiva aqueles que estão confortavelmente acomodados a mudarem de modo profundo.

Alguém poderia desejar que a santificação fosse um agradável passeio por um caminho florido. Na verdade,
o caminho passa por vales escuros e pelas trevas aparentemente impenetráveis que eclipsam a luz do Filho de Deus.

21
O horror à mudança é tanto que parece envolver um tipo de morte que acaba com a vida de um modo tal que nem a
ressurreição pode trazer de volta. Portanto, a única esperança aparente é a negação e a crença de que Deus quer que
sejamos complacentes, verdadeiros robôs espirituais. Vejo isto como um mascaramento diabólico, uma mentira de
tamanhas proporções e verossimilhança que parece extraordinariamente razoável. Além do mais, o que fazer com
uma dor de dimensões astronômicas que aparentemente fica pior a cada vez que se toca nela? A ladainha "estou em
paz" é cantada por uma multidão de vozes cujas experiências de vida e suas razões pessoais para se manterem afasta-
dos apenas banalizam a dor da alma e o peso do coração.

Qual é o objetivo de se procurar esperança real e alegria verdadeira? A resposta é simples: viver o
Evangelho. A razão para iniciar a batalha é um desejo por mais, um sabor do que a vida poderia ser se nos
libertássemos das lembranças negativas e da vergonha profunda. Ninguém sai da letargia da negação a não ser que
haja uma ponta de descontentamento que penetre na escuridão da dormência diária. Viver abaixo do padrão para o
qual alguém foi feito é trair a alma de modo tão grave quanto aquilo que foi feito pelo abuso.

Nossa motivação para mudar, entretanto, é muito maior do que uma simples insatisfação com uma vida
vazia. Somos motivados pelos mesmos objetivos que impulsionam os outros crentes. Paulo falou sobre o fim, citando
uma coroa de justiça (2 Tm 4:8). O apóstolo desejava ser derramado aos outros como uma bebida revigorante, lutar o
bom combate e acabar a carreira, pois ele sabia que seu desejo por ver a face de Deus seria recompensado com o
prémio da comenda do Senhor. Receber do próprio Senhor o prêmio de seu abraço, seguido da frase "bom trabalho",
era uma recompensa que suplantava as preocupações tradicionais com o bem-estar.

A pessoa que deseja lidar com as feridas do abuso não se sentirá corajosa e nem receberá de imediato
palavras de incentivo por estar iniciando uma nova caminhada. Os laços da alma não serão imediatamente liberados
ou quebrados. Então, o que a motivará a agir para receber o abraço de Deus? Mais uma vez, a resposta é o desejo por
algo mais. Deus nos criou com um desejo natural de sermos como ele é: vivos, justos, puros, motivados, prontos para
amar. Cumprir aquilo para o que Deus nos criou é a razão pela qual alguém escolhe trilhar o caminho da mudança.

O lado trágico disto tudo é que os adultos que decidirem enfrentar seu passado de abuso sexual precisam
estar motivados a enfrentar uma selvagem batalha interna e externa, travada entre cristãos1. Estes tristes fatos, quando
ocorrem, se transformam em vitórias sobrenaturais de enormes proporções. É imperativo que o homem ou a mulher
que tenha sofrido o abuso entre nessa batalha mas apenas com uma consciência do preço a pagar, mas também com
uma profunda convicção de que a vida vivida na lama da negação não é vida. Se o Senhor Jesus veio para dar-nos
vida, e vida em abundância, então uma vida de fingimento envolve uma clara negação do Evangelho, não importando
quão moral, virtuosa ou chamativa esta vida pareça ser.

O que é preciso levar em conta quando alguém decide entrar na trincheira, na esperança de ver mudanças?
Em poucas palavras, deve-se aceitar que há uma guerra, que há um inimigo e que a batalha deve ser travada. A guerra
existe, e entra-se nela quando se reconhece a realidade do abuso passado.

A realidade da guerra

Um problema não pode ser resolvido até que seja encarado. Uma mudança ocorre quando colocamos em
palavras aquilo que é tido como verdadeiro: Eu sofri um abuso sexual2. É difícil imaginar o tamanho da batalha e dar
um nome à realidade.

Uma mulher com a qual trabalhei por um ano participou recentemente de um grupo de pessoas que passou
pela experiência do incesto. Ela estava relutante em participar do grupo, apesar de nosso trabalho ter-se concentrado
nos efeitos do abuso. Confessou que a dificuldade estava em admitir para si própria que a única razão para estar se
juntando ao grupo era que ela mesma havia sido vítima de abuso. Apesar de a grande maioria de nossas conversas
naquele tempo ter sido sobre o abuso sofrido anteriormente, além do fato de sempre ter tido lembranças claras do
ocorrido, ela estava evitando terminantemente reconhecer que sofrera abuso.

Sempre achei muito estranha a relutância em encarar os fatos de frente até o dia em que me encontrei com
um amigo. Eu já estava conversando com pessoas envolvidas com abuso há quase um ano quando, então, liderei um
seminário sobre o assunto.

Durante o evento, várias pessoas me perguntaram se eu havia sofrido abuso. Minha resposta foi sempre não.
Aquele bom amigo ouviu-me na palestra e fez a mesma pergunta, à qual respondi da mesma maneira. Ele insistiu e
perguntou se eu já havia passado por uma situação na qual tivesse me sentido sexualmente desconfortável, inibido ou
humilhado. Minha resposta foi tão rápida que até eu me surpreendi: "Sim, com certeza". Ele me perguntou alguns
detalhes e, em questão de minutos, lembrei-me da masturbação forçada em um acampamento de adolescentes, um
convite a uma relação homossexual, ao qual rejeitei, no campo de escoteiros e uma investida sexual que ocorreu num
campo de futebol.

Ele olhou para mim com um ar de surpresa e ao mesmo tempo tristeza, perguntando: "Isto não se encaixa
em sua definição de abuso sexual?". Fiquei atônito. Não é que eu tivesse esquecido daqueles fatos, mas nunca havia
permitido que aquelas situações fossem rotuladas com uma palavra que abrisse a porta para uma investigação mais

22
profunda. Não admitir que o dano ocorreu gera uma enorme relutância em iniciar o processo de mudança.
Uma mulher veio a mim recentemente com o firme propósito de que eu definisse se ela havia sofrido abuso
sexual ou não. Ela possuía uma boa formação, era brilhante e competente. Muitos a conheciam como uma mulher
realista, uma pessoa muito bem equilibrada. Depois de ter explicado, com bastante acanhamento, as razões pelas
quais me procurara, ela me informou que, durante quatorze anos, fora levada por seus pais a uma colónia de nudismo.
Todos os verões, aquela comunidade era convidada a participar de um concurso de beleza naturista.

Durante um dos desfiles, ela foi forçada a posar, durante toda a noite, em várias posições, algumas
pornográficas. Sua alma se despedaçou. Ela estava aterrorizada com a idéia de estar associada à nudez de seus pais e
da colônia, mas, pior ainda, ela ignorava que naquela noite do desfile anual diversos homens estariam urrando e se
excitando pela visão de seu corpo adolescente em pleno amadurecimento. Mais uma vez fiquei surpreso. Como é que
ela ainda perguntava se havia sofrido abuso? Este registro não deixava as coisas mil por cento claras?

Uma mulher que sofreu abuso por parte de seu pai, tio e avô concordou que ela havia sido prejudicada por
seu comportamento, mas relutava em chamar isto de abuso sexual. Seu pai e seu tio forçaram-na a praticar sexo oral
com eles. Seu avô gostava de se exibir na frente dela. Com grande sinceridade, ela disse o seguinte: "eu não relutaria
em chamar de abuso se tivesse sido estuprada, mas tudo o que eles fizeram foi o mesmo que uma dezena dc outros
homens fizeram comigo em diversas ocasiões. Então, por que chamar aquilo de abuso?".

O que é abuso sexual? Parece que as pessoas trabalham de forma a achar que tudo o que sofreram não foi
abuso, mas, se tivesse acontecido com outras pessoas, ou tivesse sido um pouco mais extremo, então poderia ser
considerado como sendo abusivo. Um homem disse literalmente: "Minha mãe sempre desfilava pela casa sem
nenhuma peça de roupa. Vez por outra ela me pedia para apertar seus seios ou ver se havia algum machucado em
suas pernas. Sei que não era correto, mas como isto poderia ser chamado de abuso?". Pelo fato de haver este tipo de
confusão sobre o que exatamente constitui um abuso sexual, é necessária uma definição clara:

Caracteriza-se como abuso sexual qualquer contato ou interação (visual, verbal ou psicológica) entre uma
criança ou adolescente e um adulto, na qual a criança ou adolescente esteja sendo usada para a estimulação
sexual daquele que comete o ato, ou de outra pessoa.

Abuso sexual pode ser cometido por uma pessoa com menos de dezoito anos, desde que haja uma diferença
significativa de idade entre ele e a vítima, ou quando aquele que pratica o ato está numa posição de dominação e
controle da criança ou do adolescente. Quando o abuso sexual é cometido por uma pessoa que tenha relações
sanguíneas ou legais caracteriza-se um incesto ou abuso sexual intrafamiliar.

Existem duas grandes categorias de abuso: contato sexual e interação sexual. Contato sexual envolve
qualquer tipo de toque físico que objetiva o despertamento de desejo sexual (físico ou psicológico) na vítima ou
naquele que comete o abuso. Contato físico pode abranger, em nível muito severo, relações sexuais forçadas ou não,
sexo anal ou oral (24 por cento das vítimas3); em nível severo, encontram-se a estimulação forçada ou não da vagina
(incluindo penetração), carícias nos seios ou qualquer forma de simulação de uma relação (40 por cento); em nível
menos severo, encontram-se beijos sensuais forçados ou não, toque nos seios, nádegas, coxas ou genitais por cima de
roupas (36 por cento).

As categorias implicam uma gradação da severidade, mas todo contato sexual não apropriado é perverso e
danoso à alma. Setenta e três por cento das vítimas das categorias mais leves de abuso relatam algum tipo de dano, e
trinta e nove por cento relatam traumas que variam de leves a extremos, decorrentes de abuso sofrido no passado4.

Interações sexuais são mais difíceis de ser reconhecidas pelo fato de não envolverem contato físico e,
portanto, não parecerem tão severas. Em muitos casos ela é representada por uma súbita abordagem sexual que deixa
a vítima pensando se o fato realmente ocorreu ou se é produto de sua imaginação.

Interações podem ser qualificadas como visuais, verbais ou psicológicas. Abuso sexual visual envolve
interações em que crianças são forçadas ou convidadas a assistir a cenas ou imagens que despertam desejos sexuais
ou quando são observadas nuas pelo agressor, de uma forma que excite um adulto.

O pai de uma cliente costumava levar literatura pornográfica ao banheiro antes de ela entrar no chuveiro.
Depois que ela havia começado a tomar banho, ele entrava no banheiro para pegar a revista, demorando-se um
momento para observar o corpo adolescente da filha através da porta do box. Este não era uma acontecimento
incomum: o padrão foi confirmado em outras intrusões visuais.

Um jovem adolescente voltava para casa todos os dias com um misto de tremor e excitação, imaginando se
sua mãe alcoólatra estaria bêbada e, em conseqüência de seu estado, nua ou parcialmente vestida, deitada no sofá da
sala de estar. A cada dia ele jurava que não iria olhar, mas sua curiosidade adolescente e seu despertamento natural
para as questões sexuais sempre o traíam.

Um pai ou adulto que se excita ao ver uma criança nua ou apresenta à criança coisas que a levem a uma
estimulação sexual (através de pornografia ou exposição sexual exibicionista) sem dúvida vitimou sexualmente

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aquela criança.
Interações sexuais verbais podem ser igualmente abusivas. Uma grande amiga minha falou casualmente
sobre o hábito de seu pai de falar sobre o corpo dela como se demonstrasse interesse em seu desenvolvimento. Todo
dia ele percorria visualmente seu corpo em processo de amadurecimento, como se estivesse em busca de piolhos. Ele
media sua saia, analisava o cabelo, avaliava e julgava os namorados e, o que era mais embaraçoso, fazia comentários
sobre seu corpo na frente dos garotos. O termo mais amável que ele usava para descrevê-la era T. T. Ninguém soube,
por anos, o que aquilo significava, mas ela sabia que ele se referia a seus seios. Este tipo de degradação verbal
contínua obviamente se constitui num abuso emocional, mas não deveria ser ignorado pois está claro que violava a
identidade sexual da garota.

O abuso sexual verbal também pode vir na forma de interações sugestivas ou sedutoras. Uma mulher
lembra-se do nojo que sentia quando estava perto de seu avô. Toda vez que a via ele piscava e cacarejava como um
galo. Seu desconforto interior era visto por seus pais como desrespeito e um sintoma de desvio da garota.
Isto perdurou por trinta anos até que, por outras interações, pôde-se chegar a uma conclusão. Finalmente veio à luz o
fato de que ele esperava o momento em que ninguém estivesse por perto e dizia: "Você é tão doce que eu seria capaz
de comer você. Venha cá, doçura, e deixe-me experimentar seus lábios". Ele era um velho louco ou inocente, ainda
que bastante inconveniente? Ou ele era um agressor sexual que usava as palavras como estimulante para seus
perversos desejos sexuais?

Uma indicação disso era que ele somente falava estas coisas quando estava sozinho com sua neta. Seus
abraços típicos de avô não eram notados, pois eles estavam inocentemente distantes de seus comentários sugestivos,
de forma que seus demorados beijos e abraços não apresentavam nenhuma relação com seu comportamento. Portanto,
todas as vezes que ele a tocava sua reação era de nojo e aflição.

Interações verbais claramente sedutoras são percebidas de modo mais fácil na maioria dos casos. Ser
convidada a tomar um banho com o papai, descer ao porão com o irmão ou dar um longo passeio pelo bosque com o
tio, momento em que pequenas insinuações sexuais são proferidas ou quando um abuso sexual já ocorreu
anteriormente são, obviamente, encontros abusivos.

Abuso verbal é uma ferida séria e profunda. Palavras abusivas relacionadas ao sexo causam o mesmo dano
de um contato sexual abusivo. O dano potencial gerado pela minimização dos fatos ou pelo sentimento de estranheza
que o dano causa torna a cura ainda mais difícil para aqueles que sofreram abusos subliminares do que para os que
sofreram severos abusos.

Uma última categoria de interação é o abuso sexual psicológico5. Há uma distância clara entre os abusos
verbais e visuais e o abuso psicológico. O abuso sexual psicológico ocorre através de meios visuais ou verbais
(normalmente ambos), mas vai envolver um tipo de comunicação mais sutil (não específica, capaz de alterar o humor
mais facilmente), que normalmente rompe a barreira entre adultos e crianças.

Temos o exemplo de uma mãe que busca conselhos ou conforto com um filho adolescente sobre os
problemas sexuais que ela tem com o pai dele. Ela está prestes a cruzar a linha divisória entre uma conversa honesta e
uma conversa de alcova. Alcovitar é a ação de servir de intermediário em relações amorosas ou ser um alcoviteiro.
Um alcoviteiro se envolve em questões sexuais alheias em seu próprio benefício. Um pai que usa sua filha como
confidente ou substituta de sua esposa está enlaçando o coração de sua filha ao seu de uma maneira sexualmente
dissimulada.

Tipos de abuso sexual: Contato e interação

Contato:

Muito severo: relação genital (forçada ou não); sexo anal ou oral (forçado ou não).

Severo: contato com a genitália descoberta, incluindo toque manual ou penetração (forçada ou não);
contato com os seios descobertos (forçado ou não); simulação de relação sexual. Menos severo: beijos com
conotação sexual (forçados ou não); toque com conotação sexual das nádegas, coxas, pernas, ou genitais e
seios cobertos.

Interações

Verbais:solicitação direta de atividade sexual; sedução (sutil), solicitação ou alusão direta; descrição de
práticas sexuais; uso contínuo de linguagem sexual ou de termos sexuais relativamente a pessoas.

Visual: exposição ou uso de pornografia; exposição a relações sexuais, órgãos sexuais e/ou material
sexualmente provocativo (sutiãs, camisolas, cuecas e outras roupas íntimas); olhar de maneira inadequada
para partes do corpo (cobertas ou não) ou peças de roupa com propósitos de excitação sexual.

Psicológica: violação de limites físicos e sexuais; interesse exacerbado em menstruação, roupas,

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maturidade sexual; uso contínuo de medicamentos introduzidos pelo reto. Violação de limites sexuais ou de
relacionamento: interesse excessivo em atividade sexual de crianças, uso de crianças como substituto de
cônjuges (na forma de confidente, companhia íntima, protetor ou conselheiro).

O dano pode não ser evidente, e, de fato, a filha pode se sentir tão especial que defenderia a idoneidade do
pai até a morte. Portanto, isto é abusivo. Da mesma forma, uma mãe que fala de seu filho referindo-se a ele como
"meu homem", "meu companheiro" ou seu "marido substituto" estabeleceu uma competição com seu marido adulto e
um senso de singularidade de seu filho, através da questão sexual, o que claramente viola as barreiras naturais entre
mãe e filho.

Toda vez que o pai ou alguém que cuida da criança a usar para a realização de desejos sexuais ou desejos
relacionados com identidade sexual, seja de modo aberto ou dissimulado, será desencadeada uma dinâmica de abuso
na alma daquela criança. O fato de o abuso sexual ocorrer de modo sutil não deve desviar nossa perspectiva de que
ele continua sendo abusivo e danoso.

A real natureza do dano satânico é que ele é consumado pelo pai da mentira, o qual se disfarça em um anjo
de luz. Um certo grau de falsidade e sutileza pode ser notado em todo abuso sexual, não importando se aquele que
comete o abuso está sob influência de Satanás de maneira direta ou indireta, pois todo o pecado pode ser associado à
influência dele.

Quem são os agressores?

O agressor pode ser qualquer pessoa. Pode ser seu pai, seu pastor, seu irmão, seu vizinho de setenta anos de
idade. É freqüente notar-se que alguns já sofreram abuso de tantas pessoas que têm a impressão de que enviaram uma
mala direta convidando todo mundo a participar da vergonha do abuso. Não é incomum ver um cliente que tenha
sofrido abuso por vários membros da família, vizinhos, namorados, professores, conselheiros ou patrões6.

O agressor pode ser homem ou mulher. É muito mais comum que uma criança sofra abuso por parte de um
adolescente ou adulto do sexo masculino, mas não é correto concluir que homens não abusam de meninos e que
mulheres não abusam de meninas e meninos7.

O agressor pode ser muito mais velho ou da mesma idade. Pode ser tanto uma pessoa conhecida e
respeitada em sua família como alguém desconhecido de todos. Em qualquer caso, ele terá uma voz, um rosto, um
odor. Ainda que você não possa se lembrar de nenhum detalhe dele, sua imagem estará para sempre com você, como
uma fotografia desbotada guardada na carteira. Ainda que você não o veja por trinta anos ou tenha jantado com ele
ontem, ele ainda desempenha um papel importante em sua vida diária e, talvez, um papel ainda mais significativo em
seus sonhos e pesadelos.

Um grande esforço de pesquisa tem sido empreendido na direção do agressor e os efeitos de seu abuso8. O
foco deste livro não está sobre o agressor nem na variação dos danos causados por diferentes tipos de pessoas que
praticam o abuso. Este livro explora a natureza do dano causado à alma da vítima por qualquer tipo de abuso sexual,
independente do causador. Entretanto, a vítima do abuso comumente defende ou ignora o agressor, especialmente se
ele era um membro da família. E importante entender como isto se processa.

Muitos dos que sofreram abuso sexual tendem a dar desculpas pela ação do agressor ou minimizar os danos
causados.

Uma das maneiras de fazer isto é conformar-se com o fato de que o agressor não era uma das pessoas mais
próximas, mais íntimas ou mais preocupadas com seu bem-estar. Traição por parte de alguém muito próximo é algo
muito difícil de ser suportado pela alma humana. A vítima não quer imaginar que o agressor possa ter sido uma
pessoa que tinha acesso aos recônditos de sua alma, uma pessoa que penetrava em lugares onde nenhuma outra ia.
Por esta razão, muitos dos que sofreram abuso por parte de um tio dizem: "bem, pelo menos não foi meu irmão ou,
pior ainda, meu pai".

Se o abuso foi cometido por alguém de fora da família, então o consolo reside no fato de que não foi
nenhum parente. O coração machucado não quer se machucar ainda mais com a perda de segurança e estímulo;
portanto, o dano é aparentemente minimizado, baseado na afirmação de que o agressor não era ninguém próximo ou
que o dano poderia ter sido bem maior.

A segunda tendência é colocar o agressor numa categoria que se preocupa em dar satisfações quanto à
natureza do dano9. A forma de se encarar o prejuízo será baseada na convicção de que o agressor cometeu um crime -
se não foi uma violação das leis civis, pelo menos foi a quebra de uma lei de Deus. A batalha não será travada se
continuarmos a procurar desculpas para o agressor e seu crime.

As justificativas são inúmeras. O agressor sofreu abuso quando era criança. Passou por momentos que
deixariam qualquer um maluco. Estava passando por momentos difíceis com sua esposa ou se sentia solitário. Já que
ele bebeu ao ponto de não saber o que estava fazendo, como pode ser considerado culpado? Ele fez tantas coisas boas

25
para as pessoas; como eu poderia ficar tão triste por uma única falha? Chega de desculpas: o agressor cometeu um
crime contra o corpo e a alma de uma pessoa.

Um ponto muito importante deve ser novamente enfatizado: o abuso sexual é danoso, não importando se o
corpo da vítima foi violado ou não. Num primeiro momento, muitos duvidarão da veracidade desta afirmação. Não
parece razoável que ser violentamente estuprada por um pai seja algo comparável a um toque por cima da roupa dado
por aquele vizinho com jeito de vovô carinhoso. Ninguém questionaria que recuperar-se de um estupro violento é
muito mais difícil do que de uma "passada de mão".

A graduação do trauma relacionado ao abuso depende de uma série de outros fatores, incluindo o
relacionamento com o agressor, a severidade da intrusão, uso de violência, idade do agressor e o período de duração
do abuso. Mas, em todos os casos, a beleza e a dignidade da alma foram violadas. Portanto, o dano estará presente,
quer a vítima tenha sido atropelada por uma jamanta a sessenta quilômetros por hora ou "simplesmente" por uma
bicicleta na mesma velocidade.

É óbvio que existem relações abusivas mais danosas que outras. Podemos formular uma tese sobre isto:
mantidos todos os outros fatores, o dano é diretamente proporcional a ruptura dos laços familiares de proteção e
amparo10. Há duas questões relacionadas com esta ruptura: o abuso e a revelação do abuso. Quando o abuso é
consumado, ele provoca uma série de tremores semelhantes a um terremoto, os quais requerem uma quantidade
enorme de recursos para serem debelados. Se estes recursos não estão disponíveis ou, pior ainda, se o ambiente é
hostil, frio ou insensível em relação ao dano, então a vítima deixará de lado o processo de cura, buscando em
primeiro lugar a própria sobrevivência.

Por esta razão, o incesto é muito mais devastador que um abuso extrafamiliar. Uma relação sexual com um
primo não será tão traumática quanto uma relação com o pai. Espera-se de um pai que ele seja um substituto seguro e
fidedigno de Deus até que a criança desenvolva a capacidade de ver seu pai celestial como a única fonte de vida
perfeita. A dificuldade em confiar será proporcional à falha cometida pelo pai em protegê-la e ampará-la.

O abuso intrafamiliar será quase sempre mais devastador, a não ser no caso em que a revelação de um
abuso extrafamiliar ameace romper o relacionamento com os pais da vítima ou outros membros da família. Se uma
criança contasse a seus pais que um vizinho a estava aliciando várias vezes na semana, ela poderia achar que eles não
acreditariam nela e, ainda por cima, que ela fosse a culpada por isso. A criança poderia ter uma centena de outras
razões para temer a resposta de seus pais e, assim, temer a repercussão da revelação. De acordo com o grau de
confiança no amor e respeito dos pais de alguém, o dano causado pelo abuso intra ou extrafamiliar será mais ou
menos traumático.

Para resumir, a primeira coisa a fazer ao entrar na batalha é encarar o fato de que a batalha existe. Muitos
lerão este capítulo e, pela primeira vez, chamarão de "abuso" as horríveis experiências vividas em casa, na escola ou
na igreja. Encarar a realidade de um abuso sofrido é um processo. Ele não acontece rapidamente ou num momento
especial de honestidade consigo mesmo. Normalmente ele vai se desenvolvendo por um longo período de tempo,
durante o qual o abuso é reconhecido e confrontado com uma decisão do tipo lutar ou correr.

É comum que as lembranças do abuso sejam acompanhadas por outras emoções menores além de descrença
e incredulidade. Não é incomum termos lembranças destituídas de emoção - como se elas estivessem congeladas -
podendo ser vistas, porém não tocadas. Em outros momentos as lembranças voltarão como se fossem pequenos
detalhes destituídos de contexto ou significado.

Abrir o coração para uma verdade devastadora parece tolice, num primeiro momento; contudo o calor
produzido pelos desejos de nossas almas ameaça derreter as partes mais duras e frias da alma. Toda mudança
agradável é um convite à vida; toda tristeza profunda alimenta o desejo de se lamentar. As falsas promessas de vida
oferecidas às pessoas que sofreram abuso mais se parecem a um fim de semana prolongado numa estância climática,
ou seja, causam alívio passageiro e de curta duração.

Essas falsas promessas, no entanto, podem, na pior das hipóteses, parecer-se ao derretimento de uma calota
polar. O derretimento completo causa um desastre; daí a opção da vítima em manter oculta e congelada a alma já fria.

A pessoa que passou pela experiência de um abuso sexual freqüentemente nega o abuso, dá-lhe outro nome
ou minimiza seus danos. O inimigo prossegue sem ser reconhecido e corretamente interpretado, de forma que a
vítima não consegue enfrentá-lo de modo apropriado.

Já que se evita a guerra, algo deve ser feito com o coração machucado que clama por consolo e esperança.
O clamor deve ser ouvido ou silenciado. Infelizmente, a opção mais comum é abafar o gemido. O que em geral
silencia o choro é a dinâmica interna que promove a negação, a troca do nome ou a minimização. Essa dinâmica
envolve o trabalho sutil da vergonha e do desprezo, que servem para manter a alma congelada e distante do calor da
vida.

Os próximos dois capítulos vão explicar a dinâmica interna que aprofunda a ferida desnecessariamente.

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CAPÍTULO 02

O Inimigo: Pecado e Vergonha


A guerra começou, mas quem é o inimigo? A pergunta parece ser simples e deixe-me explicar por quê. Há
algum tempo eu estava sofrendo do equivalente masculino da dor de parto: uma cólica renal. Se você me pedisse para
identificar meu inimigo naquele momento (assumindo que eu conseguiria responder), eu lançaria um olhar de
incredulidade e gritaria: "Minha dor!", referindo-me àquela dor lancinante que prenunciava o fim de minha
existência. O efeito de uma angústia extrema é algo interessante: recusar todo e qualquer pensamento que não seja a
busca pelo alívio. O inimigo é a dor e tudo aquilo que a causa.

Perguntar "quem é seu inimigo" a uma pessoa que tenha sofrido abuso nos leva ao mesmo tipo de resposta.
O inimigo é a dor do abuso e a pessoa responsável por ela! A dor não estaria lá se o agressor não tivesse cometido
aquele crime. O inimigo é óbvio. Ou pensamos que é. Mas perceba o que acontece quando o inimigo é o agressor. A
vítima se vê enredada por um círculo vicioso de lutar ou correr.

Com o objetivo de diminuir o efeito do veneno do abuso, tudo o que se pode fazer é esquecer, suplantar,
controlar ou promover uma retaliação contra aquele que trouxe a dor à alma. Não é apenas uma guerra fútil, como
também sem fim. Imagine tentar esquecer alguém. O próprio esforço em fazer isso concentra as atenções na pessoa
que se quer esquecer. A energia e os esforços despendidos na tentativa de esquecimento frustra o intento antes que ele
se concretize.

Da mesma forma, um compromisso de nunca mais ser ferido pela pessoa que praticou o abuso (ou por
qualquer outra semelhante a ele) cria uma casca exterior dura e inflexível que, por sua vez, leva à solidão, que deveria
ter sido evitada por essa causa. A arma de defesa da vítima, portanto, vai causar mais dor à alma, além de fortalecer
seu desejo de nunca mais ser magoada por ninguém, o que somente vai expandir a geleira que está se formando
dentro de seu coração. A proteção contra a dor vai, de fato, intensificar aquilo que supostamente deveria ser
minimizado.

Se o inimigo é o agressor, seja ele odiado ou não, então ele continuará a desempenhar seu papel hediondo,
trazendo sempre à tona uma resposta reativa. Há duas possibilidades de se lidar com o inimigo: lutar ou correr. As
duas opções parecem bastante diferentes. Uma implica ataque frontal e a outra uma retirada visando a segurança. A
opção por lutar (angústia, insistência em odiar alguém) e a opção por fugir (complacência) são, na verdade, mais
semelhantes do que distintas: ambas são uma tentativa de evitar uma batalha interior.

A energia que motiva o ataque vingativo ou a estagnante submissão é o desejo de preservar o coração
ferido. Toda batalha travada contra este inimigo (e ele realmente merece ser chamado assim) vai levar a um desespero
sem fim. É como lutar contra um fantasma, alguém em quem não se pode bater, socar e que nem mesmo pode ser
morto. O agressor é um problema, mas (e aqui vão as boas-novas) não é o maior.

Então, quem ou o que é o verdadeiro oponente? Colocando de modo simples, o problema está na vítima, o
que leva a rompimento de relações, solidão, depressão, distúrbios alimentares, promiscuidade, frieza sexual e ódio.
Alguma coisa lá dentro está errada. Não é possível nem sequer tentar controlá-la: sorrisos, agendas lotadas, vida
cristã bem-sucedida - nada disso suaviza a violenta batalha em andamento.

Certa vez pedi a uma mulher que havia sido estuprada por seu pai e, posteriormente, por seu marido que
definisse a essência de sua luta. Falando de uma maneira amarga e num tom ácido que espelhava um ódio profundo
(traído apenas pela tristeza em seus olhos), ela disse: "Se eu apenas pudesse me livrar de meu desejo pelo homem, eu
seria feliz". Suas palavras poderiam ser escritas de outra forma, algo similar a isto: "Se eu pudesse encontrar uma
forma de não desejar relacionar-me, se eu pudesse insensibilizar minha alma para o fim pelo qual fui criada - desejo
de ser querida, abraçada, conhecida e apreciada - então eu poderia viver sem tristeza". Seu inimigo eram seus desejos.
Permita-me fazer uma importante observação: nunca trabalhei com um homem ou uma mulher que tenha sofrido
abuso que não odiasse seus desejos por intimidade. Na maioria dos casos, a essência da batalha é o ódio por sua
carência de amor e uma forte aversão a qualquer paixão que possa levar a uma falsa expressão de desejo. Em
lágrimas, a mesma mulher disse: "Gostaria de nunca ter querido o amor de meu pai. Eu poderia ter achado uma saída
se não fosse tão fraca e estúpida". O inimigo, aparentemente, é a vontade de se sentir desejado e tocado de um modo
enriquecedor por alguém cujo coração somente visa o nosso bem. Estas pessoas (se é que existem) são raras;
portanto, é legítimo preferir odiar este desejo a esperar pelo dia em que ele seja satisfeito.

A mulher que sofreu o abuso estava cheia de razões para desprezar sua paixão. Odiar seus desejos dá início
a uma guerra civil interior que aniquila a alma. O inimigo, porém, não era realmente os desejos de sua alma, nem o
agressor. Nenhum dos dois é o responsável por sabotar sua alma e sua vida, apesar de alguma coisa estar fazendo isto.
O que é então?

No final das contas, o inimigo é a fera que nos ronda tentando devorar e destruir a beleza do Reino de Deus.

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O inimigo é o pecado, esta coisa caída e autônoma que se recusa a curvar-se diante de Deus. O inimigo é esta
realidade interna que não vai clamar por Deus numa humilde e submissa dependência. É a determinação - sutil ou
declarada - de fazer as coisas através de seus próprios meios, através da recusa do reconhecimento e permissão para
que Deus realize seus mais profundos desejos.

O inimigo é o mesmo tanto para as pessoas que sofreram abuso quanto para as outras: uma fortíssima
inclinação por buscar falsos deuses, por buscar vida fora de um relacionamento dinâmico e constante com o Senhor
da vida. Para a pessoa que sofreu abuso, entretanto, a triste violação da confiança e intimidade alimenta de modo
ainda mais dramático sua determinação em viver sem a dor dos desejos não atendidos - e portanto sem a sede de uma
alma que anseia pelo próprio Deus.

As questões presentes na vida de todos nós aparecem de modo mais intenso e dramático nas dificuldades
daqueles que sofreram abuso sexual. Compreender esse abuso, portanto, vai ajudar a esclarecer o que acontece à alma
de uma pessoa quando alguém peca contra ela, não importando se o abuso aconteceu de maneira "normal", inevitável
ou severa.

A vitimização provê um solo rico no qual as questões do pecado são entrelaçadas com legítimos
sentimentos de angústia, mágoa e desapontamento. Quando uma pessoa se torna vítima, seus fortes sentimentos de
auto-preservação entram em ação. A determinação de caminhar contra tudo e contra todos dá início a um ciclo que
envolve elementos da vergonha e de crítica.
Vergonha e crítica são termos não muito bem compreendidos e leva muito tempo para entender seu papel na
experiência do abuso sexual. Este capítulo trabalhará com a vergonha e o próximo com a crítica. É importante
estabelecer-se um cenário para a correta compreensão destes conceitos para que se entenda o que é ser uma pessoa
pecadora que não é capaz de refletir a imagem de Deus.

O homem: uma pessoa cheia de dignidade e corrupção

O homem, conforme definido por Francis Schaeffer, é uma gloriosa ruína, um imponente castelo construído
de maneira intricada e com perícia por um Artesão que definiu seu trabalho sem se preocupar com o custo ou a
melhor forma de fazê-lo. A única força que guiou sua criação foi uma firme preocupação com a glória e majestade de
Deus. Entretanto, o castelo ganhou vida própria, tornando-se capaz de rearranjar a si mesmo.

Quando o ser humano assumiu que ele mesmo era Deus, arruinou todas as coisas. Muros caídos, madeira
apodrecida e jardins cheios de mato: a queda foi tão abrangente que só alguém com os olhos de um artesão poderia
ver a beleza estrutural que ainda restava sob o excesso de ervas daninhas e de tijolos espalhados. Assim, ainda havia
glória em sua forma e composição. O homem é um amálgama de dignidade e corrupção, uma gloriosa ruína.

Dignidade

O homem, possuidor da imagem de Deus, foi feito como Deus em sua capacidade de se relacionar e dirigir
as coisas. A dignidade reside nestas capacidades.

Deus é um ser pessoal e relacional. Ele existe desde a eternidade em perfeita relação consigo mesmo. Pai,
Filho e Espírito Santo amam e honram uns aos outros de eternidade a eternidade. O homem é semelhante a Deus no
tocante ao seu relacionamento com o Criador e a criação. Deus criou o homem de modo que este pudesse alegrar-se
com a intimidade, desejar profundamente ser conhecido e conhecer. A capacidade do homem de apreciar e o desejo
de pôr em prática suas habilidades leva-o a um relacionamento mais e mais profundo com Deus e sua criação.

Deus é o projetista, criador e possuidor do cosmos. Uma pessoa só precisa considerar a plêiade de criaturas,
suas formas inusitadas e cores magníficas para ficar perplexo com a mente do Criador. É sobre este caleidoscópio de
criaturas que o homem foi escolhido para dominar e subjugar.

O homem não é um criador que faz coisas a partir do nada, mas foi criado para ser suficientemente
inventivo para usar as coisas que Deus criou. O desejo de fazer com que nossa vida seja importante, a paixão por
fazer diferença no mundo, influenciar uma pessoa através de nossa atitude, todas estas coisas são desejos colocados
por Deus no coração de cada homem e mulher. A posição do homem como pessoa era, na verdade, cheia de glória,
riqueza e dignidade.

Corrupção

Entretanto, deve-se considerar outro aspecto do homem: corrupção. A ruína da glória foi o pecado. Cair no
pecado foi a mais grotesca, absurda e inexplicável violação da glória já conhecida. Como o homem pôde desejar algo
mais, uma vez que era o detentor de todas as coisas, exceto uma? Simplesmente não há resposta, pois não existem
palavras que possam expressar uma loucura tão patente. A escolha por abandonar a dependência da Palavra de Deus
levou o homem à ruína.

Por todos os séculos desde este evento, temos mantido nosso compromisso de continuar lutando pelo

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controle autônomo e independente de nossa vida, suprimindo o conhecimento de Deus através da injustiça. A
corrupção mostra-se em assassinatos e imoralidade, e em todos os esforços de nossa vida, incluindo ações como falar
com nossos vizinhos, rir com os amigos ou beijar nosso cônjuge.

Entender a profundidade e a extensão do pecado é compreender que nossa motivação, como seres caídos
mas regenerados, está manchada pelo pecado, mesmo quando tentamos amar a Deus e aos outros. A glória da cruz
reside no fato de que, apesar de cada atitude, pensamento ou sentimento manchado pela queda, nossas atitudes
regeneradas são limpas quando colocadas sob a justiça do sacrifício de nosso Irmão mais velho.

Todo mundo gosta da dignidade e sofre com a corrupção. A estrutura da personalidade é o resultado da
interação destas duas dinâmicas. Dignidade e corrupção podem ser as matérias-primas da personalidade humana, mas
outra realidade atua como o impulso que move o homem caído: vergonha1. Ela espreita como mais um poderoso
inimigo da alma sofrida que busca vida.

Vergonha: o temor de ser conhecido

Para a maioria das pessoas, vergonha é sinônimo de embaraço. Todo mundo sabe que o embaraço é algo
desagradável, mas dificilmente ameaça a vida. Os vários anos de aprendizado nos ensinaram a evitar coisas
embaraçosas ou, caso não consigamos, estamos suficientemente treinados de modo a nos confundirmos com o
ambiente, igual a um camaleão, para que não sejamos descobertos. Nem mesmo a pior experiência de embaraço se
compara a sua contraparte mais danosa: a vergonha.

A vergonha é um assassino silencioso, do mesmo modo que a pressão alta é algo que destrói nosso corpo de
maneira silenciosa. Felizmente, a vergonha tem um conjunto de sintomas que podem ser detectados uma vez que
tenhamos os olhos abertos para sua presença e atuação. Mas, da mesma forma como podemos achar que uma dor no
peito são apenas gases, ao invés de um problema no coração, somos tentados a não considerar a vergonha como um
problema.

A vergonha tem o poder de tirar nosso fôlego e colocar no lugar aquele ar viciado da condenação e repulsa.
Um trecho extraído de uma carta de uma amiga pode esclarecer um pouco mais:

Compartilhar o fato do meu abuso com eles (um pequeno grupo de estudo bíblico) provocou um silêncio
frio e intenso que sacudiu violentamente as correntes da vergonha que estavam no profundo de minha alma.
Foi como se a menção do abuso que sofri tivesse produzido uma vergonha tamanha que engoliu a todos
nós. Somente pela graça eu pude me apegar firmemente à convicção de que eu não era lésbica e que não
havia problema algum em desejar ser amada. Quando penso naquela noite com meus amigos, creio que
entendo o quão profundamente minha vergonha tocou as feridas não tratadas na alma deles.

Ao contrário de certos sentimentos que perdem sua força quando são expressos em palavras, a vergonha
tende a se intensificar ao ser reconhecida. A mera discussão sobre vergonha desperta a vergonha não trabalhada nos
outros. Por esta razão, este é um assunto que causa receio nas pessoas; é algo que todos prefeririam ignorar.

Todos nós, não apenas as vítimas de abuso sexual, vivemos com o gosto amargo da vergonha. Basta que
nossas lembranças se voltem para os primeiros anos na escola para que relembremos algumas situações em que
passamos extrema vergonha. Nunca me esquecerei do garoto da oitava série que foi mandado à drogaria para comprar
guardanapos de papel para a festa da classe. Ele voltou com um enorme pacote de absorventes íntimos. Lembro-me
do olhar de espanto da professora e dos risos e olhares das meninas. Assim como o garoto, não entendi a razão de
tanto riso. Eu não sabia o que era um absorvente íntimo, mas tinha certeza de uma coisa: nunca seria voluntário para
qualquer serviço, já que o resultado poderia ser algo tão devastador.

A vergonha não foi minha, mas tomei-a para mim e jurei que nunca faria algo tão estúpido. Eu estava
despertando para as coisas da vida e, desde aquele momento, decidi não fazer nada em que houvesse algum risco de
exposição. Durante as aulas de educação física, eu ia para a quadra certo de que seria escolhido na primeira ou
segunda rodada para compor a equipe de qualquer esporte. Eu era um bom atleta. Mas, na hora do almoço, evitava
pisar na quadra, pois era o momento em que os garotos observavam as meninas dos pés à cabeça, e as meninas faziam
comentários sobre eles. Eu era tímido e desajeitado. Aprendi através de muitas situações que uma menina poderia
expor perante todos minha inexperiência de estudante, portanto eu não entraria por este caminho se pudesse evitá-lo.
A vergonha é uma realidade potencial em qualquer fase da vida. Se observada por outro ângulo, a pressão por fazer
coisas e sair-se bem pode ser vista como o desejo de não falhar, porque cada falha acaba na dor da vergonha.

Um grande acionista de um conceituado escritório de advocacia destacou que deve sua carreira à vergonha.
As centenas de horas dedicadas a um caso eram empregadas para garantir que ninguém saberia mais ou estaria mais
preparado para um julgamento do que ele. Qual era a motivação? "Eu não consigo lidar com a derrota. Toda vez que
perco, sinto-me como se alguém arrancasse minhas calças na frente de meus colegas".

Ele estava descrevendo a experiência da vergonha. A vergonha que ele sentia não podia ser considerada
justa e nem de acordo com os propósitos de Deus para sua vida. A vergonha do advogado na derrota demonstrava que

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sua motivação real para fazer algo correto não tinha nada a ver com seu serviço a Cristo ou com o propósito de usar
suas habilidades ao máximo; ao contrário, ele era compelido por um desejo de vencer. Seu deus era o sucesso, o
prestígio entre os colegas, as recompensas financeiras e, muito provavelmente, o desafio de conquistar outros.

O que é a vergonha?

Por que estamos sempre prontos a sentir vergonha quando falhamos ou cometemos um erro, ao passo que
raramente nos envergonhamos por gritar com nosso cônjuge ou repreender um amigo? Uma resposta a esta pergunta
vai nos ajudar a começar a entender, ainda que apenas até um certo ponto, porque uma mulher que tenha sofrido
abuso sexual sente vergonha por algo que não é culpa dela.

A vergonha foi chamada de "hemorragia da alma" por Jean-Paul Sartre. É uma experiência terrível perceber
que somos vistos como deficientes ou indesejáveis por uma pessoa que esperávamos que se alegrasse conosco.
Parece-nos que a vergonha envolve quatro elementos: exposição, revelação, medo das conseqüências e confiança.

A exposição

A vergonha é uma experiência dos olhos. Se, sozinho em minha casa, eu pratico um ato normal mas
socialmente vulgar como limpar o nariz com o dedo, não sinto vergonha. Mas, se for pego por alguém conhecido
fazendo isso, provavelmente sentirei vergonha. A vergonha é algo interpessoal: ela requer a presença física ou
imaginária de outra pessoa para que seu efeito seja sentido.

Considere o evento da queda, conforme relatado em Gênesis, capítulo 3. Lemos que Adão e Eva estavam
nus e não sentiam vergonha (Gn 2:25). Sua nudez, uma descrição de sua aparência física, implicava tanto uma falta
de conflito quanto a presença de um envolvimento gentil e amoroso. Então, o Maligno tentou Eva, levando-a a
questionar o direito de Deus de exigir submissão e confiança; ele a persuadiu a pensar que ela possuía o direito de ser
como Deus, conhecendo o bem e o mal.

O homem e a mulher, então, comeram o fruto, tornando-se conscientes. Viram sua nudez e teceram folhas
para encobrir sua vergonha e o ato de traição. Eles sabiam que sua desobediência merecia a morte, o que fez com que
ambos fugissem da presença de Deus.

Sua capacidade de sentir vergonha não os levou a uma mudança ou a um retorno ao Criador. Ao contrário,
levou-os à tentativa de se esconder atrás de um arbusto. Deus descobriu sua fuga ao fazer a Adão uma série de
perguntas que visavam expor sua rebelião e vergonha. Esta exposição, contudo, levou a um ataque arrogante contra
Deus. Ouça a narrativa:

E chamou o Senhor Deus ao homem, e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: ouvi a tua voz no
jardim, e, porque estava nu, tive medo e me escondi. Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas
nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses? Então disse o homem: A mulher que me deste
por esposa, ela me deu da árvore e eu comi.
Gn 3:9-12

Imagine dizer a Deus: "Não me culpe. Não foi minha culpa; Você a fez. Se você não tivesse criado essa
mulher, eu não estaria nesta encrenca. Em última instância, é uma falha da sua criação. Você, Deus, e a mulher que
você criou são a causa da Queda".

A exposição, na maioria dos casos, leva à vergonha. A resposta natural de um coração autónomo
(independente e confiante em si mesmo) é esconder-se atrás de folhas de figueira ou de algum arbusto que seja
conveniente. Se isto não funcionar e se formos descobertos novamente, vamos recorrer a uma dura condenação do
Criador e de sua criação.

Como filhos de Adão e Eva, herdamos não somente nossa condição de seres à imagem de Deus, mas
também seu desejo de ser autônomo e sua propensão a se esconder, culpar e atacar quando somos flagrados. Como
resultado da queda, rejeitamos a idéia de nos colocarmos vulneráveis diante de Deus e dos outros; desta forma,
achamos incontáveis maneiras de fugir da presença do senhor e de sermos vistos.

A vergonha é o temor de que algo se torne realidade, de que aquilo que fizemos seja conhecido pelos
outros. Fomos descobertos. O segredo oculto foi descoberto, e temos tantos em nossas vidas: uma indiscrição sexual
do passado - tenha sido pensada ou executada - uma deslealdade, uma falha na consciência, um ato violento, um
momento de perda de paciência, uma falha pessoal. Todas as nossas defesas, disfarces e dissimulações pessoais são
reunidas com o objetivo de não sermos descobertos, pois ser descoberto é ser flagrado nu e sem defesa.

Como já disse, todos nós experimentamos a vergonha em diferentes níveis. Normalmente, porém, as
pessoas que sofreram abuso sexual sentem-se marcadas para a vida toda. A exposição do passado as afasta das
pessoas supostamente normais, imaculadas e íntegras. (Não é muito diferente do tipo de segregação que pessoas
sofrem devido a sua condição social ou cor da pele.)

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As manchas do passado parecem colorir a perspectiva de qualquer um que sabe sobre o passado da vítima.
Portanto, para evitar o constrangimento de causar desconforto a outras pessoas, o apoio falso daqueles que não
entendem o dano interior e, pior, a sutil sugestão de que foi sua culpa, parece melhor se esconder embaixo do manto
da negação.

A revelação

A vergonha mostra pretensão e subterfúgio. É semelhante a um teatro: a cortina se abre e, lá no meio, à


vista de todos, está algo que provoca condenação e repulsa: Eu estou despido e derrotado. O que é visto na
revelação? Depende do tipo de vergonha causada pela experiência: uma vergonha legítima ou não.

A vergonha não é um assunto fácil. Envolve uma experiência universal que a maioria das pessoas gostaria
de ignorar, mas também é um conceito complexo. Vergonha pode ser o resultado da exposição do pecado, portanto
legítima e esperada. Entretanto, a exposição do pecado pode gerar uma experiência vergonhosa tão intensa e que
consome a pessoa de tal modo que parece ser difícil que ela venha de Deus.

Por outro lado, muito da vergonha que experimentamos não é devida à exposição de nosso pecado, mas à
revelação de alguma deficiência (melhor dizendo, da percepção de uma deficiência) em nossa dignidade.

A diferença entre vergonha legítima e ilegítima é encontrada no objeto da exposição. Vergonha verdadeira
expõe a depravação e vergonha ilegítima encobre o brilho de algum elemento de dignidade.

Um homem que se sente envergonhado ao tropeçar na frente de um grupo de pessoas é visto como
desajeitado. Seu desejo de ser visto como competente e dono da situação (um aspecto de sua dignidade) foi frustrado
devido à sua deficiência. Mas, por que exatamente ele se sente envergonhado por algo tão imprevisível como um
tropeção? A resposta pode envolver uma observação óbvia: colocamos a culpa nas feridas provocadas por nós
mesmos ou por outros a nossa dignidade pela maioria das dores que sentimos na vida. Somos chamados de
preguiçosos quando esquecemos de fazer a cama, de feios quando não conseguimos arrumar um namorado c de es-
túpidos quando não tiramos boas notas na escola. Cada ataque ignorou nossa corrupção e desprezou algum aspecto de
nossa dignidade.

Agora que nossa dignidade foi ignorada ou diminuída, seremos expostos como pessoas indesejáveis e
provavelmente odiaremos qualquer parte de nosso corpo que tenha causado tal dor. Se foi nosso nariz, então
odiaremos nossa face; se foi nosso nome ou cultura, então vamos querer nos misturar com as pessoas mais claras, as
quais são valorizadas. Mas aquilo que mais odiamos dentro de nós é o nosso desejo de sermos queridos e apreciados.
Se não quiséssemos, então não nos preocuparíamos; se não nos preocupássemos, então não nos envergonharíamos
com a rejeição dos outros.

Isto começa a nos ajudar a entender por que a vergonha é uma parte tão significante do abuso sexual.
Avalie os danos causados à alma quando o abuso se funde aos desejos sinceros do coração. O trigo do profundo
desejo por amor se mistura ao terrível joio do abuso. Desejos se misturam com abuso, o abuso gera vergonha, e esta
se relaciona de modo profundo com o ódio pela própria alma da pessoa. Qualquer abuso significativo leva a vítima a
desprezar o propósito para o qual uma pessoa foi criada: relacionamentos profundos, prazeirosos e eternos com Deus
e com os outros.

Uma jovem com a qual trabalhei sentia náuseas toda vez que seu namorado a abraçava e mostrava algum
sinal de entusiasmo físico. Ela foi forçada a fazer sexo oral com seu irmão mais velho quando tinha quatorze anos.
Ela não acreditava que o abuso sofrido tinha alguma coisa a ver com seu estômago fraco. Via isto como um desvio de
personalidade, mas nada de grave. O que a levou a ver-me foi uma batalha de dez anos contra a depressão. Quando
alguma coisa boa acontecia em sua vida, a depressão se mostrava mais forte.

Um evento poderá esclarecer algumas coisas. Seu chefe lhe havia concedido um aumento inesperado
devido à sua contribuição à companhia. Naquele dia, depois de sair do trabalho, começou a ser tomada por um grande
temor. Surgiram pensamentos de que seu chefe estava preparando o terreno para abordá-la e tentar iniciar um caso.

Seus pensamentos passaram a ser de grande medo quanto a uma série de outros projetos que ela ainda tinha
pela frente, o que a fez sentir-se no meio de um redemoinho de dúvida e desespero. Sem dúvida ela seria descoberta.
Seus pares na empresa certamente ririam ao saber que ela fora recompensada por um trabalho que outras pessoas
haviam realizado como parte de suas atividades normais do dia-a-dia.

Antes de o dia terminar, ela estava em profunda depressão. O caminho para compreender esta situação
tornou-se claro alguns meses após este acontecimento.

Esta mulher não suportava o reconhecimento e o sucesso. Coisas boas despertavam um desejo por aquilo
que ela sabia que mais cedo ou mais tarde iria perder. Mais tarde ela se lembrou de ter orado por muito tempo,
pedindo que seu irmão não entrasse em seu quarto e pedisse para fazer sexo oral. Muitas noites se passariam e a

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quietude da noite somente serviria para sinalizar um momento de horror, precedido pelo som dos passos de seu irmão
em direção a seu quarto.

Certa noite ela implorou que ele a deixasse em paz. Em nenhum outro momento ela havia permitido que seu
desejo por um relacionamento amoroso e limpo tomasse conta dela c, então, ela chorou. Naquela noite ele a
violentou. Depois daquele ato doentio, ela decidiu nunca mais orar ou até mesmo querer ou esperar por alguma coisa.
Seus anseios por alívio foram despedaçados. Sua dignidade foi violada e o horror do abuso misturou-se a seu desejo
por alguém que pudesse limpar suas feridas e confortá-la.

De um modo triste e perverso, o único alívio que ela encontrou foi através da destruição de seu desejo de
fugir. Agora, anos mais tarde, toda vez que alguma coisa boa acontecia, ela se sentia presa e distante do desejo
natural de querer mais. Toda vez que o desejo de ser amada surgia, ela experimentava uma onda de náusea e
vergonha. Desejos e vergonha se juntaram à sua consciência de ser uma mulher cujo único valor era ser usada para
dar prazer a outra pessoa.

Uma boa regra prática pode resumir o ponto principal da história: Ignoramos a questão da corrupção e
sentimos vergonha de nossos desejos por aquilo que Deus planejou para nossa satisfação. Isto deveria ser tão
diferente. Deveríamos sentir vergonha ao menosprezar outro ser humano verbal, física ou emocionalmente, o que
significa uma violação de nosso relacionamento com aquela pessoa e com Deus.

Deveríamos sentir nosso coração quebrantado, humilhado e envergonhado quando não servimos ao Senhor
nosso Deus com todo nosso coração, nosso entendimento e nossa força. Mas é freqüente que ignoremos nossas falhas
em relação a outros, e as falhas dos outros em relação a nós.

Sentimos vergonha quando nossos desejos são expostos e as pessoas ou nós mesmos falhamos em satisfazê-
los. Uma resposta piedosa ao abuso é lamentar tanto os pecados do agressor quanto os danos causados à nossa alma;
mas a resposta mais natural é nos recolhermos covardemente à vergonha, é condenarmos nossa alma por ter sido tão
estúpida em querer, esperar e se arriscar.

A vergonha indevida vem quando falhamos em alcançar aquilo que nosso coração almeja (os desejos que
refletem nossa dignidade) e quando achamos que falhamos em alguma coisa, pois, se eu não tivesse feito issoou se
apenas tivéssemos feito aquilo..., então não estaríamos vazios, solitários e expostos.

A vergonha legítima envolve a exposição da corrupção. Se nosso coração não partir para a autojustificação
ou negação e se o Espírito de Deus estiver em nós, então seremos levados à luz de sua presença e seremos sondados
por seus olhos penetrantes.

É a bondade de Deus que orquestra os momentos de nossa vida de modo que nosso coração seja provado e
depois humilhado, que ele tenha fome do pão que sai da boca de Deus (Dt 8:2-7; 15-18). A vergonha legítima vem da
humilhação bíblica. É o reconhecimento de nosso estado de desespero e a resposta à nossa deplorável condição de
rebeldia, merecedores que somos de condenação e morte.

A história do filho pródigo é um exemplo de humilhação bíblica (Lc 15:11-32). Ele foi forçado a enxergar
sua condição desesperadora através da provação e orquestração divina de cada evento em sua vida. Seu estômago
roncou e ele percebeu que sua condição era péssima. Estava comendo a comida dada aos animais impuros que seu
povo não comia. Então, ele se humilhou e voltou à casa de seu pai. Correu o risco de ser mandado embora ou de
zombarem dele.

O que ele encontrou, porém, foram as riquezas da misericórdia que provavelmente destruíram qualquer
remanescente de orgulho. A vergonha legítima, em outras palavras, sempre leva a um sentimento de estar sendo
erguido por Deus para possuir aquilo que é inesperado e imerecido (Tg 4:9-10).

Uma das melhores descrições do poder da vergonha é encontrada no livro The Great Divorce, de C. S.
Lewis. Um dos sombrios viajantes de um ônibus que vinha de um tipo de inferno sofria de exacerbado desejo de se
esconder dos outros. O diálogo entre este espírito fantasmagórico e um espírito angelical é digno de reflexão:

— Como é que eu posso sair assim, na frente de um monte de pessoas que têm corpos reais e sólidos? É
muito pior do que teria sido sair sem roupa alguma, quando eu estava neste mundo. Todos ficariam olhando
para mim.

— Ah, entendo. Mas todos nós tínhamos algo espiritual quando chegamos, como você sabe. É hora de isto
aparecer. Apenas saia e experimente.

— Mas eles vão me ver!

— E o que importa se eles o virem?

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— Eu preferiria morrer
—Mas você já morreu! Não há proveito algum em tentar voltar. O fantasma produziu um som como algo
entre um soluço e um resmungo.

— Preferia nunca ter nascido. Para que nascemos? — perguntou o fantasma

— Para termos felicidade infinita — disse o espírito. — Você pode sair neste exato momento...

— Mas eu estou lhe dizendo que eles vão me ver!

— Daqui a uma hora você não vai mais se importar. Daqui a um dia você estará rindo disto. Você não se
lembra das coisas lá da terra - não havia coisas muito quentes para tocar com seus dedos, mas que você conseguia
beber facilmente? A vergonha é semelhante a essas coisas. Se você aceitá-la - ou seja, se você beber tudo o que está
no copo - vai achá-la bastante nutritiva; mas, se tentar fazer alguma coisa diferente com ela, vai se queimar2.

O fantasma lutava contra a vergonha de ser visto e conhecido. O espírito lhe ofereceu vida, mas o processo
implicava o envolvimento com a vergonha - ou seja, beber o líquido quente de forma que ele transportasse a alma da
morte para a vida. Se tudo acontecesse sem que se encarasse a vergonha, ela o destruiria; se fosse consumida, ela até
poderia ferir, mas, no final, traria perspectiva e alívio.

A vergonha é um excelente método de expor como realmente nos sentimos quanto a nós mesmos, o que
exigimos dos outros e de nós, e onde acreditamos que a vida pode ser encontrada. Ela faz com que as estratégias
usadas para lidar com um mundo que não está sob nosso controle sejam menos terrenas.

O medo das conseqüências

Outro elemento envolvido com a questão da vergonha é o resultado antecipado de ser descoberto: rejeição.
Quase sempre a rejeição é um subproduto do ser visto como deficiente, mesmo quando a exposição envolve uma
falha de menores proporções. Uma amiga minha rumina sua vergonha todos os dias, devido ao fato de nunca
comparecer a um compromisso no horário. Ela via isto como um terrível erro que seria lembrado por anos pelos
membros do grupo social ao qual ela queria se juntar. Seu erro não era um pecado; contudo, sua dignidade manchada
seria como a marca de Caim, algo que a assombraria por toda a vida.

Se a vida e o relacionamento contínuo com nosso falso deus depende da qualidade do sacrifício, então o
desempenho é algo importante na vida. A tensão por nos mantermos próximos às nossas pretensões será terrível. Se
nos falta algo que é exigido, então pagaremos o preço exato da falha. O custo pode ser nossa vida ou a razão para
viver. Portanto, freqüentemente não se considera um grande sacrifício o fato de abandonar a família, a saúde ou o
relacionamento com Deus se o objetivo é um alívio temporário da pressão.

O temor de ser descoberto é suficiente para alimentar uma negação radical, o prazer pelo excesso de
trabalho (um tendência muito em moda nos dias de hoje é chamarmos esta pessoa de workaholic), o perfeccionismo,
a autocomiseração e uma legião de outros distúrbios. Mas tememos muito mais coisas do que a simples perda de um
relacionamento. Tememos nunca mais sermos apreciados, desejados e seguidos pelas pessoas se nossa alma escura
for descoberta. Deixe-me ilustrar. Tive uma briga com minha mulher que terminou com palavras duras e acusações.
Dei as costas a Becky, enfurecido. Apesar de ela estar apenas do outro lado da cama, parecia que ela estava do outro
lado do universo.

Depois de algum tempo, percebi que minhas declarações tinham sido absurdas, infundadas e cruéis. Sequer
conseguia imaginar como ela voltaria a conversar comigo um dia. Queria dizer que estava arrependido, mas isto
parecia tão vago quanto pedir desculpas por ter assassinado alguém. Como pude ser tão desprezível? No que ela
estaria pensando? Será que ela aceitaria minhas desculpas? A vergonha tomou conta de mim, como água fria
enchendo os porões de um navio prestes a naufragar. Por mais irracional que possa parecer, dada a espiritualidade de
minha esposa, eu não conseguia imaginar que ela ainda quisesse se relacionar comigo.

O evento que inicia o processo e a vergonha dele resultante é pior que ser rejeitado, porque a rejeição pode
simular o caminho através do qual podemos ser aceitos novamente. O medo envolvido na vergonha é o do exílio ou
abandono permanente. Aqueles que virem nosso interior reprovável ficarão tão enojados que seremos tratados como
leprosos proscritos da sociedade para sempre.

Confiança que dá autoridade

Os três componentes da vergonha - exposição, revelação e as conseqüências - são relativamente complexos,


mas o que complica ainda mais a questão da vergonha é seu último aspecto: confiança.

A vergonha é o resultado de uma falha de confiança. Confiança é a entrega da alma a uma pessoa com a
esperança de que ela não será usada de modo a causar-lhe algum dano. Esta confiança dá ao outro o poder de decidir
se somos dignos ou não de aceitação e interesse. Quando não há confiança, definida como a autoridade conferida a

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alguém para decidir se temos valor e se somos desejáveis, normalmente não se experimenta a vergonha, ainda que
nossa corrupção ou dignidade sejam expostas.

Vejamos um exemplo. Eu provavelmente não sentiria vergonha ao ser pego em uma atitude vulgar, a não
ser que me importasse com sua opinião sobre mim. Se meu objetivo é ofendê-lo, então o fato de ser pego cometendo
um ato reprovável vai me alegrar. A vergonha é vivida diante daquele a quem eu nomeei ou dei o direito de ser meu
juiz. Em última instância, esta é uma prerrogativa apenas de Deus. Dar este privilégio - na essência, a oportunidade
de entregar a vida ou retratar-se - a alguém que não seja Deus é idolatria. Este conceito nos ajuda a esclarecer ainda
mais a diferença entre vergonha legítima e falsa.

Idolatria é colocar nossos desejos nas mãos de outra pessoa que não seja Deus. Estou criando falsos deuses
quando vivo para minha esposa ou para meu trabalho. Quando me sentir desapontado (e posso ter certeza absoluta de
que um deus falso será incapaz de atender minhas mais profundas necessidades), então vou experimentar a vergonha
da falha e da falsa confiança. Os autores das Escrituras deixam claro que a dependência de um falso deus vai resultar,
inevitavelmente, em perda, dor e vergonha (Is 42:17, 44:9-11). Um falso deus vai desapontar.

Uma amiga lembra-se de uma ocasião em que esperou seu pai no aeroporto, durante uma escala de duas
horas. Dois dias antes de seu vôo, os dois planejaram este encontro no aeroporto. Como era ela quem esperava por
ele, um certo temor passava por sua mente, pensando que ele poderia esquecer o compromisso. Isto fez com que ela
se precavesse no sentido de não colocar grandes esperanças em seu pai, que tinha tempo para todas as pessoas, exceto
para ela.

Ela esperou com paciência, preparando-se cuidadosamente para falar as coisas que gostaria de compartilhar
com ele. O tempo passava e ele não aparecia. Depois de uma hora, ela desistiu de ficar olhando e decidiu ler um livro.
Todas as vezes em que procurava ver se ele havia finalmente chegado, uma onda de vergonha e de ódio contra si
mesma percorria sua mente. Sua esperança de se conectar a um homem que era seu falso deus - aquele que podia dar
ou reter a vida - havia sido falsa; ela se sentiu envergonhada.

Mas do que ela se envergonhara? A resposta envolve duas forças inter-relacionadas: a dor do desejo não
satisfeito e da confiança na coisa errada. "Estou sozinha e isto é culpa minha/sua. Nunca deveria ter pedido a você
que viesse. Se eu fingisse que você estava morto, então viveria sem dor". Desejos básicos expostos fazem com que a
pessoa se sinta desprotegida e vergonhosamente sozinha.

O segundo aspecto, a confiança na coisa errada, implica a exposição da insensatez. Como pude ser tão
idiota em acreditar que um pedaço de uma árvore, que uso tanto para fazer uma fogueira quanto para esculpir um
ídolo, poderia me livrar das dificuldades da vida? Como pude acreditar que um ídolo esculpido pelas minhas próprias
mãos poderia salvar minha alma? A. W. Tozer fala sobre isto: "Os presentes de Deus agora tomam o lugar de Deus e
toda a natureza está triste com esta monstruosa substituição3".

A vergonha da insensatez se apresenta toda vez que nosso falso deus permanece morto e surdo, incapaz de
curar as feridas de nossos corações. O homem que sofreu um abuso sexual, por exemplo, normalmente deposita sua
confiança em si próprio após ter sofrido o abuso. Ele desenvolve um conjunto mental de invulnerabilidade de forma a
compensar o momento assustador em que ele esteve extremamente impotente.

Um número significativo de clientes meus eram corredores de longa distância, levantadores de peso e
machões que se arriscam em qualquer área. Freqüentemente expressavam a mesma atitude de controle e
invulnerabilidade recusando-se a sentir qualquer emoção ou demonstrar fraqueza ou intimidade (não sexual) com
outra pessoa. Sua conduta era sempre fria, dura e controlada. A mensagem era clara: "Fui violado certa vez e nunca
mais vou me permitir perder o controle. Nunca mais demonstrarei impotência na presença de outra pessoa".

Um policial que havia sido violentado por um primo mais velho literalmente tremia de ansiedade toda vez
que precisava parar um carro por excesso de velocidade. Ele queria que o motorista resistisse à sua autoridade e o
desafiasse, de modo a poder conquistar sua vítima. Toda vez que era repreendido por seu superior ou confrontado por
um parceiro, ele sentia um desejo enorme de destruí-los com fúria violenta. Seu comportamento reservado - ainda que
levemente arrogante e independente - encobria uma extrema vergonha que surgia todas as vezes que alguém o
menosprezava. O falso deus do controle total sobre os outros zombava dele quando seu desempenho não era bom.
Falsos deuses podem assumir várias formas. Podem ser pessoas, objetos ou ideais. Uma questão central quando nos
referimos a falsos deuses é a segurança que pensamos ter em suas ministrações. Quando elas falham ou quando
percebemos que ficaremos desapontados com elas, a vergonha de nossa independência aliada à rebeldia e à nossa
solidão inundam nossa alma.

A vergonha legítima é bastante diferente. Se reconhecemos a Deus como o único e verdadeiro, aquele que
tem o poder de determinar nossa aceitabilidade, então vamos nos sentir tristes, e não envergonhados, quando
sofrermos perdas ou desapontamentos. O profeta Isaías, falando do Servo Sofredor, reflete esta esperança numa
declaração que é o fundamento para lidar com a injustiça e com o desagradável mau uso dela:

Ofereci as costas aos que me feriam, e as faces aos que me arrancavam os cabelos; não escondi o meu

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rosto dos que me afrontavam e me cuspiam. Por que o Senhor Deus me ajudou, pelo que não me senti
envergonhado, por isso fiz o meu rosto como um seixo, e sei que não serei envergonhado. Perto está o que
me justifica; quem contenderá comigo? Apresentemo-nos juntamente; quem é o meu adversário? Chegue-
se para mim. Eis que o Senhor Deus me ajuda; quem há que me condene?
Is 50:6-9

O Servo do Senhor entendia que a fé não era um escudo protetor contra a brutalidade daqueles que batiam
nele ou contra a ignomínia daqueles que arrancaram sua barba. Naquela cultura, nada poderia ser mais vergonhoso do
que ter a barba arrancada. Portanto, ninguém poderia colocar-se como seu acusador e envergonhar sua alma, porque o
Pai era seu advogado e juiz.

A vergonha legítima (ou seja, encarar nossa falha com confiança em Deus) é a base para nosso retorno ao
Pai. Para muitos, confiar em Deus significa depender dele para que nosso corpo e nosso mundo permaneçam intactos.
Mas esta não é a confiança bíblica em sua essência. Confiança implica depender de Deus naquilo que é mais
essencial a nosso ser: a integridade de nossa alma. Retornar ao Pai nos assegura que ninguém poderá envergonhar,
prejudicar ou possuir nossa alma - o cerne daquilo que somos, aquilo que vai viver eternamente com Deus - não
importa o que seja feito a nosso corpo, à nossa reputação ou à nossa segurança.

Todos estes aspectos fazem da vergonha algo que prontamente rejeitamos, como se estivéssemos para
entrar numa sala cheia de serpentes venenosas. Cobras podem ser evitadas, mas a vergonha em potencial paira sobre
a cabeça de todos os seres humanos como uma nuvem escura. As estratégias disponíveis para lidar com o temor da
exposição são tão diversas, complexas e particulares quanto o número de seres humanos. Mas há um denominador
comum que se destaca: o desvio de nosso pecado através do uso da crítica ou, em palavras talvez mais familiares,
colocar a culpa em outra coisa.

Em Gênesis 3, Adão sentiu vergonha e usou folhas de figueira para encobrir sua nudez. Quando foi
descoberto, não se arrependeu; ao invés disso, culpou a Deus e a Eva por sua decisão fatal de comer o fruto.
Condenou Deus por sua criação. Ele dirigiu seu ódio a Deus e através da crítica anulou a necessidade de um humilde
arrependimento.

Como filhos de Adão, não podemos nos omitir da necessidade de humilhação usando os mesmos artifícios
usados por ele. Ao encarar uma vergonha muito maior do que a da maioria das pessoas, aquele que sofreu o abuso
tem uma tendência muito maior de lançar mão de um desvio radical para esconder sua ferida e sua ênfase à
autoproteção.

Vamos agora analisar o papel da crítica ao nos desviarmos da obra de Deus.

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CAPÍTULO 03

Desvio: Em Choque com a Crítica


A pessoa que sofreu abuso sexual vive uma luta. Em última instância, o inimigo é o Maligno e o caminho
de lealdade a ele: rebelião, autonomia ou, em outras palavras, pecado. O problema é que Satanás é ardiloso e seu
modo de agir é sutil.

Todo pecado é aparentemente justificável e coerente, conforme a situação em que é cometido, sendo
também raramente visto como desonroso ou intencionalmente contrário a Deus. Uma palavra mais ríspida ou uma
pequena falta de sensibilidade parecem ser ofensas mínimas - considerando as tantas coisas que somos capazes de
fazer - e aceitáveis - se olharmos o mundo através de nossa ótica.

Mesmo as mais severas expressões de pecado - adultério, desonestidade, calúnia ou ganância - parecem
menos horríveis quando se leva em conta o contexto. Um caso extraconjugal é algo reprovável, mas se você visse
como sou infeliz ou como está meu casamento, então é possível que eu não seja criticado, podendo até ser
compreendido e, talvez, perdoado.

De fato, o pecado parece a alternativa mais razoável, racional e de senso comum para um mundo caído,
assustador e potencialmente perigoso.

À primeira vista, o caminho e a perspectiva de Deus parecem completamente absurdos. O apelo para deixar
a vida a fim de encontrá-la, a promessa de que os pobres de espírito serão abençoados, tudo isso vira nosso mundo de
cabeça para baixo e viola nossa compreensão natural, ainda que esta seja uma visão maculada pela queda.

Se o pecado é algo sutil e eminentemente razoável, e a diretriz divina é paradoxal e absurdamente


impraticável, então parece legítimo pensar que aquilo que consideramos normal seja realmente algo insano. E aquilo
que consideramos como aceitável ou mesmo piedoso pode ser arrogância e rebeldia contra o Criador.

As categorias nas quais encaixamos os pecados muitas vezes excluem outros elementos que englobam
igualmente a determinação em buscar vida fora do relacionamento com Deus. Esta determinação compreende uma
interação sutil e nociva de vergonha e crítica

O que é crítica?

A crítica é melhor compreendida através de seu modo de atuar. Considere como você lida com a situação de
ter perdido as chaves do carro, ou como lhe afeta o fato de esquecer uma data importante. Quais palavras você utiliza
ao perceber que fez alguma coisa boba ou estúpida? Um amigo meu descreve estes episódios como "oportunidades
para bater em si mesmo": "Como você pôde ser tão bobo, seu idiota?" ou "Por que você não presta mais atenção nas
coisas, seu estúpido?".

Alguns podem considerar este diálogo interior como sendo um problema ou um sinal do pecado da
arrogância. Nos piores casos isto seria visto como o resultado de uma auto-imagem debilitada. Há possibilidade de
esta auto-imolação ser mais perniciosa ainda?

Considere também como é nossa reação interna às críticas negativas. Normalmente dizemos: "Obrigado por
sua opinião. Vou considerar seriamente suas colocações à medida que caminhamos no projeto". Mas, lá dentro,
estamos dizendo ao nosso interlocutor: "Seu arrogante! Como você ousa criticar a minha abordagem quando você
nem sequer é um especialista na sua própria área?!".

O comentário não é levado em conta pelo fato de o caráter ou a competência daquele que o fez ser
esmiuçado sob o microscópio da condenação. Tanto a reação pela perda das chaves quanto pelo comentário do colega
envolvem o uso da crítica como meio de abrandar o potencial da vergonha.

A vergonha legítima tem o poder de expor o pecado. Ela destrói a aparentemente impenetrável máscara da
idolatria e rasga o coração de modo a expor aquilo que serve de base para a vida e esperança de uma pessoa. Mas
normalmente considera-se a luz muito brilhante e perturbadora; como conseqüência, o homem caído busca refúgio
em um escudo que desvie a luz da intrusão de Deus, que é o poder da crítica.

A crítica é algo absurdo no sentido de que aumenta inevitavelmente a vulnerabilidade do homem enquanto
o capacita a conseguir um aparente controle que o protege da dependência de Deus. A crítica é a principal arma
contra a humilde obra de Deus. Compreender os efeitos de se viver em um mundo caído, seja no âmbito do abuso
sexual ou de um modo geral, exige uma perfeita compreensão do que vem a ser a crítica.

Crítica é condenação, é um ataque contra aquilo que se mostra como a causa da vergonha. O ataque é

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lançado com ódio, veneno e fria crueldade, ainda que tudo isso possa ser dissimulado por um sorriso gentil e uma
exortação carinhosa. A condenação pode ser direcionada à pessoa cujos olhos estão nos penetrando ou contra aquele
elemento de nosso ser responsável pela revelação de algo vergonhoso.

A vergonha é um fenômeno visual. Quando alguém se envergonha, os olhos baixam e os ombros cedem. A
pessoa envergonhada deseja, mais do que qualquer coisa no mundo, tornar-se invisível ou suficientemente pequena
para que o foco das atenções se desvie dela, de modo a estancar a hemorragia da alma.

Como a pessoa envergonhada lida com essa situação? De algum modo, os olhos daquele que a encaram
precisam ser desviados ou destruídos. Para tanto, existem duas opções: a pessoa envergonhada pode desviar seus
olhos do olhar penetrante e focá-los em seus elementos internos causadores da vergonha; ou então poderá atacar
diretamente os olhos de seu "inimigo" com o veneno de seu ódio, de modo a cegá-los, anulando assim o seu poder.

A primeira opção - a autocrítica exacerbada - e a segunda - criticar os outros - apesar de diferentes na forma
são similares na função. Tanto a forma como a finalidade da crítica têm profundas implicações sobre aquele que
sofreu abuso sexual.

As formas da crítica

A crítica é muito pouco compreendida. Na melhor das hipóteses, a autocrítica está associada à uma auto-
imagem negativa, enquanto que a crítica aos outros é vista como uma grande falta de consideração pelas pessoas.
Esta conclusão pode ser acurada, mas é tristemente incompleta.

A crítica, ainda que objetive a orientação, pode ser feita de várias formas. É melhor pensarmos nas
variações da crítica numa graduação que vai de muito severa até pouco severa.

Muito Moderadamente Levemente Pouco


Severa Severa Severa Severa
__________ ______________ ___________ ______________
Fisicamente Pessoalmente Avaliação Desconforto em
Destrutiva Destrutiva Crítica Relacionamentos

Críticas muito severas

Uma mulher que sofreu abuso durante vários anos começou a se consultar comigo. Ela já havia trabalhado
com vários outros conselheiros, de modo que nosso trabalho progrediu rápidamente no sentido de ela aprender a lidar
com a vida. Entretanto, no momento em que começamos a abordar a questão de relacionamentos com homens, ela foi
tomada de terror. Nosso trabalho foi doloroso, mas produtivo.

Em uma sessão muito especial discutimos uma série de eventos que revelaram uma profunda rejeição a seus
desejos de se relacionar com um homem. Ela foi a extremos para depreciar sua beleza física e de sua alma. À medida
que ouvia e refletia com ela, fui tomado por uma grande tristeza diante de seu ódio, e chorei. Ela estava tomada pelo
medo. Um olhar de extremo ódio cobriu sua face e fiquei confuso. Ela era incapaz de colocar seus sentimentos em
palavras e, então, nossa hora acabou.

Na sessão seguinte, ela compartilhou o profundo desejo que sentiu de castigar-se fisicamente depois
daquela última sessão. Ela saiu de meu consultório e foi para casa dirigindo em altíssima velocidade. Mais tarde,
resolveu caminhar por um lugar da cidade conhecido como "beco do estupro". Dormiu pouco, alimentou-se mal e foi
ao trabalho sem qualquer piedade de si mesma. Queria arrancar as unhas, arranhar-se até sangrar e retomar alguns
hábitos de bulimia. Também sonhou com minha morte em um grave acidente automobilístico. Não é preciso dizer
que foi um dos piores finais de semana de sua vida. Ela estava repleta de críticas sobre si mesma e sobre os outros.

Crítica muito severa é vista como um desejo de causar dano físico a si mesmo ou a outros. É o desejo de
destruir, ou pelo menos danificar, através de atitudes de total desprezo ou desconsideração de si mesmo, algo além
dos limites humanos. Pode ser tanto explícito, como no caso de um suicídio, quanto dissimulado, como a vontade de
se entupir de doces. Em ambos os casos o corpo é punido por existir ou por desejar. Em outros casos, há um desejo
de destruir passiva ou ativamente a pessoa que provocou o desejo na alma.

Críticas moderadamente severas

Certa vez, uma mulher, bastante conservadora na indumentária, exibindo um comportamento de aluna
assídua da escola dominical, contou-me sobre seus desejos de apanhar e de ser violentada por uma gangue de homens
rudes. O único modo de chegar ao orgasmo durante as relações com seu marido era fantasiar aquela situação. Em
outros momentos ocasionais, esta mesma mulher imaginava pendurar um homem sem rosto numa árvore por seus
genitais ou humilhá-lo verbalmente por alguma ofensa mínima. A essência de sua fantasia era degradação e abuso.

Pensamentos violentos, palavras ou imagens são como um facão que separa a alma da vida. A excitação

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obtida com a visão das imagens violentas atua como um anestésico que anula as conseqüências devastadoras que uma
perda pode causar.

Críticas moderadamente severas podem ser vistas como uma fantasia de vingança muito bem elaborada. O
funcionário frustrado que sonha em encontrar uma saída para reivindicar seu valor para a companhia - economizando
milhões de dólares que aquele seu chefe estúpido gastaria por sua negligência e incompetência - está usando a crítica
dirigida a outras pessoas para conquistar novamente o controle e o respeito.

Críticas levemente severas

É a forma de crítica mais comum e mais fácil de ser reconhecida, o que faz com que ela ocorra sem ser
classificada como crítica. Trata-se de uma avaliação comparativa de si mesmo ou de outra pessoa na qual aquele
considerado inferior é aconselhado ou exortado a melhorar seu desempenho.

Imagine sua reação de adolescente ao notar uma mancha no rosto ou, como adulto, ao derrubar uma bebida
no colo. O diálogo interior pode ser violento, cheio de palavras impublicáveis, mas o resultado é quase sempre uma
grande disposição em fazer as coisas de modo diferente.

Um amigo meu não consegue jogar tênis sem criticar seu desempenho a cada lance. Ele analisa e critica
cada jogada ao mesmo tempo em que se força a melhorar. Sua justificativa é de que seu jogo melhora à medida que
faz mais críticas à sua atuação. Ele se sente energizado e compelido a jogar melhor, de modo que não sente o gosto
amargo de sua auto-flagelação. De um modo muito semelhante, as comunidades cristãs incentivam a autocrítica de
modo a aumentar a santidade. Por exemplo, se você se condenar o suficiente com relação à masturbação, então é mais
provável que você não cometa o ato sem que tenha uma terrível dor na consciência.

A crítica dirigida aos outros é evidente em todas as situações em que se descobre a falha em alguém, e a
motivação não é o amor. É um meio para diminuir algumas dificuldades internas que normalmente estão ligadas a um
sentimento de ser exposto como indesejável ou inadequado. Condenar outros de modo público ou privado os mantém
numa posição em que podemos controlá-los livrando-nos dos danos que possam nos causar.

Uma mulher que tenha sofrido abuso sexual normalmente vê amplas oportunidades de destruir sua alegria
de ser mulher mediante avaliações negativas de seu rosto, corpo, roupas ou modo de se relacionar - especialmente
quando compara com outras mulheres. Uma mulher atraente pode acolher um ódio profundo por seu próprio corpo e
ainda avaliar a beleza de outras mulheres de modo bastante crítico.

Críticas pouco severas

Uma amiga minha era incapaz de receber um elogio, ainda que sua vida dependesse disso. Ela não
suportava a intensidade que o relacionamento atingia quando alguém gostava de algo que ela fazia. Se você gostasse
de sua comida, ela acharia algum defeito para comentar. Se dissesse a ela que apreciava sua amizade, ela respondia
que era apenas uma humilde serva. Se você apontasse sua dificuldade em receber elogios, ela ficaria triste por horas.

É difícil lidar com uma pessoa que denigre sua própria beleza, bondade e habilidades, pois ela é
extremamente rápida em descobrir o ponto negro existente no quadro branco do seu elogio. Ela pode parecer
humilde, mas na verdade o que existe é uma grande arrogância em aceitar o presente da bondade dos outros.

Em muitos casos este desconforto em receber elogios se deve a um profundo senso de autodesvalorização
(autocrítica) ou a dúvidas quanto à veracidade das palavras elogiosas (crítica dirigida aos outros). A consequência
desta atitude é que ela não permitirá que alguém faça qualquer tipo de movimento no sentido de tocá-la, nem se
permitirá gozar de um relacionamento de mútua alegria. Para uma pessoa que teme aprofundar a alegria de se
relacionar com outros, qualquer intimidade deve ser imediatamente banida antes que se intensifique.

As pessoas que sofreram abuso sexual freqüentemente carregam a crítica como um antídoto para a "picada"
do prazer. O mais leve contato com outra pessoa que gere alegria ou prazer é sentido como um veneno que pode levar
as duas partes a uma espiral destrutiva de luxúria ou vingança. Uma mulher me disse: "Você não sabe o que sou
capaz de fazer se descobrir que alguém realmente gosta de mim. Tenho receio de que possa fazer qualquer coisa,
inclusive algo imoral, para manter seu interesse. É melhor para nós dois se eu ignorar ou até mesmo duvidar de sua
bondade".

A crítica, em qualquer de suas formas, age com um propósito: quase sempre evitar que o crítico machuque
outras pessoas, ou relembre do abuso que feriu sua alma. Uma abordagem um pouco mais profunda da função da
crítica vai ajudar a vermos sua inutilidade para a vítima de abuso sexual.

As funções da crítica

Muitos de nós nos sentimos confusos com aquilo que fazemos. Algumas coisas saem de nossa boca sem
terem sido ponderadas anteriormente. Por que eu brinquei com minha esposa sobre seus cristais da Boêmia? Porque

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para mim era uma coisa boba e eu realmente não entendo nada daquilo. E quem se importa com isso? Que diferença
faz eu saber ou não o propósito do meu comentário?

A resposta é complexa. Saber o porquê abre as portas para a possibilidade de ver a imensidão do problema
e a necessidade de algo mais do que simplesmente uma mudança de comportamento. No melhor dos casos, a
consciência da motivação por trás do comportamento revela a teia em que está nosso desejo decaído e cria uma
desesperada ansiedade por uma intervenção de Deus para nos resgatar deste escuro labirinto.

Um insight1* apenas não é capaz de fornecer o impulso necessário para mudar um comportamento
destrutivo: ele apenas cria o contexto para um arrependimento mais profundo. Na pior das hipóteses, a compreensão
do que motivou aquele comportamento pode levar a uma dúvida atroz, a uma introspecção que absorve a pessoa e a
um distanciamento do foco relativo às questões do pecado, da salvação e da santificação. A solução, é claro, está no
coração do explorador.

A pessoa que, do mais profundo do seu ser, clama a Deus dizendo: "Senhor, vê se há em mim algum
caminho mau", será, por fim, abençoada com a visão de seu próprio pecado e a provisão da graça de Deus. Aquele
que explora a motivação humana sem levar em conta o desejo de estar livre do pecado ou a profunda necessidade de
um Salvador vai se debruçar sobre o problema da motivação sem a necessária convicção ou disposição para mudança.
Agora gostaria de explicar como a crítica funciona, de modo que nos esclareça a questão do pecado e o caminho a ser
trilhado para mudar.

Por que alguém usaria a crítica? De um modo bem simples, a motivação presente na crítica é similar ao
ataque de Adão contra Deus: desviar os olhos do Criador. Se formos capazes de desviar o olhar do Senhor, então
talvez nos seja possível fugir das conseqüências de nosso pecado. A crítica nos serve de quatro maneiras: ela diminui
nossa vergonha, enfraquece nossos desejos, faz com que nos sintamos no controle da situação e distorce o problema
real.

Diminuição da vergonha

A crítica tanto cega os olhos do observador (a crítica dirigida a outra pessoa) quanto desvia os olhos do que
está envergonhado da direção do observador (autocrítica). Em ambos os casos, o efeito é o mesmo: a experiência da
vergonha é diminuída. As duas formas de crítica podem ser usadas alternadamente, atacando a si mesmo e atacando o
outro. Apesar disso, na maioria dos casos uma pessoa vai se sentir mais à vontade e predisposta a usar uma forma de
crítica em detrimento da outra.

A vergonha sempre inclui um aspecto de ansiedade. O que acontecerá quando eu for descoberto: serei
abandonado ou as pessoas rirão de mim? Psicólogos behavioristas2* descobriram que relaxamento, despertamento
sexual e raiva são incompatíveis com ansiedade. É impossível sentir ao mesmo tempo a corrosiva incerteza da
ansiedade e a pulsante energia da fúria. Um dos dois vai vencer e, na maioria dos casos, quem prevalece é a raiva -
algumas vezes violenta e ostensiva, em outras mansa e traiçoeira - como uma forma de expulsar a incerteza da vergo-
nha. Diante da crítica, o sentimento de vergonha não c capaz de frear a pessoa; ao contrário, vai impulsioná-la na
direção oposta à temida revelação, que a deixaria exposta.

Enfraquecimento dos desejos

Ao passar por uma situação vergonhosa, o desejo por aquilo que o coração anseia intensifica a angústia da
alma. A maioria de nós, portanto, se compromete a evitá-la ou, se possível, a destruir tudo aquilo que intensifica a
tristeza em nosso mundo imprevisível e perigoso. Para os homens e mulheres que sofreram abuso sexual, um dos
maiores inimigos da alma é a carência de intimidade. Sentir - e, especialmente, sentir que está vivo - um forte desejo
por aquilo para o que Deus nos criou traz à memória a mancha do abuso sofrido.

O abuso - afogado no mar da negação ou sempre presente como um pesadelo diurno - ameaça destruir a
vítima caso ela relaxe sua vigília e abaixe a guarda. De um modo singular, sentir-se bem em um relacionamento abre
as portas do horror passado e do futuro aterrorizante.

Trabalhei com um grupo de mulheres solteiras que sofreram abuso sexual. Em um certo momento de seu
tratamento voltado à mudança pessoal, ocorreu um relaxamento e uma libertação de suas almas, o que aumentou a
beleza de suas almas e de seus corpos. Aconteceram muitos relacionamentos amorosos sérios nesse período. A
concretização potencial de um desejo oculto - casar-se - freqüentemente traz de volta as lembranças do passado, a
exacerbação dos problemas atuais e uma forte ambivalência com relação ao futuro: por um lado, o desejo de que o
relacionamento progrida e, por outro, a sabotagem do resultado.

Provérbios 13:12 diz: "A esperança que se adia faz adoecer o coração". A pessoa que sofreu o abuso perdeu

1*Termo usado pela Psicologia e que significa uma compreensão repentina, e, em geral, intuitiva, das próprias atitudes e comportamentos, de um problema ou de uma
situação. (N. do T.)
2* De Behaviori smo: restrição da psicologia ao estudo objetivo dos estímulos e reações verificadas no físico, com desprezo total dos fatos anímicos (pertences à alma;
psíquicos). Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda, verbetes Behavi orismo e anímico. (N. doT.)

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as esperanças e, em muitos casos, é cética quanto a recuperar o desejo de intimidade ou de justiça. Isto parece muito
intrincado. A pessoa que vem trazer esperança e vida é vista como um inimigo; aquele que ignora, usa ou prejudica é
recebido como um velho amigo e amante.

Muitas mulheres que sofreram abuso terminam em trágicos relacionamentos nos quais sofrem novo abuso.
Um fator presente nesta escolha é o compromisso inconsciente de procurar alguém que certamente vai causar perdas,
de forma que a esperança nunca seja profundamente afetada.

A crítica é um anestésico cruel dos desejos. Ao mesmo tempo em que condeno a mim mesmo, bloqueio
tanto a possibilidade de você pôr em prática qualquer iniciativa de aproximação, como o meu desejo de que você se
importe comigo. Quando condeno você, sinto-me livre para acreditar que não desejo nada de você. Em ambos os
casos, a crítica mata os desejos.

A ilusão do controle

O homem decaído trabalha arduamente, às vezes chegando aos limites psicóticos, para obter um controle
mágico de sua vida, inventando respostas aos "por quês" e "comos" que estejam além de sua compreensão. Você já
notou a propensão que temos de explicar a existência de Deus quando ocorrem situações difíceis em nossa vida? Há
um desejo quase incontrolável de encontrar uma "razão" para o sofrimento. Deve haver uma abordagem que nos
ensine e traga conforto, mas muitos relutam em aceitar o incontrolável e misterioso, até que encontrem uma
explicação que faça sentido.

É isto o que acontece particularmente nos casos que envolvem perdas pessoais. Por que não sou casada?
Por que meu marido me deixou? Por que meu pai abusou de mim sexualmente? Perguntas relativas ao sofrimento
humano afastam a alma da prazeirosa aspiração por justiça. A vida é justa? Ou a iniquidade e a desigualdade expõem
os aparentemente bem tratados jardins de nossas vidas de modo que se possa ver o horrível mato da Queda? Para
muitos, a realidade nua e crua do mundo caído é algo insuportável; portanto, é necessário buscar explicações mais
aceitáveis e mais controláveis. A crítica produz um estranho antídoto para a luta contra a confusão, o pavor e a falta
de esperança.

Considere a utilidade da autocrítica ao lidar com um abuso sexual já passado. Uma mulher contou-me que,
aos cinco anos, ela era aparentemente muito sexy para seu pai, de um modo tal que ele não conseguia resistir.
Justificou a conduta hedionda dele colocando a culpa em si mesma. Ela não precisava encarar sua tristeza, a não ser
que estivesse vivendo de fato no erro.

Provavelmente esta explicação deu a ela os meios para organizar e controlar sua vida. Se ela sofreu um
abuso por ser muito atraente, então bastava esconder qualquer parte de seu corpo - e até de seu espírito - que um
homem pudesse considerar atraente. Suas roupas eram extremamente simples; seu comportamento era terrivelmente
chato. Sua crítica deu-lhe uma explicação para o ato ocorrido no passado e um plano para viver de modo seguro neste
mundo.

Outra cliente enfrentava sua autocrítica de um modo bastante diferente. Ela via a si mesma como uma
mulher vulgar, oferecida e sedutora que adorava ludibriar homens indefesos. Sua autocrítica era usada como uma
arma para ultrajar os homens que, inadvertidamente, se deixavam levar por seu charme. Sua estratégia era atrair e
depois frustrar a vítima até um ponto em que ele rompesse em lágrimas ou explodisse em ódio. Em várias situações
ela foi agredida ou violentada por suas vítimas.

Podemos ver nesse exemplo a assustadora relação entre os dois tipos de crítica. Ela possuía um plano
baseado na crítica que lhe dava um falso senso de controle sobre seus desejos. "Sou uma pervertida. Por que deveria
desejar um relacionamento com alguém? Sou uma conquistadora que fará com que você pague um alto preço caso
queira me usar".

O papel da crítica não é diferente na vida de um homem. Um cliente meu, do sexo masculino, contou-me
como ele era abordado sexualmente com muita freqüência, por meninos mais velhos, quando voltava da escola para
casa. Ele aprendeu a tolerar as mãos exploradoras dos garotos e as piadas que faziam quanto à sua habilidade sexual e
o tamanho de seu pênis.

Ele continuou a zombar de si mesmo na idade adulta. Demonstrava seu desprezo pelos outros nunca
tomando a iniciativa, com sua esposa, para algum envolvimento sexual. Ele sempre fazia com que ela o abordasse.
Sua aparente falta de interesse era uma ferida profunda na vida de sua esposa. Ele justificava sua atitude crítica em
relação a si mesmo como uma espécie de válvula de escape que liberava a angústia e a raiva que não podia encarar
diretamente.

Este padrão de explicação e controle também é encontrado em casos menos extremos. Se culpo minha
aparência pelo fato de ser solteiro, então não somente tenho uma explicação quanto à razão de estar sozinho, como
também crio a ilusão de esquecer meu problema comprando roupas melhores ou preocupando-me com o peso.
Contanto que eu creia que algo pode ser feito com relação ao meu problema, então não me sinto constrangido a me

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considerar um caso perdido. Uma avaliação crítica mostra como retomar o controle sobre meu vazio interior.

Distorção do problema real

A crítica distorce o fato de que o problema central da humanidade é o pecado. A crítica direcionada às
outras pessoas é a mais fácil de ser compreendida. Ignora-se a própria pecaminosidade centrando a culpa na falha de
outra pessoa. O paradigma clássico é o desvio de culpa de Adão para Deus e depois para Eva: era culpa deles, uma
responsabilidade de ambos. Se eles apenas tivessem feito o que deviam de modo correto, Adão nunca teria se metido
nessa encrenca.

Aqueles que fazem grande uso da crítica centrada em outras pessoas possuem boa percepção e,
normalmente, uma boa precisão em sua análise quanto àquilo que está errado. É fato que Deus havia feito a mulher, e
está claro que Eva deu o fruto a Adão. O ponto principal não é se Adão estava sendo preciso em sua análise, mas se
ele aceitava as conseqüências de sua rebelião. A crítica dirigida a outros envolve a análise do objetivo da exploração,
o que realimenta o propósito do controle. A crítica a si mesmo, embora cause tanta distorção quanto a primeira, é
mais sutil em seus efeitos.

A crítica pode ser chamada de o Grande Mascarado. A autocrítica, em particular, é a imitação, feita por
Satanás, da convicção do pecado. No momento em que me sinto mal em relação a mim mesmo, angustiado por ter
dito algo rude à minha esposa, posso estar achando que se trata de um sentimento de tristeza em relação ao pecado.
Na verdade, é a depreciação de algum aspecto de minha dignidade, ao invés de tristeza diante de minha corrupção.

Um cliente me contou um problema que teve com sua esposa. Ela o atacava veementemente pelo fato de ele
não ser envolvente. Suas palavras eram cheias de ódio e amargura. Perguntei o que ele havia dito a ela, e ele me disse
que pôs sua cabeça no travesseiro e chorou. Ele se sentiu culpado e odiou-se pelo fato de não ser amoroso nem
envolvente.

Até um certo ponto, isto parece algo legitimamente bíblico e cheio de arrependimento; contudo, ele estava
culpando a si mesmo por ser um mau comunicador, incapaz de realmente ouvir a dor de sua esposa. Ele via seu
problema como uma falha de concentração, de habilidade em comunicar-se e de empatia. Estas deficiências não
faziam parte de seu egoísmo radical, o que o impedia de responder à raiva de sua esposa.

A crítica dele não transformava tristeza em vida. Ao contrário, sua dor era consistente com o que Paulo
chamou de tristeza até a morte, uma morte causada pela introversão e pela autoproteção. Seu profundo senso de falha
não sensibilizava sua esposa nem fornecia a coragem necessária para que ele se aproximasse dela. Na realidade, sua
crítica apenas desviava seus olhos dela, camuflava sua dor e explicava por que o casamento era algo tão ruim,
oferecendo uma estratégia para ser mais bonzinho, mas não para envolver-se mais com sua esposa.

Se ele estivesse convencido de seu pecado, então teria admitido para si mesmo o quanto sua esposa era
pecadora, encarado a falta de visão espiritual de seu próprio comportamento e teria se aproximado dela com tristeza,
paixão e amor. Não estou certo sobre o que teria significado para ele amá-la nesse momento; poderia envolver um
desejo real de entrar na batalha ou ouvir suas reclamações. Mas, em ambos os casos, a convicção o teria libertado de
modo que pudesse se aproximar dela com uma energia que estava direcionada a outros.

A crítica é algo complexo e freqüentemente difícil de perceber. Em muitas oportunidades, ela vem
disfarçada de convicção; outras vezes, parece uma indignação justa. Há momentos em que ela surge como uma auto-
estima muito baixa e, em outros, como atitudes ruins em relação aos outros. Independente de sua função ou
aparência, um coisa deve ser dita: A crítica retarda o trabalho de Deus. Ela nos afasta de nossos desejos mais
profundos e desvia o foco - que deveria estar em nossa corrupção e necessidade de um Salvador - para um ataque
contra nossa própria dignidade ou a de outros.

A luta contra a vergonha e a crítica - uma experiência comum a todos nós - é uma batalha vivida por
qualquer homem ou mulher que tenha sofrido abuso sexual. Existem muitas razões para esta importante luta. O
primeiro fator tem a ver com o processo que é iniciado na alma humana quando algo profundo que leve à intimidade,
seja contato físico ou interação psicológica, é usado para seduzir ou escravizar o jovem coração da vítima em uma
relação perversa e suja.

Vamos nos voltar agora para o que acontece à alma humana após o abuso.

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CAPÍTULO 04

A Zona de Batalha: Estratégias de Abuso


O abuso sexual cobra um preço terrível na vida das vítimas, em termos de vergonha, crítica e negação. Os
pecados do agressor continuam a manchar a vida da vítima através da inabilidade de apreciar relacionamentos,
intimidade e esperança. A alma da vítima sente-se presa à negação; o coração se sente machucado e solitário. O
desejo por algo mais e o prazer naquilo que está disponível ameaçam e amedrontam igualmente a alma; portanto, a
pessoa conclui que é melhor viver sem a consciência da paixão, do desejo e da dor.

Esta dor não pode ser reconhecida nem silenciada completamente. O grito silencioso aprofunda o paradoxo
de viver sem sentimentos visando manter preservados os caminhos da esperança. A complexa teia de desejos e
defesas, de anseios e críticas normalmente fica escondida debaixo de uma fachada exterior de competência que não
aparenta estar ferida nem confusa. Esta camada mais externa atua como um meio de controlar tanto o vazio interior e
a vergonha, como o risco de envolver-se profundamente num relacionamento.

Como é possível penetrar nas câmaras do coração ferido que, apesar do aspecto exterior de competência e
congenialidade, está travando uma intensa luta? De modo semelhante a um labirinto, os caminhos tortuosos não
revelarão seus segredos a alguém que não compreenda a complexidade ou as armadilhas do processo. O coração
ferido deve ser compreendido de modo gentil e exato para que possa revelar a dor guardada por anos. Pode-se
perceber como a dor começa quando se pensa em como o abuso ocorre e o que ele é capaz de fazer, na perspectiva da
vítima.

As fases do abuso

Há um processo comum a vários casos de abuso, quer eles tenham sido cometidos por parentes ou por uma
pessoa fora da família. Os agressores têm uma estratégia relativamente clara para envolver suas vítimas. Mas um
aviso precisa ser dado antes de se considerarem as fases típicas de um abuso.

À primeira vista, existem tantas variações e exceções à regra que praticamente invalidam a suposição de
que há um padrão. O fato é que os detalhes variam conforme o caso: cada pessoa sofre o abuso de um modo único.
Então, qual é o objetivo de se discutir um padrão comum se existem tantas variações? O propósito é o mesmo de se
estudar a gramática de uma língua qualquer. Pode haver mais exceções à regra do que a própria regra, mas, se a regra
é aprendida, as exceções podem ser tratadas. A regra traz clareza ao processo, de modo que as exceções são vistas a
partir de uma única perspectiva, ao invés de serem vistas como uma massa disforme de particularidades.

Na maioria dos casos, o abuso não é algo que ocorre a partir do nada, de repente e de maneira imprevista,
praticado por alguém que se esconde atrás dos arbustos e espera por uma criança inocente que passe por seu caminho.
De fato, apenas 11% dos abusos sexuais são praticados por estranhos. A grande maioria dos abusos, no entanto,
ocorrem entre membros da família (29%) ou por alguém conhecido pela vítima (60%)1.

Todo abuso é uma violação da santidade e da inteireza da alma humana, mas quando o abuso c executado
por um membro da família ou por alguém que ganhou a confiança da pessoa a perda é ainda mais severa. Abuso
sexual é sempre a violação de um relacionamento. Esta violação sempre causa danos à alma, ainda que em diferentes
níveis.

O trauma será influenciado por fatores como o nível de severidade, a natureza do relacionamento, número
de vezes e a idade da vítima, mas é imperativo entender uma questão óbvia: violação é violação, e todas as violações
dos propósitos de Deus geram conseqüências pessoais e interpessoais tanto para a vítima quanto para o agressor. Um
olhar indiscreto de um estranho é muito menos danoso que uma relação sexual com um irmão. Mas o olhar sensual de
um pai, mesmo sem contato físico, vai causar prejuízos por romper aquilo que Deus planejou para este tipo de
relacionamento2.

Abuso sexual é um evento ou uma série de eventos relacionados que ocorrem dentro de um contexto. O
contexto é algo muito importante para a compreensão desta primeira fase. Algumas vítimas provêm de lares felizes e
chamados normais, ainda que a aparência seja o que aqueles que não conhecem as dinâmicas internas daquela família
desejam ser. Em muitos casos, o lar típico onde o abuso acontece e não é relatado apresenta um relacionamento
distante e vazio3. As variações do padrão são muitas, mas é fato que lares onde existem abusos não apresentam
intimidade legítima e sadia. O ambiente é solo fértil para o desenvolvimento de carências da alma.

Muitas vítimas são propensas a negar que seus lares propiciaram um ambiente para o abuso. A razão mais
óbvia para isto é que tudo o que era visto como típico é encarado como normal. É provável, entretanto, que os dois
fatores essenciais para um lar feliz estivessem ausentes no lar da vítima. O primeiro é a certeza de que alguém é
querido por aquilo que é e não por aquilo que faz. Muitas vítimas de abuso são apreciadas por serem crianças adultas,
mas este tipo de apreciação deixa o coração vazio. O segundo fator é o respeito à individualidade dando oportunidade

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à pessoa de desenvolver uma qualidade única e diferente dos outros membros da família4.
É comum que a filha que sofreu abuso tenha sido chamada a desempenhar o papel de "pequena adulta"
antes daquele evento5. Assumindo o papel dos pais, pode ser que a criança tenha que fazer compras, cozinhar e cuidar
das finanças da família. Uma mulher que sofreu abuso por parte de um amigo da família era tida como o esteio da
mãe e de suas irmãs. Ela era severamente criticada quando chorava ou mostrava qualquer fraqueza. Ela sabia que não
podia pedir ajuda à sua mãe pois iria chateá-la, gerando provavelmente uma situação pior do que a anterior. Quando
foi questionada sobre a razão de não ter contado nada a sua mãe, ela respondeu entristecida: "Isto significaria meses
recolhendo os pedaços. Sentia-me como se o fato de não ter dito "não" ao agressor já fosse suficiente para eu
lamentar".

Um homem que sofreu abuso por parte de sua mãe deveria esfregar os pés dela e ler-lhe algo durante suas
crises de enxaqueca. As expectativas de que seu filho poderia lhe dar conforto e satisfação eram inadequadas em se
tratando de um menino de nove anos: a mãe lhe havia dado o papel de marido.

A distorção do papel arranca a infância da criança e a substitui pelas preocupações de um adulto, as quais
são pesadas demais para se carregar, mas que precisam ser toleradas se a criança deseja algum benefício em termos
de amor e vida nesse lar desajustado. Renunciando à infância, a criança inicia um longo processo através do qual ela
vai deixando de se importar com a alma para provar algumas migalhas da vida.

A confusão de papéis é complicada ainda mais pela violação dos limites e direitos individuais da criança.
Limites são linhas muito úteis para separar o mundo interior e exterior de cada indivíduo do domínio das outras
pessoas. Elas dão um sentido de singularidade e independência e ajudam a pessoa a definir sua identidade em
contraste com os outros.

Um limite comum é o direito à privacidade durante os processos de higiene individual. Em muitos casos, a
pessoa que sofreu o abuso não tinha privacidade em termos de espaço físico, liberdade de pensamento ou
sentimentos. Ser visto por um membro da família ao tomar banho é uma intrusão que traz consigo a mensagem de
que o corpo de alguém não é apenas dele. Uma cliente contou-me que precisava pedir ao pai os absorventes
higiênicos e sempre que ela fazia isso era vítima dos olhares furtivos e perguntas sugestivas de seu pai.

O pai de outra cliente fazia uma inspeção detalhada das roupas e da maquiagem de sua filha sempre que ela
saía de casa. Sua investigação ia muito além da preocupação de um pai com sua filha: sua preocupação quase
obsessiva funcionava como um disfarce para que ele pudesse olhar com mais profundidade sua sexualidade e, assim,
violar seus limites. Estes casos exemplificam abuso sexual que, apesar de não se basear em contato físico, eram
severamente intrusivos e danosos.

A cada dia fazemos centenas de escolhas que refletem um senso legítimo de propriedade de nosso corpo.
Cada escolha requer uma consciência de separação e individualidade que começa com uma idéia daquilo que é nosso
por direito e do que é razoável que os outros esperem de nós. Uma pessoa que sofreu abuso provavelmente terá
grandes dificuldades para compreender as questões que envolvem o conceito de limites que a maioria de nós
considera natural. O direito de decidir o que usar no trabalho ou na escola, onde prestamos culto ou se temos a
liberdade de dizer não a um pedido são questões normalmente conflitantes para aqueles a quem não foi permitido
estabelecer seus limites6 e viver segundo suas próprias escolhas.

Outra violação de limites ocorre quando um pai diz a uma filha que seus sentimentos estão errados, são
loucos ou simplesmente inexistentes. Uma mãe costumava dizer à sua filha: "Você não está com medo de ir à escola.
Está louca? Nenhuma criança normal tem medo de ir à escola! Você não está com medo". A negação ou rejeição de
emoções ou pensamentos violam a privacidade e a inviolabilidade do mundo interior de uma criança. Provavelmente
a criança vai questionar a validade de sua percepção, fazendo com que o custo de confiar em sua intuição seja
exorbitantemente alto.

O lar da vítima não só está produzindo uma carência relacional como também um senso de obrigação não
obstante a humilhação, gerando dificuldades para que a criança possa confiar em suas impressões e sentimentos. A
atmosfera é também carente, conservadora e cheia de regras. O mais alto valor familiar é a lealdade: sempre fiel, não
importando o preço a ser pago, protegendo a família da vergonha e de ataques externos.

O gancho é colocado no mais profundo da psique da criança: "Ninguém vai amá-lo como eu. Se você contar
a alguém o que acontece nesta casa, eu morrerei ou, então, você perderá qualquer oportunidade de encontrar amor.
Ninguém acreditará em você. As pessoas vão odiá-la, vão duvidar de você e culpá-la por ferir seus pais". Raramente
as palavras são faladas de um modo tão claro. A regra não escrita é infundida na psique da família como o flúor na
água que vem da torneira.

Está montado o cenário para o abuso. A criança está - até certo ponto - vazia, sozinha, comprometida com o
prazer, sem limites ou fronteiras, sobrecarregada e presa a um pai ou família cujo desejo se torna o pão da esperança
para a criança faminta. As duas palavras chave são vazio e dependência. A criança depende das provisões físicas dos
pais para sobreviver; portanto, na maioria das situações, ela não consegue provimento para suas necessidades
económicas a não ser que se desvie para a prostituição ou para o crime. A criança termina por ficar psicologicamente

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envolvida com o vai-e-vem dos pais no sentido de dar e negar apoio e sustento.
É comum que, desde uma tenra idade, a criança tenha aprendido a sobreviver, a maximizar o prazer e
minimizar a dor, através de uma série de experimentos do tipo tentativa e erro. As repetidas oportunidades de
aprender uma forma eficiente de se relacionar assegura à criança um padrão estável de comportamento, ao qual
damos o nome de personalidade.

Muitos fatores influenciam a formação da personalidade, mas o ponto central em um família desajustada
será a forma de neutralizar a dor da alma faminta, ao mesmo tempo em que se fica alerta e predisposto a agir segundo
os melhores interesses de alguém.

A mortificação da alma - ou um coração insensível à sua própria dor - e uma supervigilância não
constituem padrões compatíveis na dança da vida. Para viver nessa contradição inerente, a criança ou adolescente
deve desenvolver uma divisão entre duas (ou mais) posições antagônicas, existindo como duas pessoas diferentes:
uma pessoa interior que, de modo silencioso e reservado, guarda aquilo que lhe é mais precioso apreendido do mundo
exterior.

A outra pessoa é aquela que adota uma maneira de falar, vestir e se portar perante os outros de acordo com
o que se considera que uma vida normal deve exibir. Se papai quer que eu seja uma boa aluna, vou me esforçar ao
máximo para isso. A recompensa será um sorriso ocasional ou talvez uma noite livre para passar com meus amigos,
ao invés de esperar que ele adentre meu quarto depois de uma noite de bebedeira e queira fazer suas brincadeirinhas
debaixo das cobertas.

A criança é tomada por um dilema infame: sobreviver implica lutar e conformar-se significa viver uma vida
de tormento. A experiência de ser profundamente usado e desprezado por alguém em quem confiamos e
consideramos destrói a esperança de que um relacionamento possa ser profundamente apreciado. O que torna o
abuso ainda mais doloroso é que a confiança depositada num pai, irmão, vizinho, pastor, professor ou amigo mais
velho é usada pelo agressor como a forma de obter uma complacência inocente e despretensiosa da vítima. Esta
complacência leva a vítima a pensar falsamente que desejou participar de sua própria desgraça.

Compreender o processo do abuso é fundamental porque liberta a vítima de uma culpa desnecessária pela
complacência, e fornece elementos para esclarecer outros fatos que produzem confusão e culpa.

O abuso sexual normalmente segue uma seqüência de estágios: (1) desenvolvimento de intimidade e
discrição, (2) apreciação de toque físico que parece adequado, (3) abuso sexual propriamente dito, seja por interação
física ou psicológica, e (4) manutenção do abuso e do segredo vexatório através de ameaças ou privilégios.

Apesar de este ser um padrão geral, existem incontáveis exceções. Uma criança, por exemplo, pode ser
violada sem ter sido seduzida. Uma vez que o estupro tenha ocorrido, entretanto, o silêncio ou a exploração sexual
contínua provavelmente será obtida através de ameaças ou da oferta de privilégios. Neste caso, o estágio 1 é bastante
similar ao estágio 4.

Estágio 1: Desenvolvimento de intimidade e discrição

O primeiro estágio do abuso pode ser considerado um modo de agir consciente e intencional como se
estivesse abrindo a porta do refrigerador diante de uma criança faminta. Freqüentemente os detalhes do abuso
indicam que o agressor iniciou sua ação de sedução meses ou até anos antes da execução do ato físico. Até mesmo
nos casos em que houve relações forçadas ou ataques violentos, o agressor buscava uma relação íntima com a vítima
anteriormente à investida.

A essência do estágio 1 é a oferta de um relacionamento, de intimidade, de privilégios especiais e de


recompensa. Pode ser entendido como a oferta de água a alguém que está morrendo de sede.

Uma garota de treze anos foi convidada por seu vizinho de dezessete anos para ir até o celeiro ver a ninhada
de coelhinhos. Ela era cristã, de um lar bastante conservador em termos religiosos. Contou-me que não conseguia se
lembrar de nenhum momento em que tenha sido abraçada, tocada ou segurada por nenhum membro de sua família.
Seus pais eram frios e austeros. O convite agradou-lhe e ela aceitou prontamente.

O vizinho sentou-a num fardo de trigo e colocou diversos coelhinhos em seu colo. Ele se colocou atrás dela
e começou a falar sobre o nascimento da ninhada e os hábitos reprodutivos dos coelhos, usando palavras que eram
provocativas e sugestivas sexualmente. Começou a massagear seus ombros e, num instante, escorregou a mão por
dentro de sua blusa e tocou seus seios. Ela estava surpresa e não sabia o que fazer. Depois de um tempo, que pareceu
uma eternidade, ela se levantou e saiu correndo do celeiro. Nunca contou nada a seus pais. A oferta dele pareceu-lhe
um pedaço do céu, e seu toque, assustador e ao mesmo tempo aconchegante.

Neste caso, o modo de agir levou menos de dez minutos para passar ao estágio 2, contato físico
aparentemente adequado, e logo para o estágio 3, contato sexual.

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Em outras situações isto pode levar anos. Uma mulher que sofreu abuso de seu pastor começou a ter
reuniões com ele quando tinha doze anos de idade. Por vários anos eles compartilharam segredos e olhares
percebidos pelos dois. Os convites do pastor para uma discussão teológica, oração ou apenas um salgadinho depois
das atividades da igreja eram comuns.

Quando ela tinha treze anos ele começou a confidenciar-lhe problemas de relacionamento com sua esposa,
pedindo a ela que desse sua "perspectiva feminina" sobre o assunto. Em pouco tempo ele começou a falar-lhe sobre
alguns problemas na área sexual e dúvidas quanto à sua virilidade. Aquela criança amadurecida para a idade sempre
afirmava sua masculinidade e o consolava quando ele estava deprimido.

Até que ponto esta sedução foi consciente? Ele sabia o que poderia acontecer daqui a um ano ou dois?
Neste caso, não há dados suficientes que comprovem sem sombra de dúvida que seu plano era seduzi-la desde o
início de seu relacionamento. Contudo, a busca decidida, firme e não apropriada de uma menina - construindo
progressivamente a confiança e a intimidade, expondo-lhe pouco a pouco seu coração e seus problemas sexuais -
demonstra a intenção consciente de manter no futuro um primeiro contato físico abusivo.

Ainda que o agressor nunca saia do estágio 1 (embora seja raro que isto não aconteça), é preciso lembrar
que a ação por si própria é extremamente danosa à alma da vítima.

O estágio 1 joga o anzol. O peixe faminto morde a isca e o arguto pescador espera até que sinta a fisgada;
então puxa a vara e finca o gancho profundamente na alma de sua vítima desavisada. A bondade é cruel; o
aconchego, violador. Mas a criança ou adolescente sente, de forma insuspeita, que está vivo e alimentado do ponto de
vista relacional, como ele ou ela nunca sentira antes.

O agressor mostra à criança aquilo que ele estava retendo com o objetivo de ganhar confiança e acesso a
seu coração. Depois de anos de rejeição, uma criança pode ser cautelosa, mas subestimar a suspeita é um desejo que
transborda juntamente com a paixão. Ela clama por ser aceita, ainda que aquilo pelo que ela clama possa denegrir sua
imagem ou sua dignidade. Quando um adulto ou uma pessoa mais velha oferece conforto e intimidade ou seu
equivalente simbólico (um passeio de barco, uma revista, o privilégio de ficar acordado até mais tarde), as barreiras
de idade são derrubadas como uma antecipação do desejo.

Em muitas situações, o primeiro presente não requer nada a não ser discrição: "Não diga a seus irmãos que
nós paramos para tomar um sorvete. Se eles souberem, vou ter que trazê-los da próxima vez!". Discrição, pelo menos
no início, está confinada ao privilégios de intimidade e aprofunda a relação "especial" que se inicia.
Conseqüentemente, a vítima experimenta a primeira e deliciosa mordida da graça, um presente da vida que não exige
nada em troca. O resultado será um incremento na esperança e na carência, a derrubada de defesas antigas, uma
atitude cheia de vida que traz à alma pela primeira vez a consciência de sua feminilidade ou masculinidade.

Uma mulher descreveu este período como os anos de glória de sua vida. Todas as vezes em que ela sonhava
acordada, lembrava-se de quando tinha seis anos e seu pai lhe comprou um vestido novo. Ele permitiu que ela
desfilasse na frente dele com o vestido, reagindo com "oh!" e "ah!" a cada vez que ela passava por ele. Por um dia,
ela foi sua princesa, sua alegria e seu sonho. O dia acabou várias semanas depois quando ele a masturbou pela
primeira vez.

O estágio 1 cria um desejo de ter mais, a esperança de que a primavera está chegando. Talvez, e apenas
talvez, a árvore seca que murchou na alma da criança veja folhas verdes brotando de galhos frondosos, cobrindo o
velho tronco cinza. Na essência, este estágio implica o desenvolvimento de intimidade através da oferta de um
relacionamento. O prazer do relacionamento é incrementado através dos laços de discrição e privilégio.

Estágio 2: Contato físico aparentemente apropriado

Este estágio é a seqüência lógica da introdução de intimidade relacional e a disposição de ocultar algo. No
primeiro estágio, o toque físico (segurar as mãos, massagear as costas, coçar a cabeça, abraçar) pode estar presente.
Em todos os casos haverá um período de tempo separando os dois estágios. Este período pode ser de minutos, dias ou
até anos.

O segundo estágio é essencialmente a aproximação através de contato físico sensual. Uma conexão física
especial é iniciada em períodos de elevada intimidade relacional que incrementa a resposta afetiva da criança ao
carinho do adulto. A intimidade relacional que envolve contato físico é como uma bola de neve descendo a
montanha. O toque aumenta o prazer da aproximação do relacionamento e a intimidade relacional dá sentido e
vibração ao contato físico. Envolvimento íntimo e algumas formas de contato físico são sinônimos de amor. A
criança ou adolescente no estágio 1 sente-se amada e anseia pelo toque maternal ou paternal com o qual o adulto a
está envolvendo.

Deve-se fazer uma importante distinção neste ponto. O anseio da criança ou adolescente pelo toque físico
não é, em nenhuma forma ou expressão, um desejo sexual, a não ser que a criança tenha sido condicionada a
interpretar que qualquer expressão de intimidade relacional somente possa ser feita através de contato sexual. Tanto a

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criança quanto o adulto experimentam o toque físico através de receptores que provocam o surgimento de uma
sensação agradável. É impossível experimentar um abraço ou um carinho de outra maneira que não seja sensual. É
possível que, por outros fatores, esta experiência não seja prazeirosa, mas com certeza despertará alguma reação
física.

Um grande problema nesta discussão é o fato de que nossa cultura, tão carregada de imagens e estímulo
sexual, não consegue conceber a idéia de que um toque físico-sensual não seja um convite a um despertamento
sexual. Sensual e sexual são palavras sinônimas nos dias de hoje. O fato é que um afago nas costas pode ser algo que
desperte uma sensação física - isto é, dá um prazer sensual - sem conter nenhum traço de prazer sexual. Isto quer
dizer que uma criança, da mesma forma que um recém-nascido, pode experimentar um despertamento físico sensual -
que é tanto calmante quanto estimulante - em circunstâncias normais, sem nada de sexual.

Quando ponho minhas filhas ou meu filho no colo, eles têm consciência de um prazer sensual que não pode
ser obtido quando estamos limpando a casa ou jogando uma partida de tênis. Todos eles envolvem algum tipo de
toque físico, mas o colo do pai nutre suas almas de uma maneira diferente da que é feita durante o jogo ou em um
contato físico normal. O toque gentil e afetivo acalma a alma e convida o receptor a relaxar na aconchegante força do
outro: prazer, conforto, sustento e confiança são colocados juntos numa mistura deliciosa que aprofunda e suaviza o
gosto da vida e da paixão.

O efeito de um contato sensual na criança ou no adolescente que tenha vivido a maior parte de sua vida sem
uma proximidade que a alimente é semelhante a aguar uma planta que não recebe água há vários dias. O caule caído
se firma e os botões fechados se abrem: a planta quase sem vida brilha em todo o esplendor que possui.

O mesmo ocorre com o coração faminto da criança: o aconchego levanta seu rosto e o alimento traz
esperança para os olhos. As lembranças deste período são difíceis de serem trazidas à tona sem um horrível
sentimento de vergonha e confusão. Uma criança não consegue discernir do mesmo modo como um adulto quando
um toque é apropriado ou não, mas ela percebe que alguma coisa está "estranha". Entretanto, seu senso de
desconforto é encoberto pelo apelo de sentir-se bem tratada. A sedução dessensibiliza a criança de modo que ela não
percebe a progressão do abuso.

Uma amiga minha contou-me o terrível estupro que sofreu, praticado por seu pai quando ela tinha quatro
anos de idade. Foi muito difícil para ela descrever o evento, pois as lembranças eram escassas e a emoção
constrangedora. Ela foi capaz de descrever o ocorrido olhando-me diretamente nos olhos. Quando perguntei o que
acontecera após o episódio, seus olhos baixaram e seu humor transformou-se, partindo de um relatório de algo
ocorrido para uma vergonha profunda. Depois de um longo período de silêncio, ela sussurrou estas palavras: "Ele me
segurou e me embalou em seus braços, cantando uma canção de ninar". Com grande ódio, ela levantou os olhos e
quase gritou: "Eu o odiei, mas permiti-me relaxar em seus braços e ser acalmada por seu toque".

Ainda que o toque carinhoso ocorra antes ou depois do abuso físico, em muitos casos o efeito será o
mesmo: conforto e alegria. E a questão continua: "Por que me permiti crer nele? Por que me dei o direito de querer
um homem que faria (ou fez) algo abusivo comigo?"

As perguntas persistem ainda que a vítima tenha plena noção de que não há meio de compreender as más
intenções do agressor. Uma garota de quatorze anos foi convidada a dar uma volta no carro novo de seu tio. Ela
gostou tanto do privilégio (intimidade - estágio 1) que ele perguntou se ela gostaria de aprender a dirigir. Pelo fato de
ela ser menor de idade, o tio a preveniu para que não contasse nada a seus pais, pois eles poderiam negar-lhe a
oportunidade (estágio 1 - discrição). Ele era seu tio, um adulto, um homem com autoridade e poder que lhe permitiu
uma oportunidade de gozar de um relacionamento que seus pais, sempre frios, raramente ou talvez nunca lhe deram.
O plano estava em andamento.

No primeiro passeio, ele pediu que ela se sentasse perto dele ao dirigir o carro. Algumas vezes depois, ele a
colocou sentada em seu colo, de modo que pudesse alcançar os pedais. Em pouco tempo, a mão dele descia por suas
pernas: o processo foi firme e longo, conforme ele a condicionava a seu toque.

O toque físico dava prazer e era aparentemente inofensivo, o que ocorreu por várias semanas. Então, ele
começou a cruzar os limites, "acidentalmente" tocando suas coxas e seios. Ela se sentiu mal e desconfortável ao sentir
o toque, mas estava tensa demais para falar alguma coisa, sentindo que poderia perder a oportunidade de dirigir o
carro se o ofendesse.

Seu senso intuitivo de desconforto estava obscurecido pela emoção de ser ouvida e atendida em seus
desejos. A conversa entre os dois começou a se encaminhar para temas "adultos", o que fez com que ela se sentisse ao
mesmo tempo aliviada — pelo fato de não ter que ouvir de seus pais as conversas sobre fundamentalismo estúpido —
e também honrada por ser tratada como algo mais do que uma criança.

Quando ocorreu o abuso físico propriamente dito, ela já estava devidamente silenciada por seu senso de
cumplicidade. Ela não gostara do privilégio? Não respondera à proximidade do toque não sexual? Ela estava
condenada e aceitou a punição por seu suposto crime.

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Em resumo, o estágio 2 pode ser chamado de o processo de silenciamento da vítima e o ato de selar o
destino da vítima. Para uma criança de seis anos de idade, a diferença entre receber um afago na cabeça ou de ser
masturbada é apenas uma questão de qualificação. Se um é aceito e apreciado, por que o outro não o seria?

Para alguém com quatorze anos, a diferença é clara: um é apropriado, o outro não. Mas, para um
adolescente, não importa o quão maduro seja, o significado atribuído ao ato sexual não é o mesmo de um adulto. A
adolescente não verá o toque como uma escolha, de modo tão claro como um adulto poderia, especialmente nos casos
em que ela tenha sido privada disto por anos, estando carente por um contato, incerta quanto a seu próprio direito de
estabelecer limites e insegura quanto a seu julgamento intuitivo.

Estágio 3: O abuso

O abuso pode acontecer de tantas maneiras diferentes e vir de tantas fontes distintas que é perigoso falar
sobre ele sem algumas precauções. Há uma graduação clara quanto à severidade e intensidade do dano causado pelo
abuso. A natureza do relacionamento, especialmente o grau de proximidade (pai versus vizinho), e o grau de
intimidade anterior desempenham um papel importante na extensão do dano. O grau com que a violência física ou
psicológica foi usada ou serviu de ameaça também influencia os resultados de curto e longo prazo.

Não é possível, entretanto, colocar todos estes fatores numa equação e chegar-se facilmente a um resultado
que determine a gravidade do dano. Sendo assim, vou discutir o abuso sexual de modo genérico, em termos de um
denominador comum, ao invés de olhar para as conseqüências distintivas que afloram em função de cada um dos
componentes.

Uma segunda precaução se refere ao dilema de discutir o abuso sexual numa linguagem gráfica. Ao
descrever o que aconteceu, corro o risco de estimular o leitor. É praticamente impossível descrever fatos relacionados
a sexo, ainda que perversos e hediondos, sem despertar uma curiosidade mórbida. É o mesmo tipo de coisa que
acontece quando se passa diante de um acidente na estrada: a pessoa quer, ao mesmo tempo, olhar e desviar os olhos
do ocorrido.

Há ainda o risco de ser vago, ou seja, de apresentar o abuso como algo açucarado e de ignorar a terrível
natureza do evento em nome de uma máscara de civilidade. Espero não cometer nenhum dos dois erros.

O abuso sexual acontece num contexto de vazio, confusão e solidão, um contexto que prepara a vítima para
um desconcertante relacionamento de traição, ambivalência e impotência à medida que o adulto passa de uma fase à
outra do processo. O envolvimento inicial se mostra como algo que nutre a alma (estágio 1) e, quando o toque físico é
oferecido (estágio 2), os sentidos são misturados com a excitação do relacionamento e o despertar de vida. Estar vivo
significa sentir paixão, uma coisa que intoxica e faz o corpo formigar, abrindo as portas da alma com uma brisa de ar
fresco. O abuso sexual é o vento final que sabota a alma numa traição, zombando do prazer do relacionamento e
cobrindo a paixão de culpa.

A traição envolve mais coisas do que a sabotagem da relação. É também intensamente pessoal e física. Este
é um conceito difícil de entender e de aceitar, especialmente por aqueles que sofreram o abuso.

Quando um menino ou uma menina, uma jovem ou um jovem adolescente sofre o abuso de modo físico e
notório, certamente haverá um despertamento sexual. É praticamente impossível à vítima não experimentar um
despertamento físico quando os órgãos sexuais primários ou secundários são tocados. Deus dotou o corpo humano
com mais terminações nervosas na cabeça do pênis e no clitóris do que em qualquer outra parte do corpo, à exceção
dos órgãos relativos à gustação.

Deus se importa com nosso prazer; se não fosse assim, seria difícil compreender sua escolha em nos criar
como machos e fêmeas. O plano de Deus para o despertamento é perversamente mal usado pelo abuso sexual, mas o
despertamento gerado não é nem pecaminoso nem anormal.

A tragédia gerada pelo abuso reside no fato de que a apreciação do corpo de alguém se torna a base para
o ódio pela alma de alguém. O abuso desperta no interior da vítima um prazer legítimo embora dentro de um
contexto que faz com que a apreciação seja um veneno perigoso.

A garota de treze anos que sofreu abuso por seu pastor começou com discussões teológicas importantes e
terminou com as mãos unidas enquanto oravam. Abraços eram comuns, e normalmente mais longos do que legítimos.
Ela se lembra de se sentir tanto culpada quanto especial, mas o forte desejo de manter a relação intacta a afastou do
desejo de encarar tanto seu desconforto quanto o prazer crescente do contato físico.

No momento em que o abuso sexual propriamente dito se iniciou, ela se sentiu extremamente ambivalente
quanto ao relacionamento. Por um lado, ela apreciava a proximidade e a intimidade e, por outro, sentia-se assustada e
culpada. Sentiu-se despertada sexualmente por seu toque, mas, ao mesmo tempo, usada e vulgar.

Seu compromisso em acabar com aquele relacionamento abusivo parecia forte o suficiente nos momentos

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em que estava sozinha; ao sentir o toque suava das mãos dele, a determinação se desvanecia. Ela se sentia fraca e
derrotada: sentia-se uma traidora todas as vezes que se encontravam.

É difícil descrever a experiência paradoxal da ambivalência. Ter uma emoção forte (terror) e um sentimento
igualmente poderoso (desejo) parece algo inconcebível. Adicione-se a confusão à contradição. Como alguém pode
odiar e desejar a mesma pessoa? Como se pode apreciar e odiar o prazer sexual vivido durante o abuso? A
confluência de correntes emocionais tão antagônicas faz com que a vítima se sinta enfraquecida, louca e
envergonhada.

Para piorar a situação, há casos em que a criança se sente literalmente traída por seu próprio corpo por ser
incapaz de interromper o abuso ou por não controlar a resposta psicológica a ele. Um homem contou-me das vezes
em que foi masturbado por sua mãe. Ela vinha à sua cama tarde da noite, muito depois de ele ter se deitado. Ela
costumava arrumar suas cobertas e acariciar-lhe as costas. Se ele estivesse deitado de costas para a parede, ela pegava
seu pênis.

Em várias ocasiões ele fingia estar dormindo e se virava para a mãe quando ela entrava no quarto. Ele
odiava a si mesmo por sentir seu despertamento e, às vezes sentindo-se culpado, virava-se para a parede. Em outras
situações, deixa-se chegar ao orgasmo.

Depois da consumação do ato, odiava-se ainda mais por sua reação "doentia" e pela incapacidade de
resolver a situação. Despertamento sensual, prazer sexual e até mesmo o orgasmo podem acontecer quando uma
criança sofre abuso, mesmo quando há um forte desejo de evitar a sensação.

O despertamento sexual não será vivenciado em todas as situações em que houver um abuso. Em alguns
casos, o temor vai bloquear o despertamento; em outros casos, a dor física é tão severa que o prazer é impossível.
Também é comum que a vítima dissocie seus pensamentos e sentimentos de sua experiência física de tal modo que
não haja nenhum despertamento consciente. Este estado é similar ao que se chama de experiência extracorpórea ou
transe hipnótico auto-induzido. No jargão da psicologia, a experiência de dissociação é uma forma de divisão7.

Os seres humanos têm a capacidade de separar ou afastar seus sentimentos de seus pensamentos ou, em
alguns casos, até mesmo ignorar as informações sensoriais que recebem, de tal modo que a mente é incapaz de
traduzir aquilo que está sendo visto, ouvido, sentido ou provado em formas inteligíveis. É como se a mente soubesse
o que a alma pode suportar. Quando a informação é por demais opressora, um fusível queima, impedindo que todo o
sistema elétrico se danifique. Não é incomum que a vítima bloqueie totalmente seu sentimentos de ódio, ou, então,
que esteja tão consciente da angústia sofrida que seja incapaz de se lembrar de algum prazer relacional, sensual ou
sexual.

A variação entre ódio e prazer pode ser errática e severa, resultando em mudanças pessoais significativas
em questão de minutos. A combinação de impotência, traição e ambivalência fazem da divisão uma opção natural ao
avassalador furacão das emoções traumáticas.

Traição Relacional
Impotência Ódio Prazer Sensual
Ambivalência Sexual

É importante destacar que nem todos os abusos do estágio 3 implicam violação física. O abuso sexual
propriamente dito inclui interações psicológicas que são extremamente danosas. Tomando como exemplo aquele tio
ao qual nos referimos anteriormente, ainda que ele não tivesse tocado ou violado abertamente sua sobrinha enquanto
a ensinava a dirigir, seu coração sedutor já havia requerido uma resposta dela quanto ao pedido de oferecer alguma
parte de seu corpo que ela não poderia dar sem se sentir usada ou pervertida. Em outras palavras, seu envolvimento
com ela, ainda que se tivesse mantido no âmbito da interação psicológica, foi um envolvimento do estágio 3.

Para citar outro exemplo de abuso do estágio 3 que não envolveu contato físico, cito o caso de um homem
que, levado aos rigores do treinamento físico, era severamente repreendido ou louvado por seu treinador conforme o
desempenho que apresentasse. O efusivo cumprimento do treinador criou no jovem uma carência por mais atenção
(estágio 1). Depois de executar um exercício complexo, o treinador frequentemente tocava sua nuca ou gentilmente
apertava seus ombros (estágio 2). Ocasionalmente, o treinador fazia comentários sobre a graciosidade e força de seu
corpo em desenvolvimento (estágio 3).

Ao contar-me esta experiência, o homem ficou corado, lembrando-se de como se sentia desejado por seu
treinador naqueles momentos aparentemente inocentes, mas bastante íntimos. Como um adulto, ele pôde
compreender que o interesse de seu treinador era mais do que estético. Ele havia convidado o garoto a responder-lhe
não como um estudante, mas como um amante. Seu convite fora abusivo.

O horror da interação psicológica do estágio 3 é perigosamente sutil. É freqüente que ele resida na mente da
vítima mais como um presente do que como uma violação.

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Em resumo, o abuso sexual propriamente dito dispara um emaranhado de emoções. Em muitos casos, o
despertamento sexual fará parte da experiência do abuso sexual. Ambivalência - a mistura de ódio e desejo, prazer e
vergonha - ativa um forte desejo de dissociar e separar as duas emoções opostas, de forma que é criada na alma uma
grande fenda entre o prazer e o ódio, onde, freqüentemente, os dois componentes são apagados da memória.

A ambivalência é ainda mais intensificada pelo ódio da traição e pelo terror da perda do relacionamento
com o agressor e outros familiares da vítima. A inabilidade em afastar-se do agressor ou a concorrência interna das
emoções deveriam tornar clara a razão pela qual as vítimas preferem não ter qualquer tipo de sentimento.

Estágio 4: Manutenção do abuso e da discrição através de ameaças e privilégios

O estágio final do abuso é, de muitas maneiras, similar ao primeiro estágio: o desenvolvimento de


intimidade e discrição. Em oposição ao primeiro estágio, contudo, os dias gloriosos se foram para nunca mais voltar.
O agressor vai usar qualquer artimanha a seu alcance para instilar lealdade e temor no coração da vítima, visando
assegurar silêncio e complacência. O medo é introduzido através de ameaças, e a lealdade através de privilégios.

Normalmente o medo está baseado em ameaças físicas ou psicológicas, ou uso real de força e violência. As
ameaças físicas incluem dano físico à vítima ou a alguém que ela ame. Um irmão agressor costumava segurar o
coelhinho de estimação de sua irmã sobre o fogo até que ela tirasse toda a roupa. Certa vez ele matou um bichinho
diante dela com o objetivo de alertá-la a manter-se calada. Tenho um grande número de clientes que foram
fisicamente torturadas por seus agressores e viviam com um profundo e legítimo medo da morte.

Ameaças psicológicas são igualmente poderosas. Foi dito a uma mulher que, caso ela parasse de servir a
seu pai, ele mandaria sua mãe para um manicômio. Outra mulher foi ameaçada de ser responsabilizada pelo suicídio
de seu tio se ela o delatasse. A variedade de métodos através dos quais homens e mulheres são coagidos ao silêncio e
à aceitação é imensa. A essência do ataque é a ameaça de destruir a alma e o corpo. O corpo, ameaçado pela morte, e
a alma, pela vergonha.

Os privilégios também fazem parte da extensa gama de benefícios físicos e psicológicos. Em lágrimas, uma
mulher contou-me que seu irmão lhe dava uma revista de histórias em quadrinhos todas as vezes que mantinha
relação sexual. O valor de sua alma era de exatamente vinte e cinco centavos, o custo de uma revistinha. Outros
recebiam dinheiro, roupas novas e até carros.

Em muitos casos, os privilégios não são materiais, mas psicológicos, como o direito de ser o corpo de
jurados e o próprio juiz de outras crianças ou aquele que tem o direito de acompanhar papai em suas viagens de
negócios. Em uma certa família, a criança que sentava à cabeceira da mesa era a mais privilegiada. A vantagem
material consistia em ter acesso à comida antes dos outros, mas o benefício relacional se mostrava no aviso de que os
outros irmãos não deveriam criar problemas com o filho favorito.

Isto nos aponta para outra tragédia na família onde ocorrem abusos. A criança escolhida como objeto do
abuso normalmente é odiada por seus irmãos devido aos privilégios que tem. A criança que se sente diferente pelo
fato de ter sofrido o abuso torna-se ainda mais alienada pelo ciúme de seus irmãos.

Estágios do abuso sexual

Contato sexual típico:


Professor do segundo grau e aluna de treze anos

Estágio 1: Intimidade e discrição


Constrói um relacionamento através de saídas durante as aulas e do compartilhamento de segredos sobre as
dificuldades que passa com sua mãe dominadora.

Estágio 2: Toque físico aparentemente apropriado


Abraços que duram um pouco além do comum devido a grandes realizações acadêmicas, carícias nos cabelos e
beliscadas delicadas.

Estágio 3: Abuso sexual propriamente dito


Beijos com conotação sexual, contato com seios cobertos e, por fim, estupro.

Estágio 4: Assegurando o silêncio e/ou manutenção do abuso sexual através de ameaça e/ou uso de privilégios
Pedidos de perdão, apresentação das conseqüências da exposição do fato (prisão, danos à carreira e humilhação
pública), oferta de grandes privilégios.

Contato sexual atípico:


Tio e sobrinha

Estágio 3: Abuso sexual propriamente dito

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Depois de uma reunião familiar, ele a encontra no porão, levanta sua saia, aperta sua região púbica e toca nos seios
por cima da roupa.

Estágio 4: Assegurando o silêncio e/ou manutenção do abuso sexual através de ameaça e/ou uso de privilégios
Conta a ela sobre sua boa reputação na família e a ameaça com o descrédito e horror dos outros, o que resultará em
sua vergonha e ostracismo.

Estágio 1: Intimidade e discrição


Ele compra um presente e se oferece para levá-la a um show. Ela recusa e é acusada de ingrata. Por fim, ela cede para
evitar as críticas da família.

Estágio 2: Toque físico aparentemente apropriado


Abraço na saída da reunião da família, acompanhado de um beijo amigável.

Estágio 3: Abuso sexual propriamente dito


Carícias forçadas e brutas no carro à caminho do show.

Interação sexual típica:


Professor do segundo grau e aluna de treze anos

Estágio l: Intimidade e discrição


Constrói um relacionamento através de saídas durante as aulas e do compartilhamento de segredos sobre as
dificuldades que passa com sua mãe dominadora.

Estágio 2: Toque físico aparentemente apropriado


Abraços que duram um pouco além do comum devido a grandes realizações acadêmicas, carícias nos cabelos e
beliscadas delicadas.

Estágio 3: Abuso sexual propriamente dito


Fala de sua primeira experiência sexual e a convida a falar de sua primeira experiência.

Estágio 4: Assegurando o silêncio e/ou manutenção do abuso sexual através de ameaça e/ou uso de privilégios
Fala sobre como pessoas limitadas e bisbilhoteiras poderiam usar contra eles a conversa que tiveram caso um dos
dois fizesse comentários sobre isso com qualquer pessoa. Promete compartilhar experiências ainda mais fantásticas
em outro momento.

Interação sexual atípica:


Tio e sobrinha

Estágio 3: Abuso sexual propriamente dito


Depois de vê-la em trajes de banho, começa a despi-la com seu olhar e faz comentários libidinosos sobre como ele
gostaria de ser alguns anos mais jovem e de não ser seu tio, pelo fato de ela ter um corpo tão bonito.

Estágio 4: Assegurando o silêncio e/ou manutenção do abuso sexual através de ameaça e/ou uso de privilégios
Conta a ela sobre sua boa reputação na família e a ameaça com o descrédito e horror dos outros, o que resultará em
sua vergonha e ostracismo.

Estágio l: Intimidade e discrição


Ele compra um presente e se oferece para levá-la a um show. Ela recusa e é acusada de ingrata. Por fim, ela cede para
evitar as críticas da família.

Estágio 2: Toque físico aparentemente apropriado


Abraço na saída da reunião da família, acompanhado de um beijo amigável, que ela rejeita - mais críticas da família.

O silêncio raramente é quebrado. Algumas crianças ou adolescentes contam a um dos pais, a um amigo ou
professor sobre o abuso. Mantém-se como um segredo por anos, se não para sempre. O evento do abuso pode ter
ocorrido apenas uma vez ou ter perdurado por anos.

O silêncio e a contínua condescendência da vítima intensificam sua resolução em mortificar todos os


sentimentos e em descobrir alguma maneira de resistir, de sobreviver ao assalto sofrido por sua alma. A ambivalência
flutua entre o ódio e experiências ocasionais de prazer até que a batalha interna fira o coração de tal modo que ele
simplesmente desiste de lutar. Quando se chega a este ponto, o abuso já acabou ou a vítima saiu de sua casa. A fuga
da batalha interna ou externa é o único alívio que parece possível para a já devastada alma.

A fuga para outro mundo requer uma nova identidade e história, além do sepultamento do horrível passado.
Freqüentemente as vítimas forjam a imagem de um passado tranqüilo e feliz até que ele realmente se torne verdade
em suas mentes. A ilusão de um bom lar e de pais carinhosos satisfaz a curiosidade dos outros e atenua a terrível dor

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do passado. O ódio e o prazer estão profundamente enterrados na alma, sem deixar nenhuma marca ou oportunidade
de ser lamentado.

Os efeitos do dano, contudo, continuam a abrir caminho na personalidade humana. As correntes da


impotência, traição e ambivalência continuam a alimentar o rio de ódio que ainda está sendo represado pela
barragem da negação. Em muitos casos, a barragem é tão ineficaz em reter a água quanto uma peneira: o ódio brota
em grandes enxurradas.

Em outros casos, o ódio é retido através de fortes barreiras de cimento, produzindo grandes suprimentos de
energia para a família, o trabalho ou o ministério. Esta energia, entretanto, está manchada de ódio, parcialmente
oculto em camadas de autocrítica. A eficiência da vítima não se compara ao poderoso trabalho que o Espírito Santo
poderia fazer se o coração da vítima pertencesse a ele.

Se é necessário que uma mudança ocorra, então é preciso descobrir, compreender e até alterar o curso das
correntes do ódio. Os próximos três capítulos focalizarão os danos internos causados pelo abuso: as correntes da
impotência, a traição e a ambivalência.

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Parte II

Os danos do Abuso

52
CAPÍTULO 05

Impotência
Ao analisarmos detalhadamente cada um dos aspectos do dano causado à alma pelo abuso sexual pode
ocorrer, por um breve período de tempo, uma intensificação, fazendo com que os efeitos pareçam maiores e mais
aterradores. É preciso que tenhamos duas coisas em mente antes de prosseguir.

A verdadeira esperança nunca minimiza um problema com o objetivo de torná-lo mais aceitável e fácil de
ser manuseado. Para o cristão, a esperança se inicia no reconhecimento do total desespero de nossa condição e na
necessidade de intervenção divina, se é que queremos experimentar a verdadeira alegria. Qualquer mudança pessoal
que possa ser alcançada somente através da intervenção humana, ao invés da sobrenatural, não vai nem satisfazer
nem realmente mudar nosso coração. Enfocar apropriadamente a ferida profunda não é negativo nem leva ao
desespero. Ao contrário, cria o ambiente propício para o dramático trabalho de Deus.

Um segundo lembrete envolve o perigo da miopia. Se alguém olha um grupo de células em um microscópio
por muito tempo, corre o risco de perder a visão periférica. Neste capítulo abordaremos a questão da impotência, mas
existem outros fatores envolvidos no dano, que incluem - e vão muito mais além - a experiência de se sentir
abandonado. Ao focarmos estritamente um ponto, corremos o risco de limitar a perspectiva e criar a ilusão de que
uma parte do dano é mais severa do que outras, ou que um aspecto do dano funciona independentemente de outros
elementos.

Na verdade, o dano pode ser descrito em termos de impotência, traição e ambivalência somente se
compreendermos que os três aspectos funcionam em conjunto, num rio agitado que corre pela alma, acabando com a
fé, a esperança e o amor. Com o objetivo de olharmos mais profundamente para dentro deste rio, vamos subir a
corrente e chegar até a fonte de cada um de seus afluentes.
Nossa análise de cada uma das correntes vai apresentar o abuso em termos de suas causas, custo, conseqüências e
aparência principal. Em outras palavras, como aconteceu o abuso? Quais são as repercussões internas do dano? Quais
são seus resultados exteriores? E como a vítima vê a si mesma como um resultado deste dano?

A causa da impotência

Pode ser óbvia, mas para a maioria das pessoas que sofreram abuso não é. O abuso tira da pessoa a
liberdade de escolher. O abuso sexual nunca é desejado nem bem-vindo; portanto, sua ocorrência não é uma escolha.
Não importa se o abuso ocorreu uma vez ou uma centena de vezes; independente do grau de negação da escolha, a
impotência foi vivenciada e a dignidade foi aviltada. Existem pelo menos três forças que causam a sensação de
impotência: a inabilidade de mudar a família problemática, a inabilidade de interromper o abuso e a inabilidade de
extinguir a implacável dor da alma.

O vazio do lar

Fico surpreso com a freqüência com que ouço alguém que sofreu abuso começar a me contar sua história
dizendo que teve uma infância feliz e como se sentia tão amado por seu pai e mãe, ainda que o histórico indique que
nada poderia estar mais longe da verdade. Uma criança preferiria ter um mau pai a não ter pai nenhum e, ainda mais,
preferiria ser uma criança má a ter de encarar a maldade de seus pais, dos quais ela depende. Como uma criança pode
sobreviver sabendo que sua vida está nas mãos de alguém que não vai protegê-la nem satisfazer-lhe os legítimos
desejos de um relacionamento bom e sadio?

A negação do vazio é ainda mais exacerbada pela falta de parâmetros de comparação. Como um criança
pode saber o que está perdendo se não tem nenhuma outra fonte de comparação? Na maioria dos casos, a única forma
de relacionamento que a criança conhece é aquele que ela tem em casa, de modo que ele passa a ser considerado
aceitável, se não normal. Provérbios 27:7 apresenta o dilema de forma bastante clara: "A alma farta pisa o favo de
mel, mas à alma faminta todo amargo é doce". Para uma criança que é humilhada toda noite à mesa de jantar, ser
ignorada é, de fato, um alívio. Ou então, para uma criança forçada a participar freqüentemente de uma sessão de sexo
oral, ser apenas acariciada parece algo menor e até mesmo desejado.

A rotina se torna a definição de normal para a criança, mesmo se o "normal" for algo bizarro, abusivo ou
maligno. Por esta razão, é provável que se passem anos e até mesmo décadas até que uma pessoa possa ver
plenamente seu mundo de um ponto de vista daquilo que poderia e deveria ter realizado. Somos tão veementemente
relutantes em imaginar o horror de um episódio quando é tão fácil encobrir a dor considerando o ocorrido como "algo
que passou". Em conseqüência disto, muitas crianças e adultos não têm consciência de quanta energia já gastaram
tentando mudar um mundo que foi visto como normal, mas foi vivenciado internamente como algo doentio e vazio.

O abuso sexual nunca começa no momento do primeiro contato sexual. Ele se inicia na matriz formada por

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algum tipo de rejeição emocional, inversão de papéis, dureza, frieza, rigidez e lealdade induzida pelo medo. Na
maioria dos casos, a família, muito antes do que o próprio abuso, foi um solo fértil onde o vazio e as doenças
puderam se desenvolver e ser consideradas como parte normal da vida.
A anormalidade da família, porém, não está de acordo com o desejo de estabilidade, intimidade e respeito colocados
por Deus no coração da criança. Ela até pode aprender a aceitar como normal o perigo do abuso, mas uma voz
interior irá sussurrar, em algum momento, palavras estranhas, ainda que verdadeiras: "Não é justo que mamãe deixe
isto acontecer. Papai não deveria estar me tocando desse modo. Eu queria que minha família fosse amorosa e feliz
como a família do meu amigo".

As sementes do descontentamento são os primeiros frutos do desejo que desperta. Por infelicidade, estas
sementes caem normalmente em solo pedregoso e são comidas pelos lobos da dúvida e da autocrítica. As primeiras
sementes do descontentamento freqüentemente aumentam a fome por mais, pressionando a criança a ter um
desempenho tal que possa ver o sonho de uma família feliz se tornar realidade.

A vontade de mudar é uma bênção mista. Ela tanto abre a porta para um gosto de esperança quanto ata a
alma da criança às fantasias perniciosas da família. A criança se torna prisioneira da esperança de que alguma coisa
pode ser feita para levantar o ânimo da mamãe e evitar que papai se irrite. O desejo fervoroso de ver uma mudança na
família dá forças à criança para alcançar a excelência acadêmica, atlética, social ou religiosa.

O resultado - independente do fracasso ou sucesso - é o mais profundo desapontamento ao perceber que


nem mamãe nem papai mudaram. A razão pela falta de mudança é sempre considerada como uma falha da criança:
"Se eu tivesse me esforçado um pouco mais, talvez o técnico tivesse me deixado jogar no time principal. Se eu
sorrisse um pouco mais, talvez tivesse sido convidada para ir ao baile de formatura por um daqueles garotos fortes. Se
eu tivesse me saído bem, talvez papai não precisasse abusar de mim, ou então mamãe seria mais carinhosa com papai
e tudo estaria melhor". A incapacidade de ser melhor o suficiente para mudar uma família problemática leva à
primeira experiência de impotência.

Os desejos sutis de um pai carente, que freqüentemente atribui à criança o papel de um adulto, juntam-se ao
senso de onipotência distorcido na mente da criança. Uma criança que sempre foi rotulada como "o auxiliar da
mamãe" ou "a menina predileta do papai" cai na armadilha de desempenhar o papel de um adulto que ela muito
provavelmente não é capaz de exercer, mas se torna algo que ela imagina ser necessário se deseja encontrar a
felicidade.

Que laço terrível! Uma criança recebe as chaves do reino, o poder de agradar e trazer mudanças e, num
dado momento, percebe que não é alta o suficiente para colocar a chave na fechadura da imensa porta à sua frente.
Vagarosamente, ela percebe que não importa o quão boa, o quão bem-dotada, inteligente, musical, sociável e
competente ela seja, pois nada disso é suficiente para mudar o terrível vazio de sua família.

O abandono do abuso sexual

O segundo poço profundo que provê água para a violenta corrente é a impossibilidade de parar o abuso
depois de ele haver começado. O abuso pode ser um episódio repentino e inesperado que ocorre porque alguém
estava no lugar errado na hora errada, ou uma abordagem cuidadosamente construída visando a máxima discrição e
facilidade.

Em ambos os casos a vítima não sabia o que estava para acontecer. Não havia uma maneira de interromper
a investida. Não havia uma opção para a vítima, nem tempo para refletir, nem perspectiva das questões envolvidas no
abuso, ou nem mesmo a oportunidade de buscar ajuda de outra pessoa quanto à adequação de um envolvimento. Em
outras palavras, a investida roubou-lhe a oportunidade de escolher, seja em sua forma repentina de ataque ou na
detalhada orquestração de uma sedução. Independentemente de a dor física ser experimentada ou não, a violação do
corpo e da alma conduz a uma sensação de pequenez, abandono e solidão.

Além disto, o agressor faz uso da ameaça ou da vergonha para silenciar sua vítima. O medo de ser
queimado até à morte ou ser enviado para um orfanato faria com que qualquer um, compreensivelmente, ficasse
mudo. Entretanto, a violência não é a única arma usada para enfraquecer a voz da vítima. A vergonha é uma
ferramenta tão eficiente quanto a primeira. A ameaça de ser ainda mais exposto e humilhado incrementa a sensação
de abandono.

A terrível dor da alma

As duas forças mostradas anteriormente podem ser vistas como a inabilidade de mudar um sistema (a
família) e a inabilidade de interromper o abuso (o agressor). Em ambos os casos, a inabilidade envolve algo que está
fora da alma. O terceiro fator, contudo, não é interpessoal nem externo, mas pessoal e interior. Envolve a
incapacidade da vítima em conter a hemorragia de sua alma.

A falta de envolvimento profundo é exponencialmente incrementada pelo abuso. O coração dói e não há
nenhum recurso de cura imediata, excéto a negação da própria alma em sentir-se viva. Que escolha terrível! Se a

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vítima quer viver livre de dor, então deve escolher não viver. Uma mulher disse que esta situação pode ser explicada
como se o agressor constantemente bombeasse esgoto contaminado para dentro de sua casa e a única forma de não
sentir esse odor fétido seria anular o sentido do olfato.

Embora a vítima possa escolher anular a parte de sua alma que sente dor, a graça de Deus reconstitui esta
parte de seu ser de modo que não possa destruir totalmente seu senso intuitivo de ser. Ela não pode se livrar por
completo da dor, nem mesmo se optar por uma catatonia, personalidades múltiplas, amnésia ou negação espiritual. O
remanescente da dor zomba e conforta, de modo alternado, o coração da vítima: "Estou sentindo dor e não estou no
controle. Estou viva e não sou um robô". A dor persiste e não pode ser eliminada totalmente através de esforços de
fuga.

A essência das três forças da impotência - a família, o agressor e a dor - é a inabilidade de escapar ou mudar
as horríveis conseqüências de viver em um mundo decaído. Somos assaltados todos os dias pelas forças do mal, da
injustiça, do egoísmo e do abuso como conseqüência do curso natural de viver em um mundo caído, cheio de pessoas
pecadoras. Quando se tem a pretensão de achar que a vida boa é uma questão de esforço e a honestidade é lançada
longe através da vitimização, vemo-nos frente à frente com a realidade de quão poucas coisas — ou nenhuma —
estão sob nosso controle direto.

A impotência, que é nossa incapacidade de mudar o coração de nossa família, de impedir o toque físico do
agressor ou calar os terríveis gritos de nosso coração, é a realidade endêmica de toda a raça humana, ainda que seja
encarada somente por alguns. Estamos todos abandonados, mas apenas aqueles que foram brutalmente privados de
sua liberdade natural de escolher e de seu legítimo direito de redirecionar tudo aquilo que está errado saberão
precisamente o que é ser impotente perante os desafios que nos são mais importantes.

A impotência não é um presente, mas as conseqüências de encarar nosso abandono, seja como vítimas de
abuso ou como peregrinos num mundo que não é nosso, podem abrir as portas paras as novas visões de poder e para
um forte sabor do que significa ser livre.

O custo de ser impotente

A experiência da impotência não requer destruição ou dano à alma. Contudo, na maioria e quase totalidade
dos casos, o profundo abandono produz feridas e cicatrizes profundas. O dano interior segue o caminho da dúvida,
desespero e desalento.

Duvidar de nós mesmos é algo comum, especialmente quando nossos esforços em conseguir resultados
falham. A falha é uma pedra em nosso sapato que nos incomoda até que encontremos alívio.

Num primeiro momento, a falha em alcançarmos nossos objetivos vai nos levar a uma análise detalhada
(Em que posso melhorar?) e a um reassumir compromisso (Como posso me esforçar mais?). O sucesso pode ser
obtido - um profissional hábil, um atleta exemplar, comparecimento exemplar à escola dominical - mas o objetivo
real - uma família feliz, o fim do abuso e o alívio da dor - está sempre fora do alcance.

O resultado será uma pergunta severa (e muitas vezes com alto teor crítico) sobre o que está errado
conosco. "Por que eu não posso correr mais, cantar melhor ou ser mais perfeito?". A dúvida sobre si mesmo abre
caminho para o desespero.

O resultado de um trabalho contínuo que falha em alcançar seu objetivo é o abandono adquirido. Abandono
adquirido é uma espécie de tática de contra-ataque que foi aprendida, consistindo na desistência antes mesmo de
tentar, porque não há sentido em buscar um objetivo que está fadado ao fracasso. Imagine ser preso injustamente
numa cela escura. Depois de ser colocado lá, você pode gritar, chorar, implorar e ameaçar até que sua voz acabe.

Após um certo tempo, você até poderia parar para pensar numa saída. Mas, quando estiver claro que não
existe um meio de escapar e que ninguém vai ouvi-lo ou virá para resgatá-lo, toda a esperança de mudança é
abandonada. "A esperança que se adia faz adoecer o coração" (Pv 13:12) e nós preferiríamos não nos sentir doentes;
portanto, se abandonarmos a esperança, poderemos viver sem que o coração adoeça. O desespero é uma capa
protetora que impede que a alma sofra as demandas da fria dúvida em relação a si mesmo; a depressão é o caminho
intermediário entre a energia que opera as mudanças e a total perda da esperança.

Aqueles que abandonam a esperança silenciam sua alma cortando o ódio, a dor e o desejo, transferindo-os
para as regiões mais profundas do inconsciente. Às vezes, porém, a escolha é tão consciente quanto um juramento.
Uma mulher recorda-se de um compromisso que fez à época em que seu tio flertava com ela. "Se eu não demonstrar
nada, ele vai parar". Ele não somente não parou como intensificou suas intrusões verbais através de comentários
sobre seu corpo em fase de crescimento. Ela aprofundou seu compromisso: "Se eu nunca me manifestar, então ele
pelo menos nunca terá o prazer de me ver respondendo".

Deste ponto em diante, ela se tornou inexpressiva, um autômato que mandou sua alma para um exílio na
mais fria região ártica da negação. O desejo de se livrar dos sentimentos negativos que a machucariam ainda mais a

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induzia a um compromisso cujo resultado foi a perda de sua alma. Ela se descrevia como aquela pessoa que deixava a
luz da varanda acesa, mas nunca estava em casa. Sorria c fingia envolver-se, mas ninguém era sequer convidado a
entrar em sua alma vazia. Ela nunca estava em casa; nem para ela mesma.

É impossível silenciar a alma completamente tendo em vista o modo como Deus nos fez. A alma vai
ressurgir, independentemente da crueldade usada para destruí-la. Ela vai surgir e viverá outra vez, retornará e será
empurrada novamente pela crítica. O poder para destruir a alma não está nas mãos de Satanás, em um ser humano ou
até mesmo na pessoa. Contudo, quando tentamos calar nossa alma, estamos abrindo as portas para terríveis
conseqüências.

As conseqüências de ser impotente

A experiência de sentir-se impotente é quase sempre danosa. As conseqüências externas da dúvida, do


desespero e da anulação colocam em andamento um processo que freqüentemente acaba em relacionamentos
rompidos e ainda maior vitimização. Quando nos sentimos profundamente abandonados,
podemos perder nosso senso de dor, que por sua vez nos leva à insensibilidade do ego, resultando inevitavelmente
numa perda de julgamento e sabedoria. O processo pode ser fatal.

Perda do senso de dor

A dor é uma dádiva. Podemos até não lhe dar as boas-vindas quando se intromete em nossa vida, mas
imagine o que aconteceria se nunca sentíssemos dor. O Dr. Paul Brand, um renomado médico que estudou e tratou de
lepra durante anos, descobriu que a doença destruía suas vítimas através da morte das terminações nervosas. A
progressiva mortificação das sensações nervosas permitia que a lepra expusesse os pés ou as mãos a situações de
extremo calor, frio ou perigo, sem que o portador se desse conta disso. A doença destruía a pessoa indiretamente
mediante a eliminação da consciência de dor. O paralelo mais óbvio com relação à nossa condição espiritual e à vida
é uma maravilhosa metáfora que traz perspectiva e honra à experiência do sofrimento.

Uma pessoa que sofre abuso sexual normalmente passa pela experiência da dor através de um processo de
divisão, negação e perda de memória. A divisão envolve um processo de segmentação de lembranças e sentimentos
em categorias facilmente separáveis entre boas e más.

A autoconceituação como totalmente bom ou totalmente mau é intensificada pela construção de uma
fortíssima barricada separando os dois lados. Não é possível à pessoa ver os motivos incorretos de seu "bom eu" ou
os legítimos desejos e até mesmo intenções honrosas de seu "mau eu". Os dois estão separados por uma cortina de
ferro: de um lado, há luxúria, vingança, ódio e carências da alma; do outro, todo o amor, perdão e carinho. Se algum
sentimento do lado escuro é notado, ele deve ser tanto negado quanto abraçado, numa orgia de compulsão.

A pessoa alcoólica odeia a si mesma, mas, periodicamente, "dá-se o direito" de ausentar-se do seu "bom
eu", para alguns momentos de devassidão. Ela sabe que deve pagar o preço da vergonha e da crítica, mas mesmo isto
é um preço muito pequeno, uma vez que o ódio a si mesma adiciona uma camada a mais à parede e, portanto,
aumenta a distância da dor que está lá dentro. A divisão gera uma parede de negação, que separa a mente da agonia
do coração. Esta parede divide a pessoa fazendo surgir uma personalidade "boa" e outra "má"1. Há algum risco de
uma dificuldade interior acabar levando ao esquecimento? A dificuldade ao se sentir impotente perante o terrível mal
e o vazio é uma batalha feroz que parece valer a pena esquecer. A energia requerida para se manter intacta a parede
de ferro da negação é cara e consome tempo. Portanto, é comum que as lembranças e os sentimentos sejam elimina-
dos ou ocultados da alma, bloqueados a qualquer recuperação, em vez de sofrer em um mundo que não oferece
nenhuma ajuda2.

Não podemos sentir dor se estivermos mortos. Se não houver ninguém em casa para atender à porta, então
não precisamos nos sentir desapontados se ninguém bate à nossa porta. Mas o que mais acontece quando a
experiência da dor é eliminada? Colocado de modo simples, quando abandonamos a dor, perdemos o senso de seres
íntegros e vivos.

Perda do senso de personalidade

O conceito do eu ou da personalidade é uma noção intuitiva ao invés de científica. O que é o eu? Como
definimos as palavras alma ou eu ou, em decorrência disto, a idéia de vida? Há algo dentro de nós que provê
continuidade e coesão às diferentes experiências da vida. Lembro-me de um passeio que fiz ao gabinete do
governador quando era escoteiro. Usava bermudas, camiseta e um boné de Davy Crocket. Todos os meus colegas
usavam camisas, gravatas e um paletó. Quis morrer, especialmente quando tiramos uma foto com o governador. Ao
lembrar-me deste fato, ocorrido há mais ou menos vinte e cinco anos, ainda sinto minha face enrubescer. Posso ver
aquele garoto sardento, de cabelo encaracolado, bastante diferente de mim, e ainda assim sentir minha face
avermelhar-se, porque eu sei que era eu.

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Mas, o que sou eu? Não tenho idéia. Tudo o que sei é que estou conectado àquele garoto e que ele está
conectado com o homem que eu verei daqui a vinte e cinco anos, mais lento, barrigudo e careca. Sou tanto corpo
quanto alma. Como alguns escreveram, sou uma alma incorporada ou uma alma sensual. A contradição de ser tanto
físico quanto imaterial não pertence ao reino da compreensão plena. Mas eu sei que meu corpo faz parte do meu eu
mais do que qualquer outra coisa.

Sou muito mais do que meu corpo; contudo, sou pelo menos a totalidade de tudo o que já experimentei em
meu corpo. Confuso? Talvez isto seja parcialmente intencional da parte de Deus. Meu ser não pode ser definido fora
de um relacionamento com Deus. Sou um órfão de Adão e um filho adotado do Rei. Meu ser e minha identidade
acham seu início e seu fim em algo que está fora de mim mesmo, mas se me torno insensível à minha fome e sede,
nunca olharei para fora de mim, buscando sentido para a vida.

Fome e sede - melhor dizendo, desejos de relacionamento e impacto - são a nossa ligação subjetiva entre a
alma e o corpo. Se perdemos este senso de fome e sede, igualmente perdemos a noção da pessoa que somos;
conseqüentemente a noção de personalidade que dá perspectiva e coesão à vida é perdida.

Pessoas que sofreram abuso sexual parecem estranhos a seus próprios corpos. Eles não gostam "dele". "Ele"
é muito pequeno ou muito grande. "Ele" é o inimigo - fica cansado, tem fome, é estimulado ou adoece. Algumas
vítimas de abuso evitam tocar seus seios ou seus genitais. Se elas pensassem em si mesmas como pessoas, tenderiam
a imaginar-se como almas que habitam um corpo que é semelhante a uma concha que pode ser descartada,
alegremente, no momento da morte3.

Semelhantemente, as pessoas que sofreram abuso sexual sentem-se estranhas com relação à sua própria
alma e história.

Em muitos casos os padrões de mentira ou engano comuns às pessoas que sofreram abuso vêm à tona
devido a uma história esquecida que os força a forjarem um passado e um presente que não tenha nenhuma conexão
com suas almas que sofreram abuso. As conseqüências são não somente a perda do passado, mas também a perda da
habilidade de julgar o presente e planejar o futuro.

Perda do senso de julgamento

Todas as decisões envolvem a capacidade de analisar a situação. Não podemos fazer uma escolha sem o uso
da razão e do sentimento. O que acontece quando tomamos uma decisão sem a consciência de fome e sede, ou o
senso do eu? Vamos continuar a tomar decisões, mas nossa energia será apenas para defesa e serviço de nós mesmos
(autoproteção). Finalmente, todas as escolhas serão feitas, declaradamente ou de modo sutil, com o objetivo de
manter nossa alma atada e nosso passado escondido sob o véu da vergonha. A tônica de nossa vida será algo rígido e
distante, ilusório e sem envolvimento, não importando o quão doce ou bondosa seja nossa disposição. Uma análise
detalhada vai mostrar como o julgamento de uma pessoa que não sente dor é obscurecido pela ausência da alma.

Por exemplo: uma mulher que foi a um novo ginecologista percebeu um certo nível de intimidade em suas
perguntas e em seu toque e achou tudo isto não apropriado. Ela tratou de anular suas suposições iniciais criticando-se
severamente por estar julgando mal seu competente médico: "Ele é um bom homem. O que estou sentindo é típico do
meu jeito perverso e louco de ver as coisas".

Conseqüentemente, cada uma das consultas nos seis meses seguintes apenas servia para confirmar que seu
coração era libertino e devasso, porque a cada vez ela sentia o interesse impróprio do médico. Quando ele finalmente
a estuprou, o que aconteceu foi apenas uma convicção de que ela permitiu que aquilo fosse adiante, ao invés de ter se
intimidado com seu toque íntimo e carinhoso, que nada mais era do que uma armação para o abuso ocorrido
posteriormente. A perda do senso de dor e do eu e a recusa em acreditar em sua própria intuição tor-naram-na
desnecessariamente vulnerável ao vergonhoso ataque físico de um homem.

É mais freqüente vermos julgamentos distorcidos do que corretos nas relações humanas. Uma mulher que
sofreu abuso pode ser uma advogada criminal, dirigir uma grande companhia ou ser a sua cirurgiã e fazer
julgamentos extremamente competentes dentro de sua área de especialização. Na maioria dos casos, ainda que isto
possa parecer macabro e cruel, eu preferiria que meu advogado fosse alguém obsessivamente perfeccionista.

A vítima de abuso sexual se torna um refinado advogado, cirurgião ou CEO3* porque todas as suas forças
defensivas são direcionadas para alguma coisa que ela possa controlar: a vítima nunca mais se sentirá impotente
outra vez!4. Ela pode estar ao meu lado num tribunal, mas Deus me livre de tê-la como vizinha, amiga ou esposa. Sua
mais profunda dor surge nos relacionamentos e é neles que seu julgamento muito provavelmente será distorcido. Uma
vez que ela tenha decretado morte à sua dor no passado, ela é incapaz de aprender o que a machuca; portanto, ela
freqüentemente se entrega a novos episódios em que sempre acaba sendo a vítima.

3* CEO é a sigla de Chief Executive Officer, o nome dado ao principal executivo de uma empresa, seja o presidente ou gerente-geral. É um termo bastante difundido no meio
empresarial. (N. do T.)

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O motivo dessa relação entre abuso e o tornar-se vítima novamente não é muito clara5. Existem pelo menos
dois fatores significativos. Primeiro, uma pessoa vazia e insegura é um alvo fácil para aqueles que estão procurando
ganho e prazer ilícitos. Quem provavelmente será mais enganado pelo vendedor inescrupuloso de carros usados: o
comprador que entende e gosta de carros ou aquele comprador inseguro, de primeira viagem? Muitas vítimas de
abuso atribuem o fato de terem se tornado vítimas à sua confiança cega e inocente, além de uma fraqueza que
praticamente convidava ao abuso. O sinal inconsciente que é emitido para um mundo pecador é um convite que atrai
lobos aos lugares onde há presas fáceis.

O segundo fator é mais complexo e difícil de ser explicado. Homens e mulheres que sofreram abusos
normalmente iniciam relacionamentos com pessoas que não são confiáveis, fiéis ou amorosas. Trabalhei com um
grupo de mulheres que foram casadas e divorciadas várias vezes, seduzidas e fraudadas em grandes quantias de
dinheiro por homens que possuíam várias características em comum. Não é incomum vermos mulheres que sofreram
abuso se envolverem com homens incapazes de tomar decisões, que não gostam de intimidade e que defendem sua
fraqueza através de uma atitude distante e defensiva, que ocasionalmente explode em raiva. Por que isto seria um
resultado de mau julgamento?

Do ponto de vista da vergonha, julgamentos fracos podem ser entendidos como o resultado de não se sentir
digna de uma relação com um homem realmente amoroso. Isto nos parece fácil e claro. É a partir do lado da crítica e
da auto-rejeição que as águas se tornam escuras.

Uma mulher que se vê destituída de poder na maioria de seus relacionamentos importantes sente-se fora do
controle das relações, especialmente naquelas em que seu coração vê alguma esperança de que sua alma desperte e
floresça novamente. A ambivalência é grande: "Devo permitir-me grandes esperanças e, portanto, tornar minha alma
vulnerável para ser desvastada novamente caso me seja tirado o amor que tanto anseio? Ou devo entrar numa relação
mais superficial, aparentemente boa, que dá um certo prazer por um curto espaço de tempo, mas que, provavelmente,
vai acabar num desastre já esperado?" Quem vai causar um medo maior: um homem compromissado e amoroso ou
alguém de cabeça fresca e egoísta?

O primeiro homem - o dedicado e amoroso - vai assustar a mulher que sofreu abuso de um modo muito
maior que o infiel. O homem descompromissado e que não se envolve é, ao menos, previsível, não alimenta grandes
esperanças e machuca muito menos do que aquele que tem condições de propiciar um relacionamento de qualidade.
Aquele que é capaz de se relacionar de modo honesto não somente provoca maior temor como também é muito mais
difícil de controlar.

Esta é uma luta terrível para a mulher que sofreu abuso. Ela sonha com um homem que vai tomar conta
dela. Por outro lado, sente-se horrível por estar numa posição em que não tem controle. Sua opção termina recaindo
sobre a ideia de encontrar um homem forte que controle, seja competente e agressivo em sua carreira (força exterior)
e muito ocupado para se envolver realmente numa relação com sua família (sem envolvimento); ou então poderá
procurar um homem passivo que não vai se empenhar nem na carreira (sem força) nem na família (sem
envolvimento). Em ambos os casos, a mulher não precisará abdicar do controle da relação6.

Um homem fraco de quem não se pode depender parece a escolha perfeita para um namorado ou um caso.
Ele não desperta as mais profundas paixões do coração, mas oferece um gostinho de relacionamento, sem que a
mulher precise vivenciar uma profunda impotência. Ele dá evidências de que ela não é assim tão atraente e desejável
(se fosse, por que ele a trataria com tal desprezo?), o que intensifica sua crítica, tornando-se uma espécie de
mercenário oculto que mata seu coração já faminto e fraco. Ela também tem liberdade de entornar toda sua raiva
sobre um homem fraco e sem envolvimento. O ódio por ser impotente encontra um alvo perfeito já que ele não
desafia ou ameaça seu isolamento solitário e seu coração machucado.

Maus julgamentos sobre relacionamentos são comuns e previsíveis. Os fatores por trás da perda da
capacidade de julgar envolvem a decisão de abandonar a alma, enquanto mantêm um certo nível de controle sobre
aqueles que não ameaçam o coração que teme desejar e pedir algo mais. A impotência gera uma visão sobre si
mesmo, sobre os outros e sobre Deus profundamente intrincada e difícil de ser mudada.

Fatores principais relacionados à impotência

Quando uma pessoa que sofreu abuso se sente impotente, ela internaliza uma imagem de si mesma
profundamente inadequada. Ela questiona suas habilidades, competência e inteligência. A dúvida que abre as portas
para o desespero se concentra nas seguintes questões: "Por que não pude interromper o abuso, o vazio e a dor no seio
de minha família? Por que não obtive melhores notas? Por que papai gosta mais de minha irmã do que de mim? Por
que mamãe acha que estou sempre errada?". As dúvidas estão centradas na questão da falha.

Numa primeira abordagem, a falha parece implicar inabilidade, incompetência ou falta de motivação. A
mulher que sofreu o abuso freqüentemente vai ver a si mesma como uma deficiente mental. Trabalhei com homens e
mulheres que atingiram os mais altos níveis de proficiência em suas áreas de atuação e ainda assim viam-se a como
idiotas. Uma mulher sempre achava um jeito de desmerecer suas boas notas dizendo que o exame fora fácil.
Posteriormente, quando foi aceita no Centro Médico da universidade Harvard ela justificou seu sucesso a uma certa

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atitude de tolerância com as mulheres. Sua escolha como a chefe da residência em um hospital de renome foi
racionalizada como uma conquista de suas qualidades organizacionais "adequadas", que outros estudantes nunca se
preocuparam em alcançar, visto que eram muito mais inteligentes e bem-dotados.

É totalmente inútil encorajar uma pessoa como esta a avaliar suas aptidões dadas por Deus de um modo
mais realista, porque a energia por trás da dúvida profunda e do ódio não está baseada na realidade. A imagem de não
ter talento, ser medíocre, mediana ou coisa pior é uma avaliação autoprotetora que visa uma coisa: ela dá à vítima
uma explicação bastante crítica da razão pela qual ela não consegue eliminar a dor. Ao se considerar pouco
inteligente e medíocre em termos de habilidades, ela explica tanto a razão de sua impotência quanto a esperança de
que ela pode se tornar mais poderosa (através do estudo, do desenvolvimento da oratória ou sendo mais atenciosa ao
ouvir). Esta avaliação crítica da habilidade e inteligência também se presta a calar a dor e desviar as atenções daquilo
com que a pessoa que sofreu o abuso se acha menos capaz de lidar: seu ódio e raiva.

Em resumo, ouvir o que as pessoas falam sobre suas habilidades naturais, inteligência e feitos é uma boa
regra para se ter uma idéia inicial quanto à natureza e intensidade de sua crítica interior. Não estar contente consigo
mesmo nas áreas de inteligência e habilidade é freqüentemente o resultado de um passado de abuso que a pessoa foi
incapaz de interromper.

O dano do abuso não se limita à impotência. Outra ferida profunda é a experiência da traição, a horrível
realidade de ter caído no laço do agressor e ter sido desprezado por pais passivos.

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CAPÍTULO 06

Traição
Há algo odioso sobre uma pessoa que trai um princípio sagrado. Pode ser que as crianças americanas não
saibam o nome do atual vice-presidente do país ou quem era presidente quando elas nasceram, mas muitas conhecem
o nome de Benedict Arnold. A pecha de traidor se apegou a seu nome. Por que a traição é tão devastadora a ponto de
fazer com que crianças conheçam o nome de alguém que cometeu uma deslealdade tão bem ou melhor que o nome
daqueles que escreveram a constituição dos Estados Unidos? Que tipo de destruição é desencadeada pela traição na
alma da pessoa ?

A honra é o oposto da deslealdade. Confiança e respeito são a base de qualquer empreitada humana,
incluindo política, negócios, casamento e amizade. As pessoas podem confiar em nossas palavras? Seu coração está
motivado a honrar a Deus através de seus relacionamentos? Um relacionamento não pode ser suportado - e nem
sequer apreciado - se as partes envolvidas não forem dignas em palavras e intenções. Falhas vão ocorrer,
inevitavelmente, mas a confiança não é construída baseada na ausência de falhas, mas sim na vontade de cada parte
de retificar e corrigir os problemas gerados pelos erros cometidos durante o relacionamento. A honra implica a
presença de honestidade e restituição. No contexto de honra, a falha abre caminho para o aprofundamento da
confiança à medida que os erros são corrigidos e as feridas curadas.

A antítese da honra é a hipocrisia. Ela muda qualquer relacionamento de apoio e consideração mútuos para
uma luta pela proeminência. No instante em que a confiança se perde dentro de um relacionamento, os esforços para
compreender e ajudar a outra pessoa são esquecidos no calor da batalha por controlar e minimizar o dano aplicado a
nós mesmos.

Deixe-me ilustrar este fenômeno trazendo à mente uma experiência comum. Como você se sente ao entrar
numa loja para fazer uma compra grande? O vendedor se aproxima com um sorriso e a mão estendida. Seu coração
fica feliz? Você se sente relaxado em sua presença, sabendo que seus maiores interesses serão considerados? Ou você
percebe que o grande interesse dele em saber seu nome ou comentar sobre como seus filhos são bonitos ou ainda em
saber por que você está comprando naquele shopping e, mais precisamente, em sua loja são apenas estratégias para
realizar seu principal intento: vender o mais possível, ao preço mais alto possível?

Estamos acostumados a lançar um olhar de cinismo sobre vendedores, políticos, líderes religiosos e até
mesmo nossos vizinhos - de fato, para a maioria as pessoas, exceto para nós mesmos. O humor cínico se torna a
marca registrada da sofisticação para aqueles que acham que o coração do homem é sempre mau. Confiar é ser
destruído; esperar por honra é ficar decepcionado. Num tipo de atmosfera como este, os relacionamentos são
descartáveis.

Em contraste à sofisticação cínica, algumas pessoas desenvolvem uma cegueira infantil e inocente que
rejeita a evidência da falsidade e egoísmo e, de modo temerário, assume que tudo vai dar certo, sem qualquer direção
ou intervenção direta.

Nesta atmosfera, os relacionamentos profundos são trocados por prazeres com gosto artificial. Em ambos os
casos, o relacionamento é violado.

A violação de um relacionamento abre a caixa de Pandora cheia de suspeitas e vergonha que existe em
todas as pessoas. A suspeita que temos deste mundo - que ora despreza gentilmente nossos desejos, ora abusa de
nossa alma - é semelhante a uma caixa cheia de madeira seca. A deslealdade é a faísca que dá início à explosão da
perda de confiança de nossa alma. Quando a paranóia mostra suas labaredas, o relacionamento é prejudicado, a
esperança é destruída e a confiança na outra pessoa passa a basear-se em algo como "prove-me primeiro e eu crerei
depois", sem qualquer oportunidade de recuperação. A alma humana é deixada ao relento, vazia, assolada pelos fortes
ventos da solidão e da dúvida.

Algo dentro de nós reage à decepção e à deslealdade. A traição não somente aumenta a dúvida e endurece o
relacionamento com nosso vizinho, mas aprofunda, de modo inevitável, o ódio por nós mesmos. A pessoa traída
normalmente lamenta assim: Como pude ser tão estúpida? Como pude confiar em alguém tão falso? A vergonha por
ter sido usado em benefício de outros aumenta a fúria da auto-incriminação. Aquele que foi traído assume que
poderia ter evitado a traição se fosse menos inocente ou carente.

O ataque que a pessoa lança contra sua própria alma é freqüentemente mais violento do que a própria
traição sofrida. O objetivo de seu ataque, como na autocrítica, é destruir sua alma faminta. A pessoa teme que,
mantendo-se aberta a seu anseio por um relacionamento, poderá estar se abrindo, de modo tolo, a novas
possibilidades de traição. Não se pode confiar em ninguém, nem em si mesma. Além do mais, todos os seus próprios
desejos (ser honrada, valorizada, desejada, etc.) são, em essência, aquilo que lhe trouxe problemas! É melhor eliminá-
los de uma vez do que correr o risco de sofrer traição e humilhação novamente. É melhor ter poucas expectativas em

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relação a alguém e evitar um desejo por algo mais.

Fingir-se de morto é, de algum modo, melhor que lutar contra as dúvidas internas ou a solidão. Para apagar
o ato de traição, não importa se a vítima ignora a ferida ou se opta pelo esquecimento.

O que descrevi é o resultado de qualquer tipo de traição, seja a decepção de ter comprado um produto de
qualidade inferior ou de ter ouvido uma mentira de um amigo próximo. Traição pode ser definida como qualquer
desconsideração ou dano causado a dignidade de outro como o resultado do propósito de alguém de buscar vida à
parte de Deus. A traição, definida desta maneira, é uma ferida constantemente presente em qualquer relacionamento.
É uma coisa tão comum em nossos dias que não nos damos conta das milhares de traições de que somos vítimas, a
não ser que a pessoa tenha sofrido uma traição tão séria que a tenha levado a desenvolver uma vigilância constante e
uma percepção crítica. Este é o caso das pessoas que sofreram abuso sexual.

O restante do capítulo enfocará o dano interno causado pela traição do abuso sexual. Qual a sua causa,
custo e conseqüência, e qual a imagem que a pessoa vai internalizar quando traída neste nível de profundidade?

A causa da traição

A traição do abuso sexual é tão óbvia e intuitivamente clara que uma discussão sobre sua origem pode
parecer supérflua. Nada poderia estar mais distante da verdade. A traição real experimentada no estágio 3 (o abuso
sexual propriamente dito) é somente uma parte do dano. Sexualizar a relação é algo devastador, mas ela causa um
impacto ainda maior devido ao cenário em que ocorre.

A traição possui três níveis: a falha da família em instruir a criança anteriormente ao abuso, o ato de traição
do agressor e a falta de proteção oferecida pelos pais omissos. A falta de substância no relacionamento é o solo
necessário para que a erva daninha do abuso floresça. Um ambiente sadio no qual a criança é respeitada e tratada com
sensibilidade e compaixão raramente produz abuso.1 E impossível usar alguém a quem se ama. O desejo de possuir e
subjugar - a fome de dar o troco e destruir - é o terreno para o abuso.

O lar onde ocorre o abuso ou onde o abuso extrafamiliar é ignorado é um ambiente imprevisível e perigoso.
A criança não tem a compreensão intelectual ou a experiência contrastante de um lar afetuoso para avaliar a
inadequação de seus pais ou irmãos, ainda que sua tendência natural ao relacionamento faça soprar um vento
contrário de confusão, mesmo em crianças com menos de dois anos.

Olhe para o rosto de uma criança de um ano de idade à qual lhe é negado o direito a uma coisa que julga
prazeirosa. Ainda que ela seja criada com ternura e de modo adequado, lágrimas vão rolar e o desapontamento vai
aflorar em sua face. Imagine a fisionomia e o interior de uma criança que, ao explorar a mesa da cozinha, bate com o
rosto contra ela. Será que esta criança aprende alguma coisa com esta experiência? Até mesmo as falhas menos
gritantes de um ambiente distorcido e onde não há envolvimento ensinam a criança a curvar-se perante o peso do
dano e da negação e, de modo alternado, a afirmar e a negar os desejos que desabrocham de sua alma. O lar que
abusa da criança, ainda que não do ponto de vista sexual, normalmente é um lugar de grandes traições.

O abuso sexual consumado é precedido de um período de preparação. Na maioria dos casos, a criança é
apresentada a prazeres relacionais e físicos que contradizem a "norma" de viver no deserto de negação. Privilégios e
intimidades que nunca ou raramente estiveram presentes se apresentam agora de uma maneira ampla.

Uma mulher descreveu este período como o convite ao oásis. Ela foi mantida num deserto por anos,
contando somente com o suprimento de água requerido para que não morresse de sede. Ela nunca se sentiu satisfeita
com o copo de água morna que lhe era oferecido, até que seu pai lhe deu um grande copo com líquido, cheio de gelo,
dando-lhe a oportunidade de beber o quanto quisesse. Ela rapidamente tomou o copo e sentiu as ondas de frescor
aliviando-lhe o sofrimento. Quando pôs o copo de volta na mesa, ela percebeu, num momento de extremo horror, que
aquilo que acabara de consumir era urina, a qual não iria matá-la, mas, com certeza, desqualificou e maculou seu
momento de alívio.

A metáfora de beber urina descreve a traição do abuso sexual. A vítima de abuso é abandonada com sede e,
então, é forçada a consumir algo que alcança tanto seus legítimos desejos quanto destrói o aspecto de seu ser que foi
despertado pelo convite. Esta situação é horrível. Se ela se sente viva perante o agressor, então ela deve querer o que
ele lhe oferece. Se ela não quer o que ele lhe oferece, então ela não deve estar viva. A traição não é apenas o abuso,
mas a revolta por viver numa montanha-russa interior que ao mesmo tempo em que joga a alma em direção à vida,
também o faz em direção à morte. Se isso não fosse suficiente, há outra traição que, na maioria dos casos, é ainda
mais difícil de suportar.

O papel de pais omissos

Para aqueles que não estão acostumados com as questões do abuso sexual é difícil compreender a
angustiante e dolorosa experiência vivida pela vítima ao considerar o papel de pais omissos. Uma ilustração pode
lançar alguma luz sobre esta forma de traição. Há alguns anos, uma mulher foi assassinada em plena luz do dia bem

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na frente de vinte ou trinta pessoas. Os gritos da mulher e a selvageria da morte foram ignorados por alguns e
assistidos por outros. Ninguém veio ajudá-la nem sequer se preocupou em fazer uma chamada anónima para a
polícia. A sociedade estava chocava e irada. As pessoas estavam mais furiosas com o descaso da multidão cio que
com o assassino. A ação do assassinato foi hedionda, mas a recusa em intervir era vista como covardia e falta de
consideração.

Este é o caso do pai ou da mãe e, em alguns casos, de ambos que, por várias razões, escolhem não intervir
ou não vêem necessidade de fazê-lo. Existem inúmeras formas de traição que caracterizam os pais omissos.

Uma dessas formas, difícil de imaginar mas que ocorre com freqüência suficiente para ser citada, é a
cumplicidade. Um pai ou parente que arma a situação para que outro adulto ou criança mais velha possa concretizar o
abuso comete um crime horrível. Cumplicidade pode envolver uma solicitação direta na qual um pai pode mandar sua
filha para a cama do pai dele com as instruções "obedeça seu avô e faça o que ele lhe mandar fazer".

Uma mãe pediu a sua filha que fosse jogar beisebol com seu pai, tios e primos. Como não estava disposta a
ouvir mais os constantes resmungos de sua mãe, a garota de quatorze anos saiu para jogar. A mãe também lhe disse
que tirasse a blusa para não sujá-la. Mais uma vez, a chatice da mãe funcionou, e a garota tirou sua blusa. Não foi
surpresa alguma que, após o jogo, tanto seu primo quanto seu pai abusaram dela sexualmente. Neste caso, está claro
que sua mãe armou uma situação e deu permissão a outros membros da família para que abusassem de sua filha. Ela
foi uma mãe por demais maligna.

Já me deparei com muitas situações em que pais cristãos - incluindo ministros de tempo integral -
claramente prepararam situações de perigo para seus filhos. As razões pelas quais estas pessoas expõe seus filhos a
tamanho risco está fora do escopo deste livro; contudo, é inocente pensar que alguém não possa viver duas vidas:
uma de devoção, sacrifício e bondade altruísta, e outra de maldade, destruição e narcisismo. Exata-mente pelo fato de
parecer inconcebível que um homem ou uma mulher possam ser respeitados servos na igreja durante o dia e
agressores durante a noite é que estas situações são ainda mais possíveis de acontecer.

Uma segunda forma de traição envolve a escolha por negar ou negligenciar. Falei com um número imenso
de pessoas cujos pais os viram na cama com outra criança ou adulto e não fizeram nada ou, quando muito, gritaram
no momento para parar com aquilo e, depois, nunca mais tocaram no assunto para saber o que realmente havia
acontecido. Em outras situações, os pais podem não ver o abuso, mas vêem sinais suficientes para se preocupar e,
ainda assim, escolhem negar ou ignorar as evidências.

Uma mãe levava a filha para a casa de seu tio todos os sábados. Quando a menina tinha onze anos, foi
acariciada por seu primo, de quinze anos. Na vez seguinte em que foi levada àquela casa, implorou para ir às compras
junto com as outras pessoas ao invés de ser deixada em casa com seu primo. A mãe ignorou seu pedido. A menina
apanhou por isso, e foi violentada pela primeira vez. Deste momento em diante, ela chorava durante os vinte minutos
do caminho entre sua casa e a de seu primo. As lágrimas continuaram por dois anos. Em nenhum momento sua mãe
lhe perguntou porque ela não queria ir ou porque ela chorava convulsivamente todas as vezes que era deixada com
seu primo.

Não é necessário que o pai saiba ou suspeite de um abuso sexual para trair o filho. Uma terceira forma de
traição por omissão vem como o resultado de a vítima, uma vez ocorrido o abuso, não ter a quem recorrer devido à
fraqueza de caráter de seus pais. Imagine contar para aquele pai violento e brigão que seu filho abusou de sua filha.
Se você fosse a filha, temeria uma reação catastrófica e a dissolução de sua família. E se sua mãe fosse uma pessoa
hipersensível, alguém emocionalmente instável que pudesse entrar numa profunda depressão por um ano? Você acha
possível conversar com ela detalhes sobre como seu tio acariciou você no piquenique da família? As vítimas de abuso
raramente admitem a mais remota "impossibilidade" de encontrar ajuda em sua família; ao contrário, elas se culpam
por não terem tido a iniciativa de procurar ajuda2.

Em todas as três formas de traição por omissão, os pais escolheram o caminho do conforto pessoal e da
autoproteção baseada no privilégio e responsabilidade de prover um ambiente seguro a seus filhos. O dano pode
variar em função do tipo e da intensidade da traição, mas em todos os casos ele será profundo.

O custo da traição

Separar os danos causados pelo abuso daqueles danos existentes no interior de uma pessoa é algo
extremamente difícil. Seria seguro dizer que a traição raramente ocorre sem que seja acompanhada de uma
experiência de impotência. A pessoa que nega a liberdade de escolha traiu alguém. Consequentemente, tudo o que foi
defendido como parte do custo da impotência também será verdade com relação à traição. O que mais acontece na
experiência da traição? Se a impotência leva à uma mortificação interior, a traição gera o ambiente necessário para
uma suspeita intensa e supervigilante que normalmente leva a uma distorção ou negação de conclusões mais precisas
com relação a si mesmo e aos outros.

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Supervigilância

Certo homem que sofrera abuso e com o qual trabalhei tinha uma preocupação constante em revelar as
intenções doentias de seus vizinhos, amigos e família. Ele via as rugas na testa das pessoas ou os olhares desairosos
dirigidos a ele e sabia o que eles estavam pensando: todos estavam contra ele. Sinais que eu jamais perceberia,
mesmo em um milhão de anos, ele observava a cada instante. Era desnecessário pedir mais esclarecimentos, pois ele
normalmente era bastante preciso.

Outras pessoas, igualmente cientes de seu mundo exterior, vivem com uma profunda consciência sobre
aquilo que os outros podem estar vendo neles. Em ambos os casos a vida está baseada na obtenção do maior número
possível de evidências. O objetivo é nunca ser pego de surpresa. Se alguém conhece o inimigo e sabe onde ele está a
todo momento, poderá tomar uma medida de controle.

O dilema relacionado à supervigilância pode ser desdobrado em pelo menos dois aspectos: miopia e
exaustão. A supervigilância leva à perda de mais detalhes do que aqueles que poderiam ser coletados de uma
observação intensa, mas relaxada. O velho ditado vem à tona: prestar muita atenção na árvore faz com que percamos
a visão da floresta. Os dados coletados são analisados à exaustão, dissecados e reanalisados, enquanto que detalhes ou
fatos óbvios são perdidos no meio do frenesi em busca da compreensão. O resultado é a exaustão. O ser humano não
foi feito para suportar a supervigilância. Depois de algum tempo, os sentidos enfraquecem, as faculdades analíticas
arrefecem e as conclusões são obscurecidas por observar demais e enxergar pouco.

Suspeita

A supervigilância normalmente mascara uma ponta de suspeita. E quase como se a pessoa tentasse
descontar ou negar os relacionamentos danosos à alma ao mesmo tempo em que se distancia de envolvimentos que
enriqueceriam sua vida.

Perceba como uma mulher extremamente crítica consigo mesma lida com um elogio relativo às suas
roupas. Muito raramente ela se sente feliz com o comentário; algumas vezes ela simplesmente desdenha ou destrói o
comentário com uma resposta sarcástica sobre sua vestimenta fora de moda. Em muitos casos a traição passada
introduziu um filtro que avalia toda a bondade, carinho e envolvimento sob a luz de uma pergunta: "O que você quer?
E o que eu devo perder para fazer você feliz?". A suspeita pode ser gentil ou jocosa ("Ah, eu sei que você diz isso a
todo mundo!") ou brutal e cheia de raiva ("Eu sei o que você está querendo"). Em ambos os casos gera-se uma
distância entre as partes.

A suspeita pode ser direcionada tanto a outros quanto a si mesmo. Não é incomum que uma pessoa que
tenha sofrido abuso avalie o sentimento de bem-estar quando está ao lado de outra como algo imoral e perigoso. Se
ela se sente angustiada, pode temer que uma raiva profunda seja direcionada ao objeto de sua ira e o destrua. O medo
do perigo e o medo de se tornar perigoso a outros coexistem no coração da pessoa que sofreu abuso sexual.

Distorção e negação

Uma experiência comum às vítimas de abuso sexual é o viver em um nevoeiro de distorção, meias
verdades, negação e falta de objetividade. Tenho trabalhado com altos executivos que tomam decisões precisas sobre
projetos que envolvem cifras altíssimas mas que são incapazes de entender a mente ou os sentimentos de suas filhas
de treze anos de idade3. O nevoeiro distorce os dados dos relacionamentos.

Existem duas formas primárias de distorção: uma inabilidade de confiar na intuição sobre relacionamentos
e uma tendência a tirar conclusões críticas. Vítimas de abuso sexual aprenderam a duvidar de seus próprios
sentimentos. Freqüentemente elas foram conduzidas por uma família que cometeu abusos ou pelo agressor a
caminhos conturbados e contraditórios.

Um pai, por exemplo, disse repetidamente a seu filho que o sexo anal não apenas era normal como faria
com que ele se tornasse mais homem. O filho se sentia humilhado, mas seu pai lhe dizia que ele se sentia como um
homem. Qual dos dois sentimentos era a verdade? Dizia-se, também, a uma mulher, quando ainda era criança, que
por ela ser geniosa deveria ser espancada; por ser namoradeira, deveria ser isolada dos outros; e que por ser culpada
precisava de perdão. Na verdade, ela nunca sentiu nada a não ser solidão e medo.

A exposição contínua a informação imprecisa sobre as realidades internas leva à falta de confiança nos
próprios sentimentos e na intuição. Além disso, se a intuição fosse reconhecida e nela se confiasse, o óbvio seria
ainda mais terrível.

Uma mulher madura contou-me dos incontáveis jantares que teve com seu pai agressor quando adolescente
e adulta nos quais ele a apresentava como a "pequena dama", tratava-a com carinhos íntimos e flertava com ela como
se fosse uma amante. Em um certo jantar, ela ouviu um homem de outra mesa dizer: "olha o novo caso de John!". Seu
comentário tocou-a profundamente, porque ela tinha "uma idéia" de como seu pai a havia tratado em público por
anos. Fia não encarou os fatos pois estava sistematicamente programada para não confiar em sua intuição em

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momento algum.

O outro elemento da distorção relacional é a inclinação a tirar conclusões em forma de crítica a alguém.
Alguns dados podem ser observados ("Papai está flertando comigo"), mas a conclusão é imprecisa ("Eu devo tê-lo
levado a fazer isso"). A conclusão exata, ainda que dolorosa ("Papai é um homem falso"), é de difícil aceitação e,
portanto, não é considerada uma opção válida.

É freqüente que este comportamento de não confiar em sua intuição leve a desculpas excessivas e a padrões
de proteção a outros: "Papai não estava agindo de modo inadequado; apenas estava mostrando seu amor de outra
maneira".

Uma mulher contou-me que, em uma certa reunião de família, na frente de dez parentes, seu pai se jogou
por cima dela e não saía mesmo que ela pedisse. Ela podia sentir sua ereção e as risadas sem jeito de seus parentes;
contudo, ela justificou seu comportamento como sendo uma brincadeira de criança ao invés de algo abusivo.

Padrões de distorção de fatos e conclusões presentes na mente de uma pessoa terminam levando à
necessidade de enganar os outros. Às vezes a mentira visa a receber apoio ou carinho através do compartilhamento de
dores fantasiosas ou de explorações passadas sem que isso tenha sido necessariamente verdade. Ou então o ato de
enganar os outros pode ser uma forma sutil de exercer poder sobre eles.

O enganador sempre sabe de alguma coisa que o ouvinte não sabe. Tão sutil quanto pode ser a distorção, os
enganadores crônicos acabam ficando viciados no poder do engano e no desafio da busca. De modo mais freqüente,
as pessoas que distorcem e mentem não têm consciência da extensão de sua construção imaginária e da sofisticada
negação que armaram para manter seu engano de pé. A conseqüência da supervigilância, da suspeita e da distorção
centrada em outros ou em si mesmo é a fragmentação do relacionamento.

As conseqüências da traição

As conseqüências da traição são similares aos danos causados pela impotência. A maior diferença é que o
foco se concentra menos na competência pessoal e controle, e mais na perspectiva de esperança num relacionamento.
O dano da impotência é o ataque violento da dúvida, do desespero e do silenciamento, levando à perda do senso de
personalidade, do "eu". O dano da traição é a profunda convicção de que o relacionamento não pode merecer
confiança nem ser apreciado e provavelmente não durará. A conseqüência é a perda da esperança em obter
intimidade, força e justiça.

Perda da esperança de ter intimidade

A intimidade é tanto enganosa quanto perigosa para aqueles que sofreram abuso sexual. Intimidade, ou a
prazeirosa experiência de se conectar a alguém, é vista como o pote de ouro no fim do arco-íris: um sonho bom, mas
irreal. A verdadeira intimidade, aquela capaz de dar profundamente e receber ricamente, é algo impossível: o que é
possível não é a unidade, mas a proximidade. Manter as pessoas próximas de nós pode servir para conservar em um
lugar seguro nossa fome por mais. Ficar isolado e sozinho pode ser mais doloroso do que sentir-se solitário no meio
do burburinho e das atividades do cotidiano, como cozinhar, fazer compras, ir ao supermercado ou se dedicar a um
projeto.

Tudo o que se requer da proximidade é algum sacrifício eventual. Um marido distante não vai requerer um
aprofundamento na intimidade. Ele quer sexo, um ambiente livre de riscos e uma esposa feliz. Por sua vez, a esposa
que não se envolve tampouco vai exigir intimidade profunda. Ela deseja um provedor bem-sucedido, ajuda com as
crianças e uma vida confortável. Distanciadas, as vidas paralelas são uma substituição da verdadeira intimidade. A
proximidade alivia um pouco a dor e não ameaça o coração machucado.

A perda de esperança em encontrar intimidade é uma defesa compreensível. A intimidade foi usada como a
porta de entrada do abuso. A perda de esperança age como uma recusa do coração em ser tentado novamente a amar
e apreciar a vida. A pessoa que foi traída teme seus próprios desejos de se conectar com os outros porque seus
desejos tendem a fazê-la sair do isolamento e querer alguma coisa dos outros, o que certamente a destruirá. A melhor
saída é matar seus desejos e evitar todos os "predadores" do mundo. A autocrítica ajuda bastante: "se não posso
destruir aqueles que provavelmente me machucarão, o único jeito de não me conectar a eles é odiar a mim mesma. Se
eu puder me controlar o suficiente no momento cm que meus desejos começam a aflorar, posso manter a mim e aos
outros fora dos meus limites".

Se o coração foi assolado pela traição, pelo menos a dor futura pode ser minimizada se eu abandonar a
perspectiva de unidade, muito embora todos os tipos de desistência da esperança, conquanto razoáveis e
compreensíveis, levem a uma maior alienação e isolamento.

Perda da esperança por força e justiça

Exercemos força em favor de outros em função tanto de nossa atividade quanto de nossa intimidade. Um

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policial arrisca sua vida para nos proteger contra um criminoso porque este é o seu trabalho. Seu chamado envolve a
responsabilidade de assumir riscos em nosso favor, independente de ele nos conhecer ou não. Por outro lado, a
proteção também é um subproduto natural do cuidado. Se um de meus filhos for ameaçado por um assaltante, não
vou esperar até que o "protetor" oficialmente reconhecido chegue em seu carro de resgate. Eu agiria - provavelmente
sem uma reflexão ou decisão consciente - de modo a fazer o que pudesse para salvar alguém a quem amo. O amor é o
ingrediente principal da força protetora.

Não importa se um homem ou uma mulher que tenha sofrido abuso desista da esperança de ter uma forte
proteção. Se, numa relação importante, a força se constituiu em instrumento para usar e destruir ao invés de proteger,
por que a vítima pensaria que numa relação menos íntima a proteção sacrificial existiria - especialmente quando se
trata de uma autoridade como professores, pastores e outros adultos, que preferem ignorar sinais ou pedidos de ajuda?

Algumas pessoas que sofreram abuso insinuam ou falam com um adulto sobre o abuso sofrido. Porém,
quando esse adulto em quem confiam não toma nenhuma atitude, essa apatia só ajuda a solidificar o dano causado
pelo abuso e a consciência de que não é possível encontrar proteção ou consolo. Coisa ainda pior é quando crianças
são recriminadas a nunca mais dizerem tamanha mentira novamente.

Basta um único encontro com uma autoridade malévola para que se aprenda que confiança é tolice e leva a
riscos ainda maiores. Isto é particularmente verdade nas igrejas. A quem se dará crédito: a uma menina de nove anos
de idade ou a um respeitado diácono de cinqüenta anos? Se a alegação for verdadeira, a perda para o diácono será
imensa. Ele poderia perder sua família e manchar sua reputação. Mesmo que a alegação seja verdadeira, o máximo
que a garotinha vai perder é um pouco de credibilidade (ou assim nos parece): "Vamos encarar a situação como a de
uma empresa falida, cortando os custos, repreendendo o diácono e esquecendo a confusão toda". Estas palavras foram
recentemente proferidas por um respeitável pastor. Eu entendo o sentido, mas é algo inaceitável, especialmente se
alguém visse o dano causado àqueles que perderam a esperança por proteção e justiça.

Qual será a reação de uma criança e, posteriormente, de um adulto a esta perda? Na maioria dos casos a
resposta será um comprometimento em nunca querer intimidade ou buscar proteção. O modo de vida independente
pode apresentar um comportamento sociável ou fortemente rude, sutil e desafiador, ou ainda brutalmente óbvio e
alienante. O propósito será o mesmo: autonomia e segurança. A parede de pedra bloqueia o desenvolvimento da
intimidade e assegura a impossibilidade de um intruso entrar pela porta da frente. Embora seja difícil de com-
preender, ou até mesmo quase inimaginável, o fato é que, enquanto a porta da frente está muito bem fechada e
impede a entrada da intimidade, a porta dos fundos está escancarada para um agressor. O próximo capítulo vai ajudar
a explicar esta realidade singular.

Imagens principais relacionadas à traição

Quando uma vítima de abuso sexual se sente impotente, vê a si mesma como fraca e incompetente. Quando
se sente traída, a imagem principal que vai refletir esta situação é: "Por que o agressor me tratou tão mal? Por que não
fui amada ou protegida?". A resposta pode ser porque a vítima falhou ou foi incompetente, mas na maioria dos casos
isto não explica a severidade do abuso. Geralmente a resposta será encontrada em uma terrível deficiência da alma ou
do corpo.

Uma mulher lamentou-se dizendo: "Se eu fosse uma porcelana chinesa, minha mãe nunca teria permitido
que eu sofresse danos ou fosse usada. Portanto, não devo ser melhor que um velho prato descartável". A metáfora
mostra claramente a imagem da traição. Ninguém abusa de uma possessão valiosa. Muitos homens e mulheres
lamentam o fato de que seus pais gastavam muito mais tempo lavando o carro, cuidando do jardim ou aperfeiçoando
uma tacada de golfe do que lidando com seus corações feridos.

A experiência de ser usado e descartado cria imagens de um ser feio ou indesejável. As características
físicas são a explicação mais óbvia e fácil para entender o fato de parecer indesejável. Alguns tendem ao comentário
vexatório sobre suas características físicas, especialmente aquelas que se referem a sua anatomia sexual ou à
atratividade. Não deveria ser surpresa, então, que pessoas que tenham sofrido abuso sexual desenvolvam um
fortíssimo senso crítico e uma autoconsciência obsessiva com relação a seu corpo. O resultado pode ser uma atenção
exagerada ao aspecto físico, à saúde e aos regimes, ou então um descaso total com o corpo. Em ambos os casos, a
suposta deficiência que está na origem do abuso está sob controle.

Tenho o exemplo de uma mulher com a qual trabalhei. Ela comia pouco, se exercitava diariamente por
várias horas e se pesava constantemente. Sua única esperança de obter intimidade estava no desejo de manter seu
corpo atraente e sensual. Ela era seus seios, coxas e nádegas. Não havia nada mais importante para ela do que ser
atraente para os homens. Outra mulher estava vinte e cinco quilos acima de seu peso normal e, apesar de estar
fazendo uma dieta de apenas duas refeições diárias, quase sempre se embebedava no jantar ou durante a ceia. Ela
odiava seus "pneus", mas também reconhecia que não corria nenhum risco de envolver-se num relacionamento
contanto que se mantivesse não atraente.

Descobri que a maioria das vítimas de abuso elege uma ou mais partes de seu corpo como o centro de suas
críticas. A parte escolhida torna-se o símbolo da pessoa inteira e levará a culpa pelo abuso, ainda que nunca tenha

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sido feita nenhuma associação entre a crítica e os eventos passados. Muito da energia por trás de dietas da moda,
compulsão por exercícios, cirurgias plásticas e consciência do corpo é a busca por perfeição e libertação da vergonha
que está relacionada, pelo menos para alguns, com o problema de lidar com o abuso sexual.

A crítica também pode ser dirigida às qualidade do indivíduo - aquelas que são desejáveis em termos de
relacionamento. "Se eu fosse um pouco mais amigável, carinhoso, engraçado ou sofisticado, não teria sofrido o
abuso". Dúvidas quanto à habilidade em se relacionar podem levar tanto ao início de um regime de auto-ajuda quanto
à rejeição do próprio corpo. A pessoa que trabalha incessantemente "por si mesma" preparando outro seminário,
outro disco ou livro é, normalmente, aquele que mais critica seu próprio caráter.

O dano causado ao coração da vítima através das experiências de impotência e traição é grande. Mas o
vento mais forte é o da ambivalência. Nenhum outro aspecto do abuso sexual é mais devastador para a capacidade da
vítima de viver a vida e o amor na idade adulta.

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CAPÍTULO 07

Ambivalência
A última categoria do dano interno - a ambivalência - é, provavelmente, a mais difícil de descrever. Ela tem
o potencial de produzir mais vergonha e crítica que a impotência ou a traição, apesar de estes dois fatores estarem
intrinsecamente ligadas à ambivalência.

Pode-se definir ambivalência como sentir duas emoções contraditórias ao mesmo tempo. Uma grande
amiga minha, solteira, voltou recentemente da cerimônia de casamento de uma de suas melhores amigas. Ela
descreveu a alegria que sentia por sua amiga em adjetivos riquíssimos, mas seus olhos estavam visivelmente
marejados e tristes. Perguntei-lhe como se sentia naquele momento e ela disse: "Esquisita".

A descrição de seu estado interior como algo esquisito rotulou sua enorme maturidade como algo deficiente
e singular. Seu bom coração se regozijava por sua amiga que fora escolhida e honrada na cerimónia, por presentes e
pelos relacionamentos que mantinha.

A alegria de sua amiga, contudo, trouxe sua solidão a um foco ainda mais apurado. Ela não havia sido
escolhida para ser uma noiva. Vivia sozinha, tomava suas decisões sem consultar ninguém e se debatia com questões
de aceitabilidade. Sua dor era profunda, mas não apagava a alegria que sentia por sua amiga. Sua experiência de
ambivalência, ou os sentimentos opostos de tristeza e alegria, não era uma característica de sua "esquisitice", mas um
sinal de sua maturidade profundamente cativante.

Infelizmente, as emoções rotuladas como esquisitas, loucas, estúpidas ou, pior ainda, como carnais são
justamente as experiências interiores que refletem grande maturidade espiritual. Isto é particularmente verdade com
respeito às experiências de ambivalência geradas pelo abuso sexual.

Com o objetivo de minimizar a confusão e a má interpretação, devo falar sobre aquilo que não pretendo
dizer e sobre o que pretendo dizer. A ambivalência equivale à experiência de prazer relacional, sensual e sexual que,
na maioria dos casos e até certo ponto, foi vivida durante os três primeiros estágios do abuso sexual.

Homens e mulheres sensíveis vão se arrepiar com a idéia de como isto pode ser interpretado por ouvidos
inocentes ou maldosos. Um pai agressor com o qual trabalhei disse-me que crianças gostam de sexo. Ele rapidamente
destacou: "Eu não fiz nada que ela não tivesse pedido antes". Perguntei-lhe o que ela havia feito para provocar as
carícias em seus genitais. Ele disse: "ela subiu no meu colo e pediu que eu a segurasse, e assim eu fiz". Ele assumiu,
maldosamente e de forma errada, que o desejo da criança por colo era um sinal verde para uma brincadeira sexual.

O fato é que a excitação sexual é possível numa vítima totalmente insuspeita pelo fato de que uma criança
pequena já desenvolveu receptores em seu pênis ou seu clitóris que realmente respondem ao toque. Mas este fato não
justifica a sexualização de um relacionamento, nem pode ser usado para justificar que uma criança "queira" e busque
ativamente a estimulação sexual, a não ser que ela tenha sido sucessivamente condicionada a relacionar prazer sexual
com intimidade no relacionamento.

A arcaica e pervertida noção de que uma mulher quer ser estuprada ou que uma criança busca contato
sexual é uma estupidez patente e uma suposição que desonra a Deus. Contudo, a experiência de prazer no meio da
impotência e traição dá início a uma enorme espiral de danos.

O abuso sexual cria correntes contrárias semelhantes a uma ressaca do mar na alma humana. Como é
possível sentir prazer no meio de uma agonizante dor física ou numa dolorosa traição no relacionamento? Um homem
se lembra de ser colocado numa cerca, ter suas calças arrancadas e ser estuprado por seu pai. A dor era excruciante e
não havia nenhum prazer na experiência. Mas, algumas vezes, seu pai terminava o episódio masturbando-o. Naqueles
poucos momentos, ele lutava entre relaxar e ter um orgasmo e um forte desejo de não ejacular, de modo a privar seu
pai da perversa alegria de ver seu prazer. A batalha sempre terminava em uma mistura de prazer e intensa
repugnância por si próprio.

Seu alívio chegou quando ficou incapaz de ter uma ereção. Sua impotência sexual era extremamente
vergonhosa, mas a raiva que ele era capaz de demonstrar mantendo seu pênis flácido era uma conquista suficiente
para se opor à depravação de seu pai. Infelizmente, ele continuou impotente durante a maior parte de seu casamento
de dezoito anos.

Uma jovem que era constantemente "cantada" por seus irmãos, tios e pai devido a seu corpo em
desenvolvimento lembra-se de sentir uma espécie de poder, dominação e atratividade quando eles comentavam sobre
suas formas. Ela nunca havia recebido elogios por seu sucesso acadêmico ou social, mas quando chegou aos catorze
anos passou a ser o centro das conversas masculinas de sua família. Ela incorporou a idéia de que havia algo atraente
em seu corpo, valorizado e desejado pelos homens, incluindo seus parentes.

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Sua alma carente absorveu a atenção, apesar de se sentir embaraçada e vulgar. Quando ela enrubesceu e
respondeu meio sem jeito, isso foi entendido como um convite, e os comentários se tornaram mais agressivos e
detalhados sexualmente.

Seu prazer se transformou em nojo, mas o prazer inicial de se sentir desejada permaneceu em sua alma e,
finalmente, foi misturado com uma crítica intensa. A raiva que sentia de seus parentes e a confusão com relação à sua
resposta interna aos comentários sugestivos que eles faziam estava escondida sob uma crescente e coerente
indiferença, que permaneceu em seus relacionamentos com homens e mulheres por mais de trinta anos após aquele
período de abuso.

Em ambos os casos, a ambivalência não reconhecida e nem tratada estabeleceu padrões relacionais que
carregavam as seqüelas do abuso passado para dentro dos novos relacionamentos. É imperativo entender as raízes da
ambivalência. Qual é sua causa, seu custo e suas consequências? Qual será a imagem principal que a vítima vai
desenvolver como resultado da ambivalência fruto do abuso de seu corpo e de sua alma?

A causa da ambivalência

A causa de sentimentos distorcidos relacionados ao abuso incluem fatores que envolvem o passado, o
presente e o futuro. O passado é claro. Uma experiência de prazer relacional (ser convidado para pescar ou receber
um elogio sobre um aspecto atraente de sua sexualidade), de prazer sensual (ser abraçado) ou de prazer sexual (ser
tocado nas partes sexuais primárias ou secundárias) vai despertar coisas profundas na alma. O prazer sexual é tanto
estimulante quanto assustador para uma criança pequena. A experiência do despertamento sexual é semelhante a um
sabor de vida em um coração vazio.

Quando o mesmo prazer é conectado a uma experiência de impotência, traição e em que a pessoa se sentiu
usada, então ocorrerão danos incontáveis. A devastação é igualmente grande quando o despertamento sexual
propriamente dito ainda não ocorreu, muito embora a vítima aprecie outros aspectos despertados no relacionamento.

Um rapaz ou uma moça podem sentir ao mesmo tempo um despertamento relacional, sensual e sexual no
meio de uma interação amorosa na vida adulta. Porém, os inevitáveis sentimentos de excitação e vergonha produzirão
a angústia da ambivalência. Para se entender a ambivalência é fundamental perceber que aquilo que é desprezado
também traz algum grau de prazer. Na maioria dos casos, o prazer era o único sinal de vida à disposição da criança
faminta. Contudo, na fase adulta, muitas pessoas são incapazes de perdoar seus corpos ou almas por se sentirem
traídos por eles.

A ambivalência quanto ao prazer ajuda a explicar o sentimento crônico de responsabilidade irracional pelo
abuso ocorrido no passado. A maior parte das vítimas se sente como se fosse responsável pelo que ocorreu,
especialmente se o despertamento é visto como uma "cooperação". Como já dissemos anteriormente, é de pouca
ajuda dizer à vítima de abuso que não foi culpa dela. Apesar de não ser errado oferecer este tipo de encorajamento,
ele não vai perdurar nem vai facilitar o processo de mudança pessoal profunda. As raízes irracionais da falsa
responsabilidade estão profundamente enterradas no solo da crítica, alimentadas pelo não-reconhecimento ou negação
da ambivalência.

Uma mulher destacou que seu irmão nunca teria abusado dela a não ser que soubesse que ela responderia. A
prova de seu desejo era o fato de que ela gostava de seu toque. Às vezes ela deixava a porta de seu quarto aberta
propositalmente, na esperança de que ele viesse "niná-la". O fato de que alguma coisa dentro dela queria e respondia
a seus avanços provou-lhe que a culpa e a vergonha eram dela. Neste caso, a assim chamada cooperação foi o
subproduto natural de uma carência de relacionamento e a apreciação normal do despertamento sexual. Ela também
desprezava o abuso, mas ao invés de vê-lo como normal, interpretou aquilo como mais uma prova de que ela eslava
louca.

Outra mulher que foi cruelmente violentada por um parente distante odiou o abuso e o agressor e disse não
ter tido nenhum tipo de prazer, seja relacional, sensual ou sexual. Sua vida está cheia de reminiscências de solidão,
raiva e amargura. Ela possuía um longo histórico de conquistas envolvendo homens casados e solteiros. Não era
lésbica, mas se envolveu com algumas mulheres. Ela era cínica, rude e falsa, mas seu coração estava cansado de odiar
o agressor. Sua ambivalência se relacionava não com o prazer sensual ou sexual, mas com um aspecto do
relacionamento que não havia se desenvolvido.

Ela se lembra da confusão que sentiu durante o estupro ao ouvir o agressor se lamentar em função de ela
estar totalmente ausente, concentrando toda sua atenção numa rachadura da parede de seu quarto. Ela se lembra, no
entanto, de que, em alguns momentos, sentiu-se extremamente curiosa e orgulhosa pelo fato de causar nele algum
tipo de agonia. Experimentava um certo poder sobre ele, e no meio daquela situação em que se sentia perdida e
violada, a experiência da angústia do agressor foi uma tábua de salvação em que pôde se segurar.

Suas conquistas posteriores tiveram o mesmo prazer pelo poder. Ela era capaz de seduzir, atrair e, então,
abandonar. Tinha o poder, mas também experimentava profunda solidão. Sua experiência de prazer por algo que era
claramente abusivo a confundia e aprofundava seu senso de maldade e falta de perdão. Ambivalência quanto ao poder

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ou a mistura de emoções relacionadas ao abuso voltam ao presente com força destrutiva.

Há fatores do presente que também criam um redemoinho de aversão a si mesmo. Um dos fatores é a
intrusão inesperada de lembranças, sonhos e fantasias1. Tanto homens quanto mulheres que sofreram abuso sentem
como se uma parte de suas mentes não estivesse sob seu controle. Elementos presentes nos sonhos jogam fragmentos
de horrores passados bem diante de seus olhos, sem qualquer razão aparente. Devaneios são brutalmente
interrompidos pela visão da face do agressor. Um ponto obscuro de suas lembranças que estava guardado na mente se
apresenta como uma fotografia recém-tirada nos momentos mais inesperados e indesejáveis. O fato de que
lembranças alojadas de modo tão profundo no passado podem verdadeiramente retornar provoca uma sensação de
descontrole.

Vários clientes admitem que parte do horror das lembranças se deve à sensação de prazer. Uma mulher
acordava regularmente à noite masturbando-se quando se lembrava do abuso que sofreu. Outro homem se lembra,
mesmo nos momentos de tensão e estresse do trabalho, do dia em que sua irmã mais velha gentilmente o abraçou na
banheira.

A lembrança vergonhosa, em ambos os casos, torna-se exponencialmente mais vergonhosa ainda quando é
usada para confortar ou estimular a si próprio.

O uso consciente do abuso visando a estimulação é outra fonte de profunda ambivalência. Infelizmente a
questão da fantasia é de tal modo inadmissível para alguns grupos cristãos, que sua simples menção pode ser
considerada desnecessária e errada. O fato é que a prática sexual não pode ser dissociada do desejo sexual e, por
correlação, da fantasia sexual. É praticamente impossível desenvolver o desejo por um suculento bife sem trazer à
mente imagens de uma refeição passada, sem o despertamento sensual das glândulas responsáveis pela gustação e a
busca deste prazer no futuro.

O despertamento é sempre recheado de imagens: as cenas que brotam de nosso passado remoto e recente
são as únicas imagens disponíveis para que compreendamos nosso presente e planejemos nosso futuro. Há algum
problema no fato de que muitas vítimas de abuso sexual usem sua condição de vítimas como base para "imaginar"
sua atual relação e, em particular, seu despertamento sexual? Isto é conhecido como a "sexua-lização dos
relacionamentos íntimos". A intimidade que se fundiu com o abuso aparece, ainda que em graus diferentes, todas as
vezes em que ela é vivenciada em algum relacionamento.

Muitas vítimas de abuso sexual interpretam erradamente seus desejos de intimidade como uma paixão
lasciva quando começam a se importar com uma pessoa do sexo oposto ou não. Dependendo do tipo de
relacionamento que ela mantém com os outros e o tipo de autocrítica, a sexualização da intimidade pode provocar a
dissolução do relacionamento ou pode ser tratada da mesma forma como se fez com o abuso.

Cito o exemplo de uma mulher que só conseguia atingir o orgasmo quando visualizava a si mesma sendo
violentada por um homem que a espreitava e que, num dado momento, sub-jugava-a às escondidas. Às vezes esta
fantasia não provocava suficiente excitação de modo a levá-la ao orgasmo, o que fazia com que ela imaginasse que a
cena ocorria não em particular, mas diante de várias pessoas. A vergonha maior e a reprovação da multidão faziam
com que ela relaxasse e atingisse o orgasmo.

Como qualquer padrão de autoproteção, a fantasia que desdenhava dela própria agia por apenas alguns
momentos, o que gerava a necessidade de ser intensificada e fortalecida. Em função disso, suas fantasias passaram a
ser cada vez mais humilhantes e destrutivas, até o ponto em que ela se tornou incapaz de participar de qualquer
atividade sexual. O reaparecimento repentino ou o uso consciente de lembranças do passado normalmente
intensificam de modo radical a crítica e a vergonha da vítima.

Outro fator envolvido na causa da ambivalência é que o futuro parece destinado a repetir o passado. O
comportamento normalmente é compulsivo e repetitivo. Historiadores asseveram com frequência que se não
conhecermos o passado, corremos o risco de repeti-lo. Psicanalistas afirmam que o homem é capaz de se identificar
com seu agressor e repetir o abuso do passado nos relacionamentos presentes. O autor de Provérbios diz isto de
maneira ainda mais direta: "Como o cão que volta ao seu vómito, assim é o insensato que reitera a sua estultícia"
(26:11).

Conforme destacado anteriormente em nossa discussão sobre a impotência, a reincidência é um


denominador comum nas vítimas de incesto. Mas ser vítima novamente, avaliado em termos de ataque sexual, não é
tudo. Tornar-se vítima novamente não quer apenas dizer que houve outro estupro ou uma abordagem sexual, mas
implica a repetição de outros padrões mundanos de relacionamento igualmente destrutivos.

A mulher "toda certinha" mencionada anteriormente tinha que refutar constantemente o interesse sexual de
homens casados. Com uma postura toda empertigada (denotando inocência e ousadia), ela me perguntou: "Por que
você acha que os homens me consideram tão atraente?". Aquela mulher vestida impecavelmente estava a um passo de
transparecer um caso. Senti-me cercado. O que ela estava perguntando? É claro que eu não posso dizer que ela estava
me seduzindo, mas, por outro lado, suas palavras foram provocantemente sensuais e inocentes. A precisa combinação

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destes elementos tanto convidava à sedução como a levaria à indignação se um homem tentasse fazê-lo.

É de surpreender que um dos elementos de sua confusão e desesperança era a sensação dc que seu futuro
seria igual ao passado? O vai-e-vem de seu estilo de relacionamento com os homens existia bem no fundo de sua
consciência. Ela não estava totalmente inconsciente do impacto que causava nos homens, mas ela nunca ligou o
abuso do passado com a forma de agir do presente. Ela expressava sua ambivalência através da auto-rejeição devido à
sedução que ela provocava e do ódio por reivindicar para si o título de sedutora.

Todos os elementos do passado, presente e futuro se combinam para criar uma ambivalência tempestuosa
que não se resolve através da negação ou dos repetidos esforços em controlar a vida dura de alguém. O custo deste
turbilhão faz mais estragos à alma humana.

O custo da ambivalência

O custo interno da ambivalência é que ela inspira profunda vergonha e desprezo. O assunto abuso sexual é
vergonhoso. A sensação de estar isolado e ser diferente dos adultos normais e sadios é exacerbada para além da
compreensão uma vez que a ambivalência seja admitida. Com um ar de zombaria e tristeza, uma mulher disse:
"Dificilmente meu marido vai me deixar ir à natação, se as aulas forem mistas. O que você acha que ele faria se
descobrisse que eu tive um orgasmo com meu pai e que eu fantasio sobre todos os homens que se mostram bondosos
comigo?".

Ela se envergonhava de sua ambivalência durante o abuso ocorrido no passado, e da sexualização da


intimidade no presente. Estava igualmente assustada por sua paixão perigosa e pelo medo de ser descoberta. Sua
pergunta ainda me assombra: "Qual pessoa da igreja entenderia que me sinto como se estivesse partida em pedaços?
Quem eu posso procurar para orar comigo que não se sinta consternado, impotente ou inadequado?". A vergonha
intensifica o horror do passado.

A vergonha surge da confusão pessoal. Como eu poderia me sentir excitado e infeliz ao mesmo tempo? Por
que as imagens mais desprezíveis voltam nos momentos mais impróprios? Por que me sinto excitada sexualmente
quando alguém é bondoso comigo? A vergonha torna-se ainda mais complicada quando alguém reage à ambivalência
da vítima ficando chocado, sentindo repulsa ou expressando condenação.

A falsa cura para a confusão pessoal e para o sentimento de rejeição presente nos relacionamentos é a
autocrítica ou a crítica dirigida a outros. Essa falsa cura protege a alma da possibilidade de a lascívia (ou desejo)
aparecer e destruir algo; ou então impele a pessoa a manter relações promíscuas que validem aquilo que ela teme ser
verdade: o abuso foi realmente culpa dela. A prova disso é o prazer que ela sentiu ou está sentindo nas relações
ilícitas atuais

O ciclo maligno da vergonha e da crítica aprofunda a ferida, e a discrição evita que essa ferida seja tocada
pelos efeitos naturais da cura que o apoio e a afirmação de um relacionamento trazem. Intimidade gera desejo, e
desejo é interpretado sob a conotação sexual. Paixão destrói; portanto, deve ser evitada ou dominada. Com estas
premissas, um relacionamento profundo simplesmente não acontece e, se por acaso acontecer, resultará no
aprofundamento da vergonha e da crítica.

As conseqüências da ambivalência

As conseqüências do aumento da vergonha e da crítica são o medo do prazer, um profundo ódio pelo
desejo, maior possibilidade de se tornar vítima novamente e o desenvolvimento de padrões crônicos de compulsão. É
claro que as conseqüências intensificadas pela ambivalência não estão totalmente relacionadas apenas com este único
fator. Existem algumas contribuições, entretanto, que devem ser sublinhadas. A conseqüência principal da impotência
é o ódio por ser fraco. A traição exacerba sentimentos relacionados ao fato de não se achar desejável e aprofunda a
repulsa pela intimidade. Em suma, a ambivalência rouba da pessoa a alegria de viver como um homem ou uma
mulher.

Para uma vítima de abuso sexual a masculinidade ou feminilidade está tão mesclada com uma sexualidade
vergonhosa e com uma experiência de perversão que parece impossível separá-las. Conseqüentemente, a feminilidade
ou masculinidade passa a ser ignorada e desprezada. Muitas mulheres que sofreram abuso não apreciam o fato de
serem mulheres. Muitos homens na mesma situação não apreciam sua masculinidade.

A ambivalência traz um tipo de prazer - ou promove uma experiência alegre - bastante suspeita e perigosa.
E como uma tela de arame em que cada parte está ligada à outra de modo inseparável. Puxar uma ligação desta cerca
significa puxar a cerca toda. Todo tipo de prazer está intrinsecamente ligado.

Quando, num jogo de tênis, o prazer de uma boa jogada abre as portas para o exercício confiante de
destreza física, isto pode ser muito assustador. O prazer físico está interligado ao prazer interno e pessoal, e ambos
estão ligados ao prazer interpessoal e social. Deus nos fez de forma a termos uma grande união entre corpo e alma em
nossos relacionamentos com outros, de modo que o prazer obtido numa área gera prazer em outras. Portanto, prazer

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intenso numa área da vida pode provocar muitas boas lembranças ou trazer muita tristeza.

Não estou sugerindo que todas as vítimas de abuso sexual são lerdas e tristes. Muitas vítimas são ótimos
contadores de histórias, trazem grande alegria às festas e apreciam um bom almoço com os amigos. Para muitas
vítimas, entretanto, existe um limite, uma fronteira difícil de ser ultrapassada, que não vai permitir a passagem de um
lado para o outro. Ao chegar à fronteira, o guarda se levanta, e o prazer, então, deve ser escondido, não apreciado. O
prazer bem como aquilo que a ele se relaciona (os legítimos anseios do coração) devem ser cuidadosamente
observados deforma a evitar que alguma coisa escape das mãos.

Uma segunda conseqüência da ambivalência é o ódio direcionado aos desejos e paixões - em particular os
anseios da alma que despertem a noção de masculino e feminino. As vítimas de abuso sexual são, até certo ponto,
cínicas, desconfiadas e medrosas com relação às paixões profundas da alma. A carência do coração humano por
toque, proximidade e intimidade está ligada a uma reação ao sexo, consciente ou não, e ao ódio por seu
despertamento. A forte reação ao ferimento é entregar-se ao desejo sexual para anular a ambivalência original, ou
remover qualquer desejo sexual através da anulação da alma e/ ou da retração do corpo. A imersão total ou o comple-
to afastamento funcionam similarmente para erradicar a luta contra a ambivalência.

O desejo sexual, como qualquer outra forma de prazer, está intimamente ligado ao profundo desejo por
respeito e amor.

Portanto não é incomum que até mesmo os desejos não ligados ao sexo despertem o que se acredita ser o
tumulto do abuso sofrido. Uma amiga minha, vítima de abuso sexual, detesta receber um elogio. Quando lhe digo que
fez um bom trabalho no projeto em que está trabalhando, ela enrubesce, desmerece sua atuação ou fica distante por
horas. Sua primeira reação normalmente indica alguma apreciação por ter sido notada, mas ela teria preferido a
distância.

Apreço e carinho tocam alguma parte de sua alma que deseja o afeto que lhe foi negado por sua família
problemática. Sempre que ela espera que alguém note seu vestido novo ou o bom trabalho que fez, ela se sente,
alternadamente, sensual e perigosa e, depois, vulgar e amedrontada. Ela prefere achar que é menos vergonhoso e
doloroso não esperar nada de ninguém. É quase como que se alguém fosse a uma loja para comprar algo que valesse
um real e lhe pedissem um cheque administrativo como garantia. Seria mais fácil não ir fazer compras. Minha amiga
vê seus desejos como um estorvo, uma fraqueza ou uma confissão de culpa.

É evidente que ela não consegue alegrar-se pelo fato de ser mulher. A bondade é perigosa, pois a convida a
responder com carinho e alegria. O convite pode trazer à tona mais coisas do que ela ou seu interlocutor poderiam
suportar. Tudo aquilo que vem a incrementar sua noção de feminilidade é, portanto, evitado como se fosse um germe
que pode trazer uma doença.

Imagine o que pode acontecer quando alguém realmente deseja despertar um desejo numa vítima de abuso
sexual. E desnecessário dizer que o quadro nem sempre é bonito. Parece que a mulher que sofreu abuso
freqüentemente se envolve com homens que também se sentem desconfortáveis com seu desejo sexual, ou então
envolvem-se com atletas sexuais que estão à espreita para mais uma conquista. A pessoa viciada em sexo encontra,
na vítima de abuso sexual, um parceiro relutante mas desejoso pois as definições de amor e intimidade de ambos
estão sexualizadas da mesma forma.

A vítima pode escolher entre continuar a redefinir a si mesma de acordo com este terrível mas confortável
quadro, ou rejeitar seu parceiro e fugir de qualquer intimidade baseada nas mesmas premissas. Em nenhuma das duas
situações a ambivalência foi exposta ou tratada2.

Charlie e Jan são freqüentadores típicos da igreja, cristãos compromissados que realmente amam ao Senhor
e têm sido usados por Deus na vida de outros. O problema deles é simples. De vez em quando, a raiva que um sente
pelo outro varre a casa como um furacão no meio do verão. A limpeza é cordial, mas ambos se sentem culpados e
então a paz é restaurada por meses até que uma nova tormenta atravesse seus corações. A luta é sempre a mesma:
sexo. Ele quer fazer amor pelo menos uma vez, se não duas, por dia. Ela cede, e muito raramente inicia o ato sozinha.
Além deste, eles enfrentam alguns conflitos menos óbvios.

Jan é uma vítima de abuso sexual, e Charlie é um viciado em sexo. Seu relacionamento funcionou bem, a
ponto de Charlie vivenciar a intimidade, o despertamento e o poder da conquista sexual. Jan desempenhou bem seu
papel permanecendo alheia durante o sexo. Mas quando ela decidiu encarar as conseqüências do abuso em sua vida,
começou a ver esse desligamento como um pecado de autoproteção, e os pedidos de Charlie, como abuso. Seu
relacionamento, visto como modelo por outros cristãos, funcionou apenas enquanto Jan ignorou seu corpo, e Charlie,
seus desejos. Era funcional, prazeroso, mas também uma confusão destrutiva.

A mulher que sofreu abuso normalmente escolhe um parceiro que não vai requerer um envolvimento
profundo com sua alma. Ao contrário, o esposo ou namorado será o tipo de pessoa que freqüentemente aprofunda
ainda mais a crítica dirigida a ela ou aos outros, minimizando assim a grande luta da vítima com a ambivalência.
Outra conseqüência importante da ambivalência é a inclinação a um comportamento compulsivo. A mulher ou

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homem que sofreu abuso normalmente lida com a confusão de sua alma encobrindo suas feridas exercendo atividades
às quais se dedica completamente, como um vício. Comportamento vicioso é o uso de qualquer objeto ou modo de
operação repetitivo para lidar com o estresse, dificuldades ou tristeza que prejudicam tanto as funções pessoais
como as relacionais, não podendo ser interrompido sem maciça intervenção externa.

Comportamento vicioso inclui alcoolismo, uso indiscriminado de algumas substâncias nocivas, vício em
trabalho e em sexo, distúrbios alimentares, perfeccionismo ou fanatismo religioso3. O elemento comum a todos é o
fardo imposto ao indivíduo pelo objeto de sua obsessão, e a perniciosa influência que exerce sobre sua habilidade de
amar os outros.

A pessoa que sofreu abuso é freqüentemente envolvida por terríveis apelos externos, como o trabalho, um
amigo dependente, comida, masturbação ou álcool. A compulsão desvia o foco da luta interior, expõe a solidão e
aprofunda a legitimidade da crítica não reconhecida.

Uma mulher com quem trabalhei masturbava-se de modo crônico. Ela se sentia escravizada e se odiava,
mas todos os esforços para eliminar essa atitude obtiveram apenas um sucesso temporário. Em certos momentos, ela
duvidava de sua salvação e, em outros, pouco se importava com sua condição espiritual. Lutou bravamente contra o
abuso sofrido no passado por parte de seu irmão mais velho. Seu ódio à feminilidade foi intensificado por um grande
número de relacionamentos promíscuos ocorridos na adolescência a na juventude.

Quando se tornou cristã, acabou com todos os contatos sexuais. Logo após a conversão, porém, começou a
lutar contra sonhos perturbadores nos quais ela era uma prostituta, uma hipócrita e uma renegada a quem jamais seria
dado o direito de entrar no céu. Depois de cada sonho, ela acordava e se masturbava. Em breve a prática da
masturbação se tornou um hábito de todas as noites e, posteriormente, durante o dia também.

Ela se lembra de sentir-se vulgar mas, de alguma forma, aliviada de um tal modo que não poderia ser
explicado meramente como a satisfação de um desejo sexual. Ela sentia "confirmação". Seu comportamento provava
que ela era vulgar, indisciplinada, uma prostituta louca por sexo que precisa esconder sua paixão, seus desejos e,
certamente, seu passado por trás de um véu de sigilo e vergonha. No constrangimento de seu vício, ela encontrava
alívio, uma reorientação para seus temores e uma prova de que sua alma estava manchada e era indesejável.

Todos os vícios são a adoração ilegítima de um objeto e ganham, ainda que por pouco tempo, uma falsa
sensação de controle para erradicar a ambivalência e disfarçar a ferida.

Imagens interiores relacionadas à ambivalência

O retrato desprezível de alguém começa com dúvidas sobre inteligência e competência (impotência), passa
por questões de aceitabilidade (traição) e termina com a triste conclusão de que a pessoa é vil, suja e vulgar. A
imagem interna explica por que o despertamento e a cooperação ocorrem, por que as lembranças voltam e os padrões
se repetem no presente. A imagem desprezível explica não somente por que o agressor traiu a vítima em primeiro
lugar, mas também mostra as razões da falta de um relacionamento profundo no presente.

A imagem de uma pessoa vulgar, libertina e, de modo mais representativo, de uma prostituta explica por
que o despertamento ocorreu, e suaviza a sensação de dano quando a pessoa se torna uma vítima novamente. A
mulher que sofreu abuso pode usar a imagem principal de uma prostituta como um refúgio ou como um escudo com
o qual se defende de todo homem que busque um relacionamento legítimo.

Joan era uma mulher miúda e doce, que se sentia como uma prostituta todas as vezes que se apaixonava por
um homem que inspirava confiança. Seu modo de vestir demonstrava inocência e ingenuidade, mas sua mente era
uma cascata de imagens e pensamentos sexuais. Seu comportamento impecável ocultava uma terrível paixão. A
imagem de prostituta era uma sentença de morte, mas que podia ser temporariamente postergada se ela fosse fiel e
casta. Isso, porém, só poderia ocorrer através de um rígido controle. Não é de se espantar que apenas alguns tivessem
uma idéia de sua luta contra sua desprezível auto-imagem.

Lisa era uma cigana audaciosa e despreocupada que costumava usar roupas que podíamos classificar como
"no limite do impróprio". Seus vestidos não eram provocantes e nem sedutores, mas sua atitude era liberada,
despachada e sensual. Ela gostava de ver-se como mulher demais para qualquer homem. Era confiante e dona de si
em seus relacionamentos, embora continuasse reticente quanto à intensidade do relacionamento. Sua auto-imagem era
vil e autodestrutiva: ela se considerava um brinquedo, algo para se divertir. A vivacidade e a confiança de seu estilo
disfarçavam a imagem interior de si mesma como sendo um brinquedo pronto para o abuso. Essa imagem funcionava
como uma marca orgulhosa de seu estilo de vida independente, mas representava igualmente a triste solidão de seu
coração dilacerado.

A imagem de uma prostituta - escondida com vergonha ou exibida com orgulho - raramente é consciente ou
escolhida de modo intencional. Ao contrário, ela vive tão profundamente na alma que a pessoa pode se surpreender
com sua presença e intensidade. As imagens interiores são mostras do dano interno e servem como guias de
autoproteção no relacionamento com outras pessoas. Por esta razão, as imagens geradas pelo dano interior do abuso

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sexual são mais freqüentemente vistas à medida que as pessoas vivenciam suas relações interpessoais.

O próximo capítulo do livro traz uma avaliação do dano externo causado pelo abuso. O foco se concentrará
nos sintomas secundários mais comumente relacionados ao abuso e nos estilos típicos de relacionamento que estão
associados às imagens do dano interno.

73
CAPÍTULO 08

Sintomas Secundários
O abuso sexual não causa uma devastação apenas no mundo interior da vítima. Seja qual for o dano interno,
ele terá conseqüências externas na vida da pessoa. Muitas vítimas de abuso sexual podem defender a idéia de que o
abuso do passado não afeta suas vidas. Em muitos casos, a suposição é parcialmente verdadeira. Se a qualificação de
"sem efeito" for bastante ampla, muitas vítimas de abuso não mostram conseqüências claras e mensuráveis.

Tomo como exemplo uma mulher que conheço bem e que foi vítima de abuso por várias pessoas. Ela
argumenta que sua conversão e crescimento em Cristo removeram todo o dano causado pelo abuso do passado. Seu
argumento está baseado em 2 Coríntios 5:17: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já
passaram; eis que se fizeram novas". Sua vida não apresentava nenhum sintoma; não tinha depressão, era
sexualmente ativa e satisfeita, disciplinada e não apresentava problemas com auto-imagem. Ela se sentia no controle
do mundo. Se ela tivesse que preencher um questionário sobre os efeitos do abuso, se tornaria um exemplo de alguém
que sobreviveu ao trauma sem seqüelas.

Contudo, se as categorias de avaliação fossem um pouco mais refinadas e contemplassem também o


aspecto exterior da pessoa, então a avaliação dela não seria tão precisa. Seu casamento é conduzido por sua voz
autoritária e altiva. Tem opiniões muito fortes e normalmente é insensível. Seus modos são gentis, ainda que formais
e não acolhedores. Ela vê a si mesma como uma mulher submissa e espiritual, cuja visão é penetrante e acurada, ao
invés de aguçada e crítica.

Sou da opinião de que ela não escapou das conseqüências do abuso. Acho que aqueles que afirmam não
apresentar nenhum efeito doentio do abuso normalmente são mais arrogantes, estridentes e inflexíveis. Contudo o
argumento obtido através da observação não aborda a séria questão teológica levantada pela assertiva de "não
apresento sintomas".

O longo caminho até a glória

A questão levantada é uma preocupação teórica crucial: Qual é a natureza, a extensão e o fundamento da
cura pessoal e física feita pelo Espírito Santo nos dias de hoje? A questão é muito extensa para ser abordada em um
único capítulo, mas algumas observações teológicas vão estabelecer parâmetros de minha perspectiva.

Primeiramente, a ação do Espírito Santo não nos conduz nesta vida à perfeição totalmente isenta de pecado.
A perfeição do corpo e da alma depende da glorificação. A passagem mencionada, 2 Coríntios 5:17, não pode ser
usada para defender a idéia de que o passado de alguém, as conseqüências de suas decisões ou os pecados dos outros
são apagados e não exercem nenhuma função na vida presente.

Essa passagem não implica possuir uma nova "substância criadora" em Cristo, mas, ao contrário, requer um
reconhecimento de que fomos vitoriosamente incluídos numa nova criação ou reino diferente do "mundo"; portanto
foi-nos dada a oportunidade de servirmos como mensageiros de um Rei vitorioso que oferece reconciliação através
do Evangelho. Esta passagem das Escrituras é a declaração sobre nosso lugar em uma nova ordem real e o privilégio
de sermos embaixadores do Rei. Portanto pressupor mudança radical baseada na conversão é negar a relação
essencial entre a justificação e a santificação.

Em segundo lugar, o processo "normal" de mudança desencadeado pelo Espírito Santo envolve tanto o
aspecto dramático quanto o mundano. O Espírito derrubou Paulo de seu cavalo, cegou-o e enviou-o para ministrar aos
cristãos assustados, que preferiam evitá-lo. (At 9:1-19). Depois disso, foi enviado a um "seminário" por alguns anos,
de forma que pudesse ler, ponderar e formar sua compreensão do Evangelho (Gl 1:15-22).

O acontecimento espetacular de seu primeiro encontro não invalidou a necessidade de preparação, estudo e
mudança. O trabalho de santificação de Deus é lento, progressivo e específico para cada um, perdurando por toda a
vida. Uma mudança espetacular numa área não nega a necessidade de mudanças constantes na mesma ou em outras
áreas relacionadas.

Como terceiro destaque, vemos que a ação normal do Espírito Santo produz guerreiros mutilados que são
usados justamente por sua fraqueza, deficiência e impotência (1 Co 1:26-29), e não porque sua vida livre de
problemas gere notícias e atraia grandes multidões. A suposição mais comum para as abordagens que tratam de cura é
a de que o dano causado no passado pode - e deveria - ser removido para que a bondade e o poder de Deus sejam
glorificados. Infelizmente essa pressuposição falha quando confrontada com muitos ensinos bíblicos.

O caminho de Deus é paradoxal. Somos levados a Cristo porque queremos vida, e vida abundante. A vida
que ele nos dá conduz à abundância através de quebrantamento, pobreza, perseguição e morte. A vida que ele nos
chama a viver faz com que percamos a nós mesmos para que possamos nos encontrar, e que deixemos de viver para

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encontrar a vida. Os servos que ele normalmente usa são jovens, mal equipados e relutantes. O caminho através do
qual ele leva seus servos é inesperado, perigoso e freqüentemente diferente do escolhido.

As Escrituras nos prometem um final de saúde e riqueza, mas o caminho para chegarmos lá normalmente
não é aquele que imaginávamos ou escolheríamos. Paulo conservou seu "espinho na carne", seu caminho apresentou
sofrimentos indizíveis, pobreza e trilhas difíceis, e sua vida terrena acabou com uma execução semelhante a um
sacrifício. Os detalhes da vida de Paulo podem não ser iguais aos nossos, mas o caminho de fraqueza e desprezo é o
mesmo, se quisermos viver para o que Cristo nos chamou.

Por estas razões, eu argumentaria que a mudança é possível e substancial, mas não será perfeita até que
cheguemos ao céu. "Cura substancial", uma frase usada por Francis Schaeffer, sublinha a possibilidade de profunda e
significativa alteração, sem fecharmos os olhos para a verdade de que a mudança permanente e final somente será
concretizada com a transformação do mundo quando da volta de Cristo. As feridas obtidas por se viver em um mundo
caído, habitado por pessoas caídas (incluindo nós mesmos), faz com que o fato de sermos machucados (interna ou
externamente) seja ainda mais real.

Evidências de danos internos

O resultado externo do dano causado pelo abuso sexual é evidente em duas grandes áreas: (1) sintomas
secundários (depressão, disfunção sexual, etc.) e (2) a maneira "típica" como uma pessoa que sofreu abuso se
relaciona com os outros. O modo como a vítima se relaciona com as pessoas é frequentemente a primeira arena no
qual o dano do abuso é vivenciado de uma forma clara.

Isto não quer dizer que a natureza, extensão e severidade do dano será a mesma para todos aqueles que
sofreram abuso.

Em muitos casos, a vítima de abuso sexual não apresentará sintomas secundários por longos períodos de
tempo, ainda que a possibilidade de geração de outros sintomas ou do retorno dos antigos exista durante os períodos
de estresse, perda ou repetição da dinâmica do abuso passado.

Entretanto, vítimas que não apresentam sintomas raramente escapam dos efeitos do abuso em seu estilo de
relacionamento. Normalmente, esses efeitos são destrutivos e resultam em outra série de problemas, que provocam
sintomas secundários.

Em ambos os casos, não é incomum que a vítima negligencie a conexão existente entre os sintomas
secundários e o estilo relacional e seu histórico de abuso sexual. Durante um ano, analisei meus arquivos em busca da
relação entre o motivo pelo qual as pessoas vinham me procurar e a questão do abuso sexual. O que vi deixou-me
estarrecido.

Naquele ano trabalhei com trinta mulheres e quinze homens. Vinte e seis das trinta mulheres, bem como
oito dos quinze homens haviam sofrido abuso sexual. Nenhum dos homens ou mulheres veio conversar comigo por
causa do abuso, assim como ninguém reconhecia e nem mesmo imaginava que havia uma relação ou efeito do abuso
em seus problemas atuais. Em 50 por cento dos casos, os pacientes se lembraram do abuso que sofreram, mas viam
aquilo apenas como uma lembrança triste da infância - semelhante à quebra de um osso - que não tinha relevância
para a dificuldade atual.

Em muitos casos a inabilidade em enxergar a conexão não é devida à falta de informação, mas a um lapso
de memória. No começo de meu trabalho apenas doze entre vinte e seis mulheres e cinco em cada oito homens se
lembravam do abuso de um modo que poderia ser considerado extenso e detalhado. Outras onze mulheres e o resto
dos homens tinham lembranças parciais - lembravam-se do abuso, mas eram incapazes de se lembrar de detalhes
mais significativos, como contexto, outras situações semelhantes e até mesmo sua reação ao abuso.

O restante (três mulheres) teve consciência das lembranças do abuso durante o processo de
aconselhamento1.

Minha imagem mudou um pouco a partir do momento em que fiquei conhecido como alguém que trabalha
com vítimas de abuso sexual, mas qualquer pastor, conselheiro ou amigo próximo pode suspeitar de que o abuso
possa ser um fator por trás de dificuldades internas ou externas na vida de uma pessoa, ainda que isto não seja
relatado ou relembrado de imediato.

É imperativo saber o que procurar quando se quer ver os sinais de abuso nos sintomas apresentados. Sinais
significativos incluem sintomas de depressão, disfunção sexual ou vício, distúrbios compulsivos, queixas sobre
aspectos físicos, auto-estima baixa e modo característico de relacionamento2.

Cada sintoma deve ser compreendido como "potencialmente" ligado ao abuso, porque é bem possível
enfrentar várias combinações de sintomas sem ter experimentado o abuso sexual. Uma visão equilibrada destes
sintomas permite uma tensão não dogmática e aberta entre ver abuso sexual por trás de todo problema pessoal e de

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relacionamento e ser ingênuo quanto ao alto nível de incidência de conseqüências danosas geradas pelo abuso.

Minha atitude é não presumir além daquilo que me é permitido em função das informações fornecidas, ao
mesmo tempo em que não perco de vista o fato de que o abuso sexual é mais freqüentemente ignorado ou esquecido.
Portanto, quando padrões sintomáticos de abuso são consistentemente apresentados através de queixas dos sintomas e
da presença de um estilo peculiar de relacionamento, minha experiência me diz que o abuso sexual muito
provavelmente aconteceu. Então, trato destas questões na velocidade mais apropriada ao desejo e às características da
pessoa.

Depressão

Nossa discussão sobre o dano interno do abuso sexual criou o terreno propício para compreender depressão.
Ela é freqüentemente descrita como "o desespero aprendido". Os sintomas da depressão normalmente incluem uma
visão desanimadora de si mesmo, do mundo e do futuro. A pessoa deprimida tem poucas esperanças de compreender,
ajudar ou mudar. É comum que uma pessoa deprimida sinta que o peso do mundo está sobre seus ombros e que
ninguém é capaz ou até mesmo deseja ajudá-la em sua dificuldade.

Aqueles que não estão familiarizados com a depressão freqüentemente se surpreendem com os sentimentos
da pessoa deprimida, que oscila entre sentir-se desamparada e sozinha, e indignada por sentir-se trapaceada,
abandonada e angustiada. Esta alternância se deve ao fato de a crítica ser dirigida ora a si mesma ora aos outros. Na
verdade, a depressão pode ser entendida como um ódio arrebatador e destrutivo em relação à alma, por se sentir viva
e depois ser desapontada.

A pessoa que enfrenta problemas de desesperança crônica normalmente viveu em um ambiente de abuso
que fez com que as expressões de desejos, desapontamento e raiva se tornassem perigosas, se não impossíveis. A
alternância entre esperança ("Talvez o papai fique feliz com meu boletim da escola") e desapontamento ("Ele nem
sequer notou minhas três notas A") abrem caminho para a frustração, a angústia e a raiva. Estas emoções, mais
freqüentemente associadas a um senso de injustiça, são perigosas porque a expressão de raiva poderia explicitar um
abuso ou abandono ainda mais profundo.

O que é negado na depressão é o rigor intuitivo de perceber a ocorrência de uma injustiça, a legitimidade do
desejo por justiça e o conhecimento daquilo que poderia corrigir o erro. A raiva se volta para dentro, mas não sem
antes atacar aquele que perpetrou o dano.

Depressão é o "egoísmo abnegado" ou talvez a "vingança desinteressada". O eu é aniquilado (um senso de


injustiça ou a perda do desejo pelo que é certo), e aqueles que estão em volta tornam-se impotentes para deter a
espiral descendente de desespero e falta de esperança (a vingança).

O abuso sexual normalmente é o fundamento da vergonha, associado ao desejo e à crítica relacionada à


falha3. É bastante comum que na depressão - que é um sentimento dominador e profundamente mórbido - se
mascarem lembranças recuperadas e se iniba a tentativa de recuperar novas lembranças.

A depressão é um ciclo pelo qual passam muitas vítimas de abuso sexual antes de recuperarem a maior
parte das lembranças. Uma mulher se referiu à depressão como um "pagamento" pela lembrança do passado. Na
maioria dos casos, a depressão é uma máscara que cobre as lutas reais da alma; portanto a dinâmica do
funcionamento do sintoma é importante para a orientação do tratamento e a cura da depressão.

Disfunção sexual e vício

Passar por problemas na área sexual é um sintoma quase "esperado" de abuso sexual. Nem todas as vítimas
enfrentarão problemas realmente sérios. Sem dúvida, muitos terão de volta o privilégio do prazer, e poderão
reintegrar corpo e alma em um ser completo. Por outro lado, muitos enfrentarão pequenos problemas pelo fato de sua
alma encontrar-se totalmente ausente durante os atos físicos da intimidade sexual. A alma ausente não experimenta a
relação diretamente; assim o corpo se assemelha a um zumbi em termos de desempenho, às vezes despertando e
apresentando bons resultados.

Somente quando se readquire o senso do "eu" é que os problemas sexuais começam a ser reconhecidos.
Casais que tiveram um bom relacionamento sexual durante anos de repente começam a desenvolver "novos"
problemas quando um dos dois parceiros começa a explorar seu passado de abuso sexual. A "nova" luta é o resultado
do aparecimento de um resíduo que surge em um ambiente seguro e cheio de esperanças (geralmente o consultório de
um conselheiro). Contudo, o exame de uma ferida antiga é normalmente visto como o processo que arruinou um
"bom" relacionamento sexual.

A frase principal associada a muitos problemas sexuais é falta de interesse ou aversão. Um homem ou
mulher pode ter pouco ou nenhum desejo de obter prazer sexual, ainda que haja habilidade em se excitar durante o
contato sexual que leve ao orgasmo. Ouvi tanto homens quanto mulheres dizerem: "Meu cônjuge é um bom amante,
mas eu me canso. O sexo não é aquilo que dizem ser". Falta de interesse é freqüentemente a rebelião silenciosa da

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alma no sentido de evitar as lembranças escondidas e sensações vagas que estão associadas ao contato sexual e à
excitação.

Aversão, por outro lado, é uma defesa mais pronunciada e ativa. Normalmente é direcionada ao ato sexual
ou ao parceiro (pessoa ou por representar o sexo oposto), mas também pode se dirigir ao próprio corpo por estar
sentindo excitação, ao parceiro por ser muito masculino ou feminino, ou por não ser suficientemente masculino ou
feminino, ou pode, ainda, dirigir-se a todos os homens ou a todas as mulheres. A última categoria leva a uma
orientação homossexual, o que não é incomum para aqueles que sofreram abuso. Nem todos os homens ou mulheres,
porém, que se sentem atraídos por parceiros do mesmo sexo possuem um histórico de abuso sexual no passado.

A perversão sexual (exibicionismo, voyeurismo, pedofilia, homossexualismo, fetichismo)4* está


freqüentemente associada ao abuso4. Suspeito da ocorrência de um abuso todas as vezes em que vejo um homem
enfrentando problemas com uma perversão sexual. Isto é ainda mais verdadeiro com relação a uma mulher, porque a
perversão sexual é normalmente um sintoma masculino (82 por cento de homens contra 18 por cento de mulheres)5.
Portanto é muito provável que uma mulher que tenha problemas com perversão sexual tenha sofrido abuso sexual no
passado.

O vício em sexo é outro provável sinal de abuso sexual. Ele apresenta alguns elementos em comum com
outros tipos de comportamento compulsivo. Todas as compulsões, sejam elas bizarras ou destrutivas, geram um
contexto de busca de alívio e vingança. O alívio é o mais simples de entender. Alguém que se masturba
compulsivamente ou alguém que só pensa em sexo obviamente experimenta grande satisfação durante o ato sexual.

Entretanto, o prazer de um orgasmo não justifica porque um voyeur ou um exibicionista arrisca sua carreira,
família e reputação por um orgasmo que poderia ser obtido em situações infinitamente mais seguras do que naquele
contexto. Nem explica a tendência de um viciado em sexo, que vê todas as coisas sob a perspectiva sexual. Algo mais
está por trás do simples desejo de encontrar alívio. O vício em sexo, a promiscuidade e a perversão podem ser
maneiras de se mostrar revolta.

A revolta é o resultado do ódio profundo contra outros (crítica voltada aos outros) ou contra si mesmo
(autocrítica). É o preço que tanto o agressor do passado quanto a vítima - por sua suposta colaboração e prazer
ambivalente - têm de pagar. Em alguns casos, o sintoma-padrão está mais diretamente ligado ao desprezo por si
mesmo (masoquismo, sendo o objeto da violência ou do sexo anal) e, em outras situações, ao desprezo pelos outros
(sadismo, promiscuidade sexual predatória, sedução sem limites). É mais comum, entretanto, que os dois lados da
revolta (crítica) estejam presentes no mesmo comportamento.

A pessoa que se masturba de modo crônico freqüentemente luta por se manter pura até que algum evento
aumente a frustração ou intensifique o despertamento. Tenho o exemplo de uma mulher que era compelida a se
masturbar todas as vezes que se sentia rejeitada por um homem pelo qual se interessava.

A combinação de excitação e frustração levavam-na a um desejo incontrolável. Ela se masturbava e,


durante o ato, fantasiava estar vencendo a batalha contra aquele que a desprezara. A "fase da vitória" consistia numa
poderosa fantasia na qual ele não resistia à sua sofisticação, beleza e charme. Em sua fantasia ela o possuía e
controlava todos os desejos dele.

Depois que o prazer da masturbação se desvanecia, ela se culpava pelo ato, por suas fantasias de
adolescente e pela falta de autocontrole. Sua revolta direcionada aos outros (poder sobre a paixão dele) rapidamente
se transformava em ódio contra si mesma.

Normalmente o ódio contra si mesmo - ou, como alguns definiriam, a culpa - motiva a pessoa a corrigir o
que está errado mediante alguns tipo de penitência - o processo de pagar pelos pecados através do sacrifício.

A culpa freqüentemente leva a pessoa a assumir um comportamento moral até que as pedras do desejo não
atendido levem o barco ao mesmo arrecife do desespero, e o processo se reinicie. O ciclo da compulsão se assemelha
a isto: desejo, desapontamento, poder (revolta centrada no outro), vergonha (autocrítica), ódio contra si mesmo,
penitência.

Disfunção sexual ou compulsão é um sinal freqüente de raiva não tratada. A raiva criada pela crítica
direcionada a si e aos outros deve ser exposta e conectada ao abuso para que se destrua a compulsão. O problema é
que a vergonha mascara não somente o sintoma mas também o papel da revolta. Leva um bom tempo até que a
pessoa encare o confuso inter-relacionamento do alívio e da revolta, e separe os elementos de ambos os fatores que
são legítimos e que honram a Deus daqueles que são destrutivos, ilegítimos e desonram a Deus.

Uma mulher que tenha muito pouco interesse em sexo precisa admitir que está privando seu marido de
intimidade legítima e de prazer. Mas este fato não vai aumentar seu desejo nem melhorar seu relacionamento sexual,

4 Voyeurismo é a excitação sexual conseguida mediante a observação da prática do ato sexual ou a visualização dos órgãos genitais de outra pessoa.
Fetichismo significa amar apenas uma parte da pessoa ou um objeto a ela pertencente. (N. do T.)

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mesmo que ela se obrigue a fazer sexo. Ela precisa encarar o fato de que sua falta de interesse é tanto uma forma de
alívio (impedimento de realidades internas não agradáveis) como de revolta (retenção de intimidade e prazer).

Este reconhecimento vai abrir as portas para duas perguntas: Por que encontro alívio através do
impedimento, e revolta através da retenção? Agora ela poderá ver seu problema como uma questão interna
(intrafísico) e moral (interpessoal) ao invés de vê-lo como um mistério ou uma realidade irreversível.

O desejo nunca pode ser comandado, mas deveria ser sempre assumido. Não é que um homossexual não
sinta desejo heterossexual. O fato é que o desejo legítimo criado por Deus não está ausente, mas bloqueado. A tarefa
não é inculcar ou ensinar paixão, mas remover os obstáculos que retardam sua legítima expressão. Portanto, uma vez
que o alívio e a revolta sejam encaixados nas categorias de coisas internas e morais e assim compreendidos, a pedra
pode começar a ser removida.

Distúrbios compulsivos

A mesma dinâmica de alívio e revolta alimenta outras compulsões: abuso de álcool e uso de outras
substâncias, distúrbios alimentares (anorexia, bulimia, etc.), perfeccionismo e vício em trabalhar. Visando ser breve,
vou me concentrar em apenas um exemplo. Tenho observado que a bulimia é o "sintoma da escolha" de muitas
mulheres. Novamente, nem todas as mulheres que sofreram abuso terão problema com bulimia, mas creio que muitas
mulheres bulímicas sofreram abuso sexual no passado6.

A bulimia se encaixa no modelo de alívio e revolta do comportamento compulsivo. O alívio é obtido tanto
por se manter um certo peso consistente com a visão de beleza da mulher, como pela gratificação instantânea por
comer em excesso. A experiência de se sentir fisicamente satisfeita através da alimentação excessiva é o equivalente
anímico de se sentir nutrido através da intimidade. Quando a alma é excitada e depois desapontada, pode-se encher o
estômago para compensar a perda. Uma mulher disse: "Por que eu perderia meu tempo mantendo um caso ou me
masturbando, com o trabalho e a culpa que estão relacionadas a isso, se eu posso tomar um belo sorvete e, em questão
de minutos, sentir o mesmo alívio?".

Uma estranha combinação de alívio e revolta é encontrada no processo de expelir o alimento. O próprio
termo expelir implica remoção de alguma coisa que seja nociva ou indesejável. Muitas bulímicas me disseram que, lá
no fundo de suas fantasias, está a esperança de que alguma coisa vil e vergonhosa será descartada (além da comida)
quando vomitam. É mais frequente vermos que a "alguma coisa" é algo desconhecido. Entretanto, o alívio está
presente no momento em que "aquilo" é removido.

O alívio e a revolta direcionados a outros são encontrados no objeto foco da pessoa bulímica: toda a vida,
incluindo os relacionamentos, pode ser substituída por comida. Imagine o sentimento de impotência por ser casado
com uma mulher cujo único pensamento é comida. Apesar de algumas mulheres que sofrem de anorexia ou bulimia
serem ótimas cozinheiras, o homem não vive apenas de comida. A propensão de uma mulher bulímica de considerar
todos os outros inferiores a um prato de macarronada é uma forma de direcionar sua revolta aos outros.

O alívio/ revolta direcionado a si mesma não é de forma alguma sutil. Vomitar é um ato de autodestruição
que pune a alma por alguma ofensa desconhecida. A maioria das bulímicas odeia-se por ser incapaz de acabar com a
compulsão. A raiva está profundamente ligada ao alívio e isto, como resultado, leva a uma convulsão de vergonha:
"Como posso amar e odiar o mesmo ato vil?". A ambivalência da bulimia freqüentemente espelha - e esconde - a
confusão da cooperação e do despertamento que ocorreram durante o abuso do passado. Mais uma vez, a compulsão
da bulimia não desaparecerá a não ser que o sintoma seja entendido à luz do abuso sofrido no passado.

Queixas físicas

É sabido há muito que a divisão entre o corpo e a psique é uma definição artificial. Há diferenças entre os
dois, mas há uma clara ligação, ainda que imperceptível, entre nossa saúde interior e nosso bem-estar físico. O
relacionamento entre corpo e alma é por demais complexo para se abordar aqui, mas é fato que os sintomas físicos
são freqüentemente um sinal de profunda luta interna.

É como se o corpo estivesse alertando a alma através de bloqueios de memória ou sonhos que liberariam
torrentes de angústia7. A armadura física que nos protege destas lembranças produz um quadro rígido e desgastante.
O corpo não foi feito para estar em luta constante com a psique e, quando estão lutando, sintomas físicos aparecem.

As assim chamadas doenças relacionadas ao estresse abrangem distúrbios como úlceras, problemas
intestinais, dores na parte inferior das costas, pescoço duro, bruxismo e dores de cabeça crônica. Mais uma vez
afirmamos que sintomas físicos nem sempre estão relacionados a um histórico de abuso sexual. Tive problemas sérios
de dores nas costas durante muitos anos que foram finalmente diagnosticados como um problema congênito. Eu teria
odiado se alguém tivesse me dito que o problema estava na minha cabeça, um problema "psicológico" que poderia ter
se resolvido se eu fosse "normal".

Mas, independente de sua causa, as queixas quanto a problemas físicos são ao menos intensificadas por

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questões morais e internas. Queixas quanto a problemas físicos crônicos, especialmente quando analisados por
equipes médicas multidisciplinares, deveriam ser considerados e tratados a partir de uma perspectiva de um provável
trauma causado por abuso.

Auto-estima

Problemas de baixa auto-estima ou seu oposto, o narcisismo exacerbado, é outra característica comum a um
passado que envolve abuso (este abuso por ter sido ou não de natureza sexual). A imagem de si mesma como uma
pessoa fraca, estúpida, ingênua, sem valor, maculada e de uma prostituta barata não produz uma auto-avaliação que
agrada a Deus (Rm 12:3).

Os sintomas da auto-estima baixa podem ser inferidos, e são mais freqüentemente notados, observando-se o
modo como uma pessoa se relaciona com os outros. Um elemento comum, entretanto, será a presença de uma forte
autocrítica. A pessoa que se priva, desvaloriza e sabota sua própria vida e suas ações normalmente é alguém que
retém um passado que polui todo prazer e desbota tudo que lhe é oferecido. A pessoa que se sente desvalorizada,
culpada por todo ato de bondade recebido e que possui a terrível qualidade de ser capaz de enxergar derrota no meio
dos louros da vitória é alguém que, de modo quase constante, lida com um passado de abuso ainda não resolvido.

Estilo de relacionamento

Todos os sintomas descritos têm em comum alguma dinâmica e alguns componentes comportamentais.
Contudo, as diferenças entre pessoas que apresentam o mesmo sintoma podem ser tão profundas que esboçar
conclusões baseadas na análise de todas as pessoas que sofrem de bulimia às vezes distorce a natureza idiossincrática
do sintoma. Mas podemos chegar a conclusões mais produtivas se olharmos cada sintoma de uma perspectiva mais
ampla, o estilo de relacionamento de cada um. Um estilo de relacionamento é a maneira característica de se oferecer
ou se proteger nas interações sociais.

O estilo de relacionamento de alguém pode ser chamado de personalidade se este termo expressar uma
matriz de comportamentos habitualmente usados ao lidar com as dolorosas circunstâncias internas e externas dos
relacionamentos (esta definição de personalidade se opõe a algumas formas de "enquadramento" de personalidades o
qual assume que o estilo e comportamento de uma pessoa é estático e determinado geneticamente).

Como conseqüência, podemos conhecer nosso estilo de relacionamento ou personalidade apenas até o nível
em que refletimos nosso modo de nos relacionarmos com os outros. Para fazermos isto de modo efetivo é preciso
querer ir além da suposição simplista de que somos do jeito que somos porque este é o nosso jeito. Estou bastante
convencido de que fatores ambientais e biológicos desempenham um papel importante na formação da personalidade.

Preocupo-me, entretanto, com a falaciosa e simplista noção de que as pessoas são o que são e que os outros
devem simplesmente aceitar e entender qualquer que seja seu temperamento como justificativa de seu
comportamento. Minha compreensão de personalidade pressupõe que o estilo de relacionamento pode ser
substancialmente alterado através do arrependimento - um conceito que vou explanar mais profundamente no
capítulo 11.

Por que o estilo de relacionamento é importante? Colocado de modo simples, porque ele é a primeira
radiografia que expõe a condição de nosso coração. Aquilo em que cremos é melhor expresso na forma como
vivemos. A melhor maneira de conhecer nossa atitude para com Deus é olhar para a forma como nos relacionamos
com ele e com os outros (Mc 12:28-34). Amamos de modo egoísta, apaixonado, ousado? Ou estamos comprometidos
com a autoproteção, com o objetivo único de não sermos machucados novamente? O capítulo seguinte descreve os
típicos estilos defensivos de relacionamento que as pessoas desenvolvem quando sofreram abuso sexual.

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CAPÍTULO 09

Estilo de Relacionamento
Apesar de sintomas óbvios de abuso sexual não estarem sempre presentes, o dano do passado fatalmente se
mostrará através do modo como a pessoa se relaciona com os outros. Visando esclarecer o assunto, é importante
abordar vários aspectos fundamentais antes de se explorar os elementos específicos do estilo de relacionamento: (1)
O que é um estilo de relacionamento?; (2) Por que isto é importante? e (3) Como é formado?

O que é um estilo de relacionamento?

É a forma "típica" de proteger a si mesmo quando em contato com outras pessoas. Autoproteção é, em
essência, o compromisso de nunca se machucar novamente, de não ser impotente, traído ou ambivalente da forma
como fomos antes. Isaías 50:10-11 nos apresenta uma excelente imagem da idéia de autoproteção:

Quem há entre vós que tema ao Senhor, e ouça a voz do seu Servo que andou em trevas sem nenhuma luz, e
ainda assim confiou em o nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus? Eia! Todos vós, que acendeis
fogo, e vos armais de setas incendiárias, andai entre as labaredas do vosso fogo, e entre as setas que
acendestes; de mim é que vos sobrevirá isto, e em tormentas vos deitareis.

O contexto desta passagem indica que o Servo Sofredor está em meio a um risco físico, zombaria e crítica.
Apesar de sua experiência poder ser descrita como ruim (cheia de confusão c problemas), seu coração descansa na
proteção de Deus. O oposto de confiar em Deus em meio à escuridão é a imagem do acender seu próprio fogo.
Considere como é coerente acender a luz à noite, ao chegar a um quarto escuro de um hotel. O lugar da mobília é
diferente daquele a que você está acostumado, de forma que, para não se machucar, é coerente que se acenda a luz.

O assim chamado desejo coerente de evitar dor, desconforto ou vergonha nos impele a acender nosso
próprio fogo. Os que acendem fogo são aqueles que tomam conta da escuridão (particularmente os problemas ou
confusões nos relacionamentos) valendo-se de seus próprios recursos, seguindo seus próprios objetivos. Parece que o
desejo natural de evitar a dor nos leva a uma direção, a um caminho de independência quando, de fato, o anseio por
alívio e satisfação - se a carência é profunda - nos levará ao caminho da dependência daquele que é maior que nós.

Como isso pode acontecer quando a confiança que tivemos no passado terminou nos levando ao abuso?
Proteger a si mesmo e confiar em seus próprios recursos para a autopreservação parece ser a única maneira coerente
de se viver num mundo caído. Há uma batalha inerente e radical na alma da pessoa que sofreu abuso contra qualquer
mudança que possa abrir as portas para a possibilidade de se tornar vítima novamente. Então, como a avaliação do
estilo de relacionamento de uma pessoa leva a uma experiência de vida mais profunda, o que deve ser
experimentado?

As Escrituras nos dizem que acender fogo (uma estratégia de autoproteção) inevitavelmente nos leva ao
tormento. A mulher ou o homem honesto vai acabar reconhecendo que a autopreservação não funcionou e, mesmo
quando parece que sim, leva a uma degradação da alma. A pessoa que toma a iniciativa de manter sua alma intacta
vai violar a natureza de seu ser para cumprir uma tarefa impossível. Qualquer esforço por manter-se intacto é
encoberto pela falha, pois é a tentativa de encontrar a vida de alguém - uma tentativa que resulta na perda da vida.

O intenso interesse em manter-se intacto por fim leva à violação do amor, o que, como conseqüência,
diminui a essência daquilo para o que Deus nos criou (representantes do amor de Deus num mundo condenado). À
medida que trabalhamos para nos manter intactos, tornamo-nos menos humanos, menos amorosos e mais semelhantes
àqueles que abusam e cometem atos desumanos visando sua própria sobrevivência.

A pessoa honesta vai admitir que, ainda que sua estratégia de acender fogo tenha lhe dado uma certa
sensação de segurança, ela não está vivendo do modo para o qual foi criada, sendo que nas câmaras escuras de seu
coração ela está tão solitária quanto no inferno.

Uma forma de viver coerente mas não reflexiva vai inevitavelmente nos levar a uma autonomia sutil e uma
rebelião declarada. A expressão de nossa independência pecaminosa se tornará ainda mais evidente em nossa atitude
quieta e profunda de acender fogo quando nos relacionamos com os outros.

Por que o estilo de relacionamento é tão importante?

Se você perguntar a um cristão quais são as áreas em que ele mais luta contra o pecado, a resposta, em
muitos casos, será a falta de disciplina (não gasto tempo suficiente estudando a palavra de Deus, ou não respeito o
limite de velocidade), ou uma falha de desempenho (não sou sensível como deveria ser, ou não dou testemunho
suficiente). Na verdade, estas questões representam uma falha em amar a Deus e ao próximo. Mas se o pecado é
definido como algo apenas comportamental, os mais sutis e terríveis pecados serão freqüentemente ignorados.

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Em última instância, amar a Deus significa amá-lo e aos outros de modo sacrificial e declarado, ainda que
seja nos relacionamentos que estejamos mais propensos a evitar a dor. O chamado para amar e a determinação de
afastar o risco de se machucar estabelecem uma contradição enorme na alma. Um dará lugar ao outro e o resultado
vai determinar a qualidade de nosso caminhar ao lado de Deus. Se ignorarmos ou banalizarmos nosso modo protetor
de lidar com as pessoas, vamos fatalmente perder de vista o pecado mais profundo de nosso coração: o desejo
maligno de tomarmos conta de nossa vida de forma que nunca sejamos feridos ou envergonhados do modo como
fomos no passado. E se falharmos em reconhecer e em nos arrependermos dos pecados do coração, então não
mudaremos de modo significativo. Não amaremos profundamente.

Como se cria um estilo de relacionamento?

O abuso com letra maiúscula (físico, emocional ou sexual) ou com letra minúscula (o subproduto do
chamado pecado "normal") cria o cenário e dá o tom para o desenvolvimento de nosso estilo de relacionamento com
os outros baseado na autoproteção. Pelo fato de que mesmo aqueles que não foram vítimas de abuso sexual terem
sofrido as conseqúências de outros pecados cometidos contra eles, concluímos que todas as pessoas desenvolvem um
estilo de relacionamento.

A matéria-pima usada para se criar um estilo de relacionamento é freqüentemente encontrada nos atributos
e talentos dados por Deus. A escolha pelo distanciamento das pessoas feita por alguém academicamente brilhante não
é uma opção disponível para alguém de Q.I. baixo. A cultura também desempenha um papel importante no estilo de
relacionamento. O olhar superior de um aristocrata é bastante diferente do descaso de um adolescente da cidade, mas,
em essência, a causa e a função são as mesmas.

A causa é encontrada no ódio presente no coração pelo fato de estar sozinho e de não ser amado, de ser
usado e de estar fora do controle. Alguém que tenha sido feito à imagem de Deus não foi criado para ficar sozinho ou
não ser amado, mas a queda do homem trouxe consigo tanto a solidão quanto um profundo desejo de controlar um
mundo incerto.

Certa vez conversei com um marido cuja esposa se afastara dele pela pressão de seu cristianismo pietista.
Ela estava participando de um grupo de vítimas de abuso sexual onde encontrou, pela primeira vez em sua vida,
intimidade e significado. O marido queria que ela parasse de freqüentar aquele grupo para "voltar ao Senhor". Ela não
queria nada com aquela religião dele - sem paixão, repleta de pressão e orientada a desempenho, apesar de ela ser
cristã. Ele a via como a pecadora que precisava se arrepender, e todos os seus comentários eram feitos com desprezo
e distância.

A porta para a mudança do relacionamento se abriu no momento em que ele percebeu que seu estilo de
relacionamento era frio, formal, crítico e sem emoção. Até aquele momento, seu estilo de relacionamento apenas
demonstrara o compromisso que ele tinha em controlar a vida de sua esposa (e, por conseqüência, sua própria vida),
ao invés de amá-la.

Estilos de relacionamento específicos

Existem tantos estilos de relacionamentos quanto o número de pessoas. Contudo, há certos padrões gerais
que podem se tornar estilos comuns de relacionamento com aqueles que sofreram abuso sexual: a Boa Menina, a
Menina Difícil e a Menina Festeira1.

A Boa Menina

É aquele clássica ajudadora, de bom coração, a mulher gentil que vive para manter a paz e apoiar aqueles
com os quais se relaciona, não importando o preço a pagar.

A Boa Menina é alguém agradável, mas raramente vívida. A mulher que descreveu a si mesma como
"aquela que deixa as luzes acesas, sem nunca estar em casa" era uma Boa Menina. Ela tratava com carinho e calma,
mas nunca via a si mesma como alguém viva por dentro. A idéia de que Cristo fazia morada em nós sempre lhe
parecia algo estranho, uma vez que ela mesma não vivia dentro dela.

Dinâmica interna

O mundo interior da Boa Menina é cheio de autocrítica, normalmente privado e oculto. Por exemplo: Boas
Meninas provavelmente terão problemas com suas fantasias e com a sexualização de relacionamentos mais chegados,
mas pagarão um altíssimo preço por seu pecado. A pena será um sentimento de raiva intensa e de crítica,
normalmente intensificada por longos períodos de penitência e um doloroso retorno ao "normal". Vez por outra, o
sentimento de estar sexualmente viva se torna um fardo e cobra um preço grande demais, o que faz com que a
realidade sexual seja proibida ou permitida, mas apenas no caso de a alma se desconectar totalmente.

O padrão de limitar e controlar as emoções é verdadeiro em outras áreas também. A Boa Menina se permite
ter apenas uma pequena parcela de dor ou prazer. Sua alma está desconectada da maioria dos sentimentos, exceto da

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culpa. Se uma Boa Menina for machucada por alguém, ela sentirá dor somente até o ponto em que esta seja ou muito
intensa ou muito angustiante, a partir do que a dor se dissipará em culpa. "Eu sei que não deveria me sentir tão
ferida", ou "Sou tão terrível por não tê-la perdoado, mas me sinto abandonada". A culpa freqüentemente intensifica
seu senso de alienação e discórdia nos relacionamentos.

Um bom número de Boas Meninas reconheceram que sentem como se não tivessem uma "voz". Uma
mulher contou-me um episódio em que via seu filho de dois anos brincar com uma criança mais velha, que, de
repente, bateu na cabeça de seu filho com um brinquedo. A mãe da outra criança estava na sala, de modo que ela deu
as costas às lágrimas de seu filho por alguns instantes. Mais tarde, ela se sentiu horrível pela culpa e raiva de ter agido
com passividade, mas, no momento do ocorrido, ela se sentiu sem palavras e impotente para fazer alguma coisa para
proteger seu filho. O mundo interior da Boa Menina é controlado, solitário, passivo e cheio de autocrítica.

Dinâmica externa

O mundo exterior da Boa Menina normalmente é organizado (mas nunca controlado o suficiente para seus
padrões), prazeroso (mas raramente vivo) e sacrificial (mas raramente convidativo). A Boa Menina é, na maior parte
das vezes, uma trabalhadora incansável, organizada e de bom desempenho, mas uma mulher que não tem coragem e
humildade divina para se impor às pessoas. Conseqüentemente, se seus esforços são suficientes para corrigir o
problema, ela normalmente se dá bem. Mas quando é necessário delegar ou pedir ajuda diretamente, então tanto a
tarefa quanto a Boa Menina se revelam.

A Boa Menina preferiria morrer a ter que pedir ajuda. Uma Boa Menina que havia passado por uma cirurgia
de hérnia apenas três semanas após ter dado à luz através de uma cesariana deveria ficar na cama por pelo menos uma
semana. A comida deveria ser providenciada e sua casa seria limpa por pessoas da igreja e colegas. Antes que cada
pessoa chegasse para "ajudar", ela limpou a casa toda e lavou a louça, de forma que ninguém viesse a se sentir
incomodado.

Uma Boa Menina encara o mundo sozinha e normalmente se dá bem, até que os limites inevitáveis de sua
saúde física e mental sejam exigidos até à exaustão. Ela é organizada e competente em sua batalha solitária, mas tem
consciência de que seu oculto e frágil interior pode se desmantelar caso algumas realidades profundas sejam
encaradas.

Uma Boa Menina descreveu seu estilo de relacionamento como uma "fruta de plástico". A aparência era
boa e saborosa, mas algo real, vivo e nutritivo estava faltando. O marido de uma Boa Menina disse: "nunca me
preocupei com a fidelidade de minha esposa, mas na maior parte do tempo isto realmente não importa, pois, de
qualquer forma, ela não me dá atenção". Seu marido sentia tanto respeito quanto desprezo por sua esposa mártir. Ela
era responsável, fiel, limpa, ordeira, reverente e sempre disposta, mas faltava-lhe a paixão da alma para gritar com ele
quando fizesse papel de bobo, ou a liberdade da alma para rir quanto ele contasse uma história engraçada. A Boa
Menina não tem qualquer paixão, seja por alguém ou alguma coisa, a não ser por manter as coisas suaves e sem
conflito.

A Boa Menina, uma mártir, entrega-se sacrificialmente sem ao menos convidar o receptor a provar um
pouco de sua alma. Uma Boa Menina se sente muito mais confortável em dar a mão a seu marido e aos amigos do
que seu coração. Se algum amigo destaca a questão de estar recebendo dela ajuda ao invés de amor, entram
facilmente em cena a culpa, a autocrítica e a depressão. Por esta razão, muitos homens casados com Boas Meninas
aprenderam que não vale a pena trazer à tona os problemas, pois a confrontação as levará, em seguida, à
autodepreciação ou ao distanciamento.

Uma Boa Menina é alguém que provavelmente trabalha, quer dizer, se exaure nos relacionamentos. Ela não
descansará até que tenha certeza absoluta que todos estão satisfeitos com ela. Conheci Boas Meninas que seriam
capazes de cuidar de crianças com doenças infecciosas, arriscando a contaminação de seus próprios filhos, pelo
simples fato de não conseguirem dizer não. Para elas, a paz e a harmonia devem ser asseguradas, não importando o
custo, nem quão pequeno seja o ganho. O simples pensamento de que alguém possa estar chateado com sua atitude é
capaz de tirar-lhe o apetite ou o sono.

Pode-se imaginar como ela é boa em pedir perdão, o que faz dela uma profissional em desculpar-se. Pedir
desculpas ou dizer que sente muito parece algo tão cristão mas, de fato, é freqüentemente um pedido para que os
outros se sintam bem com ela. Neste sentido, seu pedido de desculpas é algo centrado nela mesma e um fardo para os
outros, que devem continuamente reafirmar o quão "pecadora" ela é até que seja recebida e desejada.

O efeito do estilo de relacionamento da Boa Menina é a obtenção de um envolvimento superficial com os


outros, sem ganhar seu profundo respeito. O trabalho duro serve freqüentemente para que os outros se maravilhem
com seu comprometimento, zelo e amor. Na verdade, seu comportamento é visto como sutilmente manipulativo e
vazio. A pessoa que se envolve com uma Boa Menina em geral se sente motivado a usá-la ou desprezá-la. Quem
gostaria de viver com alguém que faz de tudo para que todos os detalhes da vida sejam de seu agrado? Pode ser que
não haja o desejo de usar uma Boa Menina, mas é praticamente impossível não tropeçar nela enquanto ela limpa o
chão embaixo de seus pés para que nada o atrapalhe ou aborreça.

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Não é difícil perceber que a Boa Menina é uma mulher que desconectou-se de qualquer ferida da alma. Em
muitos casos, ela vai se lembrar de alguns elementos do abuso que sofreu, mas vai rotulá-lo de modo errado ou dizer
que foi culpa sua. Quase sempre foi uma aliada do agressor ou a pronta ajudadora daqueles que vieram em seu
auxílio. Ela é a boa ouvinte, valorizada por seu cuidado e usada por não contestar. Aparenta estar confortável em suas
roupas atraentes ou bonita em sua roupa de domingo mas, no coração, é extremamente crítica e até mesmo amarga
quanto a si mesma como mulher. Lidou com o dano do abuso distanciando-se de modo quieto e resignado do mau
tratamento que outros lhe dão.

A Menina Difícil

A Menina Difícil é a clássica faz-tudo, movida a objetivos, o "pau para toda obra", cujo coração pode ser
tão bom quanto o ouro, mas, assim como o metal, é bastante duro. A dureza é o resultado de ser controlada pela
crítica centrada nos outros. Se a Boa Menina poderia ser chamada de a mulher que não vive dentro de si mesma,
então a Menina Difícil é a mulher que vive atrás de grossas e impenetráveis paredes.

Dinâmica interna

Internamente, a Menina Difícil está acima de seus sentimentos, suspeita das motivações dos outros e é
arrogante e impaciente em sua avaliação das pessoas. Vê as necessidades humanas como criancice desnecessária.
Seria muito incomum ver uma Menina Difícil segurando nos braços uma criança que estivesse chorando, seja por
quanto tempo for. A reação mais comum seria ver algumas lágrimas em seu rosto e, depois, entreter a criança em
alguma atividade. Outra possibilidade seria a de envergonhar a criança através de alguma coisa exterior: "Você é uma
chorona e, se você continuar chorando, vou buscar uma fralda para você!".

Uma Menina Difícil vê seus desejos como coisas sentimentais, bobas e fracas; são um defeito que precisa
ser erradicado. Isto não quer dizer que as carências humanas sejam totalmente desprezíveis, pois uma Menina Difícil
é hábil em justificar suas reações perante os outros como uma demonstração de real preocupação.

Ela se vê como mãe habilidosa, deseja o respeito de seus filhos, quer que o marido
esteja mais envolvido e magoa-se ao ser desprezada. Em seu interior, contudo, sua carência por envolvimento é
severamente abafada por recusar-se a ser dependente de alguém. Ela vê seus desejos como sinal de fraqueza todas as
vezes em que não consegue resolver seus problemas sozinha. Todo aquele que tenta provocar seu desejo por
relacionamentos ricos deve ser banido ou evitado. As emoções precisam ser conquistadas e controladas, de modo que
ninguém possa lhe causar dor novamente.

Tudo isso transforma a Menina Difícil em alguém desconfiado e crítico. Toda aproximação é vista como
uma tentativa de dominá-la; portanto ela qualifica bondade e carinho como algo não somente desnecessário, mas
perigoso. Vê os elogios como "o último desejo antes da execução", ou um prelúdio para o abuso que sofrerá.

Com esta disposição interna, a Menina Difícil é freqüentemente precisa quanto a questões motivacionais.
Seu refinado senso de percepção detecta um impostor a quilômetros de distância. Entretanto, a desconfiança, apesar
de apurada, é também uma profecia de satisfação própria. Amigos e parentes vão perceber sua atitude defensiva e
hostil, e vez por outra o medo de serem atacados ou julgados fará com que se retraiam e reajam com críticas. O
comportamento defensivo e hostil deles é então interpretado pela Menina Difícil como a prova de suas suspeitas.

O jeito desconfiado da Menina Difícil se expressa ainda mais na arrogância de suas posições, o que é
realmente uma cobertura para sua raiva. Meninas Difíceis sabem como criar suas famílias, investir seu dinheiro,
dirigir o grupo de jovens, corrigir os erros da prefeitura, planejar a parada do Dia da Independência, curar picada de
abelha e pegar uma galinha comum e transformá-la num prato de um gourmet.

A Menina Difícil não faz perguntas, a não ser que as respostas sejam uma oportunidade para que ela
expresse suas opiniões. Uma Menina Difícil recentemente perguntou-me o que eu achava sobre o crescente interesse
no assunto abuso sexual. Antes que eu tivesse a chance de abrir a boca, ela bradou seus pensamentos como espadas e,
em questão de segundos, havia mudado de assunto. Ficou ofendida quando, mais tarde, trouxe a discussão de volta ao
ponto de partida.

A arrogância se mostra por trás da postura do "eu sei tudo sobre tudo" e na falta de interesse nas opiniões e
experiências dos outros. Também se manifesta no desejo de controlar ou ter a oportunidade de dar sua opinião quanto
às atividades das pessoas. A suposição parece ser "eu conheço mais sobre este assunto". Uma Menina Difícil que
visitou nossa nova casa e viu alguns dos móveis recém-comprados disse: "É uma casa bonita, mas..." e começou a
oferecer suas sugestões quanto ao esquema de cores, decoração e outros móveis necessários. Eu e minha esposa nos
sentimos desmoralizados e furiosos. Se quiséssemos um decorador de ambientes, teríamos pago um, mas não fizemos
este comentário, porque uma Menina Difícil tem o potencial de tanto irromper em fúria quanto nutrir desavença por
longo tempo.

A dureza interior, a desconfiança, a superioridade e o criticismo da Menina Difícil pode não ser tão óbvio
quanto alguém possa pensar. É claro que algumas delas fazem propaganda de seu desprezo pelas emoções, sua

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suspeita quanto àquelas que não são como ela e sua proeminente sabedoria diante de qualquer assunto. Outras,
entretanto, são mais sutis, suavizando sua crítica por trás de um comportamento socialmente mais aceitável.

Dinâmica externa

Algumas características estarão quase sempre presentes no estilo de relacionamento da Menina Difícil.
Primeiramente, haverá um degrau ou uma parede que impede que as pessoas se aproximem. O degrau pode ser nada
mais que um brilho arrogante. Conheço a esposa de um pastor que aperfeiçoou o olhar de desprezo. Seus olhos olham
diretamente em sua direção com um leve ar de sarcasmo. É desnecessário dizer que alguns na congregação são
terminantemente contra qualquer uma de suas propostas. O degrau pode assumir a forma de uma sabedoria sarcástica
e cortante, ou então um ar apressado de "por favor, agora não". Em ambos os casos, o degrau funciona para assegurar
tanto intimidação quanto distância.

Em segundo lugar, a Menina Difícil está, e sempre estará, à frente. Ela é uma boa pesquisadora e
organizadora. Sabe onde estão os melhores negócios, quem é o ginecologista de boa reputação, e qual dos vizinhos
tem mais possibilidade de ter um caso. Não há nada de errado em alguém ser competente e confiante em sua área de
especialização ou ainda em várias áreas ao mesmo tempo. O choque acontece quando a Menina Difícil perde o
controle, comete um erro ou é desafiada ou contestada em uma de suas opiniões. Normalmente uma batalha se inicia.

Enquanto a Boa Menina assume o compromisso de nunca abrir as asas - ainda que para proteger os filhotes
-, a Menina Difícil prefere comer ninhada a ser descoberta em uma falha. Pode ser que ela não "aprecie" brigas, mas
está disposta a andar cada centímetro da trincheira em nome de seus valores do tipo "branco ou preto" ou "eu estou
certa, você está errado".

Finalmente, a Menina Difícil é impenetrável em suas emoções. A Boa Menina vai lidar com um elogio
através da depreciação de sua habilidade ou motivação ou ainda insistindo que o Senhor, e não ela, merece toda a
honra. A Menina Difícil vai sempre aparecer nos lugares para receber um elogio ou um "muito obrigado", mas não se
sentirá tocada pela bondade daquele que está agradecendo.

Do mesmo modo como a bola de tênis bate na parede, a bondade sempre retorna, e com praticamente a
mesma velocidade e força, ainda que sem a intenção de continuar a manter a interação. Tanto quem dá quanto quem
recebe sentem-se frios e solitários. As paredes relacionais da Menina Difícil opõem-se à força da bola e lançam-na de
volta, mas sem mostrar nenhum desejo de dar algo em retribuição.

As pessoas ao redor da Menina Difícil reagem ao controle, ao degrau de separação e à sua


impenetrabilidade mantendo-se à distância. Normalmente respeitam as conquistas ou a audácia de sua vontade, mas
não apreciam sua presença ou essência. A Menina Difícil, em geral, transforma-se numa grande cirurgiã, uma
advogada de defesa ou primeira-ministra, mas nunca uma amiga, esposa ou mãe que todos gostariam de ter. Ela é
apreciada por sua perseverança, ingenuidade ou trabalho duro, mas temida por seu olho crítico e poder de desprezo. A
honesta Menina Difícil é também solitária.

A Menina Festeira

A Menina Festeira é a clássica mulher tranqüila de se lidar, às vezes intensa, às vezes madura. Ela é
previsivelmente inconsistente, difícil de prever e impossível de se aprofundar em relacionamentos mais próximos.
Um fator por trás de seu estilo caprichoso é sua habilidade de usar com destreza crítica a si mesma e aos outros. E
como se ela dominasse a capacidade de odiar a si própria e a você ao mesmo tempo.

Tem a facilidade de atrair uma pessoa para um relacionamento e, em um instante, virar-lhe as costas. Seus
modos são amáveis, gentis e convidativos mas, rapidamente, pode ser tornar irascível, exigente e voluntariosa. A
Menina Festeira pode ser tão bombástica quanto uma Menina Difícil, sacrificial quanto a Boa Menina mas, como se
machuca com facilidade, torna-se assustada e frágil.

Dinâmica interna

A Menina Festeira é complicada. Normalmente é frágil e graciosa, sincera e falsa, inocente e desonesta -
uma fonte de paradoxos. Quando ela se permite sofrer por uma perda ou dano sofrido, ainda que por pouco tempo, vê
sua angústia como algo que não é nem egoísta (Boa Menina) nem fraco (Menina Difícil), mas sem propósito. Há um
reconhecimento do desejo e da angústia, mas "e daí?". Sentimentos são percebidos, mas nunca encarados em
profundidade.

Internamente, a Menina Festeira é inconsistente e ambivalente. Ela se mostra como a frente de uma terrível
tempestade, instável, mudando constantemente - brilhante em um minuto, escura no outro. Suas emoções oscilavam e
se alternam sem uma causa aparente. Em parte, a razão é a presença da crítica dirigida a si e aos outros. Seu
comportamento vai depender freqüentemente de quem ela tem mais ódio no momento: dela mesma ou de você. O
humor caótico e o comportamento oscilante deixa a maioria das pessoas loucas. Ninguém sabe o que esperar de uma
Menina Festeira.

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Enquanto a Boa Menina se afoga em culpa e a Menina Difícil pula de ódio, a Menina Festeira luta com
medo e ambivalência. Ela cuida de seus anseios flutuantes e simultâneos e de seu ódio por relacionamentos através de
uma análise superficial ("a vida continua"), da minimização ("o agressor estava apenas inseguro, e não cheio de
pecados") e um afastamento cheio de cinismo ("a vida é assim mesmo"). E como se a Menina Festeira não se
permitisse ficar muito preocupada, pois ela sabe que tudo isso levará a um ponto que requer honestidade,
compromisso e força. É muito mais fácil rir ou chorar sua dor e então fugir dela, do que realmente enfrentar o
desconhecido.

Dinâmica externa

Os aspectos externos da Menina Festeira incluem a inconstância e a sedução nos relacionamentos, além de
uma insatisfação crônica. Lealdade - ou seja, o compromisso de preservar uma relação pelo bem do outro - dura
somente enquanto houver prazer. A partir do momento em que a alegria de uma nova relação começa a diminuir ou a
requerer muito trabalho, a Menina Festeira encontra alguma maneira de terminar ou sabotar a união. É freqüente vê-la
entrando e saindo de relacionamentos repetindo um padrão de início, apreciação, uso e depois sabotagem.

Uma mulher descreveu seu estilo de relacionamento como "jogar fora a lata de refrigerante depois que o
conteúdo acabou". E semelhante ao comportamento de um carrapato. Ele não tem capacidade de produzir seu próprio
sangue, o que o torna dependente de outro animal. O carrapato fica ligado a seu hospedeiro até que este morra,
quando então se muda para outro animal. De modo semelhante, a Menina Festeira suga a vida de um hospedeiro até o
momento em que o compromisso é exigido ou quando a manipulação do parasita é descoberta. Então ela se muda
para encontrar satisfação em algum outro lugar. A Menina Festeira está mais ligada ao prazer e alívio do que à honra,
aos valores ou aos relacionamentos. Lealdade, consistência, perseverança e sofrimento por longo tempo não são suas
características.

A sedução é outra característica do estilo de relacionamento da Menina Festeira. Sua sedução pode incluir
um elemento sexual, mas deve ser entendida num contexto maior, como montar uma armadilha para que o
"hospedeiro" inicie um relacionamento e se mantenha interessado. A sedução pode ser tão óbvia quanto uma piscada
de olhos, ou um comentário supostamente tímido sobre o flerte, ou então algo sutil como a profunda depressão de
uma "frágil" mãe cujo filho não atende seus pedidos.

Por exemplo: a mãe que ama seu filho a ponto de fazer qualquer coisa por ele, de sofrer qualquer privação,
suportar qualquer insulto é, freqüentemente, a primeira a depender dele ou a se mostrar chorosa, lamentando a ferida
com desapontamento quando ele tenta se livrar de seu laço de dependência. O compromisso não está baseado em
lealdade, mas em exigência; seu amor é parasita e danoso à vida, ao invés de livre para dar e revigorante.

Em ambos os casos, a Menina Festeira frágil ou dada ao flerte está prendendo o objeto de seu desejo numa
teia de relacionamentos através do desejo ou da culpa. O resultado será o mesmo: aprisionamento, controle e o poder
de destruir.

É freqüente vermos que o primeiro resultado da sedução da Menina Festeira é despertar no "hospedeiro" o
sentimento de estar sendo valorizado e desejado, até o ponto em que ela não consegue mais apreciar a vida se não
tiver a ajuda especial dele. O prazer intoxicante de ser especial e necessário normalmente cega os olhos de tal modo
que pastores e conselheiros tiveram casos com Meninas Festeiras sinceras e com dificuldades, as quais apreciavam
profundamente a bondade e gentileza daquele escolhido para aconselhar.

Outra pista da sedução da Menina Festeira é a culpa que a pessoa sente ao "decepcioná-la". Ele vai encarar
a situação como uma falha catastrófica em face do desapontamento da menina carente. A Menina Festeira é mestre
em mostrar insatisfação usando a frase "eu sobreviverei". Ela nunca está completamente feliz, ainda que tenha o que
deseja. Sua insatisfação não somente seduz o hospedeiro através de um relacionamento baseado na culpa, como
também justifica o fim do relacionamento. Por que ela continuaria num relacionamento tão "doentio"? A outra pessoa
está exigindo muito envolvimento, compromisso, tempo, energia e dinheiro para justificar a continuidade do
relacionamento.

A Menina Festeira é alguém que tem duplo ânimo, podendo ser dura e impaciente num momento e confusa
e carente no outro. Parece ter uma fome insaciável que nunca pode ser satisfeita. Um homem cuja esposa e filha eram
Meninas Festeiras lamentou-se assim: "Nunca consigo fazer o suficiente para deixá-las contentes. É como se
houvesse um verme emocional que dissolve toda a comida que dou, de forma que elas nunca são nutridas com meu
carinho".

A insaciabilidade da Menina Festeira faz com que qualquer interação seja superficial dissolvendo todo
relacionamento potencialmente bom. A dissolução dos bons relacionamentos resolve a questão da incerteza e da
ansiedade geradas pela ambivalência, e abre a poria para as uniões destrutivas e abusivas. Em contrapartida, a
manipulação mútua, as conseqüências destrutivas e a profunda solidão dos laços abusivos servem para aquietar a
fome da Menina Festeira pelo cuidado puro e agradável.

É fácil estereotipar a Boa Menina - com alguma precisão -como a típica dona de casa oprimida ou a perfeita

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esposa de pastor; a Menina Difícil, como a típica mulher liberada, a executiva ou a diretora do grupo de ministros; e a
Menina Festeira, como a garota que fica no balcão do bar, a mosca promíscua em volta do alimento. Contudo, estes
estereótipos encobrem a complexidade do assunto. Muitas Meninas Festeiras são cristãs comprometidas e de boa
moral, as quais diminuem a intensidade do problema ou usam a oração e estudos bíblicos (do mesmo modo que
muitas Meninas Festeiras não cristãs usam álcool e drogas) para minimizar suas lutas na vida.

Por outro lado, muitas Boas Meninas se envolvem em relações ilícitas por negarem sua própria culpa. A
promiscuidade não é propriedade exclusiva da Menina Festeira, nem faz parte dos domínios da Menina Difícil.

As tendências no estilo de relacionamento apresentam incontáveis variações e aparentes contradições. Por


que este seria o caso? A resposta é simples, ao menos em parte. Cada estilo de relacionamento enfatiza uma espécie
de crítica sobre a crítica, mas não a ponto de excluir a outra. Toda Boa Menina enfatiza profundamente a crítica
voltada aos outros, a qual permanece velada, esperando para se mostrar no momento certo. De modo semelhante, toda
Menina Difícil esconde um razoável estoque de autocrítica, apesar de ela se sentir mais à vontade odiando os outros.
E toda Menina Festeira tem uma enorme capacidade e facilidade de flutuar entre a crítica voltada aos outros e a si
própria.

Contudo, correndo o risco de estereotipar, os três estilos de relacionamento podem ser resumidos assim: a
Boa Menina está comprometida com o prazer e o alívio através da fiel manutenção do relacionamento; a Menina
Difícil compromete-se a exercer o poder através do controle e da intimidação; a Menina Festeira visa enlaçar e
controlar através da sedução e/ou culpa.

A Boa Menina vai buscar apoio e prazer dos outros, mas, no longo caminho, estará sozinha e terá sofrido
um abuso ainda mais intenso. A Menina Difícil vai exigir respeito e admiração distantes, mas ficará sozinha e com
medo. Sua intimidação vai manter o abuso num nível mínimo mas, a longo prazo, sua arrogância e interações
abusivas com os outros vão provocar retaliação e vingança. A Menina Festeira vai mostrar alegria e angústia, boa
vontade e ódio; no fundo, vai confundir e frustrar os outros. Ela vai clamar por envolvimento, mas a intimidade vai
terminar se degenerando em raiva ou medo, levando-a a abusar dos outros ou ser vítima do abuso deles. No fim, ela
terá provocado danos consideráveis aos outros e terá sido igualmente destruída por sua frustração e afastamento.

Todas elas - a Boa, a Difícil e a Festeira - são tanto vítimas quanto agentes. Seu estilo de relacionamento
não é apenas um subproduto do abuso que sofreram, mas também de suas vãs tentativas de encontrar vida longe de
um relacionamento de dependência de Deus.

Desvencilhar alguém dos laços de defesa de um estilo de relacionamento é um dos grandes desafios do
crescimento cristão. Nada pode ser feito para se livrar da dor de cabeça ou dos relacionamentos falidos do passado,
mas nossa esperança em Cristo é que o passado não precise manchar nem moldar o futuro. Uma perspectiva do dano
do passado, seja interno ou externo, permite compreender como o relacionamento com Deus é algo fundamental no
processo de mudança.

86
Parte III

Pré-requisitos para o
Crescimento

87
CAPÍTULO 10

A Improvável Rota para a Alegria


A suposição que nos guiou nos capítulos anteriores é simples: Um problema não pode ser substancialmente
resolvido até que seja encarado de frente. Um erro muito comum cometido por vários grupos cristãos é ignorar o
problema ou oferecer boas soluções através de formas banais. Mas pessoas que lutam para enfrentar honestamente
seus próprios problemas cometem um erro igualmente destrutivo ao rejeitarem soluções espirituais porque elas
aparentam ser simples ou irrelevantes diante da complexidade do problema que se lhes apresenta.

Infelizmente, aqueles que se apegam a respostas espirituais em geral vêem com suspeita aqueles que
rejeitam coisas simples. Aqueles que realmente compreendem os efeitos de se viver num mundo caído
freqüentemente desprezam os que encontram conforto em verdades simples. Em ambos os casos, a crítica, ainda que
compreensível, não aborda nem o horror do dano nem as maravilhas das boas-novas. Aqueles que desejam honrar a
Deus e o trabalho redentor de Cristo devem considerar tanto a simplicidade quanto a complexidade que existe no
problema e na solução.

O restante deste livro é dedicado a estabelecer uma imagem daquilo que é necessário para mudar. A
mudança é possível. Mudança, de fato, é assegurada para todo aquele que deseja crescer. Entretanto, crescer é algo
surpreendente. O crescimento é, em todos os aspectos, algo tanto natural quanto totalmente sobrenatural. Fomos
feitos para crescer, aprender, para mudar como seres humanos. Contudo, o pecado não somente inibe o crescimento
como o transforma numa exceção, não numa regra. Quando caminhamos no sentido de amarmos a Deus e aos outros,
temos a certeza de que algo foi introduzido de forma a alterar o processo de estagnação e queda.

A mudança é sempre um processo. Esta verdade não precisa ser enfatizada. Muitas vítimas de abuso sexual
acham que seu progresso na mudança está levando muito tempo. A suposição é que se Deus está envolvido, então o
processo não será longo nem confuso. Se isto fosse verdade, então por que Deus passou quarenta anos ensinando
Moisés a ter humildade e a desenvolver habilidades de liderança tomando conta de carneiros e ovelhas em Midiã? A
cura profunda e a mudança sobrenatural podem custar anos de luta, de aprendizado através do processo de tentativa e
erro, e de crescimento sadio para dar o próximo passo significante na fé. Ninguém deve julgar o cronograma de
mudanças de outra pessoa.

Que surpresas a vítima de abuso sexual pode esperar se escolher cooperar com o trabalho sobrenatural de
Deus? O trabalho envolve o surpreendente caminho da fraqueza, quebrantamento, pobreza e morte. Estas palavras
são capazes de assustar, alienar e causar repulsa a uma pessoa honesta. O homem ou mulher que sofreu abuso já se
sente fraco e quebrantado (impotente), pobre (impotente e traído) e morto (impotente, traído e ambivalente). O
pensamento de que a cura é pior do que a doença, ou pelo menos tão ruim quanto, faz com que a simples
apresentação de uma saída espiritual seja algo totalmente indesejável.

Por esta razão, muitas abordagens seculares e até cristãs diluem o processo bíblico de forma a torná-lo
menos desagradável. A natureza decaída do ser humano exige controle e garantias, e todo sistema ou modelo de
mudança que oferece alívio através da execução precisa de passos bem determinados atinge um desejo básico da alma
caída.

O caminho bíblico permite escolha e ações responsáveis, mas implica andar pelo vale sem acender uma
tocha na escuridão. Implica perder sua vida para encontrá-la, trocando a morte pela vida (Jo 12:24-25). Confiar em
Deus implica esquecermos nossa agenda e nossa tocha, de modo que morramos para nossa insistência em viver uma
mentira. Requer que abandonemos nossas maneiras de nos relacionarmos com as pessoas, cheias de rigidez,
autoproteção e desonra para com Deus de forma que possamos abraçar a vida do modo como ela deve ser vivida: em
humilde dependência de Deus e num envolvimento apaixonado com os outros.

Uma questão crucial

Antes de refletir um pouco mais sobre a perspectiva de mudança e o caminho para a alegria, devemos voltar
um pouco e fazer-nos uma pergunta muito importante - uma pergunta que vai determinar se vamos abraçar ou criticar
a solução bíblica. A pergunta é esta: "Será que eu creio que Deus é um pai amoroso e interessado em meu bem-estar,
que ele tem o direito de me usar para qualquer propósito seu e que entregar minha vontade e minha vida inteiramente
a ele vai trazer a maior alegria e satisfação possível de ser alcançada aqui na terra?"

Se a resposta é sim, então o caminho bíblico, apesar de às vezes ser um pouco acidentado, será suavizado
pela fé, que reconhece o infinito amor, a sabedoria inatingível e a intensa misericórdia de Deus. O processo de saída
desse nosso modo de vida auto-suficiente e protetor será humilhante e doloroso, mas bem-sucedido. Reconheceremos
a pecaminosidade de nosso empenho em construir uma "vida" de acordo com nossas próprias definições, e nos
moveremos com fé na direção do arrependimento. Confiar em Deus será algo razoável, se não fácil, e nos levará à
mão direita de Deus, onde há prazeres incontáveis.

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Se, por outro lado, a resposta à pergunta for não, o caminho bíblico parecerá mais do que absurdo: será
impossível de ser trilhado. Como poderíamos desistir de nossas ações se lá no fundo nos sentimos assim: "A última
coisa que Deus parece ser é um pai amoroso. Antes de mais nada, ele é quem permitiu que eu sofresse um abuso;
então como posso crer nele para atingir meus mais profundos objetivos hoje? Até onde eu sei, Deus é egoísta e
exigente, e estou cansado de ser 'usado' por ele e por todas as outras pessoas. Entregar minha vontade e minha vida a
ele não pode dar em nada que seja bom para mim. De fato, eu sei que isto seria o meu fim, de uma vez por todas. É
um milagre que eu tenha sobrevivido até agora, e não é graças a ele".

E se nós estivermos mais perto da segunda opção que da primeira? O que dizer se confiar em Deus e dar-
lhe a vida parecesse com o cúmulo da zombaria?

Primeiramente, precisamos considerar novamente o que é e o que não é a confiança bíblica. Muitos
assumem que confiar é depender de Deus de modo calmo, sereno e tranqüilo. Ainda que haja um elemento verdadeiro
nesta declaração, na maior parte das vezes esta serenidade é o subproduto de estar se esperando muito pouco de Deus.
É assustadoramente fácil aparentar confiança quando, de fato, alguém está simplesmente morto (através da negação
das feridas, da carência ou da luta do coração).

Confiança genuína envolve a permissão que damos a outros para fazerem diferença e causarem impacto em
nossas vidas. Por esta razão, muitos daqueles que odeiam a Deus e travam batalhas com ele confiam mais
profundamente no Senhor do que aqueles cuja fé complacente permite que eles se apresentam perante Deus de modo
abstrato e estagnado. Os que mais confiam em Deus são aqueles cuja fé permite que se arrisquem a lutar contra ele
nas questões mais profundas da vida. Bons corações são capturados em meio a uma luta divina; corações temerosos e
cheios de dúvidas saem intactos no fim da luta.

O empenho em lutar será honrado por um Deus que não vai apenas quebrantar, mas também abençoar. O
empenho de Jacó em lutar com Deus resultou em um ferimento em sua coxa. Ele nunca mais andaria sem uma
muleta. Mas a liberdade em seu coração valeu o preço do ferimento em seu corpo. O preço da liberdade da alma é a
perda daquilo que é capaz de dar a maior segurança (o cuidado excessivo com a alma, com o empenho de ser seu
único provedor e protetor) mas que, no fim, intuitivamente se percebe ser totalmente inseguro.

A maravilha do Evangelho que, por fim, captura o coração machucado está em que - a despeito de nosso
ódio e rebelião contra Deus -, Cristo morreu por nós e seu Santo Espírito nos acompanha até o fim do mundo. Sua
busca fiel não é impedida por nossa raiva ou ambivalência, nossa falta de fé ou nossa recusa em confiar. Na verdade,
os passos do Espírito nos seguem fielmente mesmo quando pensamos que somos incapazes de merecer ou até desejar
sua graça. Há momentos em que sua tendência a nos acompanhar no presente traz à tona um ódio ainda maior do que
o sentido diante do silêncio e da passividade de Deus no meio do abuso sofrido no passado: "Por que Deus
simplesmente não me deixa sozinho?".

Mas ele não vai nos abandonar - por amor a nós. A única coisa que vai finalmente produzir mudança e
alegria em nossas vidas é reconhecer nosso pecado e receber a graça de Deus. Para a pessoa que ainda não começou a
confiar profundamente em Deus (ou até mesmo duvida que ele seja digno de confiança), o resto deste livro pode ser
bastante difícil de ser lido, aceito e aplicado. Mas um novo dia pode vir até mesmo para aquele que mais receia. Deus
vai trabalhar num coração ansioso e vai levá-lo ao arrependimento e rendição. Como filhos humildes e dependentes
de um pai misericordioso e poderoso, nós vamos achar a coragem para penetrar na escuridão do perigoso vale, e
vamos sair contemplando sua luz redentora.

O caminho para a mudança

Como é este caminho inusitado para se chegar à vida, através do vale da sombra da morte, diferente do jeito
fácil que muitos preferem? Esta última forma normalmente apresenta pelo menos três passos que caracterizam seu
processo e resultado previsíveis. O primeiro passo ajuda a vítima de abuso a sentir e a dominar suas emoções
(descoberta de si mesmo). O passo seguinte a ajuda a encontrar a liberdade de expressar seu mundo interior
(expressão do eu). O último ponto é treiná-la em como criar barreiras no relacionamento com outras pessoas de forma
que não seja nunca mais usada ou agredida (autodefesa).

Estes objetivos estão tão próximos dos ideais bíblicos que é difícil articular a diferença através da palavra
escrita ou falada. Entretanto, quero sugerir que a diferença é profunda.

A descoberta de si mesmo ou a posse dos sentimentos de alguém, apesar de necessário e legítimo,


freqüentemente muda o foco para o objetivo de aprender mais sobre si mesmo de modo que possa pedir aos outros
que levem em consideração a dor de alguém. Quando a descoberta de si mesmo acontece sob uma perspectiva bíblica
(com o foco voltado para o fato de como alguém pode amar melhor os outros), ela elimina qualquer esperança de
justificação de si mesmo e intensifica a necessidade da graça.

A descoberta bíblica do eu expõe a ferida da pessoa que sofreu abuso, exibindo também a raiva, a solidão e
o isolamento que visa a autoproteção. Ela não é interrompida ao recuperar os sentimentos reprimidos, mas encara o
conforto próprio encontrado em viver com uma alma morta. O primeiro propósito em encarar a vitimização não é

89
simplesmente saber como alguém se sente quanto a isto, mas expor mais claramente os padrões sutis que a vítima
apresenta de buscar vida longe de Deus.

E quanto à expressão do eu, o segundo passo do caminho comum de mudança? Liberdade para expressar o
que alguém pensa freqüentemente se torna uma oportunidade para dar vazão a acusações defensivas. A frase "eu
apenas fui honesto" é freqüentemente usada como meio de buscar vingança sob o pretexto de abertura e
autenticidade. Quando se trata de relacionamentos, a pergunta nunca deveria ser apenas: "Fui honesto?", mas "Causei
algum bem à pessoa?". A honestidade na expressão deveria sempre servir para honrar a outra pessoa.

Finalmente, o estabelecimento de fronteiras para prevenir possíveis usos e abusos freqüentemente leva à
autoproteção de forma egoísta, arrogante e autônoma. Uma mulher disse, com um descaso mal disfarçado: "Não me
importo com o que você pensa. Aprendi a dizer sim para mim mesma. Nunca mais serei um brinquedo nas mãos dos
outros. Farei o que eu quiser para mudar". Seu relacionamento com o marido e com os outros poderia ser chamado de
co-dependente, pois para ela a vida funcionava sem uma alma, uma vontade ou um coração, sendo controlada pelos
caprichos daqueles que viviam à sua volta.

Ela percebeu que estava sendo vítima e que precisava reclamar seu mundo interior, mas estava tão irada por
encarar o dano sofrido no passado que nunca viu seu papel na vitimização co-dependente. Ela nunca ficava
humilhada ou quebrantada por seu pecado, porque a opção por construir limites nunca expôs sua co-dependência
como uma autoproteção danosa e cheia de pecado, feita para evitar que ela vivesse seus relacionamentos de modo
intenso, autêntico e humilde. Ao encarar sua vitimização, ela ansiava por um tribunal no qual pudesse expor toda sua
indignação e tivesse oportunidade de clamar por justiça. Ela nunca encarou seu próprio pecado; portanto, nunca pediu
graça.

O conceito de limites é legítimo. Eu os aceito, até certo ponto, como ser humano finito e pecador.
Conseqüentemente, estabeleço limites para melhor servir àqueles com quem me relaciono. Um limite como o número
de horas que durmo por noite é algo raramente violado, porque sou capaz de render mais quando tenho sete horas de
sono. Raramente interrompo meu momento com as crianças para falar ao telefone, porque não sou escravo do
telefone. Não sou obrigado a falar com ninguém que queira falar comigo. Limites são o reconhecimento de minha
finitude e um dom de misericórdia à minha alma.

Não sou insensível ao fato de que as vítimas de abuso sexual frequentemente perderam sua capacidade de
estabelecer e manter limites legítimos, nem me oponho a ajudá-los a identificar quando um limite é violado ou
fortalecê-los em sua habilidade de estabelecer limites. Entretanto, o objetivo por trás da construção de limites vai
determinar se isto está coerente com o amor a Deus e aos outros, ou se é puramente humanismo egoísta.

O objetivo deve ser abençoar a outra pessoa ao invés de assegurar que não sofreremos mais abusos.
Estabelecemos limites com o objetivo de amar melhor aquele com quem estamos nos relacionando. Não podemos dar
com o coração aberto se vivemos com medo dos outros. Permitimos que muitos limites sejam violados porque temos
medo de ofender ou perder um relacionamento torpe que ainda mantemos. Amar é estar mais comprometido com a
pessoa do que com o relacionamento. É estar mais preocupado com o caminhar dela com Deus do que com o con-
forto e os benefícios de sua caminhada conosco.

Conversei com uma mulher que durante anos esteve envolvida com uma abordagem secular na construção
de limites. Sua mãe é uma mulher dura, má, extremamente crítica, que preferiria destruir a filha a admitir que seu
marido abusara da menina. Durante vários anos, a menina estabeleceu alguns limites e "tomou conta de si mesma".
Ela sentia mais paz e tranqüilidade, mas pouca alegria e bondade. Estava supostamente aprendendo a amar a si
mesma mas, ao fazer isso, perdeu de vista o desafio divino de dar-se aos outros. Com o objetivo de manter suas
barreiras altas o suficiente, ela precisava reafirmar continuamente a necessidade de proteger a si mesma e endurecer
seu coração diante da tristeza na vida de sua mãe. De alguém fraco, ela se transformou em alguém amargo. E isto foi
chamado de crescimento.

É possível que o amor estabeleça e requeira seus próprios limites? Se o objetivo é amar, devemos tanto
honrar a dignidade quanto expor a deficiência da pessoa com quem estamos nos relacionando. Não podemos amar se
nos distanciamos ou desprezamos o dano causado pelo pecado dos outros. Também não podemos amar se falhamos
em nos aproximar das pessoas para oferecer um sabor de vida. Em ambos os casos, aquele que ama normalmente é
um mártir por amor do Evangelho, sacrificando o conforto pessoal para ajudar o outro a experimentar seus próprios
desejos e necessidade de receber a graça de Deus.

O amor tem seus limites, mas é normal que o estabelecimento de barreiras seja um meio de escapar dos
requisitos do amor. Um bom coração vai se sentir desconfortável em qualquer caminho que não ofereça a
oportunidade de se sacrificar pelo bem do Evangelho. O caminho comum da descoberta, da expressão e da proteção
do eu parece bastante razoável, mas os resultados são sempre a falta de força, ternura e fidelidade.

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O caminho bíblico para a mudança

Vida verdadeira requer morte. Morte implica a experiência do sofrimento. Sofrimento é necessário ao
crescimento.

Até mesmo do Filho de Deus foi requerido sofrimento, para completar sua maturidade e missão:

Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos
à glória, aperfeiçoasse por meio de sofrimentos o Autor da salvação deles. Embora sendo Filho, aprendeu
a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para
todos os que lhe obedecem.
Hb 2:10; 5:8-9

Sofrer é igualmente necessário para nós porque elimina a pretensão de que a vida c razoável c boa, uma
pretensão que nos faz olhar para todos os lugares errados em busca da satisfação de nossas almas.

Annie Dillard, num trecho de uma chocante clareza, usa a descrição de uma vítima de queimaduras para
expor a dor que se esconde bem próxima da grama verde e bem cuidada da boa vida:

Li certa vez que pessoas que sobreviveram a queimaduras severas tendem a ficar loucas, e apresentam uma
alta taxa de suicídio. A medicina não consegue diminuir sua dor: os remédios simplesmente escorregam,
ensopando os lençóis, porque não há pele alguma para segurá-los. As pessoas apenas ficam deitadas e
choram. Mais tarde elas se matam. Elas não sabiam, antes de terem se queimado, que o mundo incluía este
sofrimento, que a vida poderia permitir-lhes tal dor1.

Como a aceitação plena do próprio sofrimento (ao invés de a autoproteção repeli-lo) pode levar o cristão à
esperança ao invés de ao desespero? Isto tem a ver com o modo como o sofrimento profundo pode nos levar a colocar
nossa confiança no lugar a que ela realmente pertence.

O sofrimento de qualquer tipo aponta para o fato de que algo terrível, não natural e errado aconteceu e que
alguma coisa melhor, que mais se encaixa à beleza e à justiça, deve estar à espera. Se não fosse assim, se este fosse
realmente nosso lar, nosso único lar, por que nosso desejo por algo mais seria tão forte?

Não seria certo dizer que todo sofrimento é necessário e proveitoso. Muitos sofrem sob o peso de seu
desprezo pecaminoso. Outros se arrastam implorando que alguém lhes tire a dor. Eu não chamaria este sofrimento de
bom, mas, por outro lado, ele nos revela que nossa alma sabe para que ela foi feita.

O caminho do vale ou da Cruz requer expressões bíblicas de honestidade, arrependimento e amor intenso.
A Honestidade remove a prazerosa e anti-séptica brandura da negação. O Arrependimento acaba com a autocrítica e
o ódio dirigido aos outros, substituindo-os por humildade, misericórdia e ternura. O amor intenso aumenta o poder e a
liberdade através da felicidade do amor, como se nós fossemos feitos para amar. A Boa Menina, a Menina Difícil e a
Menina Festeira se fortalecem, sentem mais paixão, mais liberdade, tornando-se mais acolhedoras e fiéis.

As recompensas do caminho bíblico

A alegria que se encontra no fim do caminho inesperado envolve três realidades internas: (1) alegria por ser
meiga (amável), (2) maior capacidade de reagir com a alma e (3) liberdade para tomar decisões difíceis e
impopulares.

A alegria de ser meiga - ou, numa palavra mais adequada aos homens, amável - é a experiência de ser
acolhedor. Uma mulher disse que gostaria de ser o tipo de pessoa com a qual os outros pudessem relaxar. Ela gostaria
de ser como uma grande e adorável árvore que convidava diversos animais a virem e lá fazerem seus ninhos, e em
cujos braços cheios de folhas residisse a promessa de conforto e descanso. Esta é, claramente, a antítese da Menina
Difícil.

A capacidade de dar aos outros aquilo que temos no mais profundo de nossas almas é um rico deleite. Ser
um bom vizinho, que deseja dar mão a alguém que necessite, é um enorme prazer. Quanto prazer há (ou deveria
haver) em oferecer a alma - a possessão mais íntima de alguém, uma coisa que vai durar para sempre - a outro,
visando seu supremo bem? A alegria está além das palavras. Está claro que este tipo de entrega e de envolvimento
não se compara àquilo que a Menina Festeira é capaz de oferecer em seus relacionamentos.

Finalmente, a liberdade de tomar decisões difíceis e impopulares é intensa. Tal liberdade permite que o
coração viva uma vida plena e de valores controlados, ao contrário de uma vida cheia de medos e dependente de
outros. A capacidade de agir por convicção ao invés de por medo alivia a alma e permite que ela viva acima dos
ataques e ciúmes de um mundo caído. Sem dúvida, nenhuma Boa Menina começou sequer a mexer suas asas nesta
direção.

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O melhor resumo daquilo que está disponível à pessoa que sofreu abuso sexual é encontrado em Provérbios
31:25 : "A força e a dignidade são os seus vestidos, e, quanto ao dia de amanhã, não tem preocupações". A mulher
que se veste de força e dignidade não é uma Boa Menina: ela tem poder e força demais na alma para não ter voz e ser
passiva. Não é uma Menina Difícil: ela tem paixão e vida suficientes para ser ríspida e indiferente. Também não é
uma Menina Festeira: ela tem um profundo compromisso com o amanhã que a impede de viver hedonisticamente
para o hoje. É a mulher que ama de verdade e que vive apaixonadamente o hoje, c fielmente o amanhã.

Quais são os pré-requisitos para se tornar tal mulher ou homem? Honestidade. Arrependimento. Amor
Intenso. A pessoa corajosa e humilde vai plantar tudo isto, e colherá os frutos da alegria.

92
CAPÍTULO 11

Honestidade
Honestidade é o compromisso de ver a realidade como ela é, sem distorções conscientes, minimização ou espiri-
tualização. A honestidade começa quando admitimos que estamos enganados e que nossa tendência era de construir
um mundo falso ao invés de olhar para a brilhante luz da fé. Uma pessoa honesta reconhece sua queda por meias-
verdades e coisas vagas que não exigem grandes mudanças nem eliminam a presunção da auto-suficiência.

Por que devemos admitir o que é verdade? Porque a desonestidade ou viver em negação é, na verdade, uma
tentativa de destronar a Deus. É uma tentativa de se tornar como Deus, com o poder de construir o mundo e a
realidade de acordo com nosso desejo. Uma pessoa empenhada em negar profundas verdades constrói um mundo
alternativo e, como Atlas5*, o mantém girando através de seu próprio poder.

A criação de um mundo falso é realmente a tentativa de expulsar Deus de nosso mundo. É semelhante à
criança que diz: "se você não jogar conforme as minhas regras, eu levo a bola para casa!". Deus não joga segundo as
nossas regras nem cura nossas feridas e dores do modo como nós desejamos; portanto, deixamos o mundo de Deus e
criamos um que seja mais agradável ao nosso paladar, ainda que ele nos roube o amor e a vida.

A honestidade elimina a necessidade de vivermos uma vida de mentiras. Num primeiro momento, olhar
para nossas mentiras causa vergonha e raiva - emoções que ameaçam a esperança de intimidade e deixam o mentiroso
solitário e com medo. Mas no fim a verdade liberta a alma, porque remove o fardo de carregar o peso de um mundo
falso.

O trabalho de manter a verdade à distância consome mais energia do que admitir a terrível realidade. À
primeira vista pode-se odiar a verdade, mas ela representa um sabor de alívio para um coração cansado, pesado e
solitário. Quando alguém se compromete com a honestidade, bate à porta da verdade, pródigo, faminto e persistente,
até que ela se abra e o Pão da Vida seja colocado em suas mãos.

Se uma pessoa se empenha em mudar através da honestidade, deve reconhecer plenamente os danos
internos e externos causados pelo abuso sexual1.

Os danos internos

Uma vítima honesta de abuso sexual deve desejar reconhecer as oito verdades que foram destacadas nos
capítulos anteriores:

1. Sofri abuso sexual.

2. Sou vítima de um crime contra meu corpo e minha alma.

3. Como vítima, não sou de modo algum responsável pelo crime, independente do que eu possa ter
experimentado ou recebido como resultado do abuso.

4. O abuso causou danos à minha alma.

5. O dano se deve ao entrelaçamento da dinâmica da impotência, transição e ambivalência.

6. O dano que sofri é diferente do sofrido por outras pessoas em extensão, intensidade e conseqüências, mas
vale a pena abordar o problema e trabalhar em cima do que ocorreu.

7. Levará tempo para lidar com as feridas internas: o processo não deve ser apressado.

8. Não devo manter um véu de discrição e vergonha sobre meu passado, mas não sou obrigado a compartilhá-
lo com alguém que eu julgue indigno de confiança ou insensível.

Um coração honesto que enfrenta os danos internos estará, em algum momento, frente a frente com as
lembranças do passado. A experiência será semelhante a segurar as pontas de um fio elétrico energizado que queima
e cauteriza a alma, abalando-a e transformando-a. Este novo estado é tão pouco familiar e apavorante que muitas
vítimas optam por não trazer à tona as lembranças.

Outros se recordam apenas de partes do passado, ou mesmo de todos os detalhes mas se mantêm separados
deles, como se aquilo não tivesse acontecido a seus corpos ou a suas almas.

5 * Deus da mitologa grega que, por haver lutado contra as deidades do Olimpo, foi condenado a carregar a terra e os céus. (N. do T.)

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Estas três posturas (falta de memória, memória parcial e memória separada das emoções2) levam a três
perguntas: Qual é o objetivo de recuperar lembranças do passado, uma vez que ele não pode ser mudado? Qual o
nível de recuperação necessário para que a mudança ocorra? Se alguém não consegue se lembrar ou se lembra de
apenas algumas coisas, que esforço deve ser aplicado para que a pessoa possa trazer à tona as lembranças que
continuam submersas?

Qual é o propósito de trazer de volta lembranças do passado?

Uma mulher se aproximou de mim, durante um seminário, tremendo bastante. Perguntou-me o que eu
achava do uso de sódio-pentotal para a recuperação de lembranças bloqueadas do passado. Todas as lembranças
anteriores aos nove anos de idade estavam apagadas. Ela sentia como se estivesse perdendo sua mente. Chorava
freqüentemente e havia desmaiado várias vezes na semana, antes de nossa conversa. Estava desesperada e queria ter
certeza de que um "soro da verdade" a ajudaria a recobrar o passado e a libertá-la da horrível dor do presente.

Perguntei-lhe se gostaria realmente de conhecer o passado. Minha reação a enervou. Seu olhar de
incredulidade escondia sua confusão e irritação. Ela respondeu: "Claro que não, mas vou fazê-lo se isto trouxer alívio
para o meu conflito". Ela admitiu que não queria ver o que estava atrás do bloqueio amnésico, mas queria ficar livre
de qualquer sintoma. Ela via as drogas como um meio de trazer o passado de volta sem a necessidade de tomar uma
decisão profunda de encarar aquilo que ela não queria. Disse-lhe que qualquer informação que obtivesse através de
algo que não fosse sua própria escolha muito provavelmente seria negado ou afastado, ainda que a lembrança
retornasse.

É certo que nem todas as vítimas que estejam abertas e decididas a recuperar suas lembranças serão
"recompensadas" com uma descrição detalhada dos eventos do passado. Às vezes o abuso está tão profundamente
plantado no subconsciente que a recuperação é impossível, até mesmo se a vítima o deseja.1 Embora isso possa
ocorrer, é mais freqüente que a escolha por abrir-se às lembranças realmente as traga à superfície com mais
facilidade, onde elas poderão começar a ser tratadas de modo construtivo.

O propósito de se trazer de volta lembranças do passado é triplo: remover a negação, recuperar o eu e


avançar em direção à mudança real. A negação é uma afronta contra Deus. Ela pressupõe que uma falsa realidade é
melhor que a verdade. Afirma que Deus não é nem bom nem forte o suficiente para ajudar durante o processo de
recuperação. A conclusão é que a escolha por encarar as lembranças do passado é optar por uma vida sem mentiras.

Em segundo lugar, somos feitos em grande parte de nosso passado, assim como de nosso presente e das
esperanças do futuro. Livrar-se do passado é como apagar parte de nossa história, nossa jornada, nosso eu. A busca
do passado envolve a coragem de sermos tudo o que somos de forma que possamos ser tudo o que seremos em nossos
relacionamentos com os outros.

Finalmente, encarar o passado nos habilita a ver o presente de modo mais claro. O passado se liga ao
presente como um obstinado crustáceo se liga a um barco, um obstáculo invisível que diminui a velocidade de um
navio. Encarar o passado dá à vítima uma sensação legítima de controle. Nada ficou escondido de modo que possa vir
à tona num momento inesperado. Nada está à espreita, aguardando o momento de expô-la como a patinha feia, a
mulher maculada que ela teme ser.

Qual o nível de recuperação necessário para que a cura aconteça?

Esta pergunta se assemelha a uma que fiz quando era um crente novo: Qual é o nível mínimo de obediência
necessário para ser um cristão? Ainda posso me embebedar? Tenho que ir à igreja? Testemunhar? Contribuir? A
pergunta não tem resposta, pois se baseia numa premissa falsa.

Do mesmo modo, a pergunta quanto à quantidade de lembranças que devem ser recuperadas se baseia na
premissa que a mudança é o resultado de se fazer a coisa certa, ou pelo menos o mais perto possível do que seja certo.
Contudo, a mudança profunda é um subproduto do arrependimento - neste caso, sair do denso nevoeiro da dúvida de
que isto poderia ter acontecido comigo, ou da incredulidade de que meu pai, meu irmão ou meu vizinho não poderiam
ser tão maus a ponto de terem abusado de mim4.

Mas uma preocupação legítima continua presente: Quando o "suficiente" é realmente suficiente? Há duas
respostas. Primeiro, o processo de recuperar lembranças é um esforço para a vida toda5. Deus não requer de nós
crescimento a todo instante. Um americano médio consome cerca de doze a catorze toneladas de alimentos em toda
sua vida. Imagine o horror de ser instruído a comer as doze toneladas de uma vez, numa única refeição. Do mesmo
modo, o crescimento é reservado a um período, a um tempo determinado.

Nossa parte no processo é estarmos preparados; a parte de Deus é orquestrar o processo de acordo com
nossa personalidade, nossas necessidades e seus bons propósitos. Como conseqüência, Deus vai graciosamente trazer
de volta as lembranças em seu próprio tempo, de acordo com seus propósitos soberanos.

Em segundo lugar, as memórias voltam em geral vagarosa e progressivamente através de um evento ou

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experiência maior que, de modo inconciente, serve de base para a profunda vergonha. O progresso se dá na direção
daquilo que eu chamei de "carta na manga". A lembrança do tipo "carta na manga" normalmente é a experiência que
envolve violência que fere a alma, ou excitação ou ganho, que serve para provar que o abuso foi real, desejado ou
apreciado.

Uma mulher lembrava-se vagamente de suas diversas experiências de abuso. Ela estava bastante consciente
de que muitas lembranças eram confusas e sentia que haviam acontecido mais coisas do que ela era capaz de se
lembrar. Tinha sonhos horríveis todas as vezes em que se lembrava da porta que dava para o porão de uma velha casa
de fazenda. Ela não conseguia se lembrar do que acontecia por trás daquela porta, mas sabia que era algo
profundamente perturbador.

Nosso trabalho a ajudou a lembrar-se de um grande número de experiências terríveis, mas cada passo
adiante era anulado por um sentimento doentio de que mais coisas precisavam ser encaradas. Finalmente, a cena por
detrás da porta se tornou uma horrível realidade. Foi uma experiência medonha de barbarismo, envolvendo estupro,
bestialidade e tortura. Creio que a lembrança retornou depois de sua alma ter experimentado suficiente mudança para
garantir a confiança inconsciente de que ela não seria destruída por sua memória.
Quanto é o suficiente? De modo geral, a resposta é o quanto Deus quer que vejamos. Nossa função é encarar qualquer
coisa que nos ajude a amar melhor aquele a quem fomos chamados a servir.

Que esforço deve ser feito para recuperar lembranças vagas ou escondidas?

A resposta é simples: esteja aberto, mas não seja exigente; seja curioso, mas não bisbilhoteiro; esteja
vigilante, mas não seja obsessivo. O princípio é muito semelhante ao de se tentar lembrar do nome de um amigo da
escola. Quanto mais você se esforça, maior é a perda de memória. O nome só aparece quando você está concentrado
em outra atividade sem qualquer relação com aquela6.

A escolha de uma atitude aberta é melhor expressa pelo salmista:

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim
algum caminho mau, c guia-me pelo caminho eterno.
Sl 139:23-24

Abertura é algo semelhante a um mendigo cujas mãos estão erguidas humildemente, faminto e ansioso.
Abertura não é meramente um estado de receptividade passiva, expressa na atitude de dizer: "Bem, estou aberto. Se
Deus quer que eu veja alguma, então ele pode deixar isso cair no meu colo". Abertura também não é uma atitude de
exigência. Abertura é a vontade de saber aliada à humildade de esperar. É um pré-requisito para a recuperação de
lembranças, mesmo quando se diz que elas são indesejadas.

Trabalhei com um número incontável de homens e mulheres que diziam que suas lembranças pareciam ter
vida própria: elas têm seus caprichos e controlam o mundo. O fato é que nenhuma lembrança retornaria por vontade
própria, sem um estímulo em qualquer nível.

A despeito da inevitável ambivalência da vítima sobre a recuperação de lembranças dolorosas, o retorno de


quaisquer lembranças do passado é fruto de um desejo de lidar com o passado. Contudo, a abertura que dá início ao
processo de recuperação não pode ser controlada por um ato puro e simples da vontade. Não é comum que as
lembranças venham no meio de uma oração na qual pedimos a Deus que sonde nosso coração. Os caminhos de Deus
são muito mais autônomos e misteriosos do que um simples interruptor que liga ou desliga.

A curiosidade é semelhante à exploração que as crianças pequenas fazem. Elas descobrem seu caminho na
vida cheirando, provando e tocando seu mundo, de modo a aprender sobre seu lugar no universo. Um pessoa curiosa
pergunta e pondera, sem ficar colocando cada coisa dentro de uma caixinha própria. A pessoa que sofreu abuso deve
desejar ouvir, refletir e ponderar sobre as informações de sua vida. O processo não é semelhante a vasculhar sua bolsa
atrás das chaves de casa; ao invés disso, é a percepção e o toque progressivo em seu mundo interior e exterior à
medida que aprende qual é seu lugar no universo.

A vigilância é similar à maneira alerta como uma mãe anda com seu filho por uma rua movimentada. A
mãe não está tão concentrada na criança de modo a perder a atenção no trânsito e nem tão atenta aos carros de modo a
esquecer de seu filho. A vigilância é um conjunto de procedimentos da mente que envolvem preparação ("Estou
pronta a agir independente do que aconteça") e antecipação ("estou procurando por algo que possa acontecer"). A
obsessão distorce a percepção e impede o retorno de lembranças do passado. Ela também pode produzir falsas
lembranças. A abertura destranca a porta, a curiosidade abre a porta e a vigilância espera por aquilo que vai entrar.

Encarar com honestidade o dano interno pode ser resumido como o ato de encarar o horror de ser uma
vítima. A vitimização, quando encarada de modo correto, direciona o foco para o dano externo.

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Os danos externos

O dano externo causado pelo abuso sexual revela tanto o assalto à dignidade da vítima (vitimização) como a
depravação autoprotetora do agressor (ação). Muitos profissionais cristãos argumentam que os comportamentos de
"contenda" ou "sobrevivência" que uma pessoa assume na vida adulta para lidar com o abuso do passado devem ser
"honrados" e não expostos como algo pecaminoso ou não legítimo. Não havia outra opção para a jovem vítima senão
sobreviver, o que faz com que ela não precise avaliar tão severamente seu comportamento atual. O mais importante é
encarar a ineficiência de seu comportamento de sobrevivência e, em seu próprio tempo e espaço, começar a
experimentar a atitude nova e mais positiva de confiar.

O argumento faz sentido e parece adequado. Mas existe uma falha: pecado é pecado. Uma criança encontra
um jeito de se esconder ou se proteger da destruição que o fato de se tornar uma vítima traz, e, por isso, seu
comportamento "contencioso" não deve ser julgado. Mas, ao se tornar adulta, se ela permitir que estes
comportamentos persistam de modo a afastar-se do relacionamento com aqueles a quem ela deveria amar, então ela
não estará mais simplesmente "lutando" de um modo legítimo. Ela está violando os mais altos mandamentos de Deus.
Pecado negado ou ignorado inflama como uma ferida não tratada. Ele drena a alegria da alma e afasta o pecador do
alívio. Como compensação, a alma requer mais energia para manter suas atividades, ao passo em que ignora a cres-
cente infecção.

O apelo à compreensão, se satisfeito, nunca é tão doce quanto a graça oferecida em resposta àquele que
clama por perdão. Entretanto, seria um grave erro admitir que o desejo de "ser compreendido" não é legítimo. A
vítima de abuso que está empenhada em crescer será incapaz de alterar rapidamente seu padrão atual de autoproteção
se não tiver começado a encarar os danos internos. Ela tropeçará aqui e ali em sua caminhada rumo à maturidade. Ela
não precisa de um "amigo" que bata constantemente na mesma tecla quanto a seu estilo de relacionamento ou que
aponte sua distância protetora.

Uma sobrevivente de abuso sexual contou-me sobre seu marido que participara de meu seminário sobre
abuso sexual. Ela tristemente disse: "Agora que ele adquiriu um pouquinho mais de conhecimento sobre o assunto,
vai achar que deve ser minha consciência, apontando todos as minhas falhas". Nada poderia me deixar mais triste do
que pensar que meus ensinos poderiam estar colocando mais sal sobre o coração ferido. Arrependimento e perdão são
os pináculos da jornada, mas um viajante cansado não pode continuar sem um copo de água - a compreensão presente
nos corações daqueles a quem ela ama.

À medida que ela se aproxima de seu objetivo, com o apoio cuidadoso dos amigos, a honestidade requer
que a vítima reconheça seus danos internos e encare a forma, função e falhas do seu atual estilo de relacionamento
autoprotetor, fruto do abuso ocorrido no passado.

A forma da autoproteção é encontrada num estilo de relacionamento específico - como na Boa Menina, na
Menina Difícil e na Menina Festeira. Como já dito anteriormente, ninguém se encaixa em apenas um estilo todo o
tempo, sempre. É muito mais importante perguntar "Quando e com quem eu me comporto como uma Boa Menina,
uma Menina Difícil ou uma Menina Festeira? Quando ou em que pontos de minha vida eu emudeci, dei de ombros ou
seduzi uma vítima despreparada?"

Honestidade quanto à forma de autoproteção também ajuda a vítima a ver as pequenas escolhas da vida de
um ponto de vista privilegiado. Por exemplo: a escolha de uma mulher solteira de nunca comprar uma lingerie
sensual é a demonstração de um rigoroso controle financeiro ou a recusa de se sentir viva como mulher? A opção por
não dizer ao marido "atenda o telefone!" é uma escolha em servi-lo ou a distância no envolvimento baseada no medo?

É praticamente impossível responder de modo correto estas perguntas sem ter uma perspectiva mais ampla
do estilo de relacionamento de alguém. Mas, uma vez que esta perspectiva esteja presente, a vítima poderá encarar os
detalhes de seu estilo de relacionamento e com isso obter crescimento e sabedoria.

A função da autoproteção deve ser vista à luz tanto da dignidade quanto da corrupção. A vítima que, aos
nove anos, aprendeu a se desligar do abuso fixando os olhos num ponto na parede não deve ser repreendida com um
resmungo e palavras ríspidas, dizendo-se que sua escolha foi autoprotetora e errada. Eu reafirmo sua opção por
sobreviver. Fico orgulhoso em saber que ela encontrou um jeito de minimizar o dano e sobreviver até o dia seguinte.

Contudo, a honestidade faz com que se reconheça que adaptar seu comportamento de criança na fase adulta
é o resultado de sua corrupção, não de sua dignidade. Quando ela protege a si mesma em seus relacionamentos de
adulta através do desligamento, desprezo ou afastamento de uma conexão entre ela e outra pessoa que possa aumentar
o potencial de um intenso prazer (e, portanto, vulnerabilidade), ela faz mais do que simplesmente garantir sua própria
sobrevivência. Ela peca contra a pessoa e dispensa Deus do direito que tem de usá-la como instrumento de amor e
graça para o mundo.

É no momento em que um coração redimido enfrenta com determinação sua opção pela autonomia e
rebeldia que as mudanças começam a acontecer, ainda que sutilmente. Não é fácil para uma Boa Menina, por
exemplo, ter um encontro com alguém, uma vez que seu padrão de relacionamento visa sua própria satisfação.

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Abrir as portas do padrão de comportamento autoprotetor naturalmente expõe suas falhas. A honestidade
faz com que entremos no salão cheio de mofo da morte. Ninguém gosta de ir a uma velório e muito menos passear
num necrotério. Então por que é melhor ir à casa onde há luto do que àquela em que há festa? A resposta é que na
casa onde há luto todas as pretensões são desfeitas e nos deparamos com o real propósito da vida. Encarar a falha da
autoproteção é entrar no arrependimento, na tristeza e na vergonha de nossa tentativa de acender nosso próprio fogo.
É reconhecer que o resultado de um estilo de vida autoprotetor é "cair em tormento" e lamentar a perda daquilo que
deveria ter sido, assim como o desastre que foi. A honestidade vai forçar a vítima a encarar o fato de que não teve
infância, nem um mundo carinhoso e seguro. Ao mesmo tempo, vai expor os meios de autoproteção usados na fase
adulta para minimizar sua dor do passado, bem como apresentar saídas para seu coração faminto e enraivecido.

Conversei com uma mulher que não podia suportar o fato de ser odiada por seus três filhos. Ela tinha sido
uma terrível Menina Difícil que havia coagido e afastado seus filhos devido a suas atitudes egoístas. Ela conseguia
perceber que era arrogante, mal-humorada e solitária, mas não era capaz de encarar o fato doloroso de que não
poderia recuperar os anos perdidos ou reatar as relações com seus filhos através de atos de bondade. Ela odiava a si
mesma e ao agressor, responsável pela dureza e frieza presentes em sua alma. Ela odiava sua falha em redimir seus
relacionamentos e não admitiria seu desamparo om face do dano que ela mesma havia perpetrado. É possível odiar-se
por uma falha (autocrítica) sem nem mesmo encarar as consequências, a vergonha e a tristeza do pecado (convicção).

O processo da honestidade

O que estará envolvido no processo de decisão de encarar humilde e corajosamente os resultados internos e
externos de um passado de abuso? A resposta chega perto daquilo que a maioria dos leitores deve estar aguardando
desde a primeira página da introdução: um guia que explique o que fazer. Infelizmente, até mesmo este guia para a
honestidade carece de uma fórmula do tipo passo a passo. Entretanto, eu realmente creio que seja possível traçar
algumas linhas mestras quanto àquilo que deve ser seguido, ainda que os passos específicos não estejam claros. O
processo envolve abertura, preparação da bomba, ouvir as informações e estabelecer conexões lógicas a partir dos
dados.

Abertura

A abertura está presente sempre quando as lembranças da vítima retornam e ela reconhece a existência de
um abuso sexual. Para a maioria das pessoas, a irrupção do passado não se parece com a escolha de um coração
aberto e ansioso. Parece que simplesmente aconteceu. Entretanto, a verdade sobre a escolha por se encarar o passado
é a resposta à calma direção do Espírito. A vítima se sente empurrada, cutucada, senão pressionada a encarar o abuso
do passado. As lembranças exigem uma resposta. Até certo ponto, essa resposta deve envolver uma escolha
consciente de reconhecer a veracidade das lembranças ou da percepção do abuso.

Uma segunda escolha deve ser feita para se lidar com o abuso. E esperado que haja ambivalência mas, caso
ela domine o processo, o alvo da mudança será perdido. Um ponto de decisão muito importante é alcançado quando
um homem ou uma mulher disser: "Sinto-me trêmulo ao passar por áreas de minha vida que parecem mortas e
doloridas ao mesmo tempo, mas sei que não posso continuar vivendo desta forma. Quero lidar com o abuso". A
abertura, enquanto um desejo articulado, não deve ser exigida nem forçada. Ela ocorrerá à medida que a pessoa
caminhe da negação para a esperança. Pode-se retardar um parto por alguns momentos, mas não é prudente acelerar o
processo antes da hora certa.

Preparando a bomba

As velhas bombas manuais usadas em poços caseiros precisavam ser preparadas antes de se tirar a água. O
processo de preparação da bomba é algo ativo e tem um propósito. A água não jorrará com pressão se nenhum
esforço for feito. De modo similar, a honestidade não trará benefícios a não ser que seja ativa e tenha um propósito.

"Preparar a bomba" envolve as disciplinas espirituais de orar, jejuar e ler a Bíblia. A oração expressa o
profundo desejo de um relacionamento íntimo com Deus; o jejum expõe à alma seu vazio e a futilidade temporal de
toda satisfação terrena; a palavra de Deus alimenta e satisfaz sua alma de um modo como nenhum outro pão é capaz
de fazer.

A busca da honestidade sem uma abertura ativa vai colocar o coração num caminho que até pode evocar
uma reflexão honesta, mas não vai levá-lo às profundas questões do eu. Não é meu propósito descrever como se
trabalha cada uma destas disciplinas, mas sim identificar os benefícios da verdadeira honestidade em face do abuso
sexual.

Oração

Em uma palavra: oração é conversa - uma interação entre o humano e o divino através da qual temos
oportunidade de nos chegarmos a Deus como um filho ou filha cuja presença é bem-vinda e desejada. A oração parte
da premissa de que o Deus infinito e onisciente conhece cada pensamento de nosso coração antes mesmo de ser
concebido ou expresso em palavras. A oração não informa Deus; ao contrário, ela nos leva à sua presença e o convida

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a entrar em nossa vida.

Oração é envolvimento através de palavras ditas. Neste sentido, a oração de qualquer tipo e sobre qualquer
assunto alegra o coração de Deus. O Senhor deseja que o queiramos, que o adoremos, que lhe sejamos gratos, que
precisemos dele e que o amemos. Pedir a Deus que revele, confirme, instrua, guie, cure, abençoe, convença ou
conforte é convidá-lo a fazer parte de nosso dia-a-dia e a cumprir o que ele deseja. A oração abre a porta que mostra a
angústia, tristeza e fome de nossa alma, as quais muitas vezes não reconhecemos.

Sempre recomendo às vítimas de abuso sexual que iniciem seu momento de oração em voz alta, andando
em lugares tranqüilos onde a conversa não pode ser nem ouvida nem interrompida por outros. A oração deve ser uma
expressão honesta daquilo que a pessoa está sentindo, pensando ou desejando em seu relacionamento com Deus e
com os demais. É um convite ao Espírito Santo para que ele traga à mente tudo aquilo que deve ser conhecido, seja
qual for a maneira pela qual ele deseje fazer isso. É o convite para refazer um relacionamento que frequentemente
tem sido ignorado ou evitado - aberta ou sutilmente - por anos. É o reconhecimento de um ardente desejo por um
relacionamento mais próximo com Deus7.

Jejum

Jejum é a opção por deixar de lado, por algum tempo, a satisfação legítima para concentrar-se numa busca
espiritual mais intensa. Não é uma mera abstinência de prazer, apesar de que essa falta desenvolve uma consciência
de nossa dependência nociva da satisfação temporal. Não é simplesmente um exercício de autocontrole, ainda que ele
solidifique nossa resolução em buscar algo maior que o conforto. Jejuar é expressar nossa única intenção de buscar
um conhecimento mais profundo de Deus.

Freqüentemente encorajo as vítimas de abuso sexual a separarem um período no mês em que possam
combinar jejum e um profundo silêncio, retirando-se para um lugar tranqüilo onde tenham a oportunidade de ler,
escrever ou simplesmente meditar. O jejum abre o apetite da alma que tão freqüentemente é satisfeito pelos caprichos
do mundo. O jejum inicia o processo de remoção dessa falsa satisfação.

Leitura Bíblica

Enquanto a oração convida à exposição do problema e o jejum intensifica o desejo, o estudo da Bíblia
expõe, desperta e finalmente satisfaz o coração levando-o à mente de Deus. As Escrituras orientam o coração a fazer
as perguntas que constituem a grande preocupação de Deus. Depois da Queda, ele perguntou a Adão: "Onde estás,
Adão?". Mais tarde, o Senhor também perguntou a Caim: "Por que descaiu o teu semblante?". Em ambos os casos
Deus procurava a questão central que havia rompido o relacionamento de seus filhos entre si e com ele. No caso de
Adão, foi a vergonha; no de Caim, a raiva. A palavra de Deus discerne os pensamentos e os propósitos de nosso
coração (Hb 4:12-13).

Estabelecendo conexões lógicas a partir dos dados

Ouvir as informações que nos chegam através da oração, do jejum e do estudo da Bíblia implica atenção e
meditação. Aprender é um processo - lento, às vezes torturante, uma junção peça a peça daquilo que é preciso saber.
Uma mulher com a qual trabalhei contou-me três flashes de lembranças: seu pai em pé diante dela, nu; ela própria
sentada desconfortavelmente em seu colo, e brincadeiras brutas com ele e com suas irmãs. As lembranças demoraram
muito a voltar.

Com o passar das semanas, ela finalmente entendeu a conexão entre as três lembranças distintas, apesar de
não conseguir se lembrar de um evento em especial. Percebeu que era forçada a sentar no colo de seu pai quando ele
estava nu e, então, ele fazia brincadeiras violentas. Ela não se lembra de haver ocorrido um contato real, mas o
comportamento totalmente impróprio e altamente sugestivo de seu pai deve ser considerado uma interação sexual
abusiva.

Foi ponderando, escrevendo um diário e conversando com um conselheiro e com amigos em quem confiava
que as portas se abriram para os dados fundamentais ao seu processo de mudança.

Ponderação

Ponderar é um processo semelhante ao dos animais ruminantes. A absorção lenta e detalhada dos fatos
transforma grama na matéria-prima que no final vai produzir leite. Ponderar sobre um evento - através das
lembranças quanto a que roupa você estava usando, o que estava fazendo, o que disse, como lidou com a interação, o
que aconteceu depois que o evento acabou - abre a mente para detalhes que geralmente são os centrais para a
compreensão dos danos internos e externos do abuso.

Uma mulher trouxe-me um álbum de fotografias tiradas durante sua infância. Seu rosto era doce e gentil
numa foto, e fechado e distante na outra. O que transparecia entre as duas fotos era um estupro executado por um
professor da pré-escola. Ela pegou as duas fotos e ponderou sobre as duas expressões, as duas meninas tão diferentes.

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Surgiram poderosas e esclarecedoras lembranças. Elas ajudaram-na a ver os padrões do passado e expuseram o
caminho para o presente. Ela era uma Boa Menina indiferente, amável, mas distante. Quanto mais ela ponderava
sobre as fotos, mas conexões fazia com seus padrões de autoproteção na relação com seus amigos, conselheiros e
marido. A ponderação encara uma lembrança através de diversas perspectivas com o objetivo de entender seu
significado.

Diário

Pesquisas e experiências têm demonstrado que o ato de escrever - colocar os fatos e sentimentos relativos a
um evento em palavras escritas - solidifica a experiência e faz com que ela seja mais real. Lembro-me de sentar
diante de meu computador depois de ter encarado o fato de que havia sofrido abuso, e escrever a mesma sentença
várias e várias vezes: "Eu sofri abuso e isto me perturba". Eu me sentia entorpecido e ao mesmo tempo extremamente
vivo. As palavras eram uma testemunha que eu podia eliminar, mas elas me encaravam com uma evidência tal que
não podia negá-las.

Muito tem sido escrito quanto à forma de se fazer um diário e sobre quais assuntos devem ser abordados.
Minha única sugestão é começar. É melhor rabiscar palavras incoerentes no papel do que tentar girar as engrenagens
de seu cérebro em ciclos de confusão sem fim. Descobri que a autodisciplina de escrever termina forçando-me a
colocar no papel a essência de minha dificuldade, pois quando apenas me sento e me isolo mentalmente passo
infinitas vezes sobre o mesmo ponto até que desisto em meio à frustração e enfado, resolvendo nada ou aprendendo
pouco.

Conversar com outras pessoas

Conversar com parceiros de viagem é uma das melhores formas de avaliar qual caminho tomar e o que
procurar. Conversar com outros pode ser um bom substituto para a reflexão solitária, oração e orientações dadas pelo
Espírito Santo, mas mesmo com os benefícios do Espírito e os meios da disciplina espiritual, não devemos lidar com
nossa dor sozinhos. Se devemos aprender, então precisamos falar com outros seres humanos.

Conversar exige honestidade e correr riscos à medida que expomos o passado, nossa vergonha e nosso
pecado. Creio que as questões do abuso nunca devem ser tratadas em isolamento. É muito bom encontrarmos pelo
menos uma pessoa com a qual possamos conversar sobre o passado, as lembranças, nossas feridas internas e os
padrões de autoproteção do presente. Na maioria dos casos, recomendo o envolvimento com um grupo de
companheiros de viagem que esteja caminhando rumo ao mesmo objetivo: maturidade. Em grupo, as defesas e
feridas podem ser tratadas em um ambiente de segurança, com pessoas cujos pensamentos e experiências são
similares. Conversar é um modo singular de levantar o passado, expor o presente e abrir as portas para a possibilidade
de mudanças.

Recomendo que você ataque em todas as direções, orando e ponderando, até que encontre uma pessoa que
não aja como um juiz, não espere mudanças rápidas, nem seja condescendente e esteja preocupado apenas com o fato
de você ser uma vítima. Confiança é uma coisa que não se deve dar nem esperar muito rapidamente; portanto, ouça
sua intuição, seu pressentimento quanto à capacidade da pessoa e o desejo dela de ouvir.

A honestidade abre as portas do coração. A abertura é essencial se o passado precisa ser recuperado. O
desejo de buscar a Deus é essencial se for preciso usar as informações de um modo que produza frutos. Se a
honestidade abre a porta, então o arrependimento convida Deus a fazer mudanças dramáticas.

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CAPÍTULO 12

Arrependimento
O processo de mudança inicia com a honestidade, que é uma forma de arrependimento. Arrependimento
equivale a um movimento de 180°, em que saímos da negação e da rebelião para a verdade e a rendição - da vida para
a morte.

É normal que, no começo, o fato de encarar honestamente as mentiras características e a negação associada
ao abuso sexual intensifique a experiência de vitimização. Pela primeira vez, o retorno de lembranças elimina a a
aparência de uma infância feliz ou de uma família amorosa. Não somente o agressor é visto como alguém perverso,
mas outros membros da família são vistos como cúmplices por sua negação ou minimização do dano causado. E
freqüente que a vítima perceba que os mesmos padrões que permitiram que o abuso ocorresse e que não foram
tratados continuam ativos em sua vida hoje. Tornar-se vítima não é um evento restrito ao passado: na maioria dos
casos, é um processo ativo e diário.

O resgate de horríveis lembranças, a exposição do passado e da traição atual, o reconhecimento do dano


interno, a constatação de padrões atuais destrutivos de autoproteção - tudo isto é muito difícil de suportar. Felizmente,
o processo de absorção das informações é lento e progressivo, ao invés de súbito e conclusivo. Mas, por outro lado, é
também tumultuado e produz rupturas. É impossível dizer a uma vítima de abuso sexual como será o processo, mas
um caminho genérico, experimentado por muitos, pode servir como guia.

Primeiramente, o processo de honestidade abre as portas para um reconhecimento atordoante. O primeiro


choque é semelhante a um choque físico. A realidade é vista, mas em câmera lenta. O observador vê a horrível
verdade, quadro a quadro, como uma conhecida mas distante lembrança. É comum que lembranças distantes e irreais
retornem em meio a uma decepção num relacionamento. Um aniversário esquecido ou a inabilidade de receber um
elogio balançam as estruturas das estratégias atuais de relacionamento. A fantasia de que o passado é passado e o
presente é satisfatório começa a ruir em face da carência e do descontentamento aprofundados.

O desapontamento freqüentemente se transforma em raiva. Raiva por causa da hipocrisia da família, por
causa da ilusão de uma boa vida, por causa das falhas daqueles que diziam amar, mas pareciam adorar apenas a
imagem de serem amados. A raiva é a deterioração da alma no momento em que ela desperta totalmente do pesadelo
da mentira.

A raiva pode ser dirigida primeira e principalmente para o eu. A autocrítica introduzida pelo abuso passado
pode vir à superfície com a vingança, ainda que a vítima direcione um pouco da raiva ao agressor, à família, aos
amigos e ao cônjuge. Pelo fato de a raiva estar presente, o processo de santificação vai incluir a ação de encarar sua
intensidade feroz. O crescimento nunca abre espaço para o fingimento. Entretanto, recu-perar-se da raiva - e isto deve
ser dito com todas as letras - não é cura.

Encarar a raiva de alguém pode parecer bom, algo que liberta, até mesmo energético, mas simplesmente
sentir raiva não é maturidade. Não importa o quanto a alma se sinta viva durante o processo de lembrança da raiva
anterior, o ódio não satisfaz a alma nem cura suas feridas. Na maioria dos casos, o ódio vai apenas levar a um
desespero mais profundo.

O desespero, um vazio fatalista, é a oscilação do pêndulo entre a honestidade e uma segunda etapa de
decepção. A pergunta que surge - neste ponto muito mais profunda do que na primeira etapa - é "Qual o propósito em
lidar com minha realidade, ou com Deus, com minha dor ou com aqueles que me prejudicaram, ou até com meu
pecado?".

Uma vez que o vazio supera a experiência inicial de desapontamento e raiva, a vítima deve enfrentar uma
encruzilhada ainda maior. O caminho escolhido leva ou a uma negação ainda maior e a atitudes falsas, ou leva a uma
profunda mudança através do arrependimento. Se a honestidade é a primeira etapa de um processo de cura que é
vivenciado com choque, dor e raiva, então o arrependimento é a segunda fase na qual se entra através da tristeza,
lamentação e da contrição.

A contrição altera o dano do passado e do presente. O processo de lamentar sinceramente o dano causado
pelo abuso e a reação desencadeada integra o passado ao presente sem trazer junto o fardo da severidade e da
vingança. A contrição inicia o processo de extinção do ódio dirigido aos outros, já endurecido no coração.
Nem todo choro é restaurador ou mostra arrependimento. A lamentação pode permitir um reconhecimento mais pro-
fundo da dor do passado e restaurar o senso de plenitude; mas ela pode igualmente fortalecer a resolução de nunca
mais ser ferido novamente.

A contrição pode levar a dois caminhos completamente opostos: o caminho da contrição para a vida e o da
contrição para a morte. Um caminho implica reaver as partes perdidas da alma com o propósito de clamar a Deus
humildemente e com todo nosso ser por graça e força para viver uma vida de glorificação a Deus e de amparo ao

100
próximo.

O segundo caminho implica a recuperação de partes perdidas de nossa alma com o propósito de
desenvolver uma ação contra o agressor, contra o mundo falso e, em última instância, contra Deus, que não interveio
- uma ação que apóia nosso direito de viver independente de um mundo cruel e que nos desaponta e também de Deus,
cujo reino eterno vai substituir o mundo atual. O contraste entre os dois caminhos da contrição é definido pelo
contraste entre arrependimento e penitência.

O que é arrependimento?

Antes de definir arrependimento, permitam-me destacar dois pontos importantes. Primeiro, Deus nunca
chama a vítima a se arrepender cio abuso que sofreu. Muitas vítimas se angustiam perante Deus, clamando por
perdão por aquilo que aconteceu ou pelo que experimentaram - que de forma alguma foi sua culpa.

Segundo, o arrependimento é uma experiência surpreendente e totalmente inesperada que poucas vezes, se
não nunca, é uma simples escolha ou vontade de fazer o certo ao invés do errado. O arrependimento é pouco
entendido e raramente vivenciado. Não é necessariamente uma transformação para aqueles que em geral fazem o que
é certo. Por esta razão, é necessário esclarecer o que é e o que não é arrependimento.

Arrependimento é uma mudança interna em nossa percepção da fonte de vida. É o reconhecimento de que
nossos meios auto-protetores para evitar que sejamos feridos não nos têm proporcionado um viver real (entregar-se
despreocupadamente a Deus é o que leva a uma sensação de plenitude e alegria) nem a relacionamentos poderosos e
cheios de significado. Arrependimento é o processo de profundo reconhecimento de que somos chamados a amar, o
que é violado a todo momento, em cada relacionamento - uma lei que se aplica inclusive àqueles que sofreram abuso.

A lei do amor elimina desculpas. A dor do abuso passado não justifica a autoproteção do presente. O dano
que a vítima causa aos outros por sua falha em não amar a Deus e ao próximo de todo seu ser merece julgamento - ou
seja, a justa penalidade da morte e da separação de Deus.

O peso do requisito divino por um amor incondicional e perfeito é mais do que qualquer pessoa, exceto
Jesus Cristo, pode suportar. O amor silencia as explicações, ultrapassa as desculpas e torna o coração humilde,
preparando-o para ser capturado pelo Evangelho da graça. Em resumo, arrependimento é um ansiado retorno a Deus.

Uma das maiores cenas de arrependimento encontra-se na história do filho pródigo (Lc 15:11-32), na qual
são destacados vários pontos do processo de volta ao lar. Primeiramente, o arrependimento começa no estômago. O
retorno a Deus, o Pai, começa com o reconhecimento de que o pecado é degradante. Ao ser jogado num chiqueiro, o
filho rebelde teve de encarar o fato de que comer a comida dada aos porcos era algo que estava aquém de um hebreu,
que nem comeria carne de porco, quanto mais ser lançado na lama de uma pocilga.

Viver do jeito que ele vivia, independente de seu pai, era indecoroso e desagradável. Em certo sentido, o
arrependimento começa com o reconhecimento (que pode até parecer egoísta) de que "eu estou com fome e há algo
de certo em querer mais e melhor. Fui criado para comer a comida servida aos filhos do Rei, ainda que eu a tenha
recusado".

Arrependimento freqüentemente começa com uma insatisfação. O filho pródigo admitiu que até mesmo os
empregados mais simples da casa de seu pai comiam melhor que ele, e seria burrice não voltar para lá. É preciso
muita humildade para chegar ao ponto de admitir o que é verdade: "Estou comendo lixo. Outros são felizes; eu não
sou feliz. Não vou ficar aqui. Prefiro me arriscar a passar uma enorme vergonha, encarar a rejeição de meu pai e
assumir a posição mais inferior entre os criados da casa, a ficar aqui no meio deste esterco".

É necessário o quebrantamento da alma para admitir a verdade. Às vezes a humildade começa com a
constatação de que nossos esforços em fazer a vida melhorar nos levaram a um chiqueiro. E, pior: nada do que
fizemos é desculpável. Gozar de nossa herança prematuramente não é apenas estupidez, mas reflete nosso empenho
pecaminoso de preservar nossa própria vida.

Preste atenção na reação do pai do filho pródigo quando este volta para casa. Ele chora, restaura e celebra.
O pai é um tolo, pelo menos aos olhos do filho mais velho e com certeza aos olhos da comunidade. Provavelmente o
pai já havia experimentado vergonha e teria sido ridicularizado por ter deixado seu filho mais novo sair de casa com
parte da riqueza da família. Deve ter sofrido pressões tanto para dar as costas a seu filho quanto para exigir pelo
menos um período de penitência de seu caçula antes que lhe fosse permitido voltar à mesa da família. Ao invés disso,
o pai deu uma festa, uma manifestação pública de restauração dos direitos e privilégios do filho errante. O pai nem
mesmo deu ouvidos à ladainha de arrependimento que o filho havia preparado antes de chegar à presença de seu pai.
O arrependimento se encontrou com total restauração e festa.

O contraste a esta reação de vida é a reação de morte exibida pelo filho mais velho. Ele via seu pai como
um mestre de obras exigente que somente se satisfazia com disciplina, obediência e abstinência sacrificial. Culpou
seu pai por nunca lhe ter oferecido uma festa. A reação do pai foi de que o filho poderia ter pedido uma festa a

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qualquer momento, mas nunca se humilhou para pedir.

O mais trágico é que o filho mais velho desprezava seu pai mais do que o mais novo. O pródigo ao menos
confiou no pai da primeira vez em que pediu dinheiro e também no momento da volta, quando o dinheiro acabou. O
filho mais velho não pediu nada e, numa arrogante autojustificação, escolheu evitar a festa para provar que era mais
justo que o pai. Jesus contou esta história para cutucar a presunçosa facção religiosa dos fariseus. Ao fazer isso, ele
destrói nossas falsas suposições quanto àquilo que agrada a Deus.

O que é arrependimento? Apesar da dificuldade em definir, arrependimento envolve uma reação de


humilde carência, envolvimento intenso e grande celebração quando confrontado com a realidade de nosso estado
pecaminoso e a graça de Deus. O Pai quer que sintamos fome e que não estejamos satisfeitos com nosso chiqueiro.
Ele quer que voltemos em absoluta dependência, e que comamos o bezerro cevado.

O arrependimento flui da energia de estarmos chocados, silenciosos e sem qualquer desculpa pelo dano que
causamos a nós mesmos e aos outros, além de termos partido o coração de Deus. Inclui nossa recusa em chafurdar em
qualquer coisa que nos degrade como seres humanos, que destrua a dignidade de qualquer pessoa ou danifique nosso
relacionamento com Deus.

A pessoa que está pronta a voltar a viver deve ter cautela. É correto recusar os métodos defensivos que
entorpecem a alma de modo a suportar a dor. É certo voltar a viver com tudo aquilo que somos, proclamar a plenitude
de nossa existência como homens e mulheres feitos para gozarem dos relacionamentos e do impacto que causam. É
correto abandonar um estilo de vida autoprotetor que vise fazer com que os demais nos considerem. Mas, ao
caminharmos nesta direção, nos aproximamos de uma linha que, se for cruzada, nos levará a um humanitarismo sutil
onde proclamar nossa existência se torna o ponto principal de nossa vida.

O arrependimento bíblico sempre nos direciona no sentido de viver com o claro propósito de ter mais para
dar aos outros, visando seu bem-estar, e a Deus, para sua glória. Sem o compromisso radical de nos dedicarmos
inteiramente ao desejo de cumprir a vontade de Deus para nossas vidas, a recuperação de nossa alma pode fortalecer
nossa tendência à introspecção e nosso desejo de que os outros nos tratem com ternura e respeito.

Ansiar pelo amor do próximo é uma parte bonita de nossa dignidade como seres criados à imagem de Deus,
mas é centrada no reconhecimento de nossa existência de modo tal que o desejo de envolvimento se torne a coisa
mais importante de nossa vida. O ponto principal da vida é dar, não obter. Pela graça de Deus, já recebemos o que
desejamos sem merecer. Agora somos privilegiados por entrar na profunda natureza da realidade definitiva: o
relacionamento centrado no próximo. O arrependimento nos move nessa direção.

Arrependimento versus penitência

Qual a diferença entre o verdadeiro arrependimento e o que poderia ser chamado de "penitência"? O
verdadeiro arrependimento admite a possibilidade de abandono; a penitência baseia-se na habilidade de se fazer
reparos no íntimo de alguém. Arrependimento é a humilde declaração de anseios; penitência é uma egoísta
declaração de arrogância.

A arrogância (e a raiva) da penitência, similar ao orgulho do irmão mais velho do filho pródigo, pressupõe
que o pecado não é tão horrível assim e que, portanto, pode ser resolvido com um comportamento adequado. O pai é
um perverso feitor de escravos que se preocupa apenas com ele mesmo e, portanto, pode ser acalmado com o
cumprimento daquilo que ele desejava anteriormente. Penitência é pagamento; arrependimento é pedido de
misericórdia.

Os efeitos do arrependimento e da penitência são totalmente distintos. O arrependimento suaviza, e a


penitência endurece. O arrependimento cria um desejo de ser humilhado. A pessoa que conhece a alegria de ser
levantado por Deus deseja transformar o riso em pranto c a alegria em tristeza com o objetivo de se humilhar na
presença do Senhor (Tg 4:8-10). Se ela soubesse que abandonar suas atitudes egoístas abre as portas para a vida,
então ela poderia ver as provações dos mais diversos tipos como algo positivo, e não negativo (Rm 5:3-5, Tg 1:2-4).

O arrependimento elimina o terror da vergonha porque sua alma já admitiu que está despojada, desejando
mas não merecendo. Ao ser aceita como pecadora, ela não tem nada a esconder ou temer; portanto, está livre para
amar o próximo sem medo das reações ou da rejeição deles (Lc 7:47). Retornar ao Pai solidifica a esperança na
bondade do Senhor e num porvir de perfeita justiça e união com Deus na eternidade. Ela percebe que nem mesmo a
morte pode destruí-la; não precisa temer sua extinção. Portanto, está livre para viver intensa e apaixonadamente,
porque sabe que qualquer injustiça cometida que venha a impedi-la de amar o próximo será um dia vindicada.

A penitência, por outro lado, aprofunda a inflexibilidade da vítima. Uma vez que ela já tenha pago por seus
pecados, eles devem ser cancelados; portanto ninguém tem o direito de exigir mais dela. Muitos agressores que
admitem seu pecado acham que o passado deveria ser descartado, e a vida vivida apenas no presente. Já ouvi
agressores dizerem: "Eu me arrependi, mas ela não deixa a coisa para lá. O fardo da mudança está sobre ela, não
sobre mim". A prova da penitência é a inflexibilidade (ainda que possa vir acompanhada de lágrimas de

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autocomiseração) que não permite a humilhação advinda do tratamento do dano do passado.

Uma segunda característica do arrependimento é a contrição que vem junto com a paixão, a energia e a
concentração nos outros. O apóstolo Paulo confrontou o pecado dos coríntios e feriu a arrogância deles (2 Co 7:11-
13). Ele estava contristado por ter causado essa dor, mas os desafiava a uma rea-ção de arrependimento. A contrição
piedosa dos coríntios em relação ao próprio pecado produziu maior seriedade, temor, indignação e zelo por justiça.
Eles procuravam mudança na convicção do certo e do errado, não na autocrítica. Crítica (direcionada a outros ou a si
próprio) é a energia que impulsiona a penitência. Ela produz um sentimento de opressão e depreciação que acaba
gerando raiva e ódio assassino. O resultado é uma contrição que não redime, cheia de autocomiseração e desespero.

Por outro lado, a convicção genuína do pecado leva a uma suavização que dissipa a crítica dirigida aos
outros em função do reconhecimento de que, pelo menos na essência, não somos melhores do que aqueles que
praticaram abuso contra nós. A autocrítica exagerada é uma imitação, criada por Satanás, da verdadeira convicção.
A crítica ataca a suposta fonte do problema para ganhar controle e, então, tenta recuperar o relacionamento com Deus
e com os outros através de atos de penitência. A convicção reconhece humildemente a necessidade da graça e abraça
a contrição, que leva à vida e ao amor sacrificial.

A contrição se apresenta na vida como a fusão entre o amargor que surge por partirmos o coração de Deus e
a doce alegria de sermos restaurados a seu convívio. A amarga dor que sentimos por ferir o coração de Deus e o
prazer de nos sentarmos à mesa com ele, bem-vindos e desejados, é sem precedentes. O arrependimento diminui a
vergonha, aumenta a paixão e dá boas-vindas à restauração. A penitência aumenta a crítica, diminui a vida e resiste
ao envolvimento.

O arrependimento e a vítima de abuso sexual

Qual é a aparência do arrependimento para a vítima de abuso sexual? Ele vai implicar um distanciamento
da morte e uma aproximação da vida, em seus aspectos internos e externos. Na verdade é impossível separar
realmente o interno do externo. Todas as verdadeiras mudanças internas vão trazer à luz a clareza, o desejo e a
energia para promover as mudanças externas do comportamento. E todas as verdadeiras mudanças exteriores estarão
revestidas de mudanças substanciais do coração. Contudo, para efeito de compreensão, vamos examinar cada uma
delas em separado.

A mudança interna envolve pelo menos três elementos: (1) a recusa em continuar morto, (2) a recusa em
desconfiar e (3) a recusa em desprezar a paixão. Por fim, cada uma dessas recusas deverá ser alimentada pela
percepção de que a essência da vida está em colocar tudo o que somos a serviço dos outros.

A mudança externa será diferente para cada indivíduo, mas estará caracterizada por uma humildade ativa
diante de Deus, e um profundo empenho em se relacionar com os outros.

As mudanças internas do arrependimento

A recusa em continuar morto

Viver com uma alma morta faz muito sentido para uma vítima de abuso sexual. Parece algo natural e
coerente. Isto anula as revoltas do passado, aquieta os demônios da crítica e simplifica os relacionamentos atuais
através da destruição dos desejos por algo mais.

A mortificação, no entanto, é a escolha por despojar os outros de nossa humanidade, dada por Deus. Ela
desumaniza os relacionamentos, tornando fria e mecânica nossa reação perante os demais. Acima de tudo, c um crime
contra o Deus Criador, que é o autor da vida. Viver como um ser morto diante do Deus vivo é dizer que se prefere a
morte a viver com ele. Em essência, esta opção significa dar as costas ao autor da vida, negar-lhe a oportunidade de
tocar nossas vidas de modo profundo, e de nos usar plenamente de acordo com seus propósitos.

A recusa em continuar morto significa que escolhemos admitir e abraçar nossa existência. "Não sou uma
sombra, um fantasma calado, um vapor sem substância. Sou uma pessoa que pode apreciar e ser apreciada por Deus,
e que pode se relacionar com outros de modo a levá-los a um relacionamento com Deus". E o reconhecimento de que,
assim como no corpo, existem terminações nervosas na alma, e ambas estão funcionando bem. Uma vítima se recusa
a continuar morta quando dá a si mesma a permissão de reconhecer e perceber a realidade tanto do passado quanto do
presente.

Este aspecto do arrependimento - a escolha por estar vivo para o bem dos outros - em muitas instâncias, não
se parece com algo pio e religioso. Na maioria dos casos, ele não se inicia com uma declaração ritualística do tipo:
"Querido Deus, confesso meu pecado de mortificar minha alma". Começa com o simples reconhecimento do fato
("Estou morto") e prossegue à medida que é feita a opção por rejeitar a morte ("Não vou mortificar a mim mesmo
com esta tigela de sorvete"). Ele se inicia com chutes e gritos, semelhante a um recém-nascido, quando Deus usa um
momento dramático (que pode ser tão grande quanto a oportunidade de ter um caso ou tão aparentemente pequeno
como a decisão de comprar um vestido novo) para apresentar a opção de vida ou morte.

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A recusa em permanecer morto inicialmente vai evocar tristeza. Na maioria dos casos, a tristeza é a
experiência do desapontamento com outros ou consigo própria. Uma mulher que se recusa a permanecer morta vai
sentir e desejar - e inevitavelmente vai sofrer o dano. Contudo, quando estiver desapontada não se refugiará em
estratégias de entorpecimento do coração. Ela não procurará defender-se ou desculpar-se por uma chamada telefônica
imprópria. Não culpará a si mesma quando uma troca de gentilezas substituir a mais substancial interação que ela se
permitia desejar. O reconhecimento de que não é sensato nem proveitoso estar morto impulsionará sua alma a encarar
a tristeza, a lamentação e a contrição - e, por fim, a alegria.

Estas três palavras - tristeza, lamentação e contrição -são freqüentemente vistas como sinônimas. Até certo
ponto elas realmente se sobrepõem em significado, mas existem algumas diferenças sutis que ajudam a explicar o
processo de arrependimento.

Resumidamente, tristeza é uma experiência de desapontamento. Em geral, está ligada ao atual sentimento
de perda com relação a esperanças e expectativas não atendidas. Se um amigo se esquece de nosso aniversário,
podemos experimentar sentimentos de tristeza. Os sentimentos normalmente são temporários, porque a perda não é
tão grande e pode ser preenchida facilmente com outras coisas.

Lamentação, por outro lado, é a intensa experiência de tristeza envolvendo a perda de algo profundamente
importante que não pode ser conseguido ou substituído. A morte de um filho ou a perda do cônjuge devido ao
divórcio não pode ser compensada por uma mudança de atividades ou do círculo de amizades.

A contrição aceita a tristeza e a lamentação, mas adiciona um novo valor: reconhecimento do dano causado
a outros. Sentir contrição pelo perigoso impacto causado na vida dos outros significa sentir contrição pela vida. É o
cerne do arrependimento. A contrição bíblica reconhece e vai além da perda do eu, e penetra nas feridas dos outros,
causadas pelo abuso que alguém perpetrou através de comportamentos hostis e defensivos.

A tristeza abre o coração para aquilo que deveria ser e não é. A lamentação abre o coração para aquilo que
não deveria ser e é. A contrição quebranta o coração à medida que expõe o dano que causamos aos outros como o
resultado de nossa falta de disposição em confiar unicamente na graça e verdade de Deus.

Vejamos um exemplo. Muitas vítimas iniciam o processo de arrependimento, sem se dar conta dele, no
momento em que percebem a presença de feridas e tristeza nos relacionamentos atuais. A opção por sofrer
intimamente - em outras palavras, encarar os efeitos de se viver em um mundo caído - cria no coração um desejo por
uma vida melhor. A escolha por se sentir triste não é egoísta nem pecaminosa. Ela abraça aquilo que é verdadeiro,
mas não é suficiente para produzir mudança redentora. A lamentação é o próximo passo.

Muitas vítimas de abuso sexual perderam sua infância e adolescência. Nunca aprenderam a apreciar o que é
ser especial, nem aprenderam a ser amados de modo único e a receber a apreciação de alguém. A percepção de si
próprios foi brutalmente alterada pela experiência da impotência e do desespero. Não importa o quanto eles se
esforcem para substituir as imagens imprecisas do passado por imagens mais bíblicas: a perda da infância, da
inocência e do prazer de uma autoconsciência desprendida não pode ser substituída ou recuperada através de pais
substitutos ou de terapia.

A lamentação não traz de volta o que se perdeu, mas interrompe a tendência de se refugiar no ódio para
solucionar a angústia da perda. A lamentação expõe a inflexibilidade do coração abatido e a substitui pela ternura e
vulnerabilidade.

Perguntei a uma amiga - vítima de abuso que odeia a si mesma por se sentir desconfortável na presença de
pessoas (especialmente homens) - o que ela faria se minha filha de nove anos se afastasse dela: iria atrás dela ou a
ignoraria com desdém? Se visse minha filha chorar, a acusaria por querer atenção ou a tomaria em seus braços
gentilmente até que parasse? Naturalmente, ela disse que iria atrás da menina sem raiva ou desprezo, mas jamais
permitiria a si mesma o desejo de que alguém fosse atrás dela sem sentir desprezo e repulsa de si própria. Seu coração
vivo lamentava a capacidade de ser terna com os outros, mas não consigo mesma. A diferença de tratamento que
dispensa a ela e à minha filha permitiu que ela lamentasse o pecado da crítica pela primeira vez.

O arrependimento envolve admitir que fomos vítimas injustamente privadas da vida. A partir deste ponto,
temos duas rotas completamente diferentes a seguir. O caminho da contrição para a morte encara a lamentação e jura:
"Nunca mais. Tenho direito à vida e nunca mais serei privada de vivê-la". Esta abordagem da lamentação, na verdade,
troca a autocrítica por uma crítica mais profunda aos outros.

O segundo caminho, o da contrição para a vida, parte da lamentação sobre nosso próprio estado de vítima
para o reconhecimento do dano que causamos a outros como resultado de nossa escolha por vivermos mortos e
dormentes. Um caminho bíblico para viver a vida sempre nos afasta da autocrítica e reflete o fundamento da ética
cristã de amar os outros visando o bem deles.

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A recusa em desconfiar

A recusa em continuar morto estabelece o patamar para lidarmos com a recusa em desconfiar. O
arrependimento na área da confiança é algo difícil de explicar. O oposto de desconfiar seria, naturalmente, confiar.
Portanto, pode parecer que isto significa que a vítima de abuso sexual deve confiar naqueles dos quais duvida ou
suspeita atualmente. Nada poderia estar tão longe da verdade. O problema com a desconfiança é que muitas pessoas
não são dignas de receber confiança, ou pelo menos confiança plena. Assim, encorajar uma vítima de abuso a confiar
é o equivalente a pedir-lhe que duvide de sua intuição se exponha a outro abuso.

O oposto de desconfiar não é confiar, mas importar-se. Quando olhamos para uma pessoa com
desconfiança é como se sua vida não mais importasse. Nós a "riscamos da lista". A desconfiança prejulga cada
palavra e ato de modo que eles não podem nunca alcançar nosso coração. Um escudo protetor se forma todas as vezes
que estamos perto delas, e o relacionamento é evitado.

Para rever comentários feitos anteriormente, a construção de barreiras com frequência nos encoraja a
endurecer o coração de modo que o interesse ou a receptividade num relacionamento sejam perdidos. O
arrependimento, ou a recusa em desconfiar, reativa o desejo divino de nos importarmos, sermos bondosos, confortar e
estarmos preocupados com o destino temporal e eterno daqueles que nos feriram.

A recusa em desconfiar, entretanto, não é ingénua nem estúpida. Ela olha as evidências, avalia o passado e
toma decisões sobre a confiança baseadas nas conclusões a que se chegou através de deduções lógicas. O Senhor
Jesus nos manda ser "prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (Mt 10:16).
As evidências podem forçar uma mulher a ver seu esposo como um inimigo, alguém disposto a fazer o mal. Uma Boa
Menina pode começar a analisar as evidências de forma a se sentir compelida a duvidar da palavra de um amigo. Isto
é arrependimento - uma recusa em desconfiar? Eu diria com certeza que sim. Sua insípida e ingénua confiança não é
um compromisso de importar-se: c uma negação com o propósito de aliviar a necessidade de estar totalmente
engajada num relacionamento.

O reconhecimento dos dados que define os outros como indignos de confiança pode ser um renovado
empenho para estar envolvido, para se importar com a verdade, com a alma de um e a falta de integridade de outro. A
confiança é condicional; contudo, importar-se não. Importar-se é usar tudo de nós para o benefício de outros sem
isolar as partes mais internas de nossa alma. Ao não riscarmos as pessoas de nossa lista, estamos terna e fortemente
oferecendo um relacionamento carinhoso e sólido.

Oferecer um relacionamento deve ser visto pelo ponto de vista do coração, não meramente pelo ângulo do
comportamento. Há comportamentos que podem parecer extremamente relacionais sem o serem, bem como outros
comportamentos que parecem distantes e na verdade são profundamente comprometidos com o bem-estar. Ao assar
um bolo para seu agressor uma Boa Menina pode, por exemplo, estar se escondendo atrás de seus dotes culinários,
cobrindo seu pecado e seus sentimentos com sua "bondade". Se ela atirasse o bolo na cara dele, alguns até
argumentariam que ela o ama.

Contudo, na maioria dos casos, atirar bolo no rosto de alguém não é sinal de amor. Mas observar seu
comportamento de modo isolado não vai revelar os intentos de seu coração. Em outras palavras, ternura e dádivas
profundas do coração serão aquelas que tocam as vidas de outros, visando em última instância o bem deles.

O caminho que leva a um cuidado profundo começa com a tristeza. A tristeza reconhece as incontáveis
vezes em que a confiança foi traída e mal usada. Todos os relacionamentos, até mesmo os bons, envolvem traição e
mau uso. Uma mulher que sofreu abuso jamais admitiria o quão devastador foi o fato de seu marido ser insensível e
bravo. Ela se defenderá dizendo que ele estava sob pressão e sobrecarregado. Sua recusa em des-
confiar implicou abrir seu coração para o quanto ela se importava em ter sido traída. Foi devastador, pois ela desejava
profundamente que ele fosse terno e forte.

A lamentação intensifica a tristeza, pois encara a perda irrecuperável. As vítimas de abuso nunca serão
capazes de relaxar diante do carinho de outra pessoa sem sentir pelo menos uma ponta de desconforto e ansiedade.
Suspeita e traços de paranóia vão existir, já que sua natureza é pecaminosa. A lamentação admite que há cicatrizes
que só poderão ser removidas no céu. A mulher mencionada anteriormente não havia aceitado o fato de que sempre
sentiria uma certa dor todas as vezes que fizesse amor com seu marido. Apesar de essa dor poder ser menor em
algumas ocasiões, a perda do sonho pelo amor perfeito de um homem não poderia ser recuperado até o céu.

A tristeza e a lamentação vão suavizar a raiva da autocrítica e dar lugar a uma profunda contrição: a de
saber que, por não ter se importado profundamente com aqueles de quem desconfiava, a vítima cometeu o mesmo
pecado de traição que, em essência, foi cometido contra ela. Há contrição ao encarar o fato de que demos ao outro um
pouco do gosto da amarga refeição que nos foi servida antes.

O grande perigo da desconfiança é perpetrado contra Deus. Ele é visto como um jogador, uma espécie de
sádico cósmico que gira os botões do prazer para excitar, e os da dor para frustrar suas vítimas. Deus é alguém que
precisa ser aplacado e ignorado ou grandemente desprezado. Aquele que não se importa é indiferente. Ela é o tipo de

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pessoa que Jesus descreveu como nem quente nem frio:

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és
morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca.
Ap 3:15-16

Indiferença morna ("eu simplesmente não me importo") é mais destrutivo numa relação do que o ódio.

A contrição se desenvolve à medida que o crente percebe que sua exigência para que Deus prove seu
cuidado é uma zombaria à Cruz. A morte de Jesus é prova suficiente da fidedignidade do coração de Deus. Esta
indiferença parte o coração de Deus, que espera ansiosamente o retorno do filho pródigo e o quebrantamento do
coração do filho mais velho. Quando a criança humilde na fé vê o Pai chorar ao invés de retaliar, esperar
ansiosamente ao invés de dar as costas, a nascente da contrição e da paixão começa a jorrar vida.

A recusa em desprezar a paixão

Para a maioria das vítimas de abuso, a paixão é algo perigoso. É uma porta que, se for aberta, pode permitir
que a raiva e a lascívia, ou a violência e a promiscuidade sejam despejadas como na abertura da caixa de Pandora. A
paixão pode ser definida como a profunda reação da alma à vida: a liberdade de alegrar-se ou chorar.

Um dos mandamentos mais difíceis de serem cumpridos é alegrar-se com os que se alegram e chorar com
os que choram (Rm 12:15). Isto requer um envolvimento de coração aberto, centrado nos outros e despreocupado.
Paixão é encarar o prazer com deleite, o quebrantamento com lágrimas, e o mal com ódio.

Uma conselheira importante pediu-me para supervisionar seu trabalho. Em uma de nossas interações
comentei sobre a maneira única como ela, ao lidar com seus clientes, mesclava aceitação gentil com busca
incansável, qualidades que nem sempre são encontradas juntas. Ela me agradeceu polidamente e, durante alguns
instantes, tornou-se formal e fria. Algo muito importante havia mudado em seu comportamento e estilo de interação.

No final conversamos sobre o que havia acontecido. Ela reconheceu que, no primeiro momento, sentiu-se
feliz e depois aterrorizada quando comentei sobre seu caráter. Tornou-se claro que ela possuía uma história não
resolvida de abuso sexual. Ela ficava literalmente enjoada quando recebia um elogio ou sentia prazer.

A recusa em desprezar a paixão abrange a dor e o prazer - particularmente o despertamento agradável dos
sentidos - dados por Deus. Também envolve a tristeza da ambivalência. O medo da paixão torna praticamente
impossível aceitar envolvimento profundo dos outros. Em um certo sentido, a vítima de abuso tem vivido num mundo
bidimensional, distante do toque humano, da ternura e do ardor.

Conversei com uma mulher que admitia com terrível vergonha que sentiu mais quando o cachorro da
família morreu do que quando seu pai faleceu. Ela odiava a si mesma por sentir prazer ao correr pelos campos com
seu amigo canino. Passou por uma extrema autocrítica ao desejar manter seu gato mais do que seu marido.

Arrependimento - a recusa em desprezar a paixão - exigiu que ela examinasse sua autocrítica quando
pensava em seu cachorro. Seus animais eram um presente de Deus para manter seu coração acreditando no potencial
de contato, conforto e envolvimento com pessoas. Sentiu-se triste quando percebeu que se havia privado da paixão
legítima dada por Deus.

A tristeza abre a porta para a lamentação - lamentação sobre a perda da consciência de espontaneidade e
sobre a falta de reação ao toque humano na alma e no corpo. A perda é permanente neste lado do céu. A liberdade de
um criança de sentar-se no colo de seu pai com completa confiança e prazer sensual é inimaginável para a pessoa que
sofreu abuso e que nunca experimentou isso.

A lamentação, ao contrário, vai dar lugar à experiência da tristeza por privar outros da paixão. A mulher
que se sentia melhor com seus animais do que com seu marido admitiu que todo contentamento e prazer terminavam
por disparar pensamentos repulsivos sobre sexo. Ela se privou e a seu marido de uma singularidade íntima e física.
Ao perceber que havia privado seu marido da intimidade, sentiu-se grandemente tentada a moer sua alma sob a pedra
da crítica. Sentiu-se pressionada. E, como conseqüência, sentiu-se novamente abandonada, cheia de angústia e
repulsa. O que isto teve a ver com o arrependimento?

Arrependimento para ela significava clamar a Deus por graça de forma que pudesse admitir a verdade: ela
odiava sexo, seu marido, seu agressor, seu conselheiro e Deus. Clamar em grande angústia não significava fugir para
a nulidade e pressão das palavras mortas. Era um profundo marco para o arrependimento - a recusa em continuar
morta - que fazia com que ela admitisse que Deus preferia uma paixão fria ou quente à sua paixão morna. Ela estava
viva, mas era um caos total.

A recusa em desconfiar significava que ela não poderia ignorar as irritantes exigências de seu marido por
sexo e seu rude afastamento quando ela sugeria uma resposta. Significava importar-se o bastante para dizer não e

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explicar por quê. Como uma Boa Menina, suas explicações tinham sido apologéticas e profusas, cobertas por uma
exortação velada. Para ela, a explicação de arrependimento era curta direta e objetiva. Arrependimento exigia que ela
desse uma pausa na área sexual até que as questões de seu casamento fossem reconhecidas, recebessem oração e
fossem tratadas. Ela se importava, mas ainda não livremente para rir ou chorar.

A recusa em desprezar a paixão permitiu que ela admitisse que se sentia excitada na presença de certos
homens fortes. Ela odiava a si mesma por sentir qualquer tipo de excitação. Ela veio a perceber, entretanto, que sua
excitação era tanto horrível quanto maravilhosa. Sua excitação diante de um homem forte e carinhoso era menos do
que Deus pretendia: era pecado. Por outro lado, a experiência em si de se sentir excitada era boa e deveria ser
apreciada.

A contrição dada por Deus abria espaço para uma alegria agridoce - amarga porque causamos danos a nós
mesmos e a outros, e doce devido à maravilha da graça de Deus, que nos livra de julgamento.

As mudanças externas do arrependimento

O cerne de todas as mudanças é interno, mas seus frutos serão visíveis, agradáveis e nutritivos. O que está
envolvido nisto e como será? O arrependimento vai envolver uma opção efetiva e cheia de propósito de voltarmos
para Deus. As mudanças externas serão únicas na vida de cada um, mas alguns exemplos darão algumas indicações
das alterações básicas.

A Boa Menina vai recuperar a voz perante seu esposo e amigos, pelo bem deles. Ao invés de ceder a opção
a outros, ela começará a tomar posse de seus desejos e preferências ao dizer decididamente que prefere não comer em
certo restaurante.

A Menina Difícil vai buscar retorno ao invés de intimidar todos aqueles que estiverem ao seu redor.
Quando obtiver o retorno desejado, ela reconhecerá quão difícil é ouvir, quão fácil é querer retaliar e quão
profundamente ela deseja poder ouvir opiniões com maior cordialidade e ternura. Ela não optará pela grosseria, ainda
que o desejo seja grande.

A Menina Festeira vai optar por reatar os relacionamentos de que ela privou as pessoas, e reconhecerá sua
tendência de bater em retirada quando os ventos da tempestade se aproximam ou quando as águas calmas se agitam.
Vai admitir sua inclinação à sabotagem, e tomará atitudes que assegurem sua fidelidade. Vai se empenhar ainda mais
em falar sobre o pavor de relacionar-se e como isto se revela através da manipulação.

Um comportamento de arrependimento será marcantemente diferente entre os estilos de relacionamento


bem como dentro de cada estilo, de forma que é impossível dizer o que é certo ou não fazer em nossa caminhada
rumo à mudança. Tudo o que se pode dizer é que a mudança de cada estilo de relacionamento nunca implicará na
busca do pecado. Uma Boa Menina nunca poderá dizer que sustentar um caso é sinal de crescimento. Uma Menina
Difícil não poderá justificar a mentira como forma de manter sua raiva reprimida. Uma Menina Festeira não pode
insistir num comportamento que permita que outro se mantenha num pecado destrutivo.

O objetivo é se afastar de padrões de autoproteção, os quais freqüentemente parecem ser o caminho mais
simples e razoável, mas que, para muitos, são os mais difíceis. Um ato de arrependimento para uma Boa Menina pode
ser tão "simples" como ir a um shopping center comprar um vestido novo, tomar um demorado banho morno ou
contratar uma babá para que possa ter um dia longe das pressões da família.

Para uma Menina Difícil, o arrependimento pode envolver a ida ao massagista para uma sessão de
relaxamento, a ausência totalmente inesperada e inexplicável do trabalho por alguns dias, ou a leitura de um romance
sem sentido.

O arrependimento de uma Menina Festeira pode se mostrar numa reação de quietude em meio a uma festa,
sem revelar cansaço ou enfado; pode se manifestar ao responder os recados da secretária eletrônica e ao escrever a
um amigo apenas alguns dias, depois de ter recebido uma carta.

O arrependimento sempre terá uma qualidade central: o movimento significativo de um coração humilde e
ansioso em direção a Deus, que vai recebê-lo e edificá-lo. Tiago apresenta o quadro de uma maneira mais profunda e
com palavras simples:

Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo
dobre, limpai o coração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria
em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará.
Tg 4:8-10.

O arrependimento encara a verdade: "Sou um pecador, minha lealdade está dividida (ânimo dobre) e
mereço estar separado de Deus". É uma mudança de perspectiva para onde a vida pode ser achada. É o profundo
reconhecimento de que a vida só chega ao coração quebrantado, desesperado e dependente que anseia por Deus. É

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relaxar nos ternos braços de Deus, reconhecendo a maravilha de ser recebido quando seria compreensível ser
rejeitado. É assumir nosso lugar na grande festa, comer até nos fartarmos e nos deleitarmos na festa que está sendo
celebrada como comemoração de nosso retorno, ainda que não sejamos merecedores dela.

O arrependimento é um processo que nunca se encerra completamente. Ele é cíclico, aprofundando-se a


cada movimento, semelhante a uma bola de neve, que adquire mais peso e velocidade à medida que desce a
montanha. O arrependimento abre o coração ao amargo gosto do pecado e à doce alegria da restauração. Ele clareia
os sentidos de forma a expor a corrupção e afirmar a dignidade. Desperta nosso desejo pelo abraço do Pai e aprofunda
nossa consciência de seu bondoso envolvimento. Quando somos profunda e verdadeiramente tocados por seu amor,
caminhamos intensamente rumo ao privilégio agridoce de amar os outros.

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CAPÍTULO 13

Amor Intenso
O processo de mudança envolve pelo menos três coisas: honestidade - um coração aberto que reconhece o
dano por ter se tornado uma vítima e a conseqüente autoproteção; arrependimento - um coração humilde que penetra
na questão do dano que causamos a nós, a outros e ao Senhor; e amor intenso - um coração agradecido busca manter
relacionamentos intensos com outros.

O avanço da honestidade ao arrependimento deixa claro que um pessoa que sofreu abuso não precisa de
perdão por ter experimentado a impotência, a traição ou a ambivalência; ela precisa de perdão por ter desligado sua
alma da vida, sem qualquer intenção de servir ao bem-estar dos outros. A honestidade leva o coração à batalha, e o
arrependimento suaviza as investidas do passado.

Mas é preciso algo mais se o objetivo é ter a vida restaurada. Honestidade e arrependimento são pré-
requisitos para a vida, mas o amor liberta a alma para voar livre do dano do passado ou da paixão não correspondida
do presente. A doce fragrância do perdão é a energia que impele o homem ou a mulher aflitos em direção à liberdade
do amor.

Mas o que é o amor? Para o homem ou a mulher que sofreu abuso, o que quer dizer amar aqueles que
causam danos - especialmente o agressor do passado e o incontável número de agressores que vivem em nosso
mundo? Isto é até mesmo possível?

O que torna o amor possível?

A resposta a essa pergunta é surpreendentemente simples: o amor de Deus e o temor a Deus. O amor de
Deus é visto na cruz de Cristo. Pedro coloca a Cruz no meio da conversão ao Pai:

Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos aos
pecados, vivamos para justiça; por suas chagas fostes sarados. Porque estáveis desgarrados como ovelhas;
agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo das vossas almas.
1Pe 2:24-25

O desejo de Cristo de se tornar maldição por nossa causa, de forma que nunca recebêssemos a maldição de
Deus, é nossa liberdade e alegria (Gl 3:10-14). É incompreensível que o Deus da graça lançasse alguma maldição
contra seu próprio Filho com o objetivo de nos dar o seu presente: os relacionamentos restaurados. O Evangelho é
uma intromissão surpreendente, inesperada e desalentadora para o mundo perdido.

Mas que conforto a Cruz de Cristo traz a alguém que sofreu abuso sexual? As perguntas ainda persistem:
Onde estava Deus quando sofri abuso? Por que ele não elimina a dor, as lembranças e os problemas que enfrento? Por
que ele não interveio antes de eu tomar decisões tão drásticas? A Cruz não resolve nem nega a dor. John Stott, em seu
maravilhoso livro A Cruz de Cristo, afima o seguinte:

Eu nunca poderia acreditar em Deus se não fosse pela cruz. O único Deus em que acredito é aquele que
Nietzche ridicularizou como o "Deus na cruz". Como seria possível adorar a um Deus imune a este mundo
real e de tanta dor? (...) Ainda existe uma questão fundamental contra o sofrimento humano, mas sobre ela
colocamos outra marca, a cruz que simboliza sofrimento divino. "A Cruz de Cristo (...) é a única
justificativa de Deus" para um mundo como o nosso1.

A Cruz nos confunde quando aprendemos que crueldade é o que rege o mundo. Ela nos enerva quando não
vemos nenhuma prova de que um Deus carinhoso está no controle do Universo. A cruz não lida diretamente com a
pergunta "Por que eu?" mas ela abre caminho para a resposta a uma pergunta completamente diferente : "Alguém me
ama?".

A cruz é a prova do amor eterno e sacrificial de Deus, mas vai além: é também a evidência da fúria de Deus
contra o pecado. Ele fica irado perante o pecado. Deus é extremamente sério na questão de não deixar que sua criação
sucumba às investidas pecaminosas. Ele foi tão sério que colocou todo o pagamento pelos pecados sobre o perfeito
Adão, o segundo Homem, servindo como pagamento perfeito para a rebelião humana. O Cordeiro de Deus enfrentou
o justo julgamento que nós merecíamos. Deus colocou toda sua ira sobre seu Filho, que suportou a vergonha da cruz
em troca da alegria que lhe estava reservada (Hb 12:2).

Como seres humanos, de que modo encontramos forças para amar? A resposta envolve a combinação diária
de santo temor e amor àquele que providenciou nossa redenção. O temor a Deus começa com a convicção de que um
homem colhe aquilo que plantou. Paulo disse: "Porque o que semeia para a sua própria carne, da carne colherá
corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna" (Gl 6:8). Por causa do amor, nos
achegamos ao Pai; por causa do temor, nos afastamos do pecado. Quando formos atraídos pelas boas-novas de que

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um Deus justo substituiu nossa morte e condenação e nos restaurou para um relacionamento eterno, então
descobriremos a motivação para amar. Nossa gratidão pelo amor perfeito de um Deus misericordioso nos impelirá a
nos derramarmos pelo bem dos outros.

O que significa amar?

O amor pode ser surpreendente. Ele pode ser bem diferente daquilo que imaginamos. O amor não é fraco,
nem cede ao medo. Jesus estava calado e - alguns podem dizer - passivo na cruz. Isto nunca deveria ser dito! Pedro
nos diz que "(...) ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas
entregava-se àquele que julga retamente" (1 Pe 2:23). Sua quietude refletia sua confiança no justo julgamento de
Deus, que iria, no momento certo, destruir aqueles que se opunham às suas normas. O Pai não estava nem passivo
nem calado. Estava apenas aguardando o momento certo para derramar sua ira.

Amor não significa falta de ira. Infelizmente, os cristãos freqüentemente colocam o amor como algo
estranho à ira. O amor não é inconsistente com a ira divina; de fato, a falta de ira justa torna o amor anêmico e o priva
de paixão (Rm 12:19). Veja o que significa ser motivado pelo temor a Deus: "O temor do Senhor consiste em
aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau caminho, e a boca perversa, eu os aborreço" (Pv 8:13).

O amor também não minimiza ou se esquece do mal do passado. O crentes são ensinados com frequência (e
erradamente, creio eu) a "perdoar e esquecer" de modo a literalmente esquecer e não mais sentir a dor do passado.
Diz-se que Deus se esqueceu de nossos pecados (Jr 31:34b); portanto, fomos ensinados que perdão é igual a
esquecimento. A Bíblia diz que Deus afastou nossas transgressões para tão longe de nós como a distância entre o
Oriente e o Ocidente (Sl 103:12).

Ambas as figuras de perdão - esquecimento e distanciamento - são metáforas que não devem ser tomadas ao
pé da letra em nossas vidas. Imagine tentar encontrar o exato ponto equidistante do Oriente e do Ocidente para ali
depositar os pecados de outros contra nós. Esquecer literalmente o dano que nos foi causado seria tão difícil quanto
encontrar o ponto geográfico citado.

A única forma de fazer isso seria através de uma negação não bíblica. Obviamente apegar-se a uma
lembrança com o propósito de exigir retificação ou de justificar um distanciamento cheio de ódio também não é
bíblico. Contudo, o perdão bíblico não é minimização ou esquecimento.

Finalmente, o amor não é um altruísmo espiritual que priva de prazer aquele que ama. Muitos cristãos
acham que se o eu se envolver na dádiva do amor, então ele será manchado. Dizem-nos que o amor não será
verdadeiro se nos alegrarmos e tivermos prazer nisso, ou então se nos decepcionarmos quando uma dádiva é
maculada. Nada poderia estar mais longe da verdade. Paulo corria pelo prêmio. Ele desejava ser derramado cm sua
morte como uma bebida oferecida pela coroa da justiça, a qual seria dele e de todos aqueles que amassem a vinda de
Cristo (1 Tm 4:6-8).

Em um certo sentido, tudo o que fazemos está condicionado à esperança de recebermos uma recompensa.
No mesmo capítulo em que Paulo fala eloqüentemente de sua esperança futura, ele também lamenta a falta de
amigos, de sua capa e de papel (2 Tm 4:9-13). Ele estava profundamente vivo em Cristo e ainda assim afetado pela
solidão, perseguição e falta de conforto de amigos. O amor que é tão espiritualizado e que reflete a falta de
humanidade não é nem espiritual nem humano.

Então, o que é amor?

O amor é, essencialmente, uma ação da graça no sentido de alcançar aqueles que pecaram contra nós (Mt
5:43-48). E a oferta de restauração àqueles que causaram prejuízo, com o propósito de destruir o mal e melhorar a
vida. O amor pode ser definido como o presente que voluntariamente cancela os delitos com o objetivo de liberar o
devedor para que possa se tornar aquilo que deveria ser se experimentasse a alegria da restauração.

O papel do perdão no processo de cura pode parecer profundamente difícil, mas é claro e necessário. A
carência de perdão nem sempre é reconhecida na literatura secular. Um trabalho mais profundo neste campo tece
críticas ferinas contra aqueles que ousam considerar o perdão como parte do processo de cura.

Nunca diga ou sugira que a vítima deve perdoar o agressor. Perdão não é essencial para a cura. Este fato é
perturbador para muitos conselheiros, ministros e para o público como um todo, mas é a mais absoluta
verdade. Se você se apega à crença de que os sobreviventes devem perdoar seus agressores para que
alcancem cura, você não deveria estar trabalhando com sobreviventes2.

Considerando a forma como o perdão é entendido por muitos cristãos e não cristãos (esqueça o dano, faça
de conta que tudo está bem, seja bom e permita-se ser agredido de novo), não é de se surpreender que os terapeutas
seculares detestem afirmar esta posição não-bíblica.

O perdão pode ser definido em três componentes: (1) desejo de restauração, (2) amor intenso e (3) anulação

110
da vingança3.

Desejo de restauração

Para muitas das vítimas de abuso sexual a restauração é o elemento mais difícil do perdão. Uma mulher que
havia sofrido abuso disse-me: "Eu desejo amá-lo, mas nunca me peça para querer ficar perto dele. Não consigo
sequer imaginar vê-lo nesta vida, e o simples pensamento de que vou passar a eternidade com ele me dá uma
sensação mais de inferno do que de céu".

A vítima não desejará a restauração até que os obstáculos da mortificação, da desconfiança e do ódio pela
paixão sejam removidos. Uma vez que os desastrosos efeitos da impotência, traição e ambivalência sejam penetrados
pela honestidade e transformados pelo arrependimento, o potencial para viver corajosamente com os outros vai se
parecer mais com um anseio do que com um fardo pesado. Enquanto isso não acontecer, os gritos de fervor
evangélico conclamando a vítima a amar seu agressor vão bater em ouvidos surdos.

O perdão não é algo que deve ser empurrado para a vítima. É um dos aspectos do processo de cura, mas não
é uma pílula amarga a ser engolida. Deve ser aceito e não imposto. Um coração que conhece alguma coisa da alegria
de voltar a Deus será motivado a oferecer restauração, tal como Deus.

A maturidade virá através dos processos discutidos em capítulos anteriores. A restauração da vida, do
interesse e da paixão vai estabelecer o patamar para tratar da questão do perdão. O processo pode levar anos; não
existe um cronograma-padrão para a maturidade. A jornada de cada pessoa é diferente, às vezes de forma profunda. O
ponto comum no processo é que ele trará a liberdade para amar.

Para uma vítima de abuso, desprezar a chamada ao amor, ainda que seja para amar seu agressor, é
semelhante a dizer que seu coração não é melhor que o do agressor. Uma mulher gritou, no meio de uma convulsão
de ódio: "Eu prefiro morrer a reatar relações com ele!". Perguntei-lhe o que faria se Deus lhe desse apenas duas
opções. Um: pressione o botão da esquerda, e Deus destruiria totalmente o agressor, de forma que nenhuma molécula
de seu corpo ficasse próxima da outra. Dois: pressione o botão da direita, e Deus o restauraria para ser novamente
aquele homem, pai e marido que Deus planejou que ele fosse.

Ela chorou, clamando pela presença de um pai, mas não de seu pai. Eu disse: "Seu pai está manchado, é
perverso, vil e digno de condenação. Não perguntei se você queria que ele fosse restaurado para se tornar o que é
hoje, mas para ser um homem quebrantado e contrito - um pai que pudesse chorar pelo dano causado a você e a Deus.
Qual botão você escolheria?".

Foi um momento de dor e angústia dilacerante, mas sua alma provou da alegria de sua própria restauração,
e ela não queria reter a possibilidade de ele ter alegria. Fazer isso seria negar sua salvação e chamar seu próprio
coração de algo maligno. Ela não era capaz de fazer aquilo e, naquele momento, começou a ser capaz de imaginar a
restauração. A habilidade de imaginar como seria se o agressor se arrependesse e fosse redimido abre o caminho para
o desejo de uma pura e justa restauração do relacionamento.

Há muitos obstáculos que impedem o aprofundamento do desejo por restauração e que trazem confusão
quanto ao que significa amar e como lidar com o profundo desejo de vingança. Qual o objetivo do amor e o que
acontecerá se eu perdoar?

Amor intenso

Amor intenso é um compromisso em fazer o que for necessário (exceto pecar) para trazer saúde (salvação)
ao agressor. Uma metáfora pode ajudar a explicar o que significa isso. Um cirurgião que vê uma massa cancerosa no
pescoço de um paciente sabe que aquilo vai matá-lo. Seu compromisso é destruir o mal de modo a trazer o corpo de
volta a um estado saudável.

Ele pode enfiar um bisturi no pescoço da pessoa ou bombardeá-la com doses maciças de radiação ou
quimioterapia, o que vai produzir náuseas e fraqueza, com o objetivo de erradicar a figura estranha ao corpo. Ou ele
pode fortalecer a dieta do paciente, dar conforto e alívio até que uma medida heróica possa ser implementada. O
compromisso básico, independente da "intervenção" a ser feita, é trazer o paciente de volta à vida.

O amor intenso é refletido no mandamento de Paulo: "O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal,
apegando-vos ao bem" (Rm 12:9).

O amor não deve ser hipócrita nem pode ser fingido. O livro de Provérbios também afirma: "Melhor é a
repreensão franca do que o amor encoberto. Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia
são enganosos" (Pv 27:5-6).

Em ambas as passagens, o amor é visto como um falso apoio ou como enganosos beijos de bondade. O
amor é uma poderosa força para reaver o bem em potencial dos outros, ainda que sob o risco de enfrentar grande

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sacrifício e perda.

Por exemplo: se a arrogância de outra pessoa destrói a possibilidade de relacionamento conosco e com
Deus, devemos odiar esta arrogância e vê-la como uma câncer a ser extirpado. Em um certo sentido, a massa
cancerosa pode ser considerada como parte do indivíduo, mas por outro lado é uma coisa estranha, algo que não faz
parte do plano original de Deus. Se devemos odiar o que é maligno e nos apegar ao que é bom, somos levados a
detestar tudo que se afina com o mal e nos ligarmos a qualquer coisa que seja boa. Portanto, o amor não é uma
aceitação incondicional que ignora o mal nos outros ou em nós mesmos (Mt 7:3-6). Não é contraditório amar alguém,
desejar seu bem e igualmente trabalhar para destruir o câncer pelo caminho do arrependimento e da fé.
O modo de agir daquele que ama intensamente é resumido no sermão Peso de Glória, de C. S. Lewis:

O peso, a carga ou o fardo da glória de meu vizinho deveria ser colocado em minhas costas, um peso tão
grande que apenas a humildade poderia suportá-lo, de forma que as costas do orgulhoso seriam quebradas.
É uma coisa muito séria viver numa sociedade de candidatos a deuses e deusas e lembrar-se que a pessoa
mais inculta e desinteressante com quem você conversa pode ser um dia a criatura que, se você visse agora,
estaria grandemente tentado a adorar; ou então seria algo horroroso e corruptível, como o que se vê agora,
como se estivesse num pesadelo. Até certo ponto, durante todo o dia, estamos ajudando cada um de nós a
seguirmos um ou outro nestes dois destinos4.

Amar significa usar nossas vidas corajosamente com o propósito de reaver, na vida dos outros, o terreno
perdido para o mato, os cardos e os espinhos da invasão satânica. Isto deve ser feito através de confronto direto (Lc
17:3), ou de bondade paciente e lenta (Ef 4:32). O objetivo, em ambos os casos, é a restauração.

Duas perguntas são feitas com freqüência: "O que significa amar intensamente um agressor que não é
cristão?". "O que significa amar intensamente um agressor que não vai lidar com o abuso passado?". Ambas as
respostas exigem mais palavras do que é possível usar neste capítulo. Contudo, pelo menos em seu cerne, ambas
recebem a mesma resposta: não existem técnicas precisas e passos definidos para amar intensamente. O coração
daquele que ama deve estar livre (pelo caminhar na trilha da honestidade e do arrependimento) para ponderar de
modo independente o que significa dar graça ao agressor. Não existem atalhos, nem caminhos definidos nem planos a
serem seguidos.

Anulação da vingança

A corajosa ação de odiar o mal e se apegar ao bem é detalhada por Paulo através das atitudes de não tornar
(pagar) mal com mal (Rm 12:17), e não se vingar, mas dar lugar à ira (Rm 12:19). O amor intenso busca restaurar o
bem e destruir o mal, mas esta visão chega perigosamente perto da justificação de expressões destrutivas de raiva
contra o agressor com a desculpa de estar preocupado com seu bem-estar. Existe uma profunda diferença entre ódio
justo e vingança pecaminosa.

A vontade de causar mal a alguém sem sempre é o mesmo que desejar que alguém pague por seus pecados.
Orei muitas vezes no sentido de que o mal chegasse até homens e mulheres cegos, arrogantes e danosos, de modo a
levá-los ao bom senso. Paulo nos encoraja a depositar brasas vivas sobre a cabeça daquele que nos causa danos ao
invés de revidarmos em vingança.

John Stott argumenta que "colocar brasas vivas" é uma metáfora do Novo Testamento para envergonhar ou
causar embaraço. Brasas fazem com que o rosto fique vermelho, a mesma cor produzida pela vergonha. Ele afirma
que oferecer bebida e comida àquele que nos causa dano humilha e envergonha nosso opositor de modo a abrir seu
coração para a possibilidade de redenção5. O propósito de fazer o bem é destruir o mal. Muitas vítimas de abuso que
desejam causar mal ao agressor ainda não reconheceram o desejo redentor por trás de sua fantasia de vingança.

O desejo de justiça pelo pecado, entendida de modo geral ou direcionada a uma pessoa em particular, não é
incompatível com as orientações divinas. Desde o Antigo Testamento vemos a expectativa expressa por Paulo no
fechamento de sua Carta aos Romanos: " E o Deus de paz em breve esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás" (Rm
16:20). Chegará o dia em que aquele que faz o mal e não se arrepende será abatido (Is 25:10-12). O anseio de ver o
agressor pagar pelo que fez é honroso e consistente com o desejo pelo dia do julgamento. Novamente, o que faz com
que esta atitude seja diferente da atitude de buscar vingança?

Existem três importantes componentes que separam a fome de justiça das fantasias ou ações de vingança.
Primeiramente, a vingança não deixa espaço para a restauração. O julgamento é definitivo. O problema é que seremos
julgados e avaliados de acordo com os mesmos critérios que usamos para julgar os demais (Mt 7:1-2). Se eu condeno
você por ser insensível, serei responsabilizado segundo o mesmo padrão que usei para rejeitá-lo.

Jesus coloca a questão em palavras duras: "se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas,
tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" (Mt 6:15). O desejo de ver a justiça sendo feita e o pecado
punido deve sempre começar pelo espectador (Mt 7:3) antes de ser direcionado ao pecador.

Mas sejamos claros: o fato de remover a trave de nosso olho não deve ser o sinal verde para avançarmos

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sobre o argueiro do olho dos outros.

Segundo, a vingança se interpõe no caminho de Deus. Nossos atos de vingança são insignificantes; os dele
são perfeitos. Paulo não condena os romanos por esperarem vingança, mas por buscarem vingança.

A maioria dos cristãos se sente incomodada com a justa ira de Deus. Uma passagem que tem trazido
conforto a muitos é a imagem da festa das bodas quando seremos vestidos com linho branco, puros e sem máculas,
preparados para nosso noivo (Ap 19:6-9). Contudo, o grande banquete de Deus inclui a figura apocalíptica do
julgamento, quando a carne dos reis, generais e homens poderosos será devorada por animais e aves de rapina (Ap
19:11-21).

Que cenário para um show após o jantar! Deus está furioso; nós também. Mas somos convidados a esperar
pelo dia, que chegará em breve, quando poderemos esmagar o pescoço de Satanás sobre nossos pés. O desejo de
vingança é honroso a Deus; atrapalhar seus caminhos de chamada ao arrependimento e de justo julgamento é tolice.

Finalmente, Deus nos dá uma oportunidade de conquistar e suplantar o mal hoje: faça o bem. Veja o tipo de
bem que ele sugere: provendo mantimentos para o corpo faminto e sedento (Rm 12:20-21). O que o mal espera? A
resposta é conhecida. O mal evita a luz; espera que a vítima de abuso sinta vergonha. O mal trabalha sutilmente;
espera que a vítima viva por trás de máscaras. O mal se regozija com a morte; espera que a vítima se afaste da vida. O
mal despreza a legítima satisfação da alma; espera que a vítima de abuso odeie nutrir uma paixão.

Paulo lança um golpe decisivo contra o mal quando nos diz para oferecermos vida ao mal. Vida e morte não
se misturam. Portanto, quando a vida, a luz e o amor - em toda sua humilde beleza, força e paixão pelos outros - se
deparam com o mal, ele tem de fugir ou ser transformado.

O que significa amar o agressor?

Neste ponto de nosso trabalho já deveria estar claro que vivemos num mundo de agressores, tanto daqueles
com A maiúsculo (aqueles que espalham dano sexual, emocional e físico) como dos mais sutis (aqueles que causam
danos através de pecados "típicos"). Neste sentido, todas as pessoas abusaram e sofreram abuso. Muitos podem não
ser agressores com A maiúsculo, nem ter sofrido abuso de um deles, mas o ponto central do pecado e o dano
subseqüente é o mesmo. Portanto, não é suficiente nos fixarmos apenas naqueles que abusaram sexualmente da
vítima. Precisamos ampliar nossa visão para definir o que significa amar todos aqueles que nos causaram dano.

Existem três categorias de agressores: o agressor mediano, o substituto do agressor e o agressor com A
maiúsculo. Para ilustrar a teoria, os hábitos e as questões específicas envolvidas no ato de amar cada tipo de agressor
seriam necessárias inúmeras e longas histórias.

A situação de cada vítima de abuso é única e as características distintivas de cada caso requerem uma
discussão face a face com outros crentes abertos e sinceros. Entretanto, mesmo após esta atenção individualizada, a
vítima é abandonada em sua luta com as implicações daquilo que significa amar com um coração redimido aquela
pessoa que violou seu corpo e sua alma.

A maneira de expressar o amor intenso pelo agressor pode ser completamente diferente para cada vítima.
Mas existem alguns princípios básicos no processo de oferecimento da graça que podem ser aplicados aos
relacionamentos com qualquer tipo de agressor.

Agressor mediano

O agressor mediano é o vendedor que tenta empurrar uma mercadoria que não vale o que se cobra por ela; é
o vizinho que deixa seu cachorro fertilizar nosso gramado, ou é nosso filho que não respeita seu próprio espaço. O
abuso mediano ocorre de modo inevitável em um mundo perdido, onde apenas poucos se importam ou provêem de
acordo com o que Deus planejou.

O que significa amar o agressor mediano? A resposta é simples: estabeleça limites, aprofunde o
relacionamento onde for apropriado, deixe muitas coisas para lá e continue caminhando na direção das características
da alma que não foram perdidas em meio à dor e à confusão.

Por exemplo: quando meu vôo foi cancelado momentos antes da saída de outro vôo para a mesma cidade,
fui rude e fiquei muito bravo. Ninguém me conhecia ou sabia qual era minha profissão nem meu compromisso (ou
falta de) com Cristo. Mas durante o resto do dia fiquei pensando em como eu facilmente poderia ter dado início a
uma cadeia de abuso. Adicionei mal a um mundo já manchado pelo pecado.

É provável que a companhia aérea tenha me enganado. O atendente foi rude. Eu tinha razões para estar
nervoso, mas não havia motivo para um abuso. Se eu tivesse tomado nota das informações, do nome do atendente, da
hora do cancelamento do vôo e do horário em que o outro vôo partiu, seria correto escrever uma carta e protestar.
Não tive nenhuma oportunidade de desenvolver um relacionamento com o atendente, o que me levou a deixar para lá

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e optar por fazer do evento um meio de desenvolver o fruto do Espírito.

A fase do "deixar para lá" é um importante aspecto ao se lidar com um mundo perdido. Não implica
negação nem uma atitude de total descaso. Não ligar é sorrir para o mundo perdido. Há momentos em que a mistura
de incompetência e pecado é algo estonteante e assustador. Um amigo meu fez vinte chamadas telefônicas para
conseguir que o jornal que ele assinara fosse enviado para sua casa. Disseram-lhe que sua casa estava fora da área de
entrega, apesar de receber semanalmente a visita da pessoa que vendia as assinaturas.

No começo, meu amigo foi bastante gentil, mas ficava a cada dia mais impaciente. Finalmente, conseguiu
falar com um dos vice-presidentes da empresa e descobriu que o chefe da distribuição morava duas ruas abaixo da
dele. O executivo prometeu que o jornal seria entregue na manhã seguinte! Às seis horas da manhã meu amigo foi à
porta de sua casa e encontrou um exemplar do jornal concorrente: quanto ao outro jornal, nem sinal dele. Depois de
mais uma semana de ligações, ele finalmente recebeu o jornal que havia escolhido.

Uma postura do tipo "deixar para lá" pode ser mais adequada neste tipo de situação (talvez não no momento
da profunda frustração), porque podemos antever dias melhores pela frente. Um estrangeiro ou um peregrino não
pode esperar uma jornada livre de problemas e riscos. Manter-se em pé diante do peso de um mundo perdido é
suportar fielmente a dureza, aprender a sofrer pelo bem de uma causa maior. Entretanto, requer-se muito mais a
prática do que uma boa atitude. Deve haver uma oferta tanto da graça quanto de respeito. Ambos podem ser
acompanhados de uma melhor definição das fronteiras e da oferta de bondade.

O tipo de limites a serem estabelecidos depende do estilo de relacionamento de cada um. Como resposta ao
vizinho que permite que seu cachorro deposite coisas em seu gramado, a Boa Menina poderia dar uma pá ao vizinho;
a Menina Festeira poderia fazer a limpeza ela mesma, sem piadas ou repreensões sutis; a Menina Difícil poderia rir
alegremente da situação e ignorá-la, ou pedir a seu marido que fizesse a limpeza. A questão não é "Qual a coisa certa
a ser feita?" mas "o que nos dará uma grande oportunidade para amar?"

As Escrituras dizem: "(...) se teu irmão pecar, repreende-o" (Lc 17:3), e "(...) o amor cobre multidão de
pecados" (1 Pe 4:8b). Então, o que fazer: repreender ou cobrir? Depende da inter-relação particular das pessoas, da
situação e do tempo, mas o objetivo é edificar e dar vida (Ef 4:29).

Portanto, limites sempre servem para melhorar relacionamentos. O que nos daria maior oportunidade de
falar a verdade em amor? Por esta razão, nenhum quadro poderia expressar o que significa amar um agressor
mediano. Isto deve permanecer no coração daquele que ama, cuja alma é tocada pelo Evangelho, cuja imaginação se
torna livre pelo arrependimento, cujas mãos estão livres para servir e a boca livre para exortar.

Substituto do agressor

Existem muitas semelhanças mas também significativos acréscimos no trato com o substituto do agressor.
Normalmente o substituto é a pessoa que oferece à vítima de abuso o relacionamento mais íntimo em essência e de
fato. Será o tipo de relacionamento em que tanto o dano do passado como a autoproteção serão exterminados.

O cônjuge parece ser, com mais freqüência, o substituto do agressor. Numa relação matrimonial a
intimidade, confiança e sexualidade são confrontadas com as questões da impotência, traição e ambivalência.
Conforme dito anteriormente, a mulher vítima de abuso tende a preferir um relacionamento em que o marido não dê
importância à intimidade, seja indigno de confiança, distante da paixão ou que apenas use a paixão.

O casamento de uma vítima de abuso normalmente é insípido e estável ou doloroso e caótico. É comum a
alternância entre altos e baixos como numa montanha-russa. Neste momento, não é possível discutir o que é
necessário para afastar o desejo de vingança e para buscar o amor intenso numa relação matrimonial.

Algumas mulheres são casadas com homens insensíveis, mal-humorados e frios mas, até certo ponto,
abertos. Outras estão ligadas a homens extremamente fechados e egoístas ou, pior, com homens malignos, cheios de
ódio e até potencialmente violentos.

Abordar todos os aspectos que devem ser tratados está fora do escopo deste capítulo. Esse objetivo pode ser
alcançado somente no contexto de algum tipo de aconselhamento matrimonial. Se o marido não busca
aconselhamento junto com sua esposa, a mulher ainda assim pode se beneficiar de um conselheiro para ajudá-la a
explorar o que significa amar um homem que não se envolverá num processo de mudança.

Quais são as bases para amar um substituto do agressor? O processo inclui a definição de limites
consistentes, aprofundamento da intimidade, aprender a sorrir e a chorar, e ter fé em Deus quanto à redenção e à
transformação do cônjuge numa pessoa cheia de dignidade e vigor.

É imperativo definir limites que melhorem os relacionamentos. Muitos substitutos de agressores, por
exemplo, desconhecem o histórico de abuso de seu cônjuge. Uma das razões para isto é que o substituto pode não ser
digno de confiança ou vai reagir a isso dc modo impróprio. Sendo assim, o casal deverá reconhecer e trabalhar as

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questões que bloqueiam a confiança mútua, antes que este terrível evento seja compartilhado.

Esse trabalho difícil não é apenas de responsabilidade do substituto. A própria vítima deve estar disposta a
enfrentar as dificuldades do casal, não importando o quão arriscado possa lhe parecer o fato de expor sua
vulnerabilidade (ferida) e sua autoproteção (pecado).

Temos o exemplo de uma mulher que se recusava a compartilhar com seu marido o abuso passado. Ele não
demonstrava qualquer reação nem se envolvia quando ela compartilhava outras feridas significativas (mas
comparativamente menores) de seu passado. Ela assumiu, então, que, se ele era tão insensível, nunca iria penetrar em
seu profundo sofrimento. Ela deixava transparecer seu descontentamento e, às vezes, o atacava frontalmente, mas
nunca insistiu com perseverança e honestidade.

De um modo mais sutil, ela era tão culpada quanto ele pelo relacionamento pecaminoso e autoprotetor. Sua
parte na edificação da confiança mútua exigia dela uma abertura maior diante da passividade e rejeição do marido.
Isso permitiria que ele visse a dor que ela sentia pela reação dele fazendo-o perceber o quão profundamente ela
ansiava por um relacionamento mútuo mais rico, permitindo-lhe abrir-se a ele completamente.

Apesar de haver exceções, normalmente a vítima de abuso deveria discutir com seu cônjuge o evento
ocorrido no passado, a ponto de expor o fogo destrutivo que começou anos antes do casamento. Isto ajudaria a
esclarecer ao cônjuge em que momento ele colocou mais lenha na fogueira de modo a manter a chama acesa por
anos.

Outros limites que aprofundem o relacionamento devem ser estabelecidos. Para muitas - e não todas - as
vítimas de abuso será necessário fazer uma pausa em seu relacionamento sexual. É freqüente que a excitação não
esteja presente, ou que ela ocorra somente através de fantasias que danificam a alma.

Perpetuar este processo abusivo em um relacionamento que deveria ser um íntimo compartilhamento de
almas é semelhante ao cão que volta a seu próprio vômito. Em geral, o fato de suprimir o sexo dissolverá um
casamento já fraco e, na verdade, não existente. O trágico disso é que a dissolução não teria acontecido se a vítima
continuasse morta.

Algo ainda mais terrível é que o substituto pode usar o hiato para causar ainda mais danos, ao invés de
seguir o conselho de Paulo: "Não vos priveis um ao outro, salvo por mútuo consentimento, por algum tempo, para
vos dedicardes à oração" (1 Co 7:5). O ideal seria que o hiato sexual permitisse que os laços de intimidade fossem
restabelecidos e as questões sexuais discutidas antes de retomar a intimidade física.

Se o relacionamento se aprofunda através da honestidade, trabalho árduo e arrependimento, é pouco


provável que o cônjuge seja usado como substituto do agressor. Contudo, quando os limites e busca de profundidade
no relacionamento resultam numa divisão inconciliável, a vítima vai considerar o amar intensamente seu cônjuge
algo muito maior que uma batalha. Como conseqüência, seu cônjuge se voltará contra ela na condição de agressor
com letra maiúscula.

Independente daquilo que o relacionamento matrimonial melhore ou desintegre, a paixão da vítima pela
vida será alimentada. Suas lágrimas serão mais tristes, e seu sorriso mais aberto. Por fim, a honestidade, o
arrependimento e o amor intenso vão levar seu coração para mais perto do Autor da Vida, e as qualidade do caráter
de Deus se tornarão presentes em sua vida.

Agressor com A maiúsculo (passado e presente)

O que significa amar o verdadeiro agressor?6 É óbvio que esta pergunta parte da premissa de que ele ainda
esteja vivo, e que a vítima saiba de seu paradeiro. Se ele não pode ser encontrado ou se já morreu, então não encorajo
a cura da lembrança. Ficar conversando com uma cadeira vazia, representando o agressor, ou trabalhar qualquer outro
meio que provoque uma explosão catártica de raiva e um processo imaginário de perdão de nada adiantaria. Prefiro
me prender à questão de como lidar com o substituto do agressor porque, na falta de um agressor real, as dinâmicas
não resolvidas nos relacionamentos atuais são ainda mais intensas do que se o agressor estivesse presente.

Amar este agressor freqüentemente implica confrontá-lo. Entretanto, a vítima deve considerar com cautela
suas motivações antes de clamar pela confrontação com amor. Se o desejo de confrontá-lo visa curar-se num nível
mais profundo, então sua motivação é basicamente egoísta. O objetivo de curar-se é secundário no chamada para
viver o Evangelho com força, dignidade e altruísmo.

Que motivação, então, seria válida para optar pela busca do confronto? Existem duas: preocupação com o
agressor e preocupação com aqueles que podem estar sendo vítimas dele. Sabe-se que há grande possibilidade de o
agressor cometer abuso novamente.

Abusos não tratados abrem espaço para que o agressor cause danos a outros no futuro. O próprio agressor
deve viver com uma certa angústia na alma. Ele deve manter um pequeno ponto de sua alma que não lhe permite

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esquecer nem justificar o abuso praticado. Sua angústia pode não ser visível a outros (ou até para ele mesmo) por
estar muito bem escondida debaixo da raiva expressa na vergonha e na arrogância. Contudo, a arrogância é a prova
cabal da grande mágoa da alma - a alma de alguém criado à imagem de Deus e feito para amar, mas que, ao invés
disso, foi destruído.

A agonia não perdoa o abuso do passado nem a incapacidade atual de arrepender-se. Contudo, a agonia é
real e deve ser do conhecimento da vítima que está considerando a questão do confronto.

Depende da vítima, é claro, se e quando o confronto vai acontecer. Entretanto, ela nunca deve iniciar esse
processo sem antes direcionar seu próprio coração à honestidade e ao arrependimento. Deveria tentar pôr em prática
algumas outras experiências de amor intenso em relacionamentos menos conflitantes (com amigos, conselheiro,
filhos ou cônjuge) antes de tentar lidar com o agressor ou com pais omissos. A vítima jamais deve se dirigir à batalha
sem antes ter fortalecido sua alma e suas habilidade através de treinamento básico.

Se parecer que o momento do confronto chegou, como ele se dará? Em primeiro lugar, ele nunca é
completado em uma única reunião: é um processo de construção de um novo tipo de relacionamento. Esse processo
inclui diversos elementos: estabelecer limites consistentes, exortar e convidar o agressor a se arrepender, oferecer um
relacionamento, aprofundar a intimidade, aprender a sorrir e a chorar, e ter fé em Deus quanto à redenção e à
transformação do agressor numa pessoa cheia de dignidade e vigor.

Antes de a vítima tentar exortar diretamente e convidar seu agressor ao arrependimento, ela deve fazer
mudanças substanciais em seu estilo de relacionamento, que lhe permite distanciar-se e buscar vingança contra ele e
contra os outros. Deveria sentir-se como se o relacionamento pudesse ser expresso num bilhete que diria: "A vida é
diferente e boa e eu gostaria que você conhecesse a alegria da restauração em Deus". Um bilhete raramente contém
uma pregação ou ensino. O agressor vai perceber isso porque a vítima se mostrará forte onde normalmente era fraca,
bondosa onde era normalmente distante, e apaixonada onde normalmente se mostrava apática. A mudança básica se
dará no interior, resultando nas mudanças externas correspondentes em áreas às vezes menores, mas altamente
significantes em termos de interação, seja ela freqüente ou intermitente.

Vejamos o exemplo da Menina Festeira. Ela, que sempre é agitada e brilhante, senta-se com sua família
(incluindo o agressor) no Dia de Natal, e fala pouco. A mudança em seu comportamento pode parecer pequena, mas
sua família é distante e insensível. Ela não está nem feliz nem frustrada em suas interações, mas optou por falar
somente quando sua alma desejasse, ao invés de ser impelida pelo silêncio da família, que era o sinal para agir como
a boba da corte, dissipando as tristezas. Sua mudança foi um passo na direção de um confronto com o agressor e os
pais omissos.

A confrontação real pode envolver exortação. Jesus disse: "(...) Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se
ele se arrepender, perdoa-lhe. Se por sete vezes vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe" (Lc 17:3-4).

A exortação (ou repreensão) normalmente abre as portas ao arrependimento. A exortação precisa deixar
clara a ofensa, suas conseqüências e as formas de restauração.

Normalmente é melhor que a vítima do abuso convide o agressor para a confrontação sem esconder o
propósito de seu encontro. A conversa deve ocorrer num lugar público, seguro (normalmente um restaurante de
classe). É bom ter um ou dois amigos na mesa ao lado ou no estacionamento, orando e apoiando a interação. Nunca
se deve enfrentar uma confrontação sem orar.

A exortação deve seguir uma seqüência lógica e, se uma etapa não for cumprida, a exortação não pode
continuar. As questões que bloqueiam alguma fase devem ser discutidas entre a vítima e o agressor, mas não se pode
concluir o processo sem que todas as questões sejam tratadas. Com o objetivo de tornar uma exortação eficiente, o
agressor deve seguir os seguintes passos:

1. Ao rever os detalhes do abuso, o agressor deve reconhecer que ele ocorreu.

2. O agressor deve assumir completa responsabilidade pelo abuso - sem desculpas ou blasfêmias.

3. Quando a vítima descrever os danos causados pelo abuso no passado e no presente, o agressor deve deixar
claro que lamenta ou que reconhece os danos causados.

4. Quando a vítima expuser os problemas no relacionamento atual com o agressor que inibem o potencial de
reconciliação, ele deverá estar aberto a considerar os dados e lidar com as barreiras.

5. Quando a vítima descrever o processo de mudança para um novo tipo de relacionamento, o agressor deverá
expressar o desejo de trilhar o mesmo caminho, e buscar ajuda adicional (através de disciplina da igreja,
aconselhamento, seminários ou leitura).

Se o agressor e, posteriormente, os pais omissos7 deseja passar por estas cinco fases, a vítima pode oferecer sua

116
amizade e a possibilidade de relacionamento agindo de modo a aprofundar a intimidade. Se o arrependimento não
acontecer, ainda assim a vítima pode perdoar oferecendo amor intenso, mas o relacionamento não poderá ser
restaurado.

Se após a conversa inicial o agressor negar totalmente o abuso do passado e suas danosas consequências, a
vítima deve se oferecer para voltar ao assunto depois de um breve período de tempo (algumas semanas). Ela deverá
deixar claro que não vai abandonar o assunto com o propósito de deixar o agressor confortável ou aliviar a tensão do
relacionamento.

Se o agressor insistir em recusar o convite para restabelecer o relacionamento através do arrependimento,


então, em algum momento, a vítima deverá interromper o relacionamento. Deve explicar que a desavença é
totalmente reversível se o agressor decidir em algum momento reiniciar o processo de restauração.

Este processo de excomunhão é, de fato, um mérito, uma opção respeitosa de honrar o agressor com as
conseqüências de sua própria escolha pela destruição, na esperança de que a solidão e a vergonha façam com que o
coração dele se volte ao calor do relacionamento (2 Ts 3:14-15)

Um homem que foi repetidamente violentado por seu pai na infância ouviu dele que o abuso nunca havia
ocorrido. Na mesma época, o pai pediu-lhe um empréstimo com o objetivo de se submeter a um tratamento médico.
A escolha do filho, apesar de parecer não honrar ou amar seu pai, foi por negar o empréstimo. De fato, o pai possuía
investimentos em ações e não queria perder dinheiro com o mercado em baixa.

A negativa do filho afastou o pai, que começou a difamar o filho diante de toda a família. Quando o filho
começou a receber ligações dos irmãos, acusando-o de ter dado as costas ao pai, ele perguntou se eles gostariam de
saber de toda a história. Alguns irmãos quiseram, outros não. Ele compartilhou um número suficiente de detalhes de
modo a indicar a enorme necessidade de arrependimento da parte de seu pai. Um de seus irmãos lhe disse que o
passado é passado e que ele deveria esquecer, agindo como um bom cristão. Um irmão chorou - primeiramente pelo
irmão e depois por ele mesmo, à medida que reconheceu que o pai havia feito o mesmo com ele.

A recusa em normalizar um relacionamento abalado é um dom da excomunhão que espera a volta do


pecador, mas não oferece relacionamento profundo até que ele reconheça e lide com seu pecado. A oferta de
relacionamento restaurado (baseado no arrependimento) através de uma bondade honesta e sincera é viver o
Evangelho, ainda que a oferta seja rejeitada ou condenada.

No caso mencionado, o filho optou por fechar a porta ao relacionamento com seu pai a um grande custo,
dado o ódio dos outros membros da família. Ele honrou seu pai dando-lhe a oportunidade de arrepender-se e provar
da restauração do relacionamento com o Pai justo. A porta do relacionamento estava fechada, mas não trancada.

Muitos meses depois, o pai pediu-lhe que fizesse um trabalho relativamente simples para seu irmão. O filho
disse gentilmente a seu pai que, se o irmão quisesse, bastava pedir-lhe. Ele falou direta e bondosamente com o pai
lembrando-lhe que gostaria de ver o relacionamento curado plenamente. O pai bateu o telefone.

Após alguns meses, seu pai ligou novamente, pedindo restauração, mas sem revirar a lama para trazer as
lembranças de volta. Em lágrimas, o filho recusou. O pai, num impulso de raiva, bateu novamente o telefone.

Eu adoraria relatar um final feliz desta história, mas somente o tempo e a clareza do céu vão nos dar o final
desejado. Contudo, em sua tristeza, solidão e repentes de confusão, este filho encontrou uma alegria profunda, ainda
que intermitente, por ser usado para chamar seu pai ao arrependimento.

O que deve ser feito com o agressor que admite o passado mas que ou lida com os danos de um modo banal
("Eu sinto muito pelo passado, mas fui perdoado e sua atitude não é cristã nem amorosa") ou clama por perdão com
excesso de autocomiseração? Em outras palavras, o que deve ser feito se o agressor bloqueia a mudança real com a
autocrítica ou a crítica a outros?

Uma chave para esta resposta é a preparação. A vítima deve contar com esta possibilidade, especialmente
conhecendo o coração do agressor a partir de outros contextos. Seu plano de batalha deve incluir meios de sabotar os
"disfarces naturais" do agressor para se livrar da repreensão.

Uma mulher disse a seu pai: "Papai, eu sei como você enfrenta qualquer pequena confrontação com a
mamãe. Você simplesmente diz que sente muito, o que evita que você tenha que olhar mais profundamente para a dor
dela. É isto que você pretende fazer quando eu começar a lhe contar os problemas e danos que você causou a minha
vida?". Ela surpreendeu seu pai com a análise das táticas de defesa que ele usava. Expor suas manobras desdenhosas
pavimentou o caminho em direção a uma discussão aberta do abuso sofrido no passado.

O processo de recuperação de um relacionamento não acontece logo após a confrontação inicial, ainda que
ela seja positiva. Ele vai exigir uma volta contínua a cada etapa, perdoando vez após outra, contanto que haja sinais
de arrependimento.

117
O Senhor nos diz para perdoarmos se o agressor se arrepender, fazendo com que a restauração do
relacionamento esteja condicionada à resposta dele. Arrependimento não é meramente dizer "sinto muito". Se este
fosse o caso, então o arrependimento não seria diferente da penitência, a execução de ato de contrição.

O verdadeiro arrependimento, ainda que seja requerido sete vezes ao dia, será experimentado pelo agressor
como um sentimento de tristeza quanto à vida, evidenciado pelo desejo de ser humilhado e por uma crescente vontade
de lidar com as conseqüências do pecado. Qualquer coisa abaixo disso não é arrependimento; portanto receber o
"sinto muito" do agressor como evidência suficiente de mudança é uma desconsideração desrespeitosa daquilo que
sua alma é capaz de oferecer através do verdadeiro arrependimento.

A batalha continua

Quando a vítima de abuso sexual caminha pela trilha do amor, abre a porta para uma intimidade maior com
os outros e, possivelmente, com o agressor. Sua opção por seguir pelo caminho não usual da maturidade vai trazer
tristeza e alegria à sua paixão e, como conseqüência, vai fortalecer sua decisão por buscar as coisas de Deus. Seu
caráter será transformado, não porque optou por desenvolver uma nova habilidade, mas porque o Espírito Santo vai
honrar a intenção de seu coração de seguir a Cristo.

A batalha continua. O homem ou a mulher em desenvolvimento vai continuar a beber da taça da


honestidade, do arrependimento e do amor intenso. Cada fase do processo vai fortalecer a convicção, enfraquecer o
desprezo, e aprofundar o desejo por conhecer mais a Deus.

Em algumas ocasiões o gosto da vida será amargo. Em outras, será mais doce que o mel e mais excitante
que o vinho. Beber da água que se derrama para a vida eterna vai satisfazer a alma de um modo mais profundo que as
palavras possam expressar. Os ricos sabores da alegria dada por Deus valem o longo e penoso trabalho de lidar com
lembranças, raiva, solidão e medo. Ao fazer isso estaremos imitando a Paulo, como oferta derramada em favor de
seus amigos, família e estranhos, enquanto esperamos ansiosamente a volta de Cristo e a coroa da vida reservada
àqueles que permanecerem firmes.

118
EPÍLOGO

Palavras aos Sábios


O processo de retorno à vida será bastante diferente para cada homem e mulher que sofreu abuso.
Entretanto, os elementos comuns ao processo serão a honestidade, o arrependimento e o amor intenso.

O desejo de meu coração é aliviar a vergonha e o desprezo desnecessários no meio da terrível luta. Além
disso, conclamo a vítima a abandonar as perigosas estratégias de autoproteção, que lhe roubam a alegria e a paixão.
Temo que ela simplesmente ingira com desprezo a discussão do pecado e da autoproteção e sinta um fardo ainda
maior sobre sua alma já tão cansada. Ao invés disso, oro para que ela sinta a compaixão de Deus.

Apesar de ter escolhido as vítimas de abuso sexual como o principal público para a leitura deste livro,
espero que ele seja igualmente útil para todos aqueles que fazem parte do abuso do passado e da restauração do
presente. Antes de ter uma última palavra com a vítima, gostaria de falar diretamente com aqueles que causaram
profundas feridas - os "executores" do abuso real (agressor e pais omissos) - e com os que tomam parte no processo
de cura (agressor substituto, amigos, pastores e conselheiros).

Palavras ao agressor

A graça de Deus se estende a todo pecador, incluindo aquele que viola o corpo e a alma de uma criança
pequena ou de um adolescente. O caminho para retomar um relacionamento correto com Deus não é fácil. Não é uma
questão de dizer que sente muito, derramar lágrimas, pedir perdão e depois voltar para aquilo que você considera uma
vida normal. Esta exortação de nosso Senhor deveria ressoar em nossos ouvidos:

Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe
pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar.
Mt 18:6

Restituição não cura feridas. Curvar sua cabeça em autocomiseração somente adiciona mais peso à carga da
vítima. O único caminho para a restauração é através do quebrantamento. Arrependimento e quebrantamento vão
mostrar seu desejo de se submeter ao processo de mudança através de disciplina da igreja, aconselhamento, interação
com outros agressores, busca de sabedoria e providências para o processo de recuperação da vítima. Isto pode incluir
oferecer-se para pagar tratamento médico e psicológico e na reavaliação do modo de vida.

Essencialmente, você deve lidar com as lembranças do abuso presentes em sua mente, com as falhas nos
relacionamentos atuais e com as interferências em potencial do abuso do passado em sua vida hoje. Não permita que
a vergonha e a crítica atrapalhem o processo de mudança em sua vida. Apóie o processo da vítima do abuso, sem
exigir ou até mesmo esperar carinho, proximidade ou gratidão. Dê à vítima tempo e espaço, de modo que ela possa
passar pelo processo seguindo seu próprio ritmo.

Com o tempo, sua alegria será mais profunda à medida que você caminha pela trilha da honestidade,
arrependimento e amor intenso. A profunda tristeza em macular a beleza de uma alma humana nunca será erradicada
nesta vida, mas o profundo alívio do quebrantamento criará um desejo apaixonado de ver o dia em que todo dano será
corrigido. Sua atitude de lidar com o dano é o tiro de misericórdia em nosso Adversário, o leão devorador.

Palavras aos pais omissos

Seu pecado é o mais fácil de ser escondido, atrás apenas da desculpa da ignorância. Na maioria dos casos,
os pais omissos ou se sentem profundamente culpados (autocrítica) ou exigentes (crítica dirigida a outros) quanto ao
abuso ou, ainda pior, quanto à vítima por esta não ter lhes contado os dados do passado ou então por contá-los apenas
agora. Em ambos os casos, você está retardando o processo de mudança da vítima.

Se você esqueceu ou ignora a evidência do passado, então é necessário fazer algumas perguntas profundas a
si mesmo, tais como por que seu filho era menos importante do que as coisas que você havia escolhido proteger.
Creio que os pais omissos não têm nenhum desejo de fazer perguntas deste tipo e lidar com sua falha em intervir no
passado. Não deixe que isto aconteça. Pare de proteger o agressor. Dar desculpas ou justificar o pecado injustificável
não é amar ou respeitar o agressor. É crucial que você permita à vítima expressar a raiva que ela sente por você sem
temer que você se torture ou a abandone.

Com o objetivo de lidar com todas estas questões que possam estar surgindo dentro de você, eu recomendo
fortemente que você busque um grupo de apoio e aconselhamento pessoal. Seu empenho em mudar será um
maravilhoso encorajamento para que a vítima do abuso prossiga em seu difícil caminho.

119
Palavras ao substituto do agressor

Seu papel no processo de mudança é crucial. Sua função é prover um ambiente estável que não pressione a
mudança nem postergue a busca de um profissional. Na maioria dos casos é bom que a vítima procure
aconselhamento, mas seu desejo de se engajar no processo nos momentos apropriados - e, ainda mais, olhar para sua
própria vida com o objetivo de afastar o "fogo" da fonte de combustível - é algo imperativo.

Separe o fato de que você não causou o problema original da provável atitude de ter jogado sal sobre as
feridas. É importante que você tenha consciência das questões envolvidas no abuso. Leia livros, vá a seminários, e
ouça, realmente ouça seu cônjuge. Não provoque a discussão, mas tenha o desejo de entrar nelas quando a porta for
aberta. Esteja ciente de que o processo será tumultuado. Sua vida sexual pode se deteriorar e o nível de prazer e
conforto que vocês conseguiram durante anos de interação pode se dissolver. Não culpe seu cônjuge. Não ataque o
processo. Seja paciente. Casais que realmente desejam entrar no processo vão sair fortalecidos, com intimidade maior
e mais viva, gozando de paixão e apreciação sexual mútua.

Aprenda a direcionar a raiva justificada para aqueles que prejudicaram seu cônjuge; ela quer sua proteção.
Ainda mais, aprenda a chorar por seu cônjuge; ela quer sua compaixão. Tudo aquilo que impede que você tenha um
raiva justa e que aja apaixonadamente vai diminuir a confiança e a intimidade, além de retardar o processo de
mudança.

Palavras para um amigo

Você é amigo de alguém que sofreu abuso, não tem treinamento, é inexperiente e está assustado. Para ser
bem preciso em minha análise, creio que você está até pensando em recuar no relacionamento com sua amiga. Não é
que você esteja pensando em tratá-la como uma leprosa, evitando contato, mas as questões do abuso, as lutas atuais e
os medos estão além dos limites.

Meu conselho a você é simples: não fuja do terreno assustador de um coração ferido. Você pode dizer
coisas erradas e causar mais dano ainda, mas o pior dano será causado se você lhe der as costas. Aceite suas
limitações, mas também reconheça o fato de que você está na linha de batalha. Pode ser que você não goste de ouvir
isso, mas o fato é que você é um soldado, um componente da infantaria que normalmente é o primeiro a levar os tiros.

Como terapeuta, vejo sua amiga uma ou duas vezes por semana. Você a vê todos os dias. Lido com
questões muito significativas de sua alma, mas você fala com ela sobre as mesmas questões, e outras mais. Vou dizer
novamente: você é muito importante como um amigo que vai orar, conversar, rir, chorar, ler, abraçar, gritar, assar
biscoitos, ir ao estádio de futebol e viver a vida em uma proximidade íntima. Não permita que sua inexperiência ou
até seu passado o impeçam de amar.

Palavras ao pastor

Sua parte no processo de mudança pode ser a de oferecer a vida. Se você aconselha, minhas opiniões vêm
logo a seguir no item "Palavras ao conselheiro". Se sua atuação é o trabalho pastoral típico, com sermões e ensino,
então seu papel é mais do que importante: é uma mudança de cultura. Entre outras coisas, o púlpito pode servir para
educar e alterar os conceitos errados da comunidade cristã. Como psicólogo que trabalha as questões do abuso, posso
ser facilmente riscado. Mas, quando você admite que o problema existe e que ele causa danos não imediatamente
erradicados no momento da conversão, então você permitiu que a luz entrasse na vergonhosa sala da escuridão e
tocasse incontáveis vidas.

Como um professor-pregador, você poderá desafiar os conceitos errados de perdão que se espalham na
comunidade cristã, fortalecer a resolução do sobrevivente em continuar na batalha, mesmo quando ela fica ainda mais
difícil, e encorajar os substitutos de agressor a perseverar quando desistir parece a melhor saída.Pode ser que você
nunca gaste muito tempo no aconselhamento, mas seu apoio e colaboração junto a um conselheiro vai emprestar sua
fé, confiança e coragem à vítima em seus momentos mais difíceis.

Palavras ao conselheiro

Se você é como eu, então vai apegar-se tenazmente à sua abordagem da batalha do abuso e restauração de
uma forma mais dogmática do que você gostaria de admitir. Provavelmente você tem um passado não tratado de
abuso, ou um histórico de coisas que encontraram guarida em alguma abordagem "gerenciável" de mudança. Se a
abordagem ajudou, então é fácil admitir que outros precisam trilhar o mesmo caminho. Mas eu o encorajo a nunca
aceitar qualquer modelo de mudança simplesmente baseado em sua eficiência. É óbvio que até opções satânicas
funcionam por algum tempo.

Se você está tentando estabelecer uma abordagem distintamente cristã para o aconselhamento, avalie se há
espaço em sua técnica e em seu modelo para lidar tanto com a dignidade quanto com a depravação humanas. Um dos
pontos que mais causam divisão em nossos dias envolve nossa compreensão do pecado, seu papel na estrutura da
personalidade humana e seus sintomas psicológicos.

120
Reconheça a possível necessidade de mais treinamento. A maioria dos profissionais nunca recebeu
treinamento específico para lidar com as questões do abuso sexual. Passei por dois mestrados e um doutorado e nunca
gastei um único minuto na questão de abuso sexual, estresse pós-traumático, personalidades múltiplas e outros
sintomas secundários que são partes distintas da estrutura da personalidade daqueles que sofreram abusos
traumáticos. Busque a compreensão do papel do abuso em sua própria vida, seu estilo de relacionamento e a escolha
da modalidade terapêutica.

Semelhantemente, tenha consciência de suas tendências. Você tem uma tendência a ver uma vítima de
abuso sexual por trás de todos os casos de depressão ou de distúrbios alimentares que entram em seu consultório,
ainda que seu cliente não tenha nenhuma lembrança de um abuso? Se tem, questione suas suposições e reflita naquilo
que as Escrituras consideram a questão principal das lembranças: nossa inclinação por esquecer a Deus, não somente
nosso passado.

Finalmente, tenha certeza que você tem moral e é honesto tanto nas palavras quanto no toque. Você deverá
ser cauteloso e fazer julgamentos precisos quanto a usar toque físico, seja num aperto de mão ou num abraço. A
vítima pode interpretar que seu toque significa muito mais do que você imagina. Não é correto tratar a vítima de
abuso como uma leprosa, evitando qualquer toque, mas uma orientação conservadora é muito sábia.

Palavras para a vítima de abuso

Ouça as palavras de uma música escrita por Amy Grant e Tom Hemby:

Eu a vejo como uma menina se escondendo em seu quarto


Ela toma outro banho,
e passa o perfume de sua mãe -
tentando se livrar do odor que deixou atrás de si,
mas ele assombra sua mente.
Você a vê como um pouco brincalhona -
não mais do que qualquer criança -
e ele está dando asas à sua necessidade.
Ela está cansada e com medo.
Talvez ela encontre uma saída
Para todos estes anos horríveis - desaparecer.
Pergunte-me se há um Deus lá nos céus,
prá onde ele foi no meio da vergonha que ela sentiu?
Pergunte-me se há um Deus lá nos céus,
Não vejo misericórdia e ninguém aqui embaixo está chamando
Ninguém está chamando.

Agora ela vê no espelho o rosto de uma linda mulher.


Não é mais uma menina assustada,
a qual já se foi sem deixar vestígio.
Ela ainda deixa a luz acesa no corredor.
É difícil pegar no sono
Ela ainda se rasteja para ir para a cama
agindo como um rato.
Lá no fundo ela ainda escuta um estalo no chão da casa.
Mas não existe mais ninguém para prejudicá-la
Ela está finalmente sã e salva.
Pois encontrou paz.

Pergunte a ela como sabe que existe um Deus no céu,


prá onde ele foi no meio da vergonha que ela sentiu?
Pergunte a ela como sabe que existe um Deus no céu,
Ela disse que sua misericórdia lhe está dando vida de novo1.

Você sofreu um dano, mas tem muita esperança. A misericórdia de Deus não elimina o dano, pelo menos
não nesta vida, mas relaxa a alma e lhe oferece a esperança que purifica e liberta. Permita que a dor do passado e o
árduo trabalho do processo de mudança criem uma nova vida em você, e sirvam como uma ponte sobre a qual outra
vítima possa caminhar da morte para a vida. É uma honra acima de qualquer comparação ser parte do processo de
nascimento de uma nova vida e esperança, e uma alegria maior que palavras ver o mal e seu dano serem destruídos.
Eu aguardo por aquele dia e me regozijo com você.

121
NOTAS

Prólogo
Em busca da cura

1. Alguns cristãos crêem que o Espírito Santo, o espírito da verdade, nos torna santos sem que tenhamos
que olhar para a dura realidade de como pessoas têm pecado contra nós e como nós retribuímos este
pecado. Entretanto, quando as Escrituras nos dizem para "examinarmos a nós mesmos", elas estão nos
conclamando a fazer um auto-exame, uma reflexão sobre nós mesmos que inclua mas que não se limi-
te a ver nosso pecado.

Auto-avaliação não é um modismo do século XX. Um dos apelos mais fortes ao exame de si mesmo
vem do puritano Jonathan Edwards. Ele afirmou o seguinte: "todo aquele que tem para si a esperança e
opinião de que são devotos devem ter muito cuidado e avaliar se os alicerces estão firmes. Aqueles que
estão em dúvida devem lutar incansavelmente até que o assunto seja resolvido" (Jonathan Edwards,
The Works of Jonathan Edwards, vol. 2, Carlisle, PA: Banner of Truth Trust, 1987, p. 174).

Ele argumenta que "muitos homens não vivem de acordo com a Palavra de Deus, além de não serem
sensíveis a ela; é difícil fazer com que se voltem à Palavra porque a mesma luxúria que os leva ao
caminho do mal também os torna cegos" (p. 174). Ele oferece uma série de maneiras de se ver a
questão do modo correto, as quais incluem conhecer a Palavra, conhecer-se a si mesmo, ouvir a
opinião de outros e olhar as faltas dos outros com o objetivo de torná-las um espelho no qual se possa
ver os próprios pecados (pp. 173-185).

A auto-avaliação cobre o passado e o presente. Não se trata de uma busca por seu "eu" interior com o
objetivo de criar um vínculo com sua criança interior. A auto-avaliação consiste em penetrar na
tristeza da vida, no desapontamento com todos os desejos terrenos e na escuridão do coração humano
com o objetivo de compreender mais claramente a necessidade do Evangelho e o prazer que ele traz.

Cristãos se recusam prontamente a olhar com clareza para a vida. Um olhada honesta é algo tão
amargo e requer confiança ainda mais profunda em Deus do que talvez estejamos inclinados a ter. O
cerne de toda a recusa é a incapacidade de crer em Deus no meio de um sofrimento profundo e
inexplicável. A auto-avaliação esmiuça esta tendência, entre outras, de modo a levar o coração de
alguém a atender ao mais alto chamado: render-se aos propósito de Deus.

2. Citado em Bold Love: "Aceita-se comumente que perdoar alguém é um evento único. Isto é entendido
como a liberação de amargura e ódio e o retorno a um estado de bondade e compaixão. Geralmente
para falar do perdão usa-se o verbo no passado: 'fui tão machucado por meu pai que só o perdoei
depois de anos', em vez de vê-lo como um processo dinâmico do Espírito de Deus.

"Parece que muitos experimentam um momento especial de transição, em que se passa de um período
de acúmulo de amargura para a libertação da raiva. Este momento é visto como aquele em que o
perdão acontece; portanto, tudo está acabado e resolvido. Perdoar alguém de modo real pode exigir a
ocorrência de um momento em que o clima se transforma, semelhantemente ao processo que ocorre na
conversão de uma pessoa, quando passa da morte para a vida. Entretanto, seria ingênuo pensar que
perdoar alguém por toda uma vida de amargura se resuma a um simples momento. O que ocorre é que
cada vez que se encara um dano causado pela atitude de outra pessoa, é necessário aprofundar o
perdão para que a situação seja resolvida. Perdoar alguém é uma atitude constante, um processo que a
cada vez se aprofunda mais, ao invés de algo do tipo 'de uma vez por todas'.

"Outra perspectiva do perdão que é comumente ensinada é a do 'perdoe e esqueça'. O conceito vem de
duas passagens de destaque: Salmo 25:7 e Jeremias 31:34.0 salmista pede que Deus não se lembre de
seus pecados da juventude mas que, ao contrário, lembre-se de seu amor e misericórdia. Na passagem
de Jeremias Deus diz: 'perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei'. Os
cristãos são chamados a serem como Deus, que não se lembra do pecado, mas perdoa a iniqüidade...

"Há alguns problemas graves com a idéia de que Deus é 'esquecido'. Primeiramente, Deus se lembra
do pecado. Aprendemos que todos nós compareceremos perante o Senhor e receberemos a recompensa
'segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo' (2 Co 5:10). Está claro que Deus se lembra
do pecado e da justiça, e usa a evidência para determinar nossa recompensa.

"Um segundo problema envolve a criação de uma metáfora a partir dessa metodologia. O
'esquecimento de Deus' é uma metáfora, ou figura de linguagem. Parece que muitos entendem como
metáforas as frases que nos dizem que nossos pecados são removidos para tão longe 'quanto dista o
oriente do ocidente' (SI 103:12) e que Deus 'lançará os nossos pecados nas profundezas do mar' (Mq

122
7:19). Porém a perda de memória de Deus vista nestas passagens é entendida, de algum modo, como
um fato.

A metáfora é como uma maravilhosa pintura impressionista que retrata uma cena no mar. Ela é
dramática, cheia de vida, mas não tem a intenção de ser considerada uma representação precisa e
literal da coisa ali retratada. Imagine o absurdo de alguém querer descobrir o exato local onde o
ocidente se transforma em oriente para que ali, naquele preciso ponto, pudesse depositar nossos
pecados. Do mesmo modo, é absurdo tomar a metáfora do esquecimento e torná-la um requisito
tangível do perdão.

"Bem, então qual é o sentido da metáfora do esquecimento? O que o esquecimento de Deus pode nos
ensinar com relação ao esquecimento dos pecados que outros cometeram contra nós? As Escrituras
usam muitas metáforas e histórias para ilustrar o significado do perdão. O tema central é que uma
imensurável dívida que tínhamos para com o Mestre foi quitada. A quitação da dívida liberta o
devedor de sua prisão eterna, da vergonha e da destituição. A única dívida que permanece é a de
oferecer este amor redentor a outros (Mt 6:9-15; 18:21-35). Perdoar aos outros significa cancelar a
dívida com o objetivo de abrir uma oportunidade para o arrependimento e a restauração de um
relacionamento interrompido" (Dr. Dan B. Allender e Dr. Tremper Longman III, Bold Love, Colorado
Springs, CO: NavPress, 1992, pp. 158-160).

3. Negação é uma palavra da moda nos dias de hoje, o que faz com que algumas definições sejam
importantes. Os escritores Ganzarain e Buchle definem a negação como uma tentativa de "focar-se no
lado brilhante da vida... [isto] faz com que a vida pareça 'cor-de-rosa', através da eliminação do
reconhecimento daqueles aspectos dolorosos da realidade psíquica, como a ambivalência em relação a
objetos perdidos e a dependência deles" (Ramon C. Ganzarain e Bonnie J. Buchle, Fugitives of Incest,
Madison, CO: International Universities Press, s.d., p. 87).

Negação é a escolha por ver-se a realidade através de uma grade ou de um esquema que ignora ou
impede seleti-vamente a exibição de informações que não confirmariam nosso desejo de paz. Ao ficar
sabendo que um amigo fez críticas negativas sobre mim, a negação deveria incluir (mas não estar
limitada a) a interpretação consciente do evento a partir da perspectiva da impossibilidade: "Ele não
seria capaz de fazer isso. Deve ser mentira".

Por outro lado, assumir que ele falou mal de mim é outra forma de negação. Presume-se que o pior
deve ser verdade. Assim, podemos negar a dor, ou o prazer ou a esperança. Em seu cerne, a negação
envolve o desejo de remover ambigüidade e ambivalência. É o compromisso de ver as coisas de uma
forma que acabe logo com a questão, ao invés de viver com incerteza.

Vemos a ocorrência deste fenômeno entre os líderes religiosos que enganam o povo de Deus dizendo
"paz, paz; quando não há paz" (Jr 6:14). Enquanto não tivermos nenhuma confirmação de que o
pregador acredita naquilo que está dizendo, fica claro que o profeta está inquietando as pessoas pela
exposição de sua propensão a acreditar que as coisas estão melhores do que realmente são. Isto é
negação.

O que isto tem a ver com abuso sexual? Para a imensa maioria das vítimas de abuso sexual que retém
alguma lembrança dos eventos, negação significa negar que os eventos tenham sido abusivos ou muito
prejudiciais ou que tenham afetado aquilo que as vítimas fazem hoje. Para algumas vítimas, a negação
vai tão longe que chegam até mesmo a negar que os fatos tenham ocorrido.

Quando uma pessoa chega ao ponto de mentir, negando a ocorrência de um fato com o objetivo de
suprimir a verdade, saímos do campo da negação para entrarmos em algo mais profundo, a supressão
forçada da verdade. Vejo isto como uma forma de separação ou dissociação. Isto será tratado na nota 7
do capítulo 4.

Pelo fato de a negação ser um problema muito sério, alguns conselheiros pressionam seus clientes para
saber o que é realmente verdade. Eles afirmam que o cliente "sente" os efeitos do abuso ou "encara" a
profundidade dos danos.

Outra abordagem assevera que o cliente não pode chegar à verdade sem a ajuda e pressão do terapeuta.
Nada poderia estar mais além da verdade. Não precisamos forçar alguém a dizer a verdade a não ser
que esta questão precise ser levantada: "O que o levaria a dizer uma mentira com relação a algo que é
real?".

Perguntas proféticas aliadas à ação do Espírito Santo - e não à pressão do terapeuta - é que constituem
o fundamento sobre o qual se constrói a mudança. Considerarei o processo terapêutico em maiores
detalhes na nota 1 do capítulo 8.

123
Prefácio da edição revisada
Uma questão de lembrança

1. Richard Ofshe e Ethna Watters, Making Monsters: False Memories, Psycotherapy, and Sexual Hysteria
(New York: Scribner's Sons, 1994)

2. Elizabeth Loftus e Katharine Ketcham, The Myth of Repressed Memory (New York: St. Martin's Press,
1994), p. 64

3. Lenore Terr, Unchained Memories (New York: Basic Books, 1994), p. 53. Terr se refere a um estudo de
Linda Meyer Williams, "Adult Memories of Childhood Abuse: Preliminar Findings from a Longitudinal
Study", The Advisor(American Professional Society on the Abuse of Children), verão de 1992, pp. 19 a 21.

4. Friderike Heuer e Daniel Reisberg, "Emotion, Arousal, and Memory for Detail", in Sven-Ake Christianson,
ed., The Handbook of Emotion and Memory: Research and Theory (Hillsdale, NJ: Erbaum Associates,
1992).

5. Loftus e Ketcham, pp. 73-101.

6. Loftus e Ketcham, pp. 73-101.

Capítulo 1
A realidade de uma guerra: encarando a batalha

1. Alguns leitores podem se sentir incomodados com a idéia de uma batalha entre cristãos. Sem dúvida, há
supostas vítimas que travaram uma sangrenta batalha contra suas famílias, em nome da honestidade e da
justiça. Não estou defendendo a amargura, a comiseração ou a idéia de tratar as supostas vítimas como
culpadas até que se prove o contrário.

Quando nos referimos ao sistema judiciário, onde confrontamos a palavra de uma pessoa com a de outra,
sem que haja fatos que possam corroborar a posição de um lado ou de outro, creio que é necessário
mantermos, tanto nas igrejas quanto nos tribunais, a máxima de que alguém é inocente até que se prove o
contrário. Tragicamente, isto abre a possibilidade de que alguém que seja culpado possa escapar da
punição, mas prefiro errar por não punir um culpado do errar punindo a todos os inocentes.

Obviamente isto não é tão fácil de ser defendido quando a pessoa que está sendo acusada de abuso é
alguém da liderança da igreja. Sem qualquer hesitação, a alegação deve ser investigada de modo exaustivo,
mas o padrão de primeiramente considerar a pessoa inocente deve ser mantido, to-mando-se o cuidado de
também não desmoralizar a pessoa que fez a acusação colocando em dúvida suas declarações.

Esta situação exige que os mais experientes da igreja investiguem a história de ambas as partes, suas
alegações, a natureza do abuso e como ele se tornou público, e o coração tanto do acusador quanto do
acusado.

É necessário chegar-se a uma decisão, ainda que corramos o risco de que a verdade não seja revelada até
que cheguemos ao céu. Considerar a pessoa "inocente" significa que não foram obtidas informações
suficientes para que nos convencêssemos do contrário. Neste caso, a vítima pode se sentir irada, mas clamar
por justiça neste momento é errado. Exigir que se considere a vítima sincera fere os mais profundos
fundamentos de nossa nova visão de justiça. Por esta razão, a confrontação de um agressor deve ser feita
somente após muita oração e avaliação dos riscos. Falarei mais sobre confrontação na nota 6, do capítulo
13.

2. É claro que suspeitas de um abuso sexual devem basear-se em algumas evidências. Se você não tem
lembranças de um abuso, através das quais pudesse conhecer o fato ocorrido, e se também não há
evidências externas (incluindo, mas não apenas, confirmação por parte de outras pessoas ou de registros
médicos), então é prudente ter cautela. Qualquer sintoma ou grupo de sintomas pode estar relacionado a
outras causas que não abuso sexual. Não existe uma relação unívoca (de um para um) entre um sintoma e o
abuso sexual. Infelizmente, alguns se apressam em concluir que uma pessoa sofreu abuso pela presença de
certos sintomas, enquanto outros demoram absurdamente para admitir a existência de um abuso, mesmo
diante de informações suficientes.

É fundamental que sejamos ao mesmo tempo ágeis e precavidos ao nos apegarmos a uma verdade. Eu
trabalho com a seguinte premissa: se uma cliente não enfrenta seu presente, incluindo seu pecado, seus
desejos e os efeitos da interação dos relacionamentos do aqui e agora, então não se pode levar em

124
consideração muitas das coisas que ela diz sobre suas lembranças, sua compreensão ou uso do passado. O
presente é a porta para o passado, e o passado é uma, não a luz do presente.

3. Diana E. H. Russell, The Secret Trauma: Incest in the Lives of Girls and Women (New York: Basic Books,
1986), p. 99

4. Russell, p. 143.

5. Há uma enorme controvérsia sobre esta categoria. Todos os maiores pesquisadores deste campo, incluindo
Finkelhor, Russell e Courtois, reconhecem que o abuso sexual não está limitado ao contato físico. Atitudes
como exibicionismo e sedução verbal são quantificáveis e facilmente comprovadas. E quanto ao abuso
sexual psicológico? Ele pode incluir outras formas de abuso sem contato, mas é ainda menos aparente e,
portanto, mais sujeito à má interpretação.

Será que um pai que abraça sua filha todo dia, várias vezes ao dia, está carente de um afeto ou se desviou
para o campo do abuso sexual psicológico? Sem outras informações, é simplesmente impossível chegar-se a
uma conclusão. E, ainda que outras informações confirmem que o pai tenha uma carência de manifestação
de afeto e contato físico com sua filha, é prudente que o terapeuta jamais diga à filha com absoluta certeza
algo como "você está sofrendo abuso sexual". É mais apropriado dizer: "Você se sente desconfortável com
a natureza deste envolvimento, ou me parece que você o qualifica como algo impuro".

Como terapeuta, não posso proferir um julgamento final. Devo encorajar minha cliente a conviver - como
faço - com a ambigüidade e a incerteza dos motivos e interações humanas. Mas somos levados a observar e
a qualificar certos aspectos do comportamento humano através da falta ou da natureza de alguns frutos.

É perfeitamente possível que um pai ame mais uma filha do que sua esposa. Em qual situação alguém
argumentaria que a distorção dos padrões e desígnios de Deus não apresenta consequências? Aceitar isto
implica que a distorção dos padrões divinos não apresenta consequências pessoais, interpessoais e
teológicas. Isto fere o princípio de que "você colhe aquilo que plantou". Portanto, com muita cautela, pode-
se considerar que o abuso sexual psicológico gera danos semelhantes aos causados pelas outras formas de
abuso.

Quando se considera que abusos cometidos sem contato físico causam danos, pode parecer-nos que eles
causam menos danos que aqueles que envolvem contato, mas é importante ressaltar que eles nunca deixam
de causar algum tipo de prejuízo. (Veja David Finkelhor, Child Sexual Abuse, New York: The Free Press,
1984; Russell, The Secret Trauma).

6. A referência a múltiplos agressores é encontrada na pesquisa de Meiselman numa proporção de 13


ocorrências a cada 58 casos (Karin Meiselman, Incest (San Francisco: Jossey-Bass, 1978). Russell
reconhece que é provável que haja um número muito maior de mulheres que procuram terapia e que
tenham enfrentado experiências de múltiplos abusos do que a quantidade registrada em pesquisas
aleatórias (Russell, p. 387). Vinte e quatro mulheres de seu universo de pesquisa passaram por experiências
de incesto nas quais houve mais de um agente. Setenta por cento relatam que os efeitos são devastadores
(p. 154).

7. Finkelhor escreve: "... homens constituem 95% dos agressores em casos que envolvem meninas, e 80% dos
casos de abuso contra meninos" (p. 12).

8. Veja Finkelhor, pp. 33-53; Russell, pp. 215-356; Mary de Young, The Sexual Victimization of Children
(Jefferson, NC: Mcfarland & Company, Inc., 1982).

9. Christine Courtois, Healing the Incest Wound (New York: W. W. Norton & Co., 1988)

10. Russell descobriu que a forma mais traumática de abuso é aquela consumada por um pai, seja biológico ou
adotivo. Alguns pesquisadores achavam que o abuso cometido pelo pai biológico teria consequências mais
graves do que o executado pelo pai adotivo, mas os estudos indicaram que o dano é o mesmo (Russell, pp.
148-149).

Capítulo 2 O inimigo: pecado e vergonha

1. Alguns leitores podem ser levados a pensar que vergonha é uma categoria inventada pela psicologia
moderna. E verdade que a psicologia secular fez com que ela se tornasse um tema para grandes discussões e
pesquisa nos últimos quinze anos, mas é, primeiramente, um assunto que merece uma séria reflexão à luz
da Bíblia. Existem nela mais referências à vergonha do que a qualquer outra emoção. Não é de se espantar,
pois, que tanto antes quanto agora a cultura do Oriente Médio esteja fundamentada na alternância entre
honra e vergonha. Uma discussão mais aprofundada sobre a vergonha pode ser encontrada no livro The Cry

125
of the Soul, do Dr. Dan B. Allender e Dr. Tremper Longman III (NavPress, 1994).

2. C. S. Lewis, The Great Divorce (New York: Macmillan, 1978), pp. 61-62.

3. A.W. Tozer, The Pursuit of God (Camp Hill, PA: Christian Publications, Inc., 1982), p. 22.

Capítulo 4
A zona de batalha: estratégias de abuso

1. Diana E. H. Russell, The Secret Trauma: Incest in the Lives of Girls and Women (New York: Basic Books,
1986), p. 219.

2. O estudo de Russell comenta os efeitos do abuso de modo mais eficiente que qualquer outro estudo
anteriormente publicado. Veja Russell, pp. 117-214.

3. Mais um vez, os melhores estudos disponíveis para que se compreenda a natureza do abuso, incluindo o
agressor e a natureza do lar da vítima, podem ser encontrados em Finkelhor, Child Sexual Abuse, e em
Russell, The Secret Trauma.

4. Meu propósito ao esquematizar o tipo de lar que dá condições à ocorrência de um abuso ou que vive um
contexto onde o abuso não pode ser revelado não é encorajar os leitores a atacarem seus pais com ódio e de
modo negligente. Contudo, pais honestos e bem-intencionados não recearão ouvir, discutir e lamentar suas
falhas. Além do mais, é verdade que crianças que vivem em lares muito bem ajustados são vítimas de
empregados, vizinhos ou parentes.

O fato de uma criança ter sofrido abuso não significa que ela não recebeu a devida atenção em sua casa.
Entretanto, se a criança não fala com seus pais sobre o abuso sofrido, é porque ela não tem nenhuma razão
para esperar compreensão e cuidado de seus pais. Pesquisas indicam que menos de 33 por cento de crianças
vítimas de abuso contam a seus pais logo após o fato ter ocorrido (veja Finkelhor, p. 93).

É freqüente o agressor ameaçar ou instruir a criança a não contar nada a seus pais, mas existe o lado de a
criança não acreditar que será bem recebida por seus pais quando falar sobre o fato. Pais e vítimas devem
debater este doloroso assunto sem pressupor que os pais causaram o abuso ou que tenham deixado de fazer
algo que poderia ter evitado tal ocorrência.

É tão complicado encontrar as causas e os efeitos da insanidade do abuso que se torna mais fácil culpar
alguém do que acreditar que isto foi o fruto de uma semente plantada pelo Maligno. Tragicamente, é mais
fácil e mais satisfatório colocar a culpa no pai, nos homens ou nas mulheres de modo geral ou em qualquer
outra pessoa do que sentir verdadeiro e legítimo ódio pela causa real de nossa tristeza e dano. Os cristãos
são chamados a odiar o mal e a se apegarem ao bem, ao invés de sucumbirem ao tentar classificar alguém
ou um grupo como a encarnação do mal.

5. Meiselman detalhou a tragédia da filha que foi escolhida para ser a substituta da esposa e a criança adulta.
Veja Karin Meiselman, Incest (San Francisco, CA: Jossey-Bass, 1978).

Há outras influências da família. Um estudo descobriu que quando o aconchego paterno ou materno é
construído a partir de histórias de abuso sexual, os efeitos do abuso são significativamente abrandados. Veja
T. W. Wind e L. Silvem, "Parenting and Family Stress as Mediators of the Long-term Effects of Child
Abuse", Child Abuse and Neglect, Maio de 1994, vol. 18 (5), pp. 439-453.

Famílias de vítimas de abuso são, infelizmente, mais rígidas, autoritárias, frias e insuportáveis para a
vítima. Veja David Carson, Linda Gertz, Mary Ann Donaldson e Stephen Wonderlich, "Intrafamilial
Sexual Abuse: Family-of-origin and Family-of-Procreation Characteristic of Female Adult Victims",
Journal of Psychology 125 (5), pp. 579-597.

6. Estudos mostram que pessoas que sofreram abuso sexual freqüentemente têm problemas para estabelecer
limites. Veja Henry Cloud e John Townsend, Boundaries (Grand Rapids, Ml: Zondervan, 1992). Outro
estudo demonstrou que mulheres que sofreram abuso sexual estabelecem limites confusos entre as diversas
gerações, como inversão do papel de pai e filho, maior interesse em si própria do que em seus filhos e mais
confiança nos filhos quanto a apoio emocional (Linda Burkett, "Parenting Behaviors of Women Who Have
Been Sexually Abused as Children in Their Family of Origin", Family Process, Dezembro de 1991, vol. 30)

7. Divisão é um termo usado na psicologia que significa "separar a realidade em tudo o que é bom e tudo o
que é ruim". Trata-se dos primeiros estágios organizacionais da criança. Margaret Mahler, em seu trabalho
The Psychological Birth of the Infant, notou que as crianças, num primeiro momento, vêem a si mesmas e
aos outros como sendo totalmente bons ou totalmente ruins. À medida que a individualidade se desenvolve,

126
elas tornam-se capazes de aceitar melhor a questão da ambivalência e ver a vida menos preta e branca, e
mais ambígua e cinza.

Adultos que tenham o que se chama de "personalidade limítrofe" usam a divisão como uma defesa. Eu
argumentaria que pessoas dogmáticas, sejam pendentes à esquerda ou à direita, também fazem o mesmo
uso da divisão. O dogmatismo não envolve a questão do objeto em que a pessoa crê, mas como ela crê
naquilo. Dogmatismo ou processo de crença inflexível se relaciona com a imaturidade (Dan Allender The
Effect of Ego Development on Learning Empathy Though a Microcounseling Course with Fundamentalist
Counseling Students, dissertação de doutorado não publicada, East Lansing, Universidade Estadual de
Michigan).

A divisão é outra forma de falar sobre a distorção da verdade causada por um desejo de ordem,
confinamento e controle. É normalmente mantida a serviço do controle da ansiedade.

As Escrituras desprezam conscientemente o dogmatismo pelo uso de histórias. Praticamente três quartos da
Bíblia são escritos de uma forma que não podem ser facilmente incluídos na estrutura de cumprimento da
lei encontrado no conservadorismo religioso cios fariseus. O Senhor Jesus usou um paradoxo para resumir
o fundamento de seu ensino sobre vida cristã: deve-se perder a vida para encontrá-la. E aquele que tentar
encontrá-la, vai perdê-la.

O paradoxo e a narrativa não são a forma predileta de obter conhecimento daqueles que são dados ao
dogmatismo do preto ou branco. Usar a divisão para defender-se da verdade apenas incrementa a paranóia e
o isolamento. Podemos ver a rejeição de Deus à paranóia e ao isolamento pessoal nas histórias dc Jonas
enviado a Nínive (a capital do maior inimigo de Israel, a Assíria) e de Pedro enviado a Cornélio (um oficial
do odiado exército romano).

A divisão é uma defesa mais elementar que a dissociação, mas segue o mesmo caminho de encobrir a
verdade em função da injustiça. A dissociação tem início quando a realidade é tão amarga ou traumática
que não a podemos suportar, o que faz com que nos desconectemos daquilo que é real e fujamos para um
mundo ilusório de nossa própria criação.

O poder da dissociação reside no fato de englobar tanto a fuga quanto a imaginação. A fuga se relaciona
com uma recusa em acreditar que, em algum momento ou em uma dada situação, Deus ou o bem serão
achados. Envolve também a poderosa experiência de construir um mundo novo, do nosso jeito e sob nosso
controle.

Freqüentemente se considera que a dissociação é uma forte defesa contra o horror do abuso sofrido. Briere
e Runtz descobriram que vítimas de abuso sexual apresentavam níveis significativamente mais altos de
dissociação, distúrbios do sono, dificuldades na área sexual, angústia e tensão do que aqueles que não
haviam sofrido abuso. Veja Gail Wyatt e Gloria Powell, ed., Lasting Effects of Child Sexual Abuse
(Newbury Park, CA: Sage Publications, 1988), p. 89.

É importante destacar que a divisão e a dissociação são sintomas normais do processo de desenvolvimento
cognitivo da infância. Todas as crianças iniciam a organização de seu mundo através de categorias simples
e globais de bom-mau, certo-errado e meu-seu. À medida que o tempo passa, esta organização precisa dar
lugar a uma compreensão mais acurada da ordem de Deus e da natureza da desordem.

Isto também é verdadeiro com relação à dissociação. Ela é uma forma de atenção seletiva e de imaginação.
Sem estas capacidades, seríamos incapazes de aprender, fazer correlações ou desenvolver a intuição nos
relacionamentos. Mas os dons dados por Deus podem ser usados para o mal. Uma pessoa adulta que age
segundo as características da divisão ou dissociação está usando as habilidades dadas por Deus para
propósitos considerados inferiores à organização ou imaginação. Está usando estas aptidões para requerer
controle e obediência.

Divisão e dissociação são formas de suprimir a verdade, de tentar afastar a soberania de Deus e de presumir
que agora ela está sob o controle do homem. Por esta razão, nunca vou me referir à divisão ou à dissociação
como os dons de sobrevivência dados à vítima. Pode parecer que elas tenham ajudado a pessoa a suportar
um terrível peso, mas sua prática não é confiável nem nos leva a Deus - portanto, não são apenas erradas,
mas perigosas.

Será que eu diria a uma criancinha ou até mesmo a um adolescente algo como "pare de pecar - chega de
dissociar, confie em Deus"? Com certeza, não. Eu não rotularia isto como pecado. Se adultos já têm
problemas para entender as questões da dissociação e da divisão, quanto mais uma criança ou adolescente.
Mas eu encorajaria a criança e o adolescente a falarem sobre sua dor de verdade e a desenvolverem
maneiras mais bíblicas e saudáveis de pensar, ao invés de se refugiarem no paraíso de calma da dissociação.

127
Capítulo 5
Impotência

1. Um exemplo do tipo de divisão que pode se tornar real numa vítima de abuso pode ser encontrado nas
seguintes fontes: Marilyn Van Derbur in Lenore Terr, Unchained Memories (New York: Basic Books,
1994), pp. 124-143; J. Christopher Perry, "Defense Mechanism Rating Scale" em G. Valliant, ed., "Ego
Mechanisms of Defense: A Guide for Clinicians and Researchers" (Washington, DC: American Psychiatric
Press, 1992).

2. Para relembrar questões de supressão de lembranças traumáticas, veja o prefácio "Uma Questão de
Lembrança".

3. A idéia de que o corpo será descartado na morte era comum na cultura grega, mas estranha ao Novo e
Antigo Testamentos. Veja, por exemplo, 1 Coríntios 15:12-58 e 2 Coríntios 5:1-5, em que Paulo descreve
um corpo ressurreto como bastante diferente de nossos corpos atuais, mas ainda assim um corpo. Não
desejamos ser almas despidas (ou sem um corpo), mas sim sermos revestidos por corpos celestiais. A idéia
de ter um corpo ressuscitado é inapelável para algumas vítimas de abuso e, na verdade, algumas igrejas
nem sequer mencionam esta questão.

Reclamar para si o corpo não é meramente sentir prazer ou obter a falsa noção de propriedade que diz "eu
tenho o direito de...". Ao invés disto, reclamar o corpo libera a pessoa para que ela possa servir tanto a Deus
quanto aos outros, na sensualidade e prazer do coração e também do corpo. Um exemplo bastante
apropriado é o poder que a música tem de tocar o coração. Seu trabalho é feito porque, em parte, ela toca o
corpo também. Este é um dos poucos aspectos da adoração que permite que nos unamos em resposta a Deus
de uma maneira ligada à mente e ao pensamento. A música desperta o corpo para as emoções e alcança as
profundezas de nosso pensamento com uma paixão que leva para mais perto do dom da adoração. Veja
Anthony Storr, Music and the Mind (New York: Macmillan, 1992).

4. Não quero dizer que todas as pessoas que se destacam em suas áreas foram vítimas de abuso sexual.
Contudo, quero dizer que os workaholics (viciados em trabalhos) inverterados estão constantemente
empenhados em obter sucesso e poder. Além disso, estão sempre “fugindo” de alguma coisa. Dedicação
exagerada e doentia a um objetivo não é um caminho dos mais honrosos para alguém que deseja viver a
vida cristã, o que leva o workaholic perguntar: O que estou buscando? Do que estou fugindo? Perguntas
honestas vão abrir as possibilidades de se verificar que há algo mais do que simplesmente dedicação ao
trabalho e amor ao emprego.

5. Há muitos esforços em explicar a questão da vitimização mas nenhum deles foi pesquisado. A realidade da
vitimização foi muito bem documentada. Veja Finkelhor e Russell.

6. Estes são padrões comuns a mulheres que sofreram abuso sexual mas, novamente, devem-se fazer as
mesmas considerações anteriores. Ser casada com um workaholic ou um homem passivo não é sinal de quel
alguém sofreu abuso sexual no passado. É um sinal evidente de que há alguma coisa errada em sua
proximidade com Deus e, em conseqüência, com a vida. É sinal de que algo está errado e nosso passado
certamente tem o poder de moldar nossa visão de vida. Portanto, estes sintomas não devem ser vistos como
“provas” de abuso e sim como sinais de fuga de alguma coisa. Esta “alguma coisa” sempre termina em
Deus.

Capítulo 06
Traição

1. A correlação entre abuso e falha da família produz culpa e leva a um julgamento desnecessário em muitas
famílias. Permita-me esclarecer minha suposição. Estudos têm mostrado que a ocorrência de um incesto
indica uma profunda mágoa na família. O abuso não é normal e não indica que apenas a criança está errada.
Existem diversas influências familiares que estabelecem este tipo de dinâmica. Veja Patrícia Beezley
Mrazek e Arnon Bentovim, "Incest and the Dysfunctional Family System", in Patricia Beezley Mrazec e C.
Henry Kempe, Sexually Abused Children and Their Families (New York: Pergamon Press, 1987).

Quando o agressor não é membro da família, as perguntas mais importantes a serem feitas são: "A criança
falou sobre o assunto? A criança se sentiu confortável em pedir proteção?". Se a criança não falou nada,
então é necessário que os pais façam outra pergunta: Por que não? O que a impediu de pedir ajuda? Então,
se as respostas forem encontradas, o que pode ser feito com relação a eventos que aconteceram há vinte ou
trinta anos?

Por que estas perguntas são importantes? Simplesmente porque padrões de pecado comumente não
desaparecem por si próprios sem que sejam encarados e confessados como pecado. Não desejo que nenhum

128
pai ou mãe fique se lamentando quanto à sua falha: quero que todos nós lutemos contra o pecado até que a
graça de Deus nos cubra e nos leve até à maravilha do perdão. Lutar contra o passado é ver o presente de
modo mais claro. As características que levaram uma criança a não se sentir segura para pedir ajuda há
vinte anos ainda podem estar em operação nos dias de hoje. As falhas do passado devem ser encaradas ten-
do o hoje como ponto principal.

Finalmente, pais cujos filhos terminam por contar que sofreram abuso fora de casa têm o privilégio de
servir como fonte de grande conforto, consolação e esperança. Não creio que as feridas serão tão profundas
ou a propensão a causar dano seja tão forte quando a criança se sente segura o bastante para contar. Os pais
dessas crianças não devem ater-se à questão de que o abuso possa significar a presença de problemas na
família. O abuso ocorre para famílias boas e ruins, indistintamente. O evento, ainda que trágico e doloroso,
deve provocar uma reflexão honesta e uma abertura sobre o que Deus deseja fazer na vida e na família de
alguém.

2. Normalmente os pais demoram a admitir que não foram uma opção segura ou que até mesmo não estiveram
disponíveis para seus filhos no momento em que estes sofreram abuso. Embora falsas acusações possam
ocorrer, um pai de coração aberto vai levantar a possibilidade de que seu filho possa ter pecado, ao invés de
assumir que ele esteja deliberadamente fazendo algo para magoá-lo. Se o pai discute ou não acredita no
irmão mais velho, a criança provavelmente vai confirmar aquilo que já temia: ninguém vai acreditar em
mim.

Mas será que isto significa que os pais devem desprezar qualquer tipo de discussão, questionamento ou até
o direito de ter dúvidas? É óbvio que não. O trágico caso de Paul Ingram, acusado de abuso por suas filhas,
foi uma desgraça nacional, na qual ele foi precipitadamente forçado a confessar outros crimes com a
alegação de que estava "reprimindo" suas lembranças. Uma vez que admitisse seus crimes, disseram-lhe
que nunca mais se recordaria de sua participação nestes crimes satânicos.

Este é um caso de "crendice" que põe de lado qualquer pensamento crítico, questionamento e dúvida. É
imperativo que sintamos pena e tristeza pelo filho de alguém que clama dizendo ter sofrido abuso. Mas, ao
mesmo tempo, é imperativo perguntar à criança: "Como e quando estas lembranças voltaram à tona? Essa
lembrança ou tudo isso surgiu há pouco tempo?".

Se as lembranças voltaram espontaneamente, então eu suspeito que elas possam ser mais verdadeiras do
que se tivessem surgido após uma sessão com um terapeuta que tenha usado técnicas dissociativas para
"trazer de volta a verdade". Se uma pessoa crê que recuperou as lembranças em terapias, sugiro que leia o
livro de Michael D. Yapko, Suggestions of Abuse (New York: Simon and Schuster, 1994), e Elizabeth
Loftus e Katherine Ketcham, The Myth of the Repressed Memory (New York: St. Martin's Press, 1994). Se
a pessoa que sofreu o abuso está totalmente aberta à verdade, ela não pode se recusar a ler as informações
importantes e de reflexão que são fornecidas por estes autores quanto ao potencial do desenvolvimento de
falsas lembranças através de técnicas altamente suspeitas de recuperação precisa de lembranças.

3. A inabilidade em compreender os sentimentos de um filho não é necessariamente um sinal de abuso sexual.


Algumas pessoas estão menos interessadas ou são menos capazes de perceber o que alguém possa estar
sentindo. Porém uma pessoa que está acostumada a tomar decisões que envolvem pessoas no trabalho e não
o faz em casa deveria pelo menos perguntar o que mais estaria bloqueando sua intuição. O motivo do
bloqueio pode não ser um abuso sexual, mas provavelmente é algo que requer dependência, humildade e
honestidade.

Reitero novamente que não é justo dizer que se estes sintomas existem, eles são a confirmação de um abuso
sexual no passado. Mas os sintomas realmente nos levam a uma atitude de abertura, pedindo a Deus visão e
sabedoria, e ponderando sobre os eventos que podem ser relembrados de modo a perguntar: "Há alguma
coisa escondida ou injusta que esteja violando os propósitos de Deus?".

Capítulo 7
Ambivalência

1. Um efeito do abuso é a ocorrência de distúrbios do sono e pesadelos. Veja John Briere e Marsha Runtz,
"Post Sexual Abuse Trauma", em Gail Wyatt e Gloria Powell, ed., Lasting Effects of Child Sexual Abuse
(Newbury Park, CA: Sage Publications, 1988), pp. 85-100.

Os sonhos podem ter ou não conexões com o passado. É impossível interpretar os sonhos fora do contexto
da vida completa da pessoa. Não é possível dizer "isto é uma reminiscência do passado; isto realmente
ocorreu com você" baseando-se somente no sonho. Por outro lado, é errado assumir que o sonho é nada
mais que um símbolo ou os impulsos irracionais das ondas cerebrais que criam filmes noturnos agradáveis
ou perturbadores.

Para recordar o passado através dos sonhos, devemos ser abertos, pesquisadores e manter o espírito de

129
suspeita típico de um cientista. Melhor ainda é ver os sonhos como um meio de aplainar o terreno de nossa
vida e como o assunto de nossas lutas atuais.

2. Não há muitas pesquisas sobre os parceiros de vítimas de abuso sexual. A maioria das pesquisas têm sido
feitas na área da (in)satisfação sexual. Dados indicam que 67 por cento das mulheres que sofreram abuso
sexual tiveram orgasmo, mas 56 por cento diz que sentiu desconforto durante a prática do sexo. Trinta e
seis por cento fez terapia na área sexual.

Os dados parecem indicar que o prazer sexual é possível para a maioria, mas para muitas há o preço do
desconforto físico e pessoal (veja Leslie Feinauer, "Sexual Dysfunctions in Women Sexually Abused as
Children", Contemporary Family Therapy, inverno de 1989, vol. 11 [4], pp. 299-309).

Também parece que não há maior probabilidade de divórcio entre as mulheres que sofreram abuso sexual
do que entre as que não sofreram. Isto indica que a pressuposição de que mulheres que sofreram abuso
acabem mais facilmente com seu casamento não é totalmente verdadeira (Karen Gelster e Leslie Feinauer,
"Divorce Potencial and Marital Stability of Adult Woman Sexually Abused as Children Compared to Adult
Woman Not Sexually Abused as Children", Journal of Sex and Marital Therapy, Inverno de 1988, vol. 14
[4]).

3. Mais uma vez, chamo à atenção para o fato de que nem todo viciado sofreu abuso sexual. Tenho a forte
suspeita de que todo viciado tem um histórico de profunda luta e dor, mas mesmo esta suposição não pode
ser provada. É melhor supor que todo vício é uma batalha agressiva contra Deus, e, então, fazer a seguinte
pergunta: Que evento da minha história me dá a falsa idéia de que Deus não c capaz de proteger ou nutrir
minha alma?

Capítulo 8
Sintomas secundários

1. É muito importante que durante o processo de recuperação de memória não se ponha em foco o passado. E
como tentar lembrar-se de um detalhe como um número de telefone ou o nome de alguém: quanto mais
alguém se esforça, mais frustrado fica. Penso se isto não segue o princípio fundamental: tente encontrar a
vida e você vai perdê-la; perca a sua vida e você vai encontrá-la. As lembranças são percebidas,
armazenadas e recuperadas com pontas de emoção. A memória é um processo bioquímico grandemente
afetado pela emoção. Para uma leitura agradável e fácil sobre como criamos lembranças, veja Steven Rose,
The Making of Memory (New York: Doubleday, 1992). Para uma abordagem mais técnica, veja Sven-Ake
Christianson, The Handbook of Emotion and Memory: Research and Theory (Hillsdale, NJ: Erlbaum
Publishers, 1992).

As lembranças são sempre um reconstrução do passado. Elas não são fitas de vídeo que podem ser
validadas pelo nível de detalhe ou intensidade emocional associados à sua recuperação. Detalhes podem
estar errados e emoções não são uma fonte de validação, conforme podemos verificar por outros eventos
mais recentes em que a emoção pode ser maior ou menor do que o evento merece. Então, como um
terapeuta se aventura a ajudar um cliente a buscar e usar suas lembranças do passado?

Meu trabalho com pessoas focaliza o estilo de relacionamento nas relações atuais. O anseio de olhar para o
presente e ter nas mãos um desejo não atendido, a falha de outros e a escuridão do coração faz com a pessoa
enxergue e se arrependa da supressão da verdade pela injustiça. Presumo, então, que, se as experiências do
passado estão energizando a estrutura do estilo de relacionamento atual, essas experiências vão se tornar
mais e mais disponíveis através da interação entre o espírito da pessoa e o Espírito Santo, o qual traz à
lembrança o que precisa ser encarado.

Nunca faço esta pergunta ao cliente: "Você sofreu abuso sexual?". Também nunca diria: "Em função de
seus sintomas, você apresenta todas as características de ter sofrido um abuso sexual". O que cu diria à vista
de sintomas e de lembranças confusas, desconhecidas ou totalmente ausentes é: "Você tem consciência de
que está fugindo, evitando ou correndo de situações atuais difíceis?". Se hoje a pessoa estiver fugindo da
verdade, não será nenhuma surpresa se descobrirmos que ela fez isso no passado.

Sempre assumo que, se o abuso é uma questão que precisa ser tratada, então o Espírito de Deus vai trazer à
tona aquilo que precisa ser conhecido. Não está em meu poder nem é meu propósito principal ser o guia
para caminhar pelo passado.

Mais uma vez, isto não implica dizer que seria ilícito perguntar sobre relacionamentos - tanto de um
passado recente como distante - com o cônjuge, amigos e pais. Ao conversar sobre o passado,
freqüentemente se estabelece uma base firme que mostra a falta de disposição da pessoa em juntar os fatos
e chegar a uma avaliação aberta da verdade. Quando um cliente me conta que foi agredido, objeto de
zombaria e abandonado pelo pai ou pela mãe e depois, com grande sinceridade, diz "mas eu tive uma
infância feliz", não é preciso ser um gênio para concluir que alguma coisa está errada.

130
É a exposição deste tipo de falta de lógica pessoal e conceituai (ou, em outras palavras, falta de verdade)
que abre o coração para aquilo que o Espírito de Deus deseja que saibamos. Será que este processo assegura
que tudo o que meu cliente se lembrar é "verdade", precisamente como se tivéssemos um videoteipe do
passado? É claro que não. Isto somente nos dá uma linha temática que nos permite entender melhor o
presente. Conseqüentemente, não uso nenhuma técnica de regressão ou dissociação para recuperar ou
melhorar as imagens do passado. Não recomendo sequer que se gaste tempo tentando lembrar ou descrever
todo o passado.

Lembranças do passado referentes a impotência ou traição, por exemplo, são usadas como pontos de partida
para entender como a pessoa está agindo hoje aos sentimentos de impotência e traição. Esta talvez seja a
forma que mais significativamente diferencia meu trabalho dos outros livros sobre abuso sexual. Eu
realmente sugiro que o cliente pergunte a parentes, amigos e até mesmo ao agressor sobre suas lembranças.

Creio que às vezes seja importante voltarmos os olhos para grandes eventos, olhar fotos e escrever aquilo
de que a pessoa se lembra. Colocar os eventos em palavras permite que o poder da emoção sentida no
passado seja sentida novamente no presente. A penetração na verdade nunca é meramente conceituai: ela
envolve a pessoa como um todo. Uma excelente imagem da recuperação do passado é dada por Lenore
Terr, Unchained Memories: True Stories of Traumatic Memories, Lost and Found (New York: Basic
Books, 1994).

2. Há muita confusão quando se fala em sinais e sintomas de abuso sexual. Tecnicamente, um sintoma é um
sentimento subjetivo, ao passo que um sinal é uma descoberta objetiva (algo que alguém de fora pode
observar). Na falta de uma evidência comprobatória, provavelmente não existe nenhum sinal ou sintoma
que prove sem sombra de dúvida se ocorreu ou não o abuso sexual. Contudo, sinais e sintomas não devem
ser descartados como pistas de um trauma.

Podemos entender a dificuldade em se lidar com sintomas no momento em que consideramos uma
reclamação comum: dor de cabeça. Dor de cabeça é um sintoma de muitos problemas: um tumor no
cérebro, enxaqueca, inflamação da articulação temporal-mandibular (mandíbula), sinusite, desalinhamento
da espinha dorsal, estresse emocional e assim por diante. O fato de muitos problemas causarem dor de
cabeça não a torna um sintoma pouco confiável. Quer dizer, sim, que ninguém pode tirar conclusões apres-
sadas, dizendo que é inflamação na mandíbula, se for um ortopedista, ou desalinhamento da coluna, se for
um quiropata. Um clínico sábio mantém a mente aberta enquanto busca um conjunto de sintomas ou sinais
que confirmem um diagnóstico.

Questões da alma podem ser ainda mais difíceis de diagnosticar do que a causa de uma dor de cabeça. Uma
radiografia pode verificar rapidamente a existência de uma sinusite. Não possuímos o equivalente espiritual
de uma radiografia para confirmarmos a existência de um trauma sexual. Conseqüentemente, quando
alguém vem a meu consultório com sintomas de depressão, posso até confirmar um diagnóstico de
depressão, mas tenho que ir mais a fundo para descobrir o que a está causando. E depressão pode ter quase
tantas causas quanto uma dor de cabeça. Mais do que gostaríamos, ela tem uma constelação de causas (por
exemplo conflitos de relacionamento, insatisfação no trabalho, trauma de infância).

Enquanto a depressão é comum entre vítimas de abuso sexual (veja Finkelhor e Russell), está também
presente entre pessoas criadas em lares onde havia alcoolismo, sobreviventes de guerra c pessoas
desempregadas por muito tempo. O mesmo se pode dizer de outros sintomas generalizados, como disfunção
sexual, bulimia e dores nas costas crónicas. Portanto, ao me deparar com sintomas gerais, sigo a seguinte
regra.

Primeiro, se a pessoa tem lembranças de abuso sexual, assim como um ou mais dos sintomas descritos
neste capítulo, eu suspeito fortemente de que o abuso sexual é pelo menos uma das causas do sintoma.
Eventos atuais talvez sejam relevantes também, mas o trauma passado o é com certeza. Por outro lado, se a
pessoa não tem lembranças de abuso sexual no passado, prossigo com perguntas tanto sobre experiências
passadas quanto atuais.

Disfunção sexual e bulimia são sintomas de alguma coisa realmente séria que precisa ser tratada; elas não
aparecem do nada da mesma forma que as dores de cabeça. Elas podem ser um pecado, mas ninguém
escolhe pecados autodestrutivos como estes ao acaso, sem haver uma razão que os leve a isso. As pessoas
não interrompem esses procedimentos sem que as razões sejam avaliadas.

O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Washington, DC: American Psychiatric
Association, 1994, quarta edição, p. 425) apresenta os seguintes sintomas gerais como sendo comuns entre
vítimas de abuso sexual e psicológico na infância: "dificuldade de modulação afetiva [dificuldade de
expressão de sentimentos apropriados]; comportamento autodestrutivo e impulsivo; sintomas dissociativos;
reclamações somáticas [físicas]; sentimentos de ineficiência, vergonha, desespero ou falta dc esperança;
sentimento de estar sendo permanentemente prejudicado; perda de crenças e valores anteriormente

131
defendidos; hostilidade; retração social; sentir-se constantemente ameaçado; dificuldade no relacionamento
com outras pessoas... Há o aumento potencial do risco de agorafobia, síndrome de pânico, distúrbio
obsessivo-compulsivo, fobia social, fobias específicas, distúrbio depressivo grave, distúrbios de
somatização e distúrbios relacionados a substâncias".

Esta extensa lista de sintomas, cada um dos quais passível de uma variedade de causas, ilustra tanto a
importância quanto o desafio de se lidar com sintomas. A Dra. Lenore Terr, especialista em traumas de
infância, escreve: "Não é sempre que se pode intuir a origem de um trauma a partir de uma série de
sintomas, mas às vezes isto é possível" (Lenore Terr, M.D., Unchained Memories [New York: Basic Books,
1994], p. 55).

Terr olha não apenas para os sintomas gerais, como a depressão, mas para sintomas específicos do trauma.
Por exemplo: o filme de Stephen King, Stand By Me, que contém "uma cena na qual um trem aparece
repentinamente atrás de quatro garotos que estão num dormente" pareceu ser para Terr um "jogo pós-
traumático". Mais tarde ela descobriu que quando King tinha quatro anos de idade viu um trem cargueiro
atropelar e matar seu amigo enquanto dois outros meninos brincavam nos trilhos. King afirma que não tem
nenhuma lembrança deste episódio, somente sua mãe sabia dele.

Terr cita outros exemplos de sintomas específicos de trauma. Um cientista teve medo de água por anos, até
que finalmente se tornou obcecado pelo mergulho em rios caudalosos. Certo dia ele começou a se lembrar
que sua mãe havia tentado afundá-lo na água quando era pequeno (pp. 96-119). Uma menina pequena
bloqueou todas as lembranças de ver seu pai matando uma amiga sua com uma pedrada na cabeça, mas,
durante anos, a garotinha manteve o costume de puxar os cabelos no exato lugar onde sua amiga fora
alvejada (pp. 35-36). Ambas as vítimas apresentavam outros sinais e sintomas gerais.

3. Vergonha, depressão e dissociação têm sido colocadas como os sintomas primários de traumas importantes,
especialmente no caso do abuso sexual. Trabalhos que mostram a correlação entre vergonha e abuso estão
incluídos em quase todos os maiores estudos sobre os efeitos de longo prazo do abuso. Veja John Briere e
Marsha Runtz, "Post Sexual Abuse Trauma", em Gail Wyatt e Gloria Powell, ed., Lasting Effects of Child
Sexual Abuse; David Finkelhor, Child Sexual Abuse; Diana E. H. Russell, The Secret Trauma.

Veja também Leslie Feinauer, "Comparison of Long-Term Effects of Child Sexual Abuse by Relationship
of the Offender to the Victim", American journal of Family Therapy, Primavera de 1989, vol. 17 (1), pp.
48-56; Catherine Koverola, Joseph Pound, Astrid Heger e Carolyn Lytle, "Relationship of Child Sexual
Abuse to Depression", Child Abuse and Neglect, maio-junho de 1993, vol. 17 (3), pp. 393-340; James Chu
e Diana Dill, "Dissociative Symptoms in Relation to Childhood Physical and Sexual Abuse", American
Journal of Psychiatry, julho de 1990, vol. 147 (7), pp. 887-892.

O mesmo aviso anterior deve ser feito novamente. Vergonha e depressão estão fortemente associadas a
abuso sexual, mas isto não quer dizer que uma pessoa com problemas de vergonha ou depressão
necessariamente tenha um histórico de abuso sexual. Diferenças e histórico individuais podem determinar a
presença de ambos os sintomas.

4. Veja Patrick Carnes, Contrary to Love (Minneapolis, MN: CompCare Publishers, 1989), pp. 122-131.

5. Veja Patrick Carnes, Don't Call it Love: Recovery from Sexual Addiction (New York: Bantam Books,
1991). Este livro é baseado numa pesquisa com 289 viciados em sexo e 99 em processo de recuperação; 18
por cento são mulheres, 82 por cento são homens. Carnes diz que "uma clara tendência que se apresenta é a
de que as mulheres se envolvem mais no papel de sedutora do que os homens... [os homens claramente
dominam na| área de sexo anônimo e sexo pago" (p. 48).

6. Pelo fato de ter observado a presença freqüente de bulimia entre vítimas de abuso sexual, normalmente
desconfio da existência de um abuso sexual quando uma pessoa busca aconselhamento por causa disso.
Preciso fazer duas coisas aparentemente contraditórias: ouvir o histórico do trauma e da rejeição a si
mesmo sem me mostrar tão predisposto a buscar um abuso no passado da pessoa, apesar de imaginar que
exista um. Posso até chegar ao ponto de perguntar diretamente: "O que você sabe sobre seu passado - seus
relacionamentos com parentes, irmãos e outros - que possam me ajudar a entender a profundidade de seu
ódio a ponto de fazê-la vomitar?". Ainda assim não perguntaria: "Você sofreu abuso sexual?" nem diria
"Você sofreu um abuso sexual".

A bulimia não é um sintoma de abuso sexual mais evidente do que qualquer outro. Ela pode ser a resposta
de alguns outros tipos de trauma, especialmente numa cultura deturpada como a nossa, a qual dá uma
ênfase extrema na aparência e magreza. De fato, as mais recentes pesquisas indicaram que a bulimia não é
nem mais nem menos comum entre aqueles que sofreram abuso do que entre os que não sofreram (Veja
Harrison Pope e James Hudson, "Is Child Sexual Abuse a Risk Factor for Bulimia Nervosa?", American
Journal of Psychiatry, abril de 1992, vol. 149 [4], pp. 455-463).

132
Outros estudos mostraram que ambientes familiares caóticos e problemáticos estavam mais diretamente
relacionados à bulimia do que ao abuso sexual (Johann Kinzl, Christian Traweger, Verena Guenther e
Wilfried Biebl, "Family Background and Sexual Abuse Associated with Eating Disorders", American
Journal of Psychiatry, agosto de 1994, vol. 151 [8], pp. 1127-1131).

Outros pesquisadores descobriram que o abuso sexual e um ambiente familiar caótico parecem se combinar
de uma maneira que aumente a probabilidade do aparecimento de bulimia (Teresa Hastings e Jeffrey Kern,
"Relationships Between Bulimia, Childhood Sexual Abuse, and Family Environment", International
Journal of Eating Disorders, março de 1994, vol. 15 [2], pp. 103-111).

Algumas pesquisas indicam que anoréxicos que se embebedam têm uma maior incidência de experiências
sexuais não desejadas (Glen Waller, Christine Halek e A. H. Crisp, "Sexual Abuse as a Factor in Anorexia
Nervosa: Evidence from Two Separate Case Series", Journal of Psychosomatic Research, dezembro de
1993, vol. 37 [8], pp. 873-879. A esta altura, é um erro crasso assumir que a grande maioria dos bulímicos
sofreu abuso sexual. E mais justo aceitar que pessoas que sofrem de bulimia foram criadas cm lares
caóticos e problemáticos.

7. Através desta frase, poderíamos pensar que esta comunicação entre corpo e alma se dá numa via de mão
única, com o corpo sempre omisso ou sempre fugindo da verdade. De fato, é igualmente verdade que a
psique ou a alma alerta o corpo. A maioria de nós sabe que somos mais susceptíveis a doenças enquanto
estamos passando por momento de estresse significativo. O pecado causa divisão e perdas para a alma e
para o corpo. Separar profundamente ou criar distinções entre nossas dimensões materiais e não materiais é
sucumbir a uma falsa dicotomia.

Com o propósito de esclarecer, creio que nosso corpo nos dá pistas que mostram a verdadeira direção e
energia de nossa alma, mas ainda é um erro atribuir indistintamente um "significado" para cada doença. Eu,
por exemplo, rejeito totalmente a suposição de que devemos crer que toda doença se deve a um pecado
específico, como alguns têm dito: se você lidar com seu pecado ou tiver uma fé maior, então Deus vai curar
sua doença.

Capítulo 9
Estilo de relacionamento

1. Deixei os homens fora deste esquema por uma razão: Não estou tão certo quanto aos padrões característicos
dos sobreviventes masculinos do abuso sexual. Contudo, tenho algumas idéias quando aos estilos de
relacionamento de algumas vítimas masculinas.

De modo geral, os homens compensam o dano que experimentaram através de uma demonstração de poder
físico ou intelectual. Muitos machões e homens emocionalmente distantes escondem seu passado atrás de
proezas físicas ou usam sua inteligência aguçada para intimidar os outros. Este estilo de relacionamento do
"cara machão" é o que provavelmente mais se aproxima do modelo da Menina Difícil.

Outro padrão geral é refletido no estilo distante, retraído e sutilmente hostil do "cara legal". Ele é
freqüentemente manso, chato e despretensioso. Contudo, não o vejo como o exato correspondente da Boa
Menina. Ele é muito passivo para ser alguém que agrada as pessoas devido ao seu sentimento de culpa,
apesar de ser semelhante à Boa Menina em seu compromisso de viver uma vida livre de conflitos. O "cara
legal" não se interessa pelos coisas típicas dos homens, como carros, esportes e físico. É mais provável que
ele se dedique a um hobby, vá a um clube ou exerça outra atividade isolada.

O último paralelo é o da Menina Festeira. O correspondente masculino que mais se aproxima é o "garoto
sedutor", apesar de ser mais predador e menos sutil em seu desejo de conquistar. Alguns o classificariam
como o "viciado em sexo" de nossos dias. Enquanto o "cara machão" ou o "cara legal" podem ser viciados
em sexo, o "garoto sedutor" dirige suas conversas, piadas e até atividades, de modo contínuo e compulsivo,
para o tema sexual, seja com homens ou mulheres. Sua preocupação é o poder sexual. A correlação com a
Menina Festeira é parcial. Sua atitude sexual é muito menos sutil e seu compromisso com os outros é
praticamente inexistente.

Estas categorias também podem ajudar a descrever os estilos de relacionamento de mulheres que não
sofreram abuso sexual porque refletem a escolha por se especializar em autocrítica (Boa Menina), crítica
centrada nos outros (Menina Difícil) e uma oscilação entre as duas partes (Menina Festeira).

Capítulo 10
A improvável rota para a alegria

1. Annie Dillard, Teaching a Stone to Talk (New York: Harper & Row, 1982), p. 65

133
Capítulo 11
Honestidade

1. Conforme destacado no prefácio, parto da premissa de que a pessoa em questão realmente sofreu um abuso.
Se nenhuma lembrança ou outra evidência sugere de modo categórico que a pessoa sofreu abuso sexual,
então a honestidade leva alguém a dizer: "Pode ser que eu tenha sofrido abuso sexual", ou talvez: "Não
sofri abuso, mas posso ter sido prejudicado de alguma outra forma". Pode-se ouvir até mesmo: "Errei em
afirmar que havia sofrido abuso sexual no passado. Minhas dificuldades têm outros antecedentes que
podem parecer menos dramáticos, mas eles abriram as portas para que eu questionasse Deus".

Uma mulher que conheço há muitos anos e que reagiu positivamente ao impacto de lembranças sobre abuso
sexual, contou em público a seguinte história. Ela se lembra de uma nuvem escura passando por cima de
sua cama quando tinha oito ou nove anos de idade. Lembra-se do horror e da tristeza que sentia. Não
conseguia se lembrar de mais nada além disso, mas ela a considerava uma experiência terrível.

Tentou lembrar-se do que ocorrera. Estava aberta para saber o que havia acontecido e quem estava
envolvido. Lutou com vários dos sintomas de um abuso passado e teria sido natural e de certo modo fácil
presumir o que acontecera e quem lhe havia causado o mal. Ela, porém, escolheu viver por mais de dez
anos com a incerteza e o vazio. Não admitia ter sofrido abuso, mas também não negava que tivesse sofrido.

As mudanças começaram a ocorrer no momento em que ela decidiu se apegar à verdade em todas as áreas
de sua vida e não mais às lembranças. De fato, à medida que ela se desenvolvia nesta linha de pensamento,
mais e mais lembranças começaram a voltar, mas não havia confirmação nem negação da ocorrência de um
abuso sexual. E importante frisar-se uma coisa: a falta de validação não afetou seu ministério nem seu
crescimento. Ela é um exemplo a ser seguido, especialmente nas situações em que as lembranças não
retornam por completo ou não existe confirmação.

2. Tratei de alguns pontos relativos às falsas lembranças no prefácio e em várias notas. Neste ponto quero
enfatizar que o problema das lembranças falsas é diferente em função de quantas lembranças a pessoa já
conseguiu resgatar. Uma pessoa que sempre teve lembranças de um abuso mas que permanece
emocionalmente desconectada delas tem muito menos possibilidades de estar errada quanto à veracidade de
suas lembranças do que aquela pessoa que não tinha nenhuma lembrança do passado até o momento em que
um terapeuta sugeriu a possibilidade. A pessoa cujas lembranças são recentes vai permanecer aberta ao fato
de que elas são parcial ou inteiramente falsas enquanto busca evidências que confirmam ou negam o fato.

Muitos podem dizer: "Você está pedindo muito", ou pior ainda: "você está culpando a vítima". Eu concordo
que muito está sendo pedido, mas não mais do que a qualquer outra pessoa. Não podemos simplesmente
criar uma distinção profunda e definitiva entre aqueles que sofreram abuso e os que não sofreram. E uma
premissa crucial e profunda: a santificação envolve essencialmente o mesmo caminho para todos nós,
independentemente do passado, gênero, raça ou qualquer outra distinção que gere separação entre as
pessoas.

Portanto, creio ser tanto irresponsável quanto abusivo dizer que estou culpando a vítima quando poço à
mulher que num primeiro momento não tinha nenhuma lembrança - mas que se lembrou de fatos do
passado durante o tratamento - que veja estas lembranças com suspeita e com um espírito aberto.

Além do mais, a mulher cujas lembranças eram antigas mas incompletas (por exemplo, ela se lembra de ser
molestada repetidamente durante a noite, mas não se lembra da face do agressor) deve resistir à afirmação
de que nada aconteceu, firmar-se na habilidade do Espírito Santo em trazer lembranças mais claras,
enquanto se mantém alerta para não tirar conclusões quanto à precisão de quaisquer novas lembranças.

Lenore Terr faz um excelente trabalho ao esclarecer que lembranças recuperadas freqüentemente incluem
erros quanto a detalhes específicos, mesmo quando a lembrança do trauma é uma verdade incontestável
(Unchained Memories, pp. 41-42, 51-52, 148, 163-164).

Na discussão que se segue, a "abertura" a novas lembranças deveria ser sempre entendida em conjunto com
um compromisso de investigar a verdade ou a falsidade das novas lembranças. Ainda mais importante que
isso, deve-se avaliar se estas lembranças estão levando nosso coração a ansiar por Deus, a servir aos outros
e a fazer o bem àqueles que nos causaram problemas. Se não, as lembranças serão inúteis, até mesmo
aquelas que forem validadas como verdadeiras, pois estarão alimentando o coração com um desejo de
vingança no presente, ao invés de amor intenso.

3. A maioria dos especialistas em memória são céticos quanto à confiabilidade das lembranças anteriores ao
domínio da fala. Pessoas que afirmam ter recuperado lembranças de períodos anteriores ao primeiro ano de
vida estão grandemente confusas. A faixa etária que torna as lembranças possíveis é algo debatido
intensamente, mas a maioria dos especialistas se sente mais confortável em dizer que se devem considerar

134
as lembranças apenas a partir dos três anos de idade.
4. Novamente, entenda o seguinte: arrependimento significa afastar-se da descrença porque temos evidências,
e não somente porque um terapeuta ou alguém mais disse que pode ter sido assim. Entretanto, uma
evidência que poderia ser levada a um tribunal pode não estar disponível ou não ser necessária; lembranças
parcialmente recuperadas somadas a sinais de confirmação e sintomas podem ser evidências suficientes
para que se inicie um processo de abordagerri da realidade e do dano do abuso.

5. Não estou sugerindo uma vida inteira de terapia, nem uma vida de esforços constantes para se lembrar do
passado, mas uma vida de atenção, sabendo que as lembranças podem retornar a qualquer instante.

Além disso, será uma vida de aprendizado de que Deus revela em seu tempo, e coloca as coisas no lugar
que ele deseja. É semelhante a ler-se uma passagem das Escrituras por anos e na nonagésima leitura o
Espírito de Deus nos revela algo sobre a verdade que nos toca de uma forma diferente. Por que isto não
aconteceu na leitura número 41 ou na 85? Talvez a razão seja a nossa constante luta, nossa situação e
abertura. Mas talvez mais do que isso, seja o momento de Deus para seus propósitos, alguns dos quais po-
dem ser claros e outros não.

O mesmo se aplica a outras dimensões da verdade quanto a nós mesmos no passado e no presente. É sábio
não falarmos coisas como "fui curado de..." ou "eu o perdoei neste momento e nunca mais senti raiva dele
outra vez". Estas declarações implicam uma qualidade de santificação já completa. Podemos dizer "eu o
perdoei num certo momento" ou "fui profundamente mudado num certo dia", mas o trabalho total de perdão
e cura espera o dia de amanhã e depois de amanhã, até o dia em que vejamos a Jesus como ele é (1 Jo 3:2).

6. Lenore Terr descreve em detalhes o processo pelo qual dois homens perseguiam lembranças da infância de
maneira diligente. Veja Terr, Unchained Memories, pp. 96-119, 220-247. O primeiro caso envolvia abuso
sexual e o segundo não, mas ambos os processos são esclarecedores.

7. Algumas pessoas podem arranjar problemas ao tentar fabricar respostas à orações. Se elas pedem que Deus
ilumine suas lembranças ou confirme suas suspeitas, e ele não coopera, elas podem render-se às técnicas
que levam ao surgimento de falsas lembranças. Entretanto, o fato de algumas pessoas abusarem da oração
não a invalida. Simplesmente nos alertam para o fato de que a oração deve ser feita com humildade e na
espera dos propósitos divinos, e não meramente como resolução de nossos problemas.

Capítulo 13
Amor intenso

1. John R. W. Stott, A Cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1991.

2. Ellen Bass e Laura Davis, The Courage to Heal (New York: Harper & Row, 1988) p. 348

3. O Dr. Longman e eu tratamos disso mais profundamente em Bold Love (Colorado Springs, CO: NavPress,
1992).

4. C. S. Lewis, Peso de Gloria. São Paulo: Vida Nova, 1993.

5. John R. W. Stott, A Cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1991.

6. Na discussão sobre a confrontação apresentada a seguir, presumo que a vítima tenha lembranças suficientes
e/ou outras evidências de modo que uma falsa acusação seja algo pouco provável. Reforçando a idéia,
vamos esclarecer ainda mais: a confrontação é apenas algo secundário para a vítima; o objetivo principal da
confrontação é chamar o agressor ao arrependimento.

Semelhantemente ao que ocorre quando falamos de Cristo a incrédulos, se o agressor nega, ignora ou
ameaça aquele que lhe traz a verdade, então atacar ou refutar qualquer relacionamento baseado nessa recusa
em reconhecer o abuso e/ou em arrepender-se seria expressar pouco amor. Por esta razão é que a
confrontação foi feita, ou seja, para que o agressor restabeleça seu relacionamento com Deus, não para que
desabafemos ou para que de algum modo simplesmente prossigamos em nosso processo de cura.

Se a confrontação é algo do tipo tudo ou nada - ou seja, se o agressor não reconhecer ou não se arrepender -
a vítima encerrará o relacionamento. Tenho fortes suspeitas quanto aos motivos que levaram a pessoa a
iniciar a confrontação.

7. Alguns questionam por que os pais omissos deveriam ser chamados ao arrependimento com o objetivo de
restaurar e fomentar o relacionamento com seus filhos adultos. A resposta está no capítulo 4, sob o título
"As fases do abuso", no capítulo 5, "O vazio no lar", e no capítulo 6, "O papel de pais omissos", deste livro.

Na vasta maioria dos casos, a omissão dos pais criou uma atmosfera na qual a criança tornou-se vulnerável

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ao abuso e/ou não tinha ninguém a quem recorrer. Os pais omissos que querem lavar as mãos de qualquer
responsabilidade não estão demonstrando nenhum amor nesse comportamento e, ainda, estão falhando em
atender o chamado principal para que sejam humildes de modo que Deus os exalte.

Epílogo
Palavras aos sábios

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