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PENSANDO A HISTORIOGRAFIA INDÍGENA A PARTIR DAS

PERSPECTIVAS SOBRE TERRITÓRIOS E TERRITORIALIDADES.

Vera Lucia Furlanetto1

Território e territorialidade são categorias analíticas que instrumentalizam as


pesquisas acerca das relações do humano com o espaço. Foram criadas pelas
ciências sociais e debatidas sob as mais diversas abordagens. O primeiro conceito
apresenta múltiplas definições, abrangendo aspectos materialistas, idealistas,
integradores e relacionais. Cada um deles permeados ainda por outras concepções
internas (CAVALCANTE, 2013).
Dentre a polissemia conceitual, considerou-se mais apropriada a este escrito a
designação dada por Cavalcante (2013, p. 34) que entendeu “o território como
sendo uma porção do espaço apropriada por um grupo humano que o constrói em
seus aspectos sociais, simbólicos, culturais, econômicos e políticos através de
modos específicos”.
Compreensão esta diretamente relacionada à territorialidade, constituída pela
“relação específica com o espaço que constrói um território” ou como designou Paul
Little (2002, p. 253), pelo “esforço coletivo de um grupo social para ocupar, usar,
controlar e se identificar com uma parcela específica de seu ambiente biofísico,
convertendo-a assim em seu ‘território’”. Para o autor “a territorialidade humana
possui múltiplas expressões, produzindo variados tipos de territórios”
(CAVALCANTE, 2013, p. 34).
Tais designações são importantes para o historiador que se propõe a estudar
as sociedades indígenas, uma vez que a luta pela terra está diretamente relacionada
a trajetória desses povos. No Brasil os conflitos fundiários derivam dos divergentes
entendimentos acerca dessas questões por parte do Estado e das diversas
populações brasileiras em suas multiplicidades socioculturais.

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Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Grande
Dourados – UFGD.

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A jurisdição do país trata do assunto em termos de redistribuição de terras e os
processos de ocupação e afirmação territorial, que permeiam as reivindicações,
dificilmente são reconhecidos oficialmente (LITTLE, 2202).
Isto ocorre, porque no Brasil se adota parâmetros legais em obediência a um
regime de propriedade diádico, de terras públicas e privadas, que compõe a razão
instrumental do Estado, associada à burguesia e a burocracia.
Tal perspectiva jurídica se configurou desde a implantação da “Lei de Terras”
no ano de 1850. Esta legislação visava definir uma solução aos problemas de
apropriação territorial que tinham por base “as diferentes e variadas concepções
sobre a terra e seu uso”, substituindo-as por uma única, a de “propriedade” (SILVA,
2015, p.92).
Assim a terra passou a ser considerada um bem de consumo, um produto de
compra e venda, bem como uma questão de direito, quanto ao título, ao registro, ao
uso, ao usufruto, à disposição e à recuperação. Apesar de sua existência, as
apropriações por posse continuaram ocorrendo, já que a lei, dentre outras coisas, foi
omissa em relação às terras indígenas e usada para dar sustentação às grandes
propriedades que seriam reguladas pelo mercado.
Já os povos originários, por exemplo, adotam formas de uso comum da terra e
empregam uma ótica diferente à do capital. Essas comunidades valorizam os
regimes de propriedade comum que podem ser entendidos pela cosmografia, quanto
à definição e exploração dos recursos naturais, e pelas “etnicidades ecológicas”,
quanto à importância desses regimes na constituição identitária dos grupos e na
complexidade e diversidade da sua razão histórica.
Nesse contexto o lugar está associado à memória, e guarda elementos de
vínculos sociais, simbólicos e ritualísticos. A identificação de lugares sagrados
geralmente representa uma das formas mais importantes de dotar um espaço com
sentimento e significado, havendo obviamente uma multiplicidade de outras.
Existe ainda uma relação direta entre a valorização dada ao espaço e o
sistema de conhecimento ambiental e as respectivas tecnologias desses povos.
Para essas sociedades a expressão de territorialidade reside nos bastidores da
memória coletiva, que incorpora dimensões simbólicas e identitárias na relação com
sua área, conferindo profundidade e consistência temporal ao território.

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Por isso, para esses povos é importante manter-se viva a memória dos
ancestrais, porque a memória coletiva depende em parte da história de migrações
que o grupo realizou no passado. Já que a memória espacial pode se modificar para
atender a novas circunstâncias e movimentos, porém ambas estão relacionadas à
“necessidade de defender - até mesmo de forma discursiva - seus direitos
territoriais” (LITTLE, 2002).
No entanto, desde os períodos colonial e imperial, em razão dos conflitos
fundiários, no Brasil promoveu-se a expansão de fronteiras usando-se da ideia de
defesa do território como uma tentativa de unificação.
Para tanto, o Estado criou as frentes de expansão que transformaram
drasticamente os espaços, os moldaram e impuseram formas territoriais que
geraram ainda mais confrontos.
Diversas foram as respostas dadas por parte das populações indígenas a tais
investidas, que incluíram desde os processos de resistência, fuga, até a etnogênese;
resultando em uma grande variedade de novos “territórios sociais” não reconhecidos
legalmente. Territórios estes que mudaram ao longo do tempo em razão do grupo
social, das condutas territoriais e ainda, das forças históricas que exerceram pressão
sobre ele.
Em razão disso, por volta dos anos 1970 a 1980, motivados pela
“territorialização precária” ao qual foram submetidos e pela insegurança legal, os
indígenas organizados em movimentos sociais coordenaram ações para reivindicar
a ocupação física e a proteção jurídica do Estado.
Entendendo-se territorialização como “a imposição de uma base territorial fixa,
normalmente feita pelo Estado nação com o objetivo de incorporar populações
etnicamente diferenciadas”. O que não pode ser confundida com o “processo de
territorialização”, pois este “está mais relacionado à resposta que os grupos
humanos dão à imposição desta base territorial física” (PACHECO DE OLIVEIRA,
1998, p. 55-56, Apud CAVALCANTE, 2013, p. 41-42).
Ressalta-se que as ações fundiárias do governo brasileiro sempre foram
vinculadas às ideais de controle, nacionalismo e soberania, que associadas aos
projetos de desenvolvimento geram até a atualidade ondas de territorializações.
Do mesmo modo, os elevados investimentos em infra-estrutura desde as
Marchas para o Oeste, a construção das primeiras grandes estradas amazônicas, a

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criação da Zona Franca de Manaus, instalação de mineradoras, até a construção de
hidrelétricas, que são acompanhadas por altas tecnologias industriais de produção,
transporte e comunicação, alteram as relações ecológicas de forma inédita, em
razão da intensidade e do poder de destruição ambiental.
Essas invasões estatais são os principais motivos que ensejam novas
reivindicações territoriais por parte dos povos indígenas. Apesar da consolidação de
algumas categorias fundiárias dada pela Constituição Federal Brasileira de 1988,
percebe-se o grande descompasso entre a letra da lei e a sua aplicabilidade.
Ainda mais que a designação “Terras indígenas” é uma categoria jurídica, que
originalmente foi estabelecida pelo Estado brasileiro. Inicialmente foi utilizada para
lidar com os povos indígenas no marco da tutela, todavia continuou sob “a
propriedade da União, sendo garantido aos indígenas o usufruto exclusivo e a
inalienabilidade” (CAVALCANTE, 2013, p. 41-42).
Ou seja, o reconhecimento do “processo de territorialização” indígena ainda
está sob os domínios e os interesses governamentais. Da mesma maneira as
políticas de ordenamento territorial são de caráter centralizador e autoritário,
fundamentadas na razão instrumental do Estado e na sua exclusividade em tomar
decisões sobre elas.
Isso faz com que as demandas dos povos indígenas sejam colocadas em
situação de marginalidade, provando-se somente que o Estado brasileiro é incapaz
de lidar com novas exigências de pluralismo, não só na esfera territorial, mas
também nos âmbitos legal, étnico e social.
Tal situação é suficiente para motivar o historiador a aprofundar seus estudos
nas questões fundiárias quando as suas pesquisas direcionarem-se a essas
populações étnicas, para não se desconsiderar principalmente a importância da
autonomia indígena em seus territórios.
E ainda, para entender o quão fundamental seria a essas comunidades
poderem decidir sobre o uso dos recursos naturais, políticos, fiscais e culturais, bem
como deliberarem sobre a escolha de seus parceiros. Considerando-se a lógica que
rege os seus pensares acerca da territorialidade, fundados no regime de uso comum
da terra, no pertencimento afetivo a lugares específicos e na memória coletiva que
atribuem a eles.

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Referencial Bibliográfico

CAVALCANTE, Thiago Leandro Vieira. Território e territorialidade como objetos de


estudo. In. _________. Colonialismo, Território E Territorialidade: a luta pela terra
dos Guarani e Kaiowa em Mato Grosso do Sul. 2013. 470 f. Tese (Doutorado em
História) – Faculdade de Ciência e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis,
2013.

LITTLE, Paul E. Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma


antropologia da territorialidade. Série Antropologia, n. 322, Brasília, Unb, 2002.

SILVA, Marcio Antônio Both. Lei de Terras de 1850: lições sobre os efeitos e os
resultados de não se condenar “uma quinta parte da atual população agrícola”.
Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 35, nº 70, 2015

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