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MANUAL DO

PROFESSOR

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01
ENSINO MÉDIO
ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS
E SOCIAIS APLICADAS

TEM PO
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ESS P A ÇO

Ronaldo Vainfas
Sheila de Castro Faria
Jorge Ferreira
MANUAL DO PROFESSOR ENSINO MÉDIO
ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS
E SOCIAIS APLICADAS

. d o c

TE MP O E E S PA ÇO

R ON ALDO VAINFAS
Doutor em História Social pela
Universidade de São Paulo (USP)
Professor do Departamento de História da
Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ)

SH EI LA DE CASTRO FARI A
Doutora em História pela Universidade
Federal Fluminense (UFF-RJ)
Professora do Departamento de História da
Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ)

JORGE F ERREI RA
Doutor em História Social pela
Universidade de São Paulo (USP)
Professor do Departamento de História da
Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ)

1a edição, São Paulo, 2020


Presidência: Paulo Serino
Colaboração
Direção editorial: Lauri Cericato
André Albert
Gestão de projeto editorial: Heloisa Pimentel
Bacharel em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo (USP)
Gestão de área: Brunna Paulussi Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP)
Coordenação de área: Carlos Eduardo de Almeida Ogawa Felipe Vinícius dos Santos
Edição: Felipe Vinícius dos Santos e Flávia Merighi Valenciano Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP)
Planejamento e controle de produção: Vilma Rossi e Camila Cunha
Revisão: Rosângela Muricy (coord.), Alexandra Costa da Fonseca,
Ana Paula C. Malfa, Ana Maria Herrera, Carlos Eduardo Sigrist,
Flavia S. Vênezio, Heloísa Schiavo, Hires Heglan, Kátia S. Lopes Godoi,
Luciana B. Azevedo, Luís M. Boa Nova, Luiz Gustavo Bazana,
Patricia Cordeiro, Patrícia Travanca, Paula T. de Jesus,
Sandra Fernandez e Sueli Bossi
Arte: Claudio Faustino (ger.), Erika Tieme Yamauchi (coord.),
Letícia Lavôr (edição de arte), Typegraphic (diagramação)
Iconografia e tratamento de imagens: Roberto Silva (coord.),
Douglas Cometti (pesquisa iconográfica), Cesar Wolf (tratamento de imagens)
Licenciamento de conteúdos de terceiros: Fernanda Carvalho (coord.),
Erika Ramires e Márcio Henrique (analistas adm.)
Ilustrações: Manzi
Cartografia: Mouses Sagiorato, Ericson Guilherme Luciano e Sonia Vaz
Design: Tatiane Porusselli (proj. gráfico e capa),
Luis Vassallo (proj. gráfico Manual do Professor)
Foto de capa: Mario Friedlander/Pulsar Imagens
Ilustração de capa: Renata Dorea

Todos os direitos reservados por Saraiva Educação S.A.


Avenida Paulista, 901, 4o andar
Jardins – São Paulo – SP – CEP 01310-200
Tel.: 4003-3061
www.edocente.com.br
saceditorasaraiva@somoseducacao.com.br
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Angélica Ilacqua - CRB-8/7057


2020
Código da obra CL 820731
CAE 729674 (AL) / 729675 (PR)
1a edição
1a impressão
De acordo com a BNCC.
Envidamos nossos melhores esforços para localizar e indicar adequadamente os créditos dos textos e imagens
presentes nesta obra didática. Colocamo-nos à disposição para avaliação de eventuais irregularidades ou omissões
de créditos e consequente correção nas próximas edições. As imagens e os textos constantes nesta obra que,
eventualmente, reproduzam algum tipo de material de publicidade ou propaganda, ou a ele façam alusão,
são aplicados para fins didáticos e não representam recomendação ou incentivo ao consumo.

Impressão e acabamento

2
APRESENTAÇÃO
Caro estudante

O que são as Ciências Humanas? Por que devemos estu-


dá-las? Antes de tudo, Ciências Humanas são um conjunto de
ciências cujo foco é o estudo da humanidade, compreenden-
do os seres humanos como seres sociais inseridos no espaço
e no tempo e que estabelecem diferentes relações políticas,
econômicas e culturais.
A História, por exemplo, dedica-se a estudar os grupos hu-
manos preferencialmente no passado, buscando as dinâmi-
cas sociais que ajudam a compreender o presente, através
do tempo. A Geografia contribui com as Ciências Humanas ao
se debruçar sobre diversos fenômenos relacionados à orga-
nização do espaço decorrente das relações dos grupos sociais
com o mundo físico e das relações econômicas, culturais, so-
ciais e políticas estabelecidas entre as sociedades (e no in-
terior delas). A Sociologia, por sua vez, enfoca a sociedade
sobretudo no mundo contemporâneo, voltando-se às relações
sociais, às estruturas e às mudanças sociais nas dimensões
local, regional, nacional e mesmo mundial. Já a Filosofia es-
tuda, há mais de dois milênios, os fundamentos da existência,
do pensamento e da realidade, buscando formular conceitos
para pensar o mundo, em geral, e a experiência humana, em
particular.
Nesta coleção, essas ciências caminham juntas, em uma
perspectiva interdisciplinar. Isso significa que todos os livros
dela trabalham temas que combinam as abordagens históri-
ca, geográfica, sociológica e filosófica.
Ao estudar tais ciências de forma integrada, você desen-
volverá ferramentas que poderão auxiliá-lo a entender quem
é, quem deseja ser e como deseja atuar no mundo.
Isso implica respeitar as diferenças e combater preconcei-
tos, reconhecendo Direitos Humanos universais, independen-
temente da naturalidade, nacionalidade, religião, etnia, orien-
tação sexual ou convicção política dos indivíduos ou grupos. Por
tudo isso, as Ciências Humanas agregam conhecimentos que
contribuem para a construção do pensamento democrático.
A coleção convida você e os colegas a navegar por diversos
saberes, buscando ajudar na formação de cada um como ci-
dadão consciente, dotado de visão crítica, aberto ao diálogo e
que respeita os direitos de todos.

Os autores

3
CONH EÇ A SE U L IV RO

C A [...] estou residindo na favela. Mas se Deus me


ajudar, hei de mudar daqui. Espero que
os pol’ticos extingue [extingam] as favelas. ABERTURA DE CAPÍTULO
P Í JESUS, C. Quarto de despejo: diário de uma favelada.

T U
São Paulo: Francisco Alves, 2014. p. 21.
No início de cada capítulo, um texto
L O introdutório, uma epígrafe e uma imagem
5 apresentam e contextualizam o tema que
será abordado. O boxe Sua experiência
pessoal propõe atividades para que você
CIÊNCIAS HUMANAS possa compartilhar com os colegas os seus
E L I T E R AT U R A conhecimentos prévios sobre o assunto.

A frase da epígrafe foi escrita pela mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977) em
sua autobiografia publicada em 1960, intitulada Quarto de despejo: diário de uma favelada.
Carolina de Jesus nasceu em Sacramento (MG). Em 1947 foi morar na favela do Ca-
nindé, em São Paulo, desempregada e grávida. Para sobreviver, catava e vendia papel.
Foi como teve acesso aos cadernos − vinte no total − que compõem seu diário, iniciado
Acervo Ultima Hora/Folhapress em 1955.
Seu relato é um dos poucos registros em que se ouve a voz de quem ocupava espaços
de fronteiras sociais: mulher, mãe solteira, negra e favelada. Até então, tais espaços
eram temas presentes na literatura, mas com conteúdo ficcional. No Brasil da ditadura
militar, Carolina foi relegada ao esquecimento e ao retorno à pobreza. Somente anos
CONVERSA DE
após sua morte, sua obra foi resgatada, principalmente quando, no Brasil, o movimento
A escritora mineira
Carolina de Jesus (1914-1977)
autografando seu livro A B NCC NE S TE CA P ÍTU LO :
negro tomou força, a partir da década de 1990.
O resgate de suas memórias e de sua obra
Traz textos de autores que
Quarto de despejo, em noite SUA EXPERIÊNCIA PESSOAL
de autógrafos em São Paulo,
em 1960.
Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3 e 4.

Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1 e 2.


representa abrir as entranhas de uma socieda-
de que prima pela desigualdade em quase todos
1 Você já tinha ouvido falar de Carolina
apresentam diferentes pontos
os níveis. Maria de Jesus ou de outro escritor
Competência específica de Linguagens e suas Tecnologias: 2.

Competência específica de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 3.


A leitura e o estudo da literatura – material caro
às Ciências Humanas – são mecanismos que pos-
de periferia que retrata sua vida por
meio de manifestações literárias?
de vista sobre determinada
Habilidades: EM13CHS101, EM13CHS102, EM13CHS104, EM13CHS106, EM13CHS203, 2 De que forma você acredita que
EM13CHS205, EM13LGG202 e EM13CNT305.

Tema Contemporâneo Transversal: Multiculturalismo – Educação para valorização do


multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras.
sibilitam ouvir o outro, o diferente, fazendo parte
do importante exercício da alteridade, que possi-
bilita a empatia e a diminuição da violência social.
a literatura pode ser fonte de
conhecimento e transformação de
estruturas sociais?
temática, além de atividades
108 109 que permitem a reflexão sobre
esses pontos de vista.

CONVERSA DE H I S TO R I A D O R E S

Por que o Brasil manteve a unidade territorial?


Alguns autores, como Celso Furtado (1920-2004), foram comandados por líderes regionais, o que gerou
afirmam que a razão do fracionamento da América o fracionamento das colônias em diversas repúblicas.
A África se tornou mais visível nos últimos anos em quase todos os ramos do Hispânica, em contraste com a manutenção da uni- No caso do Brasil, diversos historiadores indicam que
saber, mas não uma África homogênea, produto da globalização de tempos recen- dade territorial da América Portuguesa no Brasil in- o fator decisivo para a manutenção da integridade ter-
tes. É uma África variada e múltipla, como aliás são todos os territórios do mundo. dependente, decorreu de fatores econômicos. No pri- ritorial residiria na transferência da Corte portuguesa
meiro caso, o declínio da mineração, no século XVII, para o Rio de Janeiro, em 1808, criando as condições
Especialmente no Brasil, que é talvez o país mais negro do mundo fora do con- desintegrou economicamente o território colonial, político-administrativas para a construção de um im-
tinente africano, essa herança se reproduz nas artes, no cinema e na literatura, enquanto no Brasil a exploração aurífera em Minas pério brasileiro territorialmente integrado.
embora os griots tenham sido muito pouco retratados na história do país. Sua sim- Gerais integrou diversas regiões do território, criando
bologia é apropriada em particular pela literatura, pelo cinema e pelas lutas afir- diáspora
condições para a futura unidade imperial. No entan-
mativas da negritude em espaços da diáspora africana. deslocamento forçado

GLOSSÁRIO
to, outros autores, como Pierre Chaunu (1923-2009),
A oralidade e seu estudo são o centro de análises para o conhecimento do pas- de grandes massas sublinham os fatores políticos, destacando que os
sado e do presente, principalmente em sociedades ágrafas, como as da África de determinado grupo ■ Com base no texto acima, discutam, em gru-
movimentos de independência na América Espanhola
pré-colonial, a fim de elaborar sua história, suas transformações linguísticas, sua populacional, em razão po, qual das interpretações parece explicar
de perseguição política, melhor o processo histórico mencionado.
cosmologia religiosa, sua estrutura social, etc.

Amkoullel, o menino fula


religiosa e/ou étnica.
Apresenta a definição
FICA A DICA

De Amadou Hampâté Bâ. Tradução: Xina Smith de Vasconcelos. São Paulo: INFLEXÕES NOS SÉCULOS XX E XXI
Palas Athena: Casa das Áfricas, 2003.
Relato autobiográfico de Amadou Hampâté Bâ, um dos maiores pensadores da
de um termo presente A exasperação das rivalidades nacionalistas na Europa contribuiu para a consolidação da Geopolítica como
campo do conhecimento. Historicamente, levou à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e à Segunda Guerra Mun-
África e sobre a África do século XX. Nele, o filósofo apresenta a realidade de
uma sociedade africana específica – a da cidade de Bandiagara, no atual Mali,
onde nasceu –, porque não tem a pretensão de generalizar características a uma
no texto, explicando seu dial (1939-1945), ambas provocadas pela Alemanha. Na Europa, a expansão da Alemanha nazista reconfigurou
radicalmente a Geopolítica europeia.
África tão múltipla. Segundo suas próprias palavras, o livro representa a força da
“oralidade deitada no papel”.
significado no contexto E U R O PA : E X PA N S Ã O D O S D O M Í N I O S N A Z I S TA S ( F I M D E 1 9 4 2 )
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Sonia Vaz/Arquivo da editora

cul OCEANO
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ÁRTICO
QUES TÕE S E M F OC O

Documento escrito × documento oral


em que é mencionado. de Gre
ich
enw
Mar da
Noruega

FINLÂNDIA
MORANDI Bruno/hemis.fr/Alamy/Fotoarena

SUÉCIA

NORUEGA
iano

Leningrado
O documento escrito é mais confiável que o documento oral? Nu- UNIÃO SOVIÉTICA

tico
OCEANO
Merid

r Bál
merosos estudos atuais desvendam um riquíssimo universo através ATLÂNTICO
Mar do
Moscou
Ma
Norte
da pesquisa oral. Leia o que diz um dos primeiros especialistas no uso REINO
Corredor
PAÍSES
BÁLTICOS
UNIDO DINAMARCA
IRLANDA
de fontes orais de maneira sistemática, o etnólogo e filósofo malinês Polonês
Alemanha (1939)
Amadou Hampâté Bâ (1901-1991): PAÍSES Territórios anexados pela Alemanha

QUESTÕES EM FOCO
BAIXOS Berlim
ALEMANHA
BELARUS Stalingrado Ocupação militar (setembro de 1939
0 425 POLÔNIA
O que se encontra por detrás do testemunho, portanto, é o pró- BÉLGICA a junho de 1941)
km Paris Ocupação militar (junho de 1941
prio valor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de FRANÇA UCRÂNIA
ESLOVÁQUIA a novembro de 1942)
transmissão da qual ele faz parte, a fidedignidade das memórias ÁUSTRIA Aliados e satélites da Alemanha
SUÍÇA HUNGRIA
individual e coletiva e o valor atribuído à verdade em uma de- REPÚBLICA

terminada sociedade. Em suma: a ligação entre o homem e a


palavra. [...] Para alguns estudiosos, o problema todo se resume
em saber se é possível conceder à oralidade a mesma confiança
Nesta seção, você será 40°
N

PORTUGAL
ESPANHA
FRANCESA
(Vichy)

ITÁLIA
Roma
CROÁCIA

IUGOSLÁVIA
ROMÊNIA

BULGÁRIA
Mar Negro
Adversários da Alemanha
Retomado na ofensiva soviética
(inverno de 1941 a 1942)
Frente do Leste (novembro de 1942)

convidado a propor soluções


ALBÂNIA
que se concede à escrita quando se trata do testemunho de fatos TURQUIA

passados. No meu entender, não é esta a maneira correta de se Mar Medi


terrân
eo
GRÉCIA
Fonte: elaborado com base
ÁSIA
colocar o problema. O testemunho [de fatos passados], seja es- ÁFRICA
TUNÍSIA em FERRO, Marc. História da
crito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale Segunda Guerra Mundial. São

ou se posicionar em
CHIPRE
Griots na região do Mali, África 0°
Paulo: Ática, 1997. p. 59.
o que vale o homem. [...] Contrariamente ao que alguns possam Ocidental. Foto de 2008.
pensar, a tradição oral africana, com efeito, não se limita a his- No pós-guerra, em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), com a intenção de unir os países
tórias e lendas, ou mesmo a relatos mitológicos ou históricos, e os griots estão longe de ser seus para trabalhar pela paz e pelo desenvolvimento do planeta. Paralelamente ao surgimento dessa organização
únicos guardiães e transmissores qualificados.
HAMPÂTÉ BÂ, A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J. (ed.). História geral da África I: metodologia e pré-história da
África. 2. ed. rev. Brasília: Unesco, 2010. p. 167-169.
relação a fenômenos, fatos 146

1 Interprete o argumento do autor sobre os tipos de testemunho de fatos do passado considerando a oposi-
ção entre os saberes escrito e oral.
e situações estudados ao
2 Elabore uma explicação para a afirmação do autor sobre a figura do griot e a transmissão do conhecimento.
longo do capítulo.
111

S A B E R E S C O N E C TA D O S SABERES
C O N E C TA D O S
L I T E R AT U R A
E HISTîRIA

Nesta seção, você terá a Defini•‹o do amor


Reprodução/Editora Autêntica

[...]
Na época de Malthus, a população inglesa cres- ao bem-estar familiar e maior aceitação da con-
cia em ritmo acelerado porque as pessoas conti-
nuavam tendo muitos filhos, começaram a viver
por mais tempo e a mortalidade infantil teve leve
tracepção na sociedade, ainda que os métodos da
época fossem primitivos e falhos. oportunidade de estudar uma O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
Por sua vez, o desenvolvimento tecnológico tam-
redução. Pouco mais de um século depois, no en-
tanto, também a taxa de natalidade começou a de-
clinar. Já no início do século XX, as mulheres ingle-
bém chegou à produção de alimentos. Novas tec-
nologias na agricultura, na pecuária, na pesca e na
conservação e no transporte de alimentos fizeram
temática abordada no capítulo união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

sas optavam por ter menos filhos por uma série de


fatores, que incluíam novas escolhas em relação
sua produção e sua durabilidade aumentar signifi-
cativamente. em diálogo com outras áreas do Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
A NALISANDO MENSAGENS

A pirâmide etária é uma representação gráfica utilizada para identificar a distribuição em faixas de ida-
conhecimento (Linguagens e suas quem diz outra coisa é besta
MATOS E GUERRA, G. Definição
des da população de um país, de um estado ou de um município. Esse tipo de representação auxilia, entre
outros objetivos, na avaliação da mão de obra potencial disponível e do crescimento de determinados gru-
pos, a fim de planejar políticas públicas para o presente e para o futuro – por exemplo, a previdência social.
Tecnologias, Matemática e suas do amor. In: HANSEN, J. A.;
MOREIRA, M. (ed.). Gregório
de Matos: poemas atribuídos –
Códice Asensio-Cunha. São Paulo:
A comparação de pirâmides etárias de diferentes épocas permite avaliar mudanças e permanências
estruturais da sociedade, conforme a composição numérica das faixas etárias. Até poucos anos atrás, o
Brasil era um país de estrutura etária jovem. Observe estas pirâmides etárias.
Tecnologias, Ciências da Natureza Autêntica, 2014. p. 460. v. 4.

B R A S I L : P I R Â M I D E E TÁ R I A ( 1 9 6 0 ) B R A S I L : P I R Â M I D E E TÁ R I A ( 2 0 1 0 ) e suas Tecnologias). Capa de volume com a reunião de


poemas atribuídos a Gregório de Matos,
Banco de imagens/Arquivo da editora

Banco de imagens/Arquivo da editora

HOMENS MULHERES HOMENS MULHERES editado e organizado por João Adolfo


ACIMA DE ACIMA DE
5 687 512 5 505 877 3 891 013 5 349 657 Hansen e Marcello Moreira, publicado
70 ANOS 70 ANOS
em 2014 pela editora Autêntica.
65 A 69 ANOS 5 170 579 4 987 844 65 A 69 ANOS 2 224 065 2 616 745

60 A 64 ANOS 4 297 589 4 263 367 60 A 64 ANOS 3 041 034 3 468 085 O destaque para a tradição oral existiu e ainda persiste em sociedades com escrita, como a brasileira.
55 A 59 ANOS 3 452 198 3 722 613 55 A 59 ANOS 3 902 344 4 373 875 Um dos recitadores mais populares no período colonial brasileiro foi o advogado e poeta baiano Gregório
de Matos (1636-1696), com suas sátiras mordazes sobre a sociedade colonial, apelidado por isso de Boca
50 A 54 ANOS 2 993 680 3 244 240 50 A 54 ANOS 4 834 995 5 305 407
do Inferno. Gregório de Matos foi estudar na universidade de Coimbra e viveu 30 anos em Portugal. Foi
45 A 49 ANOS 2 545 283 2 700 565 45 A 49 ANOS 5 692 013 6 141 338 na volta ao Brasil, em 1682, que sua fama foi construída, como poeta repentista e recitador satírico, não
40 A 44 ANOS 2 254 266 2 265 538 40 A 44 ANOS 6 320 570 6 688 797
poupando o povo, a elite e muito menos o clero. Alguns críticos divergem sobre alguns poemas atribuídos
a ele, pois teriam sofrido mudanças realizadas por copistas ou recitadores.
35 A 39 ANOS 1 973 919 1 992 655 35 A 39 ANOS 6 766 665 7 121 916
A oralidade era seu forte, como ocorria em toda sociedade colonial. Inserido na corrente artística barro-
30 A 34 ANOS 1 658 476 1 578 883 30 A 34 ANOS 7 717 657 8 026 855 ca, caracterizada pelas dicotomias virtude × vício e sagrado × profano, foi considerado um gênio por muitos
25 A 29 ANOS

20 A 24 ANOS
1 392 602

1 110 873
1 320 727

1 050 074
25 A 29 ANOS 8 460 995

20 A 24 ANOS 8 630 227


8 643 418

8 614 963 ANALISANDO MENSAGENS críticos. Não foi autor apenas de sátiras, mas também de poemas líricos e sacros. No entanto, foram as
sátiras que lhe deram popularidade, o que lhe rendeu desafetos poderosos.
Gregório de Matos era filho de família colonial proprietária de engenho. Ao final da vida, entretanto,
15 A 19 ANOS 822 979 769 041 15 A 19 ANOS 8 558 868 8 432 002
estava pobre e com poucos amigos, tanto que foi desterrado para Angola, colônia portuguesa da África,
10 A 14 ANOS

5 A 9 ANOS
720 653

399 676
682 309

388 000
10 A 14 ANOS 8 725 413

5 A 9 ANOS 7 624 144


8 441 348

7 345 231
Atividades que propõem a análise de em 1694, retornando para Pernambuco um ano depois, proibido que estava de voltar à Bahia. Morreu no
mesmo ano em decorrência de febre (malária, provavelmente) contraída na África.
0 A 4 ANOS 530 745 609 613 0 A 4 ANOS 7 016 987 6 779 172
Não publicou obras em vida, e sua produção, toda ela manuscrita, se encontra em códices espalhados

Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Censo demográfico


1960. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/
Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Censo
demográfico 2010. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/
documentos de variados gêneros, por vários arquivos do Brasil e de Portugal.

■ Com base nessas informações, desenvolva em grupo uma avaliação sobre a validade ou não de consi-
periodicos/68/cd_1960_v1_br.pdf. Acesso em: 4 ago. 2020. sinopse/webservice/frm_piramide.php. Acesso em: 4 ago. 2020.

1 Que conclusão se pode tirar a partir da observação dos dois gráficosé


(textos, produtos cartográficos, derar a obra de Gregório de Matos uma manifestação cultural específica de determinada época e lugar:
a cidade da Bahia, como era denominada a cidade de Salvador na segunda metade do século XVIII.
Considerem se é pertinente ou não comprovar a autoria da obra que hoje se atribui ao poeta.

2 No intervalo de cinquenta anos entre as duas representações, a população brasileira pouco mais que
dobrou. Seria possível esperar que de 2010 até 2060 ela dobre mais uma vezé Justifique sua resposta. quadros estatísticos, documentos 113
3 No caso do Brasil da década de 1960, considerando apenas a estrutura etária, que medidas o poder público
deveria ter enfatizado para estimular o desenvolvimento socioeconômicoé E no Brasil de 2010é Reúna-se
com um colega para discutir as possibilidades e depois escrevam uma breve exposição de seus argumentos.
oficiais, obras literárias, pinturas,
95
esculturas, monumentos, fotos,
charges, etc.).

4
GENOCÍDIO DOS ARMÊNIOS
Reprodução/Coleção particular

Um autêntico genocídio ocorreu no Império Turco


Otomano décadas antes da perseguição nazista aos
judeus. Durante a Primeira Guerra Mundial, o gover-
no turco otomano considerou que a minoria armênia
era traidora da pátria e resolveu exterminá-la siste-
maticamente. A partir de 1915, os armênios foram
expropriados, confinados em campos de prisioneiros
e aniquilados por afogamento, fuzilamento, enforca-
mento ou mesmo queimados vivos. Estima-se que
entre 800 mil e 1,5 milhão de armênios foram exter-
minados entre 1915 e 1923.
O genocídio e o holocausto armênio ocorreram mui-

ANALISAR E REFLETIR to antes da formulação desses conceitos na Europa


ocidental. Um indicativo de que a História, por vezes,
ocorre sem que haja conceitos que a definam.
Armênios conduzidos por soldados turcos para um campo
de extermínio. Harput, atual Elazıg (Turquia), 1915.

Atividades variadas que GENOCÍDIO EM RUANDA


Entre abril e julho de 1994, houve um massacre étnico em Ruanda, país no cen-
possibilitam a ampliação tro-leste africano. Ruanda abrigava duas etnias rivais, os tútsis e os hutus. Em 1994,
hutus e tútsis dividiam o poder graças a um frágil acordo que suspendeu uma guerra
O tema genocídio tem
relação com o Projeto
deste volume.
civil iniciada em 1990. Porém, o assassinato do presidente, de origem hutu – não se

e o aprofundamento de sabe se por tútsis ou por hutus contrários ao acordo –, foi o pretexto de uma ação
genocida contra os tútsis.

FICA A DICA
A origem desse conflito vinha do século XIX: os hutus, majoritários no país, consi-

determinada temática Hotel Ruanda

FICA A DICA
deravam que os tútsis tinham sido colaboradores dos europeus no período colonial
e deviam ser exterminados. Os tútsis armaram um exército de resistência, mas os Direção de Terry
hutus detinham o poder. Organizaram uma milícia que, com o apoio do Exército, exe- George. Estados

estudada no capítulo. Por


cutou entre 500 mil e 1 milhão de tútsis.
A guerra foi concluída pela reação da
guerrilha tútsi. Durante o massacre, a
Unidos, 2004.
Duração: 121 min. Sugestões de leitura,
sites e vídeos para
O filme conta a
ONU não reconheceu que havia um geno-
meio dessas atividades, cídio em Ruanda, considerando que se tra-
tava de um problema interno no qual ela
história do genocídio
em Ruanda a partir
do drama de um casal
não deveria intervir. Anos depois, alguns misto: o marido hutu e

você também poderá fazer líderes hutus foram condenados pelo ge-
nocídio pela Corte Internacional de Haia.
a esposa tútsi.
você aprofundar seu
conhecimento sobre
Refugiados ruandeses em fila para distribuição

associações entre o conteúdo Sebastião Salgado/Acervo do fotógrafo


de água perto do acampamento de Kibumba , em
Goma (antigo Zaire, atual República Democrática
do Congo), 1994. Foto de Sebastião Salgado.

e a realidade. os temas apresentados


ANALISAR E REFLETIR

■ Com base nas informações sobre o massacre dos tútsis em Ruanda, dis-
cutam a aplicabilidade do conceito de genocídio nesse caso e o motivo pelo
no capítulo.
qual a ONU teria se negado a aceitá-lo. Para tanto, dividam a sala em dois
grupos, tendo o professor como mediador. Um deles representará organiza-
ções não governamentais em defesa dos direitos humanos em Ruanda, e o
outro representará a cúpula das Nações Unidas. Ao final do debate, procu-
rem sintetizar as visões de mundo e os interesses defendidos pelas partes
representadas.

79

R O T E I R O D E E S T U D O S ROTEIRO DE ESTUDOS
A.M. Ahad/AP Photo/Glow Images

1 A tabela abaixo mostra a aprovação dos votos mas- TEXTO II Em grupos, discutam as seguintes questões,
culino e feminino em alguns países. Com mais dois
colegas, analisem os dados, levantem informações Corte Internacional ordena que
com base nos textos e no que vocês estudaram
sobre genocídio.
Conjunto de atividades que finaliza o capítulo,
complementares e respondam às questões. Mianmar proteja muçulmanos

PA Í S
S U F R ÁG I O S U F R ÁG I O
rohingyas
a) Expliquem a diferença entre perseguição re-
ligiosa e genocídio. retomando conteúdos estudados e possibilitando
MASCULINO FEMININO A Corte Internacional de Justiça (CIJ) ordenou b) A perseguição ao povo rohingya pode ser
E S TA D O S
UNIDOS
1856 1924
nesta quinta-feira (23) que Mianmar tome “me-
didas urgentes” para proteger os muçulmanos
rohingyas de perseguição e atrocidades e pre-
qualificada como um genocídio? Justifiquem.
c) A discriminação com base em religião é bas-
a ampliação das reflexões.
tante comum pelo mundo todo. Pesquisem
RÚSSIA

BRASIL
1917

1891
1917

1933
serve evidências de crimes contra eles.
Desde agosto de 2017, quase 740 mil rohingyas
buscaram refúgio em Bangladesh para escapar
uma notícia sobre esse assunto e respondam:
■ O caso que vocês encontraram se pa-
Apresenta, de forma alternada, os seguintes
rece com a questão dos rohingyas em
a) O sufrágio masculino aprovado pela Constitui-
ção brasileira de 1891 era universal?
dos abusos do exército birmanês e de milícias
budistas, classificados como “genocídio” por
investigadores da ONU.
Mianmar? Quais são as diferenças? E as
semelhanças? subtítulos:
b) Qual é a relação entre a aprovação do sufrágio ■ Há algum grupo no Brasil que poderia vir
feminino no Brasil e o avanço da democracia
liberal representativa?
É a primeira vez que as denúncias de perse-
guição contra essa minoria chegam ao tribu-
nal, sediado em Haia, na Holanda.
a sofrer perseguição ou até genocídio? Se
sim, qual? Discutindo um conceito: atividade em que um
Muçulmanos da minoria rohingya que fugiram de ■ O que pode ser feito para evitar tragédias
c) Nos Estados Unidos, o sufrágio feminino foi
reconhecido em 1924. Pode-se afirmar que
nesse ano houve o triunfo do sufrágio univer-
perseguições em Mianmar esperam por ajuda no campo de
refugiados de Ukhiya, Bangladesh, em 2017.
[...] A decisão ordena o governo birmanês a
exercer influência sobre seus militares e gru-
pos armados para evitar assassinatos e feri-
como a dos rohingya?
conceito relacionado aos temas do capítulo é
sal no país? TEXTO I
d) Relacione o ano em que o sufrágio universal
masculino e feminino foi aprovado na Rússia Quem são os rohingyas, povo
mentos de membros do grupo, além de vetar a
imposição de “condições de vida que delibe-
radamente pretendam levar à destruição físi-
De olho na universidade
3 (Enem - 2019) A maior parte das agressões e
discutido.
com o contexto histórico do país. ca no todo ou em parte” dos rohingyas.
muçulmano que a ONU diz ser
alvo de limpeza étnica O grupo continua “sob sério risco de genocídio”,
afirmou o juiz que preside o caso, Abdulqawi
manifestações discriminatórias contra as reli-
giões de matrizes africanas ocorrem em locais
públicos. É na rua, na via pública, que tiveram
Brasil: interpretação de um fato: atividade que
Discutindo um conceito A migração de cerca de 370 mil muçulmanos

Genocídio
rohingyas de Mianmar para Bangladesh nas
últimas semanas é mais um capítulo de uma
Yusuf, e Mianmar deve “tomar todas as medi-
das em seu poder para prevenir tais atos”.
CORTE Internacional ordena que Mianmar proteja
lugar mais de 2/3 das agressões, geralmente
em locais próximos às casas de culto dessas
religiões. O transporte público também é apon-
aborda uma situação específica do Brasil no
história marcada por décadas de persegui-

contexto do tema do capítulo.


muçulmanos rohingyas. Folha de S.Paulo, 23 jan. tado como um local em que os adeptos das reli-
2 De acordo com a Organização das Nações Uni- ções. [...] A maioria mora de forma precária 2020. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/
mundo/2020/01/corte-internacional-ordena-que-
giões de matrizes africanas são discriminados,
das (ONU), o genocídio ocorre quando os pode- no Estado de Rakhine, palco dos episódios
mianmar-proteja-muculmanos-rohingyas.shtml. geralmente quando se encontram paramenta-
res constituídos em algum lugar têm a intenção recentes de violência que o alto comissário Acesso em: 8 set. 2020. dos por conta dos preceitos religiosos.
de exterminar grupos minoritários, por motivos
étnicos ou religiosos. Tal perseguição tem o
das Nações Unidas para os direitos humanos,
Zeid Ra’ad al-Hussein, classificou de “limpe- REGO, L. F.; FONSECA, D. P. R.; GIACOMINI, S. M. Em todos os capítulos, o Roteiro de estudos se
© UNICEF/UN0120423/Brown

objetivo de destruir a cultura e a coesão social Cartografia social de terreiros no Rio de Janeiro.
za étnica”. [...] Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014.
destas minorias.
Em Mianmar (antiga Birmânia), existe um povo
que é perseguido pelo menos desde 1948,
A crise do povo rohingya é uma das mais lon-
gas do mundo e também uma das mais negli- As práticas descritas no texto são incompatíveis
encerra com o subtítulo De olho na universidade,
genciadas. [...]. No país, eles são proibidos de com a dinâmica de uma sociedade laica e demo-
quando a nação conquistou sua independência.
São os rohingya, uma minoria muçulmana em
um país onde o budismo prevalece. Nos últimos
se casar ou de viajar sem a permissão das au-
toridades e não têm o direito de possuir terra
crática porque

a) asseguram as expressões multiculturais.


que traz questões do Enem e de diferentes
anos, no entanto, uma crise política e social ou propriedade.
aumentou as hostilidades contra os rohingyas,
que se viram obrigados a fugir, criando uma
QUEM SÃO os rohingyas, povo muçulmano que a
ONU diz ser alvo de limpeza étnica. BBC Brasil,
b) promovem a diversidade de etnias.
c) falseiam os dogmas teológicos.
exames de vestibular, para que você possa
das maiores crises humanitárias da história 13 set. 2017. Disponível em: https://www.bbc.
recente. Leia, a seguir, trechos de reportagens
sobre o assunto.
com/portuguese/internacional-41257869. Acesso
em: 15 jul. 2020.
Refugiados rohingya chegam a Cox's Bazar, Bangladesh, em
2017, após viagem de barco.
d) estimulam os rituais sincréticos.
e) restringem a liberdade de credo. se preparar para essas avaliações, além de
86 87 conhecer como os temas estudados são tratados
nos principais exames do país.

PROJETO
Em cada volume da coleção, é proposto um projeto para A QUANTIFICAÇÃO NAS
CIÊNCIAS HUMANAS
aprofundar os estudos de um tema desenvolvido ao Vemos, nas notícias do cotidiano, os estudos e as descobertas científicas
OBSERVE QUE...
serem apresentados com números que comprovam seus resultados. Esses re-
longo do livro e desenvolver o trabalho com diferentes sultados são apenas uma pequena amostra de dados quantitativos com que os
pesquisadores dos diferentes campos da ciência trabalham. No entanto, o uso
A consolidação da
ciência como explicação
para fenômenos
sistemático de dados numéricos pela ciência é algo relativamente recente – em
metodologias de pesquisa utilizadas nas Ciências Humanas. especial nas Ciências Humanas.
Na realidade, até o século XVIII não havia distinção efetiva entre as ciências.
naturais e humanos
ocorreu no contexto de
mudança dramática
No Ocidente, todos os pensadores eram vistos como “filósofos” e podiam se dedi- na ordem social na
car ao estudo de conhecimentos diversos. Não existia o conceito atual de ciência Europa: industrialização,
como área especializada de conhecimento construído com base na observação urbanização acelerada,
êxodo rural e as
de fatos e fenômenos que possibilitam elaborar hipóteses e teorias.
consequentes
transformações no
Bridgeman Images/Fotoarena

mercado de trabalho.
Diante desses
fenômenos sociais, as
explicações religiosas
ou meramente
PROJETO ANTES DE COMEÇAR filosóficas mostravam-
-se insuficientes.
P RO D U TO F I N A L
Áudio com duração de 3 a 5 minutos, explicando o que são os Direitos Huma-
nos, qual o contexto de sua criação e como são aplicados, desmentindo mitos e
D I R E I T O S H U M AN OS PA R A T ODO S falsas concepções. Leitura da tragédia de Voltaire
O órfão da China no salão de
M AT E R I A L A S E R U T I L I Z A D O madame Geoffrin, de
Anicet-Charles-Gabriel
Computador com conexão à internet, gravador de voz ou aplicativo de gravação Lemonnier, 1812 (óleo sobre
de smartphones, programa de edição de áudio. tela, 35,6 cm 3 52,1 cm).
Marie-Thérèse Rodet Geoffrin
(1699-1777) organizava
O R I E N TAÇÕ E S G E R A I S salões literários em Paris
no século XVIII, nos quais
A BNC C NE ST E P ROJE T O 1. Reúnam-se em grupos de 4 ou 5 alunos e leiam as orientações do projeto reunia importantes nomes
Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 5, 7, 9 e 10. com calma antes de começar o trabalho. Anotem as dúvidas e esclareçam- do Iluminismo. O movimento
-nas com o professor. foi divulgador da ciência e
Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais precursor dos estudos da
Aplicadas: 1, 5 e 6. 2. Conversem entre si para definir como será a divisão de tarefas. Nenhum humanidade como ciência.
integrante deverá ser sobrecarregado.
Competência específica de Ciências da Natureza e suas
Tecnologias: 3. 3. Definam um cronograma de trabalho e evitem deixar tarefas para a última hora. A ciência começou a tomar forma quando a razão (no sentido de raciocínio)
Competência específica de Matemática e suas Tecnologias: 2.
passou a ser considerada mais adequada que a fé e a religião para explicar
P O N TO D E PA RT I D A os fenômenos naturais e humanos. Essa valorização da razão revolucionou a
Habilidades: EM13CHS102, EM13CHS103, EM13CHS106; mentalidade dos intelectuais europeus no século XVIII e esteve no cerne do
EM13CHS501, EM13CHS502, EM13CHS503, Apesar de a Declaração Universal dos Direitos Humanos ser uma das criações mais
EM13CHS504; EM13CHS604, EM13CHS605;
TE M AS CON TE M PORÂ NE O S T RAN SV ERS AI S A Declaração Iluminismo, deixando para a humanidade um legado fundamental. A religião
importantes do século XX, uma parte da opinião pública a associa à impunidade. Pro- Universal dos Direitos
EM13CNT301, EM13CNT302; EM13MAT202. ∙ Cidadania e Civismo: Educação em Direitos Humanos. ainda tem grande importância na vida particular de bilhões de pessoas, mas é
vavelmente, você já deve ter ouvido a frase “direitos humanos para humanos direitos”. Humanos foi abordada o pensamento racional que orienta os estudos de cientistas e a elaboração de
Ela expressa a opinião de que apenas um grupo pode usufruir deles, sendo frequente no capítulo 3,
políticas públicas, por exemplo.
a exclusão de pessoas que infringiram a lei deste rol. na página 69.
Entre os séculos XVIII e XIX, as ciências se diferenciaram umas das outras
O BJ E T I V O S J U S T I F I C AT I VA Os Direitos Humanos são universais. Pessoas cumprindo pena têm o direito à
vida, à dignidade e ao acesso a elementos básicos para sua existência enquanto se- conforme acumularam saberes e se especializaram em seus obéetos de estu-
res humanos. O ataque a essa ideia muitas vezes vem acompanhado de uma menta- do e suas metodologias de pesquisa. O racionalismo científico se impôs por
■ Discutir o conceito de Direitos Humanos e inves- Desde sua criação, a Declaração Universal dos Di- O tema do genocídio
lidade parcial e punitivista, que define os seres humanos em categorias estanques. de grupos étnicos
meio dessas novas disciplinas como caminho para a busca do conhecimento,
tigar como a comunidade escolar – estudantes, reitos Humanos recebeu críticas. Pensada para impedir
e religiosos foi baseando-se na pesquisa empírica e nos procedimentos da razão para buscar
responsáveis, professores e demais membros da que genocídios como o Holocausto se repetissem, ela Os Direitos Humanos dizem respeito a toda e qualquer pessoa, independente-
trabalhado no relações de causalidade para as explicações. Mas como se propunha estudar
comunidade da escola – compreende tal conceito e tem sido confundida com uma suposta condescendên- mente de credo, gênero ou orientação sexual:
capítulo 3, nas as sociedades humanas nesse contextoí Uma das respostas históricas foi a
dele se apropria. cia em relação a indivíduos que infringiram a lei. O sen-
páginas 78 a 80. criação da Sociologia.
so comum considera haver facilidades em excesso para Artigo 7o – Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito
■ Compreender o que é uma amostra e quais as
pessoas que estão presas ou são acusadas de crimes, o a igual proteção da lei. Todos têm direito a proteção igual contra qual-
funções e os objetivos desta metodologia, por 90
que resultaria em excesso de tolerância e benevolência. quer discriminação que viole a
meio de aplicação prática.
TheVisualsYouNeed/Shutterstock

No entanto, a declaração foi criada para proteger presente Declaração e contra


■ Aprender a elaborar um questionário qualitativo qualquer incitamento a tal dis-
qualquer ser humano, seja ele um cidadão livre ou
com base na definição de uma amostra. sob a custódia do Estado. Ambos têm direito à dig- criminação.
■ Coletar dados por meio da aplicação de um ques- nidade, à saúde e à manutenção de sua integridade ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES
tionário. física e emocional. UNIDAS. Declaração Universal dos
Direitos Humanos. Disponível em:
■ Criar, com base nos dados coletados, um áudio Assim, o projeto propõe um estudo aprofundado https://www.ohchr.org/EN/UDHR/

O B S E RV E Q U E . . .
informativo esclarecendo as principais dúvidas da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Pages/Language.aspx?LangID=por.
compreensão de como o conceito é entendido pela Acesso em: 16 ago. 2020.
sobre Direitos Humanos.
comunidade escolar e como se manifesta na opinião
dos indivíduos. A partir dos resultados obtidos, o gru-
po criará um áudio para explicar didaticamente o que
são os Direitos Humanos e o que de fato asseguram,
desmentindo os principais equívocos difundidos pelo
Esse boxe traz informações
senso comum. O material será distribuído por aplica-
tivos de mensagens instantâneas com a subsequente
apresentação detalhada dos achados à comunidade
escolar.
Os Direitos Humanos foram pensados para
evitar a perseguição de grupos étnicos
e religiosos, mas também para garantir
direitos básicos a todas as pessoas.
complementares sobre os temas
152 153 abordados ao longo do capítulo.

5
C OMP E TÊ NCI AS E HABI LI DAD ES D A BNCC

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento normativo


oficial que dispõe as aprendizagens essenciais que os estudantes devem
desenvolver desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Foi estabele-
cida com o objetivo de orientar a educação escolar de crianças e jovens
de todo o país, de modo que todos possam ter acesso aos mesmos conhe-
cimentos e aprendizagens e, assim, ser capazes de lidar com questões da
vida cotidiana, de cidadania e do mundo do trabalho.
A BNCC tem como base dez competências gerais da Educação Bási-
ca, que são necessárias para garantir esse conjunto de conhecimentos e
aprendizagens ao longo do ensino.
No Ensino Médio, que é organizado em quatro áreas de conhecimen-
to – Linguagens e suas Tecnologias e Língua Portuguesa; Matemática e
suas Tecnologias e Matemática; Ciências da Natureza e suas Tecnologias
e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas –, os estudantes também devem
desenvolver competências específicas de cada área, que são as aprendiza-
gens fundamentais a considerar.
A seguir são apresentadas as competências gerais da Educação Básica,
todas as competências específicas e as habilidades de Ciências Humanas
e Sociais Aplicadas, além das competências específicas e as habilidades
das outras três áreas que se relacionam diretamente com os temas tratados
neste livro.
No início dos capítulos, são destacadas as competências e habilidades
associadas aos temas que serão estudados. Dessa maneira, você poderá
perceber a relação de seus estudos com o seu dia a dia e, assim, dar sentido
e desenvolver uma análise crítica daquilo que está ao seu redor.
Para conhecer o texto completo da BNCC, você pode acessar o site: http://
basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 7 ago. 2020.

COMPOSIÇÃO DOS CÓDIGOS DAS HABILIDADES

E M 1 3 C H S 1 0 1

EM: Indica a etapa CHS: Indica 01: Os dois últimos


de Ensino Médio. a área à qual números indicam
a habilidade a habilidade
pertence. relativa a essa
competência.

13: Indica que a 1: O primeiro


habilidade pode ser número indica
desenvolvida em a competência
qualquer série do da área.
Ensino Médio.

6
COMPETÊNCIAS GERAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico,


social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e
colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, in-
cluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para
investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar
soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mun-
diais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita),
corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artísti-
ca, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências,
ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao enten-
dimento mútuo.
5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de for-
ma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as es-
colares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimen-
tos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimen-
tos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do
trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida,
com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, ne-
gociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promo-
vam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em
âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si
mesmo, dos outros e do planeta.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-
-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com auto-
crítica e capacidade para lidar com elas.
9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se
respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento
e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identida-
des, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliên-
cia e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos,
inclusivos, sustentáveis e solidários.
Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular.
Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_
110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 2 ago. 2020. p. 9-10.

7
COM PETÊNCIAS E HABIL IDADES DA BNCC

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS


APLICADAS

1. Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos


local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da pluralidade de
procedimentos epistemológicos, científicos e tecnológicos, de modo a compreender e
posicionar-se criticamente em relação a eles, considerando diferentes pontos de vista
e tomando decisões baseadas em argumentos e fontes de natureza científica.
2. Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, me-
diante a compreensão das relações de poder que determinam as territorialidades e o
papel geopolítico dos Estados-nações.
3. Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades
com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômicos e
socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e promovam
a consciência, a ética socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, re-
gional, nacional e global.
4. Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, con-
textos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e
transformação das sociedades.
5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, ado-
tando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direi-
tos Humanos.
6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições e fazen-
do escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberda-
de, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.

Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

(EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em


diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos
históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas,


econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo,
evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu
significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a


processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base
na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos
filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas,
tradições orais, entre outros).

8
(EM13CHS104) Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar
conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade
cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço.

(EM13CHS105) Identificar, contextualizar e criticar tipologias evolutivas (populações nômades e


sedentárias, entre outras) e oposições dicotômicas (cidade/campo, cultura/natureza, civilizados/
bárbaros, razão/emoção, material/virtual etc.), explicitando suas ambiguidades.

(EM13CHS106) Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros


textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva
e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir
informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida
pessoal e coletiva.

(EM13CHS201) Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital


nos diversos continentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e
povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo
a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações
entre eles.

(EM13CHS202) Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas


de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de
mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências
nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais.

(EM13CHS203) Comparar os significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e


cultural) em diferentes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas (civilização/
barbárie, nomadismo/sedentarismo, esclarecimento/obscurantismo, cidade/campo, entre outras).

(EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de


territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como
grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e
considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as
características socioeconômicas, políticas e tecnológicas.

(EM13CHS205) Analisar a produção de diferentes territorialidades em suas dimensões culturais,


econômicas, ambientais, políticas e sociais, no Brasil e no mundo contemporâneo, com destaque
para as culturas juvenis.

(EM13CHS206) Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos,


aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos,
casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico.

(EM13CHS301) Problematizar hábitos e práticas individuais e coletivos de produção,


reaproveitamento e descarte de resíduos em metrópoles, áreas urbanas e rurais, e comunidades
com diferentes características socioeconômicas, e elaborar e/ou selecionar propostas de ação
que promovam a sustentabilidade socioambiental, o combate à poluição sistêmica e o consumo
responsável.

9
COM PETÊNCIAS E HABIL IDADES DA BNCC

(EM13CHS302) Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de


cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em
diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais
– entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais –, suas práticas
agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.

(EM13CHS303) Debater e avaliar o papel da indústria cultural e das culturas de massa no


estímulo ao consumismo, seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à percepção
crítica das necessidades criadas pelo consumo e à adoção de hábitos sustentáveis.

(EM13CHS304) Analisar os impactos socioambientais decorrentes de práticas de instituições


governamentais, de empresas e de indivíduos, discutindo as origens dessas práticas,
selecionando, incorporando e promovendo aquelas que favoreçam a consciência e a ética
socioambiental e o consumo responsável.

(EM13CHS305) Analisar e discutir o papel e as competências legais dos organismos nacionais e


internacionais de regulação, controle e fiscalização ambiental e dos acordos internacionais para
a promoção e a garantia de práticas ambientais sustentáveis.

(EM13CHS306) Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos


socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e
socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal
por diferentes comunidades, entre outros).

(EM13CHS401) Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais


e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e
informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços
(urbanos e rurais) e contextos.

(EM13CHS402) Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes


espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade
socioeconômica.

(EM13CHS403) Caracterizar e analisar os impactos das transformações tecnológicas nas


relações sociais e de trabalho próprias da contemporaneidade, promovendo ações voltadas à
superação das desigualdades sociais, da opressão e da violação dos Direitos Humanos.

(EM13CHS404) Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes


circunstâncias e contextos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações, em
especial, os jovens, levando em consideração, na atualidade, as transformações técnicas,
tecnológicas e informacionais.

(EM13CHS501) Analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, tempos e espaços,


identificando processos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a
liberdade, a cooperação, a autonomia, o empreendedorismo, a convivência democrática e a
solidariedade.

10
(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc.,
desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e
discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o
respeito às diferenças e às liberdades individuais.

(EM13CHS503) Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.),


suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos
políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em
argumentos éticos.

(EM13CHS504) Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações


culturais, sociais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus
desdobramentos nas atitudes e nos valores de indivíduos, grupos sociais, sociedades e culturas.

(EM13CHS601) Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e


culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no
Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão
precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução
das desigualdades étnico-raciais no país.

(EM13CHS602) Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do


populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos
ditatoriais e democráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das
sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da
cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual.

(EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências


políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas,
sistemas e regimes de governo, soberania etc.).

(EM13CHS604) Discutir o papel dos organismos internacionais no contexto mundial, com vistas
à elaboração de uma visão crítica sobre seus limites e suas formas de atuação nos países,
considerando os aspectos positivos e negativos dessa atuação para as populações locais.

(EM13CHS605) Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às


noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização
desses direitos nas diversas sociedades contemporâneas e promover ações concretas diante da
desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a
identidade de cada grupo e de cada indivíduo.

(EM13CHS606) Analisar as características socioeconômicas da sociedade brasileira – com base na


análise de documentos (dados, tabelas, mapas etc.) de diferentes fontes – e propor medidas para
enfrentar os problemas identificados e construir uma sociedade mais próspera, justa e inclusiva,
que valorize o protagonismo de seus cidadãos e promova o autoconhecimento, a autoestima, a
autoconfiança e a empatia.

Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacional
comum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 2 ago. 2020. p. 570-579.

11
COM PETÊNCIAS E HABIL IDADES DA BNCC

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS E HABILIDADES DE OUTRAS ÁREAS


DO CONHECIMENTO

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE LINGUAGENS E SUAS TECNOLOGIAS


1. Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas culturais (artísti-
cas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de
discursos nos diferentes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar
as formas de participação social, o entendimento e as possibilidades de explicação e
interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo.
2. Compreender os processos identitários, conflitos e relações de poder que permeiam
as práticas sociais de linguagem, respeitando as diversidades e a pluralidade de ideias
e posições, e atuar socialmente com base em princípios e valores assentados na de-
mocracia, na igualdade e nos Direitos Humanos, exercitando o autoconhecimento, a
empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, e combatendo preconceitos
de qualquer natureza.
3. Utilizar diferentes linguagens (artísticas, corporais e verbais) para exercer, com autono-
mia e colaboração, protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva, de forma crítica,
criativa, ética e solidária, defendendo pontos de vista que respeitem o outro e promovam
os Direitos Humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável, em âm-
bito local, regional e global.

Habilidades de Linguagens e suas Tecnologias

(EM13LGG102) Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias


presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, ampliando suas possibilidades de
explicação, interpretação e intervenção crítica da/na realidade.

(EM13LGG201) Utilizar as diversas linguagens (artísticas, corporais e verbais) em diferentes


contextos, valorizando-as como fenômeno social, cultural, histórico, variável, heterogêneo e
sensível aos contextos de uso.

(EM13LGG202) Analisar interesses, relações de poder e perspectivas de mundo nos discursos das
diversas práticas de linguagem (artísticas, corporais e verbais), compreendendo criticamente o
modo como circulam, constituem-se e (re)produzem significação e ideologias.

(EM13LGG302) Posicionar-se criticamente diante de diversas visões de mundo presentes nos


discursos em diferentes linguagens, levando em conta seus contextos de produção e de circulação.

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS DA NATUREZA E SUAS TECNOLOGIAS

2. Analisar e utilizar interpretações sobre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cosmos para


elaborar argumentos, realizar previsões sobre o funcionamento e a evolução dos seres
vivos e do Universo, e fundamentar e defender decisões éticas e responsáveis.

3. Investigar situações-problema e avaliar aplicações do conhecimento científico e tecno-


lógico e suas implicações no mundo, utilizando procedimentos e linguagens próprios

12
das Ciências da Natureza, para propor soluções que considerem demandas locais, re-
gionais e/ou globais, e comunicar suas descobertas e conclusões a públicos variados,
em diversos contextos e por meio de diferentes mídias e tecnologias digitais de infor-
mação e comunicação (TDIC).

Habilidades de Ciências da Natureza e suas Tecnologias

(EM13CNT201) Analisar e discutir modelos, teorias e leis propostos em diferentes épocas e


culturas para comparar distintas explicações sobre o surgimento e a evolução da Vida, da Terra e
do Universo com as teorias científicas aceitas atualmente.

(EM13CNT205) Interpretar resultados e realizar previsões sobre atividades experimentais,


fenômenos naturais e processos tecnológicos, com base nas noções de probabilidade e incerteza,
reconhecendo os limites explicativos das ciências.

(EM13CNT207) Identificar, analisar e discutir vulnerabilidades vinculadas às vivências e aos


desafios contemporâneos aos quais as juventudes estão expostas, considerando os aspectos
físico, psicoemocional e social, a fim de desenvolver e divulgar ações de prevenção e de promoção
da saúde e do bem-estar.

(EM13CNT208) Aplicar os princípios da evolução biológica para analisar a história humana,


considerando sua origem, diversificação, dispersão pelo planeta e diferentes formas de interação
com a natureza, valorizando e respeitando a diversidade étnica e cultural humana.

(EM13CNT305) Investigar e discutir o uso indevido de conhecimentos das Ciências da Natureza


na justificativa de processos de discriminação, segregação e privação de direitos individuais e
coletivos, em diferentes contextos sociais e históricos, para promover a equidade e o respeito à
diversidade.

Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacionalcomum.
mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 2 ago. 2020. p. 553-560.

C O M P E T Ê N C I A S E S P E C Í F I C A S D E M AT E M ÁT I C A E S U A S T E C N O L O G I A S

2. Propor ou participar de ações para investigar desafios do mundo contemporâneo e


tomar decisões éticas e socialmente responsáveis, com base na análise de problemas
sociais, como os voltados a situações de saúde, sustentabilidade, das implicações da
tecnologia no mundo do trabalho, entre outros, mobilizando e articulando conceitos,
procedimentos e linguagens próprios da Matemática.

Habilidades de Matemática e suas Tecnologias

(EM13MAT202) Planejar e executar pesquisa amostral sobre questões relevantes, usando dados
coletados diretamente ou em diferentes fontes, e comunicar os resultados por meio de relatório
contendo gráficos e interpretação das medidas de tendência central e das medidas de dispersão
(amplitude e desvio padrão), utilizando ou não recursos tecnológicos.

Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacionalcomum.
mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 2 ago. 2020. p. 531-541.

13
S UM ÁRI O

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC 6


INTRODUÇÃO 16

A TERRA E A HUMANIDADE 18
A S T E S E S R E L I G I O S A S E M Í T I C A S ................................................................ 20
C A Analisando mensagens .................................................................................. 20
D A E X P L O S Ã O C Ó S M I C A À V I D A N O P L A N E TA ..................................... 22
P Í Questões em foco: Dinossauros no Brasil ......................................................... 24
T U Questões em foco: Por que existem catástrofes planetárias? .............................. 26
Saberes conectados: Ciências da Natureza e suas Tecnologias ........................... 27
L O Questões em foco: Humanização e gênero....................................................... 31

1
Conversa de Historiador ................................................................................ 32
Analisando mensagens .................................................................................. 33
Conversa de Cientistas ................................................................................... 35
Roteiro de estudos......................................................................................... 37

A EMERGÊNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS 40

C A H U M A N I D A D E S : R A Í Z E S E D E S C O N T I N U I D A D E S .................................... 42

E S TAT U T O C I E N T Í F I C O D A S H U M A N I D A D E S , S E U S D I L E M A S
P Í E C A M I N H O S E M D I R E Ç Ã O À I N T E R D I S C I P L I N A R I D A D E ...................... 48
Analisando mensagens ..................................................................................
T U 49
Questões em foco: A luxúria no Brasil ............................................................. 52
L O Questões em foco: Pensamento selvagem e pensamento científico ...................... 58
Questões em foco: Fim da História? ................................................................
2
61
I M PA C T O D A G L O B A L I Z A Ç Ã O N A S H U M A N I D A D E S ............................. 62
Roteiro de estudos......................................................................................... 64

A HUMANIDADE ENTRE CONCEITOS E PRECONCEITOS 66


R E C O N H E C I M E N T O D A H U M A N I D A D E ....................................................... 68
C A Saberes conectados: Ciências da Natureza e suas Tecnologias ........................... 68

P Í A T R A D I Ç Ã O D O S P R E C O N C E I T O S .............................................................. 70
Questões em foco: Relativismo cultural ............................................................ 73
T U Analisando mensagens .................................................................................. 74
Questões em foco: Jihad, guerra santa do islamismo? ...................................... 76
L O
X E N O F O B I A E G E N O C Í D I O ............................................................................ 77

3 Conversa de Historiadores .............................................................................


C O M B AT E À S D I S C R I M I N A Ç Õ E S ...................................................................
78
80
Analisando mensagens .................................................................................. 83
Roteiro de estudos......................................................................................... 86

14
I N D I C A D O R E S Q U A N T I TAT I V O S
C A NAS CIÊNCIAS HUMANAS 88
A Q U A N T I F I C A Ç Ã O N A S C I Ê N C I A S H U M A N A S ...................................... 90
P Í
U M A C I Ê N C I A D A S P O P U L A Ç Õ E S H U M A N A S .......................................... 94
T U Analisando mensagens .................................................................................. 95
Questões em foco: A probabilidade nas Ciências Humanas ............................... 100
L O Questões em foco: Migração e xenofobia ........................................................ 101

4
O M A L D A S M É D I A S ........................................................................................ 1 0 4
Questões em foco: Séries históricas, tendências e exceções................................ 105
Roteiro de estudos......................................................................................... 106

C I Ê N C I A S H U M A N A S E L I T E R AT U R A 108
L I T E R AT U R A O R A L E O R E S G A S T E D A T R A D I Ç Ã O
E D A H I S T Ó R I A .................................................................................................. 1 1 0
Questões em foco: Documento escrito × documento oral .................................... 111
A T R A D I Ç Ã O O R A L T R A N S F O R M A D A E M E S C R I TA ................................ 1 1 2
Saberes conectados: Literatura e História......................................................... 113
C A
A D I F U S Ã O D A E S C R I TA I M P R E S S A ............................................................ 1 1 5
P Í A T I P O G R A F I A E A I M P R E N S A N O B R A S I L .............................................. 1 1 7
Questões em foco: O que é uma imprensa livre? .............................................. 117
T U L I T E R AT U R A E N A C I O N A L I S M O .................................................................... 1 1 8

L O L I T E R AT U R A E A B O L I Ç Ã O : L I Ç Õ E S D E H I S T Ó R I A
D O B R U X O D O C O S M E V E L H O ..................................................................... 1 2 0

5 Analisando mensagens .................................................................................. 121


L I T E R AT U R A E S O C I E D A D E N O B R A S I L : T E R R I T O R I A L I D A D E S ............ 1 2 2
L I T E R AT U R A P O P U L A R : D O S F O L H E T I N S À I N T E R N E T .......................... 1 2 4
D E V O LTA A O Q U A R T O D E D E S P E J O E À S C I Ê N C I A S H U M A N A S ...... 1 2 7
L I T E R AT U R A C O M O F O N T E D E P E S Q U I S A C I E N T Í F I C A .......................... 1 2 7
Roteiro de estudos......................................................................................... 128

R E P R E S E N TA Ç Õ E S G E O G R Á F I C A S , C U LT U R A I S
E P O L Í T I C A S D O P L A N E TA 130
C A C A R T O G R A F I A N O M U N D O G L O B A L I Z A D O ............................................. 1 3 2
Questões em foco: Ocidente e Oriente ............................................................. 133
P Í Saberes conectados: Matemática e suas Tecnologias ......................................... 133
Questões em foco: Cartogramas em anamorfose, economia e sociedade ............ 135
T U C A R T O G R A F I A I M A G I N Á R I A ......................................................................... 1 3 6

L O C A R T O G R A F I A C O M O C I Ê N C I A .................................................................... 1 4 0
Analisando mensagens .................................................................................. 143

6 G E O P O L Í T I C A E N T R E A PA Z E A G U E R R A ................................................. 1 4 4
Conversa de Historiadores ............................................................................. 146
Roteiro de estudos......................................................................................... 149

PROJETO 152

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 158

15
INTRODU‚ÌO
Neste volume, você vai descobrir ou redescobrir as
Ciências Humanas, com destaque para o surgimento
da Filosofia, da Geografia, da História e da Sociologia,
considerando as especificidades de cada uma, bem
como as intersecções entre elas, o que possibilita a
perspectiva interdisciplinar adotada em toda a coleção.
Para tanto, o volume aborda os conceitos de tempo
e espaço em perspectiva social e convida você e os co-
legas a fazer viagens no tempo e no espaço que se-
rão fundamentais para a sua compreensão da vida e
da sociedade na qual está inserido. Uma aventura e
tanto, que passará por uma reflexão sobre a origem
do nosso planeta, incluindo suas transformações geo-
físicas antes do surgimento da própria humanidade. As
viagens também retomarão o longuíssimo processo de
hominização, ou seja, a transformação de certo tipo de
primata no ser humano que existe hoje quanto à sua
morfologia física e, sobretudo, sua estrutura cerebral.
Essas viagens oferecerão ainda oportunidades para
uma reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos.
Isso porque diversos conceitos sobre a Humanida-
de, no tempo e no espaço, foram estabelecidos tendo
como parâmetro teorias preconceituosas que, direta
ou indiretamente, estimularam (e estimulam) a re-
jeição das diferenças culturais ou individuais. Muitos
desses conceitos, como veremos, podem alimentar
culturas de ódio, sistemas opressivos de poder e até
políticas oficiais de extermínio contra determinados
grupos sociais.
Por isso, em consonância com a competência geral 1
da BNCC, este volume dará atenção especial a esse
assunto, com destaque para conceitos historicamente
constituídos e comprometidos com o livre-pensamen-
to, em contraste com preconceitos que se voltam para
a exclusão e a violência. Assim, esperamos que você e
os colegas, com base nas aprendizagens adquiridas,
possam colaborar para a construção de uma socieda-
de justa, democrática e inclusiva.
Durante esse percurso, diversos processos políti-
cos, econômicos e sociais serão analisados em dife-
rentes contextos históricos, permitindo que você possa
considerar diferentes pontos de vista e formular seus
próprios conceitos e opiniões baseando-se em fon-
tes de natureza científica, conforme preconizado pela
competência específica 1 de Ciências Humanas e So-
ciais Aplicadas.

16
América invertida, de Joaquín Torres García, 1943. Mais
do que representações do planeta, os mapas carregam
consigo interpretações de mundo e ideologias.

O volume também oferece aparatos impor-


tantes para interpretar a realidade em pers-
pectiva humanista, tais como ferramentas
quantitativas voltadas para a compreensão da
realidade com base em representações numé-
ricas de gráficos e tabelas de valor estatístico,
além de fontes literárias, iconográficas e car-
tográficas. Mais do que isso, promove refle-
xões sobre seus usos de forma crítica, signi-
ficativa e ética e estimula a utilização dessas
linguagens para a comunicação e a produção
de conhecimento, de acordo com a habilidade
EM13CHS106.
As Ciências Humanas, seus métodos e suas
ferramentas contribuem grandemente para a
formação humanista dos indivíduos e sua com-
preensão do mundo e de seus diversos grupos e
sociedades. Se formados tendo como farol uma
cultura pluralista e democrática, os jovens de
hoje serão em breve adultos comprometidos em
transformar a sociedade da qual fazem parte.
Reprodução/Museu Torres García, Montevideo, Uruguai

Luciana Whitaker/Pulsar Imagens

As Ciências Humanas são essenciais na formação de cidadãos conscientes e capazes de transformar a sociedade. Na foto,
estudantes cuidam da casa de vegetação de tomates em campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMT),
em Campo Verde (MT), 2018.

17
C A
P Í
T U
L O

Daniel Alves, jogador


brasileiro de futebol, durante
comemoração de gol em A BN CC NE STE CA P ÍT U L O :
partida realizada em Villarreal
(Espanha), 2014. Nessa partida, Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 7 e 9.
o jogador, que na época atuava
pelo Barcelona, comeu uma Competência específica de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1.
banana arremessada, da
Competências específicas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 2 e 3.
arquibancada, pela torcida
adversária enquanto cobrava Competência específica de Linguagens e suas Tecnologias: 2.
escanteio (a cena pode ser vista
no detalhe). Habilidades: EM13CHS101, EM13CHS103, EM13CHS104, EM13CHS105, EM13CNT201,
EM13CNT205, EM13CNT305 e EM13LGG201.

Temas Contemporâneos Transversais: Ciência e Tecnologia; Meio Ambiente – Educação


Ambiental; Multiculturalismo – Diversidade Cultural.

18
Em certo sentido, a peça representada nesse
teatro sem lugar é sempre a mesma: é aquela
que repete indefinidamente os dominadores e os
dominados. […] Trata-se de fazer da história uma
contramemória e de desdobrar consequentemente
toda uma outra forma de tempo.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro:


Graal, 2004. p. 24-34.

A TERRA E A HUMANIDADE

Reprodução/www.youtube.com/Canal: CNN
Em 2014, o jogador brasileiro Daniel Alves (1983-), lateral
do Barcelona, sofreu ofensas por parte da torcida adversária,
que jogou bananas em direção a ele durante um jogo do Bar-
celona contra o Villarreal, pelo Campeonato Espanhol. Com
essa atitude racista, a torcida quis comparar Daniel Alves a
Miguel Ruiz/FC Barcelona/Getty Images

um macaco, por ele ser afrodescendente. Contudo, Daniel


respondeu ao insulto de maneira inusitada: ao se preparar
para cobrar um escanteio, o jogador se abaixou, pegou uma
das bananas que foram arremessadas no campo e a comeu.
Após o jogo, ele comentou com a imprensa a recorrente
provocação racista da torcida: “Estou na Espanha há onze
anos e há onze anos é dessa maneira. Temos de rir dessa
Daniel Alves comendo banana atirada por
gente atrasada”. A atitude do jogador teve repercussão po- torcedor em Villarreal (Espanha), 2014.
sitiva no mundo todo.

SUA EXPERIÊNCIA PESSOAL

1 Você já foi alvo de racismo ou presenciou uma situação de racismo contra afrodescendentes?
Em caso afirmativo, relate sua experiência.
2 O que você acha do comentário de Daniel Alves, de que racistas são atrasados?

19
AS TESES RELIGIOSAS
E MÍTICAS
A partir do século XIX, a ciência passou a ser o grande paradigma da busca
pelo conhecimento em todas as áreas do saber. Do Ocidente, logo espalhou-se
para todo o mundo. Nessa época, o paradigma rival, cada vez mais combatido ou
mesmo superado, era o da religião. Este assunto será trabalhado no Capítulo 2.
O embate entre ciência e religião não foi fácil. No Ocidente, o conhecimento
científico esbarrou nas instituições religiosas, zelosas de um saber espiritual,
derivado da fé como produtora de verdades absolutas. Também sofreu resistên-
cia de culturas populares, baseadas em crenças no sobrenatural e nas tradições
comunitárias de séculos, transmitidas oralmente entre gerações.
Nesse conflito, um dos maiores dilemas estava em explicar como o mundo e a
própria humanidade surgiram: o dilema entre criacionismo e evolucionismo, teorias
que serão discutidas ao longo deste capítulo. É possível afirmar que a ciência venceu
esse embate, mas até hoje o anticientificismo não desapareceu completamente.
Desde o fim do século XX, surgiram diversos movimentos contrários à legitimidade
do conhecimento científico, vários deles veiculados em redes sociais, com suporte
digital – um dos maiores avanços científicos do processo de globalização.
Mas, assim como o pensamento evolucionista abrigou divergências entre os
cientistas, também houve vários criacionismos. A diferença mínima que se deve
estabelecer é entre as religiões monoteístas e as politeístas. O criacionismo, vale
insistir, não é exclusivo dos monoteísmos.
monoteísta

A C R I A ÇÃ O NA S R E L I GI Õ ES que defende ou é
adepto do monoteísmo,
M ONOTE Í S TA S crença religiosa na
existência de um Deus
Na narrativa bíblica, logo no primeiro livro do Antigo Testamento (Gênesis), único. As três principais
Deus criou o mundo e todas as coisas, incluindo o primeiro homem, Adão. Da religiões monoteístas
costela de Adão, Deus criou a primeira mulher, Eva, para fazer-lhe companhia. da atualidade são o
Assim consta da narrativa dos hebreus, adotada por cristãos e muçulmanos. As judaísmo, o cristianismo
e o islamismo, que têm
religiões monoteístas do mundo acreditam que o Universo, a Terra e a humani-
origem nas crenças e
dade foram criações de um Deus eterno, invisível e onipresente. nas tradições dos antigos
Essa visão da criação do mundo e da humanidade das religiões monoteístas é hebreus.
conhecida como criacionismo.

A NALISANDO MENSAGENS Creative Lab/Shutterstock

O afresco ao lado, do pintor italiano Michelangelo


Buonarroti (1475-1564), é um detalhe do teto da Capela
Sistina, no Vaticano. O conjunto da obra é inspirado em
passagens bíblicas, representadas desde a criação do
mundo e da humanidade até o Juízo Final.

■ Faça o que se pede.


a) Que conhecimentos sobre o criacionismo podem
ser relacionados com esse afresco?
b) Forme um grupo com os colegas para pesquisar,
em livros e na internet, o afresco e seu significado. A criação de Adão (1508-1512), de Michelangelo, detalhe
do afresco no teto da Capela Sistina, no Vaticano.
c) Registre em um texto as descobertas que você fez
O trabalho exigiu quatro anos do artista, que pintava
com essa pesquisa. suspenso em andaimes, deitado de costas e olhando
para cima.

20
A C R I A ÇÃ O NA S R E L I GI ÕE S POLIT E ÍSTAS
Pavel Kirichenko/Shutterstock

A versão monoteísta da criação do mundo e da humanidade é


mítica, pois está baseada na fé religiosa, sem comprovação cientí-
fica. O mesmo ocorre com a versão das religiões politeístas, isto é,
que acreditam em vários deuses. E, como há vários deuses nessas
religiões, há várias narrativas criacionistas.
Na Grécia antiga, muitos séculos antes de Cristo, acreditava-se
que os deuses haviam sido criados à semelhança dos homens, e
não o contrário. Para a mitologia grega, no princípio havia apenas
o Caos, a Terra e o Amor, criador de toda a vida. Do Caos surgiram
a Escuridão e a Noite, que, unidos pelo Amor, fizeram nascer a luz
celestial. A Terra gerou o Céu, que se tornou seu marido. A Terra e
o Céu foram os primeiros senhores do Universo, e todas as criatu-
ras surgiram dessa união.
O herdeiro divino do casamento entre Terra e Céu, para os gre-
gos, foi Zeus, que governava todos os deuses e deusas – a do amor,
a da caça, a da memória – e muitos semideuses. Os deuses viviam Estátua de Zeus na praça
no Olimpo e as divindades gregas são, por isso, chamadas de olímpicas. Navona, em Roma (Itália),
2020.
Há narrativas escritas da mitologia grega politeísta, assim como das religiões
monoteístas. Entretanto, em algumas partes do mundo não há textos religiosos
escritos, mas tradições orais sobre a origem do mundo e da humanidade, que se OBSERVE QUE...
perpetuaram passando de geração em geração. É o caso dos mitos africanos e Na religião dos povos
ameríndios. iorubás, da Nigéria e do
Reprodução/Espaço Cultural da Barroquinha, Salvador, BA Benin, na África ocidental,
o deus supremo, em uma
de suas várias versões, é
conhecido como Olorum.
Há ainda divindades
chamadas orixás, com
atributos humanos.
O iorubá deu base ao
candomblé praticado
no Brasil, sobretudo na
Bahia.
Reprodução/World Digital Library

OBSERVE QUE...
No México, entre os
antigos povos astecas,
acreditava-se que o
Exposição “Orixás da Bahia”, no Espaço Cultural da
deus Quetzalcóatl havia
Barroquinha, em Salvador (BA), em foto de 2018.
legado à humanidade
todos os conhecimentos
necessários à
sobrevivência coletiva.
Na tradição asteca,
Ilustração de Quetzalcóatl, a Serpente Emplumada, um
dizia-se que ele, depois
dos principais deuses dos astecas, do artista Juan de de sua obra, retirou-se
Tovar, c. 1585 (aquarela sobre papel, de 21 cm 3 15,2 cm). do mundo, mas voltaria
Meio réptil, meio pássaro, esse deus simbolizava a pelo Leste. Sua volta
união do céu e da terra. anunciaria o fim dos
tempos, um apocalipse.
O que há em comum entre o pensamento dos monoteístas e o dos Quando os espanhóis
politeístas sobre a origem da Terra e da humanidade? São ideias religiosas que desembarcaram no
México, os astecas
buscam ligar o mundo dos vivos ao sobrenatural, sem racionalidade científica. Isso entraram em pânico,
não é surpreendente, pois a ciência ainda não havia se desenvolvido como prática e julgando que eles
prevalecia o pensamento mítico. Esse tipo de pensamento tem sua lógica, mas não indicavam o retorno fatal
pode ser comprovado: é uma questão de fé. daquela divindade.

21
DA EXPLOSÃO CÓSMICA À VIDA NO
P L A N E TA
A origem do planeta Terra e da própria humani- No século XIX, período de afirmação do pensa-
dade é, portanto, assunto dos mais controversos. mento científico, essas explicações foram contesta-
No mundo ocidental, até o século XIX, acreditava-se, das. Entre os vários pensadores da época, o mais re-
como vimos, que a origem do planeta era a narrada volucionário no assunto foi o inglês Charles Darwin
na Bíblia. Essa interpretação é conhecida como teo- (1809-1882), que desenvolveu a teoria do evolucio-
ria criacionista. nismo, como veremos mais adiante neste capítulo.

O BIG BANG
As explicações religiosas para a criação do mundo foram contestadas nova-
mente, no início do século XX, com o trabalho de Georges Lemaître (1894-1966).
O físico belga propôs a ideia de que o Universo teria se originado da explosão de
um átomo, ou “ovo cósmico”, bilhões de anos atrás. Sua teoria ficou conhecida
como big bang, ou “grande explosão”.
IgorZh/Shutterstock

Representação artística do
Big Bang. A Terra, apenas
um planeta de um sistema
estelar entre os incontáveis
existentes no Universo,
teria surgido na cadeia
dessas explosões cósmicas.
É o quinto maior planeta
entre os oito que compõem
o Sistema Solar e o terceiro
mais próximo do Sol.
Cores fantasia.

No século XV, pensadores renascentistas ocidentais, tendo como base a ob-


Representação artística
servação astronômica, afirmavam que a Terra pertencia ao Sistema Solar. O pio- dos planetas do Sistema
neiro desse conhecimento foi o polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), seguido Solar e sua localização
de muitos outros, como o italiano Galileu Galilei (1564-1642), no século XVII. em relação ao Sol.
Cores fantasia.

MERCÚRIO
VÊNUS
TERRA
MARTE
Tristan3D/Shutterstock

URANO NETUNO

JÚPITER SATURNO

22
Porém, nessa época, a Igreja fazia oposição aos avanços do conhecimento
científico, insistindo na ideia de que a Terra era criação de Deus e centro do Uni-
verso – teoria conhecida como geocentrismo. A partir do século XVIII, o conheci-
mento científico passou a prevalecer sobre o religioso.

EV O LU ‚ Ì O D OS S E RE S VI VOS
Os cientistas calculam que a Terra começou a se formar há cerca de 4,6 bilhões
de anos, com o surgimento das terras emersas (continentes e ilhas) e dos primeiros
oceanos. Imagina-se que a Terra era uma imensa massa incandescente formada por
magma. Com o passar do tempo, o planeta começou a se resfriar e muitos minerais
se solidificaram, formando uma camada rochosa na superfície terrestre, a litosfera.
Durante o processo de resfriamento dos minerais, alguns gases e vapores
foram liberados e formaram uma espécie de esfera de vapor: a atmosfera.
A expansão desses gases, em especial do oxigênio, levou à formação de vapor de
água, o que gerou as primeiras precipitações, ou chuvas, que levaram à formação
dos oceanos ao longo de milhões de anos, e da chamada hidrosfera, formada por
toda a água do planeta.
A formação dos oceanos foi fundamental para o surgimento das primeiras
formas de vida, muito simples, há 3,5 bilhões de anos, como bactérias, algas e
outros microrganismos. Há aproximadamente 400 milhões de anos apareceram OBSERVE QUE...
os primeiros invertebrados aquáticos, como os caracóis e as estrelas-do-mar, Primata é um termo
além de grande variedade de plantas. Nesse mesmo período, plantas marinhas genérico que inclui
começaram a se adaptar ao ambiente terrestre, dando origem à flora da super- macacos, símios e
fície do planeta. seres humanos. Assim,
homens e macacos têm
Há registros de que os primeiros répteis, em especial os dinossauros, datam uma ancestralidade
de 200 milhões de anos atrás, assim como os grandes mamíferos, além das pri- comum, mas são
meiras plantas com flores. espécies diferentes, não
sendo correto afirmar,
As grandes cadeias de montanha podem ter iniciado seu processo de forma- portanto, que a espécie
ção 65 milhões de anos atrás, originando a cordilheira dos Andes, na América do humana evoluiu do
Sul; os Alpes, na Europa; a cordilheira do Himalaia, na Ásia; entre outras. macaco.
Jekaterina Sahmanova/Alamy/Fotoarena

A cordilheira dos Andes é a


maior cadeia de montanhas
do mundo em comprimento,
formada há milhões de anos,
a partir do choque da placa
Sul-Americana com a placa de
Nazca. Foto da Cordilheira dos
Andes na Argentina, 2019.

Somente no período entre 4,5 milhões e 1 milhão de anos surgiram os primei-


ros primatas, que dariam origem à humanidade.

23
EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES E ERAS GEOLÓGICAS
A formação do planeta e a evolução dos seres vivos foram processos relativamente simultâneos. Portanto,
é incorreto afirmar que o planeta se formou completamente antes dos seres vivos.
O quadro abaixo apresenta um resumo dessa simultaneidade de processos biológicos e geológicos, partin-
do do mais antigo para o mais recente.

E R A G E O LÓ G I CA P R I N C I PA I S E V E N TO S D U R AÇ ÃO

Primeiras formas de vida


Pré-Cambriana 4 bilhões de anos
Surgimento da crosta terrestre

Florestas
Rochas
Paleozoica Peixes 320 milhões de anos
Répteis
Eras de gelo

Mesozoica Era dos dinossauros 170 milhões de anos

Aves
Formação dos continentes Entre cerca de 3 milhões
Cenozoica ou Pleistoceno Cadeias montanhosas de anos e cerca de 12 mil
Última glaciação anos atrás
Início da hominização

No Período Jurássico da Era Mesozoica, compreendido entre 201 milhões e 145 milhões de anos atrás, os
dinossauros, grupo composto de várias espécies de répteis, dominavam a superfície terrestre.

QUE STÕES EM FOCO

Dinossauros no Brasil

Jorge Blanco/UFSM
Em 2018, o geólogo brasileiro Luiz Eduardo
Anelli (1964-), professor do Instituto de Geociên-
cias da Universidade de São Paulo, recebeu o
prêmio Jabuti, na categoria infantojuvenil, pelo
livro O Brasil dos dinossauros. Nessa obra, ele
demonstra, com base em pesquisa de fósseis,
que existiram 46 tipos de dinossauro na Era Me-
sozoica do território que viria a ser o Brasil.

Representação artística de uma paisagem


do sul do Brasil, há cerca de 230 milhões de
anos, durante a Era Mesozoica.

■ É possível afirmar que os nativos que viviam nas terras que viriam a ser o Brasil caçavam dinossauros
para sobreviver?

Foi somente no Período Terciário, penúltimo da Era Cenozoica, que os atuais continentes se formaram.
No Período Quaternário, formou-se a humanidade, embora alguns pesquisadores indiquem a existência de
hominídeos já no Terciário. Se essa datação for correta, ela se refere ao Australopithecus, que, como veremos
adiante, foi o ancestral mais remoto do gênero Homo, ou humano, desconsiderados os primatas originais.

24
BIOSFERA TERRESTRE
OBSERVE QUE...
A Terra passou por várias mudanças em seu processo de formação. A for- No longo processo
mação geológica, como vimos, exemplifica esse longo processo, assim como a geológico de formação da
biosfera terrestre. A biosfera engloba todos os ecossistemas do planeta, en- Terra, ocorreram quatro
tre os seres vivos e as outras esferas – litosfera, hidrosfera, criosfera (regiões períodos de grande
sempre geladas) e atmosfera. resfriamento, conhecidos
como glaciações.
É possível afirmar que a biosfera do planeta começou a se formar na Era Nesses períodos, as
Pré-Cambriana, com os primeiros seres aquáticos, acompanhando a sucessão temperaturas atingiram
de eras geológicas até o Período Quaternário da Era Cenozoica. graus baixíssimos,
formando geleiras que
dificultavam a vida no
I M PA C T O D A S G L A C I A Ç Õ E S planeta. O fenômeno
das glaciações chegou a
Estima-se que a biosfera tenha se formado pouco antes do surgimento da hu-
ameaçar a sobrevivência
manidade, mas esse processo não foi linear. É o que sugere a ocorrência de eras do gênero humano.
de gelo, ou glaciações, a última delas ocorrida no Período Quaternário da última Estima-se que, nessas
era geológica do planeta tal como ele existe hoje. fases, 30% dos oceanos
As glaciações tiveram impacto decisivo na configuração natural do planeta ao e 32% da superfície
longo de milhões de anos. A última delas consolidou os polos gelados da Antár- terrestre ficavam
congelados. Na primeira
tida e da Groenlândia, além de criar geleiras nos oceanos, especialmente em
glaciação, sobreviveram
áreas próximas das calotas polares, como os fiordes. poucos animais e
Uma das evidências do impacto das glaciações na configuração planetária e na alguns répteis. A última
humanidade foi o aparecimento de um “subcontinente’’ chamado Beríngia, que hoje glaciação, conhecida
é conhecido como estreito de Bering. Esse foi o nome dado a uma porção de terra como glaciação de Würm
firme que ligava a Sibéria, no leste da Ásia, ao Alasca, ou Winsconsin, não
extinguiu totalmente a

Discovod/Shutterstock
no norte da América, entre cerca de 30 mil e 15 mil anos
espécie humana, embora
atrás. Com a glaciação, o nível do mar estava mais baixo alguns estudiosos
do que hoje – esse foi o momento estimado da travessia afirmem que ela liquidou
de povos asiáticos para o continente americano, que deu o Australopithecus.
origem, tempos depois, à civilização de ameríndios.

Ilustração presumida do planeta


na última era glacial.
Volodymyr Goinyk/Shutterstock

E S T R E I T O D E B E R I N G : P R O VÁV E I S
R O TA S D O S P O V O A D O R E S D A A M É R I C A
Ericson Guilherme Luciano/Arquivo da editora

OCEANO GLACIAL ÁRTICO


g
rin
Be

SIBÉRIA ALASCA Círculo Polar Ártico


de
Estreito

ÁSIA

EUROPA

AMÉRICA
DO NORTE Paisagem coberta de neve na Antártida
Trópico de Câncer
DESERTO
em foto de 2018. Acredita-se que boa
OCEANO
DO SAARA OCEANO ATLÂNTICO parte do planeta tenha ficado coberta
ÁFRICA PACÍFICO
Equador
de neve durante o período glacial.

OCEANO AMÉRICA
ÍNDICO DO SUL
OCEANIA Trópico de Capricórnio
Fonte: Elaborado com base em:
OCEANO NAQUET-VIDAL, Pierre; BERTIN,
ATLÂNTICO
Jacques. Atlas histórico: da Pré-História
Rota de dispersão dos seres humanos 0 2965 aos nossos dias. Lisboa: Círculo de
Travessia pelo estreito de Bering Leitores, 1987. p. 18; ATLAS histórico
km
150° L escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 50.

Há várias hipóteses científicas sugerindo que a formação atual dos continentes


só ocorreu após a última glaciação, o que se articula com os atuais conhecimentos
da formação geológica do planeta. Em todo caso, diversos cientistas sugerem que
há 12 mil anos se iniciou mais um período interglacial no planeta Terra.

25
A Q U E C I M E N T O G L O B A L , P L A N E TA E M P E R I G O OBSERVE QUE...
A força da natureza pode causar tragédias e destruir cidades inteiras. Ainda que Em 2019, houve uma
a ciência elabore ações preventivas, há fenômenos naturais, como maremotos, ter- tragédia com graves
remotos, tsunamis e furacões, que podem ser arrasadores. impactos ambientais
e sociais no Brasil: o
Há cerca 74 mil anos, na ilha de Sumatra, atual Indonésia, a erupção do vulcão rompimento da barragem
Toba reduziu a incipiente população local a 10 mil casais. Em 1883, o vulcão Kraka- de rejeitos de uma
toa, também na Indonésia, entrou em erupção com uma força 13 mil vezes maior grande mineradora em
que a famosa bomba de Hiroshima, lançada em 1945 pelos Estados Unidos, durante Brumadinho (MG) causou
a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A ilha foi quase destruída e vários vilarejos e a morte de centenas de
cidades costeiras foram completamente inundados por ondas. pessoas e de diversas
espécies de animais.

QUE STÕES EM FOCO

Por que existem catástrofes planetárias?


■ Analise as catástrofes mencionadas anteriormente, as duas erupções e a bomba de Hiroshima, e
discuta com os colegas se todas as tragédias planetárias são inevitáveis.

Cientistas acreditam que a próxima grande tragé- máticas desde 1988 pelo Painel Intergovernamental
dia planetária não será derivada de nova glaciação ou de Mudanças Climaticas.
erupção vulcânica, e sim do aquecimento global: au- Em 1997, o Protocolo de Kyoto, que definiu metas
mento da temperatura média do planeta causado pela para a redução dos gases que agravam o efeito estufa,
emissão de gases poluentes, que acentuam o chamado foi aprovado por 55% dos países-membros da conven-
efeito estufa. A intensificação de atividades agrícolas ção sobre o clima na ONU. O documento é um marco
e industriais e o grande número de veículos automo- essencial nas políticas públicas de preservação do meio
tores são os principais responsáveis pelo aumento da ambiente, embora seja contestado por alguns países.
concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera. No governo de Barack Obama (2009-2017), os Estados
Entre 1950 e 1980, o efeito estufa avançou muito em Unidos assinaram o protocolo, mas Donald Trump, em
relação aos cem anos anteriores. E, no século XXI, o seu governo, decidiu sair do grupo de países ambienta-
aquecimento alcançou níveis alarmantes, exigindo a listas. A China, responsável pela emissão de gases deri-
intervenção de organismos internacionais e multina- vados da queima de carvão mineral, adere aos princípios
cionais para enfrentar esse problema mundial. A ONU ambientalistas, mas não os implementa, mantendo uma
divulga informações científicas sobre as mudanças cli- economia que agrava o aquecimento global.

DA EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES À FORMAÇÃO DA HUMANIDADE


O que vimos sobre o surgimento e a evolução dos pereceram e outros sobreviveram durante um percur-
seres no planeta, tema aprofundado pelos cientistas so não necessariamente linear. O ser vivo sobreviven-
nos séculos XIX e XX e que segue até hoje, provém, te em determinada fase da formação planetária po-
basicamente, da obra revolucionária de Darwin so- deria ser extinto na fase seguinte, ou transformar-se
bre a teoria evolucionista. em outro ser diferente, ainda que da mesma espécie.
Em seu livro A origem das espécies, publicado em Esse conceito é o da seleção natural: Darwin afir-
1859, Darwin propôs um conceito-chave para explicar, mou que os seres vivos que se adaptavam melhor ao
por hipótese, a evolução dos seres vivos ao longo de meio ambiente, em constante mutação, conseguiam
milhões de anos, considerando, porém, que muitos sobreviver.

O C O N C E I T O D E S E L E Ç Ã O N AT U R A L
Esse conceito foi simplificado por muitos intelec- inglês, a sobrevivência e a evolução dos seres não
tuais, favoráveis ou contrários à teoria evolucionista, beneficiavam os mais fortes ou os mais inteligentes,
e reduzido à “defesa da lei do mais forte”, uma dis- e sim os que melhor se adaptavam às mudanças ge-
torção do pensamento de Darwin. Para o pensador ológicas do planeta. O darwinismo social será tratado
no Capítulo 2.

26
ANALISAR E REFLETIR

Leia o texto a seguir.


■ Tendo em vista que, no texto, a palavra “indi-
víduo” não é sinônimo de ser humano consi-
Darwin e a sele•‹o natural derado isoladamente na sociedade, e sim de
Se variações úteis a um ser organizado se exemplo único de qualquer ser vivo – inseto,
apresentam, certamente os indivíduos que peixe, planta, etc. –, discutam, em grupos, as
são objeto delas têm melhor chance de vencer questões a seguir.
na luta pela sobrevivência; pois, em virtude
do princípio poderoso da hereditariedade, es- a) Em que trecho Darwin relaciona estreita-
ses indivíduos tendem a deixar descendentes mente a vitória de alguns seres na luta pela
tendo a mesma característica que eles – dei o sobrevivência às mudanças ambientais?
nome de sele•‹o natural a esse princípio de b) O conceito de seleção natural é uma ex-
conservação ou da persistência do mais apto. pressão científica da “lei do mais forte”?
Apud JACQUARD, Albert. A origem das espécies.
c) O conceito de hereditariedade é exclusivo
In: CHATELET, F. et al. (org.). Dicionário das
obras políticas. Rio de Janeiro: Civilização da humanidade ou abrange todos os seres
Brasileira, 1993. p. 298. vivos?

SABERES C I Ê N C I A S D A N AT U R E Z A
C O N E C TA D O S E SUAS TECNOLOGIAS

No campo do evolucionismo, houve conflitos teóricos. Segundo Charles Darwin (teoria darwinista), seres
que não conseguiam se adaptar às mudanças do meio ambiente estavam condenados à extinção. Porém, o
naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) defendia a ideia da geração espontânea das espécies
levando em conta que elas evoluíam morfologicamente para se adaptar à natureza (teoria lamarckista).
Três hipóteses auxiliares do programa darwiniano foram adotadas de natura-
DARWIN, C. A origem das
listas que o precederam, entre os quais Lamarck: a primeira referia-se à ação do espŽcies. Porto: Lello &
meio ambiente como causa das variações; a segunda, ao uso e desuso de partes e Irm‹o, 1961. p. 332.
órgãos do organismo, que atuaria independentemente da seleção natural; e, final-
mente, a terceira, à hereditariedade dos caracteres adquiridos, na qual Darwin discute, como é próprio do seu
estilo, diversos exemplos de plantas e animais, nos quais a “mudança de hábitos produz efeitos hereditários”.

■ Considerando as divergências entre as teorias desses dois evolucionistas, comparem, em grupos, as


ilustrações A e B e identifiquem qual exprime a concepção de Darwin e qual exprime a de Lamarck.
Justifiquem a resposta.
Ilustrações: Manzi/Arquivo da editora

A B

1 2 1 2

3 3

Ilustrações artísticas representando as teorias de Jean-Baptiste Lamarck e Charles Darwin. Cores fantasia.

27
PROCESSO DE HOMINIZAÇÃO
Em 1871, Darwin publicou a obra A origem do homem, aprofundando a análise hominização
evolucionista dos seres humanos ao sustentar que a humanidade não seria uma processo de formação
criação divina, e sim uma evolução natural de outros primatas. Trata-se do pro- da humanidade desde
cesso de hominização. os primeiros primatas
até o Homo sapiens,
Apesar das críticas que recebeu, sobretudo de religiosos, a teoria de Darwin foi considerado o tipo
mundialmente reconhecida e abriu caminho para várias pesquisas que vieram re- morfológico do ser
forçar sua tese inicial. Pesquisadores puderam avançar no conhecimento das ori- humano atual.
gens da humanidade, apoiados em disciplinas como Arqueologia e Paleontologia.
Arqueologia
Homo ciência dedicada ao
Homo
Sapiens estudo de ruínas,
neanderthalensis
Homo materiais ou humanas,
erectus com base em
Homo
habilis escavações e técnicas
Australopithecus de datação dos resíduos
encontrados.
Paleontologia
Proconsul
ramo da Arqueologia
que estuda períodos
geológicos remotos,
particularmente
com base em fósseis
humanos.

David Gifford/SPL/Fotoarena
Representação artística
do longo processo de
hominização.
Há controvérsias sobre a idade do primeiro Australopithecus descoberto pela
pesquisa arqueológica. Alguns estudiosos afirmam que o primeiro fóssil de homi-
nídeo foi encontrado em 1924, na África do Sul, em uma pesquisa comandada pelo
australiano Raymond Dart (1893-1988). Posteriormente, considerou-se que esse
não era o Australopithecus, mas um pré-hominídeo ainda próximo dos primatas.
Uma descoberta importante, em pesquisa liderada pelo paleontó-

Elisabeth Daynes/Science Photo Library/Fotoarena


logo Donald Johanson (1943-), ocorreu em 1974. Trata-se do fóssil de
uma fêmea encontrado na Etiópia (África) e chamado de Lucy. A espé-
cie de Lucy é a dos Australopithecus, hominídeos que viveram na Terra
entre 3,8 milhões e 2,9 milhões de anos atrás.
Em 1992, outra descoberta na Etiópia pôs em xeque a primazia de
Lucy: o esqueleto de uma fêmea de 4,4 milhões de anos, com cerca
de 1,20 metro de altura e peso estimado em 50 quilos. Ardi, como foi
chamado o hominídeo mais antigo encontrado até agora, é cerca de
1 milhão de anos mais antigo que Lucy.
A pesquisa arqueológica, apoiada na Paleontologia, registrou diver-
sas descobertas dos primeiros hominídeos, oito delas seguramente
classificadas como Australopithecus. Todos esses indivíduos tinham
baixa estatura, pouco peso e caixa craniana diminuta, mas já havia in-
dícios de uma transição para a posição ereta, característica essencial
da hominização nos seus primórdios. Também o polegar invertido su-
gere a capacidade de pegar e usar pedras e madeira para se defender
de outros animais e transformar o meio ambiente para sobreviver.

Modelo de reconstituição de Lucy


com base em fóssil encontrado na
Etiópia na década de 1970.

28
LOCALIZAÇÃO DOS PRIMEIROS HOMINÍDEOS
( E N T R E 7 E 4 M I L H Õ E S D E A N O S AT R Á S )

Ericson Guilherme Luciano/Arquivo da editora


EUROPA 0°
TUNÍSIA
Mar Mediterrâneo
MARROCOS ÁSIA

ARGÉLIA
LÍBIA
Norte da África
Saara EGITO

Ma
Trópico de Câncer
Ocidental

r V
(ESP e MAR)

erm
MALI Arábia

elh
MAURITÂNIA

o
NÍGER
SENEGAL CHADE SUDÃO ERITREIA
GÂMBIA BURKINA
FASSO DJIBUTI
GUINÉ-BISSAU GUINÉ
GANA NIGÉRIA
COSTA ica Ocidental
África BENIN
SERRA LEOA SUDÃO ETIÓPIA
DO REP. CENTRO- DO SUL
LIBÉRIA MARFIM CAMARÕES -AFRICANA
TOGO
SOMÁLIA
SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE UGANDA
Equador QUÊNIA

GUINÉ GABÃO REPÚBLICA RUANDA
EQUATORIAL CONGO DEMOCRÁTICA BURUNDI OCEANO
DO CONGO
Meridiano de Greenwich

Cabinda (ANG) TANZÂNIA ÍNDICO


SEYCHELLES
OCEANO
COMORES
ATLÂNTICO
ANGOLA MALAUÍ O início da hominização
ZÂMBIA
ocorreu no continente
MOÇAMBIQUE MAURÍCIO africano, como indica
África o mapa, sobretudo na
do SulZIMBÁBUE MADAGASCAR
NAMÍBIA região centro-oriental.
Trópico de Capricórnio BOTSUANA
I. Reunião Fonte: Elaborado com base
SUAZILÂNDIA (FRA)
em: ATLAS del viaje humano.
ÁFRICA
LESOTO La edad de Australopithecus.
DO SUL Disponível em: http://
0 710 atlasofthehumanjourney.
Espécies de hominídeos
km com/australopithecusEs.asp.
Acesso em: 23 jun. 2020.

Há certo consenso, entre os especialistas no assunto, de que o processo de homi-


nização avançou após a última glaciação. Dessa forma, o Australopithecus foi extinto
como espécie, mas isso não interrompeu o processo hominizador. Certamente, fo-
ram os sobreviventes desse grupo que se metamorfosearam no gênero Homo, aper-
feiçoando sua cultura de sobrevivência em meio ao degelo do planeta.
É muito difícil fazer afirmações com exatidão sobre esse processo, e até mesmo de
visualizá-las, seja porque a escala temporal das mudanças envolve milhões ou milha-
res de anos, seja porque as transformações tecnológicas, embora importantíssimas
nesse longo processo, podem parecer minúsculas em uma era digital como a nossa.
Em todo caso, o Homo habilis (habilidoso) foi o primeiro hominídeo reconhecido
como tal, cujos primeiros fósseis foram descobertos na Tanzânia (África), em 1964. A odisseia da
F I CA A D I CA

Seus braços eram maiores do que os do Australopithecus, embora a caixa craniana espécie
fosse parecida. Ele produzia ferramentas de pedra lascada, isto é, uma pedra alte- Direção de Jacques
rada humanamente com talhes intencionais para alcançar determinados objetivos, Malaterre. França,
como capturar um animal durante a caça. 2003. Duração:
A espécie seguinte do gênero Homo foi o Homo erectus, cujo primeiro fóssil foi 144 min.
encontrado pelo holandês Eugène Dubois (1858-1940) na ilha de Java (oceano
Índico), em 1891. Essa descoberta foi seguida de outras duas: uma na Alemanha e Em três episódios
outra na China. A dispersão desses achados pode indicar que a hominização ocorreu de 48 minutos cada
um, o documentário
em várias regiões, mas não se deve supor uma dispersão ou difusão dos hominídeos
exibe o processo de
a partir da África. O deslocamento de populações da África para a Alemanha, por hominização, desde os
exemplo, era inviável. A hipótese mais provável é que o processo de hominização primeiros primatas até
tenha sido multifocal e ocorrido em momentos diferentes, conforme as regiões do o Homo sapiens.
planeta, durante o Período Quaternário.

29
A média de altura do Homo erectus era de 1,50 metro, embora alguns alcanças-
sem 1,70 metro, com peso médio de 70 quilos. O volume craniano era cerca de 50%
superior ao do Homo habilis. A mandíbula também era maior, possível indício de que
comesse carnes mais resistentes, porque a caça de animais maiores já era pratica-
da. Fazia instrumentos de pedra e madeira mais eficazes para a caça. Os indivíduos
viviam em grupos de cerca de trinta a cinquenta pessoas, geralmente em cavernas,
para se protegerem do frio e demais intempéries, bem como de animais predadores.
A principal característica morfológica do Homo erectus deriva do próprio nome:
era um tipo que já andava, um bípede que não precisava usar as mãos para se
deslocar no espaço, porque já havia percebido que elas eram mais necessárias
para outras atividades.
OBSERVE QUE...
A espécie seguinte era quase um ser humano completo, como os atuais, do ponto
É quase impossível
de vista morfológico: o homem de Neandertal ou Homo neanderthalensis. Fósseis explicar como e por que
dessa espécie foram encontrados na Europa e na Ásia – mais um indício da difusão o homem de Neandertal
geográfica da hominização. Sua altura média era de 1,60 metro e tinha cérebro mais criou uma cultura
volumoso que o antecessor. Era também mais musculoso do que o homem atual, mortuária e, mais ainda,
talvez porque o esforço físico fosse essencial para a sobrevivência da espécie, já que a diferença entre a opção
vivia da caça de veados, mamutes, rinocerontes e javalis. Uma grande característica do sepultamento e a da
cremação. É possível que
do neandertal era o culto aos mortos: alguns grupos optavam por cremá-los.
a cultura mortuária tenha
surgido antes deles, mas
Bettmann Archive/Getty Images

o certo é que, em meio ao


processo de hominização,
os hominídeos passaram
a sentir repulsa pela
putrefação dos cadáveres
a céu aberto.

OBSERVE QUE...
Na primeira metade do
século XX surgiram os
primeiros computadores.
Eram máquinas enormes
que ocupavam salas
inteiras, exclusivamente
utilizadas para fins
militares. Com o
passar das décadas,
surgiram computadores
menores e domésticos,
Representação de uma família neandertal em exposição no Museu de História Natural de até chegarmos
Chicago (Estados Unidos), entre 1933 e 1991. aos smartphones:
computadores de bolso,
O Homo sapiens é a versão mais próxima do ser humano atual. O volume da caixa capazes de conectar os
craniana diminuiu, mas a massa encefálica aumentou, considerados os avanços indivíduos com o mundo.
tecnológicos registrados para essa espécie. A média de altura do Homo sapiens era A redução do tamanho
de 1,70 metro e sua tecnologia, muito avançada em relação às espécies anteriores. das ferramentas usadas
Nessa fase apareceram os instrumentos de pedra de dimensões muito reduzidas pelo Homo sapiens pode
ser vista como prova de
(micrólitos), sinal de que o ser humano aperfeiçoou suas habilidades. sua inteligência.
Foi com o Homo sapiens que surgiram também o arco e a flecha, as primeiras
embarcações, a cerâmica, a tecelagem, o polimento da pedra na sua forma mais sedent‡rio
acabada e as primeiras comunidades sedentárias, processo também conhecido nesse contexto, grupo
como Revolução Neolítica, a fase mais avançada da Idade da Pedra. humano que se fixou em
determinado espaço,
O trabalho com metais, inicialmente o cobre, teve início a partir de 5000 a.C., geralmente associado
seguido do bronze, cerca de 3300 a.C. O Homo sapiens é a espécie que promoveu a à domesticação das
transição da Idade da Pedra para a Idade dos Metais. Também avançou o processo plantas, isto é, ao
de domesticação das plantas, expressão técnica para designar o surgimento da desenvolvimento da
agricultura. Essse foi o o primeiro grande embate entre a humanidade e a natureza. agricultura.

30
QUE STÕES EM FOCO

Humanização e gênero
Pesquisas arqueológicas estimaram que, no caso do Australopithecus, a altura dos machos era 50% maior do
que a das fêmeas. No caso do Homo erectus, os machos eram cerca de 25% mais altos do que as fêmeas. Entre
os Homo sapiens a diferença reduziu mais ainda: machos, em média, são apenas 15% maiores do que as fêmeas.

■ Em grupos, discutam qual é o possível significado da diminuição da diferença na altura entre machos e
fêmeas no processo de hominização.

H O M I N I Z A Ç Ã O E C U LT U R A M AT E R I A L
Os estudiosos da hominização são seguidores da teoria evolucionista e, como vimos, estabelecem uma
sequência de espécies desde os primatas até o Homo sapiens. Esses cientistas adotam critérios morfoló-
gicos – volume craniano, tamanho dos membros, altura, etc. – que derivam da Antropologia física. Com-
binam esses critérios com elementos da cultura material, ou seja, com os instrumentos de que os grupos
dispunham para garantir sua sobrevivência ou lutar por ela.
Podemos estabelecer um quadro simplificado desse tipo de associação, conjugando Antropologia física
e Arqueologia. Deixando de lado divergências de cronologia impossíveis de precisar, teríamos o seguinte:

PERÍODO D U R A ÇÃ O T E C N O LOG I A ESPÉCIE

Entre 2,5 milhões de anos atrás e Instrumentos de madeira e Homo


Pa leo l í ti co
10000 a.C. pedra lascada, uso do fogo neanderthalensis

Transição entre instrumentos de


Me so l í ti co Entre 12 mil anos atrás e 9000 a.C. Homo sapiens
pedra lascada e pedra polida

Instrumentos de pedra polida,


N eo lí t i co Entre 9000 a.C. e 3300 a.C. Homo sapiens
início da agricultura

Uso do cobre, do bronze e do


Ida de do s
Entre 3300 a.C. e 1000 a.C. ferro, sucessivamente para Homo sapiens
m eta i s
instrumentos agrícolas e armas

O quadro acima explicita a conexão entre avanço da cultura material e processo de hominização. Ele
exprime o resultado de pesquisas científicas deflagradas no século XIX e aprofundadas no século XX.
As perguntas que se colocam são: a perspectiva evolucionista é capaz de explicar a formação da huma-
nidade em contraposição ao modelo criacionista? O critério tecnológico é indicador confiável para o estudo
da formação da humanidade?
É possível dizer que o modelo evolucionista é válido, embora as provas científicas sejam escassas, so-
bretudo porque o evolucionismo procurou se apoiar em evidências científicas estudadas com base na Ar-
queologia e na Paleontologia. Nesse sentido, é uma perspectiva que oferece explicações mais consistentes
do que as do modelo criacionista, que se baseia na fé.
O critério tecnológico pode ser discutível, porque a humanidade tem várias dimensões: as crenças, o
parentesco, a organização social e política, e muitas outras além da tecnologia. Porém, no processo de
hominização, considerada a enorme dificuldade de sobrevivência de todos os animais, qual seria o crité-
rio, senão o tecnológico, para aferir a formação da espécie humana? É verdade que tal critério provém da
visão de mundo ocidental, que valoriza as inovações tecnológicas típicas de uma sociedade industrial e
capitalista. Porém, transplantado esse critério para época tão remota, parece que ele é razoável, além de
socialmente justo, pois esse longo processo priorizava a sobrevivência coletiva.

31
H O M I N I Z A Ç Ã O: M O R F O L O G I A S,
TECNOLOGIAS E LINGUAGENS
O estudo da hominização deve necessariamente combinar História, Arqueo-
logia, Antropologia e Paleontologia, mas há dois aspectos diretamente liga-
dos ao estudo do tema: a morfologia humana e sua articulação com a criação
de tecnologias.

MÃOS E PÉS NA HOMINIZAÇÃO


Em termos morfológicos, diversos cientistas consideram que a mão é a parte do
corpo dos humanos mais importante para distingui-los de outras espécies, embora OBSERVE QUE...
nesse ponto não diferissem dos macacos. Em algum momento anterior à formação O polegar pode realizar
dos primatas propriamente ditos, seus ancestrais tinham patas com garras e eram uma rotação de 90
quadrúpedes. Passaram por uma metamorfose ao longo de milhões de anos, e as graus, traçando uma
patas se transformaram em uma extremidade especial, dotada de dedos com auto- perpendicular em
nomia de movimentos uns em relação aos outros. Essa evolução deu um salto com relação à palma da mão,
ao passo que os demais
a formação do polegar, capaz de movimentar-se em oposição aos demais dedos.
dedos só alcançam um
É por essa razão que o polegar é considerado o dedo mais importante dos ângulo de 45 graus.
hominídeos ainda na fase de primatas, como escreveu o arqueólogo Gordon Childe:

A pré-história não só faz recuar a história escrita como também faz avan-
çar a história natural, a pré-história constitui uma ponte entre a história
humana e as Ciências Naturais da Zoologia, Paleontologia e Geologia. O
progresso do historiador pode ser equivalente à evolução do zoologista...
a sobrevivência do mais capaz é um bom princípio evolucionário.
CHILDE, Gordon. A evolu•‹o cultural do homem. Rio de Janeiro:
Zahar, 1971. p. 26.

CONVERSA DE H I S TO R I A D O R

Existe uma Pré-História? O historiador Antônio Carlos do Amaral Azevedo AZEVEDO, Antônio C. do A.
definiu Pré-História como a “denominação dada ao período que antecede a cha- Dicionário de nomes, termos
e conceitos históricos. Rio
mada época histórica e que também designa a ciência ou disciplina pertinente ao de Janeiro: Nova Fronteira,
conhecimento da história da humanidade desde os tempos mais remotos até o 1990. p. 317.
aparecimento da escrita”.

Trata-se de uma periodização convencional que situa todo o processo de hominização transcorrido em
milhões de anos em um lugar incerto, afirmando que sem a escrita os povos ainda não são históricos.

■ Em grupos, comparem a opinião do autor acima com o conceito de


Gordon Childe sobre a Pré-História.

Voltando ao papel decisivo da mão e do polegar oponível, eles permitiram ao hominí-


deo, em escala progressiva de qualidade, interferir no meio natural por meio da coleta,
do fabrico de instrumentos de caça e pesca e de recipientes de barro para armazenar
bebidas e alimentos, da montagem de pequenas embarcações, além de possibilitarem,
certamente, que se defendessem de inimigos, como animais predadores.

32
A NALISANDO MENSAGENS

Esta pintura rupestre, feita em uma caverna, pertence ao Período Mesolítico, um tempo de transição
entre o Paleolítico e o Neolítico. Trata-se de um achado arqueológico muito polêmico, pois alguns
estudiosos sugerem que a pintura tenha um sentido religioso, ao passo que outros ficam intrigados com o
predomínio da mão esquerda na pintura.

R.M. Nunes/Alamy/Fotoarena
A Caverna das Mãos, situada
ao sul da atual Argentina,
é considerada um dos
registros arqueológicos mais
importantes da América do
Sul. Muitos pesquisadores
consideram a hipótese de o
trabalho ter sido realizado
entre 9 mil e 13 mil anos
atrás. Foto de 2020.

■ Considerando o que se expôs no capítulo, discutam o possível significado dessa pintura repleta de mãos.

A lenta formação das mãos nos hominídeos é similar à formação dos pés, OBSERVE QUE...
ambos a partir de patas com garras. A palma da mão é alargada como base para O historiador francês
os dedos com movimentos autônomos, enquanto a planta do pé é verticalizada, Jean-Luc Hennig
seguida de dedos menos móveis, exceto pelo dedão, o suficiente para estruturar (1945-) publicou,
a capacidade de andar, mantendo o corpo ereto. em 1995, uma Breve
história das nádegas.
A evolução do Homo habilis para o Homo erectus se deve muito à formação O autor sugeriu que
dos pés, que provavelmente se formaram antes das mãos, considerando a no- as nádegas humanas,
menclatura atribuída às duas espécies citadas. Dotados de pés, os hominídeos diferentemente dos
passaram a ser bípedes e tornaram-se capazes de percorrer longas distâncias lombos de outros
na busca da sobrevivência, migrando para lugares menos inóspitos ou suposta- mamíferos, são um
mente mais promissores para a sobrevivência do grupo. traço importante
da hominização: os
É verdade que os símios e os macacos também desenvolveram as mãos e os pés, homens “tiveram a ideia
o que nos aproxima deles, apesar de a maioria dos símios não ser completamente de levantar-se sobre
bípede. Em geral, os mamíferos terrestres usam os pés e as mãos para se locomo- as patas traseiras e de
verem, como quadrúpedes. O segredo morfológico da humanidade residiria, aqui, na assim permanecerem,
provocando o
estruturação da coluna de modo vertical, sendo o eixo do homem ereto.
desenvolvimento dos
É certo que as nádegas são um atributo especial do Homo sapiens, resultante, músculos das nádegas”.
sem dúvida, da transição entre o hominídeo quadrúpede e o bípede. Tem a ver
HENNIG, Jean-Luc. Breve
com a evolução da morfologia humana, mas não explica o traço fundamental do
história das nádegas. Lisboa:
gênero: a inteligência superior à dos outros animais, o volume craniano e, sobre- Terramar, 1997. p. 5.
tudo, o volume da massa encefálica. Outros animais são dotados de inteligência
para identificar diversas espécies (sobretudo as presas), para memorizar rotinas
ou repetir caminhos para abrigos.

33
INTELIGÊNCIA E LINGUAGEM
Foi o filósofo francês Edgar Morin (1921-) quem forneceu a chave para com-
preender o papel decisivo das mãos e dos pés no processo de hominização. No
livro O paradigma perdido, publicado em 1973, sugeriu que o processo de homi-
nização tenha ocorrido em meio a uma relação tridimensional entre o órgão que
abriga a inteligência humana (cérebro), a extremidade de seus membros supe-
riores (as mãos) e a extremidade dos seus membros inferiores (os pés).
É o cérebro que comanda o movimento das mãos e dos pés. As mãos cons-
troem, os pés movimentam. Tudo em função da sobrevivência do indivíduo em
grupos.
O filme de Malaterre, recomendado no boxe Fica a dica, ilustra muito bem a
ideia de que a humanidade só pode sobreviver em grupo. A película conta a histó-
ria do último neandertal, quando todos de sua espécie estavam extintos. Ele não
tinha companheiros e suas técnicas de sobrevivência eram precárias diante dos
Homo sapiens, espécie superior que dominava o planeta.
O filme traz uma metáfora da solidão humana, enormemente agigantada. Ele
Ao, o último

F I CA A D I CA
insinua que a inteligência é fundamental no ser humano, mas sublinha a força
das emoções. neandertal
Porém, na prática, a evolução do neandertal para o Homo sapiens não foi linear, Direção de Jacques
assim como não o foi a sequência das espécies Homo expostas no capítulo. No Malaterre. França,
processo de hominização, hominídeos de diferentes espécies chegaram a conviver 2010. Duração:
e houve até cruzamento entre eles. A superação de uma espécie por outra foi lenta 84 min.
e variável geograficamente, em razão de mutações da natureza e da adaptação dos O filme conta a
grupos humanos a essas transformações por meio de diversas tecnologias. saga de Ao, o último
neandertal, na
Assim deve ser entendido o conceito de seleção natural proposto por Darwin.
travessia da Europa
Nessa seleção está implícito que muitas tecnologias criadas para a sobrevivên- rumo à península
cia coletiva foram utilizadas, mas também perdidas ou esquecidas, às vezes por Ibérica.
milhares de anos, até serem redescobertas. A humanização talvez tenha sido a
experiência mais dramática de todas na história da humanidade.

ANALISAR E REFLETIR

Houve diversas espécies de Homo sapiens? Pesquisas arqueológicas re-


centes sugerem a existência de subespécies de Homo sapiens, que seriam
os ancestrais diretos do ser humano tal como ele é atualmente. No próprio
século XIX, porém, já se fazia distinção entre Homo sapiens e Homo sapiens
sapiens. O primeiro seria dotado de conhecimentos muito mais avançados
que o neandertal, o tipo humano que completou o processo de hominiza-
ção e protagonizou a “domesticação das plantas”, isto é, a agricultura. Já o
Homo sapiens sapiens seria uma espécie ainda mais completa: ele não ape-
nas sabe, mas também sabe que sabe. Entretanto, não há consenso sobre a
validade dessa distinção.

■ Discutam em grupos a validade dessa diferença conceitual.

Voltando ao filósofo Morin, a inteligência superior do ser humano é o que o dis-


tingue de outras espécies, mas ela só prevaleceu com a metamorfose fisiológica
que resultou nas mãos e nos pés. O apogeu dessa união entre cérebro, mãos e
pés se relaciona com a invenção da linguagem. Como surgiu a linguagem entre
os hominídeos, sobretudo entre os Homo sapiens? É impossível responder a isso
com precisão.

34
CO C IE NT ISTAS
C ONVERSA DE

Quando o ser humano aprendeu a falar? A invenção da linguagem falada é um dos temas mais controvertidos
no mundo científico. Há, basicamente, duas correntes. A primeira, defendida pelo linguista canadense Steven
Pinker (1954-), postula que a fala é inata à espécie humana e evoluiu ao longo do processo de hominização,
adaptando-se às necessidades de sobrevivência coletiva. A segunda, sustentada pelo psicólogo estadunidense
Michael Tomasello (1950-), concebe que a linguagem humana não é inata, mas adquirida a partir da cognição
animal. Seja como for, o desenvolvimento da linguagem é um fenômeno ligado à inteligência, que, por
sua vez, deriva do tamanho da massa encefálica. E é a espécie humana que possui esse requisito para o
desenvolvimento da fala em grau muito superior ao das demais espécies.
A inteligência humana é a base da consciência e da memória. O cientista Carl Sagan (1934-1996), no
livro Os dragões do Éden, publicado em 1977, sustenta a ideia de que uma das primeiras consequências da
capacidade humana de prever fatos com base na observação do meio deve ter sido a consciência da morte.
Não por acaso, as cerimônias fúnebres estão entre as mais antigas da humanidade. Há indícios de que eram
praticadas desde o tempo do neandertal.
Michael Corballis (1936-), no livro Da mão para a boca, de 2003, afirma que a primeira linguagem humana
foi a gestual, e não a vocal.

■ Com base no texto acima e nas informações do capítulo, discutam em grupo:

a) Qual posição parece mais convincente: a que postula a origem inata da lin-
guagem humana ou a que sustenta que ela tenha sido adquirida?
b) Que tipo de característica do neandertal permite supor o desenvolvimento
de alguma linguagem vocal entre os hominídeos?

DOMêNIO DO FOGO
O domínio do fogo, derivado da relação cérebro-inteligência, é um atributo
exclusivo dos seres humanos, mesmo antes do Homo sapiens. Permitiu aos
hominídeos iluminar cavernas e assar carnes,

Philadelphia Museum of Art, Pennsylvania, PA, USA/Bridgeman images/Easypix Brasil


dois fatores importantes para comprovar o caráter
evolucionário, ou revolucionário, da humanidade
de produzir o fogo.
Presume-se que o fogo tenha sido descoberto
com base na observação dos efeitos causados pela
queda de raios em árvores. Por isso, os incêndios nas
florestas foram valiosos para a humanidade. Supõe-
-se que o neandertal já era capaz de produzir fogo
friccionando pedras ou gravetos. Queimando palha
com as faíscas, nossos antepassados puderam ter
abrigos iluminados e aquecidos, armaram fogueiras
e utilizaram tochas para espantar feras perigosas.

Prometeu, de Peter Paul Rubens, c. 1611-1612 (óleo sobre tela


de 242,6 cm 3 209,5 cm). Segundo o mito grego, Prometeu
roubou de Zeus, o maior entre os deuses da Grécia antiga,
o segredo do fogo para dar aos seres humanos. Por isso, foi
condenado a ficar acorrentado no cume de uma montanha,
onde diariamente uma águia comia seu fígado, que se
regenerava durante a noite. Isso teria durado muitas eras.

35
Twentieth Century Fox/Photofest/Easypix Brasil

A descoberta do fogo foi de tal maneira decisiva para a huma-


nidade que a dramaturgia ateniense, na Antiguidade clássica,
produziu uma peça tratando do assunto: Prometeu acorrentado.
A peça grega, escrita milhares de anos depois que o neander-
tal descobriu o fogo, ilustra o significado dele para a humanida-
de. Um segredo divino, uma habilidade que os homens não po-
deriam alcançar por si mesmos, sob pena de castigos atrozes.
Mas trata-se de um mito: no fundo é um elogio ao homem, que
desafiou os deuses, sacrificando-se pelo bem da humanidade.
A descoberta do fogo foi essencial no processo de homini-
zação. Uma ação completamente humana. Mas tal descoberta
esteve longe de ser o início de um processo linear. Assim como
a própria hominização e a criação de diversas tecnologias, o do-
mínio do fogo foi multifocal: uma descoberta que se fez e se
perdeu, durante milhares de anos, entre grupos dispersos, sem
qualquer comunicação entre si. Pode ter sido difundida por grupos de neandertais, que Cena do filme A guerra do
fogo. Direção de Jean-Jacques
já migravam, ou surgido espontaneamente, por experiência empírica de comunidades
Annaud, de 1981.
isoladas. De todo modo, foi um marco na formação da humanidade.

E V O L U C I O N I S M O, D E S V I O S
A guerra do fogo

F I CA A D I CA
I D E O L Ó G I C O S V E R S U S VA L O R C I E N T Í F I C O
Direção de
O evolucionismo é uma corrente do pensamento científico tão polêmica hoje Jean-Jacques
quanto foi no passado. No século XIX, assim como no século atual, o paradigma Annaud. França,
religioso foi, e é, o grande adversário dos evolucionistas, acusados de ateísmo por 1981. Duração:
explicarem a origem do mundo e da humanidade com base na ciência. 101 min.
Porém, no século XX, questões sobre a teoria evolucionista envolveram política e
O filme conta a história
ideologia. Desde o fim do século XIX, o evolucionismo inspirou filosofias empenha- de um grupo de
das em hierarquizar a humanidade segundo critérios raciais, que colocam os bran- hominídeos que deixou
cos ocidentais no topo de uma civilização ideal e os nativos de outros continentes, apagar o fogo da aldeia
como povos bárbaros e selvagens, próximos do “homem primitivo”. e não sabia mais como
Inspirou, ainda, políticas de perseguição e extermínio de populações. O grande reacendê-lo. Três
alvo das ideias e políticas de inspiração evolucionista – que podemos caracterizar deles saem à procura
de uma solução e
como um darwinismo social – foi a mestiçagem, tanto racial como cultural, em que fazem contato com
o conceito de raça prevalece sobre o de cultura. outros grupos, alguns
A partir da segunda metade do século XX, sobretudo após a derrota do nazismo mais avançados no
na Segunda Guerra Mundial, o evolucionismo foi posto em xeque exatamente por domínio da natureza.
ter incentivado a desqualificação e a perseguição de povos considerados inferiores. O filme pretendeu
Em 1948, ao se aprovarem “o respeito universal e a observância dos direitos hu- levantar hipóteses
sobre a formação da
manos e liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua
linguagem, mostrando
ou religião”, na Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU, também as vários aspectos da vida
Ciências Humanas de tipo evolucionista foram questionadas. desses ancestrais,
Um desdobramento dessa declaração ética, no campo das Ciências Humanas, sobretudo a luta pela
foi a difusão da Antropologia cultural em suas várias versões, que concebe a hu- sobrevivência.
manidade considerando as diferenças (culturais) em vez das hierarquias (raciais).
Este assunto será trabalhado no Capítulo 2.
Associar o evolucionismo exclusivamente à etnologia racialista ou ao darwinismo
social é, porém, um equívoco. O evolucionismo, quando surgiu, desafiou frontal-
mente o paradigma religioso que predominava havia séculos no mundo ocidental.
racialismo
Estimulou reflexões interdisciplinares, pesquisas etnológicas de diversas culturas,
registros de grande valor antropológico que, mais tarde, favoreceriam o conheci- modelo adotado por
mento antropológico das diferenças culturais. diversas Ciências
Humanas, entre o
O racialismo derivado do evolucionismo pode ser considerado um desvio de século XIX e meados
rota do potencial científico da obra de Darwin e de seus seguidores, provocado do século XX, no qual
por razões históricas: o combate à democracia e o surgimento de ditaduras na as sociedades eram
Europa, além da competição entre as potências imperialistas pelo domínio de pensadas com base em
colônias na África e na Ásia. sua composição racial.

36
R O T E I R O D E E S T U D O S
1 A fé religiosa e a investigação científica criaram, ao longo da história, diferentes explicações sobre o início
e o fim do universo. Leia o texto a seguir, depois, responda às questões.
O estudo das idades míticas constitui uma abordagem peculiar, mas privilegiada, das concepções do
tempo, da história e das sociedades ideais. A maior parte das religiões concebe uma idade mítica feliz,
senão perfeita, no início do universo. A época primitiva – quer o mundo tenha sido criado ou formado
de qualquer outro modo – é imaginada como uma Idade do Ouro. Por vezes, as religiões perspectivam
outra idade feliz, no fim dos tempos, quer como o tempo da eternidade, quer como a última época antes
do fim dos tempos. Em alguns casos, particularmente nas grandes religiões e civilizações, as Idades do
Ouro inicial e final estão ligadas por uma série de períodos. A evolução do mundo e da humanidade, ao
longo desses períodos, é geralmente uma degradação das condições naturais e morais da vida.
LE GOFF, Jacques. Hist—ria e mem—ria. Campinas: Editora da Unicamp, 2003, p. 283-284.

a) Quais são as principais abordagens religiosa e científica citadas, no que diz respeito ao início do Uni-
verso? Diferencie os argumentos apresentados em cada uma delas.

b) De acordo com o texto acima, como a religião cristã caracteriza suas "Idades do Ouro" inicial e final?
Explique.

c) Reúna-se com mais três colegas e façam uma breve pesquisa sobre o modo como outras religiões e
culturas representam sua “Idade do Ouro”. Privilegiem povos originários da América, como os indíge-
nas brasileiros, os incas ou os astecas. Em seguida, compartilhem com os outros grupos os resultados
da pesquisa para que possam, coletivamente, comparar as diferentes histórias encontradas.

2 A tabela a seguir foi elaborada para apresentar, de forma didática, dados relativos a uma série de crânios
(224 ao todo) localizados nos sítios arqueológicos de Lagoa Santa, Sambaqui e Peru. Observe atentamente
as informações e, depois, resolva as atividades.

CO M P O S I Ç Ã O E CA R A CT E R I Z AÇ ÃO DA S S É R I E S U T I L I Z A D A S

N
SÉRIE PROCEDÊNCIA PERÍODO P U B L I CAÇ ÃO
MASC. FEM. ∑

Paleoíndio
*1 Neves & Hubbe
Lagoa Santa 19 13 32 (entre 11 e 8 mil
(2005)
anos A.P.*³)

Tapera 28 29 57
Arcaico (cerca de
Sambaqui Okumura (2007)
mil anos A.P.)
Base Aérea 13 12 25

Agrocerâmico in-
tensivo
*2
Peru 55 55 110 (últimos séculos Howells (1973)
antes da
conquista europeia)

Total 115 109 224

*1 Espécimes oriundos de diversos sítios da região de Lagoa Santa.


*2 Espécimes oriundos da região da Província de Yauyos, Peru (ver Howells, 1973).
*3 A.P.: Antes do Presente.
NEVES, Walter; BERNARDO, Danilo; OKUMURA, Maria. A origem do homem americano vista a partir da América do Sul:
uma ou duas migrações? Revista de Antropologia, São Paulo, USP, v. 50, n. 1. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.
php?pid=S0034-77012007000100001&script=sci_arttext. Acesso em: 7 jul. 2020.

37
a) Como você percebe a relação entre o número de vestígios encontrados e o período ao qual eles perten-
cem? Explique utilizando dados da tabela.
b) Os períodos históricos descritos na tabela e no capítulo estudado são nomeados da mesma maneira?
Quais as diferenças entre as duas formas de identificação? Se necessário, pesquise as origens das
expressões para conseguir compará-las.

3 Observe novamente o detalhe da obra de arte do pintor renascentista Michelangelo, intitulada A criação de
Adão, na página 20. Em seguida responda às questões.

a) Que outra teoria explica o processo do surgimento da humanidade e quais elementos são utilizados
para fundamentá-la?
b) As mãos de Adão e de Deus quase se tocam na imagem. De que forma a mão humana pode ser utiliza-
da para explicar o processo de hominização, como é feito pela ciência moderna? Se necessário, realize
pesquisas para elaborar sua resposta.

Discutindo um conceito
4 As pinturas rupestres representam um dos registros pré-históricos mais interessantes para se conhecer
os hábitos e outras características dos primeiros Homo sapiens. Leia o texto a seguir e observe a imagem
com atenção. Depois, faça as atividades.
Esse conceito [de pré-história], elaborado no século XIX, tem […] dois sérios problemas. O primeiro
é o fato de que a escrita não surgiu em todos os lugares ao mesmo tempo, o que torna essa divisão
temporal bastante arbitrária. O segundo é o etnocentrismo resultante do ato de considerar apenas
a escrita, um elemento cultural restrito a determinadas culturas, como o fator determinante de
quem se situa na história e de quem se situa fora dela. A ideia de que as sociedades ágrafas, ou
seja, sociedades sem escrita, não teriam história nasceu com a vertente positivista da historiografia
ocidental no século XIX, que enfatizava sobretudo a importância do documento escrito na produ-
ção de conhecimento. Mas desde o momento que as ciências humanas, no século XX, começaram
a reconhecer que a história é algo inerente a toda a humanidade, a ideia de que as sociedades sem
escrita estão fora da história passou a ser intensamente criticada por historiadores e antropólogos.
E mesmo os pré-historiadores, atualmente, não se sentem satisfeitos com esse significado etnocên-
trico subjacente à palavra PrŽ-Hist—ria.
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicion‡rio de conceitos hist—ricos.
São Paulo: Contexto, 2012. (Verbete Pré-História).
Tales Azzi/Pulsar Imagens

Pintura rupestre
localizada na
região do Seridó,
abrangendo
territórios dos
estados de
Pernambuco e
Paraíba.

38
a) Com base no texto, quais são os dois principais problemas relacionados à expressão “Pré-História”?
Explique-os.
b) Como as pinturas rupestres podem contribuir para conhecermos as características de povos ágrafos?
Junte-se com mais um colega e analisem a imagem, apontando ao menos um elemento da cultura do
povo que produziu essa pintura.
c) Ainda em dupla, elaborem hipóteses para superar as limitações contidas na expressão “Pré-História”.
Quais elementos demarcam esse período? De que maneira isso ocorre? Apresentem as soluções encon-
tradas para os demais colegas e dialoguem sobre as diferentes possibilidades de resolução do problema.

De olho na universidade
5 (UFRGS -2001-adaptada) Recentemente, no estado americano de Arkansas, a teoria da evolução elabora-
da por Charles Darwin foi retirada dos currículos e teve proibida a sua utilização. Não obstante, os estudos
paleontológicos, antropológicos e arqueológicos vêm possibilitando avanços na compreensão do período
da pré-história, confirmando a existência de um longo período em que ocorreu o processo de hominiza-
ção. Sobre esse processo, analise as afirmações abaixo.

I. As mais antigas formas de vida humana registradas pela Paleontologia denominam-se hominídeos, como
comprovam os achados dos fósseis identificados como Australopithecus, Pithecantropus, Sinantropus,
entre outros.
II. Os fósseis demonstram que, no curso evolutivo da Humanidade, mais de um milhão de anos antes de
surgir o Homo sapiens, existiram várias espécies a caminho da humanização, e as mudanças físicas
ocorridas ao longo de centenas de milhares de anos propiciaram sua adaptação a qualquer ambiente.
III. As evidências arqueológicas indicam que a espécie humana não nasceu pronta nem física, nem cultu-
ralmente. Necessitou de um enorme período de tempo para desenvolver um conjunto de habilidades
técnicas e de conhecimentos que lhe permitisse elaborar instrumentos de trabalho e utensílios.
Quais estão corretas?

a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e III. e) I, II e III.

6 (Udesc-2018)

Em 1972, a equipe do arqueólogo Richard Leakey encontrou, nas imediações do Lago Turkana, o crânio
e os ossos de um Homo rudolfensis de 1,9 milhões de anos. Esta espécie teria coabitado o território
africano ao mesmo tempo em que três outras; o Homo habilis, o Homo erectus e o Paranthropus boisei.
Em 1974, pesquisadores descobriram, na Etiópia, um fóssil de 3,2 milhões de anos, ao qual apelidaram
de Lucy. Em 2017, foram publicadas pesquisas a respeito de fósseis de Homo sapiens encontrados no
Marrocos, os quais contariam com cerca de 300 mil anos.
Disponível em www.bbc.com, acessado em 15 de março de 2018.

Estas descobertas foram essenciais para o desenvolvimento de pesquisas a respeito da evolução de es-
pécies, pois elas poderiam ser referentes aos antepassados diretos da espécie humana. A este respeito,
é correto afirmar:
a) A descoberta de 2017 refuta a teoria de que a origem da vida humana seria na África, deslocando-a
para a península arábica.
b) Os seres humanos que habitam a África, a América e a Europa não fazem parte da mesma espécie.
c) É consensual, para a comunidade científica, a afirmação de que a espécie humana é originária do
Continente Africano.
d) Não existem consensos a respeito de qual continente teria se originado a espécie humana.
e) O Homo sapiens é, evidentemente, anterior ao Homo rudolfensis.

39
C A
P Í
T U
L O

Gravura representando o
vestíbulo do Palácio de Belas
Artes em Paris, capital da A BN CC NE STE CA P ÍT U L O :
França, 1889. O edifício sediou
a Exposição Universal daquele Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 6, 7, 8, 9 e 10.
ano, evento que celebrava
os avanços tecnológicos Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1 e 5.
dos países industrializados
Habilidades: EM13CHS101, EM13CHS102 e EM13CHS504.
e o exotismo de territórios
coloniais ou de países Temas contemporâneos transversais: Multiculturalismo – Diversidade Cultural; Cidadania e
distantes da Europa. Civismo – Educação em Direitos Humanos.

40
Dir-se-á, pois, que há “ciência humana” não
onde quer que o homem esteja em questão,
mas onde quer que se analisem, na dimensão
própria do inconsciente, normas, regras, conjuntos
significantes que desvelam à consciência as
condições de suas formas e de seus conteúdos.
Falar de “ciências do homem”, em qualquer outro
caso, é puro e simples abuso de linguagem.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma


arqueologia das Ciências Humanas. São Paulo: Martins
Fontes, 2000. p. 504-505.

A EMERGÊNCIA DAS
TÍTULO
CIÊNCIAS HUMANAS

O século XIX é considerado o século da ciência por intérpretes da cultura ocidental em


virtude de inúmeras experiências em vários campos do conhecimento e dos extraordiná-
rios avanços tecnológicos iniciados com a Segunda Revolução Industrial.
A consolidação do racionalismo e a experiência empírica como paradigmas de produção
do conhecimento, que confinou a religião ao domínio exclusivo da fé, também ocorreram
no século XIX, embora o prelúdio desse deslocamento de paradigma possa ser situado no
século XVIII, celebrado como o século das luzes. Seu emblema literário foi a Enciclopédia
(L'Encyclopédie), organizada pelos filósofos Denis Diderot (1713-1784) e Jean d'Alembert
(1717-1783) e publicada na França entre 1751 e 1772.
De Agostini/Getty Images

A enciclopédia francesa foi publicada em dezessete volumes, organizada com base na


“árvore de conhecimentos humanos”, que incluía Ciência, Arte, Música, Literatura, Política,
Religião, Matemática, História, Geografia e muitos
outros ramos do saber. O inspirador do enciclo- SUA EXPERIÊNCIA PESSOAL
pedismo foi o filósofo inglês Francis Bacon (1561-
-1626), que adotou esse modelo no início do século • Você já pensou que as diversas
ciências ou campos de
XVII, tempo em que a religião ainda predominava conhecimento, embora específicos,
no pensamento ocidental. Mas é possível afirmar podem ser relacionados? Selecione
que, com Bacon, a árvore do bem e do mal bíblica, dois tipos de conhecimento,
matéria ou componente curricular
narrada no Gênesis, foi substituída pela árvore do estudados na escola e explique a
conhecimento racional, científico. relação entre eles.

41
HUMANIDADES: RAÍZES
E DESCONTINUIDADES
Embora gestadas na Antiguidade, as Ciências Humanas só foram reconhe-
cidas como tais ao longo do século XIX, e mesmo assim com grande polêmica,
pois foi nesse período que surgiu a corrente filosófica chamada positivismo, que
valorizava somente o conhecimento objetivo da realidade, calcado na observação
empírica dos fenômenos. Esse pensamento dificultava a aceitação da História e
da Filosofia no estatuto científico, pois ambas se baseavam na leitura de livros
e documentos, muitas vezes de interpretação subjetiva.

RA ÍZ E S C LÁ S S I C A S D A S HU MANIDADE S
As Ciências Humanas tiveram seu estatuto reconhecido apenas no século XIX, racionalismo
mas isso não significa que só é possível falar delas a partir dessa época. Na privilégio da razão como
Antiguidade grega surgiram filósofos, médicos e engenheiros que se apoiavam meio de conhecimento
na razão para explicar o mundo, além de produzirem conhecimentos aplicáveis e de explicação da
à realidade social, o que contribuiu para a organização de saberes em diversas realidade.
disciplinas das Ciências Humanas.
A forte presença do racionalismo entre os antigos gregos não significa di-
VERNANT, J. P. As origens
zer que eles fossem ateus. Pelo contrário, eram muito apegados a seus deuses, do pensamento grego. Rio
que presumiam habitar o monte Olimpo. Assim, o racionalismo não excluiu as de Janeiro: Bertrand Brasil,
mitologias, mas deu ênfase ao logos, isto é, à razão. Ele integrou um processo 1992.
que o historiador francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007) caracterizou como a
transição “do mito ao logos” – dois paradigmas distintos, mas não excludentes.
OBSERVE QUE...
O fato é que, a partir da Filosofia, os gregos produziram um saber racional
que seria incorporado séculos depois pelo pensamento ocidental, tornando-se O terraplanismo é um
pseudoconceito em voga
referência para o saber científico.
atualmente entre grupos
No caso da Geografia, por exemplo, desde Pitágoras (c. 570 a.C.-c. 495 a.C.), contrários ao saber
filósofo e matemático do século VI a.C., afirmava-se a esfericidade da Terra, em- científico. A ideia de que
bora os conhecimentos sobre o universo fossem limitados. Tal tese foi repercu- a Terra é plana foi muito
tida também por Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) no século IV a.C., contrapondo o divulgada pelo rapper
senso comum de que tal descoberta foi feita por Cristóvão Colombo (1451-1506). estadunidense B.o.B
(1988-), alegando a
Outra importante contribuição foi o conhecimento produzido por Ptolomeu
ausência de curvaturas
(90 d.C.-168 d.C.), pensador de origem grega que viveu na Alexandria, no Egito. no planeta. Mas essa é
Ele produziu uma obra cartográfica que se tornaria referência para navegadores uma visão muito antiga,
ibéricos nos séculos XV e XVI, embora muitas informações tenham sido corrigidas presente na Antiguidade
por eles com base nas navegações. É formidável o mapa-múndi que Ptolomeu oriental e ocidental,
incluiu em sua obra Geografia, indicando terras e continentes desconhecidos ou bem como em diversas
muito mal conhecidos em sua época. culturas ágrafas de
vários continentes.
Reprodução/Biblioteca Britânica, Londres, Inglaterra

Desde Aristóteles, a
esfericidade da Terra
foi reconhecida pelos
filósofos no mundo
ocidental, o que faz do
Detalhe do mapa de terraplanismo atual um
Ptolomeu, elaborado anacronismo completo.
no século II. Ptolomeu
indica a China (Sinas);
à direita, a ilha de anacronismo
Tapobrana, ou Sri erro cronológico que
Lanka (atual Ceilão), e
implica atribuir a uma
a península do Sudeste
Asiático (Quersoneso época pensamentos,
Áureo) – regiões que valores ou conceitos
os ocidentais sequer de uma época muito
cogitavam alcançar. distante no tempo.

42
O fato de Ptolomeu ser adepto do geocentrismo, conceito superado no século
XV, não invalida sua obra cartográfica, produzida cerca de 1 500 anos antes das
Grandes Navegações europeias.
No campo da História, pensadores antigos também deram enorme contri- OBSERVE QUE...
buição, a começar pelo grego Heródoto (485 a.C.-425 a.C.), que viveu no século Geocentrismo é a
V a.C. e foi autor de Histórias, obra em nove volumes centrada em guerras, em teoria formulada por
especial na guerra entre gregos e persas pelo controle do Mediterrâneo orien- Ptolomeu, segundo a
tal. Contemporâneo dessas guerras, tomou como base de informação textos qual a Terra está no
escritos e informações orais. Essa dupla base de fontes da obra de Heródoto centro do Sistema Solar.
tem relação com a etimologia da palavra história, de origem grega, com signi- Ela foi superada na
época do Renascimento
ficado oscilante entre narrativa e testemunho, entre o texto historiográfico e a
(séculos XV e XVI)
crônica de acontecimentos. pelo heliocentrismo,
Heródoto também foi geógrafo, aventurando-se a fazer uma história univer- proposto pelo astrônomo
sal – que na sua época se resumia ao mundo mediterrâneo. Viajou pela Gré- Nicolau Copérnico (1473-
cia, pela península Itálica e pelo -1543), que concebeu o
Sol como centro de um

Alvaro German Vilela/Shutterstock


Egito. É dele a frase “o Egito é sistema planetário do
uma dádiva do Nilo”, percepção qual a Terra fazia parte.
aguda de que essa civilização A Igreja católica, adepta
milenar derivou, em grande do geocentrismo desde
medida, das obras de irrigação a Idade Média, combateu
realizadas no rio Nilo desde os o heliocentrismo
primeiros faraós (c. 3.000 a.C.). e perseguiu seus
defensores, como Galileu
Se não chegou a sustentar a
Galilei (1564-1642).
teoria do determinismo geo-
gráfico na história dos povos,
Heródoto percebeu que História
e Geografia eram inseparáveis.

Busto de Heródoto. Cópia


romana do século II,
localizada no Estoa de
Átalo, em Atenas (Grécia).
Foto de 2018.

Além da Geografia, Heródoto descreveu os costumes de vários povos que


contatou em suas viagens, o que faz dele, em certa medida, um etnógrafo, ape-
sar de suas opiniões nesse campo sempre terem adotado como modelo a cul-
tura grega, em particular a da cidade de Atenas. Ele produziu uma etnografia
eurocentrismo
não eurocêntrica, o que seria feito muito depois.
modo de pensar, em
O principal discípulo de Heródoto foi Tucídides (460 a.C.-400 a.C.), autor de Ciências Humanas, que
História da Guerra do Peloponeso, obra em oito volumes sobre a guerra entre Ate- analisa e dá significado
nas e Esparta, iniciada em 431 a.C. Tucídides pensava a escrita histórica como a outros continentes
crônica do presente, cujo objetivo era não só conhecer o passado, mas também e povos com base no
iluminar o futuro. Foi precursor da ideia de que a História serve para compre- mundo europeu, em sua
ender o presente e orientar o futuro – uma espécie de História engajada –, experiência histórica
e em seus valores
polêmica que marca os debates historiográficos até hoje.
culturais e morais.
De todo modo, Tucídides foi militar ateniense na guerra contra os espartanos.
Escreveu do ponto de vista de Atenas no apogeu da “democracia grega”, embora
buscasse teorizar sobre Política como conhecimento, apresentando outra ques-
tão essencial na discussão sobre o estatuto científico da História: subjetividade
versus objetividade, parcialidade versus imparcialidade na narrativa.

43
ANALISAR E REFLETIR

As narrativas históricas no Ocidente, da Antiguidade ao século XIX, privi-


legiaram o tema das guerras, ainda que por motivações diferentes. Na An-
tiguidade, para defender uma cidade grega em luta contra outra cidade ou
contra os persas, ou para defender o Império Romano contra seus inimigos
externos. Na Idade Média, para celebrar os cavaleiros que lutaram contra
invasões, sobretudo as muçulmanas. Na Idade Moderna, para contar a his-
tória da disputa entre as monarquias pela hegemonia europeia ou soberania
KEEGAN, J. Uma história
regional. No século XIX, para respaldar os nacionalismos europeus. O his- da guerra. São Paulo:
toriador John Keegan, um dos maiores estudiosos da guerra na atualidade, Companhia das Letras,
afirmou que “a história escrita das sociedades é, em grande medida, uma 2006. p. 492.
história das guerras”.

■ Com base no texto e considerando as obras de Heródoto e de Tucídides,


discutam em grupos:

a) É válido considerar a opinião de Keegan sobre a centralidade das guerras na


escrita historiográfica?

b) Heródoto pode ser considerado, sobretudo, um narrador da história militar?

c) O que a escolha pela narrativa militar na História privilegia e o que esconde?


Quais são as consequências dessa escolha?

Mas a rainha das Ciências Humanas na Grécia foi a Filosofia. A partir dela
surgiram textos e pensadores que se dedicaram ao conhecimento do mundo
natural e social embasados no logos, e não mais no mito. É impossível pensar
na história da Filosofia, e muito menos na Filosofia como campo de saber, sem
considerar a obra dos gregos antigos, em especial Platão (428 a.C.-347 a.C.) e
Aristóteles.

ID A DE M É D I A E E S T U D O S
PR OV I DEN CI A L IS TA S
Entre os séculos V e XV, o Ocidente gótico
Adrien Contini/Alamy/Fotoarena

não viveu uma Idade das Trevas, como conceito derivado de


muitos afirmam. Houve importan- Godos, povo germânico
tes inovações na tecnologia agrícola; que desafiava o Império
enorme esforço da Igreja, sobretudo Romano desde o século
nos mosteiros, de traduzir para o latim III d.C. Porém, seu
e copiar os textos da Filosofia grega; significado tem mais
e uma verdadeira revolução artística relação com a arte da
com a cultura gótica, em especial na Baixa Idade Média,
sobretudo nas catedrais
arquitetura das catedrais. Nessa épo-
erigidas.
ca, no entanto, o ímpeto científico em
todos os campos ficou muito inibido,
em virtude da dominação religiosa.
Havia uma concepção providencialista,
isto é, a convicção de que tudo que
ocorria no mundo exprimia a vontade
de Deus, a providência divina.

Catedral gótica de Saint-Gatien


em Tours (França), 2018.

44
Na História, prevaleceram crônicas sobre as guerras entre senhores feudais e Cruzadas
reis. Na Geografia, não houve novidade até o século XV. Segundo a Filosofia, a ex- nome das diversas
plicação disso seria o monopólio da Igreja sobre o saber legítimo. Tudo era sobre expedições de cavaleiros
e por Deus. De acordo com a História e a Geografia, a explicação seria o confina- enviadas da Europa
mento da Europa em razão do avanço muçulmano, que tomou a península Ibérica, ocidental para o
o norte da África e diversas ilhas mediterrâneas. Com o início das Cruzadas, na Oriente em busca de
Baixa Idade Média, essa limitação geográfica foi lentamente superada, o que cul- territórios e da expansão
da cristandade por
minou com a consolidação do Renascimento e da Idade Moderna.
territórios muçulmanos.
E X PA N S Ã O Á R A B E ( 6 3 2 - 8 5 0 )
OBSERVE QUE...
Banco de imagens/Arquivo da editora

OCEANO O Renascimento foi um


ATLÂNTICO processo de renovação
REINO DOS
Tours
Poitiers
FRANCOS Mar
ÁSIA
artística que teve início
de Aral
EUROPA na Europa ocidental,
REINO DOS Toulouse na península Itálica, e
VISIGODOS Mar
Roma
Mar Negro Cáspio que estava voltado para
Toledo Córsega Samarcanda
Córdoba
Constantinopla a restauração da arte
IM
Sardenha P ÉR
Tânger
Djebel-al-Tarik I O BI
ZANTINO Rio greco-romana. Para
muitos historiadores, o

Ti
gr e
Cartago Rio
Fez Sicília Atenas E uf IMP
ÉRIO
Cairuan M
ar Chipre
rate Bagdá
s PERSA Renascimento marcou
MAGREB Damasco
M
ed
iter
Creta
Jerusalém o surgimento da Idade
TR râneo Basra
Trípoli
IPO
LIT
Barca Alexandria Go
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LÍBIA rsi
Fustat co
(Cairo)
EGITO ARÁBIA
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Medina (Yatrib)
Fonte: elaborado com base
ar
Rio Nilo

ÁFRICA
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20º N Meca em KINDER, Hermann;


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el
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Arábia pré-islâmica HILGEMANN, Werner. Atlas


Expansão árabe hist—rico mundial: de los
OCEANO
Limite máximo da expansão islâmica 0 570
orígenes a la Revolución
ÍNDICO
Sentido da expansão Francesa. Madri: Ediciones
km
50º L Istmo, 1982. p. 124.

R E NA S C I M E N TO , H U M A N ISM O E CIÊ NCIA


O Renascimento trouxe uma autêntica revolução cultural para o

Francesco Rinaldi/Shutterstock
Ocidente, que adotou como modelo a Antiguidade clássica, espe-
cialmente pela celebração do homem como criador, e não apenas
criatura de Deus. As Artes oferecem o melhor exemplo dessa revo-
lução, sobretudo na pintura e na escultura. Em ambas, nota-se a
valorização da anatomia humana, seja na representação dos deuses
pagãos, seja na dos personagens bíblicos.
O humanismo foi, portanto, o núcleo da mentalidade renascen-
tista dos séculos XV e XVI. Nesse sentido, originou um saber e uma
cultura que se opunham ao sistema de pensamento medieval, pau-
tado na onipotência de Deus. Apesar disso, seria equivocado dizer
que o Renascimento era anticristão, pois os temas religiosos foram
muito retratados pelos artistas, e a Igreja foi uma das principais
patrocinadoras da arte renascentista.
Nesse período, no entanto, ocorreu um lento deslocamento do
teocentrismo para o antropocentrismo como paradigma de conhe-
cimento. Em outras palavras, Deus continuou sendo referência nos
assuntos ligados à fé, mas o homem, na sua relação com o mundo
natural e cósmico, passou a ocupar o centro da cultura europeia nas
Artes e na produção literária.

Davi (1501-1504), de Michelangelo (1475-1564), exposto na


Academia de Belas-Artes de Florença (Itália), 2020.

45
O humanismo renascentista repercutiu nas Ciências da Natureza, em par-
ticular na Astronomia, na Física e na Química, apesar da oposição que a Igreja
fazia aos saberes laicos, desconfiada de que ameaçavam o modelo religioso
de pensamento. Leonardo da Vinci (1452-1519) esboçou inventos impensáveis
para a época, como protótipos de avião e de tanques de guerra. O avanço da
Astronomia foi extraordinário, com a substituição decisiva do geocentrismo
pelo heliocentrismo.
A Filosofia também conheceu avanços, contrapondo o platonismo ao aristote- Teologia
lismo. O primeiro apresentava o método dedutivo, partindo do geral para com- ciência ou estudo que
preender o particular, enquanto o segundo, o método indutivo, partia das parti- se ocupa de Deus, de
cularidades para explicar as generalidades. A discussão filosófica enredou-se sua natureza e de suas
com a Teologia, como na Idade Média, mas começou a ganhar dinâmica própria, relações com o homem
a exemplo do que ocorria na Antiguidade greco-romana. e o Universo.

A Geografia deu um salto qualitativo formidável, em razão das viagens oceâ-


nicas europeias e da consequente chegada a outros continentes. A Cartografia
oferece o melhor exemplo dessas mudanças por meio da produção de planisfé-
rios e mapas cada vez mais detalhados, incluindo rios e acidentes geográficos de
várias partes do mundo.

Reprodução/Coleção particular

Planisfério de Nicolay de Caveri (c. 1506). Mapa-múndi representando o mundo conhecido pelos ocidentais.

Esse mesmo processo de expansão oceânica e interconexão planetária esti- OBSERVE QUE...
mulou os primeiros passos da Etnologia, isto é, da produção de textos dedicados
a descrever costumes e crenças dos povos asiáticos, africanos e ameríndios. É No Brasil do século XVI,
o padre José de Anchieta
certo que narrativas desse tipo já ocorriam desde a Antiguidade grega, como
(1534-1597) escreveu
vimos com Heródoto. Porém, as narrativas etnológicas da Antiguidade eram mo- Gramática da língua mais
destas em quantidade e abrangência, se comparadas às narrativas modernas, geral falada na costa do
que passaram a abranger povos de vários continentes, além de estarem mais Brasil. Tratava-se de uma
atentas às novas culturas encontradas. gramática da língua tupi,
que Anchieta aprendeu
Os missionários católicos, por exemplo, empenhados em cristianizar os povos com os nativos. Esse
do mundo, produziram relatos valiosos sobre o papel do parentesco em várias texto contribuiu para
sociedades, as dinâmicas de poder, os mitos, além de registrarem diversas lín- o estudo da cultura
guas nativas. Se tais narrativas eram inevitavelmente eurocêntricas, o registro indígena predominante
etnológico delas foi valioso para a futura Antropologia social. no litoral brasileiro.

46
Analisando crônicas de religiosos sobre os povos nativos da América, por
exemplo, o historiador francês Michel de Certeau (1925-1986) chegou a con-
siderá-los precursores dos etnólogos do século XIX. Estes últimos produziram
textos sobre grupos culturais de outros continentes por dever de ofício, en-
quanto os cronistas dos séculos XVI ou XVII escreveram sobre eles com moti-
vações religiosas ou econômicas. Alguns mergulharam tanto nas culturas indí-
genas que conseguiram ultrapassar a fronteira do que era distinto, oferecendo
chaves para compreender os modos de pensar desses povos.
No campo da História, as mu-

Reprodução/Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores


danças foram menos sensíveis. De
modo geral, os relatos militares
não só continuaram dando o tom
das narrativas como aumentaram,
considerando as epopeias que
marcaram as conquistas euro-
peias na África, na Ásia e na Amé-
rica. Uma herança da crônica de
guerra que vinha da Antiguidade e
se prolongou Idade Média afora.
A Filosofia da história inerente
à crônica militar equivale à fórmu-
la: história, mestra da vida. Essa
concepção se encontra em autores
como Cícero, cuja ideia-chave era
que o conhecimento do passado
poderia ser valioso para compre-
ender o presente e, quem sabe,
prognosticar o futuro. Na prática,
os textos celebravam reis e prín-
cipes, homens considerados im-
portantes e guerreiros, como se a
biografia deles fosse uma espécie
de monumento capaz de orientar o
futuro das sociedades.
Mesmo no século XX, muitos li-
vros de História partilhavam essa
crença, sugerindo que a impor-
tância da disciplina estava na sua
capacidade de facilitar o conheci-
mento do presente, além de evitar
a repetição dos erros do passado. Povos indígenas
Tal concepção tem uma forte preocupação moralizante, ancorada em concei- representados em
tos rígidos do que seria certo ou errado. Mais importante que a pesquisa era A América meridional,
de 1558, do cartógrafo
a narrativa exemplar, pedagógica, doutrinária. A concepção da História como português Diogo Homem
mestra da vida reconhecia a humanidade como protagonista de suas ações, (1521-1576).
embora só valorizasse os grandes personagens.
O escritor francês Paul Valéry (1871-1945) resumiu em poucas palavras a
CATROGA, F. Ainda será a
ingenuidade desse modelo de História exemplar: “prevejo, logo engano-me”. história mestra da vida?
A História deve contentar-se em conhecer o passado por si mesmo, quem sabe Estudos Ibero-Americanos,
para ajudar os que o estudam a conhecer a si mesmos, seu lugar social, seu Porto Alegre, n. 2, p. 7-34,
2006.
papel no mundo em que vivem. Porém, se ela é feita por seres humanos, a im-
previsibilidade é uma de suas características mais fortes.

47
E S TA T U T O C I E N T Í F I C O D A S
HUMANIDADES, SEUS DILEMAS
E CAMINHOS EM DIREÇÃO À
INTERDISCIPLINARIDADE
Como vimos, foi apenas no século XIX que as Ciências Humanas ganharam o
estatuto científico. Houve então grande avanço em todos os ramos das Humani-
dades, marcado por dilemas e concepções rivais, que geraram debates bastante
ricos e o desenvolvimento do conhecimento. Além disso, surgiu a necessidade de
maior interdisciplinaridade das Humanidades entre si e com outras disciplinas
científicas, como a Biologia.
A seguir, veremos quais foram os debates, os dilemas e os desdobramentos
mais importantes na evolução de cada uma das disciplinas durante os séculos
XIX e XX.

FI LO S OFIA : D O S I N D I V I DU ALI STAS AOS


RE BE L DES
No campo dos saberes humanísticos, a Filosofia não aderiu à obsessão OBSERVE QUE...
cientificista do século XIX. Continuou apegada à reflexão entre o sensível e o
O sueco Søren
invisível, entre o físico e o metafísico, entre o corpo e o espírito, não em uma Kierkgaard (1813-1855)
perspectiva religiosa, mas intelectual. Isso não significa que a Filosofia des- é considerado o primeiro
conheceu mudanças nessa época. De um lado, surgiram correntes filosóficas filósofo existencialista.
dedicadas a estudar a humanidade, considerada em sua diversidade cultural, Sua obra O conceito de
embora tenha prevalecido, como veremos, uma perspectiva raciológica. De ou- ironia mergulha nas
tro lado, a corrente existencialista, emergente no fim do século XIX, deu bom angústias humanas, fiel
exemplo de uma filosofia que, em vez de enfatizar sistemas gerais de conheci- ao preceito de Sócrates
mento, passou a refletir sobre a existência individual. Trocou a humanidade em (c. 469 a.C.-399 a.C.):
geral pelos indivíduos, tornando angústias, medos e paixões individuais objeto “Só sei que nada sei”.
de investigação. Um preceito humilde,
mas que pode estimular
Não por acaso o existencialismo, como Filosofia, foi contemporâneo da Psica- o conhecimento do
nálise, um saber voltado para o estudo da mente humana e de sua psique, tanto mundo e de si mesmo.
no nível consciente como inconsciente.
No século XX, a Filosofia operacionalizou, em conjunto com as correntes exis-
tencialistas, a multiplicação de reflexões filosóficas engajadas na luta pela liber- OBSERVE QUE...
dade, seja no combate a sistemas totalitários, no apoio à emancipação política de O médico neurologista
regiões exploradas por impérios coloniais, seja na crítica frontal a mecanismos Sigmund Freud (1856-
de poder cotidiano distintos do poder estatal. 1939) é considerado o
Um expoente dessa filosofia rebelde foi o fundador da Psicanálise,
Bettmann Archive/Getty Images

franco-argelino Albert Camus (1913-1960), conhecimento voltado


militante da Resistência Francesa na Segunda para a mente humana,
Guerra Mundial (1939-1945) e autor de O ho- o qual sugeriu que os
indivíduos também
mem revoltado, de 1951 − um ensaio no qual
sentiam e agiam
ele discute vários tipos de revolta do ponto de
conforme impulsos de
vista filosófico e histórico, desde Espártaco uma dimensão oculta do
(111 a.C.-71 a.C.), na Roma antiga. Mas o es- cérebro: o inconsciente.
sencial de sua reflexão é o conceito de revolta
metafísica, que consiste na revolta do homem,
qualquer homem, contra sua condição de cria-
tura de Deus, bem como contra as motivações
de sua criação.

Albert Camus,1959.

48
Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi outro protagonista dessa inflexão filosófica
no pós-1945. Autor de vários ensaios e peças teatrais, Sartre foi um militante
da guerra argelina contra o colonialismo francês. Um intelectual engajado que
marcou a obra de grandes defensores da emancipação dos países africanos nos
anos 1960, como Frantz Fanon (1925-1961) e Albert Memmi (1920-2020).

A NALISANDO MENSAGENS

TEXTO I
[...] todo povo colonizado, isto é, todo povo no seio do qual nasce um complexo de inferioridade,
de colocar no túmulo a originalidade cultural local – se situa frente a frente à linguagem da na-
ção civilizadora, isto é, da cultura metropolitana. O colonizado se fará tanto mais evadido de sua
terra quanto mais ele terá feito seus os valores culturais da metrópole. Ele será tanto mais branco
quanto mais tiver rejeitado sua negrura.
FANON, F. Os condenados da terra. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 34.

TEXTO II
Em Retrato do colonizador, Memmi definiu o colonizado como um tipo ao mesmo tempo indigna-
do com a humilhação e a opressão inerentes ao fato colonial, porém amante, em graus variados,
da cultura do colonizador. Mas o ressentimento contra a metrópole é inevitável, alimentado pelo
desprezo de si e pela desumanização ou despersonalização provocada pelo colonialista. Para en-
frentar o drama, os colonizados têm somente duas alternativas. A primeira deriva do “amor pelo
colonizador e ódio de si”, e o mínimo que o colonizado deseja é “mudar de pele”, mudar de cor,
deixar de ser esse “outro” desprezível. A segunda é a revolta em busca da autoafirmação.
MEMMI, A. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2007. p. 162.

■ Em grupos, comparem os dois excertos e discutam:

a) o que os dois excertos têm em comum em relação à identidade do colonizado diante do colonizador;
b) a ruptura que Memmi vislumbra para o colonizado enfrentar seus dramas identitários;
c) as atitudes e os movimentos que os descendentes de colonizados africanos construíram no mundo
atual para a autoafirmação coletiva. Dê exemplos.

Bettmann Archive/Getty Images

Outro expoente da filosofia rebelde


é Michel Foucault (1926-1984), fran-
cês que lecionou em várias partes do
mundo. Imbuído, desde sempre, de um
espírito crítico radical acerca de todos
os campos do conhecimento humanís-
tico, sobretudo Filosofia, Antropologia
e História, foi militante destacado de
movimentos antirracistas, de luta pelos
diretos humanos e a favor de reformas
no sistema penal do Ocidente. A maior
parte de seus livros foi publicada entre
as décadas de 1960 e 1980, promovendo
enorme impacto nas Ciências Humanas.

O filósofo francês Michel


Foucault, 1979.

49
Foucault questionou o estatuto científico das Ciências Humanas não por vê- OBSERVE QUE...
-las como incapazes de se libertar das subjetividades em favor de um conhe- O mundo asiático
cimento objetivo, mas por considerá-las, antes de tudo, narrativas, discursos ou oriental também
variáveis de acordo com cada época. Ele desconfiava da existência de realida- construiu uma Filosofia
des em si mesmas, convencido de que só faziam sentido por meio dos textos adequada às diversas
que cada saber construía sobre si mesmo – e, nesse sentido, criticava a própria culturas do Oriente Médio
e do Extremo Oriente.
Ciência, de maneira geral. E é preciso desconstruir
Foucault foi um filósofo tanto rebelde como revolucionário, porque discu- as interpretações
eurocêntricas formuladas
tiu não apenas interpretações específicas de cada disciplina humanística que
sobre o Oriente desde
estudou, mas também as linguagens e a maneira como elas construíam seus há muitos séculos,
conhecimentos. Contestou nelas a busca por verdades objetivas, que, para ele, incluindo expressões
não passavam de narrativas. No campo da História, foi decisivo ao propor te- como “mundo árabe” ou
mas nada convencionais, a exemplo de História da loucura (1961) e História da “civilizações asiáticas”,
sexualidade (1976-1984). descritas e explicadas
sempre em função de
suas semelhanças e
HI S TÓ RI A : D O H I S T O RI C ISM O À diferenças em relação
ao Ocidente. Um dos
A BO R DA G E M I N T E RD I S C IPL I NAR principais intelectuais
dessa corrente de
A História também se constituiu como campo científico no século XIX, ao pensamento é Edward
Said (1935-2003), autor
menos para os que pesquisavam e publicavam livros dentro da disciplina. Os de Orientalismo: o
cientistas dedicados à Biologia, à Física ou à Química duvidavam do caráter Oriente como invenção
científico da História, ancorados no argumento de que ela resultava de inter- do Ocidente, no qual
pretação subjetiva de fatos e documentos, e não de experiências empiricamen- condena a tradição
te comprováveis. europeia de reunir
as várias civilizações
De fato, os historiadores do século XIX se mantinham muito apegados à tra- orientais sob o mesmo
dição da escrita historiográfica que vinha da Antiguidade: o estudo das guerras signo do exotismo e da
inferioridade.
e de grandes personagens; a convicção de que a História servia para compre-
ender o presente – uma teleologia – e, assim, iluminar o futuro.
Mas houve também mudanças essenciais nos métodos de pesquisa. Primeiro,
tornou-se obrigatório fazer a crítica das fontes, externa e internamente. A crítica teleologia
externa verifica se os documentos são materialmente autênticos; já a interna doutrina ou modo de
investiga se os documentos já verificados dizem a verdade, o que só é possível pensar que explica a
alcançar comparando vários documentos sobre o mesmo tema. História com base no
que aconteceu depois
Essa corrente ficou conhecida como historicismo e teve como berço a Ale- dos fatos narrados,
manha, onde se destacou o historiador Leopold von Ranke (1795-1886). O foco priorizando resultados
de análise historicista é o fato histórico, entendido como episódio de grande ou consequências,
repercussão, sobretudo no campo da política, da diplomacia e das guerras. em prejuízo da
imprevisibilidade dos
Atualmente, muitos consideram o historicismo superado, em razão de seu ape-
processos históricos e
go ao que os documentos revelam, da valorização do fato em detrimento do dos contextos em que
processo histórico e da busca da verdade histórica em sentido oficial. A crítica transcorreram.
procede, pois o que é verdadeiro para uns pode ser mentira para outros. É pre-
ciso saber quem produziu os documentos, qual indivíduo, qual grupo social e
quais são seus interesses.
No entanto, o historicismo ofereceu a base metodológica da pesquisa his-
tórica ao sublinhar a crítica documental como critério científico da disciplina.
Desde então, a pesquisa histórica profissional praticada nas universidades par-
te da delimitação das fontes, da crítica externa e interna dos documentos, da
investigação sobre como e por quem foram produzidos.
Longe da pesquisa de fontes, mas com muita erudição e motivação política,
o século XIX viu surgir o materialismo histórico. Formulada pelos alemães Karl
Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), essa corrente era uma Filo-

50
sofia da História, porém trazia uma novidade do ponto de vista teórico: a con-
vicção de que a História era movida, desde sempre, por razões econômicas, ou
seja, relacionadas à vida material. Segundo o materialismo histórico, a História
se movia entre forças econômicas ocultas e conflitos sociais explícitos: a luta
de classes entre explorados e exploradores.
Fotomontagem: Friedrich Karl Wunder/George Lester/Coleção particular

Montagem
elaborada com
base em fotografias
de Karl Marx, 1867
(à esquerda), e
Friedrich Engels,
c. 1856-1868
(à direita).

Foi uma teoria original na época, apesar de colocar em segundo plano o


papel de personagens, da política, das guerras e das crenças coletivas. Mas
essa teoria fundou a História social, valorizando as classes populares, a vida
material, as angústias coletivas e a miséria da maioria. Produziu também uma
filosofia histórica comprometida com a ação política revolucionária; uma con-
cepção baseada na igualdade do gênero humano, que devia se traduzir em
igualdade social; e uma filosofia dedicada a explicar a realidade concreta, em
vez de investigar o conhecimento e a moral em níveis abstratos.
Um dos grandes dilemas da História, assim como de outras áreas das Ci- OBSERVE QUE...
ências Humanas, é a contradição entre nacional e universal, já que se afirmou Na historiografia
como ciência na “era dos nacionalismos”, tempo de consolidação dos Estados brasileira do século
nacionais e de acirramento de rivalidades e competições por hegemonia políti- XIX, um dos autores
ca ou dominação econômica. Os nacionalismos foram – e ainda são, em menor mais importantes foi
grau – fonte de tensões na humanidade e causa de inúmeras guerras entre Es- Francisco Varnhagen
tados ou em um mesmo país. A produção historiográfica produzida até meados (1816-1878), paulista de
origem alemã, defensor
do século XX foi, na maioria, marcada pelo historicismo e dedicada ao estudo
de uma História
das nacionalidades e da formação histórica dos países. Assim, muitas vezes, nacionalista, que, no
produzia-se uma historiografia nacionalista, por vezes xenófoba, na qual o au- entanto, considerava a
tor fazia de seu país a referência para o estudo da História. história do Brasil uma
continuidade da história
Mas nem toda historiografia historicista foi nacionalista e dedicada à história de Portugal.
política factual. Alguns autores foram além, ousando estudar temas menos
convencionais e mais abrangentes. No século XIX, o suíço Jacob Burckhardt xenofobia
(1818-1897) publicou Cultura e Renascimento na Itália, relacionando a revolu- repúdio a tudo que é
ção cultural da época com a ascensão da burguesia comercial. O francês Ju- estrangeiro, diferente.
les Michelet (1798-1874) publicou A feiticeira, um estudo sobre a bruxaria na
Idade Média, interpretando crenças e ritos satânicos como reação camponesa
ao cristianismo. Fustel de Coulanges (1830-1889) publicou A cidade antiga, um
estudo sobre religião, família e poder na Antiguidade grega. Edward Gibbon

51
(1737-1794) publicou Declínio e queda do Império Romano em perspectiva so-
ciocultural. De todo modo, o dilema entre nacional e universal atravessou o
século XIX e adentrou o XX, enlaçado com o dilema entre a História política e
outros tipos de história mais abrangentes, incorporando as dimensões social,
econômica e cultural.
No campo teórico, a novidade estava na busca pela interdisciplinaridade,
isto é, no diálogo entre as várias ciências humanísticas. É certo que esse
diálogo vinha se estreitando desde o século XIX, sobretudo entre Filosofia,
Geografia e Etnologia. No campo do saber histórico, a interdisciplinarida-
de deu-se com um movimento de historiadores franceses empenhados em
construir uma História social, oposta à positivista, por um lado, e divergente
do determinismo econômico, por outro. Tal movimento teve origem nos anos
1930, mas permaneceu confinado – e muito criticado – até o fim da década
de 1940. A partir de 1950 tornou-se, no entanto, paradigma para a escrita da
História.
Os historiadores que encabeçaram esse movimento foram Lucien Febvre
(1878-1956), especialista em História moderna, e Marc Bloch (1886-1944), es-
pecialista em História medieval. Eles propuseram uma História social, que
equivalia a uma História totalizante, abrangendo, sem determinismo ou priori-
dade, todas as dimensões da vida humana. Estimulavam o estudo das massas
e das classes populares, em vez de reis e príncipes. Uma História que deveria
mesclar-se com Antropologia, Filosofia, Psicologia, Economia e, sobretudo,
com Sociologia e Geografia.
Uma grande virada ocorreu no fim dos anos 1960, com a História das men- diacronia
talidades, que se pretendia inseparável da Antropologia, pois defendia o estu- conceito que alude
do de costumes, sentimentos, religiosidades e cultura. Assim, apresentou-se às mudanças no
como uma História antropológica, e vários historiadores passaram a estudar tempo, na cronologia,
feitiçaria, sexualidade, família, parentesco e temas eminentemente antropoló- em contraposição à
sincronia, que alude
gicos, porém em perspectiva diacrônica.
a fatos ou fenômenos
A partir de 1980 surgiu na Itália um desdobramento da História das men- ocorridos no mesmo
talidades que ficou conhecido como micro-história. Foi uma inovação radical, tempo.
que propunha pesquisas com base em casos muito particulares, como bio-
grafias de pessoas comuns, episódios miúdos na história das nações, como a
perseguição às bruxas em alguma cidade, um exorcista que tirava o demônio
de pessoas ou animais, etc. A micro-história oferece livros que podem ser li-
dos como romances ou novelas, mas que resultaram da pesquisa sistemática
de documentos.

QUE ST Õ ES EM FOCO

A luxúria no Brasil
O escritor Paulo Prado (1869-1943), autor do livro Retrato do Brasil (1927), é considerado precursor da
História das mentalidades em nossa historiografia, sobretudo por destacar sentimentos e desejos de co-
lonos e colonizados, incluindo temas sexuais. No entanto, ele considerou a miscigenação racial, presente
na história brasileira desde o século XVI, como expressão da luxúria que caracterizou a formação do
Brasil, condenada desde sua origem.

■ Faça uma pesquisa sobre o significado do conceito de luxúria na teologia cristã e, com base no texto,
discuta com os colegas a posição do autor sobre a formação étnica da sociedade brasileira. Tal posiciona-
mento está fundamentado em bases científicas da pesquisa das mentalidades em História?

52
G E OG RA F I A : D A E X PA N SÃO
IMP ER IA L IS TA À GL O B A L I ZAÇ ÃO
A Geografia se consolidou como saber científico beneficiada pelo avanço
da Geologia, da Química, da Meteorologia, da Astronomia, da Biologia e da
Física − enfim, de toda massa crítica oferecida pelo avanço científico em todos
os campos −, e também pelo refinamento das disciplinas humanísticas, como
Etnologia, História e Sociologia.
O contexto histórico desse aprofundamento da Geografia como ciência era
o do avanço da mundialização liderada pela Europa. A segunda metade do
século XIX foi marcada pelo imperialismo europeu, ou seja, por um novo tipo
de colonialismo. Entre os séculos XVI e XVII, o colonialismo era sobretudo co-
mercial, pois se destinava à venda de manufaturados e compra de produtos
tropicais de alto preço no mercado europeu, como açúcar, algodão e tabaco,
além da extração de metais e de pedras preciosas.
Já o colonialismo imperialista do século XIX resultou da industrialização eu- hinterland
ropeia. Estava voltado para a extração de matérias-primas dos vários continen-
palavra de origem alemã
tes – metais para a indústria pesada, por exemplo –, e também para a expor- usada para designar
tação de capitais por meio do investimento em infraestrutura, com destaque o interior de países ou
para ferrovias e modernização de portos. Tudo isso implicou a interiorização regiões, geralmente
europeia nos diversos continentes, uma conquista generalizada do hinterland menos desenvolvido e
africano e asiático, ora por meio da negociação com lideranças regionais, ora pouco habitado.
por meio da guerra – geralmente, por intermédio de ambos os mecanismos.
Esse processo contribuiu para o re-
finamento da Geografia, assim como
a Geografia contribuiu para o avan-
ço do imperialismo. A Europa saiu na
frente no aperfeiçoamento da ciência
geográfica, pois foi dali que partiu a
expansão capitalista nessa nova fase
da mundialização. Nos demais conti-
nentes, por mais sofisticada que fosse
a cultura letrada e filosófica, como na
China milenar, a Geografia como área
do conhecimento ficou mais acanhada,
em virtude da condição periférica que
o capitalismo reservou a tais regiões.

Charge do século XIX satirizando a partilha


da África pelas potências europeias na
Conferência de Berlim, que ocorreu entre
1884 e 1885, na Alemanha. Na imagem,
o responsável pela divisão do bolo é o
chanceler alemão Otto von Bismarck.
Gravura em madeira publicada pela
revista francesa L'Illustration em 1885.
Reprodução/Coleção particular

Já no mundo ocidental, a Geografia se especializou e se ramificou. Assim,


a Geografia física se separou da humana. Na interseção das duas surgiu a
Geografia econômica. A competição entre as potências imperialistas também
inspirou o surgimento da Geopolítica, conceito que foi usado pela primeira vez
em 1905, mas que na prática surgiu antes, estreitamente ligado à ação militar
dos Estados imperialistas, o que implica um conceito de territorialidade em
escala planetária.

53
Um dos expoentes dessa nova Geografia do século XIX foi o francês Paul
Vidal de La Blache (1845-1918). Ele sustentava a ideia de que as dimensões
física e humana da ciência geográfica eram indissociáveis, além de defender
a possibilidade de os Estados modificarem drasticamente, se necessário, os
obstáculos naturais para levar adiante o progresso material do mundo: pene-
trar montanhas, alterar o curso de rios, unir oceanos através de canais. Ou
seja, construiu-se uma Geografia científica engajada na alteração da geografia
natural em benefício do processo capitalista.
Com o acirramento do processo de globalização no fim do século XX, o modo
como se entende o território e seus processos de ocupação e controle também
se alteraram, o que influenciou também o entendimento da Geografia, com
diferentes interconexões e interdependências econômicas, políticas, sociais e
culturais. Na Economia, blocos econômicos e empresas transnacionais arti-
culam territórios vizinhos e distantes. Na política, organismos internacionais
influenciam decisões e fazem mediações em situações de disputas e tensões
geopolíticas.
Nesse contexto, as tecnologias de transporte e de comunicação são funda-
mentais; com elas, o espaço geográfico tornou-se muito mais complexo. As
relações de intimidade entre sociedades e seus respectivos ambientes são
mais frágeis, pois fluxos de mercadorias, pessoas e ideias exteriores às regi-
ões as atravessam, transformando a vida cotidiana, as paisagens e a organi-
zação espacial.
O contato com a alteridade se amplia. Pessoas de distintas origens geo-
gráficas e culturais e de distintos sistemas morais se comunicam e intera-
Vista panorâmica do
gem. Tais transformações impactam a relação entre Geografia e Ética, bem
canal de Suez, gravura
como práticas, valores e atitudes de coletividades e pessoas. Reflexões éticas produzida em 1881 para
implicam a consideração do outro, do diferente. Diferenças podem estimular o jornal The Graphic.
conflitos, mas também abrir novos horizontes de pensamento. Diante disso, O canal foi construído
entre 1859 e 1869, como
algumas questões se impõem: Como conviver e lidar com o diferente, respei- meio de aumentar o
tando-o? Que regras devem ser adotadas? Que comportamentos são justos? acesso europeu ao
mercado global.

Look and Learn/Illustrated Papers Collection/Bridgeman Images/Fotoarena

54
ANALISAR E REFLETIR

A Geografia manteve laços importantes com a Filosofia iluminista do século


XVIII, em particular com a ética e a moral. O filósofo Immanuel Kant (1724-1804)
atuou como professor de Geografia e fez contribuições significativas nessa área.
Para ele, a moral era um fenômeno de interesse da Geografia, pois se refere a
costumes e características de povos de distintas regiões do mundo. A moral, de
acordo com seu entendimento, diz respeito à relação dos seres humanos com
seu meio. Em outras palavras, ela resulta da interação dos homens com a por-
ção de que se apropriam do espaço geográfico, sendo, portanto, variável. Kant
ainda chamou a moral de conjunto de valores, um sistema de códigos de caráter
geral. Por sua vez, reservou o termo “ética” para referir-se à aplicação concreta
da moral. A ética é a reflexão consciente sobre a moral.

1 Pesquisem os termos “ética” e “moral”. Elaborem um verbete enciclopédico


colaborativo com as diferentes visões filosóficas sobre os conceitos, sua evo-
lução ao longo do tempo e campos de aplicabilidade.
2 Você já se viu diante de um dilema ético? Já percebeu transformações no
sistema moral em que se insere? Quais são os desdobramentos das trans-
formações de âmbito moral nos seus valores?

DA ET NO LO G IA À A N T R O POL OGIA
Embora as pesquisas etnológicas já existissem, o termo “Etnologia” foi utiliza-
do pela primeira vez no século XIX, e esses estudos se aprimoraram graças aos
registros etnográficos das navegações do século XVI. A novidade foram as pes-
quisas de campo, que percorreram regiões da África, da Ásia e da América para
conviver com grupos nativos, aprender suas línguas e reconstruir suas culturas
como conhecimento. É possível afirmar que a Etnologia do século XIX deu os
primeiros passos no que mais tarde seria chamado de Antropologia social, pelo
menos no método de imersão do pesquisador no universo pesquisado, conheci-
do como observação participante. Sem deixar de ser sujeito do conhecimento, o
pesquisador se coloca no patamar de seu objeto de investigação, sai de si para
entrar no universo do outro. Um desafio que só depois de muitas décadas os an-
tropólogos conseguiriam alcançar.
Entre o século XIX e as primeiras décadas do XX, no entanto, a Etnologia foi
prisioneira do evolucionismo, uma visão de mundo que hierarquizava os povos
segundo tecnologia, cultura material e capacidade de domesticar e intervir na
natureza. A Etnologia evolucionista era parceira do darwinismo social.
Darwin acreditava que a humanidade se formou em várias etapas, articulando
a morfologia de indivíduos com sua capacidade intelectual e tecnológica. Rompeu
com a ideia de que a criatura humana era obra divina e construiu um modelo no
qual homens primitivos – os primatas – foram evoluindo até se tornarem homens
pensantes – eretos, bípedes, inteligentes, dotados de linguagem, conscientes do
que precisavam fazer para a sobrevivência do grupo.
Transportado para o universo etnológico e social, o evolucionismo estimulou
a Antropologia física, ciência direcionada ao estudo da morfologia humana em
seus vários estágios com base em pesquisas arqueológicas. Entre os indícios,
buscava-se medir o tamanho do crânio, a dimensão dos membros, a transição
entre o primata quadrúpede e o bípede, etc.

55
O evolucionismo também estimulou a associação entre povos nômades e/ou
ágrafos (sem domínio da escrita) e o estágio primitivo da humanidade. E assim
construiu uma hierarquia que alçava o homem europeu das sociedades indus-
triais ao modelo de homem perfeito, relegando povos caçadores e coletores, que
desconheciam códigos escritos, à categoria de selvagens e primitivos.
Dominar ou não a escrita foi critério essencial nessa hierarquização, tendo O elo perdido

F I CA A D I CA
peso decisivo para a delimitação do campo de estudo da História. Dessa perspec-
tiva surgiu a diferença entre Pré-História e História, cuja fronteira era o domínio Direção de Régis
da escrita. Povos sem escrita eram vistos como povos sem história. Wargnier. França,
África do Sul,
Assim, durante muito tempo, a interpretação racial das culturas foi outro Inglaterra, 2005.
complicador, a começar pela conexão entre certas correntes da Filosofia e da Duração: 122 min.
Etnologia. A obra do filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939) dá bom
exemplo dessa conexão, sobretudo seu livro A mentalidade primitiva, de 1922, Filme sobre as
dedicado a reflexões sobre as sociedades ágrafas. O filósofo foi um dos autores discussões científicas
e filosóficas travadas
que chamou tais sociedades de primitivas, destacando o misticismo como o
no século XIX a
grande paradigma dos grupos então chamados de selvagens. Ele caracterizou respeito da origem do
a mentalidade primitiva como pré-lógica, definindo-a como pensamento que gênero humano.
não correspondia à lógica moderna, isto é, ao racionalismo ocidental.
André Dib/Pulsar Imagens

thipjang/Shutterstock
1 2

1. Pinturas rupestres no sítio arqueológico da Lapa do Caboclo, no Parque Nacional das Cavernas 3
do Peruaçu, no município de Januária, em Minas Gerais, em foto de 2019. 2. Pintura rupestre de
aproximadamente 18 mil anos atrás, do final do Período Paleolítico, na caverna de Lascaux, na França,
em fotografia de 2017. 3. Vênus de Willendorf, escultura paleolítica datada de 20 mil anos atrás
encontrada nas proximidades da cidade austríaca de Willendorf. Durante muitos anos, as formas de
expressão das sociedades ágrafas foram consideradas inferiores às dos povos que desenvolveram
a escrita. Pesquisas da década de 1960 mostraram que a escrita não significa maior sofisticação ck
ersto

intelectual, ao contrário do defendiam os pesquisadores evolucionistas.


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Essa tendência esteve, desde o início, ligada às descobertas da Antropologia


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física. Ela estimulou estudos que colocavam o conceito de raça (biológica) aci-
Dan

ma do conceito de cultura (costumes e crenças), do que resultou o racialismo,


filosofia que pensava as sociedades humanas com base no conceito hierarqui-
zado de raça (inferiores e superiores). O racialismo, portanto, passou a marcar
a Etnologia, que adotava uma perspectiva ideologicamente racista. Um racismo
não apenas baseado na desqualificação do tipo físico, da cor ou das crenças
de determinada sociedade, mas da estrutura mental arcaica de determinados
povos ou grupos sociais.
Com esse pano de fundo, a maior contribuição da Antropologia no pós-1945 foi a
superação do racialismo na interpretação das culturas. Ela partiu do pressuposto
de que a humanidade é universal, mas há diferenças que derivam, sobretudo, da
cultura. Diferenças sem hierarquia, sem contrapor racionalismo e misticismo, nem
tecnologias mais ou menos eficazes na relação entre grupos humanos e natureza.
A lógica da diferença venceu a lógica do preconceito e da hierarquia sociorracial.

56
O precursor dessa virada foi o antropólogo Franz conforme o clima de cada região. Considerando as di-
Boas (1858-1942), que, no início do século XX, contes- ferenças entre os povos, Boas situou a cultura acima
tou o determinismo racial e geográfico segundo o qual das raças, valorizando costumes, crenças e significa-
as sociedades eram mais ou menos desenvolvidas dos que cada língua oferecia para coisas e pessoas.

ANALISAR E REFLETIR

Gilberto Freyre (1900-1987), antropólogo e historiador formado por Boas, escreveu um livro-chave em
1933: Casa-grande e senzala. Desafiou todos os intelectuais que condenavam o povo brasileiro por ser mes-
tiço e defendeu a mestiçagem racial e cultural como virtude de nossa formação histórica e social.
Desde os anos 1960, Freyre é criticado por esconder o preconceito racial na História do Brasil, ao realçar
a propensão do colonizador português em se unir a outras raças e culturas.

■ Considerando o texto, organizem um debate de opinião regrado, mediado pelo professor, com espaço para
réplica e tréplica, e discutam se o que predomina no Brasil é o preconceito racial ou a miscigenação tolerante.

Mas o expoente da Antropologia na segunda me- aos brancos. Comparando diversos grupos, incluin-
tade do século XX foi o francês Claude Lévi-Strauss do os Nambikwara no Brasil, afirmou que o modo
(1908-2009), fundador do estruturalismo na área de de pensar nativo não era pré-lógico, como havia
estudos etnológicos. Ele superou com vigor a ca- escrito Lévy-Bruhl, e sim baseado em um sistema
racterização dos índios como primitivos e inferiores mítico-religioso.
The Print Collector/Getty Images

Indígenas do povo
Nambikwara em
fotografia publicada
no Reino Unido em
1914. A antropologia
do século XIX e
começo do século XX
reforçava o exotismo
das populações
ameríndias e de
outros povos
não europeus.

Lévi-Strauss partiu do pressuposto, inspirado na de tempo é cíclica, isto é, um tempo que se repete
linguística, de que existem estruturas elementares indefinidamente, sem mudanças, ainda que as so-
comuns a todos os povos em nível mental, cujas ciedades em questão sejam modificadas por impac-
interações explicam seus modos de viver, pensar e tos exteriores. Os mitos atualizam-se, sendo, pela
sentir, que variam conforme as culturas e os lugares própria morfologia, imutáveis, assim como as regras
onde vivem. Tal proposta implicava adotar uma pers- de parentesco adotadas pela comunidade. Já nas so-
pectiva de análise horizontal das culturas, em vez da ciedades ocidentais, o tempo é linear, avança inde-
análise vertical e hierarquizante adotada pela Etno- finidamente, incorporando mudanças. Está contida
logia por mais de um século. nessa diferença a convicção de que as sociedades
Além disso, Lévi-Strauss propôs que, nas socie- ocidentais são divididas em classes, enquanto as co-
dades ancoradas no pensamento mágico, a noção munidades de parentesco tendem a ser igualitárias.

57
QUE STÕES EM FOCO

Pensamento selvagem e pensamento científico


O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (1951-), professor do curso de Antropologia do Museu Nacional
(Rio de Janeiro-RJ), resumiu em poucas palavras a contribuição da obra de Lévi-Strauss:

O pensamento selvagem não é o pensamento dos selvagens ou dos primitivos (em oposição ao
pensamento ocidental), mas o pensamento em estado selvagem, isto é, o pensamento humano em
seu livre exercício, um exercício ainda não domesticado em vista da obtenção de um rendimento.
O pensamento selvagem não se opõe ao pensamento científico como duas formas ou duas lógicas
mutuamente exclusivas. Sua relação é, antes, uma relação entre gênero (o pensamento selvagem) e
espécie (o pensamento científico). Ambas as formas de pensamento se utilizam dos mesmos recur-
sos cognitivos; o que as distingue é, diz Lévi-Strauss, o nível do real ao qual eles se aplicam: o nível
das propriedades sensíveis (caso do pensamento selvagem), e o nível das propriedades abstratas
(caso do pensamento científico).
CASTRO, E. V. O pensamento em estado selvagem do pensamento científico. Com Ciência – Revista Eletrônica
de Jornalismo Científico, Campinas, n. 46, 2011. Disponível em: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.
php?section=8&tipo=entrevista&edicao=46. Acesso em: 25 maio 2020.

■ Com base no texto, discutam em grupos:

a) Os mitos de origem dos povos de língua tupi, que atribuem a criação da humanidade a um casal
primordial, Tamandaré e Aricute, sobreviventes de um dilúvio universal e ancestrais desse grupo,
dão prova de que esses nativos tinham uma mentalidade pré-lógica baseada em figuras sobrena-
turais?
b) Indique semelhanças e diferenças entre a mitologia tupi e a narrativa da criação do mundo e da huma-
nidade do Antigo Testamento.
c) As técnicas de caça com flechas e lanças de madeira adotadas por muitos grupos nativos, sem uso de
metais, confirmaria a ideia de que o pensamento selvagem é, como afirma Lévi-Strauss, “um exercício
ainda não domesticado em vista da obtenção de um rendimento”?
d) Como explicar a diferença entre o sensível e o abstrato no contraste que o autor faz entre pensamento
selvagem e pensamento científico? Escreva um pequeno texto discursivo-argumentativo.

Variante teórica muito diferente da Antropologia estrutural é a Antropologia hermenêutica


hermenêutica, que pode ser vista na obra de Clifford Geertz (1926-2006), difun-
ciência ou metodologia
dida a partir dos anos 1970, sobretudo em A interpretação das culturas, de 1973.
dedicada à decifração
Seus pressupostos repousam, de maneira muito esquemática, no relativismo de textos e códigos em
cultural mais amplo possível, que, mais do que recusar o etnocentrismo, des- diferentes campos do
confia de todo tipo de comparação que possa significar alguma hierarquia entre conhecimento.
culturas.
OBSERVE QUE...
Trata-se de uma operação de decifração de códigos apoiada no registro analí-
tico do antropólogo sobre a narrativa do universo cultural pesquisado. O concei- A briga de galos em Bali
(uma ilha da Indonésia)
to-chave é a descrição densa de mitos ou ritos, de acordo com os significados
mostra como os homens
que o próprio grupo atribui aos usos das crenças coletivas. Exemplo disso é a são categorizados
descrição da briga de galo de uma aldeia de Bali com base no que os aldeãos fora dessa atividade
entendiam sobre esse rito. conforme as
características positivas
Nesse modelo, o antropólogo deve renunciar aos conceitos da cultura oci- ou negativas a eles
dental em favor dos significados atribuídos pelo grupo pesquisado a deter- atribuídas nas rinhas
minado ritual, considerando que integram estruturas simbólicas fechadas e dos galos que lhes
autoexplicativas. pertencem.

58
Apesar da crescente aproximação entre História e Antropologia nas últimas
décadas, vários historiadores criticaram a aplicação do modelo hermenêutico
de Geertz à pesquisa historiográfica. Entre eles, Giovanni Levi (1939-), em texto LEVI, G. Sobre a micro-
dos anos 1990, no qual argumenta que a legitimidade de um relativismo cultural -história. Apud: BURKE, P.
absoluto, se levado ao extremo, pode conduzir à legitimação de costumes inde- A escrita da Hist—ria. São
Paulo: Unesp, 1992.
fensáveis do ponto de vista humanístico, apesar de válidos nas culturas descritas.

S OC I OL O GI A : A RA I N H A DAS CIÊ NCIAS


HU M A NAS
A Sociologia foi a disciplina humanística mais recente em relação às demais
que temos analisado. Data do século XVIII e se consolidou no século XIX, herdeira
da Revolução Industrial e da estruturação de uma sociedade urbana no Ocidente.
A Revolução Francesa (1789) também teve seu peso, ao colocar em cena as clas-
ses populares, reivindicando participação política e extinção do Antigo Regime.

Granger/Fotoarena

Camponeses que perderam


suas terras foram para as
cidades trabalhar em fábricas,
transformando-se em
operários miseráveis. Gravura
representando siderúrgica
em Sheffield (Inglaterra),
publicada em 1879.

Muitos pensadores da época se dedicaram a estudar essas mudanças e a com-


preender as alterações na economia, na sociedade e na política. Alguns foram con-
siderados fundadores da Sociologia ao colocarem em pauta as contradições so-
ciais da nova ordem urbana e capitalista. Um deles foi Saint-Simon (1760-1825),
crítico das desigualdades sociais e da imensa pobreza dos operários. Reconhecen-
do a importância da industrialização, porém, propôs que empresários e cientistas
conduzissem a economia, acreditando que, no futuro, todos se beneficiariam com
a expansão das fábricas. Auguste Comte (1798-1857) criou o termo “Sociologia”,
inaugurando um tipo de conhecimento específico, diferente da História ou da Filo-
sofia. O pressuposto era que os fenômenos sociais têm suas leis, assim como as
Ciências Naturais, e podem ser observados e explicados.
A Sociologia passou a ser considerada a principal das Ciências Humanas por
seu caráter inovador e adequado às mudanças da época. Os autores clássicos da
Sociologia foram Karl Marx, Max Weber (1864-1920) e Émile Durkheim (1858-1917),
intelectuais até hoje considerados referência nesse campo de conhecimento.

59
O pensamento sociológico de Marx se baseava em pressupostos históricos,
filosóficos e econômicos. Históricos porque considerava o capitalismo a última
fase da humanidade, na qual prevaleceria a exploração do homem pelo homem,
um tipo de relação que surgiu com a desagregação da comunidade primitiva e
a instituição da propriedade privada. No campo filosófico, Marx rejeitou os mo-
delos idealistas, que tratavam o conhecimento de forma abstrata e descarnada,
como se as ideias tivessem existência autônoma, sem vinculação com a reali-
dade social e concreta. Nessa linha de pensamento fundou o materialismo his-
tórico, sustentando que toda mudança social resultava, em última instância, de
dinâmicas socioeconômicas. Considerava seu modelo filosófico uma expressão
da realidade social, pois era determinado por fatores econômicos e, politica-
mente, tinha o intuito de combater o capitalismo até sua total destruição.
Max Weber opôs-se ao materialismo histórico de Marx, pois recusava a concep-
ção materialista da História, admitindo que a Economia era essencial para com-
preender a sociedade, mas não necessariamente o fator determinante das mu-
danças sociais: ideias, éticas e até crenças religiosas podiam ser decisivas. Weber
formulou uma teoria sociológica multicausal para explicar as mudanças sociais, o
que considerava extensivo à História. Exemplo de seu modelo é A ética protestante
e o espírito do capitalismo, publicado em 1905, no qual sustenta que o calvinismo,
ou puritanismo – um dos ramos das reformas protestantes –, foi decisivo para o
surgimento do que chamou de capitalismo moderno ou industrial. Weber viu no
calvinismo os ingredientes essenciais para a gênese de uma ética laica, apesar de
formulada em uma doutrina religiosa, na medida em que tal doutrina eliminou a
obsessão dos cristãos pela salvação espiritual da alma.
Émile Durkheim destaca-se, antes de tudo, por ter fundado a Sociologia
como Ciência Social, tornando-a disciplina na Universidade de Bordeaux (Fran-
ça) em 1890. Como sociólogo, interessava-se pelo que chamou de fato social,
entendido como objeto de estudo sem subjetivismo ou juízo de valor. A vida em
sociedade, para ele, pode ser estudada com a mesma objetividade aplicada às
Ciências Naturais, e nisso se aproximou do positivismo. Porém, foi além da
Filosofia, ao considerar que os fatos sociais podiam ser localizados em todas
as dimensões da sociedade, da economia à religião, da ética à moral. Para
Durkheim, os fatos sociais constituem maneiras de agir, de compreender e de
se comportar em sociedade. Eles atuam de maneira coercitiva sobre os indiví-
duos, limitando suas escolhas individuais, constrangendo-os a acompanhar os
padrões comportamentais dominantes da sociedade em que vivem. As formas
de agir e pensar são exteriores e se impõem aos indivíduos, mas eles não per-
cebem e julgam-se livres e espontâneos em suas ações cotidianas. Ao sociólo-
go caberia exatamente desvendar esses padrões, o que, se for feito, justifica o
caráter científico da Sociologia.

CIÊ NC IA S H U MA N A S D E SAFI AN DO
LI MI TE S
Na segunda metade do século XX, houve uma inflexão nas Ciências Humanas.
Limites foram desafiados, paradigmas foram rompidos e abriram-se perspecti-
vas que se renovam continuamente até hoje.
Se o estatuto científico das Humanidades emergiu no século XIX, ele se con-
solidou a partir de meados do XX. Antes de tudo porque buscou aperfeiçoar me-
todologias de pesquisa e conceitos teóricos, mas também porque se desligou de
paradigmas intelectuais e políticos elitistas, buscando adequar-se às dinâmicas
sociais e às diversidades culturais, e romper com a perspectiva eurocêntrica.
Esse ímpeto de mudança tem explicações históricas. O fim da Segunda Guerra
Mundial pôs em xeque os nacionalismos exacerbados. Estimulou, também, um

60
questionamento frontal dos paradigmas raciais, de- -se movimentos de grupos oprimidos, a exemplo do
nunciados pelo genocídio dos judeus cometido pelos feminismo e da luta dos afrodescendentes por direi-
nazistas. A década de 1960 viu ainda o apogeu dos tos políticos e civis nos Estados Unidos. Ou seja, as
movimentos de independência na África e na Ásia, Ciências Humanas desafiaram vários preconceitos,
questionando o fim dos velhos impérios coloniais eu- sintonizadas com as grandes mudanças históricas,
ropeus. No campo da cultura política, consolidaram- científicas e culturais do século XX.

QUE ST ÕES EM FOCO

Fim da História?
A crise do socialismo soviético nos anos 1990, com a queda do Muro de Berlim, a fragmentação da União
Soviética e a desagregação dos regimes comunistas na Europa oriental e em vários países asiáticos, estimulou
a ideia de que a História tinha acabado. Um dos principais defensores dessa tese foi o filósofo estadunidense
Francis Fukuyama (1952-).
Fukuyama afirmou que, com o fim do conflito entre capitalismo e comunismo, provocado pelo colapso
da União Soviética, a História, como conhecimento e tendo conflitos sociais como objeto, perdeu a razão
de ser. Em outras palavras, abolida a luta de classes, o capitalismo tinha vencido a guerra entre sistemas
rivais, de maneira que a História deveria ser sepultada.

Imago/ZUMA Press/Easypix Brasil

População da cidade de Riga, capital da Letônia, observa a retirada da estátua de Lênin após a independência do país em relação
à União Soviética, em 1991.

1 Considerando o texto e as informações do mundo atual, discutam se:


a) o conflito entre capitalismo e comunismo acabou no mundo;
b) a História deve se limitar a esse conflito ou há outros, além da luta de classes, que podem ser objeto
de pesquisa histórica.
2 Com base nas respostas obtidas no item 1b, em grupos, roteirizem e gravem uma série de podcasts com
exemplos de conflitos atuais que vocês vivenciam em sua realidade, debatendo-os sob uma perspectiva
histórica e propondo políticas públicas que possam solucioná-los. Seria interessante que cada grupo tra-
balhasse um conflito diferente.

61
I M PA C T O D A G L O B A L I Z A Ç Ã O
NAS HUMANIDADES
É impossível desconsiderar o impacto da globalização nas Ciências Huma-
nas, pois quase todas assumiram posições críticas ao fenômeno. A Filosofia,
por exemplo, condena a superficialidade dos conhecimentos divulgados em
redes sociais, sobretudo entre as gerações mais jovens, em detrimento da
leitura paciente e vagarosa, inerente a tratados filosóficos.
A Antropologia critica a diluição das especificidades culturais de povos e
nações pela generalização de culturas multinacionais homogeneizadas, em
especial a deterioração das culturas dos grupos ágrafos que Lévi-Strauss, en-
tre outros, caracterizou como dotadas de pensamento mágico.
A Sociologia também se voltou contra um modelo planetário que acentua
muito mais a integração do que hierarquias e conflitos sociais. A História se-
gue na mesma linha das demais disciplinas, com a especificidade de ser di-
recionada ao estudo do passado, o que a globalização tende a menosprezar.
Em todo caso, as Ciências Humanas foram obrigadas a incorporar a globalização
como objeto de conhecimento. Os historiadores, por exemplo, propuseram um novo
período para além da periodização convencional e eurocêntrica – antiga, medieval,
moderna e contemporânea. Trata-se da História do tempo presente, dedicada ao
estudo da atualidade, desde que consideradas as raízes dos processos históricos.
Uma crítica das Ciências Humanas à globalização provém da Sociologia e da
História, empenhadas em denunciar que esse conceito não passa de outro nome
para designar o imperialismo em escala ampliada: a dominação das metrópoles
do capitalismo, que avançou sobre países ou continentes periféricos, também
avançou sobre culturas, linguagens e identidades nacionais.
Praia coberta de lixo em Bali, capital da Indonésia, em foto de 2017.
A pesquisa científica das Ciências Humanas auxilia a população a
Maxim Blinkov/
Shutterstock

refletir sobre práticas que prejudicam a sociedade. Nesse caso, o


consumismo e uma de suas consequências, a poluição ambiental.

62
C R I S E DA S CI Ê N C I A S H UM AN AS?
Em todo caso, diversos pesquisadores contestaram o conceito e a experi- LGBTQI+
ência concreta da globalização, por vezes sem saber a caracterização de tal sigla correspondente
fenômeno. Isso porque certas críticas começaram ainda nos anos 1970, tem- às diversas identidades
po em que a globalização apenas se esboçava. A ideia-chave dos questiona- de gênero, que
mentos se resume ao enunciado: “crise de paradigmas”. Isso quer dizer que agrega lésbicas, gays,
as Ciências Humanas estavam desorientadas com as mudanças históricas bissexuais, transexuais,
ocorridas a partir de 1968 e sobretudo na década seguinte. Quais mudanças? travestis, transgêneros,
Desgaste do socialismo soviético e do capitalismo estadunidense; ascensão queers (sexualidades
de movimentos sociais preocupados com os direitos da mulher, das minorias não conforme) e
intersexuais.
raciais, dos LGBTQI+; valorização de religiões não cristãs, como islamismo,
judaísmo e religiões politeístas em vários continentes.
O historiador britânico Perry Anderson (1938-) publicou, em 1989, um livro sobre
o marxismo ocidental, sustentando que o modelo soviético perdeu prestígio na Eu-
ropa depois da invasão da Hungria, em 1956, e da Tchecoslováquia, em 1968, pela
União Soviética. Ficou evidente para a maioria dos partidos comunistas da Europa
ocidental que a União Soviética era um regime opressivo. Tais partidos aderiram à
democracia representativa, abandonando o projeto de revolução proletária em fa-
vor da defesa das classes trabalhadoras por meio da representação democrática.
Houve o declínio da ética comunista, portanto, acrescido da crise da ética cristã,
segundo vários intelectuais, especialmente em virtude do declínio da valorização da
família monogâmica, da sujeição das mulheres, do poder dos homens e da primazia
da orientação heterossexual. Assim, vários estudiosos das Ciências Humanas pas-
saram a falar em crise de paradigmas, mas, na realidade, lastimavam o colapso do
marxismo e do cristianismo como pilares da cultura ocidental. Um dilema político,
ideológico e moral, mais do que um impasse no campo do conhecimento humanístico.
No campo da História, o francês François Dosse (1950-) publicou o livro
História em migalhas, afirmando que a História social totalizante estava defi-
nhando em favor de histórias minúsculas, como a micro-história, devotadas a
estudos de particularidades que ocultavam o fundamental: a luta de classes.
Entre os historiadores brasileiros, Ciro Cardoso (1942-2013) seguiu a mesma
linha em texto de 1989, ao desmerecer a História antropológica por debruçar-
-se sobre temas como sexualidade, feitiçaria, vida cotidiana, relações de gê-
nero, etc., alegando que tais estudos não contribuíam para combater as desi-
gualdades do mundo. De orientação marxista, ambos os historiadores pensam
as Ciências Humanas como um suporte intelectual para a luta de classes. Não
concebem outras lutas legítimas e pensam na sexualidade, na religiosidade ou
nos conflitos de gênero como temas menores.
Ciro Cardoso, em texto de 1997, atenuou o argumento e, em vez de desqualifi-
car os novos rumos da História e da Antropologia, preferiu falar em paradigmas
rivais nas Ciências Humanas. O primeiro ele chamou de racionalista, admitindo
que este vivia uma crise, pois se debruçava sobre o que chamou de realidades
concretas, socioeconômicas. O segundo chamou de irracionalista, porque é va-
lorizador de crenças, diversidades culturais e do universo simbólico, tão impor-
tantes como a dinâmica da vida material. O racionalismo, para esse autor, é um
núcleo conceitual do marxismo. O irracionalismo, por sua vez, seria a base de um
pensamento burguês ou mesmo reacionário.
A polêmica entre paradigmas ainda prevalece e pode ser considerada impor-
tante, desde que não seja politizada e radicalizada ideologicamente. A caracte-
rização da História antropológica como irracionalista é algo inconsistente, antes
de tudo porque se ancora em modelos teóricos derivados da Filosofia raciona-
lista ocidental. Além disso, esse mesmo racionalismo filosófico, muito antes de
ter sido a base do pensamento marxista, inspirou o Iluminismo e o pensamento
liberal, fundamentos ideológicos do capitalismo.

63
R O T E I R O D E E S T U D O S
1 Entre o século XIX e meados do século XX, dezenas que isso ocorre? E por que deveríamos estu-
de países na América Latina, Ásia e África deixa- dá-la?
ram de ser colônias e passaram a ser indepen-
b) Em sua opinião, o Brasil já foi completamen-
dentes. Depois de séculos de subjugação às me-
te descolonizado? É possível construir um
trópoles ocidentais, esses povos dedicaram-se a
conhecimento totalmente desvinculado de
construir suas próprias identidades e a valorizar
referências externas? Discuta essas ques-
suas línguas e costumes. Tal processo é chama-
tões com um colega e depois elabore sua
do de descolonização.
resposta, justificando-a.
Apesar de oficialmente livres no plano político,
esses países ainda recebem grande influência c) Cite ao menos duas produções artísticas ou
dos países europeus e norte-americanos no cam- intelectuais brasileiras que se baseiam em
po da produção do conhecimento a respeito de si expressões criadas no exterior, mas que fo-
mesmos e do mundo. Veja a seguir um trecho de ram transformadas por referências nacionais.
entrevista com o antropólogo Claudio Pinheiro: Justifique sua resposta.

[…] Dois anos atrás, veio ao Brasil uma das d) Cite alguns indícios de que as referências de
grandes intelectuais que debatem a ideia de outros países ou culturas influenciam o pen-
Sul: a antropóloga australiana Raewyn Con- samento cotidiano dos brasileiros. De que
nell. Sabe o que ela disse? “No evento aca- maneira isso pode ser prejudicial? Reúna
dêmico do qual participei aqui, as bancas de suas lembranças com as dos colegas e mon-
livros vendiam o mesmo que eu encontraria tem um painel.
em um evento acadêmico na Austrália: Pierre
Bourdieu, Jürgen Habermas, enfim, os autores
clássicos europeus. Mas eu gostaria de ler, na
verdade, autores clássicos brasileiros! E tam- Brasil: interpretação de um fato
bém os africanos, os indianos…
2 As universidades, escolas e instituições de pes-
[…] quisa não são as únicas fontes de conhecimento
Pense em um estudante de ensino médio. O
da sociedade. As comunidades indígenas bra-
que ele estuda em história? História europeia. sileiras, por exemplo, produzem saberes úteis
Estudos sobre África entraram para o nos- para si mesmas e para toda a sociedade bra-
so currículo apenas recentemente, em 2003, sileira. Leia o texto de divulgação a seguir, da
por uma medida governamental. Certo: o es- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
tudante sabe então sobre Europa e África. O (Embrapa), um órgão estatal de pesquisa agro-
que falta? Falta tudo. […] Como estudar histó- pecuária.
ria mundial sem estudar a história da África?
Como entender o impacto que teve a diáspora […] Pesquisas com povos indígenas têm
de africanos nas Américas e na própria Áfri- contribuído para reconfigurar fazeres tradi-
ca? Como isso interferiu, por gerações e sécu- cionais e originar novos conhecimentos para
los, na capacidade africana de recuperar sua melhoria e diversificação dos cultivos agrí-
economia? Nossa própria forma de datação do colas e aproveitamento de recursos naturais.
tempo é marcada pela experiência europeia. No Acre, conhecimentos sobre os solos das
[…] E é nesse trem que nos localizamos: o Bra- terras indígenas (TI) Kaxinawá, por exemplo,
sil passa a existir no mundo a partir da história foram sistematizados em uma publicação na
moderna – durante a expansão europeia. língua Kaxinawá e na linguagem científica,
em português. Em Kulina (Madija) e Kaxi-
PINHEIRO, Claudio. Descolonização do pensamento.
Ci•ncia Hoje. 20 mar. 2014. Disponível em: https:// nawá, essa produção de conhecimento con-
cienciahoje.org.br/artigo/descolonizacao-do- tribuiu para fortalecer a medicina e a agricul-
pensamento/. Acesso em: 8 jul. 2020. tura nas aldeias.
As alternativas incluem sistemas agroflores-
Agora, responda às questões.
tais (SAFs) com frutíferas, adoção de varie-
a) Segundo Claudio Pinheiro, pouco sabemos dades resistentes e de medidas simples para
sobre a história do continente africano. Por controle de pragas e doenças, introdução de

64
novas variedades de mandioca e implantação Por que isso é um problema para toda a so-
de casas de farinha […]. ciedade?
BRANDÃO, Izabel Drulla et al. Troca de saberes d) Um etnólogo seria capaz de registrar os co-
entre indígenas e pesquisadores enriquece nhecimentos indígenas e preservá-los? O que
conhecimento. Embrapa. Disponível em: www.
seria problemático nesse processo?
embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/14819143/
troca-de-saberes-entre-indigenas-e-pesquisadores- e) Com um grupo de três colegas, pesquise na
enriquece-conhecimento. Acesso em: 8 jul. 2020. internet sites, textos e vídeos realizados por
indígenas brasileiros para divulgar seus co-

Priscila Viudes/Embrapa
nhecimentos sobre a pesca, o cultivo, a caça
ou o extrativismo vegetal. Então, compartilhe
com a turma.

De olho no vestibular
3 (Unesp 2020) A reação diante da alteridade1 faz
parte da própria natureza das sociedades. Em
diferentes épocas, sociedades particulares rea-
giram de formas específicas diante do conta-
to com uma cultura diversa à sua. Um fenô-
meno, porém, caracteriza todas as sociedades
humanas: o estranhamento, que chamamos
etnocentrismo, diante de costumes de outros
povos, e a avaliação de formas de vida distintas
a partir dos elementos da sua própria cultura.
Assim, percebemos como o etnocentrismo se
relaciona com o conceito de estereótipo2. Os
estereótipos são uma maneira de “biologizar”
as características de um grupo, isto é, consi-
derá-las como fruto exclusivo da biologia, da
anatomia. No interior de nossa sociedade, en-
Indígena do povo Kaxinawá colhendo banana em contramos uma série de atitudes etnocêntricas
sistema de agrofloresta na Terra Indígena Kaxinawá, e biologicistas.
no município de Feijó, no Acre, em foto de 2014. Os
sistemas agroflorestais se baseiam no conhecimento (https://gdeufabc.wordpress.com)
tradicional para melhorar o uso do solo e promover a
diversidade biológica, misturando o plantio de cultivos ¹ característica, estado ou qualidade de ser distinto e diferente,
que se beneficiam mutuamente. de ser outro.
² ideia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém
Com base no que viu neste capítulo, responda a ou algo.
estas questões.

a) Como os saberes das comunidades indígenas Um exemplo de etnocentrismo incorporado a


e os dos pesquisadores da Embrapa se bene- uma política estatal foi
ficiaram um ao outro? a) o movimento sionista, na Palestina.
b) Em sua opinião, por que os conhecimentos b) o apartheid, na África do Sul. X
produzidos pelas populações indígenas do
c) a questão curda, na Turquia.
Brasil são tão pouco difundidos?
d) a primavera árabe, na Síria.
c) Quais são os riscos hoje existentes para a
continuidade dos conhecimentos indígenas? e) a balcanização, na Chechênia.

65
C A
P Í
T U
L O

Jogar capoeira, de Johann


Moritz Rugendas, século XIX
(litografia colorida à mão, A BN CC NE STE CA P ÍT U L O :
51,3 cm 3 35,5 cm).
Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 7, 8, 9 e 10.

Competência específica de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1.

Competência específica de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 2.

Habilidades: EM13CHS101, EM13CHS102, EM13CHS103, EM13CHS104, EM13CHS105,


EM13CNT201 e EM13CNT208.

Temas Contemporâneos Transversais: Multiculturalismo – Diversidade Cultural e Educação para


valorização do Multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras; Cidadania e
Civismo – Educação em Direitos Humanos.

66
No momento em que o negro tornou-se
cidadão, então o interesse foi o de saber se
ele podia ou não ser integrado na nação: seria
assimilável, capaz de tornar-se anglo-saxão
ou latino totalmente, ou, pelo contrário, teria
uma cultura estrangeira, costumes diferentes,
modos de pensar que impediam ou pelo menos
ofereciam sérios obstáculos à sua integração à
sociedade ocidental?

BASTIDE, Roger. As AmŽricas negras.


São Paulo: Difel, 1974.
p. 15.

A HUMANIDADE
ENTRE CONCEITOS E
PRECONCEITOS
Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ

O texto do sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974) toca em um dos pontos mais
sensíveis das sociedades americanas nos séculos XIX e XX. Em todos os países da Afro-
-América, que engloba nações com forte passado de escravização de africanos, as elites go-
vernantes rejeitavam as culturas negras, consideradas bárbaras e selvagens, com suas festas
julgadas imorais e seus cultos secretos vistos como diabólicos. Tais preconceitos datavam do
período colonial, mas foram agravados no século XIX por teorias racistas pretensamente cien-
tíficas, que consideravam os africanos e seus descendentes pertencentes a raças inferiores.
Tais ideias foram veiculadas no Brasil, nos Estados Unidos e na própria Europa, que não tinha
tradição de conviver com negros. No caso dos indígenas, as ideias oscilaram entre a rejeição
total e a idealização romântica. No México, o ditador Porfírio Díaz (1830-1915), que governou o
país desde os anos 1870 até 1911, retirava os indígenas das ruas da capital durante visitas de
delegações europeias, para dar a impressão de que o país era hispânico. No Brasil, os nativos
de origem tupi chegaram a ser elogiados no início do século XIX na literatura, na música e na
pintura, mas a maioria deles havia desaparecido da faixa litorânea. Os chamados botocudos,
que estavam bem vivos, eram repudiados, por vezes massacrados.

SUA EXPERIÊNCIA PESSOAL

• Você já presenciou ou soube de alguma situação em que manifestações culturais afro-


-brasileiras, a exemplo de festas e cultos, foram desqualificadas ou mesmo perseguidas?
Com quais argumentos?

67
RECONHECIMENTO
DA HUMANIDADE
No Capítulo 1 vimos que a formação da humanidade, do ponto de vista morfoló- OBSERVE QUE...
gico, concluiu-se há cerca de 10 mil anos. Tal conhecimento resultou de pesquisas No século XIX, o debate
arqueológicas, antropológicas e geológicas desenvolvidas entre os séculos XIX e XX, ocidental sobre a
inspiradas na teoria evolucionista. Ao questionar a validade das explicações religiosas origem humana dividia-
sobre a criação da humanidade, tais pesquisas ofereceram grande avanço às Ciências. -se entre defensores
Na mesma época, porém, surgiram teorias e filosofias empenhadas em mostrar do poligenismo, para
que a humanidade não era uma só. Elas consideravam que havia seres humanos quem as "raças" tiveram
origens independentes,
superiores – os brancos ocidentais – e inferiores – os nativos da América, da África
em diferentes partes
e da Ásia. Essa hierarquização racista afirmava ter provas científicas de uma grande do planeta, e do
diferença biológica entre as "raças". monogenismo cristão,
para quem a humanidade
toda descendia de Adão e
PE R S I S TÊNC I A D A S E X CL USÕ ES Eva, diferenciando-se em
raças segundo o pecado
O modelo de civilização ancorado nos

Amanda Rossi/BBC Brasil


original.
brancos ocidentais não apenas persistiu
como se consolidou. As mudanças pro-
fundas que o mundo viveu no século XX ação de liberdade
não alteraram a discriminação dos po- petição de escravizados
vos não europeus. A exclusão das etnias junto à Justiça brasileira
consideradas inferiores resiste até hoje, exigindo a liberdade
apesar de ser muito combatida, inclusi- prometida por senhores
ve com a criminalização de preconceitos em testamento, porém
não observadas por seus
raciais. No Brasil, esse tipo de precon-
herdeiros.
ceito foi alimentado pela longevidade da
escravidão, abolida somente em 1888.
Ao longo do século XIX, muitos escravi- Ações de liberdade
zados obtiveram a alforria por meio de iniciadas por pessoas
escravizadas no século XIX,
ações de liberdade e de uma legislação
parte do acervo do Tribunal
abolicionista gradual. de Justiça de São Paulo.

Liberata: a lei da ambiguidade – As ações de liberdade da Corte de


F I CA A D I CA

Apelação do Rio de Janeiro no século XIX


GRINBERG, Keila. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisa Social, 2010.
O livro traz a história de pessoas escravizadas que moveram ações de liberdade
contra seus senhores – entre elas, Liberata.

SABERES C I Ê N C I A S D A N AT U R E Z A
C O N E C TA D O S E SUAS TECNOLOGIAS

Na mesma época em que a cultura ocidental demonstrou que a humanidade formava um único gênero,
com base no evolucionismo, surgiram teorias que distinguiram seres humanos de seres sub-humanos. Estes
últimos eram assim classificados pela cor da pele e por uma suposta origem genética inferior. Os mais depre-
ciados talvez fossem os mestiços, considerados uma ameaça à pureza da raça superior.

1 Com base no texto e em seus conhecimentos sobre as expansões coloniais europeias no século XIX,
analise os interesses dessas teorias para a validação do colonialismo europeu na África e na Ásia.
2 Por meio da análise de documentos de época indicados pelo professor, elabore um pequeno texto dis-
sertativo-argumentativo sobre o conceito de neutralidade da Ciência.

68
Mas os afrodescendentes não foram beneficiados por nada mais além da li- OBSERVE QUE...
berdade individual, mesmo após 1888. A primeira Constituição republicana, A Ku Klux Klan foi uma
aprovada em 1891, não os excluiu diretamente da participação política, mas só organização racista
admitiu o direito de voto aos alfabetizados. Diante de suas circunstâncias de vida, criada no sul dos
a maioria dos afrodescendentes era analfabeta. Estados Unidos em
1865 para impedir que
Nos Estados Unidos, a situação foi ainda mais dramática. A escravidão foi abo- os afrodescendentes
lida em 1865, após uma guerra civil entre os estados liberais e os estados es- alcançassem direitos
cravistas. Os afrodescendentes, embora livres e autorizados a votar por alguns políticos e civis. Agia
anos, foram sistematicamente discriminados, sobretudo nos estados de passado com extrema violência e,
escravista, no sul do país. Nesses estados, ficaram quase um século sem direitos no século XX, espalhou-
civis, impedidos de exercer certas profissões, excluídos das universidades, proibi- -se por todo o país.
dos de compartilhar transporte público ou restaurantes com os brancos, etc. Essa Perdeu força nos anos
1930, durante a crise
pesada exclusão só começou a ser enfraquecida na década de 1960, com a luta do
econômica da Grande
movimento negro. Depressão, mas voltou
nos anos 1960. No final

Everett Collection/Fotoarena
dos anos 1970, grupos
anti-Klan entram em
ação e a organização
se desfez. Ainda hoje
existem outros grupos
de supremacia branca,
como os neonazistas.

A Declaração
Universal dos
Direitos Humanos foi
trabalhada no Projeto
Membros da deste volume.
Ku Klux Klan
reunidos no
Tennessee ORGANIZAÇÃO DAS
(Estados Unidos), NAÇÕES UNIDAS.
1948. Declaração Universal dos
Direitos Humanos. UNIC/
Rio, jan. 2009. Disponível
DE C LA R A ÇÃ O U N I V E R S AL DO S DIR E IT OS em: https://nacoesunidas.
org/wp-content/
HU M A NO S uploads/2018/10/DUDH.pdf.
Acesso em: 23 jun. 2020.
O marco para a inflexão nesse processo discriminatório ocorreu após a Segun- fen—tipo
da Guerra Mundial. Não por causa dos povos asiáticos, africanos ou mestiços,
mas por causa dos judeus europeus, uma vez que, durante a Segunda Guerra manifestação visível da
formação genética do
Mundial, a Alemanha nazista pôs em prática uma política radical de extermínio
indivíduo, a exemplo da
desse povo, chegando a eliminar cerca de 6 milhões deles. cor da pele, do tipo de
Em 1948, a recém-fundada Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a cabelo, etc.
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Estabeleceu “o respeito universal e OBSERVE QUE...
a observância dos direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, sem
distinção de raça, sexo, língua ou religião”. Este foi o princípio universal mais Em razão dos
acontecimentos da
avançado na história do planeta, porque reconheceu que a humanidade era uma
Segunda Guerra
só, apesar das diferenças culturais, de gênero ou de fen—tipo*. Mundial, foi criada
É verdade que essa declaração não teve efeito imediato. Muitos países continua- em 1945 a Corte
ram apegados a costumes e leis excludentes, que estavam impregnados em suas Internacional de Justiça,
com sede em Haia
tradições culturais; outros fizeram ressurgir políticas racistas no final do século XX.
(Países Baixos), sob
Mas existe uma opinião pública mundial majoritariamente comprometida com a de- jurisdição da ONU, para
fesa dos Direitos Humanos. A ONU exprimiu, em 1948, um problema relativo à cons- julgar crimes de âmbito
ciência das elites ocidentais, que, entre o século XIX e a primeira metade do século internacional, a exemplo
XX, produziram teorias racistas, elaboraram políticas discriminatórias ou toleraram de crimes de guerra ou
políticas de extermínio perpetradas por governos totalitários. contra a humanidade.
* No contexto da Declaração de 1948, sexo equivale a gênero, restrito à
diferença entre masculino e feminino.
69
A TRADIÇÃO DOS PRECONCEITOS OBSERVE QUE...
Caucasiano, também
A consolidação de preconceitos raciais ocorreu no século XX, alimentada
chamado de caucasoide,
pelas apropriações etnológicas e filosóficas do evolucionismo, em especial as é termo cunhado pela
derivadas do darwinismo social. Tais preconceitos alcançaram status científico etnologia tradicional
e influenciaram diretamente políticas excludentes. para designar indivíduos
de “raça branca”,
distintos dos negroides
CO N S TR U ÇÃ O H I S T Ó R I C A (africanos subsaarianos)
DO PR E CON C E I T O e dos mongoloides
(asiáticos e indígenas
O conceito-chave para explicar os preconceitos é o de etnocentrismo, que se americanos). O termo
advém de Cáucaso,
refere a uma visão de mundo que se baseia nos valores, na língua, nas crenças
região entre a Europa
e nos costumes de um grupo étnico. Os outros são considerados inferiores ou oriental e a Ásia
mesmo sub-humanos por não pertencerem ao mesmo grupo. ocidental, em que os
O tipo de etnocentrismo que corroborou a divisão entre “raças” inferiores e su- europeus do século
periores foi o eurocentrismo, que pensa a Europa como centro do mundo, embora, XIX acreditavam que a
humanidade havia se
no século XX, tal centro tenha abrigado também a população branca dos Estados
originado. Os estudos
Unidos, por ter este país alcançado a hegemonia econômica e política no mundo de darwinismo social
ocidental. Mas o próprio eurocentrismo jamais foi absoluto entre os povos euro- se apropriaram dele
peus, havendo também preconceitos internos. Em todo caso, é possível constatar para designar a raça
a configuração do eurocentrismo como modelo de civilização construído em detri- branca, em uma
mento das civilizações e culturas de outros continentes. De acordo com esse mo- visão eurocentrista e
delo, despontava a crença difusa na superioridade do homem branco, justificada racializadora. O termo
historicamente pela força do capitalismo e do progresso material no Ocidente. é utilizado até hoje
nos países europeus
O etnocentrismo, porém, é mais amplo. Ocorre em várias sociedades e cultu- e nos Estados Unidos
ras, mesmo naquelas que foram dominadas pelos europeus a partir da expansão para nomear indivíduos
marítima do século XV. Pode partir de povos africanos e asiáticos em relação a brancos.
europeus, bem como ocorrer entre culturas africanas distintas, o que, segundo
africanistas, está na origem de alguns conflitos recentes. Foi visto também en-
tre chineses ou japoneses em relação aos portugueses que desembarcaram em
terras de seus respectivos impérios no século XVI, e entre povos de fala tupi, no
território que viria a ser o Brasil, diante de grupos falantes de idiomas de outras
famílias linguísticas.
OBSERVE QUE...
O etnocentrismo é, portanto, uma visão de mundo por meio da qual um grupo
Embora guerreassem
inferioriza e desqualifica o outro tomando por base os próprios valores. É um pa- entre si, os povos Tupi
radigma gerador de preconceitos, sobretudo de ordem cultural, nem tanto racial, da costa (os Tupinambá,
já que o conceito de raça, do ponto de vista biológico e racialista, somente se os Temiminó, os Caeté,
consolidou no Ocidente no século XIX. os Tupiniquim, etc.)
tinham uma identidade
comum baseada na
ANALISAR E REFLETIR língua, nas crenças e
nos costumes. Os não
Desde o início das navegações, os europeus usavam termos pejorativos para falantes de tupi eram
designar os povos que encontravam em sua trajetória. Em relação aos africa- por eles denominados
nos, palavras como negro ou preto eram utilizadas com forte sentido pejorativo, tapuias e vistos como
inferiores. Os tapuias
geralmente aludindo a seus cultos pagãos e, sobretudo, à condição de escravi-
eram, na maioria, povos
zados. Até o século XIX, não havia uma tentativa de tornar a raça em um conceito falantes não apenas
"científico", mas atitudes racistas por parte dos colonizadores eram comuns. de línguas jê, como os
Goitacaz, no norte do
■ Em grupos, pesquisem os conceitos de racismo e racialismo. Elaborem um
atual Rio de Janeiro,
texto argumentativo que elenque as semelhanças e diferenças entre esses
e os Aimoré, no sul da
conceitos, como foram utilizados em momentos diferentes da história e qual Bahia, mas também
o resultado dessa utilização. Se possível, deem exemplos com base em sua de outras famílias
vivência de falas e/ou atitudes que representem ambos os conceitos. linguísticas, como os
Charrua, no rio da Prata.

70
BA R BÁ R I E E P RE CO N CE I T O CU LT UR AL
Um conceito muito usado desde a Antiguidade ocidental para desqualificar
culturalmente outros povos é o de bárbaro. Esse termo era usado pelos anti-
gos gregos para se referir a outros povos. Significa literalmente “o que não é
grego”, antes de tudo por não falar grego, mas também por viver de maneira
diferente dos gregos da Antiguidade.

G. Nimatallah/De Agostini Picture Library/Bridgeman Images/Fotoarena


O termo consolidou-se em Atenas no século V a.C.,
tempo em que a cidade vivia sob regime democráti-
co e tinha grande poder comercial e militar no mar
Mediterrâneo, e difundiu-se por outras cidades da
Grécia antiga, como Tebas ou Esparta. Tais cidades
também travaram guerras umas com as outras, mas
os contendores não condenavam uns aos outros como
bárbaros. Bárbaros eram os povos que habitavam as
fronteiras do mundo grego, algumas ilhas do Mediter-
râneo e do atual Oriente Médio.
O conceito de bárbaro consolidou-se em meio à
expansão ateniense, que escravizava os cativos de
guerra. Não demorou para que o termo, alusivo ao
“outro”, se associasse ao termo escravizado. A lógi-
ca dessa associação é simples: se é bárbaro, é infe-
rior; logo, pode ser reduzido à escravidão. Detalhe da escultura
Monumento às Nereidas, do
A qualificação de bárbaro para designar o “outro” logo levou ao uso do subs- século V a.C., que representa
tantivo barbárie, mais amplo, que aludia a costumes, crenças e modos de vida uma batalha entre gregos e
de outros grupos. Esse vocabulário grego etnocêntrico, muito ligado à escra- "bárbaros" (no caso, persas).
vização de povos vencidos, alcançou dimensão gigantesca ao ser adotado na Originária de Xanthos, na
atual Turquia, a obra hoje é
Roma antiga, que construiu uma territorialidade muito mais ampla, a ponto parte do acervo do Museu
de designar o mar Mediterrâneo como mare nostrum (que em latim significa Britânico (Londres).
“nosso mar”).

M A R E N O S T R U M : E X PA N S Ã O D O I M P É R I O R O M A N O ( 2 0 0 a . C . - 4 4 a . C . )

Banco de imagens/Arquivo da editora


Mar do
Norte

OCEANO
ATLÂNTICO
GÁLIA REINO DE
(52 a.C.) BÓSFORO Mar
GÁLIA Cáspio
40° CISALPINA
N E LÍRIA
ENS (51 a.C.)
ON (115 a.C.)
M

ARB .C.)
Mar Negro
ar

N ARMÊNIA
LIA 121 a
A


dr

(

PONTO (65 a.C.)


tic
o

MACEDÔNIA
(148 a.C.)
GALÁCIA
Mar FRÍGIA CAPADÓCIA
Tirreno ÁSIA (116 a.C.)
SICÍLIA
(129 a.C.) CILÍCIA
(241 a.C. e 212 a.C.)
(102 a.C.) SÍRIA
NUMÍDIA ÁFRICA (64 a.C.)
(46 a.C.) (146 a.C.)

Mar Mediterrâneo JUDEIA


(63 a.C.)
0 385 CIRENAICA
km (74 a.C.)

Estado romano em 200 a.C.


Conquistas romanas entre 200 a.C. e 120 a.C. EGITO
M
ar

Conquistas romanas entre 120 a.C. e 58 a.C.


Ve
rm

Conquistas entre 57 a.C. e 44 a.C. (sob comando de Júlio César)


elh

Territórios independentes aliados de Roma


o

20° L

Fonte: Elaborado com base em VICENTINO, Cláudio. Atlas histórico: geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2011. p. 47.

71
Os romanos conquistaram toda a península Balcânica, isto é, a antiga Grécia,
OBSERVE QUE...
mas nunca chamaram os gregos de bárbaros. Pelo contrário, assimilaram vários
elementos da cultura grega e empregaram o termo nela usado para desqualificar O termo vândalo, que
os povos que pretendiam escravizar. Tratavam gauleses, ancestrais dos franceses, hoje é sinônimo de
alguém que destrói,
e bretões, ancestrais dos ingleses, como bárbaros. No entanto, o termo bárbaro
deu origem ao verbo
passou a significar também “ameaça”. A partir do século III d.C., povos do norte vandalizar e provém de
europeu, falantes de línguas germânicas, passaram a desafiar as fronteiras do um povo germânico que,
Império. Eram os visigodos, os ostrogodos, os francos e os vândalos. no início da Idade Média,
conquistou a maior
A historiografia tradicional ocidental denomina a entrada de povos germânicos do
parte da península
Norte no Império Romano invasões bárbaras. Tal designação é, na realidade, um pa- Ibérica e do norte da
radoxo, porque esses mesmos povos, misturando-se com os romanos e os "bárbaros" África.
que já viviam no Império, seriam a base da formação dos diversos povos europeus.

ANALISAR E REFLETIR

No período do Renascimento, os pensadores valorizavam a Antiguidade clássica por considerá-la o


grande exemplo da humanidade. Em contrapartida, a Idade Média era condenada, ganhando a alcunha
“Idade das Trevas”, que indicava a decadência cultural provocada pelos "invasores bárbaros", considerados
ignorantes, bem como o domínio da religião sobre todos os âmbitos da vida e do conhecimento.

A aversão aos bárbaros foi questionada no século XIX. Na Europa, o movimento conhecido como Roman-
tismo resgatou a Idade Média, e os povos bárbaros passaram a ser vistos como o “sopro de vitalidade” que
arejou o decadente Império Romano.

■ Com base em seus conhecimentos até aqui, quais seriam os possíveis motivos para que os “invasores bár-
baros” passassem a ser vistos, na historiografia do século XIX, como um “sopro de vitalidade”? Relacione
essa mudança de opinião ao eurocentrismo e aos fatos transcorridos no período.

O conceito de barbárie ampliou-se geograficamente com a expansão marítima


europeia, a partir do século XV. Movidos pela cobiça e pela possibilidade de sujeitar
outros povos a trabalhos forçados (inclusive à escravidão) em favor do capitalis-
mo comercial, os europeus passaram a se referir

Granger/ Fotoarena
a povos indígenas da América e a povos africanos
como “bárbaros” simplesmente por terem costu-
mes e caracteres físicos diferentes dos europeus.
A diferença de costumes foi o que mais pesou na
designação dos ameríndios como bárbaros, muito
mais do que a cor da pele, o que confirma o conceito
de bárbaro antes de tudo como uma desqualifica-
ção cultural. No Império Asteca, por exemplo, havia
a crença de que os prisioneiros de guerra deviam
ser sacrificados ao deus Sol, a quem chamavam de
Huitzilopchtli. Como os povos do antigo México com-
partilhavam diversos aspectos culturais, os cativos
levados ao sacrifício consideravam gloriosa aquela
morte. Eles eram levados ao topo da Pirâmide do
Sol e tinham seus corações arrancados e oferecidos
ao Sol, ainda pulsantes, para delírio da multidão que
presenciava a cerimônia.

Códice asteca do século XVI que representa sacerdotes


arrancando o coração de jovens em homenagem ao
deus Sol. Esse tipo de sacrifício era muito comum entre
esse povo, que acreditava que, como recompensa ao
ato, o deus Sol retribuía com luz e calor.

72
Quando conquistaram o Império Asteca, os espanhóis logo enviaram um bispo
OBSERVE QUE...
católico com experiência de inquisidor, especialista no combate à feitiçaria. Ele
mandou prender vários sacerdotes astecas sob a acusação de “barbárie”, conde- A antropofagia tomou
nando-os a morrer na fogueira. diferentes formas entre
povos indígenas do
No Brasil indígena, o costume tupi mais condenado como bárbaro era a antro- território brasileiro.
pofagia. Os nativos a praticavam não como fonte de nutrição, mas com significado Entre alguns deles,
ritual. Ao comerem o inimigo feito prisioneiro, buscavam vingar o espírito de seus comer o corpo dos
próprios antepassados mortos pelo povo inimigo. parentes quando eles
morrem é um ato
Os portugueses, por sua vez, consideraram tal costume bárbaro, embora incen-
ritual importante para
diassem aldeias de povos indígenas resistentes à ocupação. Em 1587, o agricultor apaziguar os espíritos.
e cronista português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), senhor de engenho es-
cravista no Brasil, escreveu ao rei defendendo que todos os indígenas deveriam ser
escravizados, fossem ou não hostis, porque eram bárbaros e canibais.
A designação dos indígenas como bárbaros se conjugou com o projeto de sua
escravização por parte dos colonizadores, em uma reedição dos valores greco-
-romanos que misturavam preconceito cultural e ambição mercantil.

QUE ST ÕES EM FOCO

Relativismo cultural
No início da década de 1550, realizou-se na cidade de Valladolid, na Espanha, um famoso debate sobre a legiti-
midade da conquista da América pelos espanhóis e da escravização dos indígenas. Dois teólogos destacaram-se
na ocasião. O espanhol Juan de Sepúlveda (1494-1573) sustentava que a escravização dos indígenas era legíti-
ma, apoiando-se em Aristóteles, para quem havia homens naturalmente vocacionados à escravidão. Segundo
ele, os nativos indígenas enquadravam-se nesse caso, pois eram seres irracionais. Duvidou até da humanidade
dos indígenas, alegando que eles seriam desprovidos de alma. O também espanhol Bartolomeu de Las Casas
(1484-1566), por outro lado, condenava veementemente a escravização dos povos indígenas, defendendo que eles
tinham alma, sendo perfeitamente humanos e merecedores da catequese para sua salvação espiritual.

■ É possível entender que Las Casas defendia as culturas indígenas ao contestar a argumentação escra-
vista e desumanizadora de Sepúlveda? Justifique sua resposta. Considere, para a resposta, a ideia de
relativismo cultural, ou seja, uma perspectiva sobre sistemas culturais que seja livre de parâmetros
preconcebidos e etnocêntricos.

O etnocentrismo não foi exclusividade dos

Reprodução/Biblioteca Municipal Mário de Andrade, São Paulo, SP.


colonizadores europeus. Os povos coloniza-
dos também interpretaram os europeus con-
forme os próprios valores. Os astecas, por
exemplo, viram a chegada dos espanhóis ao
México como se fossem “deuses barbudos”
que levariam ao fim do mundo, conforme
anunciado em suas profecias. Chegaram a
associar o líder dos conquistadores, Fernando
Cortez (1485-1547), ao deus Quetzalcóatl,
cujo retorno marcaria o fim dos tempos se-
gundo a mitologia nativa.

Preparo da carne humana em episódio canibal, de


Theodore de Bry, século XVI (gravura em cobre).
A gravura representa um ritual antropofágico
no Brasil, de acordo com a visão do explorador
alemão Hans Staden (1515-1576).

73
Em outros casos, os europeus foram simplesmente rejeitados pela sua apa-
rência e por seus costumes, como nas primeiras crônicas escritas pelos chine-
ses quando os portugueses chegaram a Macau, no início do século XVI. O mesmo
ocorreu entre os japoneses e os hindus, que consideravam os portugueses “sujos,
fedorentos e animalescos”.

A NALISANDO MENSAGENS

Analisando cronistas de Macau, o historiador chinês Fok Kai Cheong afirmou CHEONG, Fok Kai. Estudos
que os portugueses foram identificados como demônios. Um deles sugeriu que sobre a instalação dos
portugueses em Macau. Lisboa:
eram canibais. Outro sublinhou suas formas grotescas, seu aspecto estranho Gradiva, 1996. p. 12-13.
e suas roupas bizarras: “têm nariz proeminente, tez clara, uma espécie de bico
e olhos de gato. A barba é encaracolada e o cabelo arruivado. Todavia muitos deles são calvos e rapam a
barba”. Kai Cheong acrescenta que “o fato de desconhecerem os ensinamentos tradicionais chineses levou
a que os eruditos comparassem o seu comportamento com o dos animais irracionais”.

■ Qual é o conceito que exprime o etnocentrismo chinês e como ele se dá em relação aos portugueses?
Quais são os tipos de estranhamento ressaltados pelos chineses?

PR EC O NC E I T O R E L I GI O S O CON T R A
G E NT IL I DA D E S E I N F I É I S
Os preconceitos ocidentais com relação a povos não ocidentais, com destaque OBSERVE QUE...
para a desumanização, tiveram mais impacto no longo prazo do que os precon-
O conceito de gentio
ceitos que tais povos externaram em relação aos europeus. Isto pela simples
provém do judaísmo,
razão de que os europeus conquistaram os demais territórios ou tentaram sujei- que considera os
tá-los a seus interesses mercantis. não judeus goym
A base da condenação dos nativos pelos europeus, sobretudo na América e na (originalmente, em
África, apoiou-se, como vimos, no conceito de barbárie. Mas tal conceito tam- hebraico, “nação” ou
bém abarcou um paradigma religioso, ou seja, a rejeição das crenças vistas como “povo”).
contrárias ao cristianismo por serem diferentes dele. Muitas vezes, a condena-
ção da religião dos outros exprimia-se no conceito de gentilidade, equivalente a
paganismo e/ou à qualidade de gentio, isto é, não batizado.
Diversas crônicas ibéricas sobre povos ameríndios e africanos qualificam seus
ritos como gentios. No caso do Brasil, vários cronistas (sobretudo os jesuítas) cauim
assim classificaram os bailes indígenas, as bebedeiras coletivas de cauim ou bebida feita à base
Reprodução/Coleção particular as pregações dos grandes da fermentação da
pajés, que encarnavam an- mandioca que provoca
cestrais e pregavam, em forte embriaguez. Era
transe místico, migrações muito consumida,
especialmente pelos
coletivas em busca da “terra
homens, para celebrar
sem mal”, uma espécie de vitórias em guerras e
paraíso terrestre dos Tupi, outras ocasiões solenes.
onde a alimentação era farta
e inesgotável, as mulheres pajŽ
sempre ficariam jovens e as nome dado ao
flechas caçariam sozinhas, curandeiro na cultura
sem que os homens fizes- tupi, com destaque para
sem esforço. os grandes pajés
(pajé-açu), que
encarnavam espíritos e
Dança ritual dos faziam pregações.
tupinambás, de
Theodore de Bry,
século XVI
(gravura em cobre).

74
As gentilidades eram condenadas e frequentemente associadas à feitiçaria, a
DELUMEAU, Jean. História
ritos diabólicos e à devoção ao demônio. O historiador francês Jean Delumeau do medo no Ocidente. São
(1923-2020) percebeu muito bem essa transposição do modelo religioso europeu Paulo: Companhia das
para a religiosidade indígena: “os espanhóis tiveram a convicção de tropeçar, por Letras, 1989. p. 262.
toda parte, na América, no poder multiforme do maligno, mas não desconfiaram
de que era o seu próprio Lúcifer que haviam levado do velho mundo nos porões fetiche
de seus navios”. Na lógica eurocêntrica dos colonizadores, como os ritos nati- no sentido religioso,
vos não eram cristãos, só poderiam ser diabólicos e seus sacerdotes, feiticeiros. significa objeto ao qual
E um conceito-chave dos colonizadores para demonizar as religiosidades indíge- se atribuem poderes
nas foi o de idolatria, isto é, culto a ídolos ou fetiches. mágicos ou espirituais.
O conceito de idolatria não foi uma invenção dos colonizadores, vinha do tempo
dos antigos hebreus, que condenavam os gentios por cultuarem ídolos. O concei-
to consta no Antigo Testamento

Werner Forman/Universal Images Group/Getty Images


e também no Evangelho cris-
tão, que consideram a idolatria
uma “depravação dos homens”.
A perseguição das idolatrias foi
implacável no antigo Império
Inca (Peru, Bolívia, Equador)
e no Império Asteca (México
central). Em tais regiões, havia
representações de deuses na
forma de estátuas, que podiam
ser zoomórficas, humanas ou
híbridas. Não era ao objeto que
se rendia culto, mas à divindade
nele representada.

Representação de Tezcatlipoca,
deus da guerra entre os astecas,
c. 1300-1500, México. A figura
está armada e vestida como um
guerreiro. A roupa é decorada
com uma caveira e ossos, o que a
associa à morte e à magia.

No entanto, os europeus, sobretudo os ibéricos, interpretaram tais represen-


tações como ídolos. Nas áreas por eles dominadas, moveram campanhas impla-
cáveis de extirpação de idolatrias, destruindo objetos e gravuras que, além de
exprimirem a relação que tais povos mantinham com a natureza, a mitologia e
os corpos celestes, davam prova valiosa de sua identidade cultural. Por meio do
conceito de idolatria ou de gentilidade, as religiosidades africanas, ameríndias ou
asiáticas foram demonizadas e, não raro, destruídas.
Outra dimensão do eurocentrismo em matéria religiosa foi a perseguição dos
descendentes de judeus e muçulmanos, cujas comunidades eram, desde a Idade
Média, muito numerosas na península Ibérica. No caso dos muçulmanos, que
chegaram a dominar boa parte da península entre os séculos VIII e XII, o conceito
desqualificador era o de infiel.
Quando a Igreja incentivou a expansão dos cavaleiros feudais para o Oriente, nas
chamadas Cruzadas, e na península Ibérica, na Reconquista Cristã, a justificativa
para o combate era a de que os islâmicos eram infiéis, porque inimigos da cristan-
dade e/ou ocupantes de lugares sagrados do cristianismo, como Jerusalém.
Mas também os muçulmanos, por sua vez, consideravam os cristãos infiéis –
por não reconhecerem a revelação do profeta Maomé – e viam no combate aos
cruzados uma guerra santa, ou jihad, em árabe.

75
QUE ST Õ ES EM FOCO

Jihad, guerra santa do islamismo?


Um dos aspectos do islamismo mais controvertidos é o conceito de jihad, sobretudo após os atentados
do grupo Al-Qaeda nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, e da organização do Estado Islâmico,
no Oriente Médio, em 2003, ocupando partes do Iraque e da Síria. Este último tem o projeto de construir um
califado mundial, um reinado em que todos viveriam sobre a lei da xaria – o direito islâmico –, com base no
Alcorão. A imprensa ocidental considera o jihad terrorismo e, muitas vezes, estendeu essa condenação ao
conjunto do islamismo, na medida em que o associou ao princípio do jihad, fazendo dele sinônimo de “guerra
santa” e interpretando esta última como um sentimento de ódio ao mundo cristão ocidental. No entanto,
se é correto dizer que o jihad é um poderoso complemento aos pilares do islã, ele não se resume à ideia de
“guerra santa”. Significa, antes de tudo, uma exortação ao muçulmano para que siga o caminho de Alá. A
expansão das fronteiras do islã por meio da guerra é apenas um dos significados do jihad, e não tem a ver
com um permanente sentimento de ódio ao Ocidente cristão.

■ Faça uma pesquisa sobre o islamismo, identificando seus pilares e suas contribuições culturais ao redor
do mundo. Com base nisso, analise o islamismo como religião e sua interpretação do jihad. É correto
afirmar que o islã seja partidário da destruição do Ocidente cristão por meio do jihad? Como podemos
relacionar a interpretação radical do jihad a lutas por hegemonia dentro e fora do islamismo?

No caso dos judeus ibéricos, houve forte campanha de conversão ao cristianismo, OBSERVE QUE...
tanto na Espanha como em Portugal, entre fins do século XV e início do XVI. Os con- A Inquisição ibérica
vertidos passaram a ser chamados de cristãos-novos, impedidos de exercer certos não perseguiu apenas
cargos públicos e considerados constantemente suspeitos de manter o judaísmo em cristãos-novos
segredo. Para obrigá-los a assumir sinceramente o catolicismo, Espanha e Portugal descendentes de
instalaram a Inquisição, um tribunal encarregado de zelar pela pureza da fé cristã. judeus. Molestou,
Milhares de cristãos-novos foram processados pela Inquisição na península Ibérica e ainda que em menor
escala, descendentes
nas colônias ultramarinas, condenados a várias penas, como o desterro e o confisco
de muçulmanos
de bens. Em casos extremos eram condenados à morte na fogueira.
(mouriscos), pessoas
Por sua vez, os judeus consideravam-se os únicos verdadeiramente monoteís- acusadas de
tas. Recusavam a revelação de Maomé e a sacralidade do Alcorão desde o século feitiçaria, homens e
VII. Também recusavam o cristianismo, rejeitando a ideia de que Jesus era o fi- mulheres acusados
lho enviado por Deus para salvar espiritualmente a humanidade. Rejeitavam, em de homossexualidade,
particular, a ideia de que Deus pudesse se tornar humano na pessoa de Cristo e entre outros. Nos países
protestantes, os judeus
de ter nascido de uma virgem.
foram tolerados (com
Reprodução/Coleção particular

Preconceitos e agressões restrições), mas a


motivados pela religião não perseguição a “bruxas”
se limitavam aos monoteís- e a homossexuais foi
mos, cada qual desqualifi- implacável nos séculos
cando os outros em defesa da XVI e XVII.
própria versão do Deus único.
Também não se restringiram
à perseguição religiosa dos
povos politeístas sob domínio
católico, considerados pagãos
ou idólatras pela Igreja. En- Iluminura do fim do século
XV que representa o cerco
tre os próprios cristãos houve a Jerusalém durante a
guerras entre católicos e pro- Primeira Cruzada, no ano de
testantes, sobretudo no sécu- 1099. Ilustração de autoria
lo XVI, com vários episódios atribuída a Jean Colombe,
presente no manuscrito
de massacres de uns pelos Les Passages d'outremer
outros em toda a Europa. Em (Passagens para além-mar),
resumo, entre a Idade Média e de Sébastien Memerot.

76
a Idade Moderna, o aspecto religioso foi decisivo nas políticas de intolerância heresia
promovidas pelos europeus: desqualificação das alteridades, justificativa de termo de origem grega
perseguições, desumanização de minorias (idólatras, infiéis ou hereges). que significa “escolha”.
No cristianismo, não
pode haver escolha em
assuntos de fé, somente
XENOFOBIA E GENOCÍDIO obediência aos dogmas
da Igreja. O cristão que
A partir do século XIX e sobretudo no XX, as perseguições truculentas aos "ou- escolhe interpretações
tros" alcançaram um novo patamar no seio da humanidade. O século XIX foi na opostas às oficiais
Europa e em outros continentes a era dos nacionalismos, equivalente à consolidação ou diferentes delas é
considerado herege.
de Estados nacionais e à construção de narrativas históricas empenhadas em re-
constituir a formação dos países, celebrando ou inventando tradições. Passou-se a
valorizar o cidadão deste ou daquele país, priorizando o fato de ele ter nele nascido,
independentemente de sua origem étnica ou escolha religiosa.

XE NOFO BI A E M I M P É R I O S CO LONIAIS OU OBSERVE QUE...


O pan-eslavismo surgiu
M U LT IC U LT U RA I S no século XIX, com forte
A valorização do cidadão não se estendeu a todos, porém. Os habitantes das influência russa, com
o intuito de unificar
colônias descendentes de nativos eram quase sempre considerados cidadãos
os povos eslavos da
de segunda categoria. Na Índia britânica ou na Argélia francesa somente eram Europa. Atentava
cidadãos de pleno direito os que, ali nascidos, descendessem de britânicos ou contra o Império
franceses, respectivamente. Austro-Húngaro e o
Império Turco, que
Tal contradição ocorreu na própria Europa, em Estados multiculturais, como o
abrigavam nações
Império Austro-Húngaro, que embora abrigasse uma população germânica do- eslavas.
minante, também abrigava diferentes povos eslavos, como croatas e eslovacos, e
de outras origens, como os húngaros (ou magiares).

IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO: ETNIAS (c. 1900)


Ericson Guilherme Luciano/Arquivo da editora

SILÉSIA G A L
BOÊMIA Í C
I A
MORÁVIA
A
VIN
CO

ÁUSTRIA
BU

TIROL HUNGRIA

TRANSILVÂNIA
46º N CARNÍOLA

CROÁCIA-ESLAVÔNIA

DA BÓSNIA
Germânicos Tchecos
M LM
ar ÁC Magiares Eslovacos
A
dr IA

t Romenos Poloneses
ic
o
Croatas e sérvios Eslovenos
0 100 Rufenianos Italianos
km
20º L

Fonte: Elaborado com base em DISTRIBUTION of races in Austria-Hungary.


Maps Hungary. Disponível em: https://pt.maps-hungary.com/%C3%81ustria-hungria-mapa.
Acesso em: 24 jun. 2020.

77
Outro exemplo é o do Império Turco Otomano, com população majoritariamente xenofobia
turca, mas que abrigava armênios, búlgaros, albaneses e gregos. A intolerância
ato de repúdio ao
do governo turco a algumas minorias conduziu a verdadeiros massacres. No caso estrangeiro.
europeu, a exacerbação dos nacionalismos alimentou sentimentos xenófobos.

O tema genocídio tem


G E NO C ÍDI O S : O E X T E R MÍ N IO DO OUT R O relação com o Projeto
deste volume.
O século XX foi trágico em matéria de intolerância racial, política e cultural.
Populações inteiras foram massacradas em todos os continentes por governos
empenhados em exterminar minorias, até então parte da população nacional e
A lista de Schindler

F I CA A D I CA
com direito à cidadania.
Direção de Steven
O caso clássico foi a política de extermínio dos judeus pelo nazismo, não só na
Spielberg. Estados
Alemanha como em toda a Europa sob domínio dos alemães ou de seus aliados.
Unidos, 1993.
A justificativa nazista residia na ideia de que os judeus contaminavam a pureza da
Duração: 195 min.
raça ariana, além de traírem o país e ameaçarem a própria humanidade.
Como visto, o massacre de milhões de judeus na Europa foi decisivo para a O filme conta a
aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU, em 1948, história de Oskar
Schindler (1908-1974),
e para a elaboração de dois conceitos fundamentais no século XX: holocausto e
empresário alemão
genocídio. e membro do partido
Holocausto é uma palavra de origem grega que significa “sacrifício”. Na opi- nazista que perdeu
nião pública ocidental, ela foi associada ao extermínio dos judeus pelo nazismo, sua fortuna ao salvar
embora outros povos tenham sido vítimas de políticas similares. Genocídio, por mais de mil judeus do
sua vez, é um conceito mais complexo e polêmico. Em 1946, a ONU definiu ge- extermínio.
nocídio como “crime contra a humanidade”, sublinhando a intenção de poderes
constituídos de exterminar, por variadas razões, minorias étnicas ou religiosas.
ONU. Assembleia Geral.
A historiografia aprofundou o conceito, a exemplo do britânico John Cox, para Resolução 96-I, 11 dez. 1946.
quem o genocídio visa não apenas eliminar membros individuais do grupo-alvo,
mas destruir a capacidade de esse grupo manter sua coesão social e cultural e,
COX, John. To kill a people:
assim, sua existência como grupo, considerando não apenas a identidade étnica genocide in the twentieth
ou religiosa, mas também de gênero e orientação sexual e política. century. 2. ed. Nova York:
Oxford University Press,
Genocídio é, portanto, um conceito demasiado amplo. São raros os casos em 2017. p. 17.
que Estados se empenharam em exterminar todos os componentes de um ou mais
grupos. Uma coisa é perseguir minorias e praticar homicídios, como fez o regime
soviético com seus dissidentes; outra é a intenção clara e determinada de exter-
minar o grupo inteiro e a elaboração de políticas sistemáticas para realizar isso.

CONVERSA DE HIS TOR IADORES

Estima-se que a população do Império Asteca era de cerca de 25 milhões de pessoas em 1519. No
início do século XVII, essa população estava reduzida a pouco mais de 1 milhão. Vários historiadores ca-
racterizam essa enorme crise demográfica como genocídio. Outros discordam, alegando que os espa-
nhóis não tinham a intenção de eliminar a população indígena, mas de sujeitá-la a trabalhos forçados.
A enorme mortalidade indígena seria, nesse caso, efeito colateral da conquista, causada por epidemias de
vírus contra os quais os nativos não tinham anticorpos.

■ Analise a crise demográfica indígena resultante da conquista espanhola.


Ela pode ou não ser caracterizada como genocídio? Discutam em grupos.

78
GENOCÍDIO DOS ARMÊNIOS
Reprodução/Coleção particular

Um autêntico genocídio ocorreu no Império Turco


Otomano décadas antes da perseguição nazista aos
judeus. Durante a Primeira Guerra Mundial, o gover-
no turco otomano considerou que a minoria armênia
era traidora da pátria e resolveu exterminá-la siste-
maticamente. A partir de 1915, os armênios foram
expropriados, confinados em campos de prisioneiros
e aniquilados por afogamento, fuzilamento, enforca-
mento ou mesmo queimados vivos. Estima-se que
entre 800 mil e 1,5 milhão de armênios foram exter-
minados entre 1915 e 1923.
O genocídio e o holocausto armênio ocorreram mui-
to antes da formulação desses conceitos na Europa
ocidental. Um indicativo de que a História, por vezes, Armênios conduzidos por soldados turcos para um campo
ocorre sem que haja conceitos que a definam. de extermínio. Harput, atual Elazıg (Turquia), 1915.

GENOCÍDIO EM RUANDA
Entre abril e julho de 1994, houve um massacre étnico em Ruanda, país no cen-
tro-leste africano. Ruanda abrigava duas etnias rivais, os tútsis e os hutus. Em 1994, O tema genocídio tem
hutus e tútsis dividiam o poder graças a um frágil acordo que suspendeu uma guerra relação com o Projeto
civil iniciada em 1990. Porém, o assassinato do presidente, de origem hutu – não se deste volume.
sabe se por tútsis ou por hutus contrários ao acordo –, foi o pretexto de uma ação
genocida contra os tútsis.
A origem desse conflito vinha do século XIX: os hutus, majoritários no país, consi-
Hotel Ruanda

F I CA A D I C A
deravam que os tútsis tinham sido colaboradores dos europeus no período colonial
e deviam ser exterminados. Os tútsis armaram um exército de resistência, mas os Direção de Terry
hutus detinham o poder. Organizaram uma milícia que, com o apoio do Exército, exe- George. Estados
cutou entre 500 mil e 1 milhão de tútsis. Unidos, 2004.
A guerra foi concluída pela reação da Duração: 121 min.
guerrilha tútsi. Durante o massacre, a
O filme conta a
ONU não reconheceu que havia um geno-
história do genocídio
cídio em Ruanda, considerando que se tra-
em Ruanda a partir
tava de um problema interno no qual ela do drama de um casal
não deveria intervir. Anos depois, alguns misto: o marido hutu e
líderes hutus foram condenados pelo ge- a esposa tútsi.
nocídio pela Corte Internacional de Haia.
Refugiados ruandeses em fila para distribuição
de água perto do acampamento de Kibumba , em
Goma (antigo Zaire, atual República Democrática
do Congo), 1994. Foto de Sebastião Salgado.
Sebastião Salgado/Acervo do fotógrafo

ANALISAR E REFLETIR

■ Com base nas informações sobre o massacre dos tútsis em Ruanda, dis-
cutam a aplicabilidade do conceito de genocídio nesse caso e o motivo pelo
qual a ONU teria se negado a aceitá-lo. Para tanto, dividam a sala em dois
grupos, tendo o professor como mediador. Um deles representará organiza-
ções não governamentais em defesa dos direitos humanos em Ruanda, e o
outro representará a cúpula das Nações Unidas. Ao final do debate, procu-
rem sintetizar as visões de mundo e os interesses defendidos pelas partes
representadas.

79
Nem as decisões da ONU nem as reflexões das Ciências Humanas impedi-
ram a continuidade de genocídios no planeta. Na antiga Iugoslávia, ocorreram, O tema genocídio tem
entre 1991 e 2001, diversas guerras civis contrapondo sérvios, croatas e bós- relação com o Projeto
nios. As maiores vítimas desses conflitos foram os muçulmanos que viviam na deste volume.
Iugoslávia, perseguidos pelo governo sérvio de Slobodan Milosevic (1941-2006),
que comandou uma “limpeza étnica” contra os islâmicos. Neste caso, a ONU
interveio, enviando tropas multinacionais e impondo a paz. Milhares de bósnios
muçulmanos, porém, foram dizimados pelos sérvios, bem como indivíduos de
outros grupos étnico-religiosos. Milosevic foi julgado pelo Tribunal de Haia e
condenado à prisão, onde morreu em 2006 de ataque cardíaco.

C O M B AT E À S D I S C R I M I N A Ç Õ E S
O combate consistente às discriminações étnico-raciais, religiosas, de gênero
e orientação sexual somente emergiu no século XX. No século XIX, organizou-se
um forte movimento abolicionista em escala mundial, que se irradiou pelas Amé-
ricas; porém, o movimento não formulou, de modo geral, nenhuma agenda para
a inclusão social dos afrodescendentes libertos.
Na questão de gênero, as mulheres continuaram sujeitas a restrições nos
campos civil e político. No mundo ocidental, manteve-se o modelo da mulher
como responsável pela educação dos filhos e pelos cuidados com a casa, limi-
tada ao papel de esposa e mãe. O trabalho feminino era motivo de condenação
moral, sobretudo entre as elites e a classe média, embora nas classes mais po-
bres as mulheres integrassem havia séculos o mercado de trabalho. Somente
no século XX, depois de intensas lutas, as mulheres alcançaram o direito ao voto
nos países ocidentais.
Nos países de cultura islâmica, o confinamento das mulheres era ainda mais
radical, e ainda o é em nações muçulmanas ortodoxas, como a Arábia Saudita.
Prevalece uma concepção de direito derivada do Alcorão, que submete as mu-
lheres à autoridade exclusiva de pais e maridos, inclusive quanto à vestimenta.
Quanto à orientação sexual, a homossexualidade, considerada pecado nas re-
ligiões monoteístas, passou a ser vista como doença ao longo do século XIX, além
de ser criminalizada na maioria dos países ocidentais. O caso britânico é emble-
mático: na Inglaterra, a homossexualidade só foi descriminalizada em 1967; na
Escócia, em 1980; na Irlanda do Norte, em 1982.

OBSERVE QUE...

A L U TA C O N T R A O P R E C O N C E I T O Um dos maiores
defensores de Dreyfus
ÉTNICO-RACIAL foi o escritor francês
Émile Zola (1840-
O primeiro movimento organizado contra o preconceito étnico-racial surgiu -1902), cuja posição foi
na Europa, em fins do século XIX, protagonizado pelos judeus. Justamente no decisiva para o desfecho
século em que a maioria dos países ocidentais reconheceu a plena cidadania do caso, pois ele não
dos judeus, surgiram movimentos antissemitas que deixaram a comunidade pertencia à comunidade
judaica francesa. Zola
judaica em alerta.
publicou a célebre
O estopim foi a prisão de um oficial francês de origem judaica, Alfred Dreyfus carta “J’accuse!” (“Eu
(1859-1935), acusado de passar documentos secretos para a Alemanha. O caso acuso!”), endereçada ao
teve repercussão mundial, pois as provas contra Dreyfus era poucas e discutíveis. presidente francês, no
importante jornal liberal
Ele chegou a ser expulso do Exército, em 1895, e condenado à prisão perpétua
L’Aurore, em 1898,
na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. A pressão da opinião pública francesa e denunciando a farsa
mundial foi tamanha que o caso acabou revisado e Dreyfus foi inocentado e rein- judiciária perpetrada
corporado ao Exército. contra Dreyfus.

80
O chamado Caso Dreyfus estimulou um movimento internacional contra o sionismo
antissemitismo, liderado pelo escritor austro-húngaro de origem judaica The- movimento político
odor Herzl (1860-1904). Ele escreveu a favor de Dreyfus ainda em 1894 e, no que defende a
ano seguinte, publicou O Estado Judeu, denunciando o antissemitismo vigente autodeterminação dos
na Europa e advogando a criação de um Estado para essa minoria na Pales- judeus e a existência
tina, pátria original dos antigos hebreus. Em 1897, foi realizado na Suíça o de um Estado nacional
judaico independente e
primeiro congresso que deu origem ao sionismo.
soberano localizado no
O movimento sionista foi de grande importância para a criação do Estado de território do antigo Reino
Israel, em 1948, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Embora combatesse de Israel.
o antissemitismo, esse movimento nutria grande pessimismo em relação ao
futuro dos judeus. Antes de lutar por alguma legislação protetora das comuni-
dades judaicas europeias, estimulava sua migração massiva para a Palestina.
O pessimismo do movimento sionista tinha fundamento, considerando o holo-
causto ocorrido entre 1939 e 1945.
Na segunda metade do século XX, também surgiram movimentos de afro-
descendentes nos Estados Unidos e no Caribe com motivação semelhante,
isto é, pregando seu retorno à África, convencidos de que a discriminação con-
tra os negros derrotava qualquer luta pelos seus direitos como cidadãos.
Um exemplo alarmante de racismo oficial contra os negros ocorreu na
África do Sul, país em que, desde 1948, a elite branca dirigente impôs o regime
segregacionista do apartheid. A legislação racista separava as zonas residen-
ciais de brancos e negros; criminalizava as relações inter-raciais, proibindo
casamentos mistos; separava negros e brancos em hospitais, escolas, espa-
ços de lazer, além de vetar quaisquer direitos políticos à maioria da população,
que era negra. A política racista do governo sul-africano foi motivo de grande
repúdio internacional.
A partir dos anos 1950, o movimento de resistência ao apartheid organizou-
-se no interior do Congresso Nacional Africano (CNA), um partido fundado OBSERVE QUE...
em 1912 para defender os direitos da população negra. Seu grande líder era
A xenofobia não
Nelson Mandela (1918-2013). O movimento foi severamente sabotado e re- desapareceu, mesmo
primido pelo regime e, nos anos 1980, optou pela luta armada para derrubá- depois da Declaração
-lo. A política racista tornou-se implacável, eliminando e prendendo milhares Universal dos Direitos
de militantes. Nelson Mandela foi Humanos, em 1948.
Media24/Gallo Images/Getty Images

condenado à prisão perpétua ain- Na própria Alemanha,


da em 1964, mas acabou anistiado a grande comunidade
em 1990, graças à pressão inter- turca que se formou
no pós-guerra, tendo
nacional contra o regime discri- sido indispensável à
minatório. A própria elite dirigente reconstrução do país,
percebeu que o país estava isolado tornou-se alvo de
do mundo, sendo punido com vá- violência e perseguição
rios embargos econômicos, e pre- por grupos neonazistas,
parou a supressão do regime. a partir da década de
1980. Também nos anos
Em 1994, Mandela foi eleito pre- 1980 cresceu na França
sidente da África do Sul, susten- o movimento chamado
tando um projeto conciliador e de Frente Nacional, com
tolerância, contrário a qualquer programa de combate
espécie de revanchismo. aos imigrantes com
base em preconceitos
racistas. No século
atual, milhares de
refugiados da África e
Nelson Mandela em do Oriente Médio são
novembro de 2009, rejeitados na Europa
em Johannesburgo com argumentos
(África do Sul). racistas.

81
O principal movimento afrodescendente contra o racismo, que irradiou por
Malcolm X

F I CA A D I CA
vários continentes, ocorreu nos Estados Unidos. Até meados dos anos 1950, so-
bretudo nos estados do sul do país, vigorava a segregação contra os negros em Direção de Spike
escolas, no transporte público, em restaurantes, bares, hotéis, etc. As escolas Lee. Estados
públicas para crianças brancas recebiam dos governos estaduais mais recur- Unidos, 1992.
sos, oferecendo ensino de melhor qualidade. O movimento pela igualdade polí- Duração: 202 min.
tica e civil entre brancos e negros cresceu naqueles anos, destacando-se, entre
Biografia do líder
suas lideranças, o pastor protestante Martin Luther King (1929-1968).
afrodescendente
Em 1964, Luther King ganhou o Prêmio Nobel da Paz em gesto de reco- que se converteu ao
nhecimento internacional à luta dos afrodescendentes contra a discriminação islamismo.
racial. No entanto, surgiram, no interior do movimento negro estaduniden-
se, lideranças contrárias ao pacifismo de Luther King. Entre elas, Malcolm X OBSERVE QUE...
(1925-1965), liderança da população negra de fé islâmica.
No Brasil, o Movimento
Outra dissidência foi o partido Pantera Negra para Autodefesa, fundado em Negro Unificado foi
1966, na Califórnia. Para reagir à brutalidade da polícia, os Panteras Negras, fundado em 1978.
identificados pelas jaquetas de couro e boinas pretas, patrulhavam os bairros Porém, conquistas
efetivas no plano
negros. O grupo chegou a ter milhares de membros em várias cidades do país,
legal só avançaram
enfrentando as autoridades e promovendo protestos. após a aprovação da
Constituição de 1988.
Getty Images

Mississípi em

F I CA A D I C A
chamas
Direção de Alan
Parker. Estados
Unidos, 1988.
Duração: 128 min.
O longa-metragem
conta uma história
fictícia, porém
verossímil, sobre a
discriminação racial
nos Estados Unidos no
século XX.

OBSERVE QUE...
Em pleno século XXI, o
racismo ainda é uma
constante social. Em
maio de 2020, o
Membros dos Panteras Negras do lado de fora do tribunal da cidade de Nova York, em abril de
afro-americano George
1969. Na foto, é possível ver uma citação de Abraham Lincoln (presidente dos Estados Unidos
de 1861 a 1865) que diz “A justiça suprema do povo”. Floyd, de 46 anos, foi
detido pela polícia, em
O conservadorismo racista da sociedade estadunidense e seus governos ficou Minneapolis (EUA),
acusado de usar uma
patente na escalada repressiva às várias tendências do movimento negro. Mal-
nota falsa de 20 dólares
colm X foi assassinado em 1965 e Martin Luther King, em 1968. O movimento dos em uma compra de
Panteras Negras foi praticamente dissolvido nos anos 1980. mercado. O homem
A luta do movimento negro nos Estados Unidos foi vitoriosa, como indica a Lei foi sufocado por um
policial branco e gritou
de Direito Civis (1964), que suprimiu todos os sistemas de discriminação existen-
“não consigo respirar”,
tes no país, e a Lei de Direitos de Voto (1965), que reforçou a anterior no tocante morrendo em seguida.
aos direitos políticos. Esses foram os marcos legais da extinção da segregação Diversos movimentos
racial no país. Apesar da resistência dos supremacistas brancos em vários es- antirracistas foram
tados, que ainda hoje gera conflitos, a discriminação dos afrodescendentes foi deflagrados no mundo
extinta no plano jurídico. todo após esse episódio.

82
A NALISANDO MENSAGENS

Leia com atenção os dois discursos abaixo:

TEXTO I
Cem anos atrás, um grande americano, no qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a
Proclamação de Emancipação. [...] Mas cem anos depois, o negro ainda não é livre. Cem anos
depois, a vida do negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de
discriminação. Cem anos depois, o negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto
oceano de prosperidade material.
[...] Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não
devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. [...] Nossa nova e
maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfian-
ça para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprova-
mos pela presença deles aqui hoje, vieram entender.
DISCURSO de Martin Luther King (28/08/1963). Disponível em: http://www.palmares.gov.br/sites/000/2/
download/discursodemartinlutherking.pdf. Acesso em: 20 jul. 2020.

TEXTO II
Hoje, a maioria dos sul-africanos, brancos e negros, reconhece que o apartheid não tem futuro.
[...] A destruição do apartheid em nosso subcontinente é incalculável. O tecido da vida familiar de
milhões de pessoas foi destruído. Milhões de pessoas estão desabrigadas e desempregadas. Nossa
economia está em ruínas e nosso povo está envolvido em conflitos políticos. Nosso recurso à luta
armada em 1960 [...] foi uma ação puramente defensiva contra a violência do apartheid. [...] Expres-
samos a esperança de que um clima propício a uma solução negociada seja criado em breve [...].
[...] É nossa convicção que o futuro do nosso país só pode ser determinado por um organismo
eleito democraticamente em uma base não racial. As negociações sobre o desmantelamento do
apartheid terão de resolver as demandas esmagadoras do nosso povo para uma sociedade demo-
crática, não racial e unitária na África do Sul. [...]
Nelson Mandela em discurso em 1990, libertado após 27 anos de prisão. LANG, Jack. Nelson Mandela: uma
lição de vida. São Bernardo do Campo: Mundo Editorial, 2007. p. 233-236.

■ Compare os textos e discuta com os colegas.

a) O que há de comum entre eles na reflexão da situação dos negros nos respectivos países?
b) Qualifique a proposta de Luther King e a de Mandela, contrastando as ideias de revanchismo contra
a discriminação e de negociação política.

PE L A I GU A LD A D E D E GÊ NE R O
A luta organizada das mulheres pela igualdade morreu atropelada pelo cavalo do rei quando se ma-
de gênero vem do século XIX, concentrada na luta nifestava em uma corrida, em 1913. Emily foi consi-
pelos direitos políticos. As mulheres e as organi- derada mártir do movimento sufragista. Em 1918, o
zações femininas que lutaram pelo direito de votar governo britânico reconheceu o direito de voto das
são conhecidas como sufragistas. A Inglaterra foi mulheres, mas o direto de se candidatarem a cargos
o grande palco dessas reivindicações, que se di- eletivos só veio em 1928.
fundiram pelo mundo. Em 1897 foi fundada ali a Apesar de a luta pelos direitos políticos ter sido vi-
União Nacional pelo Sufrágio Feminino. toriosa ao longo do século XX, as mulheres continua-
No início do século XX, o movimento cresceu no ram oprimidas por décadas em sua vida cotidiana.
país, com a fundação da União Social e Política das Em várias áreas persistem barreiras: no trabalho,
Mulheres. Um episódio de grande repercussão ocor- na formação profissional, na vida sexual, nos papéis
reu quando a militante Emily Davison (1872-1913) sociais e familiares, etc. Estima-se que, em 1963,

83
Reprodução/Biblioteca do Congresso, Washington, EUA.

OBSERVE QUE...
A Lei Maria da
Penha, aprovada pelo
Congresso brasileiro
em 7 de agosto de 2006,
criou mecanismos
para coibir a violência
doméstica e familiar
contra a mulher,
nos termos do
art. 226 da Constituição
federal. É considerada
uma das melhores
legislações de proteção
à mulher no mundo.

Representantes da
Associação Nacional das
Mulheres Sufragistas, em
abril de 1913, Estados
Unidos. Além do estandarte
da associação, trazem
no corpo faixas com
mensagens pedindo o
direito ao voto.

as mulheres constituíam 51% da população do planeta, mas apenas um terço


da força de trabalho. No entanto, ganhavam (e ainda ganham) menos que os
homens, inclusive exercendo o mesmo trabalho que eles. Algumas funções pa-
reciam impossíveis de serem alcançadas por mulheres nas empresas, em par-
ticular cargos de gerência e direção; além disso, as mulheres eram minoria em
cursos superiores de graduação e pós-graduação.
Naquele ano, a ativista feminista estadunidense Betty Friedan (1921-2006) publi-
cou o livro A mística feminina, em que atacava as ideias que reservavam para a mu-
lher apenas os papéis de dona de casa e mãe. Em 1966, feministas estadunidenses
fundaram a Organização Nacional de Mulheres, composta de profissionais liberais,
marco da difusão de várias instituições engajadas na luta pela igualdade de gênero.
Em 1964, a legislação federal estadunidense proibiu qualquer discriminação OBSERVE QUE...
no trabalho por motivo de etnia ou de sexo. Nos anos seguintes, outras leis ga-
Apesar de ter favorecido
rantiram os direitos civis às mulheres e a igualdade legal perante os homens, a a liberdade das
exemplo da criminalização do assédio sexual no trabalho, da abertura da carreira mulheres, a pílula
militar para as mulheres, etc. O movimento expandiu-se por diversas partes do anticoncepcional tem
mundo, resultando em campanhas e leis específicas contra a violência domésti- muitos efeitos colaterais
ca e a favor da equiparação de direitos civis e políticos. para quem a usa, que
Um movimento crucial para a luta feminista e para outras lutas foi a chamada podem ir desde ganho
contracultura dos anos 1960. Foi um movimento dos jovens em escala internacional de peso até perda de
que questionava os modos de vida tradicionais e era a favor de ampla liberdade em libido e alterações
várias esferas da vida. A contracultura condenou o individualismo materialista, a pa- vasculares. Tais efeitos
dronização dos costumes, a família monogâmica e quaisquer tipos de autoritarismo, têm impedido que
mas não deixou de pregar outro tipo de individualismo no campo comportamental. pílulas direcionadas
ao público masculino
A Ciência contribuiu muito para a libertação feminina com a invenção da pílula avancem em testagens,
anticoncepcional, nos anos 1960, cujo uso se difundiu no mundo ocidental a partir embora não tenham
da década seguinte. A pílula possibilitou evitar a gravidez indesejada e ainda permi- levado à retirada das
tiu às mulheres vivenciar experiências sexuais antes de se casarem – como ocorria pílulas femininas do
com os homens – ou mesmo optar por relações livres do matrimônio. Esse é um mercado. Ou seja,
assunto polêmico até hoje, pois a Igreja católica sempre condenou o uso da pílula permite-se que apenas
e algumas igrejas evangélicas a comparam ao aborto. O próprio direito feminino ao as mulheres arquem
aborto é ainda hoje motivo de polêmica, sendo criminalizado em diversos países. com os efeitos adversos.

84
C O M BAT E À H O M O F O B I A
O preconceito homofóbico foi dos mais implacáveis da história. No mundo aids (síndrome da
ocidental, as relações homossexuais eram consideradas pecado desde a Idade imunodeficiência
Média. Nos séculos XVI e XVII, seus adeptos eram perseguidos por tribunais adquirida)
eclesiásticos ou seculares a ponto de milhares serem condenados à morte na doença causada
fogueira, tanto em países católicos como protestantes. pelo vírus da
imunodeficiência
Ao longo do século XIX e até o fim do século XX, a homossexualidade foi con- humana (HIV) que destrói
siderada uma doença. Ainda hoje, alguns grupos religiosos radicais continuam o sistema imunológico.
a sustentar a ideia errônea de uma "cura gay". A criminalização da homossexu- É transmitida por meio
alidade também perdurou ao longo do século XX em geral não mais com a con- de relações sexuais sem
denação à morte de seus praticantes, mas com a prisão e a humilhação pública, o uso de preservativo,
ou até com a castração química. Nos anos 1980, apesar de descriminalizada no de transfusões de
sangue contaminado, de
mundo ocidental, a homossexualidade foi condenada moralmente em razão da
uso compartilhado de
pandemia da aids, que chegou a ser considerada uma doença de gays. Ainda agulhas hipodérmicas
hoje, em dezenas de países da Ásia e da África a homossexualidade ainda é cri- não esterilizadas e
minalizada, e em alguns deles, punida com a morte. da mãe para o filho
durante a gravidez
A luta contra a homofobia começou a se organizar na década de 1950, de início
e na amamentação,
acanhada, a começar pelo combate ao conceito de “homossexualismo”, em razão no caso de a mãe ser
de sua carga patologizante. A partir dos anos 1970, o movimento estruturou-se soropositiva e não seguir
como tal, mas foi somente em 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) re- protocolo de tratamento.
tirou a homossexualidade de sua lista classificatória de doenças mentais. Ao longo
do século XXI, diversos países do mundo reconheceram a licitude de relações se-
xuais entre pessoas do mesmo gênero, inclusive uniões conjugais de pleno direito.
No Brasil, organizaram-se diversos movimentos de luta contra a homofobia,
contra a discriminação no trabalho, na família, nas igrejas e, sobretudo, contra a
violência aos homossexuais, cujos índices são enormes.

C IÊ NC IA S H UM AN A S C O NT R A
OS P RE C O NCE I T O S
A contribuição das Ciências Humanas para o combate aos preconceitos foi
essencial desde as últimas décadas do século XX. A crescente importância da
interdisciplinaridade foi decisiva nesse processo, ao aproximar História, Antro-
pologia, Sociologia e Psicologia.
O paradigma interdisciplinar tinha surgido ainda nos anos 1920, com a re-
volução historiográfica preconizada pelo movimento dos Annales, na França,
defensor de uma História que buscasse estudar a humanidade na sua comple-
tude, levando em conta sentimentos, padrões de comportamento e experiên-
cias individuais. Este assunto é abordado no Capítulo 2 deste volume.
A Sociologia propôs o estudo dos indivíduos considerando sua posição na estra-
tificação social, sem desprezar as experiências individuais. A Antropologia também
foi decisiva, antes de tudo por substituir o estudo da humanidade como raças hie-
rarquizadas pelo paradigma cultural, sublinhando a lógica da diferença em oposi-
ção à ideia de que alguns povos são superiores a outros por razões tecnológicas ou
genéticas. A Psicologia demonstrou a complexidade do indivíduo, dotado de uma
consciência (que mobiliza ativamente valores morais e sociais) e de um incons-
ciente profundo (repositório de uma experiência individual escondida).
As Ciências Humanas assumiram sua vocação de estudar a humanidade em
sua totalidade e nas diversidades histórica, cultural, política, social e individual.
Elas superaram preconceitos tradicionais e teorias pseudocientíficas, alargando
ao máximo seus horizontes de pesquisa.

85
R O T E I R O D E E S T U D O S
A.M. Ahad/AP Photo/Glow Images

1 A tabela abaixo mostra a aprovação dos votos mas-


culino e feminino em alguns países. Com mais dois
colegas, analisem os dados, levantem informações
complementares e respondam às questões.

S U F R ÁG I O S U F R ÁG I O
PA Í S
MASCULINO FEMININO

E S TA D O S
1856 1924
UNIDOS

RÚSSIA 1917 1917

BRASIL 1891 1933

a) O sufrágio masculino aprovado pela Constitui-


ção brasileira de 1891 era universal?
b) Qual é a relação entre a aprovação do sufrágio
feminino no Brasil e o avanço da democracia
liberal representativa?
Muçulmanos da minoria rohingya que fugiram de
c) Nos Estados Unidos, o sufrágio feminino foi
perseguições em Mianmar esperam por ajuda no campo de
reconhecido em 1924. Pode-se afirmar que refugiados de Ukhiya, Bangladesh, em 2017.
nesse ano houve o triunfo do sufrágio univer-
sal no país? TEXTO I
d) Relacione o ano em que o sufrágio universal
masculino e feminino foi aprovado na Rússia Quem são os rohingyas, povo
com o contexto histórico do país.
muçulmano que a ONU diz ser
alvo de limpeza étnica
Discutindo um conceito A migração de cerca de 370 mil muçulmanos
rohingyas de Mianmar para Bangladesh nas
Genocídio últimas semanas é mais um capítulo de uma
história marcada por décadas de persegui-
2 De acordo com a Organização das Nações Uni- ções. [...] A maioria mora de forma precária
das (ONU), o genocídio ocorre quando os pode- no Estado de Rakhine, palco dos episódios
res constituídos em algum lugar têm a intenção recentes de violência que o alto comissário
de exterminar grupos minoritários, por motivos das Nações Unidas para os direitos humanos,
étnicos ou religiosos. Tal perseguição tem o Zeid Ra’ad al-Hussein, classificou de “limpe-
objetivo de destruir a cultura e a coesão social
za étnica”. [...]
destas minorias.
Em Mianmar (antiga Birmânia), existe um povo A crise do povo rohingya é uma das mais lon-
que é perseguido pelo menos desde 1948, gas do mundo e também uma das mais negli-
quando a nação conquistou sua independência. genciadas. [...]. No país, eles são proibidos de
São os rohingya, uma minoria muçulmana em se casar ou de viajar sem a permissão das au-
um país onde o budismo prevalece. Nos últimos toridades e não têm o direito de possuir terra
anos, no entanto, uma crise política e social ou propriedade.
aumentou as hostilidades contra os rohingyas, QUEM SÃO os rohingyas, povo muçulmano que a
que se viram obrigados a fugir, criando uma ONU diz ser alvo de limpeza étnica. BBC Brasil,
das maiores crises humanitárias da história 13 set. 2017. Disponível em: https://www.bbc.
recente. Leia, a seguir, trechos de reportagens com/portuguese/internacional-41257869. Acesso
sobre o assunto. em: 15 jul. 2020.

86
TEXTO II Em grupos, discutam as seguintes questões,
com base nos textos e no que vocês estudaram
Corte Internacional ordena que sobre genocídio.
Mianmar proteja muçulmanos a) Expliquem a diferença entre perseguição re-
rohingyas ligiosa e genocídio.
A Corte Internacional de Justiça (CIJ) ordenou b) A perseguição ao povo rohingya pode ser
nesta quinta-feira (23) que Mianmar tome “me- qualificada como um genocídio? Justifiquem.
didas urgentes” para proteger os muçulmanos c) A discriminação com base em religião é bas-
rohingyas de perseguição e atrocidades e pre-
tante comum pelo mundo todo. Pesquisem
serve evidências de crimes contra eles.
uma notícia sobre esse assunto e respondam:
Desde agosto de 2017, quase 740 mil rohingyas ■ O caso que vocês encontraram se pa-
buscaram refúgio em Bangladesh para escapar rece com a questão dos rohingyas em
dos abusos do exército birmanês e de milícias Mianmar? Quais são as diferenças? E as
budistas, classificados como “genocídio” por
semelhanças?
investigadores da ONU.
■ Há algum grupo no Brasil que poderia vir
É a primeira vez que as denúncias de perse- a sofrer perseguição ou até genocídio? Se
guição contra essa minoria chegam ao tribu- sim, qual?
nal, sediado em Haia, na Holanda.
■ O que pode ser feito para evitar tragédias
[...] A decisão ordena o governo birmanês a como a dos rohingya?
exercer influência sobre seus militares e gru-
pos armados para evitar assassinatos e feri-
mentos de membros do grupo, além de vetar a
imposição de “condições de vida que delibe-
De olho na universidade
radamente pretendam levar à destruição físi-
3 (Enem - 2019) A maior parte das agressões e
ca no todo ou em parte” dos rohingyas.
manifestações discriminatórias contra as reli-
O grupo continua “sob sério risco de genocídio”, giões de matrizes africanas ocorrem em locais
afirmou o juiz que preside o caso, Abdulqawi públicos. É na rua, na via pública, que tiveram
Yusuf, e Mianmar deve “tomar todas as medi- lugar mais de 2/3 das agressões, geralmente
das em seu poder para prevenir tais atos”. em locais próximos às casas de culto dessas
CORTE Internacional ordena que Mianmar proteja religiões. O transporte público também é apon-
muçulmanos rohingyas. Folha de S.Paulo, 23 jan. tado como um local em que os adeptos das reli-
2020. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/
mundo/2020/01/corte-internacional-ordena-que-
giões de matrizes africanas são discriminados,
mianmar-proteja-muculmanos-rohingyas.shtml. geralmente quando se encontram paramenta-
Acesso em: 8 set. 2020. dos por conta dos preceitos religiosos.
REGO, L. F.; FONSECA, D. P. R.; GIACOMINI, S. M.
© UNICEF/UN0120423/Brown

Cartografia social de terreiros no Rio de Janeiro.


Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014.

As práticas descritas no texto são incompatíveis


com a dinâmica de uma sociedade laica e demo-
crática porque

a) asseguram as expressões multiculturais.


b) promovem a diversidade de etnias.
c) falseiam os dogmas teológicos.
d) estimulam os rituais sincréticos.
Refugiados rohingya chegam a Cox's Bazar, Bangladesh, em
2017, após viagem de barco. e) restringem a liberdade de credo.

87
C A
P Í
T U
L O

Torcedores utilizam máscaras


para assistir a jogo de
beisebol em Seul (Coreia A BN CC NE STE CA P ÍT U L O :
do Sul), 2020. Países que
tomaram medidas de controle Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 4, 5, 7, 9 e 10.
logo nos primeiros casos
de covid-19, como a Coreia Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1, 2 e 3.
do Sul, registraram menos
Competência específica de Matemática e suas Tecnologias: 2.
mortes pela doença e menor
impacto social e econômico. Competência específica de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 2.
O país foi um dos primeiros
a retomar as competições Habilidades: EM13CHS103, EM13CHS106, EM13CHS201, EM13CHS204, EM13CHS304,
esportivas durante a EM13MAT202 e EM13CNT207.
pandemia da covid-19.
Temas Contemporâneos Transversais: Ciência e Tecnologia; Multiculturalismo – Educação para
valorização do multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras; Saúde – Saúde;
Cidadania e Civismo – Processo de envelhecimento, respeito e valorização do idoso; Vida Familiar
e Social.

88
Para as Ciências históricas, [...] a observação
e a narrativa histórica seriam os principais
instrumentos para o correto entendimento do
ocorrido em épocas pretéritas. Nesse processo,
a crença e o misticismo deixariam de ser o
caminho para o conhecimento, que passaria a
ser adquirido, através da racionalidade e da
pesquisa, pelo método científico [...]. Assim, a
expansão, por exemplo, do método científico aos
fenômenos sociais e da evolução, pela utilização
do procedimento comparativo e histórico,
colocaria tais Ciências em bases firmes e seguras.

ROSA, Carlos Augusto de Proença. A ciência e o triunfo


do pensamento científico no mundo contemporâneo.
In: História da ciência. 2. ed. Brasília, DF: Fundação
Alexandre de Gusmão, 2012. v. 3, p. 20.

INDICADORES O Projeto
deste

Q U A N T I TAT I V O S N A S
volume está
relacionado
com diversos
temas
CIÊNCIAS HUMANAS do capítulo.

No início de 2020, um gráfico utilizado por epidemiologistas tornou-se conhecido por


grande parte da população mundial: a curva epidêmica. Sua popularidade se deve à
pandemia da covid-19, causada pelo novo coronavírus. Sem uma vacina ou um remédio
para a doença, a grande expectativa era pelo “achatamento” da curva, isto é, a redução
no ritmo de infecção, para evitar que o sistema de saúde ficasse sobrecarregado.
Chung Sung-Jun/Getty Images

As variáveis desse gráfico – ou seja, os eixos vertical e horizontal – representam, res-


pectivamente, o número de casos de infectados e o período transcorrido. É um gráfico de
fácil entendimento. As interpretações sobre como proceder após sua análise, entretanto,
não são tão simples. São escolhas políticas.
Entender e representar a evolução do núme- SUA EXPERIÊNCIA PESSOAL
ro de casos de uma doença virótica pode ser
um trabalho da área de Saúde. Ao ser utilizada Com base em seus conhecimentos
para intervenção ou políticas públicas, a infor- sobre o assunto, responda:
mação torna-se também objeto privilegiado das 1. Durante a pandemia da covid-19, o
Ciências Humanas. O cientista social tem capa- “achatamento” da curva epidêmica
no Brasil teria evitado qual problema?
cidade e conhecimento para avaliar as medidas De que modo esse “achatamento”
tomadas pelos governos em relação ao contro- poderia ser alcançado?
le das epidemias e seus efeitos em diferentes 2. Você sabe quais foram as políticas
aspectos sociais. Sem análises críticas desse públicas adotadas durante a
pandemia no município e no estado
tipo, os poderes governamentais poderiam se em que você mora? Em caso positivo,
tornar onipotentes e autoritários. quais foram suas consequências?

89
A QUANTIFICAÇÃO NAS
CIÊNCIAS HUMANAS
Vemos, nas notícias do cotidiano, os estudos e as descobertas científicas
OBSERVE QUE...
serem apresentados com números que comprovam seus resultados. Esses re-
sultados são apenas uma pequena amostra de dados quantitativos com que os A consolidação da
pesquisadores dos diferentes campos da ciência trabalham. No entanto, o uso ciência como explicação
para fenômenos
sistemático de dados numéricos pela ciência é algo relativamente recente – em
naturais e humanos
especial nas Ciências Humanas. ocorreu no contexto de
Na realidade, até o século XVIII não havia distinção efetiva entre as ciências. mudança dramática
No Ocidente, todos os pensadores eram vistos como “filósofos” e podiam se dedi- na ordem social na
car ao estudo de conhecimentos diversos. Não existia o conceito atual de ciência Europa: industrialização,
como área especializada de conhecimento construído com base na observação urbanização acelerada,
êxodo rural e as
de fatos e fenômenos que possibilitam elaborar hipóteses e teorias.
consequentes
transformações no

Bridgeman Images/Fotoarena
mercado de trabalho.
Diante desses
fenômenos sociais, as
explicações religiosas
ou meramente
filosóficas mostravam-
-se insuficientes.

Leitura da tragédia de Voltaire


O órfão da China no salão de
madame Geoffrin, de
Anicet-Charles-Gabriel
Lemonnier, 1812 (óleo sobre
tela, 35,6 cm 3 52,1 cm).
Marie-Thérèse Rodet Geoffrin
(1699-1777) organizava
salões literários em Paris
no século XVIII, nos quais
reunia importantes nomes
do Iluminismo. O movimento
foi divulgador da ciência e
precursor dos estudos da
humanidade como ciência.

A ciência começou a tomar forma quando a razão (no sentido de raciocínio)


passou a ser considerada mais adequada que a fé e a religião para explicar
os fenômenos naturais e humanos. Essa valorização da razão revolucionou a
mentalidade dos intelectuais europeus no século XVIII e esteve no cerne do
Iluminismo, deixando para a humanidade um legado fundamental. A religião
ainda tem grande importância na vida particular de bilhões de pessoas, mas é
o pensamento racional que orienta os estudos de cientistas e a elaboração de
políticas públicas, por exemplo.
Entre os séculos XVIII e XIX, as ciências se diferenciaram umas das outras
conforme acumularam saberes e se especializaram em seus objetos de estu-
do e suas metodologias de pesquisa. O racionalismo científico se impôs por
meio dessas novas disciplinas como caminho para a busca do conhecimento,
baseando-se na pesquisa empírica e nos procedimentos da razão para buscar
relações de causalidade para as explicações. Mas como se propunha estudar
as sociedades humanas nesse contexto? Uma das respostas históricas foi a
criação da Sociologia.

90
S OC I EDA D E E C IÊ N CI A
A criação de uma abordagem científica para o estudo do comportamento hu-
mano está entrelaçada com a metodologia de outras ciências que se consoli-
daram nos séculos XVIII e XIX, como a Física, a Química e a Biologia. Diversos
intelectuais pretendiam que os estudos sobre as sociedades teriam o mesmo
valor que os de outras áreas do conhecimento caso adotassem procedimentos
científicos semelhantes. Foi assim que Auguste Comte (1798-1857), no século COMTE, Auguste. Curso
XIX, desenvolveu a teoria positivista, uma doutrina filosófica que considerava o de Filosofia positiva.
conhecimento científico a única forma verdadeira de conhecimento. Tradução de José Arthur
Giannotti. São Paulo: Abril
Para tanto, Comte defendeu que era necessário identificar, por meio da obser- Cultural, 1983. (Coleção Os
vação, as leis que regiam as sociedades. Como nas Ciências da Natureza, a rea- pensadores).
lização de experimentos seria fundamental, pois constatar a repetição de certos
fenômenos possibilitaria criar leis científicas. A quantificação das informações,
que se tornava possível com o nascimento de outra ciência – a Estatística –, per-
mitiria chegar a generalizações. O positivismo pretendia ir além da descrição da OBSERVE QUE...
sociedade, não só apontando e explicando problemas, mas também dando a base Um uso pioneiro de
para ações que visassem transformá-la. dados quantitativos em
um estudo sociológico
Comte é considerado o fundador da Sociologia, proposta por ele como uma
foi feito pelo francês
“física social”. Porém, seu objetivo de chegar a leis inquestionáveis sobre o fun- Émile Durkheim
cionamento da sociedade jamais poderia ser atingido. Diferentemente do que (1858-1917) em O
ocorre com os fenômenos químicos, por exemplo, os fenômenos sociais não po- suicídio (1897). Com
dem ser repetidos com exatidão para teste e tampouco apresentam resultados base em estatísticas
idênticos. Com isso, a partir do século XX, a Sociologia adotou outras abordagens de diferentes países,
para compreender a sociedade. Mesmo assim, o positivismo deixou um impor- o sociólogo buscou
tante legado: a utilização de dados quantitativos nas Ciências Humanas. demonstrar que
a taxa de suicídio
era influenciada
A DE FIN I ÇÃ O D O M É T O DO NAS CIÊ NCIAS por determinadas
características sociais
HU M A NAS (escolaridade, estado
matrimonial, religião,
Cada pesquisa tem desafios específicos, que exigem conhecimentos, métodos entre outras).
e técnicas adequados ao tema delimitado. Assim, a formação do pesquisador
deve incluir não apenas leituras sobre o tema escolhido, mas também sobre as
opções metodológicas pertinentes. Por exemplo, um historiador ou um sociólogo
que se proponha a estudar preços de bens, salários e padrões de vida precisa ter
conhecimentos de Economia. Se a pesquisa envolver estimativas, ele também
deverá ter noções de Estatística e ter à disposição programas de informática para
a análise e o tratamento dos dados.
Marcelo Fonseca/Folhapress

Arqueólogos em escavação no Rio de Janeiro


(RJ), 2018. Naquele ano, durante a construção
do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), foram
encontrados esqueletos de pessoas que
teriam pertencido à elite carioca do século
XVII. Os profissionais da Arqueologia usam
metodologias sofisticadas para realizar
escavações a fim de localizar vestígios
materiais, como objetos e construções;
depois, estudam suas características para
obter informações sobre tempos passados
da humanidade. Descobertas da Química
sobre um isótopo do carbono, o carbono-14,
no fim dos anos 1940, foram fundamentais
para que hoje seja possível saber a datação
aproximada desses vestígios. As ciências têm
seus campos de pesquisa específicos, mas
continuam contribuindo umas com as outras.

91
As técnicas de coleta de dados para uma pesquisa em Ciências Humanas in- No Projeto deste
cluem observação participante, realização de entrevistas, aplicação de questioná- volume, você
rios, formulários e testes, entre outras. Há quem estabeleça, com base nessas vai elaborar um
técnicas, uma diferenciação entre métodos qualitativos e métodos quantitativos. questionário
Na realidade, a partir dos anos 1950, a maioria das pesquisas em Ciências Sociais qualitativo com base
passou a combinar ambos os tipos para a análise tanto de estruturas gerais da na definição de uma
sociedade quanto de grupos sociais específicos ou mesmo de indivíduos. Desse amostra.
modo, a diferenciação a seguir tem mais caráter didático que prático.
A pesquisa qualitativa coleta e estuda dados ou informações que não podem
ser quantificados, ou seja, transformados em números com valor explicativo. Suas OBSERVE QUE...
hipóteses ou conclusões se baseiam em técnicas, como a observação de indivíduos Técnica e método não
e grupos sociais, a realização de entrevistas com roteiros abertos, entre outras. No são sinônimos. Técnicas
caso da História, por exemplo, a interpretação de vestígios arqueológicos, docu- de pesquisa são as
mentos ou dados obtidos por meio de técnicas de história oral são considerados ferramentas utilizadas
qualitativos; na Antropologia, pode-se citar a observação etnográfica de socieda- pelo pesquisador.
Já o método é mais
des tradicionais para identificar características de suas práticas religiosas ou a
abrangente e diz
realização de entrevistas abertas para apreender os significados que pessoas de respeito ao caminho
um grupo atribuem a uma prática. adotado pelo
Já a pesquisa quantitativa busca transformar os dados coletados em variáveis pesquisador para
numéricas, para então usar a Matemática na compreensão de questões da socie- conduzir sua pesquisa.
dade. Desde suas origens, na segunda metade do século XIX, a Economia e a So- A metodologia de
ciologia se valeram de informações quantitativas para pautar seus estudos. Hoje, uma pesquisa envolve
quase todas as Ciências Humanas, incluindo a Psicologia, a História, a Geografia, a o uso crítico das
Ciência Política e a Antropologia, podem se valer delas para corroborar hipóteses ferramentas com base
ou conclusões. nas discussões teóricas
sobre elas, o que inclui,
Uma técnica muito usada nas pesquisas sobre o comportamento humano são entre outras coisas,
os questionários padronizados. Em um questionário padronizado, todas as pergun- os procedimentos
tas são previamente definidas, bem como a ordem em que elas serão apresenta- que permitem a
das. Também as respostas são, na maior parte, padronizadas: o respondente pre- interpretação dos
cisará escolher uma opção predefinida ou então o pesquisador deverá indicar uma dados coletados.
alternativa que corresponda à resposta aberta dada pelo entrevistado. Um exemplo
desse tipo de questionário é o aplicado nos recenseamentos nacionais. Os censos
demográficos são estudos fundamentais para que os cientistas sociais interpretem
os desafios do país na atualidade ou analisem sua evolução no tempo, e também
para que o Estado formule e ponha em prática políticas públicas.
Palê Zuppani/Pulsar Imagens

Agente do IBGE realiza


pesquisa de campo para
o Censo Demográfico de
2010, em Brasília (DF).
A informatização da
coleta e da análise dos
dados permite que os
resultados de grandes
pesquisas quantitativas
sejam consolidados com
mais rapidez.

92
OS O BJE TI V OS D E R E A L I ZAÇ ÃO DAS PE SQUISAS
As pesquisas também podem ser classificadas se- considerados dificulta que se chegue a respostas in-
gundo seu objetivo. Por esse critério, elas se dividem contestáveis. Ainda assim, é possível obter resultados
em três tipos: exploratória, descritiva e explicativa aproximados, que fornecem informações importantes
(também conhecida como causal ou experimental). sobre as sociedades e seus desafios.
As pesquisas exploratórias são uma etapa inicial Essas pesquisas procuram superar explicações
para conhecer o que pessoas de um grupo sabem ou do senso comum, afastando fatores que não inter-
pensam sobre um determinado assunto. Elas procu- firam na ocorrência de um fenômeno. No caso de
ram se aprofundar nas informações com um grupo pesquisas de caráter quantitativo, os dados coleta-
pequeno de pesquisados. Um exemplo: uma pesqui- dos passam por uma análise, por meio da qual são
sa com jovens de 10 a 14 anos de uma escola sobre o classificados segundo suas características e trans-
grau de conhecimento a respeito da hepatite B pode formados em variáveis. A pesquisa explicativa busca
auxiliar a administração pública na elaboração de descobrir se a alteração no valor de uma variável se
propaganda de conscientização em relação à impor- reflete em outra ou outras, desde que mantidas as
tância da vacinação contra essa doença. Determina- condições das demais, para então investigar se se
das pesquisas de mercado, voltadas à compreensão trata de uma relação causal ou não.
do comportamento de um público

Reprodução/IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística


consumidor, também podem ser
exploratórias. Ao sondar alguns
moradores do bairro a respeito de
seus hábitos e suas maneiras de
tomar decisões, uma rede de lojas
pode definir quais produtos venderá
em uma unidade a ser instalada na
região e como montar sua vitrine.
Pesquisas descritivas, como o
nome indica, coletam dados que
permitem compor um quadro das
características de um grupo ou de
uma população. Seu aspecto mais
importante é a padronização na co-
leta de dados, tal como ocorre nos
questionários aplicados nos censos
populacionais.
As pesquisas explicativas são mais
complexas, porque procuram com-
provar ou não as causas de um fenô-
meno. Como vimos, um dos grandes
desafios para as Ciências Humanas
é o fato de que os fenômenos sociais
são influenciados por inúmeros fa-
tores, muitos dos quais escapam do
controle do pesquisador. A impossi-
bilidade de que um fenômeno se re-
pita e de que todos os fatores sejam

Primeira página do questionário


para o Censo Demográfico do
Brasil de 2020, adiado para 2021
em decorrência da pandemia da
covid-19. Nela são indicadas as
informações básicas para uma
análise demográfica. O protocolo
da coleta de dados pressupõe a
resposta ao questionário de forma
presencial, por meio de visitas dos
recenseadores a todos os domicílios.

93
UMA CIÊNCIA DAS
POPULAÇÕES HUMANAS
As condições de vida da população humana no mundo tornaram-se uma preo- OBSERVE QUE...
cupação crescente dos pensadores a partir do século XVIII. Se antes os filósofos A passagem do século
discutiam em termos mais gerais ideias como as de boa vida e bem comum, XVIII para o XIX trouxe
nesse momento a preocupação sobre os rumos da humanidade se baseava mais mudanças na maneira
nas condições materiais, concretas, das pessoas. como os Estados
O aprimoramento da coleta e da análise de dados quantitativos, graças a novos nacionais administravam
métodos e conhecimentos matemáticos e estatísticos, possibilitou conhecer me- serviços e sua relação
lhor as populações dos países – que não paravam de aumentar. Isso levou muitos com a população.
pensadores das nascentes Ciências Humanas a se debruçarem sobre o tema. Na Segundo o sociólogo
passagem do século XIX para o XX, formou-se uma disciplina para estudar espe- Max Weber (1864-1920),
cificamente os aspectos quantitativos das populações humanas: a Demografia. consolidou-se um
corpo de funcionários
especializados que
PO PU LA Ç Ã O E D E S E N V O LV IM E NT O põe em prática regras
técnicas. A chamada
EC ON ÔM I C O burocracia, longe do
sentido pejorativo,
Um dos precursores da demografia foi o pastor anglicano Thomas Robert Malthus significava maior
(1766-1834). No início da Revolução Industrial, na Inglaterra do século XVIII, Malthus racionalidade na
observava com ceticismo a possibilidade de que a oferta de alimentos atendesse ao administração do Estado,
gigantesco crescimento populacional inglês da época. Ele formulou uma perspectiva pois seguia critérios
catastrofista: caso não houvesse obstáculos ao ritmo de crescimento da população, ela estabelecidos, e não a
duplicaria a cada 25 anos, o que significaria um aumento em progressão geométrica. vontade de quem está
Em contrapartida, a produção de alimentos não aumentaria no mesmo ritmo, porque no poder. Por sua vez, o
avançaria em progressão aritmética. A solução, para ele, seria estimular a redução filósofo Michel Foucault
do número de nascimentos entre as pessoas mais pobres, pois estas teriam menos (1926-1984) cunhou
condições de sobreviver em caso de escassez de alimentos. o termo biopolítica
para explicar como o
Estado utiliza seu poder
Bridgeman Images/Fotoarena

para organizar a vida


dos indivíduos de uma
população da maneira
que lhe seja mais
conveniente.

Covent Garden, de Pieter


Angillis (1685-1734),
c.1726 (óleo sobre cobre
de 47,8 cm 3 63 cm).
A imagem retrata uma área
de Londres (Inglaterra),
no século XVIII. O aumento
da população ocorria
principalmente nos centros
urbanos, inflados em
virtude do desenvolvimento
industrial.

A teoria malthusiana apostava que os recursos naturais podiam estar próximos da


finitude, o que determinaria o limite para o desenvolvimento humano. Sua previsão
pessimista não se concretizou em razão de duas mudanças trazidas pela sociedade
industrial moderna: uma na dinâmica populacional e outra na produção de alimentos.

94
Na época de Malthus, a população inglesa cres- ao bem-estar familiar e maior aceitação da con-
cia em ritmo acelerado porque as pessoas conti- tracepção na sociedade, ainda que os métodos da
nuavam tendo muitos filhos, começaram a viver época fossem primitivos e falhos.
por mais tempo e a mortalidade infantil teve leve Por sua vez, o desenvolvimento tecnológico tam-
redução. Pouco mais de um século depois, no en- bém chegou à produção de alimentos. Novas tec-
tanto, também a taxa de natalidade começou a de- nologias na agricultura, na pecuária, na pesca e na
clinar. Já no início do século XX, as mulheres ingle- conservação e no transporte de alimentos fizeram
sas optavam por ter menos filhos por uma série de sua produção e sua durabilidade aumentar signifi-
fatores, que incluíam novas escolhas em relação cativamente.

A NALISANDO MENSAGENS

A pirâmide etária é uma representação gráfica utilizada para identificar a distribuição em faixas de ida-
des da população de um país, de um estado ou de um município. Esse tipo de representação auxilia, entre
outros objetivos, na avaliação da mão de obra potencial disponível e do crescimento de determinados gru-
pos, a fim de planejar políticas públicas para o presente e para o futuro – por exemplo, a previdência social.
A comparação de pirâmides etárias de diferentes épocas permite avaliar mudanças e permanências
estruturais da sociedade, conforme a composição numérica das faixas etárias. Até poucos anos atrás, o
Brasil era um país de estrutura etária jovem. Observe estas pirâmides etárias.

B R A S I L : P I R Â M I D E E TÁ R I A ( 1 9 6 0 ) B R A S I L : P I R Â M I D E E TÁ R I A ( 2 0 1 0 )
Banco de imagens/Arquivo da editora

Banco de imagens/Arquivo da editora


HOMENS MULHERES HOMENS MULHERES
ACIMA DE ACIMA DE
5 687 512 5 505 877 3 891 013 5 349 657
70 ANOS 70 ANOS
65 A 69 ANOS 5 170 579 4 987 844 65 A 69 ANOS 2 224 065 2 616 745

60 A 64 ANOS 4 297 589 4 263 367 60 A 64 ANOS 3 041 034 3 468 085

55 A 59 ANOS 3 452 198 3 722 613 55 A 59 ANOS 3 902 344 4 373 875

50 A 54 ANOS 2 993 680 3 244 240 50 A 54 ANOS 4 834 995 5 305 407

45 A 49 ANOS 2 545 283 2 700 565 45 A 49 ANOS 5 692 013 6 141 338

40 A 44 ANOS 2 254 266 2 265 538 40 A 44 ANOS 6 320 570 6 688 797

35 A 39 ANOS 1 973 919 1 992 655 35 A 39 ANOS 6 766 665 7 121 916

30 A 34 ANOS 1 658 476 1 578 883 30 A 34 ANOS 7 717 657 8 026 855

25 A 29 ANOS 1 392 602 1 320 727 25 A 29 ANOS 8 460 995 8 643 418

20 A 24 ANOS 1 110 873 1 050 074 20 A 24 ANOS 8 630 227 8 614 963

15 A 19 ANOS 822 979 769 041 15 A 19 ANOS 8 558 868 8 432 002

10 A 14 ANOS 720 653 682 309 10 A 14 ANOS 8 725 413 8 441 348

5 A 9 ANOS 399 676 388 000 5 A 9 ANOS 7 624 144 7 345 231

0 A 4 ANOS 530 745 609 613 0 A 4 ANOS 7 016 987 6 779 172

Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Censo demográfico Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Censo
1960. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/ demográfico 2010. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/
periodicos/68/cd_1960_v1_br.pdf. Acesso em: 4 ago. 2020. sinopse/webservice/frm_piramide.php. Acesso em: 4 ago. 2020.

1 Que conclusão se pode tirar a partir da observação dos dois gráficos?

2 No intervalo de cinquenta anos entre as duas representações, a população brasileira pouco mais que
dobrou. Seria possível esperar que de 2010 até 2060 ela dobre mais uma vez? Justifique sua resposta.

3 No caso do Brasil da década de 1960, considerando apenas a estrutura etária, que medidas o poder público
deveria ter enfatizado para estimular o desenvolvimento socioeconômico? E no Brasil de 2010? Reúna-se
com um colega para discutir as possibilidades e depois escrevam uma breve exposição de seus argumentos.

95
TR A NS IÇ Ã O D E M O GRÁ F IC A
Malthus viveu na fase inicial de uma transição demográfica na Inglaterra. O que
é isso? É uma mudança na dinâmica populacional observada, de modo geral, no
momento de industrialização e urbanização das sociedades. Em termos esquemá-
ticos, as sociedades partem de um nível elevado de nascimentos e de mortes, o
que resulta em um crescimento moderado da população ou em equilíbrio. Quando
se entra na transição demográfica, o número de filhos por mulher segue elevado
ou mesmo aumenta, e a mortalidade, embora siga elevada, começa a diminuir. A
consequência é o aumento populacional ou a explosão demográfica.
Em um momento posterior da transição, a taxa de natalidade passa a cair
também, até que se chega a um novo equilíbrio demográfico, com baixas taxas de
natalidade e de mortalidade. Alguns países chegaram a essa etapa nas últimas
décadas, e ainda não se sabe se a tendência em suas populações é de queda, em
razão da baixa natalidade, ou de leve alta, graças a uma recuperação da natali-
dade, sob incentivo dos governos.

TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA (MODELO)

Banco de imagens/Arquivo da editora


?
Taxa de natalidade
40
?
Taxa de mortalidade
Taxas de natalidade e mortalidade
(por 1 000 pessoas por ano)

30

20 Crescimento natural

OBSERVE QUE...
?
A mortalidade de
10 População total
crianças era expressiva
? entre o século XVIII e a
primeira metade do XIX.
Estimativas baseadas
Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 5
nos registros paroquiais
apontam que cerca
Fonte: elaborado com base em ROSER, Max. The five stages of the demographic transition. de 50% das crianças
Our World in Data. Disponível em: https://ourworldindata.org/world-population-growth.
Acesso em: 20 jul. 2020.
nascidas vivas em várias
regiões europeias, e
também no Brasil, não
É importante enfatizar que se trata de um modelo geral, pois cada país obser-
chegavam aos 10 anos
vou um processo distinto. A Inglaterra, um exemplo muito estudado de transição de idade. A mortalidade
demográfica, é peculiar porque foi um dos primeiros países a passar pela transi- era maior em crianças
ção demográfica. Durante séculos, registrou um crescimento populacional baixo. até 1 ano: de 16% a 30%
No período em que o país se industrializou, entre as últimas décadas do século do total de nascidos.
XVIII e o início do século XX, houve uma explosão demográfica. Depois, a evolução
da população voltou a um equilíbrio. taxa de fecundidade
No século XIX, as práticas anticonceptivas eram desconhecidas ou pouco utilizadas, número médio de
ao mesmo tempo que também há um intervalo biológico mínimo necessário entre uma crianças nascidas vivas
gravidez e outra. Malthus e outros analistas de sua época e do século XIX considera- por mulher ao longo de
vam que a taxa de fecundidade seria uma constante biológica, o que não é verdade. sua idade reprodutiva.
Muitos demógrafos, escrevendo entre as décadas de 1950 e 1970 e observando
a transição tal como ocorria naquele momento em outros países, consideraram
que o aumento populacional estava relacionado à diminuição da mortalidade. No
entanto, nada de novo em termos de saúde pública ou de soluções médicas na
Inglaterra da Revolução Industrial justificava suficientemente a aplicação dessa
tese para aquele caso. Portanto, a Inglaterra deveria ter apresentado causas
diferentes para a explosão demográfica.

96
Bridgeman Images/Fotoarena
Na década de 1980, com os estudos demográ-
ficos já mais consolidados, o Grupo de Cambridge
apresentou uma nova hipótese: o fator principal
para o crescimento populacional inglês na época de
Malthus teria sido um aumento da taxa de fecundi-
dade. Essa explicação parte do fato de que a fecun-
didade é um fator social e cultural, pois o intervalo
entre a maturidade sexual feminina e a idade média
em que as mulheres começam a gerar o primeiro
filho é variável segundo as condições da época e da
sociedade. Assim, a idade média em que as mu-
lheres tinham o primeiro filho na Inglaterra teria
caído ao longo do século XVIII, o que faria com que
cada mulher tivesse ao menos um ou dois filhos a
mais, em média. E foi também por questões sociais
e culturais que, no século XX, a fecundidade caiu Refeição em família ou O flautista da vila, dos irmãos Le Nain,
e a idade média do primeiro filho subiu, levando a 1642 (óleo sobre tela, 22,5 cm 3 30,5 cm).
novas mudanças demográficas.
Trata-se de uma hipótese, cuja comprovação ainda não se concluiu. Pes-
quisadores que concordam com ela explicam a diminuição da idade da mulher
ao ter o primeiro filho pelas maiores possibilidades de emprego trazidas pela
industrialização. Os que discordam a consideram simplista, porque a dinâmica
populacional não se reduz a aspectos econômicos, envolvendo também expe-
riências e expectativas culturais. As dificuldades de comprovação em um caso
como este mostram os limites das Ciências Humanas: seriam necessários
mais dados quantitativos e qualitativos para validar a hipótese. Mesmo assim,
hipóteses podem e devem ser elaboradas.
O controle quase absoluto sobre os nascimentos nos países ocidentais veio
apenas com a introdução da pílula anticoncepcional, em 1960. A invenção revo-
lucionou os hábitos sexuais ocidentais, pois permitiu que a procriação se tor-
nasse efetivamente uma questão de escolha, dissociada da vida sexual. Essas Detalhe do Altar de
transformações são de caráter cultural, pois as mulheres ocidentais adotaram Domício Enobarbo.
a pílula mesmo com a oposição de igrejas cristãs e de setores conservadores da Peça da República
Romana, datada de
sociedade, priorizando suas decisões pessoais. aproximadamente
100 a.C. A imagem
representa o registro
A S OR I GE NS D A D E M O G RAFI A de cidadãos romanos
durante um censo.
Ao longo da história, inúmeras sociedades utiliza-
ram-se de informações quantitativas para conhecer
suas populações ou avaliar suas riquezas. O pensa-
dor Confúcio (551 a.C.-479 a.C.), por exemplo, rela-
tou que se faziam levantamentos de informações
populacionais na China 2 mil anos antes da Era Cris-
tã. Durante o governo de Augusto (63 a.C.-14 d.C.), o
Império Romano fez diversos recenseamentos para
calcular os impostos a serem cobrados em cada
província de seus domínios, incluindo o realizado
entre os judeus em 6 d.C., relatado no Novo Testa-
mento. No Egito antigo, os faraós sistematicamen-
te utilizaram-se de pesquisas quantitativas, assim
como alguns povos pré-colombianos, como os incas.
Essas informações serviam, basicamente, para fins
fiscais (cobrança de impostos), militares (conhecer a
população para potencial convocação em conflitos e
guerras) ou de controle.
Gianni Dagli Orti/Shutterstock

97
O uso de dados quantitativos para além desses objetivos deu seus primeiros pas-
OBSERVE QUE...
sos no século XVII, na Inglaterra, quando estudiosos tentaram utilizar informações
numéricas para planejar políticas de Estado e realizar estimativas para o futuro, o A palavra demografia
que foi batizado de “aritmética política” pelo filósofo britânico William Petty (1623- se origina dos termos
-1687). Como as técnicas estatísticas ainda eram incipientes, os resultados foram gregos dêmos, que
significa “população”, e
bastante frágeis. Mesmo assim, foi o início do que hoje se denomina Demografia,
graphein, que significa
ciência fundamental para as políticas públicas relativas à economia, à saúde, ao
“escrever”, “estudar”.
crescimento ou decrescimento populacional, entre outras. Assim, demografia é a
Em 1693, o astrônomo inglês Edmond Halley (1656-1742) utilizou os dados anuais descrição ou o estudo
de natalidade, bem como de mortalidade e idade no momento da morte, da cidade de uma população.
germânica de Breslau (atualmente Wroclaw, na Polônia) para o período entre 1687 e
1691 e construiu uma tábua de mortalidade. Esse instrumento indica a probabilida-
de de morte de acordo com a faixa etária. Foi o primeiro uso científico, nas Ciências
Humanas, da teoria matemática da probabilidade, assunto de grande interesse
para as Bolsas de Valores, as companhias de seguro e os sistemas de previdência.
Reprodução/Coleção particular

Tabela criada por


Edmond Halley para seu
estudo de 1693 sobre a
população de Breslau
(atual Wroclaw, Polônia).
Ele fez um levantamento
de número de pessoas
por faixa de idade com
base nos dados da
paróquia local.

No século XVIII, é criado o termo statistik (estatística), atribuído ao historiador e


jurista prussiano Gottfried Achenwall (1719-1772). O aperfeiçoamento dessa ciência
no século XIX permitiu que as estimativas sobre as características de uma popula-
ção se tornassem mais precisas. Isso foi fundamental para o desenvolvimento das
pesquisas das Ciências Humanas nascentes. Foi também de enorme proveito para
as políticas públicas, que se consolidavam conforme a administração do Estado se
profissionalizava e a demanda de população por direitos começava a ser atendida.
Não existe Estatística sem quantificação, uma vez que essa ciência opera com
cálculos matemáticos. A Estatística pode ser descritiva, ao agregar e resumir da-
dos, mas também tem usos probabilísticos, ao calcular as chances de que dado
fenômeno aconteça. Por exemplo, a Estatística descritiva identifica a porcentagem
de pessoas por faixa etária no Brasil e o número de mortes por covid-19 segundo
a idade. Com base nisso, a probabilística estima que pessoas com mais de 60 anos
têm maior risco de morrer em decorrência do coronavírus.
O cálculo estatístico pode fazer uso da amostragem. Em vez de aplicar questio-
nários em toda uma população, calcula-se uma amostra representativa dela, que
permite chegar a um resultado muito próximo ao que seria aferido por uma pes-
quisa com o conjunto total da população. É o método usado pela Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua), que coleta e analisa, trimes-
tralmente, dados populacionais sobre variados assuntos de interesse do governo
brasileiro e dos pesquisadores.

98
ANALISAR E REFLETIR

Observe os mapas e o gráfico a seguir. Eles foram elaborados com base em dados da Pnad Contínua. Os ma-
pas mostram o nível de acesso, em cada unidade federativa, às condições mais favoráveis de abastecimento
de água e de coleta de esgoto.

DOMICÍLIOS COM ABASTECIMENTO D O M I C Í L I O S C O M E S G O TA M E N T O


DE ÁGUA POR REDE GERAL DE S A N I TÁ R I O L I G A D O À R E D E
DISTRIBUIÇÃO (%, 2019) GERAL OU PLUVIAL (%, 2019)
Mapas: Sonia Vaz/Arquivo da editora

50° O 50° O

RR RR
AP Equador AP
Equador
0° 0°
0

AM PA CE AM PA MA CE
MA RN
RN
PI PB PI PB
AC PE AC PE
AL AL
RO TO SE RO TO SE
BA BA
MT MT
DF DF

GO GO
OCEANO OCEANO
ATLÂNTICO ATLÂNTICO
MG MG
OCEANO MS ES OCEANO MS ES
PACÍFICO PACÍFICO
SP SP RJ
RJ
De 40% a 60% Trópico de
C a pr i c ó r
Até 25% Trópico de
C a p r icó r
nio PR n io
PR
De 60,1% a 75% De 25,1% a 50%
De 75,1% a 85% SC De 50,1% a 75% SC

Acima de 85% RS
Acima de 75% RS
Limite de 0 600 Limite de 0 600
macrorregi‹o macrorregião
km km

Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Pesquisa Nacional Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios Contínua 2019 – SIDRA. Disponível por Amostra de Domicílios Contínua 2019 – SIDRA. Disponível
em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6732. Acesso em: 2 ago. 2020. em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/7192. Acesso em: 2 ago. 2020.

BRASIL: PROBABILIDADE DE UM RECÉM-


- N A S C I D O N Ã O C O M P L E TA R 1 A N O D E
VIDA (A CADA MIL NASCIMENTOS, 2018

Fonte: elaborado com base em


Banco de imagens/Arquivo da Editora

Espírito Santo 8,1 BRASIL. IBGE. Tábua completa de


Paraná 8,6
Santa Catarina 8,6
mortalidade para o Brasil – 2018.
Rio Grande do Sul 9,1 Rio de Janeiro: IBGE, 2019. p. 10.
São Paulo 9,3 Disponível em: https://biblioteca.
Minas Gerais 10,0 ibge.gov.br/visualizacao/
Distrito Federal 10,1
periodicos/3097/tcmb_2018.pdf.
Rio de Janeiro 10,8
Pernambuco 11,7
Acesso em: 2 ago. 2020.
Brasil 12,4
Mato Grosso do Sul 13,2
Ceará 13,2
Rio Grande do Norte 13,5
Goiás 14,1
Paraíba 14,7
Sergipe
Tocantins
14,8
14,9
1 Identifique as macrorregiões em que
Pará 15,6 se concentram os estados brasileiros
Acre 15,8
Bahia 16,0 mais bem servidos e os menos servi-
Mato Grosso 16,1 dos por redes de água e de esgoto.
Roraima 16,8
Amazonas 17,2
Alagoas 17,3 2 Compare os dados do saneamento bá-
Piauí 18,0 sico com o quadro de mortalidade in-
Rondônia 19,2
Maranhão 19,4 fantil. É possível estabelecer hipóteses
Amapá 22,8
com base nessa comparação? Explique
0 5 10 15 20 25
quais e como poderiam ser testadas.

99
QUE STÕES EM FOCO
Sugerimos trabalhar esta seção em conjunto
A probabilidade nas Ciências Humanas com o professor de Matemática.

A palavra “probabilidade” vem do latim probare, cujo significado é “testar” OBSERVE QUE...
ou “provar”. Os cálculos sobre probabilidade se originaram em pesquisas so-
bre jogos de azar, destacando-se as descobertas dos matemáticos franceses Nos jogos de azar, o
resultado depende
Blaise Pascal (1623-1662) e Pierre de Fermat (1607-1665). Pascal e Fermat
exclusivamente do
criaram a Teoria Matemática das Probabilidades quando, em 1654, trocaram acaso (como a roleta
cartas para resolver um problema instigado pelo jogador Antoine Gombaud ou o jogo de dados), ou
(1607-1684). dele depende mais do
que do cálculo ou da
Leia o texto a seguir, que traz exemplos de aplicação da probabilidade nas habilidade do jogador
Ciências Humanas, e responda às questões propostas. (como alguns jogos de
cartas). Um exemplo é a
Na Estatística indutiva, a probabilidade é utilizada na coleta e análise de
loteria. A probabilidade
amostras de uma população para calcular acontecimentos futuros, infe- de uma pessoa ganhar
rindo, induzindo ou estimando leis de comportamento da população da na maior modalidade
qual a amostra foi retirada. Os cálculos probabilísticos podem analisar lotérica do Brasil –
hipóteses sobre as características da população a partir da análise da um jogo de azar em
amostra representativa dessa população. Os censos, [...] as pesquisas que o apostador deve
eleitorais são exemplos da aplicabilidade de probabilidade na estatística. acertar os seis números
MOREIRA, Andrea de Paula Machado. Aplicações da teoria da decisão e sorteados em um
probabilidade subjetiva em sala de aula do Ensino Médio. 2015. Dissertação conjunto de sessenta – é
(Mestrado profissional) – Instituto de Matemática, Estatística e Computação de 0,00000002%, se ela
Científica, Unicamp, Campinas, SP, 2015. jogar uma única vez.

1 Em uma pesquisa sobre a intenção de voto do eleitorado brasileiro para a Presidência da República, os
pesquisadores entrevistam apenas um grupo de pessoas (amostra) com características que representam
estatisticamente o total do eleitorado brasileiro. Entre essas características estão, por exemplo, idade,
gênero, escolaridade, classe social e distribuição regional. Observe a tabela a seguir.

BRASIL: ELEITORADO, POR GRANDE REGIÃO (2020)

BRASIL – GRANDES REGIÕES N Ú M E RO D E E L E I TO R E S

Norte 11 907 068

Nordeste 40 654 004

Sudeste 64 720 776 Fonte: elaborado com base


em BRASIL. Tribunal Superior
Sul 21 781 948 Eleitoral (TSE). Estatísticas do
eleitorado: consulta por região/
Centro-Oeste 10 943 632 UF/município. Disponível
em: www.tse.jus.br/eleitor/
Exterior 509 988
estatisticas-de-eleitorado/
BRASIL 150 517 416 consulta-quantitativo.
Acesso em: 20 jul. 2020.

a) Considerando os dados da tabela, seria correto entrevistar a mesma quantidade de pessoas (por exem-
plo, quinhentas pessoas) em cada região do Brasil? Justifique sua resposta.
b) É comum ouvir que pesquisas eleitorais são pouco confiáveis ou sujeitas a erro. Outros criticam as pes-
quisas eleitorais porque sua divulgação influenciaria, por si só, o comportamento dos eleitores, pois uma
parte deles poderia trocar seu candidato inicial por outro com mais chance de vitória. Discuta com a
turma que peculiaridade isso revela na comparação com outros tipos de cálculo de probabilidade.
2 Além da pesquisa por amostragem, o conceito de probabilidade tem inúmeras utilizações nas Ciências
Humanas. Com quatro colegas, pesquise algumas delas e elabore um material de divulgação (cartaz ou
apresentação digital).

100
A DE MO G RA F I A H O J E
A Demografia, segundo a Organização das Nações Geografia, a Sociologia, a Economia, a Estatística, as
Unidas (ONU), se define como “o estudo da estru- Ciências da Saúde e a História.
tura, composição e movimento das populações hu- Estudos demográficos passam, em geral, por três
manas”. Ela se dedica a entender as características fases: coleta de dados, análise demográfica e estudos
das populações, seus padrões de crescimento ou populacionais. Além de conhecer o tamanho e a com-
decrescimento, sua mobilidade no mundo por meio posição das populações, a Demografia tem por finali-
das migrações, suas possibilidades de desenvolvi- dade relacionar os elementos variáveis e dinâmicos
mento. Os resultados de suas pesquisas também que as influenciam, sejam eles socioeconômicos, cul-
são estudados por diversas áreas do saber, como a turais, territoriais e/ou temporais.

QUE ST ÕES EM FOCO

Migração e xenofobia
O crescimento natural, por meio de nascimentos e gressaram no país mais de 3,5 milhões de estrangeiros,
mortes, não é o único fator de variação de uma popula- sobretudo japoneses, sírio-libaneses, italianos, portu-
ção. As migrações trazem não apenas alteração numé- gueses, espanhóis e alemães. Nas últimas décadas do
rica na população dos países, mas também consequên- século XX, em contrapartida, o número de brasileiros
cias sociais, econômicas e culturais. que saíram do país superou o de estrangeiros que aqui
Sempre houve migração de populações no planeta. se instalaram.
No entanto, as situações migratórias tiveram diferen- Segundo a ONU, nunca houve tanta movimentação
tes contextos ao longo da história. O território brasileiro de pessoas no planeta. Em 2019, mais de 270 milhões
é um exemplo: há mais de um milênio, recebeu dife- de pessoas não viviam em seus países de origem; des-
rentes levas de povos indígenas; a partir de 1500, houve sas, 80 milhões teriam sido obrigadas a se deslocar por
grande influxo de portugueses, que trouxeram consigo conflitos, perseguições e violências. Os desafios apre-
africanos, que seriam escravizados; entre o século XIX e sentados pela integração econômica dessa população
a primeira metade do XX, o governo brasileiro financiou e pela convivência entre diferentes culturas fez surgir
e fez acordos com outros países para estimular a vinda uma onda anti-imigração no mundo, estimulada por go-
de imigrantes para fornecer mão de obra para a cafei- vernantes conservadores eleitos em países europeus e
cultura agroexportadora no Sudeste e para adensar o mesmo nos Estados Unidos – país que um século atrás
povoamento do Sul. Entre 1889 e 1930, por exemplo, in- estimulava a entrada de estrangeiros em seu território.

1 Pesquise os tipos de migração que existem no mundo hoje segundo a motivação. Escreva uma breve
definição para cada um deles.
2 Observe o mapa a seguir. Em seguida, faça as atividades.

M U N D O : S A L D O M I G R AT Ó R I O E S T I M A D O ( 2 0 1 2 - 2 0 1 7 )
a) Identifique
Sonia Vaz/Arquivo da editora

0º OCEANO GLACIAL ÁRTICO quais são


Círculo Polar Ártico os países ou regiões do
mundo com maior saldo
migratório no período.
Trópico de Câncer
Depois, identifique os paí-
OCEANO OCEANO
ses com saldo negativo.
OCEANO ATLÂNTICO
Equador
PACÍFICO PACÍFICO
b) É possível afirmar que

De –2 000 000 a –1 000 000
OCEANO os países com maior
ÍNDICO
De –1 000 001 a –500 000
Trópico de Capricórnio saldo migratório são
De –500 001 a –100 000
De –100 001 a 0 os que receberam mais
Meridiano de
Greenwich

De 0,1 a 100 000 0 3600 imigrantes? Justifique


De 100 001 a 500 000
km
De 500 001 a 1 000 000 sua resposta.
De 1 000 001 a 2 000 000 OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO
Círculo Polar Antártico
De 2 000 001 a 5 000 000
Sem dados

Fonte: elaborado com base em BANCO MUNDIAL. Our World in Data. Disponível em:
https://ourworldindata.org/grapher/net-migration. Acesso em: 23 jul. 2020.

101
CENSOS POPULACIONAIS NACIONAIS
Como vimos, recenseamentos são um instrumento Marc Ferrez/Col. Gilberto Ferrez/Instito Moreira Salles

antigo, já existentes há mais de 2 mil anos. No entan-


to, eles não tinham regularidade e eram pouco mais
que uma contagem populacional, com a coleta de
poucas informações. Os censos tais como concebidos
hoje são mais recentes. A Grã-Bretanha realizou seu
primeiro censo geral em 1801, sob a coordenação do
estatístico inglês John Rickman (1771-1840). Daí em
diante, houve censos a cada dez anos, com exceção de
1941, em virtude da Segunda Guerra Mundial.
Seguindo o exemplo britânico, quase todos os paí-
ses ocidentais passaram a realizar censos decenais,
com o intuito de conhecer os dados demográficos e
estabelecer políticas de Estado para os mais varia-
dos fins. No Brasil, o primeiro recenseamento ge-
ral ocorreu em 1872, durante o Império (1822-1889).
Criada em 1870, a Diretoria Geral de Estatística orga-
nizou um questionário unificado a ser aplicado a todo
o território imperial. Apesar de problemas de execu-
ção em algumas províncias, esse censo é considera- Trabalhadores escravizados em fazenda de café na região
do o marco da entrada do Brasil no período estatísti- do Vale do Paraíba, c. 1882. O censo previsto para ocorrer
co. Por ele, pôde-se constatar que a população total naquele ano, que seria o segundo em escala nacional, não
foi realizado. Dez anos antes, de uma população total de
do Brasil era de cerca de 10 milhões de habitantes, 9,93 milhões de habitantes, o censo contabilizou 15,24% de
sendo 52% de homens e 48% de mulheres; 15% da pessoas escravizadas.
população era de escravizados.
Contudo, a prevista periodicidade decenal do recenseamento não foi manti- prov’ncia
da. Os problemas de execução se agravaram nas décadas seguintes: o Censo divisão territorial do
de 1900, o primeiro do período republicano, produziu resultados não confiáveis. Brasil Império que
O que seria realizado em 1910 nem sequer foi iniciado. Foi apenas em 1920, correspondia aos atuais
com o censo populacional e agrário, que se organizou de maneira eficiente a estados. Em 1872, o
contagem da população brasileira. Com a crise política de 1930, mais uma vez Brasil estava dividido
não houve recenseamento. Somente a partir de 1940, os censos se tornaram em 21 províncias, além
decenais. do município neutro (a
cidade do Rio de Janeiro,
Em 1934, a Diretoria Geral de Estatística foi substituída pelo Instituto Nacional então capital).
de Estatística (INE), instalado efetivamente em 1936 e vinculado ao Ministério da
Economia. Em 1938, um decreto-lei criou, a partir do INE, o Instituto Brasileiro de
Censo IBGE
F I CA A D I CA

Geografia e Estatística (IBGE). O IBGE tem atribuições relacionadas à divulgação de


dados que possam fornecer informações ligadas à geociência e às dinâmicas das https://censo2020.
populações. Hoje, suas informações estão disponíveis em plataformas virtuais e ibge.gov.br/
podem ser acessadas por qualquer pessoa. Conhecer os dados do país, bem como Página oficial do Censo
do município e do estado em que se vive, é fundamental para uma atuação cidadã de 2020 do IBGE, com
informações detalhadas
consciente e responsável.
do processo de coleta e
Quase 140 anos depois, pelo Censo de 2010, o total de habitantes do Brasil divulgação dos dados.
ultrapassou a marca de 190 milhões, sendo 48,97% homens e 51,03% mulheres.
Já não há mais escravidão, e o número de divisões administrativas cresceu para IBGE Cidades
26 estados e o Distrito Federal. Em 2019, a população estimada do Brasil era de https://cidades.ibge.
cerca de 210 milhões de habitantes, o que significa um acréscimo em cerca de gov.br/
20 milhões de pessoas no período de nove anos. Esse aumento populacional não Esta página reúne
foi uniforme em todo o território nacional nem em todos os estratos da popula- dados estatísticos sobre
ção. O próximo censo permitirá que se faça um perfil detalhado dessa evolução as cidades brasileiras
demográfica. De qualquer maneira, a tendência é de diminuição da taxa de cres- coletados em diferentes
pesquisas do IBGE,
cimento da população do Brasil, que tende ao envelhecimento. A proporção de além de fotos e textos
casais coabitantes sem filhos aumentou muito nos últimos censos, em especial informativos.
nas grandes cidades, e a expectativa de vida cresceu.

102
ANALISAR E REFLETIR

1 Analise o mapa Brasil: densidade demográfica (2010) e responda às questões a seguir.

BRASIL: DENSIDADE DEMOGRÁFICA (2010)


a) Quais são as macrorregiões mais densamen-
Sonia Vaz/Arquivo da editora

50° O

Boa Vista te povoadas do país?


RR AP
Macapá
Equador
0° b) Identifique outros aspectos da distribuição
Belém São Luís populacional do país.
Manaus Fortaleza
c) Identifique qual foi a fonte empírica de dados
AM PA
MA CE
Teresina RN Natal
PB
João
Pessoa
para a elaboração desse mapa. Debata rapi-
PI
AC
Porto Palmas
PE Recife
damente com um colega sobre como o mapa
Rio AL Maceió
Velho
Branco
RO TO
SE
Aracaju
pode ter sido elaborado.
BA
MT Salvador
Cuiabá DF
Brasília
GO Goiânia OCEANO
MG ATLÂNTICO
MS
Campo Grande Belo Horizonte ES
OCEANO Vitória
PACÍFICO SP
RJ
r nio São Paulo
de Capricó Rio de Janeiro
Trópico PR
Curitiba
Habitantes por km²
Menos de 1 SC
Florianópolis Fonte: elaborado com
De 1 a 10
RS base em BRASIL. IBGE.
De 10,1 a 25
De 25,1 a 100
Porto Alegre
0 585 Atlas geográfico escolar.
Mais de 100 7. ed. Rio de Janeiro,
km
2016. p. 114.

2 Os censos possibilitam identificar fragilidades na habitação. O mapa a seguir apresenta a quantidade


de pessoas vivendo nos chamados aglomerados “subnormais”, ou seja, conjuntos de construções irre-
gulares e com acesso precário a serviços urbanos básicos, como água encanada. Compare o mapa a
seguir com o anterior e faça as atividades.
a) Destaque um aspecto já esperado na compa- BRASIL: PESSOAS VIVENDO EM AGLOMERADOS
ração dos dois mapas. SUBNORMAIS, POR MUNICÍPIO (2010)

Sonia Vaz/Arquivo da editora


b) Destaque um aspecto contrastante entre eles. 50° O

c) O mapa ao lado indica o número de municí- Boa


Vista
pios por classe. O que isso significa? Por que RR
AP
Macapá Equador
essa informação quantitativa é importante? 0°
São Luís
Belém Fortaleza
Manaus
3 A expressão “aglomerado subnormal” é des- AM PA MA
Teresina RN Natal
CE
conhecida da maior parte dos brasileiros, PI
PB
João
Pessoa
AC PE Recife
que, em geral, usam outros nomes para esse Rio Porto Velho Palmas
AL
Branco TO Maceió
conjunto de moradias. O IBGE inclui uma re- RO
MT BA
SE
Aracaju

sidência nessa categoria com base em crité- Cuiabá DF


Salvador
Brasília
rios técnicos, aferidos nas respostas dadas GO
OCEANO
Goiânia
ao questionário, em informações das prefei- Campo
MG
Belo Horizonte ATLÂNTICO
Grande ES
turas municipais e em imagens de satélite. É Domicílios particulares MS Vitória

um exemplo de uso analítico de dados quan- ocupados em aglomerados


subnormais
SP
RJ Trópico
de Cap
titativos brutos. Maior que 250 000
PR
Curitiba São Paulo
Rio de Janeiro ricórni
o

De 45 001 a 250 000 SC


a) Qual é o nome dado em sua região para esse De 20 001 a 45 000
RS
Florianópolis
Porto
tipo de conjunto de residências? Para você, De 4 501 a 20 000 Alegre
0 585
que características o definiriam? Até 4 500
km

b) Pesquise os critérios usados pelo IBGE para Fonte: elaborado com base em BRASIL. IBGE. Atlas nacional
definir um aglomerado subnormal e redija digital do Brasil. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/apps/
uma definição resumida. atlas_nacional/. Acesso em: 22 jul. 2020.

103
SÉRIES HISTÓRICAS E MUDANÇAS
Quilombolas no

F I CA A D I CA
Um dos aspectos mais relevantes dos dados quantitativos em pesquisas perió- Brasil
dicas é a possibilidade de traçar séries históricas. A comparação dos valores de https://quilombo-
determinada categoria permite avaliar mudanças na sociedade ao longo do tem- las-ibgedgc.hub.
po e dá elementos para a formulação de hipóteses, por parte dos pesquisadores, arcgis.com
e de políticas públicas, por parte do Estado. Site com informações
No entanto, nem sempre é possível manter os parâmetros para as informações do IBGE sobre
coletadas. Quando a comunidade científica reconhece determinadas transforma- as comunidades
quilombolas no Brasil,
ções na sociedade, podem ocorrer mudanças nas nomenclaturas propostas para
incluindo uma relação
as informações a ser coletadas. Em censos e pesquisas por amostragem re- completa delas por
centes, críticas sobre a invisibilidade de alguns grupos sociais provocaram mu- unidade federativa.
danças nos questionários. Um deles foi a substituição da indicação de “chefe de
domicílio” pela de “pessoa de referência”, ocorrida em 1995, resultando em mais
respostas de mulheres como responsáveis principais pela renda domiciliar. OBSERVE QUE...
Outra mudança diz respeito à identificação dos indivíduos quanto à etnia, cor A coleta de dados do
ou “raça”. O Censo de 1872 incluía a categoria “caboclo”, nomenclatura substituí- censo populacional
da anos depois por “pardo”. Somente com o Censo de 1991 incluiu-se a identida- brasileiro estava prevista
de “indígena”, o que enfim deu visibilidade a esse grupo na demografia brasileira. para o segundo semestre
de 2020, mas a pandemia
O questionário do Censo de 2020 prevê importantes mudanças. Houve redução da covid-19 fez com que
de cerca de 30% nas perguntas, sob a justificativa de dar agilidade à coleta de o governo tivesse de
dados e economizar recursos. Os críticos das mudanças afirmam que a supres- adiá-la para 2021. Ainda
são de perguntas pode prejudicar pesquisas e políticas públicas em determina- que a informatização da
dos setores, como o de habitação – a questão sobre o valor do aluguel pago foi análise dos dados tenha
eliminada. Em contrapartida, outras informações foram incluídas. Pela primeira dado mais rapidez ao
processo, os resultados
vez, o censo mapeará, em áreas cadastradas previamente pelo IBGE, as pessoas preliminares, em geral,
que se consideram quilombolas – ou seja, que descendem de escravizados que só começam a ser
construíram comunidades estáveis e longevas e continuam a viver nelas. divulgados cerca de seis
meses depois da coleta.

O MAL DAS MÉDIAS


PIB brasileiro
F I CA A D I CA

As estatísticas calculadas a partir de um conjunto de dados são um importante


instrumento para a compreensão geral de um indicador. No entanto, elas não são www.ibge.gov.br/
isentas de problemas. Tome-se como exemplo a renda per capita de uma popu- explica/pib.php
lação, usada até bem pouco tempo para avaliar o desenvolvimento de um país. O IBGE apresenta as
Esse indicador é uma média simples: a soma de todos os rendimentos do país – o variáveis que entram
produto interno bruto (PIB) – é dividida pelo número de pessoas de sua população. na equação do cálculo
O PIB do Brasil em 2019 foi de R$ 7,3 trilhões e a renda mensal domiciliar do PIB.
per capita, de R$ 1.439,00. Essa média esconde uma grande desigualdade entre
Rendimento
os estados. Das 27 unidades federativas, somente Mato Grosso e Espírito Santo
domiciliar
tiveram valores próximos a R$ 1.400,00. Nas demais, os valores variaram entre
per capita
R$ 635,59 (Maranhão) e R$ 2.685,76 (Distrito Federal). Mas será que, em geral,
os indivíduos no Distrito Federal, por exemplo, têm essa renda? A resposta é não. https://agenciade-
Em lugares com grande desigualdade social, a média pode encobrir a realidade. noticias.ibge.gov.br/
agencia-sala-de-
Como a renda per capita se limitava a avaliar a dimensão econômica, e mesmo
imprensa/2013-
assim era sujeita a distorções, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvi-
agencia-de-noticias/
mento (Pnud) criou, em 1990, outro índice para avaliar o desenvolvimento de um
releases/26956-ibge-
país, estado ou região: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
divulga-o-rendimen
O IDH é um índice complexo e considera variáveis como renda, saúde e educação. to-domiciliar-per-
Também encobre desigualdades, claro, em especial quando atribuído a um extenso capita-2019
território. Por isso, hoje, se calcula o Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado à
Na página é possível
Desigualdade (IDHAD), no qual se desconta de cada indicador que compõe o índice
encontrar detalhes
um valor correspondente ao grau de desigualdade verificado. Há também o Índice de sobre a renda per
Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), que enfoca o nível municipal, tão im- capita por estado.
portante para se identificar problemas a serem enfrentados pelos poderes públicos.

104
QUE STÕES EM FOCO

Séries históricas, tendências e exceções

Charge sobre a
epidemia de covid-19,
de autoria do
cartunista Junião,
Junião/Ponte Jornalismo
2020.

Como vimos, o número de nascidos vivos e o de mortos costumam definir a parte mais significativa da
variação populacional de um local em determinado período. As taxas anuais de natalidade e mortalidade,
expressas em permilagem (‰), são calculadas pelas seguintes equações:

1 000
■ Taxa de natalidade 5 número de nascidos vivos 3 .
número de habitantes
1 000
■ Taxa de mortalidade 5 número de mortes 3 .
número de habitantes

1 Em trio, analisem a variação populacional do seu município nas últimas décadas.


a) Para iniciar, acessem a página do Datasus, disponível em: www.datasus.saude.gov.br (acesso em: 22 jul.
2020). Em seguida, na categoria “nascidos vivos”, busquem os dados dos anos de 2000, 2010 e 2020.
b) Busquem a categoria “mortalidade” e extraiam os dados dos mesmos anos.
c) Busquem a categoria “população residente” e extraiam o número de habitantes do município em cada
um desses anos.
d) Depois de recolhidos os dados, vocês devem organizá-los em uma tabela, digital ou manual. Então,
calculem as taxas de mortalidade e natalidade para cada um desses anos.
e) Com essas informações em mãos, façam um cálculo aproximado do crescimento vegetativo do municí-
pio ao longo do período e verifiquem se a migração foi um fator relevante para a variação populacional.

2 Façam um relatório que apresente e interprete a variação das taxas do município. Para elaborá-lo, consi-
derem, além dos dados encontrados, os seguintes pontos:
a) contexto econômico, social e político do município e da região em cada período;
b) os possíveis efeitos da pandemia do coronavírus em 2020 ou de alguma tragédia local em algum dos
anos considerados;
c) o comportamento da população e dos poderes públicos diante da pandemia e de qualquer outro evento
excepcional mencionado no passo b;
d) os possíveis efeitos de campanhas de conscientização ou estímulo em algum dos índices trabalhados
(natalidade, mortalidade, migração).

105
R O T E I R O D E E S T U D O S
1 Em uma pesquisa quantitativa, os dados em si de 1990, com as PNADs, que introduzem o
nada representam. Eles precisam ser interpreta- conceito de “pessoa de referência” em subs-
dos ou até mesmo criticados. Vejamos um exem- tituição ao de “chefe do domicílio”, deixan-
plo: uma comparação dos anos de 2005 e 2015 do ainda ao respondente a tarefa de nominar
feita em uma síntese de indicadores sociais e a pessoa, homem ou mulher, responsável pelo
condições de vida publicada pelo IBGE levou às domicílio, o que era dificultado com a noção
seguintes conclusões: de chefia que, pela matriz cultural dominante,
era mais facilmente atribuída à figura mascu-
lina do domicílio, marido ou pai, mesmo em
TEXTO I circunstâncias de inatividade. […]
Uma dessas mudanças foi o aumento da pro-
[Há] a tendência histórica da reprodução de
porção de mulheres que se encontravam na
estatísticas sociologicamente cegas a gê-
condição de pessoa de referência da família,
nero, baseadas numa neutralidade relativa
de 30,6% para 40,5% dos arranjos residentes
em domicílios particulares, de 2005 a 2015. e expressa pela ideia de um homem médio
Ainda que o critério de seleção da pessoa de ideal – o que é uma mera abstração, como o
referência seja subjetivo para cada arranjo, é a noção de renda per capita, por exemplo,
notou-se uma tendência de crescimento na que não fala muito das condições e qualida-
indicação da mulher como pessoa de referên- de de vida da maioria da população de um
cia na família, especialmente nos arranjos for- país, pois se baseia na ideia de um indivíduo
mados por casal. Nas famílias formadas por “médio”, que dificilmente pode ser represen-
casal com filhos a proporção de arranjos em tativo dos sujeitos reais, homens e mulheres,
que a mulher era a pessoa de referência pas- de diferentes idades, classes sociais e grupos
sou de 6,8% para 22,5%, de 2005 para 2015. étnico-raciais.
Nos arranjos de casal sem filhos a tendência
MACEDO, Márcia dos Santos. Mulheres chefes
foi a mesma, o percentual em que a mulher de família e a perspectiva de gênero: trajetória
era a pessoa de referência passou de 8,4% de um tema e a crítica sobre a feminização da
para 22,0% no mesmo período. pobreza. Caderno CRH, Salvador, Bahia, v. 21,
n. 53, p. 389-390, maio/ago. 2008. Disponível
BRASIL IBGE. Síntese de indicadores sociais: em: www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-
uma análise das condições de vida da população 49792008000200013&script=sci_abstract&tlng=pt.
brasileira: 2016. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. Acesso em: 28 maio 2020.
Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/
visualizacao/livros/liv98965.pdf. Acesso em: 28
maio 2020. a) O que levou à mudança de identificação da
pessoa responsável pelo domicílio no questio-
Avalie um balanço sobre essa mudança na análi- nário do Pnad?
se a seguir e então responda às questões. b) Argumente se você concorda ou não com a
mudança da expressão “chefe de família” para
“pessoa de referência” nos questionários.
TEXTO II
c) Selecione algumas razões que contribuíram
Destarte, a crítica realizada pelos estudos de para o panorama apresentado no texto I.
gênero vem provocando uma significativa al-
teração na sistemática de coleta de informa-
ções e nas formas de processamento e análise
de dados. Um exemplo claro disso, nos estu- Brasil: interpretação de um fato
dos sobre família, deu-se com um conjunto de
mudanças realizadas pelo Instituto Brasilei- 2 O Ministério da Saúde, em parceria com o IBGE e
ro de Geografia e Estatística – IBGE, a partir com o apoio do Ministério da Educação (MEC), realiza
do Censo de 1980, quando o recenseador ou frequentemente a Pesquisa Nacional de Saúde do
recenseadora recebe a instrução de atribuir Escolar (PeNSE). Segundo o Ministério da Saúde:
ao informante a tarefa de designar a pessoa
que acredita deter a chefia familiar. Outra A PeNSE faz parte das ações do Ministério da
mudança importante ocorre partir da década Saúde na investigação da frequência e a dis-

106
tribuição de fatores de risco e proteção para de saúde aos adolescentes brasileiros com
doenças crônicas não transmissíveis entre base nos temas escolhidos por você.
adolescentes escolares brasileiros.
e) Apresente os resultados ao professor e à tur-
O objetivo da pesquisa é subsidiar o moni- ma, com o objetivo de analisar coletivamente
toramento de fatores de risco e proteção à se as tendências indicadas na PeNSE são ob-
saúde em escolares do Brasil. Além disso, servadas em sua comunidade escolar.
identifica as questões prioritárias para o de-
senvolvimento de políticas públicas voltadas
para a promoção da saúde em escolares, em
especial o Programa Saúde na Escola (PSE).
De olho na universidade
[…]
3 (UEPG 2012) Com relação aos indicadores so-
BRASIL. Ministério da Saúde. Pesquisa ciais e econômicos de um país ou de uma de-
Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE): o que é,
para que serve, temas. Disponível em: terminada região, assinale o que for correto.
https://saude.gov.br/saude-de-a-z/pense/.
Acesso em: 28 maio 2020. 01) O Índice de Desenvolvimento Humano – IDH,
criado pelo Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento – PNUD, leva em
Você vai coletar e sistematizar dados de nature-
consideração a expectativa de vida (medi-
za quantitativa levantados pela PeNSE e anali-
da pela longevidade e saúde da população),
sar se os indicadores encontrados se aplicam à
escolaridade (medida pela taxa de analfa-
realidade de sua comunidade escolar. Para isso,
betismo e tempo médio de escolaridade) e
siga estas etapas:
Produto Interno Bruto – PIB per capita (que
a) Acesse as tabelas com os dados levantados mede o nível de vida da população).
pela PeNSE em: www.ibge.gov.br/estatisticas/ 02) Apenas a renda per capita de um país não
sociais/educacao/9134-pesquisa-nacional- exprime a sua realidade socioeconômica
de-saude-do-escolar.html?=&t=resultados interna, pois não informa a respeito da dis-
(acesso em: 3 ago. 2020). tribuição desigual de renda e nem sobre o
b) Selecione a última edição da pesquisa e qua- bem-estar humano desse país.
tro temas que considere interessantes para 04) Para avaliar o desenvolvimento social e
discussão nesta atividade. Escolha um dos humano de um país ou região muitos são
planos amostrais disponíveis: escolares fre- os índices utilizados, dentre os quais se in-
quentando o 9o ano do Ensino Fundamental cluem dados sobre a contagem da popula-
(amostra 1) e escolares de 13 a 17 anos de ção, analfabetismo, taxa de escolaridade,
idade frequentando as etapas do 6o ao 9o ano acesso à água potável e à rede de esgoto,
do Ensino Fundamental e do 1o ao 3o ano do mortalidade infantil e fecundidade, expec-
Ensino Médio, no ano de referência da pes- tativa de vida e cálculo do Produto Interno
quisa (amostra 2). Bruto – PIB.
c) Extraia os dados referentes ao Brasil, à uni- 08) No Brasil, em praticamente todos os que-
dade da Federação em que você vive e à ma- sitos normalmente utilizados para avaliar
crorregião brasileira na qual esta se localiza. o desenvolvimento social e humano, as re-
Insira os dados em uma planilha própria e giões Sul e Sudeste têm desempenho su-
elabore gráficos de barras com o objetivo de perior aos das regiões Norte, Centro-Oes-
comparar as unidades territoriais utilizadas te e, especialmente, do Nordeste.
(nacional, estadual e regional). 16) O Índice de Desenvolvimento Humano –
d) Elabore um relatório com os gráficos e a in- IDH, que vai de um a zero, é alto nos países
terpretação das tendências observadas, ava- como Noruega, Suécia, Austrália, Canadá
liando que medidas devem ser adotadas pelo e Holanda, entre outros, e baixo na maioria
poder público para garantir boas condições dos países africanos subdesenvolvidos.

107
C A
P Í
T U
L O

A escritora mineira
Carolina de Jesus (1914-1977)
autografando seu livro A BN CC N ES T E C A PÍ T U L O:
Quarto de despejo, em noite
de autógrafos em São Paulo, Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3 e 4.
em 1960.
Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1 e 2.

Competência específica de Linguagens e suas Tecnologias: 2.

Competência específica de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 3.

Habilidades: EM13CHS101, EM13CHS102, EM13CHS104, EM13CHS106, EM13CHS203,


EM13CHS205, EM13LGG202 e EM13CNT305.

Tema Contemporâneo Transversal: Multiculturalismo – Educação para valorização do


multiculturalismo nas matrizes históricas e culturais brasileiras.

108
[...] estou residindo na favela. Mas se Deus me
ajudar, hei de mudar daqui. Espero que
os políticos extingue [extingam] as favelas.

JESUS, C. Quarto de despejo: diário de uma favelada.


São Paulo: Francisco Alves, 2014. p. 21.

CIÊNCIAS HUMANAS
E L I T E R AT U R A
Professor, explique aos estudantes que Carolina Maria de Jesus só estudou até a segunda série do Primário, hoje terceiro
ano do Ensino Fundamental. A pouca educação escolar não diminuiu sua sensibilidade e a profundidade das suas reflexões
sobre a vida. Veja a discussão a respeito do tema no final deste capítulo.

A frase da epígrafe foi escrita pela mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977) em
sua autobiografia publicada em 1960, intitulada Quarto de despejo: diário de uma favelada.
Carolina de Jesus nasceu em Sacramento (MG). Em 1947 foi morar na favela do Ca-
nindé, em São Paulo, desempregada e grávida. Para sobreviver, catava e vendia papel.
Foi como teve acesso aos cadernos − vinte no total − que compõem seu diário, iniciado
em 1955.
Acervo Ultima Hora/Folhapress

Seu relato é um dos poucos registros em que se ouve a voz de quem ocupava espaços
de fronteiras sociais: mulher, mãe solteira, negra e favelada. Até então, tais espaços
eram temas presentes na literatura, mas com conteúdo ficcional. No Brasil da ditadura
militar, Carolina foi relegada ao esquecimento e ao retorno à pobreza. Somente anos
após sua morte, sua obra foi resgatada, principalmente quando, no Brasil, o movimento
negro tomou força, a partir da década de 1990.
O resgate de suas memórias e de sua obra SUA EXPERIÊNCIA PESSOAL
representa abrir as entranhas de uma socieda-
de que prima pela desigualdade em quase todos
1 Você já tinha ouvido falar de Carolina
os níveis. Maria de Jesus ou de outro escritor
A leitura e o estudo da literatura – material caro de periferia que retrata sua vida por
meio de manifestações literárias?
às Ciências Humanas – são mecanismos que pos-
sibilitam ouvir o outro, o diferente, fazendo parte 2 De que forma você acredita que
a literatura pode ser fonte de
do importante exercício da alteridade, que possi- conhecimento e transformação de
bilita a empatia e a diminuição da violência social. estruturas sociais?

109
L I T E R AT U R A O R A L E O R E S G AT E
DA TRADI‚ÌO E DA HISTîRIA
Album/De Agostini Picture Library/Easypix Brasil

Gravura de 1892
representando um griot
narrando uma história diante
de seu público. A imprensa
europeia daquele período
retratava os costumes dos
povos colonizados da África
e da Ásia reforçando o
exotismo e, com frequência,
destacando traços que
julgavam primitivos. Imagem
publicada na revista francesa
L'Illustration.

A expressão griot (em sua forma feminina, griote), usada atualmente nas par-
tes do mundo onde a presença africana foi expressiva, significa um resgate de
figuras que existem até hoje em partes da África, que têm como função a trans-
missão oral da cultura, por meio de contação de histórias, mitos, canções, profe-
tização de fatos, prevenção e aconselhamento de pessoas.
Uma das interpretações para a origem da palavra griot, aportuguesada para
griô, é a de que esta era a denominação usada pelos colonizadores franceses,
embora cada língua na África nomeasse essa função de forma diferente, como
na República do Mali, por exemplo, onde a personagem é chamada de dieli. O
termo genérico griot seria, portanto, uma apropriação externa, ou seja, como as
pessoas de fora dessas culturas nomeavam essa função.
A posição social do griot variava entre as sociedades africanas. Algumas socie-
dades o tratavam como animador popular, sem especificar a transmissão de tra-
dições orais. Em outras, ele estava a serviço de reis ou chefes, para divulgar seus
feitos, em uma espécie de propaganda política. Os Tonga denominavam um poeta
para louvar publicamente os chefes: eram os mbongi (arautos), que iam à frente
dos homens importantes em público, declamando sua genealogia, seus feitos e
sua importância. Em outros grupos só podiam ser griots os que viessem de uma
família de griots; ou seja, era uma função aprendida e transmitida pela linhagem.
De qualquer forma, em sociedades com enorme influência africana, in-
cluindo o Brasil, o termo foi apropriado no seu sentido mais amplo: conta-
dores de história, músicos e transmissores de conhecimento tradicionais. É OBSERVE QUE...
uma recriação apropriada por afrodescendentes, um modo de as populações Esse tipo de
negras da América tentarem se relacionar com a memória das terras de ori- manifestação oral
gem de seus ancestrais. Até pouco tempo atrás, a África e suas culturas só também é encontrado
eram visíveis e reconhecidas nas sociedades americanas por meio do uso de na Grécia antiga. Os
certos vocabulários, culinária, danças, etc. Agora, para os milhões de des- cantores públicos dos
feitos de deuses e
cendentes de africanos trazidos à força para a América, a recriação ou recu-
heróis, com ou sem
peração das histórias geracionais significa a criação de um lugar de memó- instrumentos musicais,
ria, e a figura do griot se tornou simbólica, mesmo que a origem desse nome eram denominados
seja decorrente da dominação colonial. aedos e rapsodos.

110
A África se tornou mais visível nos últimos anos em quase todos os ramos do
saber, mas não uma África homogênea, produto da globalização de tempos recen-
tes. É uma África variada e múltipla, como aliás são todos os territórios do mundo.
Especialmente no Brasil, que é talvez o país mais negro do mundo fora do con-
tinente africano, essa herança se reproduz nas artes, no cinema e na literatura,
embora os griots tenham sido muito pouco retratados na história do país. Sua sim-
bologia é apropriada em particular pela literatura, pelo cinema e pelas lutas afir- diáspora
mativas da negritude em espaços da diáspora africana. deslocamento forçado
A oralidade e seu estudo são o centro de análises para o conhecimento do pas- de grandes massas
sado e do presente, principalmente em sociedades ágrafas, como as da África de determinado grupo
pré-colonial, a fim de elaborar sua história, suas transformações linguísticas, sua populacional, em razão
de perseguição política,
cosmologia religiosa, sua estrutura social, etc.
religiosa e/ou étnica.

Amkoullel, o menino fula


F I CA A D I CA

De Amadou Hampâté Bâ. Tradução: Xina Smith de Vasconcelos. São Paulo:


Palas Athena: Casa das Áfricas, 2003.
Relato autobiográfico de Amadou Hampâté Bâ, um dos maiores pensadores da
África e sobre a África do século XX. Nele, o filósofo apresenta a realidade de
uma sociedade africana específica – a da cidade de Bandiagara, no atual Mali,
onde nasceu –, porque não tem a pretensão de generalizar características a uma
África tão múltipla. Segundo suas próprias palavras, o livro representa a força da
“oralidade deitada no papel”.

QUE STÕES EM FOCO

Documento escrito × documento oral

MORANDI Bruno/hemis.fr/Alamy/Fotoarena
O documento escrito é mais confiável que o documento oral? Nu-
merosos estudos atuais desvendam um riquíssimo universo através
da pesquisa oral. Leia o que diz um dos primeiros especialistas no uso
de fontes orais de maneira sistemática, o etnólogo e filósofo malinês
Amadou Hampâté Bâ (1901-1991):
O que se encontra por detrás do testemunho, portanto, é o pró-
prio valor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de
transmissão da qual ele faz parte, a fidedignidade das memórias
individual e coletiva e o valor atribuído à verdade em uma de-
terminada sociedade. Em suma: a ligação entre o homem e a
palavra. [...] Para alguns estudiosos, o problema todo se resume
em saber se é possível conceder à oralidade a mesma confiança
que se concede à escrita quando se trata do testemunho de fatos
passados. No meu entender, não é esta a maneira correta de se
colocar o problema. O testemunho [de fatos passados], seja es-
crito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale
Griots na região do Mali, África
o que vale o homem. [...] Contrariamente ao que alguns possam Ocidental. Foto de 2008.
pensar, a tradição oral africana, com efeito, não se limita a his-
tórias e lendas, ou mesmo a relatos mitológicos ou históricos, e os griots estão longe de ser seus
únicos guardiães e transmissores qualificados.
HAMPÂTÉ BÂ, A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J. (ed.). Hist—ria geral da çfrica I: metodologia e pré-história da
África. 2. ed. rev. Brasília: Unesco, 2010. p. 167-169.

1 Interprete o argumento do autor sobre os tipos de testemunho de fatos do passado considerando a oposi-
ção entre os saberes escrito e oral.

2 Elabore uma explicação para a afirmação do autor sobre a figura do griot e a transmissão do conhecimento.

111
A TRADIÇÃO ORAL
T R A N S F O R M A D A E M E S C R I TA

Reprodução/Coleção particular
Os contos de fadas tiveram uma fase
áurea na Europa no fim do século XVII,
principalmente através das obras dos
escritores franceses Charles Perrault
(1628-1703) e Marie Cathérine d’Aulnoy
(1651-1705) e outros. Perrault os reco-
lheu diretamente da tradição oral do
povo, usando a babá de seu filho como
principal fonte, e publicou-os em 1697
com o título Mamãe Ganso. Mas ele não
os transcreveu da forma que os ouviu,
fazendo adaptações ao gosto aristo-
crático e burguês. As versões popula-
res eram muito mais duras e violentas,
além de sistematicamente não terem
um final feliz.
No século XIX, a reprodução dos con-
tos populares teve como principal obje-
tivo a busca pela identidade de um povo,
sendo muitas vezes representante do
nacionalismo, como veremos adiante.
Os principais expoentes dessa nova fase
foram os germânicos conhecidos como
Irmãos Grimm (Jacob Grimm, 1785-
1863; e Wilhelm Grimm, 1786-1859) e o
dinamarquês Hans Christian Andersen
(1805-1875).
No fim do século XIX e início do sécu-
lo XX, foram organizadas grandes cole-
tâneas de contos populares, com o in-
tuito de resgatar a cultura oral popular,
batizada então de folclore, vocábulo de
origem inglesa: folk (povo) e lore (saber). João e Maria, conto de fadas dos irmãos Grimm, em ilustração de Arthur
Segundo o historiador norte-americano Rackham (1867-1939), presente na edição de The Fairy Tales of the Brothers
Grimm, publicada pela editora inglesa Pook Press em 2013.
Robert Darnton (1939-), tais coletâneas
oferecem a oportunidade de contato com a tradição oral das massas populares
do Antigo Regime, que teriam desaparecido sem deixar vestígios se não fosse
esse resgate.
Segundo Darnton: “Os contos populares são documentos históricos. Surgiram
DARNTON, R. O grande
ao longo de muitos séculos e sofreram diferentes transformações, em diferen- massacre de gatos. 2. ed.
tes tradições culturais. [...] sugerem como as próprias mentalidades mudaram”. Tradução: Sonia Coutinho.
Hoje o estudo dos contos, portanto, faz parte de análises históricas e mesmo Rio de Janeiro: Graal, 1986.
p. 26.
psicológicas, por meio de estudos sobre o imaginário coletivo. Porém, a versão
escrita perdeu em dramaticidade, já que aboliu o uso de sons como efeitos da
narrativa, bem como as pausas geradoras de suspense.
Nos dias atuais presenciamos um resgate da importância dos contadores de
história, uma atividade valorizada em diversos lugares do mundo. Apesar da es-
crita, a oralidade permanece como um dos pontos fortes das tradições populares
da maioria dos povos.

112
SABERES L I T E R AT U R A
C O N E C TA D O S E HISTîRIA

Defini•‹o do amor

Reprodu•‹o/Editora Aut•ntica
[...]
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,


uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta
MATOS E GUERRA, G. Definição
do amor. In: HANSEN, J. A.;
MOREIRA, M. (ed.). Gregório
de Matos: poemas atribuídos –
Códice Asensio-Cunha. São Paulo:
Autêntica, 2014. p. 460. v. 4.

Capa de volume com a reunião de


poemas atribuídos a Gregório de Matos,
editado e organizado por João Adolfo
Hansen e Marcello Moreira, publicado
em 2014 pela editora Autêntica.

O destaque para a tradição oral existiu e ainda persiste em sociedades com escrita, como a brasileira.
Um dos recitadores mais populares no período colonial brasileiro foi o advogado e poeta baiano Gregório
de Matos (1636-1696), com suas sátiras mordazes sobre a sociedade colonial, apelidado por isso de Boca
do Inferno. Gregório de Matos foi estudar na universidade de Coimbra e viveu 30 anos em Portugal. Foi
na volta ao Brasil, em 1682, que sua fama foi construída, como poeta repentista e recitador satírico, não
poupando o povo, a elite e muito menos o clero. Alguns críticos divergem sobre alguns poemas atribuídos
a ele, pois teriam sofrido mudanças realizadas por copistas ou recitadores.
A oralidade era seu forte, como ocorria em toda sociedade colonial. Inserido na corrente artística barro-
ca, caracterizada pelas dicotomias virtude × vício e sagrado × profano, foi considerado um gênio por muitos
críticos. Não foi autor apenas de sátiras, mas também de poemas líricos e sacros. No entanto, foram as
sátiras que lhe deram popularidade, o que lhe rendeu desafetos poderosos.
Gregório de Matos era filho de família colonial proprietária de engenho. Ao final da vida, entretanto,
estava pobre e com poucos amigos, tanto que foi desterrado para Angola, colônia portuguesa da África,
em 1694, retornando para Pernambuco um ano depois, proibido que estava de voltar à Bahia. Morreu no
mesmo ano em decorrência de febre (malária, provavelmente) contraída na África.
Não publicou obras em vida, e sua produção, toda ela manuscrita, se encontra em códices espalhados
por vários arquivos do Brasil e de Portugal.

■ Com base nessas informações, desenvolva em grupo uma avaliação sobre a validade ou não de consi-
derar a obra de Gregório de Matos uma manifestação cultural específica de determinada época e lugar:
a cidade da Bahia, como era denominada a cidade de Salvador na segunda metade do século XVIII.
Considerem se é pertinente ou não comprovar a autoria da obra que hoje se atribui ao poeta.

113
A obra infantojuvenil de Monteiro Lobato é hoje bastante criticada por movimentos negros, pois os personagens negros,
como tia Anastácia e tio Barnabé, são retratados como iletrados e assombrados por superstições.

A ES C RI TA D A T RA D I Ç Ã O OR AL
NO B RA S I L
O Brasil não ficou de fora desse resgate das histórias populares através OBSERVE QUE...
da escrita. Seu principal expoente foi, sem dúvida, o potiguar Luís da Câmara A historiadora Carla
Cascudo (1898-1986), advogado e escritor dedicado às tradições orais brasi- Maria Anastasia trata da
leiras e ao imaginário social. Foi um dos poucos a perceber a importância das miscigenação cultural
diversas culturas indígenas e africanas na estrutura da cultura brasileira. Seus da figura do Saci, com
livros Dicionário do folclore brasileiro e Antologia do folclore brasileiro são as características de
principais referências quando se trata de resgate de mitos e lendas brasileiros, entidades africanas,
lendas indígenas e
embora outros autores também tenham trabalhos significativos. portuguesas: “[uma]
HIstória popular muito conhecida e divulgada em vários tipos de mídia é a do entidade indígena foi
Saci-Pererê, mito brasileiro multiétnico com apelo didático e moral, considerado transformada no
Saci-Pererê pelos
uma alegoria mestiça do sertão e encontrado em quase todas as regiões do Brasil africanos que a
em diferentes formatos. Assim como ocorreu com as versões de contos populares misturaram com Ossaim,
na Europa, cujos enredos foram amenizados para não sensibilizar demasiado o negrinho de uma perna
público leitor, no Brasil, o Saci transformou-se: de homem de baixa estatura, só, filho de Oxalá e
sem uma perna, que faz o mal e prejudica pessoas, em um menino traquina e Iemanjá, orixá das folhas,
brincalhão – imagem mais difundida atualmente. da cura e da magia”.

Um dos principais divulgadores dessa versão foi seguramente o paulista


ANASTASIA, C. M. J.
Monteiro Lobato (1882-1948), bem como de outras figuras do imaginário popular, Saci-Pererê: uma alegoria
na coletânea infantojuvenil Sítio do Picapau Amarelo. Sua obra foi retratada em mestiça do sertão. In: PAIVA,
trabalhos no teatro, na televisão e na internet. Advogado e fazendeiro em área E. F.; ANASTASIA, C. M. J.
(org.). O trabalho mestiço:
de cafeicultura decadente do Sudeste, o escritor tem esse espaço geográfico e
maneiras de pensar e
cultural presente em suas obras, seja nas crônicas dos livros Urupês (1918), em formas de viver – Séculos XVI
que criou a figura do Jeca Tatu, caipira paulista, e Negrinha (1920), seja em Sítio a XIX. São Paulo: Annablume:
do Picapau Amarelo, obra em 23 volumes produzida entre 1920 e 1947. PPGH/UFMG, 2002. p. 382.
Reprodução/Coleção particular

OBSERVE QUE...
Ilustração O estereótipo
publicitária do representado por
personagem
Jeca Tatu corrobora a
Jeca Tatu e
seu autor, construção no imaginário
Monteiro Lobato, nacional de uma visão do
publicada campo como atrasado e
na revista do natural da terra como
Almanaque preguiçoso. Porém, em
Biotônico, em Parceiros do Rio Bonito
1935, para (1954), ao analisar como
divulgação
a condição do caipira se
de tônico
revigorante. altera com a urbanização,
Antonio Candido
Urupês é um livro de contos de Monteiro Lobato que apresenta pela primeira (1918-2017) mostra como
a vida do caipira, antes
vez a figura do Jeca Tatu, caipira preguiçoso e indolente, símbolo de uma épo-
baseada em agricultura
ca em nossa história em que se valorizava a modernidade em contraposição ao de subsistência e
atraso. Em termos culturais, Lobato criou uma simbologia de Jeca Tatu como cooperação, se deteriora
incivilizado do mundo rural. Essa dicotomia entre moderno e atrasado estimulou e suas opções de
os modernistas da década de 1920 a desprezar a literatura regionalista desse sustento se tornam
período, como veremos adiante. reduzidas.

114
A D I F U S Ã O D A E S C R I TA I M P R E S S A
A dependência da oralidade para o resgate do passado ou para a difusão de tipografia
conhecimentos ou informações foi comum a quase todas as sociedades huma- arte e processo
nas na Antiguidade, mesmo para as que tinham escrita. Eram formas diferentes de composição da
de comunicação. impressão de um texto.
Técnicas de reprodução de escrita para divulgação de informação a um grande eurocêntrico
público ainda não existiam. Havia, por certo, a reprodução de escritos realizada refere-se a uma visão
por copistas especializados, seja no mundo grego, romano, chinês, coreano ou de mundo que coloca
japonês. Era uma arte muito apreciada tanto na Europa quanto no Oriente. a Europa como centro
do mundo e elemento
Como é de imaginar, a cópia de um manuscrito demorava a ser feita. Com o essencial na constituição
advento da imprensa e das técnicas de xilogravura, as obras passaram, pouco a da sociedade moderna.
pouco, a ser acessíveis a um público mais amplo.
A tradição atribui ao ourives e impressor germânico Johannes Gutenberg CHARTIER. R. As revoluções
(1396-1468) a revolução na tipografia. Ele teria inventado as matrizes para a da leitura no Ocidente.
impressão com tipos móveis metálicos e a prensa, renovando radicalmente In: ABREU, M. (org.). Leitura,
a arte da impressão. Ficou conhecido como o “inventor da imprensa”. Segundo o história e história da leitura.
Campinas: Mercado de
historiador francês Roger Chartier (1945-), essa é uma visão eurocêntrica, pois Letras; São Paulo: Fapesp,
a técnica teria sido usada desde o século XI com tipos móveis em terracota na 1999.
China e com caracteres de metal, como os de Gutenberg, na Coreia.
No entanto, as formas utilizadas na China e na Coreia eram totalmente dife- OBSERVE QUE...
rentes do alfabeto greco-latino, utilizado por nós. Uma das principais diferenças é
que cada um dos caracteres orientais são desenhados e representam, em geral, A caligrafia oriental
é uma arte milenar
uma palavra. Mas isso não contradiz o fato que os orientais foram os primeiros
extremamente
a desenvolver a forma de tipografia que produzia informações escritas em série. apreciada na Coreia, na
China, no Japão, entre
Xinhua/ZUMAPRESS.com/Easypix Brasil

outros países.

Bloco de madeira para


impressão de caracteres
chineses. Ainda hoje, há
pessoas que preservam
a tradição tipográfica
chinesa fazendo os
blocos com as mesmas
técnicas empregadas no
século XVI.

Mesmo com a imprensa substituindo gradativamente o manuscrito como meio


OBSERVE QUE...
de reprodução de textos, a cópia manual continuou a ocupar lugar de destaque
em vários gêneros textuais, como no caso dos manuscritos e dos textos proibidos A palavra “alfabeto”
que circulavam clandestinamente. Havia também aqueles produzidos para se- é de origem grega e
é composta das duas
rem lidos em voz alta, como é o caso das peças teatrais, cujos autores escreviam
primeiras letras gregas:
textos para serem vivenciados, representados, vistos e ouvidos, e não lidos, de alfa e beta.
forma que a impressão significaria tirar a vivacidade do texto. Essa compreensão
não sobreviveu por muito tempo, e a dramaturgia se inseriu no ramo editorial.

115
Ainda segundo Chartier, a revolução na difusão do conhecimento escrito ocor-
reu no século XVI e no Ocidente, quando as tipografias passaram a fazer impres-
sos em bloco, ou seja, em livro. A popularização das informações escritas passou
a ser comum ao mundo todo.
A impressão e as empresas ligadas a ela, como as jornalísticas, tiveram de-
senvolvimento extraordinário. Criaram-se mercados editoriais em quase todas
as partes do mundo, os quais determinaram – com base em ideologias ou pres-
supostos pessoais, sociais ou políticos – o que seria divulgado ao grande público.
O número de livros impressos quadruplicou entre o início e o fim do século
XVIII em vários países europeus, em particular porque foi inserido também o livro
de pequeno formato, bem como se multiplicou o número de periódicos. Ao mes-
mo tempo, a quantidade de sociedades literárias e bibliotecas para discussão de
textos ou empréstimos de obras aumentou.

EN TR E A D I F U S Ã O D A E SCR I TA IMPR E SSA


E A M A NU TE NÇ Ã O D A OR AL IDADE
Antes da escolarização em massa da população, poemas e trechos de livros arauto
eram memorizados e recitados em voz alta. Havia na Europa um grande público aquele que torna
ouvinte para tais arautos. Com a revolução da imprensa, as leituras em voz alta pública uma notícia ou
nos espaços públicos se tornaram comuns, incluindo o noticiário dos periódi- informação.
cos. Dessa forma, até mesmo pessoas sem domínio da leitura tinham acesso a
informações escritas, principalmente nos centros urbanos.
Nos grandes salões da elite, a recitação era uma forma de difusão literária re- CANDIDO, A. Literatura
quintada, feita não mais apenas por meio da memória, mas também com leituras e sociedade. 9. ed. Rio de
em voz alta. Sucesso absoluto foram as novelas publicadas em folhetins. Muitas Janeiro: Ouro sobre Azul,
2006.
foram publicadas também em brochura, sendo algumas delas reeditadas até hoje.
A influência do jornal sobre a literatura é fato constatado por todos os críti-
cos. O gênero que inaugura tal influência é o folhetim romanesco, publicado pela
primeira vez por Gustave Planche (1808-1857), na França, nos anos 1820. Segun-
do o crítico literário Antonio Candido, esse gênero tomou o mundo de assalto e
modificou o modo de fazer literatura, desde os tipos de personagens até a forma
da narrativa, com linguagem mais acessível e diálogos mais frequentes, tramas
vibrantes e suspenses. Tais elementos tornaram a literatura folhetinesca mais
atraente ao grande público.

ANALISAR E REFLETIR

Slam é uma modalidade de poesia improvisada com o uso da voz e do corpo em sua declamação, poden-
do incluir música. O Slam das Minas é uma rede de poesia e resistência, com batalhas disputadas apenas
por mulheres. Suas poesias retratam batalhas diárias vividas por mulheres no cotidiano e muitas delas já
foram inclusive publicadas em livro, mostrando a ligação entre oralidade, escrita e literatura.

■ Assista ao vídeo Slam das Minas #4, com participação de Bia Ferreira e Doralice (disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=EVWCIc9-KpM; acesso em: 16 jun. 2020), e responda:
a) É possível relacionar a apresentação de slam a algum dos aspectos de difusão da literatura apresentados
neste capítulo? Quais são as semelhanças e as diferenças entre eles?

b) Quais conjunturas atuais retratadas pela música-poesia se relacionam a condições estruturais da


sociedade brasileira?

116
A TIPOGRAFIA E A IMPRENSA
NO BRASIL
A imprensa periódica nasceu na Europa no século XVII e instalou-se na Amé-
rica inglesa e espanhola no século XVIII. O Brasil ficou de fora, pois a metrópole
portuguesa proibia tipografias na colônia. Somente com a vinda da família real
para o Brasil, em 1808, foi instalada a Tipografia da Imprensa Régia, liberando a
alijado
imprensa no território colonial. Isso não significa dizer que os letrados do Brasil
estiveram alijados das informações e da literatura escritas, pois centenas de livros impedido de ter contato,
e manuscritos foram encontrados em posse de particulares, elencados em seus acesso e/ou presença
inventários post-mortem. De autoria de nascidos no Brasil, até mesmo antes de próxima.
1808, foram identificadas mais de 300 obras, desde narrativas sobre agricultura,
medicina, botânica, relatos de viagem, gramática até sermões, prosa e poesia. MOREL, M. Os primeiros
O historiador Marco Morel avalia que o nascimento da imprensa no Brasil, passos da palavra impressa.
In: MARTINS, A. L.; LUCA,
portanto, não se deu em um vazio da cultura letrada, mas em uma sociedade T. R. de. (org.). História da
majoritariamente iletrada, onde a história, a poesia e a prosa contadas e canta- imprensa no Brasil. São
das eram muito mais conhecidas e populares do que as escritas. Paulo: Contexto, 2008. p. 25.

Reprodução/Revista Ilustrada/Coleção particular

Escravizados lendo jornal


em ilustração de Ângelo
Agostini publicada na Revista
Illustrada, em 1887.

QUE ST ÕES EM FOCO

O que é uma imprensa livre?


Cipriano Barata (1762-1838), uma das principais figuras da primeira fase da imprensa no Brasil e editor do
periódico Sentinela da Liberdade (1823-1835), escreveu em seu periódico em 1823:
Toda e qualquer Sociedade, onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse Povo vive feliz
e deve ter aumento, alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário, aquela Sociedade ou Povo, que
tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for,
é povo escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro.
BARATA, C. Apud: LOPES, D. F. Resgate histórico do jornalismo brasileiro – Parte 1: dos primórdios até a
Proclamação da República. Memória da Imprensa. Disponível em: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoria_
imprensa/pdf/colaboracao_memoria_da_imprensa.pdf. Acesso em: 14 jun. 2020.

1 Faça uma pesquisa sobre Cipriano Barata e elabore uma biografia resumida dele. Depois, em grupo, ava-
liem sua posição no contexto brasileiro no fim do século XVIII e início do XIX. Analisem as comparações
que o autor fez sobre “sociedade e povo” e “escravo e cativeiro” no contexto em que viveu.

2 Você acredita que o conceito de “imprensa livre” mencionado pelo autor seja hoje um fato no Brasil?
Dê exemplos que corroborem ou contradigam a liberdade de imprensa em nosso país atualmente.

117
L I T E R AT U R A E N A C I O N A L I S M O
O início do século XIX foi marcado pelo Romantis- rural com a crescente urbanização e o nacionalismo
mo, movimento artístico em ascensão desde o fim do que marcaram o século XIX. A celebração da naciona-
século anterior que repercutiu em todas as formas lidade foi objeto privilegiado na literatura romântica,
de arte, mas sobressaiu na literatura. O Romantismo em especial nos romances históricos ambientados na
estimulou o apego ao sentimentalismo, atingindo seu Idade Média, que alcançaram enorme êxito ao abor-
auge em meados do século XIX. Em um continente dar atos heroicos e míticos.
europeu cada vez mais industrializado, cortado por Tanto em lugares em processo de unificação (como
estradas de ferro e com alto índice de crescimento Itália e Alemanha) quanto em Estados há muito con-
populacional e urbano, o movimento representou uma solidados (como Inglaterra e França) ou novos países
espécie de nostalgia. criados a partir das independências nas colônias da
Na realidade, o Romantismo apenas traduzia seu América, o Romantismo é considerado uma ferramen-
tempo, ao combinar a idealização de um passado ta para o fortalecimento das identidades nacionais.

RO M A NTI S M O E N A C I O NA LISM O NO BR ASIL


Uma das principais questões para a consolidação do Com a chegada da Corte portuguesa, em 1808, hou-
nacionalismo no Brasil foi a formação da ideia de povo. ve a introdução da tipografia, a criação de faculdades
Os letrados, no entanto, questionavam de que “povo” e da imprensa no Brasil. Afinal, a colônia tornou-se a
se tratava. Povo não era o mesmo que popular, termo sede da monarquia. Depois da volta de dom João para
com conotação bastante negativa no entender de ilus- Portugal, em 1821, o processo de independência con-
trados europeus e brasileiros. O popular estava ligado solidou o território brasileiro como um regime monár-
à ignorância, às trevas, à superstição. Portanto, para os quico em 1822, tendo sido governado pelos imperado-
intelectuais que trabalhavam as ideias de nacionalismo res dom Pedro I e dom Pedro II até a Proclamação da
e nação, o popular tinha que ser educado e ilustrado. República, em 1889.

Reprodução/Pinacoteca do Estado, Sao Paulo, SP

Leitura, de José Almeida Jr., 1892 (óleo sobre tela, de 95 cm 3 141 cm), em exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A
popularização da imprensa e dos livros possibilitou a experiência de uma leitura solitária e silenciosa, aqui representada em paisagem
bucólica, que combinava bem com as características do movimento romântico de valorização da vida introspectiva e no campo.

118
Foi, portanto, nesse período de afirmação do Brasil como nação independente
que o Romantismo encontrou terreno fértil. O nacionalismo relacionou a nação a
um espaço territorial delimitado, a uma língua e a suas leis, e a literatura român-
tica teve papel fundamental em desenvolver uma história para fornecer o pano de
fundo e legitimar sua constituição.
Para tanto, enredos históricos e de mitos fundadores foram enfatizados, a fim
de consolidar a ideia de nação. Na Europa, um dos representantes mais céle-
bres desse movimento é o escocês Walter Scott (1771-1832), autor do popular
romance Ivanhoé (1819), ambientado na época das Cruzadas. Scott teve centenas
de seguidores e é considerado o fundador do romance histórico na Europa. Na
França, a primazia é de Alexandre Dumas (1802-1870), autor do romance históri-
co ambientado na época do Absolutismo Os três mosqueteiros (1844), um clássico
da literatura sobre intrigas palacianas no século XVII. Já no Brasil, o gosto pelo
romance folhetinesco ocorreu antes mesmo da consolidação de uma produção
nacional. Importavam-se folhetins da Europa, que eram lidos nas casas das fa-
mílias mais abastadas, muitas vezes em voz alta.

BR A S I L: E M BU S CA D E I DEN TI DADE
No Brasil, o distanciamento da origem portuguesa, considerada opresso-
ra, tinha que ser uma das marcas da construção de uma identidade nacional.
Os indígenas foram um dos personagens a fazer esse papel, em particular nas
obras do cearense José de Alencar (1829-1877), com a publicação de O guarani,
em 1857, em forma de folhetim; Iracema, em 1865; e Ubirajara, de 1872.
Reprodução/Museu Nacional de Belas Artes - IPHAN/MinC, Rio de Janeiro

Rádio Caractere
F I CA A D I CA

Episódio: Navio
Negreiro, de Castro
Iracema, pintura (óleo sobre tela, de 1,68 m 3 2,55 m) de autoria de José Maria de Medeiros (1849- Alves. Publicado
1925), feita para homenagear o romance com o mesmo título escrito por José de Alencar. em: 22 set. 2019.
Duração: 23 min.
Nesse tipo de interpretação, o indígena foi considerado o primeiro a resistir ao
domínio português, como guerreiro que combate o inimigo. O nativismo estaria, as- Podcast realizado
sim, nas ações indígenas desde o início da colonização. Porém, o padrão de indígena pela Caractere Books.
retratado não correspondia ao real. Era um índio europeizado, “bom”, domesticado e Neste episódio, os
autores comentam
correto, com todos os predicados de um herói romântico e, portanto, idealizado. Esse
o poema do poeta
índio era a antítese do índio “selvagem”, contra o qual lutar. O índio “bom” simboliza- romântico brasileiro
va a essência espiritual, quase atemporal, dos critérios morais e éticos da civilização. Castro Alves,
O sucesso de O Guarani foi tamanho que acabou sendo transformado em ópera por publicado em 1880.
Carlos Gomes (1836-1896), estreando com sucesso em Milão, na Itália, em 1870.

119
José de Alencar criou um grande espectro de temas em sua obra. Além dos
indígenas, tratou, assim como autores na Europa romântica e nacionalista, de
temas históricos em romances como Guerra dos mascates (1873) e Minas de
prata (1865-1866). Foi adiante com a passagem sobre o mundo rural cafeeiro,
em Tronco do ipê (1881) e Til (1872), e o urbano, como em Senhora (1875), Lucíola
(1862) e A pata da gazela (1870), ambientados na corte do Rio de Janeiro. Não
deixou de lado nem os regionalismos, incluídos em seus romances O sertanejo,
de 1875, e O gaúcho, de 1870.
A obra de José de Alencar simboliza a tentativa de formar o quadro da vida
nacional, em espaços temporais, geográficos e humanos diversificados, inten-
ção reconhecida pelo próprio autor.

OBSERVE QUE...
L I T E R AT U R A E A B O L I Ç Ã O : Essa primazia de

LIÇÕES DE HISTÓRIA DO Machado de Assis na


literatura brasileira

BRUXO DO COSME VELHO e a reverência de


todos por sua vasta
obra caracterizam a
José de Alencar foi mestre declarado sociedade brasileira
do escritor mais consagrado da litera- de antes e de agora.
tura brasileira, o carioca Machado de É interessante notar
Assis (1839-1908), o Bruxo do Cosme que, mesmo sendo
Velho, que foi reconhecido ainda em ele mestiço, esse
vida por sua excelência. Foram con- dado nunca apareceu
temporâneos e, embora com estilos em suas referências
bastante diferentes, classificados de enquanto viveu, o que
denota o caráter racista
geniais.
da sociedade brasileira,
Reprodução/Arquivo da Academia Brasileira de Letras, RJ

na tentativa de esconder
suas origens.

OBSERVE QUE...
Em 1888, o Brasil era o
único país da América
a manter o sistema
escravista. A grande
Raro retrato de Machado de Assis questão debatida e
sem barba, aos 35 anos de idade. rebatida por políticos,
elites imperiais e
Machado de Assis era filho de família pobre, mestiço, e não teve educação imprensa era se a
formal. Viveu justamente na época do processo de abolição da escravidão no abolição, já um dado
previsto, ocorreria ou não
Brasil e da instauração da República. Os analistas têm dificuldade em classi-
com indenização. Afinal,
ficar sua obra. Antonio Candido termina uma palestra sobre Machado de Assis
em um estado liberal,
em 1968 com as seguintes considerações: o direito à propriedade
é item fundamental
Isto é dito para justificar um conselho final: não procuremos na sua e inquestionável,
obra uma coleção de apólogos nem uma galeria de tipos singulares. e escravos eram
[...] O melhor que posso fazer é aconselhar a cada um que esqueça o propriedade. Na década
que eu disse, compendiando os críticos, e abra diretamente os livros de de 1880, auge da
Machado de Assis. campanha abolicionista,
CANDIDO, A. Esquema Machado de Assis. In: CANDIDO, A. V‡rios escritos.
muitos senhores
3. ed. rev. e ampl. S‹o Paulo: Duas Cidades, 1995. p. 13. alforriaram seus
escravos e o fizeram com
grande estardalhaço, na
Em contrapartida, houve os que o acusaram de indiferença em relação à escra- expectativa de manter
vidão, ao movimento abolicionista e mesmo à abolição, ocorrida em 13 de maio de a mão de obra e auferir
1888, como o advogado Evaristo de Moraes (1871-1939), que escreveu em 1924: ganhos políticos.

120
Se Machado tinha, como há quem pretenda, alguma ideia acerca do te- CHALHOUB, S. Diálogos
meroso problema, somente resolvido a 13 de maio, ninguém, através dos políticos em Machado de
seus escritos, logrou divulgá-la. Assis. In: CHALHOUB, S.;
PEREIRA, L. A. M. (org.).
MORAES, E. Apêndice: a escravidão nas Belas Artes. In: MORAES, E.
A História Contada. Capítulos
A campanha abolicionista (1879-1888). 2. ed. Brasília: Editora UnB, 1986. p. 328.