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CINEMATERAPIA®
ENTENDENDO CONFLITOS

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Ensaio Sobre a Cegueira


HOME (Blindness, 2008)
QUEM SOMOS
Eduardo J. S. Honorato e
NA INTERNET Denise Deschamps
FILMES
José Saramago, um autor
LIVROS
portugûes que recebeu o Prêmio A Letra Escarlate
ENTRE EM CONTATO
Nobel de Literatura. A língua Ensaio Sobre A
portuguesa, no mundo todo, Cegueira
comemorou esse prazer. Para Duro Aprendizado
completar e inflar mais nosso A Vida E Bela
“nacionalismo”, em 2008, Fernando
Era Do Gelo 3(D)
Meireles (Cidade de Deus) dirige Julianne Moore, Mark Ruffalo,
O Adversário
Alice Braga, Danny Glover, Sandra Oh e Gael García Bernal
neste filme, baseado em livro homônimo. Em Terapia
Em Terapia
Sabemos o quanto é perigoso passar para a linguagem (Resumão)
cinematográfica uma obra de peso como essa. Um apaixonado Homofobia No
Cinema
pela obra escrita só deve ver o filme se conseguir se destituir da
Divinos Segredos
sua própria visão sobre o livro e tentar entender, e se deixar
Na Natureza
envolver, pela visão do cineasta. Isso requer um desapego nem
Selvagem
sempre muito possível, despir-se de algo tão próprio, tão
Jean Charles
assinado que é a construção do sentir uma obra naquilo que ela
Mr Brooks
nos toca.
O Leitor
Para quem conseguir fazer isso, poderá se deparar com
Perverso No Orkut
uma pelicula que possibilita um impacto significativo no olhar
de cada um sobre si mesmo, sobre os outros e sobre as Charles Chaplin
construções dos grupos e daquilo que chamamos cultura ou Amor Nos Tempo Do
Cólera
civilização. Fernando Meirelles com sua direção impecável,
Os Esquecidos
detalhista, nos coloca frente a sensações confusas, muita
angústia, sentido de desorganização. Remete com força para o Sicko
texto freudiano “Psicologia das Massas e Análise do Ego”¹, a Milk
forma como os grupos se constituem e se mantém, laços que A Prova
perpassam e constroem o tecido social.
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Prepare-se para ter sentimentos “estranhos” Lost
despertados em você. Uma angústia mesclada com enjôo, nojo, O Exorcismo De Emily
indignação, medo e tensão. São muitos os sentimentos que Rose
brotam durante esse filme. A fotografia “acinzentada” faz
menção à “cegueira branca”, tornando o filme ainda mais
denso. Como se somente as falas e seqüências, não bastassem
para nos transportar para esse cenário caótico, tanto
fisicamente (cidade), quanto psicologicamente.
Em uma das cenas finais do filme, a personagem de
Julianne Moore - que não tem nome, é apenas “uma”, que
poderia ser tantos como nós, é chamada apenas de “mulher do
médico” - está sentada na escada, desolada pela bestialidade
que assiste a sua volta. É a única a enxergar em uma cidade
envolta em cegueira. Assiste a cena de cães que devoram o
cadáver de alguém, quando aproxima-se dela um cão e é
impossível não sentirmos um certo sobressalto. Ela chora
desconsolada e o cão se aproxima sem que seja percebido,
lambendo suas lágrimas em consolo.
O que faz com que essa ou aquela parte da natureza
tome tudo? A imagem desse cão nos traz sem dúvida, uma
questão muito humana, a questão do afeto, presente com força
nessa obra. A sutileza dessa cena nos faz supor que dará a exata
noção, da capacidade de Meirelles de traduzir a desesperança e
a esperança que a obra de Saramago nos traz, mas deixemos o
livro para leitura e fiquemos com a beleza poética dessa cena,
assim como uma que a precedeu e a luta no mercado pela
comida encontrada: desorganização, desespero, sobrevivência
caótica.
A cumplicidade do banho das mulheres, outra cena
repleta de recados, mostra a água que lava e organiza dando

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um sentido de união e cultura, o riso e o prazer de


compartilhar, a segurança do pertencer a algo. São belas cenas
que, em nossa leitura sobre essse filme, nos remetem para o
tecido grupal, os vínculos que possibilitam a existência do
humano em nós. Após matar o pai da horda primeva², no caso
do filme o líder do outro grupo representado por Gael García
Bernal, nossa personagem que enxerga, conduz o grupo para a
possibilidade de organização, convivência e compartilhamento.
Voltemos então mais um pouco, para a cena mais cruel
do filme, causando angústia no espectador. Vemos a opressão
masculina que se apresenta em estupro e assassinato, troca pela
sobrevivência, imagens fortes da dominação pela força, pela
capacidade de operar e submeter pela detenção dos símbolos
de poder, ali o poder da morte e da vida via a arma e a comida.
Nos deparamos com o caos da cegueira humana, desse
primitivo que em algum lugar ainda nos habita, daquele de
antes do interdito, e não o do Édipo que fica cego frente a
compreensão quanto ao seu “pecado”. No filme, essa cegueira
nos leva a pensar no que estamos fazendo com nossos modelos
de civilização. No caos da cegueira súbita habitada, não pela
escuridão, mas por um branco ausente de formas. Estamos a
“apenas” uma cegueira do caos enquanto grupo social?
Forçamos ao limite nossas convivências que o simples fato de
suprimirmos o visual nos permite dar vazão a tantas perversões?
Estaríamos beirando a bestialidade, enquanto seres sociais?
Nossa protagonista guiará um pequeno grupo que não
abre mão de manter-se coeso e solidário entre si. Ela será a
única a manter a visão. Essa mesma mulher que mata a
opressão do chefe primevo, na mais legítima alusão à Horda
primeva descrita por Freud, que sabemos foi apoiada na tese de
Darwin sobre a família originária.
Vejamos uma passagem interessante onde Freud em
uma carta para Ferenczi datada de 1º de fevereiro de 1912, fala
divertidamente sobre a questão de pai primevo, o que tinha
direito a vida sexual, enquanto desenvolve seu extraordinário
texto “Totem e Tabu”:
“Tive idéias igualmente ousadas sobre a castração, como
as suas. Será que o homenzinho-pai ciumento, da família
originária de Darwin, realmente castrou os jovens, antes de se
contentar em mandá-los embora?. Isso é o que gostaríamos de
saber”³
Vemos a formação de grupos com ideais diferentes, um
se constituindo pela ajuda mútua e união e outro pelo líder
autoritário que utiliza a força como aquilo que mantém o grupo.
No filme esse líder primitivo e hostil se apropria de toda a
comida e utiliza a mulher como valor de troca, levando-nos a
pensar nas teses que defendem que a primeira
“moeda” (representação do excedente) teria sido a mulher.
E será a líder, acolhedora e doce que matará esse tirano
que oprime e subjuga. Um basta feminino a opressão bestial e
primitiva do uso da força.
Uma das cenas decisivas mostra os cegos desesperados
por fugir do incêndio que tomou o lugar, graças à loucura de
uma das mulheres que ateou fogo em tudo no intuito de evitar
outros massacres. Ao escaparem da morte por asfixia, se dão
conta de que já não estavam sendo vigiados há muito tempo. Ao
abrirem o portão, ganham o rumo de São Paulo (como cidade
cenográfica) tomada pelo pânico e a destruição onde a cegueira
é o que existe entre todos. Guiados pela visão da mulher, esse
grupo se une em confiança.
Quando a formação dos laços que nos unem, naquilo
que Freud chamará de “ideal de ego” se torna uma questão
central, uma questão de sobrevivência como o bom velhinho já
nos apontava lá na primeira metade do século passado como a
saída para os conflitos da humanidade com suas guerras e
disputas.
José Saramago, em apresentação pública do seu
romance Ensaio sobre a Cegueira, diz que através da escrita,
tentou dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos
coragem para reconhecer isso.

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Realmente, não somos bons, mas nossos afetos talvez


nos salvem ao final. Que, assim como Saramago, ao final da
película você chore. Chore por ver onde podemos chegar, chore
por perceber que temos questões a serem resolvidas, enquanto
sociedade. Que chore por perceber que muito de arcaico ainda
resiste em nossos comportamentos. Chore por perceber que
somos sim humanos e temos ainda “salvação”.

Sugestão de livro: “Sobre Heróis e Tumbas”de Ernesto Sábato -


outra obra onde a questão da cegueira toma aspectos da cultura

Freud, Sigmund – Obras Completas


Psicologia das Massas e Análise do Ego – vol XVIII
Totem e Tabu vol XIII
Correspondência Freud/Ferenczi
Artigo Publicado na forma original na Revista Psique, da Editora
Escala

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