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o voto dos Ministros Vitor Nunes, Vilas- Exmo. Sr.

Ministro Barros Barreto,


-Boas e Gonçalves de Oliveira. que se acha licenciado).

Presidência do Exmo. Sr. Ministro Tamaram parte no julgamento 08


Lafayette de Andrada. Exmos. Srs. Ministros Henrique D'Avila
(substituto do Exmo. Sr. Ministro Luis
Relator: Exmo. Sr. Ministro Ribeiro Gallotti, que se acha licenciado), Pe-
da Costa. dro Chaves, Vitor Nunes Leal, Gonçal-
ves de Oliveira, Vilas-Boas, Cândido
Ausente, justificadamente, o Exmo. Mota Filho, Ari Franco, HahneIDallQ
Sr. Ministro Cunha Melo (substituto do Guimarães e Ribeiro da Costa.

AUTARQUIA - NOMEAÇÃO - EXONERAÇÃO - I. A. P. I.


- Cabe ao Presidente exonerar os membros do Conselho Admi-
nistrativo do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários,
ainda que nomeados com mandato de prazo certo.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Requerente: Murilo Gondim Coutinho
Mandado de segurança n.o 8.693 - Relator: Sr. Ministro
RIBEIRO DA COSTA

ACÓRDÃO "A Lei n~ 2.155, de 2 de janeiro de


1954 que criou os Conselhos Fiscais dos
Relatados êstes autos de mandado de Institutos de Aposentadoria e Pensões,
segurança n' 8.693, do Distrito Federal, disciplinada pelo Decreto n' 35.312 de
acorda o Supremo Tribunal Federal, em 2 de abril de 1954, instituiu, para a n0-
Sessão Plena, denegar a segurança, por meação de seus membros, com manda-
maioria de votos, nos têrmos das notas tos expressos de tempo, o regime misto,
taquigráficas anexas. isto é eleição dos oito representantes
das categorias sindicais, enquanto o go-
Brasllia, 17 de novembro de 1962. - vêrno nomeaVa o nono integrante dessa
F. d8 BOI1'T'08 Barreto, Presidente. colegIada.
A. M. Ribeiro da Costa, Relator.
Em 2 de abril de 1954, por Decreto
RELATóRIO de n" 36.151 o Govêrno alterou o pri-
mitivo decreto disciplinador da Lei n 9
o Sr. Mitni8tro Riberro da Oo8ta - 2.155, dando nova forma à eleição dos
Sr. Presidente, Murilo Gondim Couti- Conselhos Fiscais dos Institutos.
nho requer mandado de segurança con- A êsses decretos se seguiram em 16
tra ato do Exmo. Sr. Presidente da Re- de agôsto de 1956 e 5 de julho de 1960,
pública que o exonerou das f~ões de dois outros, respectivamente de núme-
membro do Conselho Administrativo do ros 39.794 e 48.462.
Instituto de Aposentadoria e Pensões
dos Industriá.rios. Diz o impetrante que Em 11 de setembro de 1958 foi o im-
requer a medida tempestivamente, e petrante nomeado para exercer a fun-
não houve impugnação sôbre êste ponto. ção de Presidente do Conselho Fiscal
do Instituto de Aposentadoria e Pensões
As razões do pedido são as seguintes: dos Industriá.rios (doc. anexo).
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Em 22 de julho de 1959, em virtude a lei aos membros desses Conselhos um
de alteração sofrida pelo Decreto nú- mandato fixo, ao longo do qual, na pos-
mero 36.151 de 10 de novembro de 1954, tura autêntica de uma magistrafura
foi nomeado membro e Presidente do administrativa, poderiam, libertos de
referido Conselho (doc. anexo). peias e limitações, realizar uma. sadia
politica previdencial.
Em 26 de agôsto de 1960 foi promul-
gada a Lei n 9 3.807 de 26 de agôsto O Impetrante foi nomeado em virtu-
de 1960 que assim dispõe no seu ar- de de Lei do Congresso, cuja compe-
tigo 103: tência para votá-la é a sua prerrogativa
essencial. Esta lei foi sancionada pelo
"Art. 103 - O Conselho Adminis- então Presidente da República, autori-
trativo (CA) dos IAP será constituido dade constitucional própria. Entrou em
de, respectivamente, 3 (três) e 6 (seis) vigor produziu e vem produzindo efei-
membros na forma do § 39 dêste artigo, tos, alguns altamente benéficos à na-
e com mandato de 4 (quatro) anos, ção, tal o volume crescente das arreca-
sendo os representantes do Govêrno no- dações dos Institutos de Previdência,
meados pelo Presidente da República, após o seu advento.
os representantes dos segurados e os
representantes das emprêsas eleitos Nela, no seu contexto, não aparece,
pelos sindicatos das respectivas cate- em verdade, nenhuma inovação que de
gorias profissionais e econômicas e, na longe possa parecer em conflito com a
falta dêstes, por associações de classe Lei maior; assim, o mandato a prazo
devidamente registradas e vinculadas à certo, dos membros dos Conselhos Admi-
instituição. nistrativos dos Institutos de Previdên-
cia não é mais do que mutati8 rnvutamdis,
§ 19 - A escolha dos representantes
a repetição da praxe já anteriormente
do Govêrno deverá recair em pessoas
adotada para o preenchimento dos car-
de notórios conhecimentos de previdên- gos de membros do Conselho Fiscal
cia social, dentre êles um servidor da dessas autarquias.
instituição com mais de 10 (dez) anos
de serviço". Empossado o Impetrante no cargo,
o ato do Chefe da Nação constituiu-se
Em 4 de novembro de 1960 S. Exa. em ato juridico perfeito do qual decor-
o então Presidente da República nomeou rem direitos adquiridos, inclusive patri-
o Impetrante para representante do Go- moniais, que nem mesmo outra lei pode
vêrno num dos dois lugares que a lei revogar, sem resguardo de uma inati-
lhe atribuiu no Conselho Administrativo vidade remunerada. Com efeito.
do Instituto de Aposentadoria e Pensões
dos Industriários ( doc. anexo). De resto, o Supremo Tribunal já en-
frentou matéria idêntica declarando a
Em 17 de fevereiro de 1961 (doc. inviolabilidade dos mandatos adminis-
anexo) , S. Exa. o atual Presidente trativos: é que, chamado a pronunciar-
da República exonerou o Impetrante -se sôbre matéria idêntica na preten-
das referidas funções". são do Embaixador Batista Luzardo que
Em seguida, faz o impetrante comen- batera às portas dêste Pretório Excelso
tários quanto à imprudência dêsse ato pedindo segurança contra o ato do en-
e prossegue: tão Presidente da República que o exo-
nerou do cargo de Presidente do Con-
"Com o objetivo de assegurar aos selho Superior das Caixas Econômicas,
Conselhos Administrativos de seus ór- negou-lhe a segurança afirmando, ao
gãos, a indispensável independência mesmo tempo, a unanimidade, que o
forrando-os da pressão e da influência direito liquido e certo que assistia ao
tantas vêzes nociva da politica sindical Impetrante era o de cumprir o mandato
e do favoritismo partidário, assegurou de cinco anos para que fôra nomeado
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como membro do Conselho Administra- VOTO
tivo da mesma Caixa e não o de Presi-
dente do Conselho Superior, cargo de o Sr. Mirnistro Ribeiro da C08ta (Re-
confiança do Presidente da República lator) - Senhor Presidente, antes de
(mandado de segurança n· 2.817 de 11 começar o meu voto, devo fazer sentir
de julho de 1950 cuja ementa é a se- aos meus eminentes colegas de que com-
guinte: pareci à sessão de hoje, neste Tribunal,
para cumprir o meu dever de juiz, em-
"Diretor e Presidente da Caixa Eco- bora tenha estado doente, com febre,
nOmica (Decreto 24.427 de 19 de junho com uma gripe que costuma atacar as
de 1934), mandatos distintos: apenas pessoas que se encontram em Brasllia,
o primeiro é exercido por prazo fixo, em estado de saúde que não permitiria
sendo o segundo de confiança do Sr. o esfOrço mental que vou desenvolver.
Presidente da República embora a es-
colha se restrinja a um dos Diretores Indaguei, por intermédio do secretá-
ou membro do Conselho Deliberativo". rio da sessão, ao ilustre advogado do
impetrante se desejava, me'SIIlO, ver jul-
lD êsse, em substância, o pedido inicial. gado o caso nesta sessão, S. Exa. m·an-
Foram solicitadas informações à au- dou dizer que sim, porque tinha via-
toridade impetrada e esta remete, jado expressamente por êste motivo e
junto ao oficio que se encontra nestes iria fazer outra viagem. De sorte que
autos, a fls. I, a informação de fls. fica esta advertência para pedir benig-
17-30, de que é signatário o ilustre .sr. nidade aos colegas por tOdas as defi-
Ministro do Trabalho, Dr. Castro Neves. ciências do meu voto, que vai ser oral.

Foram os autos com vista ao eminen- Devo acentuar que êste caso é impar
te Dr. Procurador-Geral da República e que, a meu ver, não envolve prôpria-
e S. Exa., pelo parecer de fls. 3.239 mente uma questão de ordem moral,
sustentou que não existe, no caso, di- como tão brilhantemente sustentou da
reito liquido e certo a amparar a pre- tribuna o ilustre Doutor Joaquim Mo-
ten9ão do ora impetrante. reira Rabelo. Penso que envolve mais
um problema de comando, um problema
Não vou ler o parecer substancioso de govêrno, um problema de politica go-
e brilhante do eminente Dr. Procurador- vernamental, um problema de govêrno
-~ral, de vez que S. Exa. vai sus- nOvo, um problema de govêrno reno-
tentar, em réplica à oração do advo- vador, um problema de govêrno que não
gado, os motivos que tem para iínpug- se detém, impassivel, sereno ou pacato,
nar o pedido. diante das questões que se avolumam,
às quais êle terá de dar solução. Um
Veio juntar ao parecer do eminente problema de govêrno tão-sômente.
Dr. Procurador-Geral, um parecer do
Dr. Caio Mário de Silva Pereira, Con- Devo dizer, embora como juiz, que o
sultor-Geral da República, que é do co- nosso pais há alguns anos estava es-
nhecimento dos eminentes colegas: perando ver-se jogado ao campo das
"Poder de Exonerar. Implicito no de soluções.
Nomear". O Sr. Mirnistro Ari FrQflf/OO - V. Exa.
por ser juiz não deixa de ser brasileiro.
Antes de me serem os autos conclu-
sos, o impetrante, pela petição de fls. O Sr. Ministro RiboEMo da Costa
41, fêz juntar a êstes autos um douto Perfeitamente. lD por isso mesmo.
parecer da lavra do nosso eminentissi-
mo e insigne colega Sr. Ministro O~ Os governos podem ser pacatos, in-
81mbo Nonato. diferentes, anódinos, ou confiar .. seus
lWnl.tro. o lado dinAmico da gover-
• O rtlat~rlo, nang&j mal O governo pode .er, .le
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mesmo, dinâmico, êle mesmo vivõ, nos dos sob a direção pessoal do Presidente
seus atos executivos. 1!'l o que o nosso da República. Os Presidentes da Repú-
pais está nesses dias experimentando, blica entregavam êsses setores a pes-
não se sabendo bem para onde seremos soas que representavam o interêsse po-
conduzidos. A sorte do Pais está jogada, litico, de momento, inexpressivo, que
tendo à frente da sua direção um ho- agiam discricionàriamente, sem progra-
mem temperamental, um homem renova- ma governamental. Não sei se é bem
dor, um homem pessoal nas suas ações, isto, mas é o que senti, no exercicio
um homem que não se detém nos seus do Poder Executivo dos governos ante-
atos, que possui qualidades, espirito pú- riores, com muita lástima.
blico, que possui vontade de determi-
nação, que possui vontade de resolver A quem entregava o Govêrno a di-
as coisas. Isto nos parece inegável! reção de todos os institutos de previ-
dência, e de outros aparelhos acessórios
Vê-se que o Presidente se move da que são uma fôrça econômica poderosa?
Capital do Pais para os Estados, onde Vimos, por exemplo, a situação passa-
reúne Governadores de certa região, da entregar ao Senhor João Goulart,
coon os quais traça os problemas rela- apregoadamente um grande politico, um
tivos a essa região, procurando dar-lhes homem de inteligência luminosa, extra-
diretivas, soluções e medidas de am- ordinário, dinâmico, que deveria reali-
paro. zar a grandeza do Partido Trabalhista
Brasileiro, criando o bem estar do nosso
Penso, Senhor Presidente, que deve- povo e fazendo feliz esta Nação tão
mos ter em vista o lado politico da desgraçada. '. O que foi essa influência
questão, político no sentido de medida desastrosa a Nação tomará conheci-
que atende ao interêsse da Nação, de mento pelos resultados dos inquéritos em
medida propiciadora da regulação dos andamento, se tiverem andamento ...
atos administrativos do Pais. PoUtica
neste sentido. Isto me conduz a admi- Ora, compete ao Supremo Trfbunal
tir que, em relação a certos setores Federal, no julgamento das magnas
desmembrados da administração públi- questões pontificar, Com elevação, com
ca, o Presidente da República, o· Chefe serenidade, com superioridade, nesses
do Poder executivo, não se pode fazer grandes problemas ou ajudando o Po-
sentir prêso. rue há de ter liberdade der Executivo a lhes dar soluções pre-
de ação, e essa liberdade de ação se- cisas ou impedindo que o Podé"r Exe-
ria negativa inteiramente, se, ao pre- cutivo, nas soluções dos problemas, atue
tender realizar, o Presidente não tives- de maneira arbitrária, exorbitando dos
se, para a execução dos atos que ima- podêres que a Constituição lhe traçou.
gina ou quer empreender, servidores
em cuja ação possa confiar. Assim, pois, o problema é êste: saber
se, neste caso, o Presidente da Repú-
Penso que o problema é êste. 1!'l um blica exorbitou das faculdades constitu-
problema a respeito do qual todos nós, cionais.
brasileiros, devemos compreender que a
ação governamental executiva não se O Tribunal ouviu a brilhante oração
pode fazer sentir sem que isso se rea- do ilustre advogado do impetrante. Sinto
lize. que fiz bem em não ler o parecer do
Dr. Procurador-Geral da República, por-
Nos governos anteriores, todos sen- que seria pálida a minha leitura. Oral-
timos que êsses setores importantissi- mente S. Exa. nos deu uma agrada-
mos da administração, setores que di- biliS'Sima e substanciosa lição de Direito
zem com a miséria, com o amparo à Constitucional e de Direito Civil.
população pobre, infeliz, doentia e so-
fredora, setores que são uma fôrça ele- Resta saber se delegado do govêrno
1Jlentar do Pais, não estavam enfeixa- da União perante quaisquer· dQ!! tnstl-
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lutos . ou caixas econômicas, investido elementos para dizer-se que a tese ago-
para exercer o cargo por penodo certo ra discutida foi a mesma nêles resol-
de . quatro anos, tem direito a perma- vida. Data vania, não é exato.
nência no exercicio dessa função duran-
'te os quatro anos seguidos, por todo o No caso do Dr. Demócrito Barreto
'curso do penodo, ou se o Presidente da Dantas, julgado por êste Tribunal, em
República pode removê-lo, nofneando que fui impedido, o que se decidiu foi
outra pessoa para exercer o cargo. Se que, investido o Dr. Demócrito Barreto
o ato do Presidente da República, nesse Dantas no cargo de Diretor de um dos
caso destituindo o servidor anterior- serviços da Caixa Econômica, se não me
mente nomeado, importa em ofensa a engano, a Carteira de Penhores, o ato
'algum preceito constitucional: ao di- do então Presidente da República, Sr.
o reito adquirido ao exerci cio daquele General Dutra, era insustentável, por-
mandato até o fim do mesmo, ou se o que a investidura fOra por quatro anos.
.Presid~nte da República é livre de no- Garantiu-se ao Dr. Barreto Dantas a
mear e desnoonear, como bem entender, remuneração pecuniária pelos restantes
~ na suposição, sempre, de que agirá no meses ou anos do exercicio do mandato
interêsse permanente da Nação. que lhe fOra atribuido. Mas há de se ter
em vista que êsse caso foi julgado antes
Entendo que o Presidente pode prati- da vigência da atual Constituição, quan-
car êsse ato, pode e deve praticá-lo do, então, a investidura 68ta.va gOA'YJfll,-
tOda vez que julgar necessário fazê-lo. tida pekJ, lei. A Constituição de 1937,
Não posso compreender que, ao fim do corno a de 1934, contém ressalvas s0-
exercicio do Poder Executivo, quando bre as quais farei ligeira referência,
. estava próximo a inaugurar-se um ou- porque sôbre elas já falou suficiente-
tro penodo governamental, o Presiden- mente, com tôda a clareza, o eminente
te anterior pudesse nomear certos fun- Dr. Procurador-Geral da República.
cionários de sua confiança para exer-
cerem aquêles cargos, invadindo a área A Constituição de 1937 que regia
'de ação do nôvo Presidente da Repú- aquêle ato, subordinava o exercicio do
blica, impedindo que o nôvo Presidente mandato àquilo que a lei dizia. E a lei
pudesse descortinar o seu programa ad- conferia o exercicio do mandato por
ministrativo, dispondo dos meios neces- quatro anos. De sorte que o Presidente
'sários a isso, entre os quais avulta, evi- de então, destituindo o diretor, feria o
dentemente, a ação diriAmica dos seus preceito da lei, ao passo que êste esta-
mandatários, que são êsses conselheiros, va com a garantia da lei.
presidentes de institutos, membros de No caso do Embaixador Batista Lu-
diretorias, etc. zardo, a hipótese é diferente. Exercia
Esta é a questão mais importante êle a função de Presidente da Caixa
que se apresenta ao Supremo Tribunal Econômica Federal do Rio de Janeiro
Federal. e fOra destituido dêsse cargo. Mas era,
ao mesmo tempo, membro do Conselho
Entre os motivos que fundamentam o Administrativo da Caixa Econômica. O
pedido, sobressaem dois argumentos de Tribunal decidiu que, absolutamente,
grande relêvo: é que o Supremo Tribu- não restava ao Embaixador Batista Lu-
nal, examinando precisamente questão zardo nenhum direito liquido e certo ao
idêntica, já teria dado solução ao pro- exercicio da presidência daquela insti-
blema. Foram lembrados, então, os ca· tuição, cargo que exercia em comissão.
sos do Embaixador Batista Luzardo e Isto é que ficou decidido por voto do
do Dr. Demócrito Barreto Dantas. eminente Ministro Afrânio Costa., que
consta aqui, e dos demais colegas no
Quero esclarecer que, a respeito da mesmo sentido.
. questão agora a ser decidida pelo Tri-
o bunal, nem nwn caso nem no outrQ há Assim termina o voto:
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"Se o Presidente da Caixa, cujo man- Contreras de Carvalho (Estatuto doa
dato se extinguiu, não fOr ... (lê) ... 1i1uttciond~ PúbZicos) referindo-se a08
a que conduziria a interpretação". cargos em comissão a que alude o § 1·
do art. 82, do Estatuto, ressalta a des-
O que decidiu êste Tribunal foi, por- necessidade da exclusão ali prevista,
tanto, isto: é que não era possivel con- pois a exclusão já decorre dos próprios
ceder ao Embaixador Batista Luzardo textos dos incisos I e n do mencionado
a permanência no exercicio da presidên- dispositivo legal, em que estão deter-
cia por uma questão de coincidência de minadas as duas formas de aquisição
mandatos e que, além disso, S. Exa. de estabilidade para o servidor público,
era membro do Conselho Administra- que são: dois anos para os que fizeram
tivo. concurso e cinco anos ininterruptos para
aquêles nomeados para cargo efetivo
Não podem, pois, êsses dois casos ser de carreira ou isolado, sem concurso.
tomados como paradigma para esta de-
cisão. Temistocles Cava1cAnti, nos Ooment4-
rios à Oonstituiçdo, voI. VI, pâg. 168,
O ilustre advogado do impetrante, referindo-e ao problema do serviço pú-
logo de inicio, em sua oração, timbrou blico, diz que a regra deve ser a esta-
em afirmar que o impetrante não era bilidade para os que servem bem. A
funcionário público, nem funcionário de compensação do Estado manifesta-se
autarquia, mas que era mandatário do precipuamente, diz êle, pela estabilil1a.de
Presidente da República. Coincide essa do funcionário, pela segurança da sua
afirmação precisamente com o que tam- permanência no serviço público. Essa
bém entendo. O impetrante exercia o permanência, porém, acrescenta, depen-
cargo de membro do Conselho do IAPI, de da vontade do Estado e, salvo os
na qualidade de mandatário do Presi- casos expressos em lei, nenhuma outra
dente da República. Posta a questão garantia pode ser reconhecida ao fun-
nestes têrmos, não teriamos de indagar cionário. A regra legal é a demissibili-
se, como mandatário do Presidente da dade ad tllUtum, principio que se aplica
República, não estaria o impetrante ga- aos interinos, aos que ocupam cargo em
rantido por algum dos casos de estabi- comissão, a certas categorias de extra-
lidade previstos na Constituição. Os ca- numerários, aos nomeados por concurso
sos previstos não se aplicam à função com menos de dois anos de serviço e
por êle exercida. Não ingressou por con- aos demais, com menos de cinco anos
curso, não era funcionário efetivo cuja de serviço.
estabilidade galgasse após cinco anos
continuos de exercicio. Não era interino. Vem, agora, a propósito, saber se o
Exercia, a meu ver, uma comissão, era Presidente da República, neste caSo,
demissivel ad nutum, não tinha garan- pode ou não nomear outra pessoa de
tia de permanência no cargo. A Consti- sua confiança para exercer êsse cargo,
tuição federal, o Estatuto dos Funcio- destituindo o que nêle está investido
nários Públicos, o nosso Direito Admi- a prazo certo, por tempo determinado.
nistrativo, desconhecem caso de esta-
O eminente Dr. Procurador-Geral da
bilidade a tempo determinado, salvo
República debateu o tema com todo o
caso de contrato de trabalho. No meca-
brilho, como foi ouvido pelo Tribunal,
nismo administrativo brasileiro, essa
mas devo dar minha contribuição.
modalidade inexiste. Eu desconheço-a.
A estabilidade, segundo a Constituição, A Constituição de 1891 dizia, no ar-
é assegurada em têrmos relativos e não tigo 48, n 9 V:
abrange a modalidade dos demissiveis
ad 1IIUtum, assim denominados os ser- "Compete privativamente ao Presi-
vidores que podem ser demitidos sem a dente da República: V - prover OI
formalidade do proc(!sBQ adnUntetrativo. cargos civis e militarei de caráter te-
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deral, salvo as restriçõe8 expressas na interinos, nomear por concurso, nomear
Constituição" . para cargo isolado, para cargo defini-
tivo etc., os funcionários, mas com as
A signlficaçâo é que cabia, nesse caso, ressalvas contidas na Constituição. Ex-
ao Presidente da RepObHca prover os clusivamente!
cargos pOblicos civis e militares, livre-
mente, salvo nos casos em que a Cons- Ora, a Constituição não possui ne-
tituição não o permite. Quer dizer: com nhuma ressalva impeditiva à desnomea-
as restrições previstas na Constituição. ção daqueles mandatários do anterior
Presidente da RepOblica que estavam
As Constituições de 34 e 37 dispuse- exercendo funções por prazo detennina-
ram diferentemente. A de 34 dispunha: do. Assim, o nOvo Presidente da RepO-
"Compete ao Presidente da RepOblica blica podia livremente desnomear e in-
prover cargos federais, salvo as exce- vestir naqueles cargos pessoas de sua
ções previstas na Constituição e nas exclusiva confiança. E entendo que êsse
leis". dispositivo da Constituição é sábio, me-
rece meu aplauso. Não digo o dos meus
A de 37 repetiu: eminentes colegas, mas o meu aplauso
irrestrito, porque não posso compreen-
"Compete privativamente ao Presiden- der que o alto dirigente de urna em-
te da RepOblica prover os cargos fede-
prêsa, como é o de um pais, possa exer-
rais, salvo as exceções previstas na cer os atos mais delicados que lhe cum-
Constituição e nas leis". pre pOr em prática, com os braços cru-
O que se entende e se deve compreen- zados, peados, sem ter os mandatários
der, em face dessas duas ressalvas é em que confie, principalmente num pais
que, na vigência dessas Constituições, o como o nosso, em que sabemos muito
Presidente da RepOblica poderia nomear bem que os apaniguados da politica an-
e desnomear, respeitando as restrições terior são aferrados, são homens que
constitucionais e também aquelas pre- não compreendem nada senão aquela
vistas na lei. admiração pelo sol, que já caiu no oca-
so. Aquêle queremismo irremoviveI. ..
Foi êste o caso do Dr. Demócrito êles acham que só pode ser aquilo. Nos-
Barreto Dantas, que, nomeado sob o so Pais é de gente temperamental, apai-
império da lei, na Constituição de 37, xonada. O Presidente da RepOblica pas-
estava garantido com aquilo que a lei sa então, a ser, em certos setores, um
outorgara: mandato de quatro anoa. verdadeiro pau mandado, porque nada
~ mandato não podia ser abolido, do que êle manda que se faça se faz.
ab-rogado, por ato do Presidente da Re- Fica ao sabor da pasmaceira e da sa-
pOblica. botagem.
~Ie não tinha, a êsse tempo, a facul- Estamos examinando o problema de
dade de fazê-lo, teria de respeitar a lei. natureza politica, mas com olhos claros,
O Presidente não respeitou a lei, a Jus- vendo a realidade. Não estou no mundo
tiça garantiu os proventos do servidor do sonho, mas no da realidade. Não sou
até o término do prazo do mandato. administrador. Se o fôsse, só o seria
Mas a atual Constituição voltou ao prin- pessoalmente, para exercer a adminis-
cipio estatutário da Constituição de tração com tOda a responsabilidade, mas
1891, prescrevendo que compete priva- eu mesmo! E em certos setores só po-
tivamente ao Presidente da. RepOblica deriam agir por mim pessoas em que
prover na for.ma. da lei e com as res- eu confiasse. Seria então um adminis-
salvas estatuídas nessa Constituição, os trador. Eu quero e mando! Só assim o
cargos pOblicos federais. Na forma da entendo e admito.
lei, quer dizer: prover para determi-
nado fim, para êsse cargo de tal cate- Aqui, neste Tribunal, por exemplo,
goria .tc, Nomear vit&l1ctOl, nomear Sr. Preeldtnte, há. uma IIltua.glo com a
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qual de modo algum estou de acôrdo Chegamos a verificar que o caso,
Mas de forma alguma! Vou dar o exem- como acentuou o eminente Sr. Presi-
pio: O eminente Sr. Ministro Barros dente da República, simplesmente era
Barreto, Presidente desta Casa, é quem mandato a prazo certo, cuja revogabili-
manda, quem dirige êste Tribunal. Pois dade não encontra empeços na Consti-
bem, o Presidente do Supremo Tribunal tuição, ao passo que encontra encômios
Federal tem um Secretário que é efe- no senso comum.
tivo titular do cargo. ~ uma pessoa que
foi nomeada efetiva para um cargo que Meu voto é, pois, negando o man-
devia ser em comissão. Se há algum dado.
cargo que deverá ser de confiança é
êsse! Mas é efetivo! Não compreendo VISTA
dislate maior.
o Sr. Mittistro Vitor Nwne.s Leal
o Aliás,
Sr. Mi-ttistro Luis Gallotti - Peço a palavra, Sr. Presidente.
já era assim quando Sua Excelência
veio ocupar a Presidência, mas é um Conforme havia antecipado a alguns
absurdo! dos eminentes colegas, era minha in-
tenção pedir conselho na forma do Re-
o Sr. Ministro Barros Barreto (Pre- gimento. Havia tomado essa decisão,
sidente) - Estou de acôrdo com Vossas porque o assunto ora em debate é de
Excelências. tal modo delicado, penetra tão fundo no
mecanismo dos podêres constitucionais,
o Sr. Ministro Ribeiro da Costa - oferece tantos aspectos à nOSSa consi-
Estou exemplificando com aquilo que
deração, que me parecia mais vanta-
ocorre dentro da nossa Casa. Pois então
josa, para nossa decisão, que houvesse
o Presidente do Supremo Tribunal Fe-
um prévio e amplo debate entre todos
deral, cuja atribuição em certos casos
os Ministros, antes da tomada dos votos.
é das mais delicadas, há de ter um Se-
cretário efetivo? Entretanto, Sr. Presidente, êsse meu
O Sr. Ministro Latayette de A-ndrada propósito baseava-se na suposição de
- Nada desabona êsse Secretário. que a parte expositiVa e os debates pu-
dessem concluir-se na primeira fase dos
O Sr. Milttistro Ribeiro da Costa - nossos trabalhos, porque, então, nos reu-
Diga-se e consigne-se que a sorte do niriamos no intervalo da sessão e con-
Sr. Presidente é que tem como secretá- cluiriamos o julgamento na segunda
rio efetivo impôsto a S. Exa. um fun- fase. Agora, já estamos no fim do ho-
cionário exemplar, funcionário excelen- rário regimental.
te, dignissimo, um funcionário sôbre
cuja dignidade e moralidade não há a Continuo, entretanto, a achar a ma-
menor dúvida. Sou o primeiro a reco- téria extremamente delicada, pois vimos,
nhecê-lo! Mas não estou de acôrdo com aqui, a administração defender-se, di-
isso! zendo que a Constituição democrática
de 1946 dá mais podêres ao Presidente
Assim também não posso compreen- da República, em certos setores do que
der que o Senhor Presidente da Repú- a Constituição autoritária de 1937.
blica esteja peado a ter entre seus man-
datários funcionários que êle não co- Sr. Presidente, com vênia e o devido
nhece, que ignora o que são, quem se- respeito ao eminente Relator, peço vista
jam, o que fazem, o que podem fazer dos autos.
ou não fazer, o que podem sabotar em
seus atos de administrador! DECISÃO
Assim, Sr. Presidente, o meu voto já
está longo e se espraiando sôbre maté- Como consta da Ata, a decisão foi a
.rias mais delicadas. seguinte: Adiado por pedido de' vista
- 219
do Sr. Ministro Vitor Nunes após votar II
pela denegação da segurança o Sr. Mi-
nistro Relator. Argúi-se, em primeiro plano, que, lm-
plicito no poder de nomear, a Constitui-
Presidência do Exmo. Sr. Ministro ção de 1946 confere ao Presidente da
Barros Barreto. Relator, o Exmo. Sr. República o poder de demitir, com am-
Ministro Ribeiro da Costa. plitude muito maior do que o haviam
feito as Constituições republicanas an-
VOTO teriores, inclusive a outorgada, de 1937.

o Sr. M6nistro Vitor Nwnes Leal -


O art. 87, V, da atual, atribui priva-
tivamente, ao Presidente da República
No mandado de segurança n 9 8.693, de
"prover, na forma da lei e com as res-
cujos autos pedi vista, discute-se a im-
salvas estatuidas por esta Constituição,
portante questão da investidura admi-
os cargos públicos federais". Esta nor-
nistrativa de prazo certo, impropria-
ma, segundo a argumentação de qu.e,
mente denominada '/'1II/ll1Idato.
data venia, divirjo, só admitiria, quanto
ao poder de nomear do Presidente da
o tratamento do tema foi aprofunda- República, as condições e restrições que
do e ilustrado pelo voto do eminente
constam, expressamente, da própria
Ministro Ribeiro da Costa, pelo parecer
Constituição. Ao legislador ordinârio,
do douto Professor Caio Mário da Silva
porém, não seria facultado condicionar
Pereira, ao tempo Consultor-Geral da
ou regular o exercicio dêsse poder, mas
República, pelo debate travado entre o
apenas estabelecer a fQ7"TY14 pela qual há
ilustre advogado José Joaquim Morei-
de ser exercitado.
ra Rabelo e o eminente Procurador-Ge-
ral de então, Professor Joaquim Canuto A prerrogativa do Presidente da Re-
Mendes de Almeida, pelos memoriais de pública não seria tão ampla nas Cons-
ilustres advogados que pleiteiam casos tituições de 34 e 37, porque estas defi-
análogos, entre os quais se distinguem niam a competência para prover os car-
os dos Drs. Sobral Pinto e Gabriel Cos- gos federais, ressalvando "as exceções
ta Carvalho, Cláudio Pena Lacombe, previstas na Constituição e nas leis"
Leopoldo Braga, e por pareceres de con- (respectivamente, art. 56, n· 14, e art.
sagrados jurisconsultos, inCluindo o emi- 74, letra l). Em outras palavras, as
nente Orosimbo Nonato. Constituições de 34 e 37 terià.m facul-
tado à lei, isto é, ao legislador ordiná-
Com tOda a reverência, ouso dissentir rio, restringir o poder de nomear do
do eminente relator, para conceder a Presidente da República; a de 1946 só
segurança impetrada, a fim de que o lhe permitiria estabelecer a f07Wla do
Dr. Murilo Gondim Coutinho reassuma exercicio dêsse poder.
o cargo de que foi ilegalmente afastado,
no Conselho Administrativo do Instituto Funda-se o argumento em que a vi-
de Aposentadoria e Pensões dos Indus- gente Constituição emprega o vocábulo
triários. Espero contar, como de outras restrições em correspondência com ela
vêzes, com a paciente indulgência dos própria, fazendo supor que sômente as
eminentes colegas para expor as razões restrições constantes do texto consti-
do meu convencimento. Creio que a re- tucional seriam legitimas. O argumento
levância do tema justifica um estudo vania 1CI01!ce8.sa, não atenta para uma
mais aprofundado. circunstância: o art. 87, n. V, da Cons-
tituição, o que define é a competência
Em sentido contrário à impetração, do Presidente para prover cargos pú-
foram aduzidos motivos de ordem cons- blicos. Em conseqüência as limitações
titucional, de ordem legal e de ordem ali contidas, são endereçadas ao poder
administrativa .e politica. Procurarei executivo, e não ao legislativo; em ·ou-
examiná-los nesta seqüência. tros têrmos, a alusão; aU feita, às ~
- 220-
triçóe8 estabelecidas na Constituição cicio do poder de nomeação do Presiden-
compreende os casos em que a compe- te da República. Leiam-se as lições de
tência para prover cargos públicos fe- Barbalho (2' ed., pãg. 253: "o provi-
derais não pertence ao Presidente, mas mento dêles (empregos), na conformi-
a outros podêres, isto é, ao Congresso dade das leis, é função executiva";
e aos Tribunais, no que se refere às Carlos Maximiliano (3' ed., pâg. 550):
respectivas secretarias. O Congresso "estabelece as condições de
investidura e a duração do exercicio.
Esta observação desloca o debate para O Presidente escolhe, de conformidade
a locução na forma, da lei, que se lê na com a lei. .. "; Rui Barbosa ( vol. III,
mesma norma constitucional: prover os pâg. 225): "Não é verdade ( ... ) que
cargos federais, na forma da lei. Pre- ( ... : ) a demissibilidade seja ilimita.-
tende-se que esta expressão apenas sig- da ( ... ); não são poucas as leis pã-
nifica: de acórdo com as fortmalidade.8 trias, que restringem o arbitrio do Go-
estabelecidas na lei. O argumento, data vêrno ......
vcnia, não procede, porque a expressão
na forma da lei, segundo o entendimen- :m, aliás, idêntico o ensinamento, em
to correto e correntio, quer dizer: na relação à Constituição atual de Pontes
oonformidade da lei, consoante a lei, se- de Miranda (2' ed., vol. n. pãg. 896) e
gtJ.nlkJ alei, sefTU'luUJ o qwe dispuser a Temistocles CavalcAnti (Tratadn, voI.
lei .•. IV, pãg. 187 e 182).

:m claro que a lei não pode dispor Por outro lado, o texto constitucional
tudo, porque estã, por sua vez, sujeita não diz nomea:T, mas prover os cargos,
às limitações constitucionais, mas não o que compreende outras mo<!alidades
é o art. 87, nO V, o dispositivo que re- de provimento além da nomeação, como
gula tais limitações, e sim, todo o con- sejam a transferência, a promoção, o
junto das normas constitucionais que aproveitamento, etc. (Estatuto, art. 11).
estruturam nosso regime político-juridi- Assim, a tese de que o legislador ordi-
co. O que transluz, portanto, do art. 87, nãrio não pode condicionar o exercicio
no V é que o poder, que tem o Presi- do poder previsto no art. 87, n~ V, da
dente da República, de prover os cargos Constituição, se aceita pelo Supremo
públicos federais se exercerã de con- Tribunal, poria por terra grande parte
formidade com a lei. Pode assim o Le- do Estatuto dos Funcionãrios e de tôdas
gislativo condicionar o exercicio dêsse as leis que regulam as diversas moda-
poder, em têrmos compatíveis com os lidades de provimento de cargos fede-
demais dispositivos da Constituição. A rais. Tôda a disciplina legal das promo-
sua competência não é apenas para es- ções. das transferências, das readmis-
tabelecer as formalidades aplicãveis, sões, etc., não poderia mais prevalecer
mas também os pressupostos do provi- diante do arbítrio do Presidente da Re-
mento dos cargos públicos. pública, que se exerceria incontrolàvel-
mente, promovendo, transferindo, rea-
A fórmula da Constituição atual é daptando quem quer que fôsse do seu
mais explicita, a êsse respeito, que a de agrado ou incidi'SSe na sua antipatia.
1891, a qual, no art. 48, atribui a, pri- Estaria, pois, restabelecido, em favor do
vativamente, ao Presidente da Repúbli- Presidente da República, um poderio in-
ca, "prover os cargos civis e militares comensurãvel, de que hã muito jã es-
de carãter federal, salvo as restrições tãvamos desacostumados, com a evolu-
expressas na Constituição". O texto de ção doutrinãria. em todo mundo, em fa-
91 não continha a clãusula na forma da vor do sistema do mérito e das garan-
1Iet; entretanto, os seus mais autorizados tias funcionais no serviço público civil
comentadores sempre entenderam legi- A tais conseqüências catastróficas leva-
tima a competência do legislador para ria a premissa constitucional que, dGtct
dacipl1nar, condicionar, regular o exer- wMJ, e.tamoe combatendo.
- 221-
A melhor doutrina sempre entendeu, tOda a naturalidade, no regims de ou-
porém, de modo contrãrio, isto é, que o tooomia administrativa atribuido, por
Congresso não invade as atribuições do lei, a certos órgãos. Visa a investidura
Executivo, quando disciplina as nomea- de prazo certo a garantir a contmui-
ções, as demissões, as promoções, as d!Jde de orientação e a ~ de
transferências de servidores públicos. ação de tais entidades autônomas, de
Esta sua competência resulta, em pri- modo que os titulares, assim protegidos
meiro lugar, do regime adotado pela contra as injunções do momento, pos-
Constituição, que é o da divisão de po- sam dar plena execução à polltica ado-
dêres, cujo pressuposto é a harmonia e tada pelo Poder Legislativo, ao instituir
não a guerra dos podêres (art. 36 ) . o órgão autônomo e deferir-lhe as atri-
Em segundo lugar, deriva essa compe- buições. No sistema polltico vigente em
tência de outra mais ampla, que a nosso pais é, reaLmente, ao Legislativo
Constituição confere ao Poder Legisla- que cabe traçar a orientação geral da
tivo, para organizar os serviços públi- politica econômica e administrativa do
cos. "Os cargos públicos - diz o art. pais, pois dêle depende a votação do
194 - são acessiveis a todos os brasilei- orçamento, a concessão de créditos espe-
ros, obsertXlldo8 08 requt.sit08 que a lei ciais, a aprovação de tratados com na-
esmbelelcer" . ções estrangeiras e o poder de votar leis
em tôda a extensa área da competência
O acesso ao cargo público se dá pelo legislativa da União.
prov;mento; se êste depende dos requi-
sitos que a lei estabelecer, parece intui- Não é, aliás, a investidura de prazo
tivo, que o poder de pro1)E'7" os cargos certo uma invenção brasileira. Ela tem
públicos, atribuido ao Presidente da Re- uso freqUente em outras nações e fre-
pública, não pode deixar de estar con- qUentlssimo nos Estados Unidos, cujo
dicionado ao que dispuser a lei. regime copiamos. Numerosos são os car-
gos, especialmente nas ~ re-
Idêntico argumento se pode extrair
gulalm-y com4sst0rn8, cuja investidura
do art. 188, parágrafo único, da Cons-
se faz a prazo certo. Citarei algumas:
tituição, que declara não aplicável a es-
Junta de Aeronáutica Civil (OtviZ Ae-
tabilidade aos cargos "que a lei declare
r<»lllUdics BOOIrd), cinco membros no-
de livre nomeação e demissão". Se a lei,
ao definir cargos de livre nomeação e meados com prazo de seis anos, sendo
demissão não pode contrariar a Cons- que não mais de três do mesmo parti-
tituição, porque seria inócua, claro está do; Serviço de Reaproveitamento da
que pode inovar na matéria, autorizada Terra do Distrito de Columbia (District
pela própria Constituição, o que signi- 01 OolN.mbi4 Redeoolopment Land Agen--
CY), cinco membros nomeados por cin-
fica regular o poder de nomear e de
demitir do Presidente da República. co anos; Organização Federal de De-
Aliás, que irrisória competência para a pósito e Seguro (Federal Depos1.t 1_-
nmoe Co-rporation), um membro nato e
organização do serviço público teria o
legislativo, se não pudesse disciplinar a dois nomeados por seis anos; Junta Fe-
investidura dos servidores, o seu acesso deral de Bancos de Financiamento de
na carreira, a transferência de um car- Casas (Federal Hume Poam Bamk
go para outro, a readmissão, enfim, se Board), três membros nomeados por
tOdas essas matérias tivessem de ser quatro anos, sendo dois, no máximo, do
deixadas à discrição do Chefe do Poder mesmo partido; Comissão Federal do
Executivo! O poder de organizar o ser- Comércio (Federal Trade ComnniBsion) ,
viço público pertenceria, em tal hipó- cinco membros nomeados por sete anos,
tese, ao executivo, e não ao legislador. não mais de três do mesmo partido;
Comissão de Titulos e CAmbio (Becuri-
Cuidando-se, em especial, da investi- fies QIPIà Exchange ComanisMon), cinco
dura de servidor público por prazo certo, membros nomeados por cinco anos, sen-
eis uma providência que se integra, com do três, no máximo, do mesmo partido;
- 222-
Junta de Contrôle de Atividades Sub- Presidente dos Estados Unidos. Fica-
versivas (Subversive Acttvities ControZ ram vencidos McReynolds e os dois lu-
Board), cinco membros nomeados por minares Holmes e Brandeis.
cinco anos, não podendo mais de três
pertencerem ao mesmo partido; Comis- Entretanto, em duas outras decisões,
são do Serviço Civil dos Estados Unidos igualmente famosas, posteriores àquela,
(Un4ted States CtviZ Service Comission) ,
uma de 27-5-1935, outra, de 30-6-1958,
três membros nomeados por seis anos, ficou decidido que a doutrina do Myers
não podendo mais de dois pertencer ao Case não se aplicava às nomeações de
mesmo partido; Comissão de Tarifas prazo certo para órgãos dorodos de au-
dos Estados Unidos (United State8 Ta- tonoonia administrativa, dos quais, nos
rift C071V71I4ss1.an) , seis membros nomea- Estados Unidos, se diz que exercem fun-
dos por seis anos, não mais de três do ções quase-legislativas, ou quase judi-
mesmo partido (Apud Un4ted Btates ciárias, entidades criadas por lei e que
Government Organization MIWn1.W.l, 1960- correspondem, lato OOn.8'U, às nossas au-
-1961) . tarquias, dotadas, nos limites da lei, de
funções normativas e jurisdicionais,
Na sessão em que se iniciou o julga- não obstante o seu caráter de órgãos
mento dêste caso, foi ironizada a invo- administrativos, integrantes da admi-
cação da experiência legislativa, admi- nistração descentralizada. Refiro-me ao
nistrativa e judiciária dos Estados Uni- Caso Humphrey (295 U. S., 602, 1935)
dos. A estranheza, entretanto, não pro- e ao Caso Wi6ner (357 U. oS. 349, 1958).
cede. Não é esta consulta ora aconse-
lhada pela identidade dos regimes polí- A doutrina que nos mesmos foi afir-
ticos, em seus traços essenciais, como mada pela Côrte Suprema, a propósito,
também pela circunstãncia de que os respectivamente, da Comissão Federal
norte-americanos estão praticando o do Comércio e da Comissão de Recla-
presidencialismo, que inventaram, des- mações de Guerra, destinou-se, conscien-
ele mais de cem anos antes de nós. te e deliberadamente, a restringir, pre-
Grandes juristas brasileiros, entre êles, cisar e circunscrever a doutrina do
Rui Barbosa, o maior dos que já plei- Myers Case, a qual, entendida ao pé da
tearam perante o Supremo Tribunal, letra, ampliaria desarrazoadamente os
nunca se pejaram de recorrer às fon- podêres do Presidente da República, no
tes norte-americanas. tocante à demissão dos servidores pú-
blicos. O objetivo da nova doutrina, que
Pois bem: ali, depois de muito estu- a Côrte Suprema enunciou de maneira
dado e debatido o assunto, pelos três explicita, foi justamente garantir o
podêres chegou a Côrte Suprema a uma exerci cio das funções e atribuições dos
fórmula bastante apropriada e de fér- mencionados órgãos autônomos com a
teis conseqüências. O significado e o al- necessária independência, em face do
cance juridico da investidura de prazo Poder Executivo, para que pudessem
certo ficou a depender da rnatureza do cumprir, a salvo de injunções, a pol1-
cargo ou função. No tocante aos que se tica de orientação traçada pelo Poder
situam, estritamente, na linha hierár- Legislativo, ao instituir tais entidades
quica do Poder Executivo, isto é, den- autônomas.
tro da estrutura a que chamamos, no
Brasil, a administração direta, enten- Note-se, aliás que a Chefia do Poder
de-se que a investidura de prazo certo Executivo, configurada no Presidente
apenas marca o seu têrmo final mas da República e considerada de maneira
não impede o Chefe do Govêrno de exo- impessoal, isto é, independentemente da
nerar o funcionário antes dêste têrmo. pessoa que a exerça, também participa
Esta foi a doutrina de um julgamento do processo legislativo, através da ini-
famoso, o Mye:rs Case (272 U. S. 52), de ciativa, da sanção ou do veto das leis
1926. Foi rela.tor o Chief Justice William que organizam êsses órgãos indepen-
Taft, que por coincidência tinha sido dentes.
Peço vênia aos eminente colegas para dade executiva, exceto na sua seleção, e
let'- alguns trechos das duas citadas de- livre para emitir o seu julgamentó inde-
cisões da COrte Suprema, a fim de do- pendentemente de permissão ou emba-
cumentar o que acabo de indicar resu- raço por parte de qualquer outro fW1-
midamente. cionário ou qualquer departamento do
govêrno. li: evidente que o Congresso foi
Consta da ementa do caso Hum- de opinião que a extensão da investidu-
ph:re'JI8 Executor versus Umted Btate8, ra e a certeza de nela permanecer con-
segundo a publicação da La;wyer'8 Edi- tribuiriam de maneira vital para a con-
tion (55 S. ct. 869) : secução dêsses objetivos. A afirmativa
"O Congresso tem competência para de que, não obstante isso, os membros
determinar que agências quase-legislati- da Comissão continuam na fW1ção pela
vas ou quase-judiciárias desempenhem simples vontade do Presidente poderia
suas fW1ções independentemente do con- frustrar em larga medida, os próprios
trOle do Executivo, bem como estabele- fins que o Congresso procurou alcan-
cer prazo para o exercício dos cargos çar pela fixação do prazo de duração
respectivos e proibir a demissão dos res- do exercício. Concluímos que o intuito
pectivos membros, pelo Presidente da da lei é imitar o poder de demitir do
República, durante o prazo da investi- Executivo às causas enumeradas, ne-
dura (during their term 01 oI/ice), salvo nhuma das quais é invocada neste
ocorrendo motivo legal. ( ... ) A ques- caso ( ... )".
tão de saber se o Presidente pode de-
Note-se que na lei não havia expressa
mitir servidor público, a despeito da li- proibição de demitir, pois que se limi-
mitação estabelecida pelo Congresso ao tava a permitir a demissão pelos moti-
seu poder de demissão, depende da na-
vos enumerados; e a Côrte Suprema in-
tureza do cargo, e da circW1stância de
terpretou a lei, ccmtTario sen.s'U, como
exercer o servidor funções quase-legis-
proibitiva de demissão por outros mo-
lativas ou quase-judiciárias. ( ... ) A lei tivos, ou não motivada.
que permite ao Presidente demitir mem-
bros da Comissão Federal do Comércio O Br. Ministro Ribeiro da Costa (Re-
por ineficiência, negligência no cum- lator) - Embora não me agrade per-
primento do dever ou má conduta no turbar a elaboração de V. Exa., eu me
exercicio da função, interpretada no sen- permito fazer uma observação: é que
tido de limitar o poder de demitir do V. Exa. está argumentando com um
Presidente à ocorrência dos motivos caso ocorrido nos Estados Unidos que
mencionados estabeleceu legitima res- não tem pertinência com a espécie que
trição à competência do Executivo. vamos apreciar. V. Exa. se refere aO
( ... ) O Poder do Presidente de demi- exercicio de fW1ções quase-legislativas
tir os membros da Comissão Federal de e quase-judiciárias. Ora, é evidente que
Comércio é limitado à demissão pelos o ato do Presidente, que demitisse um
motivos especificos enumerados na dêsses investidos atentaria contra dis-
lei ( ... )". positivo de ordem constitucional. No
caso que vamos julgar, trata-se de ser-
Lê-se, ainda, no corpo da decisão: vidor administrativo, representante do
Govêrno, mandatário do Govêrno. li: coi-
" ( ... ) a letra da lei, os anais legis- sa diferente.
lativos e as finalidades gerais dessa le-
gislação, tais como refletidas nos deba- O Br. Ministro Vitor Nwne8 - Não do
tes, tudo concorre para demonstrar a Govêrno, embora a lei o diga, impro-
intenção do Congresso de criar entida- priamente. A Constituição refere-se à
de de pessoas especializadas, que adqui- União, quando se refere à previdência.
rissem experiência através do prolon- Chegarei lá. O que pretendo demonstrar,
gamento do exercicio; um órgão coleti- por ora, é que, nos Estados Unidos, o
vo, que fOsse independente da autori- que se chamam fW1çôes quase-judiciá.-
-224-
rias e quase-legislativas é, precisamen- aspiração do definitivo. Menos de dez
te, o que nós chamamos, aqui, funções anos depois, uma COrte unânilhe, em
normativas e jurisdicionais de órgãos Humphrey's Executor v. United States
administrativos. O sistema previdenciá- ( ... ), delimitou restritamente o alcan-
rio brasileiro baseia-se em uma série de ce da decisão Myers para incluir sOmen-
conselhos, com recursos diversos, con- te "os servidores simplesmente executi-
selhos que decidem sõbre direitos das vos" (aU purely ~We offi,cers)
partes interessadas e expedem normas ( ... )".
reguladoras da aplicação das leis de O que os americanos chamam 63:6-
previdência. 1t precisa.mente, é exatlssi- outive department ou exooutive esw--
m8JIIlente o que fazem, cada qual no seu bli8htment é o que nós denominamos
campo de ação, as reguJatqry comi8- admIIinistTnção direta, conceito que ex-
Bions, no direito administrativo norte- clui a administração descentralizada,
-americano. No caso Myron Wieln.ter 'V. através das autarquias. São diferentes
U/tIoi.teà Btates, de 30-6-1958, relatado
as palavras, mas os conceitos se cor-
pelo eminentíssimo Felix Frankfurter, respondem, aqui e nos Estados Unidos.
fêz-se um elucidativo confronto entre E o que se discute, no momento, é se o
os casos Myers e H1JII1IIPhrey, que muito Presidente tem ilimitado poder de de-
contribui para dar maior precisão à mitir os membros de um corpo delibe-
doutrina da Suprema Côrte. Lê-se na rativo autOnoono, integrante da admi-
ementa da Lawyer's EdUicm (78 S. Ct. nistração descentralizada.
1275):
Continuo a ler a Wietner optn4.on: "A
"O Presidente pode demitir funcioná- COrte, explicitamente, ~ as
rios que fazem parte da administração expressões, contidas no julgado Myers,
direta (e:recutive establi8h1ment), mas o que sustentavam o inerente poder cons-
poder presidencial de demitir os mem- titucional do Presidente de demitir mem-
bros de um corpo deliberativo criado bros dos corpos quase-judiciários. ( ... )
para exercer seu julgamento sem obs- O caso Humphrey foi uma 00<U.ge célt-
táculo por parte de qualquer outro fun- bre, e não menos nos recintos do Con-
cionário só existe, se o Congresso lho gresso. Qual a essência da decisão do
conferir. ( ... ) Tendo a Lei de Reclama- caso Humphrey? 1tle estabeleceu uma
ções de Guerra de 1948 instituido uma nitida linha divisória entre funcionários
Comissão com competência para julgar que fazem parte da administração di-
as reclamações de guerra de acõrdo com reta ( tlalEICUtWe establishtment) e que
a lei, e sem recurso, e não contendo essa eram, portanto, demissiveis por fOrça
lei qualquer disposição relativa à de- dos podêres constitucionais do Presi-
missão dos conselheiros, não tem o Pre- dente, e aquêles que são membros de
sidente autoridade para demitir um con- uma. entidade criada "para exercer seu
selheiro sõmente para ter, na Comissão, julgamento sem dependência de per-
pessoal de sua própria escolha". missão ou embaraço de qualquer outro
E no contexto da decisão lemos o funcionário ou de qualquer departamen-
seguinte: to do govêrno" ( ... ), e em relação aos
quais o poder de exonerar só existe na
Afirmou-se "que o caso Myers reco- medida em que o Congresso haja por
nheceu o inerente poder constítucional bem conferi-lo. Essa nitida distinção de-
do Presidente de demitir servidores pú- riva da diferença funcional entre os que
blicos, qualquer que seja a sua relação fazem parte da administração direta e
com o Executivo para o desempenho de os que pertencem a órgãos cujas atri-
suas atribuições, e não obstante as res- buições exigem absoluta independência
trições que o Congresso possa ter esta- em face do Executivo. "Pois é inequi-
belecido com respeito à duração da in- vocamente evidente - para de nOvo
vestidura. A versatilidade das circuns- citar o caso de Humphrey - que quem
tAncias muita vêzes desilude a natural exerce o cargo sômente enquanto agra-
- 225-
da a outro, não pode, por isso mesmo, órgãos por pessoa de sua confiança. En-
manter uma atitude de independência tretanto, afirmou, na outra sessão, o
ante a vontade dêsse outro". eminente Procurador-Geral que elas se
referiam a funcionários dos podêres le-
Essas duas memoráveis decisões lan- gislativo e judiciário. lfl possivel mesmo,
çam muita luz sObre o tema ora em que eu tenha ouvido mal as palavras de
debate. S. Exa. porque os dois precedentes da
O Sr. Ministro Cdmdido Mota - lfl Côrte Suprema cuidam, explicitamente,
que, nesses casos, não é unüorme a. ju- de membros de órgãos de funções quase-
risprudência americana. Há acórdãos a -judiciãrias ou quase-legislativas, o que,
favor e acórdãos contra. de modo nenhum, os situa nos quadros
do Congresso ou dos Tribunais. Perten-
o Sr. Mirnistro Vítor Nwnes - Posso cem êles ao que chamamos administra-
afirmar que não, depois de 1935; de- ção descentralizada. Como observa Clau-
pois do caso Humphrey, não. dius C. Johnson, "o tipo de órgão
de administração direta (executive de-
O Sr. Ministro Cândido M<Yta - Eu part'm8nts) que tem recebido maior
posso citar um livro a respeito da Pre- soma de atenção é a chamada contissão
sidência nos Estados Unidos, onde se independente" (GO'OO7'n:mernt irn the
aponta um caso de 1937. UnÜ18 States, 1956, pâgs. 534).
O Sr. Mmi8tro Vitor N1IIIW8 - Supo- Tais entidades são os eqUivalentes
nho que há equivoco. das nossas autarquias econômicas e ad-
ministrativas, cuja criação depende de
O Sr. Mmistro Hah,namwnn Guimarães lei. E a lei que lhes dá autonomia, nos
- Nos casos em que o funcionãrio po- limites que o legislador considere con-
dia ser demitido, não se falava em re- veniente, tem por objetivo, não só faci-
presentante do Govêrno. Na espécie, há litar a administração dos serviços res-
um representante do Govêrno num ór- pectivos, pela adoção de normas dife-
gão colegiado. rentes das que vigoram para a adminis-
O Sr. Mmistro Vítor Nwnes - Pro- tração direta, mas também tornar os
curarei tratar dêste argumento mais seus dirigentes, nos têrmos da lei, in-
adiante. E peço permissão para lem- dependentes da miúda e cotidiana inter-
brar que, no caso Wiener, membro da ferência do Chefe da administração fe-
Comissão de Reclamações de Guerra, deral. A doutrina dos casos Humphrey
nem sequer havia disposição que defi- e Wiener tem, como se vê, inteira apli-
nisse os casos de demissibilidade; nem cação ao processo em exame, quer pela
havia mesmo prazo explicito para a in- semelhança do regime (ao tempo da
vestidura. A lei criou uma comiSsão impetração, quer por se tratar de en-
para funcionar por prazo determinado. tidades administrativas de atribuições
Entretanto, com lei tão omissa, a una- congêneres, do ponto de vista do direito,
nimidade da Côrte Suprema, se afirmou e cuja continuidade e independência de
no mesmo sentido da decisão Hum- ação o legislador quis proteger com a
phrey. investidura de prazo certo de alguns ou
de quase todos os seus dirigentes.
O Sr. Ministro Hahtnem.omm. Guima-
rães - No caso Humphrey, nenhum Encerrada esta longa referência à ju-
funcionãrio representava um órgão co- risprudência norte-americana, voltemos
legiado. às razões contrãrias à impetração. Tam-
bém se argUiu que o poder de demitir
O Sr. Ministro Vítor N1IIIW8 - A ra- deriva do de nomear, e concluiu-se que
zão pela qual dois Presidentes, Roose- são ambos co-extensivos; devendo pre-
velt e Eisenhower, demitiram os refe- valecer, para o poder de nomeação,
ridos funcionãrios foi que o Govêrno apenas as restrições expressas na Cons-
precisava estar representado naqueles tituição federal, o mesmo se deveria
- 226-
entender com relação aO poder de de- mitir. Outros exemplos, além do está-
mitir. gio probatório, poderiam ser lembrados.
Ocorre-me a doutrina dos motivos de-
11: realmente aceito, pelos especialis- terminantes, desenvolvida, na França
tas, que o poder de demitir resulta do por Gaston Jêze, e aceita, entre nós,
de nomear. Não hã, porém, concordân- em parecer de Francisco Campos. Essa
cia na tese de que o poder de demitir é doutrina foi recentemente, prestigiada
co-extensivo do de nomear, isto é, que pela 2' Turma do Supremo Tribunal Fe-
os dois podêl'es tenham as mesmas di- deral (e digo prestigiada, porque não
mensões ou se desenvolvam dentro da partIcipei do julgamento), no caso Vas-
mesma superfície. co Pezzi, pela palavra magistral do
O poder de demitir, em alguns casos, eminente Ministro Hahnemann Guima-
tem extensão maior que o de nomear, rães (ag. 24.715, de 10-10-61).
quando se dispensa, por exemplo, a con- Estou, pois, firmemente convencido
cordância do Senado para o afastamen- de que o Govêrno extraiu da regra, se-
to de titulares cuja investidura depende gundo a qual o poder de demitir deriva
da sua aprovação. A recíproca também do de nomear, conseqüências que a lei,
é verdadeira, segundo a nossa reiterada a doutrina e a jurisprudência têm re-
prãtica legislativa, judiciãria e adminis- pelido, com fundadas razões. A Cons-
trativa, coincidente com a de outros tituição não ampara a interpretação na-
países, no sentido da legitimidade das poleônica do Executivo no caso pre-
restrições legais ao poder de demitir. sente.
Uma das questões, cujo exame se tem
repetido illtimamente, envolvendo o pro- Ponderou-se, por outro lado, que a
blema em debate, é a do estãgio proba- pretensão do impetrante, de não ver re-
tório. Jã decidimos com o apoio do emi- duzido, sem justa causa, o prazo de sua
nente relator do presente processo, que investidura, equivale a criar um caso
não hã identidade entre o instituto do de estabilidade temporãria, que a Cons-
estãgio probatório e o da estabilidade. tituição não admite. O argumento, data
Ambos têm de comum serem garantias venia, não focaliza adequadamente o
contra a demissão arbitrãria ou imoti- problema em debate. A garantia ão
vada de servidores públicos. Entretanto, exercício do cargo, por certo prazo, de
uma diferença fundamental, que separa modo algum pode ser equiparada à es-
os dois institutos, consiste em estar o tabilidade. Cabem aqui, as mesmas ra-
servidor estãvel protegido contra a pró- zões jã desenvolvidas quanto à distin-
pria supressão do cargo, ficando, em tal ção entre o estãgio probatório e a esta-
caso, em disponibilidade, até ser apro- bilidade.
veitado em outro eqUivalente. Dessa
garantia não dispõe o estagiãrio, mas A investidura de prazo certo é apenas
êle estã resguardado de demissão arbi- uma, dentre vãrias técnicas admissíveis,
trária ou imotivada, porque, para seu para proteger o servidor público das
afastamento o Estatuto dos Funcionã- demissões arbitrãrias, ou imotivadas, e
rios exige processo administrativo. visa a um objetivo que transcende dessa
conseqüência imediata, o de garantir a
A prevalecer a doutrina, que a admi- continuidade de orientação e a indepen-
nistração sustenta no caso presente, de- dência dos órgãos administrativos que o
saparecerã da nossa legislação, por in- legislador dotou com autonomia. Esta é
constitucional o instituto do estãgio pro- que é, repita-se, a finalidade de ordem
batório. Na verdade, porém, assim como geral, a razão de serviço público que
o legislador pode condicionar o exercí- inspira a investidura de prazo certo.
cio da competência do Chefe do Go- Por isso mesmo, a doutrina formada
vêrno para prover cargos, também púde pela Côrte Suprema dos Estados Unidos
condicionar, sob a inspiração do interês- só lhe atribui a conseqüência de vedar
se público, o exerci cio do poder de de- a. demissão antes do têrmo, sem moU-
- 227-
vo legal, quando se trate de funcioná- fiança, que pressupõem, por definição,
rio de entidades autônomas, cuja inde- a demissibilidade ad nutum.
pendência de critério tenha de ser pre-
servada, e não de servidores integra- Além disso, são numerosos os exem-
dos na hierarquia ordinária da admi- plos de normas legais que protegem, in-
nistração direta. diretamente, os titulares de cargos de
Não há, pois, que invocar a disciplina confiança. Assim, a Lei n 9 1.741, de 22
constitucional da estabilidade para se de novembro de 1952, garante os venci-
negar validade à investidura de prazo mentos da comissão ao funcionário dela
certo, porque são noções diferentes. afastado depois de dez anos de exerci-
cio. Do mesmo modo, o Estatuto dos
Existe, aliás, uma situação bem pa- Funcionários ( artigo 180) garante os
recida com a investidura de prazo certo vencimentos da comissão, ou da função
nas relações de trabalho de natureza pri- gratificada ao servidor que se aposen-
vada. Refiro-me à imprôpriamente cha- tar depois de certo tempo de servi~o pú-
mada estabilidade temporária oú provi- blico e de exercício daquelas posições
sória dos dirigentes sindicais. 1!lles não de confiança.
podem ser afastados do emprêgo, sem
falta grave, enquanto durar o exercicio o cargo que a lei doutou com 11. inves-
da representação sindical. Essa garantia tidura de prazo certo não pode ser tido
foi estabelecida, pelo legislador, não em como função de confiança, porque é jus-
benefício do trabalhador, individualmen- tamente o oposto dela, sendo antinômi-
te considerado, mas no superior interês- cos os propósitos do legislador num e
se da função, que, por sua natureza, há noutro caso. Permitam-,me repetir um
de ser desmpenhada com independência. trecho da decisão da Côrte Suprema, no
caso Humphrey, repetida no caso Wie-
Também se disse, no caso dos autos, ner: "quem exerce o cargo sômente en-
qUe as funções dirigentes, como esta de quanto agrada a outro, não pode, por
que cuidamos, são de confiança; esta- isso mesmo, manter uma atitude de in-
riam, pois, pela própria Constituição, dependência ante a vontade dêsse
excluídas da proteção da estabilidade. outro".
Respondo a êsse argwnento, oota
1Jenia, em primeiro lugar, com as mes- o objetivo do legislador, Com a inves-
mas considerações já aduzidas a respei- tidura de prazo certo, é justamente tor-
to da estabilidade. A estabilidade é uma nar o titular do cargo independente das
coisa, e a investidura de prazo certo, injunções do Chefe do Poder Executivo.
outra, bem diferente, cada qual com os Pode errar o legislador, ao adotar êsse
seus pressupostos e objetivos. A estabi- critério, em relação a tal ou qual ser-
lidade visa, sobretudo, à proteção da viço a que concede autonomia, mas não
pessoa do servidor; a investidura de pra- cabe ao Judiciário corrigir a política do
zo certo, o que protege, através da per- Poder Legislativo. Se o que visa o Le-
manência do servidor no cargo, é o inte- gislativo é, justamente, tornar deter-
rêsse mais alto, da continuidadé e in- minado funcionário independente, no
dependência da função por êle exercida exercicio de suas atribuições, como po-
num órgão dotado de autonomia. demos nós dizer, ao contrário da lei,
Em segundo lugar menciona a Cons- que êsse funcionário exerce função de
tituição (art. 188, parágrafo único) os confiança, que o tornaria inteiramente
cargos de confiança, mas não os defi- submetido ao Chefe do Govêrno?
ne. Essa atribuição, ficou, portallto, de-
legada ao legislador ordinário (art. Concluída a discussão no plano cons-
184). Quando a lei cria um cargo com titucional, passemos aos argumentos de
investidura de prazo certo, evidente- natureza legal. Já aludimos a improprie-
mente o exclui da categoria dos de con- dade da denominação mamdato, que se
- 228-
tem dado à investidura administrativa gumento de lhes serem aplicáveis as re-
de prazo certo. Entretanto, essa errô- gras do direito privado relativas ao
nea extensão do vocábulo resultou da mandato. Nestas condições - prosse-
aproximação de tais situações, não com gue o argwnento - se pode o mandan-
o mandato de Ilireito co.mum, porém com te, salvo casos especiais, previstos em
o mandato de direito político, isto é, lei, revogar o mandato, poderia também
com o mandato político-representativo. o Presidente da RepúbliCa demitir o
E o ponto de afinidade consiste, justa- servidor nomeado com prazo certo.
mente, em que um e outro são de pra-
zo irredutivel. Data 1Xmia, o uso impróprio do vocá-
bulo mar1uW,to não pode mudar o prêto
Afirmou, na primeira assentada dêste em branco, para fazer surgir, em tais
julgamento, o eminente Procurador-Ge- casos, a figura juridica do mandato.
ral que o mandato político é revogável, Pelo art. 1.208 do Cód. Civil, tem-se o
ao arbítrio do mandante, pois a tanto mandato, "quando alguém recebe de
equivale o processo de ilmpeachment. outro podêres para em seu nome, pra-
Com a devida vênia, não é o impooch- ticar atos, ou administrar interêsses"
ment o instituto de direito político em Daí resulta, portanto, que a atividad~
que se traduz a noção de revogabilidade exercida pertence, originàriamente, ao
do mandato representativo; é o recall mandante e é por êle delegada ao man-
através do qual os próprios eleitores re- datário, ou por comodidade, ou por falta
tiram o mandato conferido ao seu repre- de habilitação legal.
sentante. Mas nunca se afirmou, ao que
eu saiba, pudesse o recatl ser admiti- Nada disso acontece nas nomeações
do como implícito na própria noção de de prazo certo. No caso dos autos, por
mandato político, isto é, que se pudesse exemplo, quem pode pretender que as
adotar, sem norma constitucional ou le- atribuições exercidas pelo nomeado fôs-
gal, o princípio da revogabilidade do sem, originàriamente, do Presidente da
mandato politico. República, de modo a constituir-se aquê_
le em mandatário dêste?
Nem quis o eminente Procurador-Ge-
ral, ao que parece, extrair essa conse- o Sr. Ministro Ribeiro da Costa (Re-
qilência das suas próprias palavras, por- lator) - V. Excia. pode transferir êste
que apelou para o ímq>e:rchment. Mas raciocínio para o plano político e verá,
êsse procedimento, de gravidade excep- então, que, realmente, êsse servidor in-
cional, não acarreta a revogação, e sim, vestido pela vontade do Presidente da
a perda do mandato. l!: uma sanção de República não é senão um mandatário
natureza político-criminal, que pressu- do Presidente da República, que perso-
põe a prática de crime de responsabili- nifica o Govêrno. Se quiser V. Excia.
dade. A invocação do impeac1vment, por- transpor o sentido jurídico do instituto
tanto, longe de favorecer a tese do Go- do mandato para o caso em aprêço, verá
vêrno, no sentido da livre demissibili- que o Presidente da República personi-
dade dos servidores nomeados com pra- fica o Govêrno e tem nesses órgãos, sem
zo certo, levaria antes à conclusão con- dúvida, um seu mandatário, o qual vai
trária. Assim co.mo, no plano politico, executar, no órgão para onde é nomea-
se exige crime de responsabilidade para do, a sua vontade, o seu programa as-
o impoochment, no plano administrativo, sistencial, o seu programa politico, o
para a demissão de servidor nomeado seu programa de amparo ao trabalha-
com prazo certo, se teria de exigir falta dor. Não podemos perder esta noção que
grave, a ser apurada em processo ad- é real para o caso que estamos apre-
ministrati vo. ciando.
Encerrada essa digressão, vemos que O Sr. Ministro Vítor N1JJI1e.S - Se me
a errônea denominação de 'ma;luW.to, permite V. Exa., quando as leis ins-
aplicada a êsses casos, deu lugar ao ar- tituem essas investiduras de prazo cer-
- 229-
to, o objetivo é precisamente o de reti- prio cargo; por isso não podem ser re-
rar do Presidente da República o poder tiradas do funcionário a não ser com
que V. Excia. lhe reconhece. E, quando a sua demissão. Mas nunCa se susten-
o legislador quer manter êsse poder, as- tou, no direito administrativo, que de-
sim dispõe expressamente. Por exem- missão de funcionário seja ato equiva-
plo, no Banco de Desenvolvimento Eco- lente ou equiparável à retirada de de-
nômico, o presidente é de livre nomea- legação de podêres. Nunca vi isso em
ção e demissão, enquanto que os demais livro nenhum: que seja a mesma coisa
diretores têm prazo certo de investi- retirar a delegação de podêres, ou de-
dura. ~ o próprio legislador quem dis- mitir o funcionário, para que não exer-
tingue as duas situações: se marca pra- ça as atribuições que lhe confere a lei.
zo para a investidura de alguns, é por- Retira-se a delegação, quando a auto-
que não quer permitir a livre demissão. ridade superior, que a conferiu, não
quer mais que o delegado a exerça.
o Sr. Ministro Ribeiro da Costa (Re-
lator) - Cabe à Côrte Suprema dar Não há que cogitar, portanto na apli-
essa definição para ajudar a obra go- cação, ao caso presente, das regras de
vernamental, para ajudar o programa direito civil sôbre revogação de manda-
que o Presidente da República tem de to, porque aqui não se cuida de nada. pa-
executar. recido com mandato de direito comum.
Se houvesse afinidade, seria com o man-
o Sr. Ministro Viro,. Nwte8 - Estou dato politico, e êste, em nosso direito,
procurando dar a minha modesta con- é irrevogável.
tribuição, para que o Tribunal chegue à
interpretação que julgue mais acertada. Abro agora um parênteses para consi-
Tais funções são criadas em lei, e esta derar, mais detidamente, um argumen-
as institui desde logo, como atribuições to dos eminentes Ministros Hahnemann
do próprio servidor nomeado para exer- Guimarães e Ribeiro da Costa, que me
cê-las. Não se pode receber, por trans- honraram com seus apartes.
ferência de outrem, aquilo que a lei já
conferiu diretamente. Não existe pois, o fato de dispor a Lei de Previdên-
aqui, a figura do mandato de direito cia Social que o Conselho se compõe de
~te8 da classe dos emprega-
comum nem se pode ter o ato de no-
meação como equivalente à procuração, dos, da classe patronal e de orepresen-
que, pelo citado art. 1.288, do Cód. Civil, tantes do Govêrno, não quer dizer, de
"é o instrumento do mandato".
modo nenhum, que se trata de mam,..
dato.
Também não se pode ver na nomea- O Sr. Mimistro Hanmemnmfl Gioumarães
ção um ato de delegação de podêres, - Trata-se do poder de "representa-
igual na esfera administrativa, porém ção"; há representação sem mandato; a
na linha da hierarquia. As nomeações representação é uma situação inerente
de prazo certo, de que estamos cogi- a várias situações juridicas.
tando, são para cargos integrantes de
órgãos dotados de autonomia, isto é, O Sr. Mimstro Vitor Nunes - Quero
com atribuições derivadas diretamente concluir o meu raciocinio, eminente
da lei. Mestre. Não há representação do Go-
vêrno em sentido próprio. A Previdên-
Basta recordar que a delegação de pc- cia Social está estruturada essencial-
dêres Se confere a Um funcionário, que mente, na própria Constituição; ba-
continua no exercicio do cargo próprio, seia-se em contribuição triplice: dos
mesmo depois de cessar a delegação, empregadores, dos empregados e da
pois esta cessão só se refere, õbviamen- União. Diz a Constituição federal (art.
te, aos podêres delegados. Entretanto, 157, n. XVI): "previdência, mediante
na investidura de prazo certo, as atri- contribuição da União, do empregador
buições são, por fôrça de lei, do pró- e do empregado." Porque a União, istQ
- 230-
é, o Estado Federal contribui com um sação do mandato de direito privado, é
têrço da receita que mantém a previ- instituída no beneficio pessoal do man-
dência social, êstes órgãos se estrutu- datário, tem caráter compensatório.
ram com pessoas, não só indicadas pela Mas o prazo da investidura, em C'dSOS
classe dos trabalhadores e pela classe como o dos autos, não é instituído em
patronal, mas também por pessoas razão da pessoa do servidor, mas ra-
nomeadas pelo Govêrno federal. tione rei publicae. Assim, a reparação
do afastamento do funcionário antes do
Se os eminentes Ministros Hahnemann têrmo - afastamento ilegal - não pode
Guimarães e Ribeiro da Costa estão ser de ordem privada, traduzível em
dado tanta atenção à palavra "repre- dinheiro, mas há de ser também de or-
sentantes" empregada noutro sentido, dem pública, com a volta do serviãor ao
e não no sentido de "mandatários", na cargo de que foi dispensado cõntra a
Lei Orgãnica da Previdência, lembrarei lei.
que também na lei de organização das
Juntas de Conciliação e Julgamento e Findo o exame do assunto sob o as-
dos Tribunais de Trabalho de instância pecto legal, vejamos os argumentos de
superior há Juizes representantes das natureza administrativa e poutica. Pon-
classes - empregadores e empregados derou-se que não seria justo ficar o
- nomeados pelo Presidente. Haverá nôvo Presidente vinculado às nomeações
quem sustente que êsses Juizes possam do antecessor; seria mesmo estranhável
ser desti tuidO'S ? que o Presidente, prestes a sair, pudesse
fazer nomeações, cuja duração se pro-
o S'1'. Ministro Hahm.emOh1Jn Guima- longasse pelo seguinte período presiden-
rã.es - As causas de destituição da cial, numa espécie de manobra política
função judiciária são determinadas e de ação retardada.
não há, na lei, causas de demissão fi-
xadas quanto aos representantes do o argumento, data 1JeIlia, é de natu-
Govêrno. reza puramente circunstancial. Coinci-
diu que as nomeações impugnadas foram
o Sr. Ministro Vitor Nw1t6s - Tam- feitas nos últimos tempos do Govêrno
bém não há, na lei, causas especificas anterior. Sendo, porém, o prazo em cau-
de demissão para os Juizes temporários sa de quatro anos, bem poderia ocorrer
da Justiça do Trabalho. que a investidura cruneçasse e terminas-
se na gestão do mesmo Presidente. Esta
o Sr. Ministro Hahllema,nn Guimarães possibilidade tira, portanto, ao argu-
- Sem dúvida há perda da função ju- mento, qualquer validez de ordem teó-
diciária, em casos determinados. rica.
o Sr. Ministro Vitor Nunes - Mas o que há, porém, a observar, a êste
está isto expresso na lei? Ninguém, no respeito (sem falar no reverso da me-
Brasil, já sustentou que êsses Juízes, dalha, que seriam as nomeações do nôvo
chamados repTes13ntcmtes das classes, Presidente, no fim do seu mandato, al-
pudessem ter o seu mandato interrom- cançando, assim, o periodo do sucessor),
pido antes do prazo legal. São repre- é que a cautela trunada pelo legislador,
sentantes, em sentido impróprio; neste ao instituir a investidura de prazo cer-
mesmo sentido impróprio é que aparece to, não se dirige, especificamente, con-
o vocábulo na lei de previdência. tra êste ou aquêle governante, parti-
cularmente considerado. :m uma garan-
Igualmente, não há que se cogitar de tia de independência do exercício das
reparação pecuniária pela revogação do funções dirigentes do órgão autônomo
mandato antes do têrmo. Tudo isto é contra qualquer ocupante da Chefia do
matéria estranha ao tema em liebate. A Poder Executivo, mesmo contra o Pre-
reparação de ordem econômica. pela ces- sidente que tiver feito as nomeações.
- 231-
Também se objeta que a permanência conveniência administrativa o principio
dêsses titulares nomeados pelo govêrno da independência do órgão dotado, por
anterior pode acarretar falta de entro- lei, de autonomia.
samento corn o nôvo govêrno, prejudi-
cando a sua ação administrativa. 1!:ste Sem dúvida, o bom entendimento en-
foi, aliás, o argumento usado pelo Pre- tre o Chefe do Govêrno e os dirigentes
sidente Roosevelt, para demitir Hum- e executores da política do Estado é,
phrey, da Comissão Federal de Comér- em tese. um bem para a administração
cio, e pelo Presidente Eisenhower, para pública. Mas isso é falar, não a lingua-
afastar Wiener, da Comissão de Recla- gem da lei, mas a da conveniência ad-
mações de Guerra. Eis corno o Justice ministrativa. O legislador há de ter pon-
Sutherland relata o primeiro episódio: derado a desvantagem do eventual de-
sencontro de pontos de vista, com o
"Em 25 de julho de 1933, o Presidente beneficio, por êle considerado mais re-
Roosevelt endereçou wna carta ao con- levante, de garantir continuidade e in-
selheiro ( commissioner) , pedindo sua dependência na execução das tarefas
resignação, com fundamento em que confiadas ao órgão autônomo. Quem há
"os objetivos e propósitos da adminis- de pesar as vantagens e inconvenientes
tração relativamente aos trabalhos da de cada uma das duas soluções, não
Comissão podem ser levados a efeito é o Judiciário, que não faz lei, mas o
mais eficazmente com pessoal de minha Legislativo. E êste manifestou a sua
própria escolha", solução que, todavia, opção nitidamente, quando instituiu a
"não signüicava qualquer restrição à investidura de prazo certo.
p1'!ssoa do conselheiro, nem aos seus
serviços." O conselheiro respondeu, so- O argumento, que ora examinamos,
licitando tempo para consultar os ami- por mais valioso que seja no plano da
gos. Depois de alguma correspondência ciência da administração, constitui, do
ulterior sôbre o assunto, o Presidente, ponto de vista juridico, uma razão exa-
em 31 de agôsto de 1933, escreveu ao tamente contrária à que terá inspirado
conselheiro expressando o desejo de que o legislador. Para bem interpretar a
a resignação fôsse apresentada a seguir lei, são as razões do legislador, e não
e disse: "Sei que o Senhor está cons- as que a elas se opuserem, que o apli-
ciente de que o seu pensamento e o meu cador deve levar em conta. São muito
não se ajustam, nem sôbre a politica, adequadas as palavras de Brandeis, vo-
nem sôbre a administração da Comis- tando vencido no Caso Myers: "A dou-
são Federal do Comércio e, falando trina da separação de podêres - disse
com franqueza, acho que será melhor êle - foi adotada pela Convenção de
para o povo dêste pais que haja plena 1787, não para promover a eficiência.
confiança em mim." O conselheiro não mas para prevenir o exercicio do poder
resignou e em 7 de outubro de 1933, o arbitrário."
Presidente lhe escreveu: "A partir desta Objeta-se, com razão, que poderão
data, o senhor está demitido do cargo tais titulares, garantidos contra sua de-
de Conselheiro da Comissão Federal de missão antes do têrmo, abusar das fun-
Comércio." ções. Essa possibilidade também há de
Do mesmo modo, o Presidente Ei- ter sido pesada pelo legislador; por isso
senhower, para afastar Wiener, assim a lei institui, ao lado da investidUra de
se expressou: "Considero de interêsse prazo certo, os mecanismos que a dou-
nacional completar a administração da trina denomina, genêricamente, de
Lei de Reclamações de Guerra de 1948 tutela (Marcelo Caetano, M<JIWIl4l, 4' ed.,
( ... ) com pessoal de minha própria § 93).
escolha."
E o legislador, certamente, teve por
Entretanto, a Côrte Suprema teve menos pernicioso êsse eventual desvio
por mais valioso do que eSSa alegada do que o poder incontrastável do Chefe
- 232
do Govêrno sôbre tôda a administração EXPLICAÇÃO
descentralizada, pois isso desvirtuaria a
própria razão de ser da descentraliza- O Sr. Ministro Ribetro da Oosta (Re-
ção. lator) - Sr. Presidente, tivemos a sor-
te, nem sempre comu.m, de ouvir um
A tese do Govêrno, no caso presente, douto pronunciamento acêrca de ques-
data vonia, consagraria, em têrmos de tão relevante, suscitada em pedido de
decisão judiciária e com a categoria de segurança a êste egrégio Tribunal, do
principio constitucional, os extremos qual sou relator, tendo o meu voto re-
co sistema dos despojos. Mas a atual cebido integral refutação do eminente
legislação, qUe em todos os países civi- Sr. Ministro Vitor Nunes, que solici-
lizados procura resguardar o serviço pú- tara vista dos autos.
blico civil da influência ilimitada da
política, foi precisamente uma conquis- Faz-se mister a minha réplica, a fim
ta, lenta e penosa, contra o spoil sys- de estabelecer em tôrno da controvér-
tmn. A prevalecer a opinião do Govêr- sia distinções que reputo necessárias,
no, todos os órgãos autônomos, ora exis- para que êste Tribunal se oriente, já
tentes em nosso Pais, criados em épo- que, pela primeira vez, deve pronunciar-
cas diversas, perderiam, de imediato, a se a respeito de tal problema.
sua autonomia. Reitores de universida-
des, diretores de escolas superiores, re- o eminente Sr. Ministro Vitor Nunes
presentantes das congregações nos con- entende que a disposição da vigente
selhos universitários, juízes trabalhis- Constituição, no art. 87, nq V, que in-
tas, representativos das classes operária veste o Presidente da República na fa-
e patronial, membros dos Conselhos de culdade de prover os cargos públicos fe-
Contribuintes e do Conselho de Tarifas, derais, deveria ser interpretada por êste
enfim, tôda uma série de altos titulares, Tribunal de forma dia.metralmente opos-
cujo desempenho carece de ser prote- ta àquela que me pareceu conscentânea
gido, em face do Poder Executivo tôda com o aludido preceito e com os pre-
essa gente que forma na cúpula da ad- cedentes aos quais me filiei. A atual
ministração descentralizada, poderia ser Constituição dispõe, realmente, no
mudada de u.m momento para outro, ao art. 87:
simples critério, arbítrio ou capricho do
soberano eletivo, que seria, entre nós, o "Compete privativamente ao Presi-
Presidente da República. dente da República:
Estou, portanto, convencido de que, V - Prover, na forma da lei e com
mesmo do ponto de vista da conveniên- as ressalvas estatuídas por esta Cons-
cia administrativa e política, seria um tituição, os cargos públicos federais."
mal, não um bem, o retôrno ao sistema
dos despojos, que ainda prevalece, lar- Entende S. Excia. que a expressão
gamente em nosso País, e que, neste "na forma da lei" se refere àquilo que
processo, se pretende reimplantar nas a lei dispõe quanto à investidura de re-
áreas reduzidas em que a lei procurou ferência ao tempo de sua duração, en-
cerceá-lo. quanto que não nos parece que assi.m
seja, e sim que a expressão "na forma
Estas considerações são feitas a pro- da lei" se refere à nomenclatura dos
pósito do regime presidencialista. Te- cargos, à discriminação das funções,
riam elas, porém, maior adequação no porque as Constituições anteriores dis-
parlamentarista, em que ora ingressa- punham de outra maneira em relação a
mos, porque, neste, à posição preemi- essa mesma faculdade concedida ao
nente que assume o Congresso, diante Chefe do Poder Executivo Federal.
do Executivo, há de corresponder maior
prestigio da lei. A Constituição de 1891 dizia:
- 233
"Compete privativamente ao Presi- Citei, por ocasião do meu voto, o caso
dente da República prover os cargos ci- do Dr. Demócrito Barreto Dantas, in-
vis e militares de caráter federal, salvo vestido na função de Diretor da Caixa
as restrições expressas na Constitui- Econômica Federal por quatro anos, por
ção." nomeação do govêrno do finado, saudo-
síssimo e nunca esquecido Ministro José
Ao Presidente cabia prover, 8IaJvo Linhares. O Sr. Presidente que o su-
aqwelct8 restrições. cedeu exonerou o Dr. Barreto Dantas.
A atual diz: "com as ressalvas es- Mas êste impetrou mandado de segu-
tatuidas por esta Constituição", mas rança para ser garantido no cargo ou
inclui aquela expressão: "na forma da para se lhe assegurarem os proventos
lei", intercaladamente, no seu texto. durante o período da investidura. E o
Supremo Tribunal garantiu êsses pro-
Então, no caso em aprêço o Presiden- ventos, porque tinha sido nomeado de
te pode prover e desprover, nomea.r e acôrdo com a lei, e o Presidente da Re-
desnomear, porque não há, na Constitui- pública não podia desnomeá-Io naquela
ção federal, em relação à investidura de ocasião.
que se trata, nenhuma restrição ao Pre- Ora, a situação dos atuais membros
sidente para fazer ou desfazer. Se é dos Institutos previdenciários não é
cargo em comissão o de que se cuida, é idêntica à do Dr. Barreto Dantas, que
cargo demissível ad nutwm. Não está fôra nomeado na vigência da Consti-
ínsito nos preceitos da Constituição a tuição de 1937 e demitido ainda na vi-
pretensa garantia de estabilidade, em- gência dela, prevalecendo em seu favor
bora a lei ordinária tenha estabelecido a exceção da lei. Os atuais estão com
que a in~stidura se dilatará por qua- os seus titulos de nomeação subordina-
tro anos. dos àquilo que expressamente dispõe a
As Constituições que se seguiram à vigente Constituição. O Presidente pode
de 1891, colocaram a questão de modo nomear ou desnomear, salvo as restri-
diferente. A de 1934 dispõe: ções contidas na Constituição, mas, em
relação a essa investidura, a Constitui-
"Compete ao Presidente da Repúbli- ção atual não cria nenhuma restrição
ca prover os cargos federais, salvo as para a desnomeação, antes a autoriza
exceções previstas na Constituição e porque se trata de cargo exercivel em
tIJa8 lei,s>'. comissão, como o é o de estrita con-
fiança do Govêrno, do qual o impetrante
Se na Constituição de 1934, a lei con- era mero representante na entidade au-
feria ao investido em cargo público a tárquica.
garantia, embora provisória, de o exer-
cer por quatro anos, o Presidente não Pensemos em têrmos de realidade. O
poderia desnomeá-Io nesse interregno, Govêrno, que tem o seu programa assis-
já que a lei federal lhe assegurava a tencial, econômico e político, ligado ao
outorga pelo penodo de quatro anos, problema de socorro ao trabalhador em
compreendida naquela exceção. geral, que traça o seu programa e n0-
meia para dirigir essas entidades pes-
O mesmo ocorreu com a Constituição soas que o vão representar ali, ficará
de 1937, que dizia: atado à investidura pelo prazo de qua-
"Compete privativamente ao Presi- tro ano, se tais pessoas descumprem
dente da RepÚblica prover os cargos fe- suas determinações, seu programa?
derais, salvo as exceções previstas na Isto seria admitir o absurdo, seria admi-
Constituição e na.s lei8." tir um Presidente da República inex-
pressivo e desarmado. :s: impossível que
:s: que a exceção da lei, prevista no a lei pretenda um dislate dessa ordem.
texto constitucional, obstava ao Presi- O que a lei visa é que as coisas corram
dente o uso de ato discricionário. dentro de um ambiente de compreensão,
- 234-
de obediência, de disciplina, de respeito parte Humphrey. A mím me parece que
a lIll'll programa governamental. Assim, os órgãos que cuidam no nosso Pais
caberia ao Presidente da República, de previdência 'Social estão diretamente
como coube ao Dr. Jânio Quadros, ti- vinculados ao Presidente da República,
rar essas funções àqueles que, nas à sua política assistencial, à sua políti-
vésperas de terminar o Govêrno an- ca econômica. Será que o Presidente da
terior, haviam sido nomeados. A meu República nêles não intervém indireta-
ver, datn veni.!;t, o Presidente da Re- mente através de representantes seus,
pública que tivesse diante de si dois me- Presidentes, Diretores, Conselheiros?
ses de mandato a terminar, deveria es- Assim creio qUe a objeção contida no
perar que viesse o seu substituto para voto do eminente Ministro Vítor Nunes
inaugurar o seu nôvo programa admi- a respeito da'S restrições da Constitui-
nistrativo e governamental e então no- ção ao Presidente da República para no-
mear seus funcionários. Mas sabemos, mear e desnomear, creio, e creio since-
ninguém o ignora: as nomeações foram ramente, não oferece consistência. Per-
feitas a toque de' caixa, ao fim do Go- mita o meu eminente colega, a quem
vêrno. Ora, a tramitação de uma lei tanto admiro, que eu assim o diga. Não
dessa ordem é rotineira, demorada. O é consistente, porque a Constituição su-
Sr. Presidente estava terminando o man- bordina a nomeação para os cargos e
dato porém muitos eram os interessa- a desncmeação, às restrições que ela
dos em que as coisas se fizessem ao sa- mesma estatui. Neste caso, não há res-
bor de suas ambições e conveniências. trições ao ato do Presidente da Repú-
Então a lei correu celeremente, o Pre-
blica para desnomear, ato que corres-
sidente sancionou-a e, logo depois, tra- ponde à iniciativa de bem governar o
tou de nomear... Os jornais falavam
País. E não podemos negar ao Presi-
disso todos os dias. Veio a avalancha de dente da República êsse objetivo. Qual
nomeações. a intenção do Presidente? Imprimir ao
Nós somos juízes, os mais altos ser- País o seu programa, e, para fazê-lo, é
vidores da Nação, os intérpretes respon- mister afastar certos elementos de re-
sáveis pelos seus maiores interêsses. Em presentações do Govêrno anterior no:;; ór-
nossas mãos estão os destinos do País, gãos de previdência, substituindo-os por
destinos tão mal cuidados por outros ór- pessoas de sua confiança. Trata-se de
gãos, aos quais se impunha maior des- cargos em comissão, cargos de estrita
vêlo pelo bem da coisa pública. Por que, confiança. E devo salientar que o ocor-
então vamos interpretar êste caso ape- rido no noS'So país, o drama que todos
gados, como o eminente Sr. Ministro nós lamentamos, da fuga do Chefe do
Vítor Nunes, a certas hipóteses que fo- Poder Executivo de seu pôsto, onde o
ram submetidas ao Tribunal norte-ame- colocaram seis milhões de brasileiros,
ricano e que, a meu ver, não têm vin- que aconteceu àquelas pessoas que êste
culação com êle? Presidente havia nomeado para êsses
S. Exa. citou o caso "Humphrey", órgãos? Tôdas elas saíram dessas fun-
membro de uma comissão de reparação, ções. Nenhuma impetrou mandado de
comissão esta, porém, de caráter autô- segurança, reconhecendo que era licito
nomo. Nem era possível que uma comis- ao nôvo Presidente da República no-
são julgadora não fôsse autônoma. Tê- mear os seus próprios representantes.
-lo-ia de ser forçosamente. O Sr. Ministro Vitor Nune::; - A opi-
Aqui, trata-se de um órgão previden- ruao de V. Exa., eu louvo e muito,
ciaI, nitidamente de caráter administra- mas a dêsses funcionários ....
tivo. O Sr. Ministro Ribeiro da Costa (Re-
Pretende o eminente Ministro Vítor lator) - O que ocorre, na realidade, é
Nunes que êsse órgão é autônomo e que isto: é que êsses nomeados e desnomea-
tem paridade com o órgão de que fazia dos compreenderam que o atual Presi-
- 235-
dente, tendo seu programa assistencial petrante como qualificar sua situação
a executar, cabia a êles ceder o lugar juridica: se a de fU:7liCWnário, servidor
às pessoas de sua confiança, que jã fo- público, ocupante de cargo público cria-
ram investidas e estão exercendo êsses do por lei, ou se a de mandatátrio, face
cargos. aos preceitos que o próprio impetrante
evoca, destacando-os da Lei Orgânica
Então do voto do eminente Ministro
da Previdência Social".
Vitor Nunes, eu teria de eliminar certa
proposição muito relevante e brilhante-
Vou continuar a leitura, porque en-
mente desenvolvida por S. Exa., mas
tendo que esta informação situou pre-
que, a meu ver, não tem paridade com
cisamente a situação do impetrante,
o caso em aprêço. E só por isto, Sr.
conforme a natureza da sua investidura.
Presidente, para fornecer elementos a
Senão, vejamos:
outros colegas que vão intervir no jul-
gamento na próxima sessão, quando o
"Pretende o impetrante não ser um
eminente Ministro Gonçalves de Olivei-
funcionãrio público, e sim um manda-
ra tiver de dar seu voto, para que te-
tãrio do Govêrno. Com êste objetivo
nham diante de seus olhos uma réplica
alega que a natureza do serviço presta-
ao que disse o eminente Ministro Vitor
do não lhe conferiria a qualidade de
Nunes, é que estou tomando tanto tem- funcionãrio público, razão pela qual lhe
po ao Tribunal. Verdadeiramente, o faltaria o laço do status com a Admi-
caso requer dêste Tribunal um grande nistração, buscando amparar-se o impe-
esfôrço e não estã em mim, de forma trante na lição do sempre admirãvel
alguma, pretender que a minha modes- Pontes de Miranda (C011IBntálrios à
ta opinião possa prevalecer a argumen- Constituição, vol. IV, fls. 137, inicial
tos mais convincentes que êste Tribu-
do pedido de mandado, item 80, fls. 6).
nal deverã recolher. O interêsse, no
caso, é que êste Tribunal profira uma Insurge-se o impetrante, nesse par-
decisão que tranqüilize a orientação ticular, contra expressa disposição le-
presidencial. gal, pois a mesma Lei Orgânica da Pre-
O então Ministro do Trabalho Doutor vidência Social, em seu art. 128, declara
Castro Neves, informando a êste Tri- que "o regime de pessoal dos represen-
bunal contra o pedido de segurança, tantes do Govêrno nos órgãos de deli-
pelo oficio de fls. 17 e seguintes, que, beração coletiva da Previdência Social
suponho, são de sua própria elaboração, serã o que vigorar para os funcionãrios
refutou, a meu ver com muita sereni- públicos civis da União, cabendo ao Mi-
dade, com absoluta segurança, o pedido nistro do Trabalho as sanções discipli-
inicial, até mostrando a incerteza com nares dêle decorrentes" (Lei n~ 3.807, de
que fôra postulado. E diz assim: 26 de agOsto de 19fO, art. 128).
"A incerteza da postulação, aliãs, é
Ora, não cabe nem dizer-se que a de-
perceptivel até na impropriedade do que
terminação legal permite alternativa,
pede. Solicita-se a segurança para que
pois a extensão pura e simples do re-
o "impetrante regresse (sic) ao cargo
gime do funcionalismo civil da União é
de que foi dispensado" (inicial - fls. 8).
expressa e sem limitações.
Pedindo o regresso lU) OO/T'go, ao invés
de adotar qualquer das fórmulas legais
Não ocupando cargo efetivo, óbvio se
de reconquista do cargo perdido -
toma ocupã-lo o impetrante em comis-
como reintegração ou reodnnissão - são, diante da explicita disposição da
mostra o impetrante que não se sente Lei (art. 128), afastando tOda e qual-
com direito a vindicar uma dessas so- quer dúvida quanto a qualquer peculia-
luções juridicas. ridade que se pretendesse atribuir aos
'1t que, e segundo deflui das próprias cargos de representantes governamen-
razões do pedido, não sabe bem o im- tais nos colegiados da previdência tão
- 236-
só pelo fato de constar do art. 103 a observância daquela faculdade de dire-
referência a um "mandato de quatro ção e contrôle que o Executivo Federal
anos", insuscetível de isoladamente mo- deve exercer em relação às Instituições
dificar a natureza do provimento". de seguro social".
Veja-se bem que a redação dêste pe- Lido êsses trechos e não desejando
riodo é perfeita, no sentido de traduzir prosseguir mais nesta leitura, porque
que o fato do mandato ser de quatro seria fastidioso ...
anos, segundo diz o dispositivo do art.
103, não implica que a função seja ga- o Sr. Mi>nistro Ari Franco - De modo
rantida por êsses quatro anos, porque nenhum.
tem de se distinguir a natureza do pro- o Sr. Ministro Ribeiro 00 Costa (Re-
vimento para o cargo, que define a ga- lator) - ... quando menos pelo meu
rantia da estabilidade, e não o fato do esclarecimento, não insistirei na leitura
art. 103 dizer que o mandato é de qua- do excelente ofício de informações do
tro anos. então Ministro do Trabalho.
E prossegue a informação:
Verifico, pelo estudo e meditação que
"Vinculando-se à mais ativa partici- êste caso exige, que não podemos filiar
pação de representantes dos contribuin- sua solução àquela que ocorreu com as
tes, escolhidos mediante eleição promo- hipóteses trazidas, brilhantemente, ao
vida no seio dos Sindicatos das respecti- debate pelo eminente Sr. Ministro Vitor
vas categorias econô.rnicas e profissio- Nunes Leal. Aqui, trata-se de órgãos
nais, processo de escolha realmente ca- vinculadcs à administração federal, vin-
racterizador de um mandato e por si culados e subordinados, diretamente, ao
mesmo exigindo a demarcação de um Presidente da República, que tem, nêles,
prazo de exercício, o preceito do art. seus representantes, pois são a l<m.ga
.103 não se estende por iguais razões mana do Presidente da República. Aliás,
aos representantes do Govêrno, cuja es- o programa governamental, muitas vê-
colha, aliás, é disciplinada de modo es- zes importantíssimo profundo e rele-
pecial no § 1'1 do mesmo artigo. vante, que nesses órgãos se deve incre-
mentar, não pode ser executado autô-
Dada a natureza do cargo ocupado nomamente, como, M·ta venia, pareceu
e em face da nenhuma limitação legal ao €illlinente Ministro.
ao respectivo provimento... (porque, Mas não parece, de forma alguma,
se houvesse uma lei que fizesse restri- que êsses órgãos possam ter um cará-
ções a êsse provimento, era possível ter autônomo, no sentido do interêsse de
respeitar, mas não há; enquanto que as administração pública; ao contrário,
restrições da Constituição também não acho que são órgãos cuja esfera de ação
impedem que o Presidente também no- deriva de programa governamental, re-
meie) ... cumpre distinguir-se entre a presentado, evidentemente, pelo Presi-
situação dos representantes do Govêrno, dente da República.
de um lado, e, de outro lado, a situa-
ção dos eleitos pelos contribuintes." Assim, data venia, do eminente Minis-
tro Vítor Nunes Leal, a quem louvo, em
Então, prosseguindo - depois de ex- nome do Tribunal. ..
plicar a situação dos representantes dos
contribuintes diz a informação: o Sr. Mi>nistro Ari Franco - Muito
bem.
"A remissão explícita que o art. 128 o Sr. Ministro Vitor Nwtes LetU -
da Lei faz à aplicação irrestrita do Es- V. Exa. muito me honra.
tatuto do Funcionário Civil da União
aos representantes do Govêrno, tal como o Sr. Mi.nistro Ribeiro da Costa (Re-
já se acentuou, decorre da Imperativa lator) - ... pela brilhante e alta con-
- 237-
tribuição que s. Exa. deu à apresen- solicitar adiamento, pelo que peço vista
tação do caso, a êle trazendo luzes que, dos autos.
certamente, virão elucidar o ponto de
vista dos eminentes colegas que sôbre o DECISÃO
assunto ainda não proferiram seus
votos. Como consta da ata, a decisão foi a
seguinte: Adiado por haver pedido vista,
Com estas considerações, mantendo o Sr. Ministro Gonçalves de Oliveira, de-
meu ponto de vista a respeito. pois dos votos do Sr. Ministro Relator
denegando a segurança e do Sr. Minis-
VISTA tro Vitor Nunes concedendo-a.

o Sr. Mmi8t1'o Gonçalvtes de Oliveira Presidência do Exmo. Sr. Ministro


- Sr. Presidente, o eminente Ministro Barros Barreto.
Vitor Nunes, no seu voto substancioso,
Relator o Exmo. Sr. Ministro Ribeiro
brilhante, admirável e notável, trouxe
à colação exemplos da jurisprudência
da Costa.
norte-americana. Pretendo, em meu Ausente justificadamente o Exmo. Sr.
voto, trazer também à colação a con- Ministro Pedro Chaves.
tribuição da Casa a respeito da inter-
pretação dos mandatos. VOTO

Recordo-me que, em 1947, o Tribunal O Sr. Mitnistro Gonça.l1J68 de OlweinJ


Pleno do Supremo Tribunal Federal jul- - Sr. Presidente. Pedi vista do proces-
gou um mandado de segurança impe- so para documentar meu voto no senti-
trado por Durval César Magalhães, de- do de que esta Suprema Côrte sempre
mitido pelo Presidente da República da entendeu que os titulares de mandado
presidência da Caixa de Aposentadoria por tempo certo, nos órgãos da admi-
e Pensões da Great Western para a qual nistração pública federal, sempre tive-
tinha mandato por prazo certo; ê'Ste ram seus direitos respeitados por êste
Tribunal, examinando o mandado de se- Tribunal.
gurança interposto, concedeu a segu-
rança, por unanimidade de votos, e lam- Antes, Sr. Presidente, desejo abordar
bro-me bem de que o eminente Sr. Mi- - porque esta Côrte tem função poli-
nistro Laudo de Camargo elogiou a tica, no bom sentido - que a negação
atuação, no caso, do então Procurador dessa tese pelo Supremo Tribunal Fe-
Geral da República, nosso eminente co- deral, a saber, do fixado em tempo cer-
lega Ministro Luis Gallotti, que à épo- to pela lei federal, a negação dêsse man-
ca honrava a Procuradoria-Geral da Re- dato importará na outorga de podêres
pública. No caso a que me refiro, o excepcionais ao Chefe do Poder Exe-
mandato também era de cinco anos e cutivo. Pràticamente, teremos implan-
Durval César Magalhães havia sido tado a ditadura na esfera administrati-
exonerado pelo Presidente da República. va do Brasil. Os diretores dos órgãos de
Há, igualmente, outros casO'S, como os previdência; os diretores das Caixas
da Caixa Econâmica, de que diretores Econâmicas em todos os Estados do
foram demitidos, na vigência da Cons- Brasil, inclusive na Capital da Repúbli-
tituição de 1937 e, também, depois des- ca, os diretores das Universidades, do
ta, demissões ocorridas na vigência da Banco do Desenvolvimento Econômico,
Constituição de 1946. os diretores de tôdas as autarquias e
institutos ficarão subordinados ao Chefe
Pretendo, em meu voto, trazer à co- do Executivo, serão meros delegadO'S do
lação todos êsses casos, para documen- Presidente ou do Primeiro Ministro, se
tar meu pronunciamento, razão que me assim preferimos. Nada tenho de pes-
leva a pedir licença ao Tribunal para soal contra o Presidente da República,
- 238
nem contra o Primeiro Ministro. São Afirma o eminente Ministro Ribeiro
pessoas a quem sinceramente admiro e da Costa que o art. 87, n9 V, da Cons-
COJl1 as quais sempre mantive relações tituição dá ao Presidente da República
de cortesia e aos quais sou ligado por o poder de "prover na forma da lei e
laços de velha estima e admiração. Fico, com as ressalvas estatuídas por esta
porém, na tese jurídica, de conseqüên- Constituição os cargos públicos fede-
cia política. Onde a lei federal diz "man- rais". E assim dispondo, porque no po-
dato por 4 anos", para dar feição pró- der de demitir se inclui o de exonerar,
pria à função de tais diretores dêsses a Constituição dá ao Presidente da Re-
importantes órgãos da administração pública o poder de demitir livremente to-
pública, passaríamos a ler "mandato por dos os servidores públicos, salvo os com
tempo indeterminado". Onde a lei fe- garantia de estabilidade, a saber, os no-
deral quis dar garantia ao diretor para meados por concurso após 2 anos e os
uma gestão própria, entregariamos ou nomeados para cargos isolados após 5
entregaremos essa gestão simplesmen- anos de exercício.
te, não digo ao Presidente da República
e ao Primeiro Ministro, mas, nos res- A meu ver, data venia, o citado dispo-
pectivos Gabinetes, aos auxiliares de Ga- sitivo constitucional não tem o alcance
binetes do Presidente da República e do que lhe outorga o nosso eminente
Primeiro Ministro; ao Chefe de Gabi- colega.
nete, Oficiais e Auxiliares de Gabinete 1l:sse dispositivo, a meu ver e data
do Ministro do Trabalho ou dos demais oonia, não assegura a Sua Excelência o
Ministros a que tais órgãos são também Senhor Presidente da República o poder
subordinados! de exonerar os funcionários públicos fe-
Falo com minha experiência de antigo derais sem estabilidade de ordem cons-
Consultor-Jurídico e Consultor-Geral da titucional.
República, ininterruptamente, de no- Pode, sem dúvida, frente a êsse dis-
vembro de 1942 até princípios de 1960 positivo, estabelecer a lei ordinária ga-
quando tive a honra de ser nomeado rantias de emprêgo ou de gestão ao
para êste Tribunal. servidor federal.
Mas, voltemos à questão jurídica que A Constituição de 91 tinha a mesma
nos cabe decidir. Diz a Lei de Previdên- redação:
cia no art. 103.
"Art. 48. Compete ao Presidente da
"Art. 103. O Conselho Administra- República: ... V - prover os cargos
tivo (CA) dos I. A. P. será constituído Civis e militares de caráter federal, sal-
de, respectivamente, 3 (três) e 6 (seis) vo as restrições expressas na Consti-
membros na forma do § 3<:> dêste artigo tmção" .
e com mandato de 4 all.08, sendo os re-
Pois bem. Na vigência dessa Primeira
presentantes do Govêrno nomeados pelo
Carta Republicana, a legislação ordiná-
Presidente da República, os represen-
ria estatuiu em favor do servidor a ga-
tantes dos seguradores e os represen-
rantia do emprêgo (veja-se a Lei no
tantes das emprêsas eleitos pelos sindi-
2.924, de 5-1-1915, artigos 125 e segs.) ,
catos das respectivas categorias profis-
de tal arte que notável comentador, es-
sionais e econômicas, e, na falta dêstes,
crevendo na vigência daquela Constitui-
por associações de classes devidamente
ção, observara, para ser exato, que o
registradas e vinculadas à instituição".
Chefe do Govêrno, entre nós "chegou
Pergunto, podem êsses representantes a não poder demitir sem processo a um
de classe ser destituidos? Há alguma empregado subalterno, maquinista ou fo-
razão jurídica para chegarmos à con- guista da estrada de ferro nacional"
clusão diversa em relação aos represen- (Carlos Maximiliano, O<nn.entári08 à
tantes nomeados pelo Presidente da Oonstituição Brasileiro, 1948, vol. n.
República? pág. 237).
- 239-
Veja-se bem. Os dispositivos eram pretação, tal preceito visa a garantir o
idênticos. Pior na Carta de 1891, que poder do Presidente da República, no
nem se falava como a atual, que cabe sentido de que, excluídos, é claro, os ca-
ao Chefe do Govêrno nomear "na forma sos previstos na Constituição, a lei ordi-
da lei". nária não pode retirar da competência,
digamos melhor, do poder do Presidente
Dava, ao contrário, ao Presidente, en- da· República, passando-o para outros
fàticamente, o poder de prover os car- podêres, o provimento dos cargos públi-
gos federais, "salvo as restrições ex- cos federais, bem entendido, os cargos
prt:1:>sas na Constituição" e a doutrina, a da administração pública centralizada.
legislação, a jurisprudência entenderam, Tanto é exato que os cargos e funções
pacificamente, que podia a legislação or- das autarquias e ínstitutos de previdên-
dinária, como se viu, dar garantia de cia a lei ordinária tem estabelecido a
emprêgo ao servidor, a ponto de não competência para nomeação de servido-
poder o Presidente, sem processo admi- res aos próprios presidentes e diretores
nistrativo, demitir um simples foguista gerais dêsses órgãos. Na própria Lei de
da Central! Previdência, há cargos e funções como
Os presidentes das Instituições que não
A prevalecer a argumentação do no- não são providos pelo Chefe do Govêi"-
bre colega Ministro ltibeiro da Costa, a no v. g. o cargo de representantes dos
conclusão a que se há de chegar é que sindicatos, nos conselhos, e que podem
:será inconstitucional a norma do art. ser o seu Presidente.
103 da Lei de Previdência e dispositivos
semelhantes dos demais órgãos federais o então Presidente da República as-
que garantem o exercício, por tempo sim interpretou os seus podêres, pois, a
certo da função, por 4 anos, como no atual Lei de Previdência é de iniciativa,
caso, pelo servidor nomeado. resultou de mensagem, do então Pre-
sidente ao Congresso.
Na verdade, a lei diz expressamente, Quer dizer, o art. 87 n? V, não im-
para dar garantia de gestão ao titular pede que a legislação ordinária estabe-
do cargo - "mandato por 4 anos". leça garantias ao servidor público.
Como não observar ê"Sse dispositivo se- Quando a Constituição outorga ao Pre-
não o declarando inconstitucional? sidente o poder de nomear com as res-
salvas da Constituição, o outorga "nos
Em lidima interpretação, o que o art. têrmos da lei", isto é, se a lei estabelece
87, n<> V, procurou resguardar foi o po- que o cargo é efetivo, o Presidente no-
der do Presidente de prover os cargos meia o servidor em caráter efetivo com
públicos federais, salvo aquêles que a as garantias previstas na Constituição
própria Constituição punha na compe- e nas leis; se a lei diz que o cargo é
tência de outros podêres exclusivamente em comissão, o Presidente nomeia em
ou mediante participação de um dêles, comissão, podendo o servidor a qual-
v. g., a nomeação do pessoal da Secre- quer tempo ser exonerado; se a lei
taria dos Tribunais Federais, e das duas estatui que o cargo ou função tem du-
Casas do Congresso (competência ex- ração certa, o Presidente na adminis-
clusiva dêstes), a nomeação de Minis- tração centralizada ou autárquica, no-
tros do Supremo Tribunal, Tribunal Fe- meia o servidor por prazo certo e, en-
deral de Recursos, de Contas, mem- tão, só após o decurso dês se prazo pode
bros do Conselho de Economia e che- ser exonerado, salvo falta grave apura-
fes de missão diplomática de caráter da devidamente.
permanente, do Procurador-Geral da
República; do Prefeito do Distrito Fe- o Supremo Tribunal assim sempre in-
deral; e atualmente, a nomeação de terpretou as leis que outorgaram man-
Ministros de Estado e do Primeiro Mi- dato por tempo certo. No recurso ex-
nistro. Por outro lado, em lidima inter- traordinário n? 24.432, em que era re-
- 240-
corrente o Dr. Celso Herminio ~ixeira, cional, e sinl, por cinco anos, prazo pelo
de Goiás, assim se julgou. Veja-se a quel foi nOnleado; ~ - porque o caso
enlenta do acórdão: ainda escapa ao nlandannento constitu-
cional porque êste não se refere a co-
"l!l ilegal a exoneração de nlenlbro missão por ten1po deternlinado, e sim
do Conselho Administrativo das Caixas aos que a qualquer nlOnlento possa o
Econônlicas Federais, durante o trans- Govêrno desenlbaraçar-se do funcioná-
curso do nlandato, que é de cinco anos". rio ocupante, por lhe haver deSnlerecido
l!lsse diretor foi exonerado na vigên- da confiança. No caso vertente a nOnlea-
cia da Constituição atual, é importante ção, embora enl cOnlissão foi por prazo
assinalar. Está aqui, no relatório do certo. Não houve assinl infração do tex-
enlinente Ministro Afrânio Costa: "A to constitucional.
25 de outubro de 1948 foi demitido. Ajui- Desvalioso o argunlento de que a no-
zou esta ação para ser reintegrado, COnl nleação do recorrido fora feita direta-
a cOnlposição de perdas e danos. Foi Imente para Presidente da Caixa e os
vencedor enl prinleira instância e no cinco anos se referenl aos nlenlbros
Tribunal Federal de Recursos". do Conselho Administrativo. Mas, já se
O voto do relator unâninlenlente acei- viu que o Presidente é nlenlbro inte-
to pela egrégia Segunda Turnna, então grante do Conselho Administrativo,
presidida por V. Exa. Sr. Ministro Ri- confornle o § lO do artigo 48 da lei ci-
beiro da Costa, foi êste: tada.

"Não conheço do recurso. O recorrido Nestas condições, não sofre o acórdão


foi nomeado, pelo Presidente da Repú- a censura constitucional. Aliás, o voU>
blica, Presidente da Caixa de Goiás, enl do revisor, Sr. Ministro Cândido Lôbo,
cOnlÍssão pelo prazo de cinco anos. refere-se a solução idêntica no caso
Barreto Dantas".
l!l assinl Unla cOnlÍssão n1aB a prazo
determinado, que não pode ser encur- No recurso extraordinário n" 29.050,
tado, à discrição do Sr. Presidente da interposto pela União de decisão do
República; pode sinl, haver uma ou vá- egrégio Tribunal Federal de Recursos,
rias reconduções, nlas, senlpre pelo pra- que julgou a ação proposta por Manuel
zo de cinco anos, duramte 08 quais não de Oliveira Franco, exonerado da Cai-
pode ser dispemsa40 liilJTe'Tne'ntll~J 1100 xa EconônlÍca do Paraná, esta tese foi
86nClo demJi.ssivel "04 wutwm". reafirnlada pelo Suprenlo Tribunal:
deu-se indenização ao recorrente. E
Argunlentanl os eminentes defenso- deu-se por que? Porque o ato denlissó-
res da União COnl o art. 188, parágrafo rio era ilegal.
único, da Constituição que nega estabi-
lidade aos funcionários que exercenl car- Ora, se o ato é ilegal, tanto cabe inde-
gos de confiança ou aos que a lei de- nização como mandado para garantia
clare de livre nomeação e denlissão, do enlprêgo, parece claro. Vejanl-se os
nlesnlO após dois anos, quando nomea- têrnnos dêste acórdão unânime, de que
dos por concurso ou cinco anos senl con- foi relator o Ministro Nélson Hungria.
curso.
Tanto isso é verdade, Sr. Presidente,
E então proCUranl extrair da nOnlea-
que o nlandado de segurança n' 791, de
ção do recorrido em cOnlissão as condi- 1947, inlpetrado por Durval César de
ções de confiança e livre nomeação e Magalhães contra o ato do Presidente
deInissão. da República que a exonerou da Presi-
O raciocínio, porénl, é vicioso: 1~ - dência da Caixa de Aposentadoria e
porque o acórdão não concedeu esta- Pensões dos Ferroviários da Great Wes-
bilidade "pernnanente" ao recorrido, que tern foi concedido por esta Côrte. Veja-
é a de que cogita o texto constitu- se o voto do relator, eIninente Ministro
-241-
... -
- _., ~

Laudo de camargo, unAnimemente No mandado de segurança número


a.poiado por esta Côrte: 2.817, impetrante Dr, Batista Luzardo,
o que não se lhe assegurou foi a presi-
"O impetrante foi nomea.do Presidente
dência do Conselho, que Se reputou sem
da Caixa de Aposentadoria e Pensões
tempo certo, mas, o mandato de 4 anos
dos Ferroviários da Great Western,
de membro do Conselho foi-lhe garan-
pelo prazo de três anos, Com direito a
tido. De resto, o próprio Govêrno não
recondução, segundo os artigos ~ e 12
o retirou. Veja-se bem a interpretação
do Decreto-lei n 9 3.339, de 1941.
da Lei em relação à Caixa, aos Con-
Posteriomente, o Decreto n<1 4.080, de selhos, ao Banco do Desenvolvimento; O
1942, alterou o art. 12, permitindo a li- Presidente é livremente destituido e as-
vre nomeação pelo Presidente da Repú- sim se tem entendido, não, porém o car-
blica, sem entretanto, alterar o prazo go do diretor, porque a lei federal que
do art. 59. não é inconstitucional (e só por incons-
titucionalidade não poderia ser aplica-
E o Decreto posterior n 9 6.930, de
da) dá-lhe o mandato por tempo certo.
1944, assim dispôs pelo art. 29:
Não podemos ler, onde a lei diz "man-
"Os mandatos dos atuais presidentes, dato por 4 anos" lermos "mandato por
nomea.dos de acôrdo com o disposto no tempo indetermina.do" ou mandato, pelo
parágrafo único do artigo 12 do Decre- tempo que o Presidente da República
to-Iei n 9 3.939, de 16 de dezembro de preferir.
1941, na nova redação que lhe deu o
Ressalta do exposto, que o Supremo
Decreto-Iei m 4.080, de 3 de fevereiro de
Tribunal sempre considerou ilegal a exo-
1942, assim como os membros do Con-
neração dos titulares de mandato: deu-
selho Fiscal, designados no art. 29 do
lhes indenização, quando pedida esta;
primeiro dêsses Decreto-Ieis, contar-se-
reintegrou-os quando a reintegração,
-á para o efeito do que dispõe o art. 51?
como no caso, foi pedida.
do mesmo Decreto-Iei, a partir de 19 de
janeiro de 1945 considerando-se acres- Sr. Presidente. Não há motivo para
cido o período antecedente a essa data". mudarmos a orientação, a diretriz juris-
prudencial desta Suprema COrte, que
Sendo êste o texto legal, ao impe- sempre amparou os que recla.maram
trante ficou assegurada a prorrogação contra atos arbitrários de Presidentes
do prazo, pela nova conla.gem, a partir da República.
de 19 de janeiro de 1945 a 31 de dezem-
bro de 1948. Com estas considerações e fiel à ju-
risprudência do Supremo Tribunal Fe-
Não podia assim ser exonerado su- deral, Sr. Presidente, concedo a segu-
màriamente corno o foi. rança para julgar insubsistente, por ile-
l!i o que expressamente está reconhe- gal, o ato impugnado.
cido pelas próprias informações oficiais Não contribui, infelizmente, corno
e a que se reportou o ilustre Sr. Dr. muitos dos Senhores Ministros,' para a
Procurador-Geral que oficiou no pro- formação dessa jurisprudência. Não
cesso. obstante, a ela fico fiel, nem vejo como
Nos primeiros informes consta o se- deixar-se de aplicar a lei, tão clara, tão
guinte: "assim, em conseqüência dos peremptória, ao fixar o prazo de 4 anos
têrroos expressos nas disposições legais para os diretores exercertlill seu man-
vigentes, vê-se que os Presidentes das dato.
Caixas não parecem ser a.dmissiveis ad Concedo a segurança.
nutum., de vez que, outorgando-lhes a
lei mandato, só razões expressas pode- VOTO
riam ocorrer à exoneração". (Diário
d4 Justiça de 30-12-1948, página 3.491 o 8r. Ministro Pedro C~ - Sr.
....:...- Apenso). Presidente,. data venta do brilhantissi-
-2t2 --
mo voto do eminente Sr. Ministro Gon- gos pllblicos e compete-lhe, assim, tam-
çalves de Oliveira, eu não tenho a me- bém a exoneração dêsses funcionários.
nor dúvida em acompanhar a conclusão
do eminente Sr. Ministro Relator. E isso Nem é isto, precisamente, o que se
porque não estou pilhado de surprêsa, discute na espécie. O que se discute é
neste caso. Estudei a matéria e adquiri se é dado ao Presidente da República
a convicção inabalável do acêrto da con- exonerar funcionários nomeados com
clusão do voto de S. Exa. prazo certo. E eu distingo: quando se
trata de um contrato, por exemplo, a
Sr. Presidente, não é de se confundir administração pública seria obrigada a
a situação do funcionalismo dos qua- respeitá-lo; se não respeitasse, haveria
dros normais da administração pública reflexos patrimoniais que obrigariam
com a dos quadros da alta direção das aos cofres públicos e ao Tesouro Na-
autarquias, dos órgãos autônomos e das cional.
instituições de caráter social, que são
criados para projeção da politica de um Mas, na espécie, é precisamente onde
Govêrno na administração de um pais. eu ponho o elemento especifico diferen-
São exigências do progresso, são exi- cial. li: que não existe, nos nossos qua-
gências da moderna técnica administra- dros, a não ser funcionários vitalicios,
tiva, dependentes do intervencionismo funcionários estáveis e funcionários em
cada vez maior da politica do Estado comissão.
no campo privado e no campo da as-
sistência social. Esta nomeação de funcionários com
prazo certo é absolutamente estranha
o 8'7. Ministro Vitor N~ - Peço ao nosso sistema e eu não posso con-
permissão a V. Exa. para um aparte. ceber, a não ser que o Judiciário queira
A razão que V. Exa. acaba de dar, interferir na administração, ferindo o
tem servido, na jurisprudência da COrte princípio de independência dos podêres,
Suprema dos EstadOl!l Unidos, para jus- que o Judiciário pudesse compelir o
tificar a conclusão contrária. As enti- Executivo Nacional a executar a sua
dades dotadas de autonomia precisam própria politica com elementos que lhe
ter seus dirigentes protegidos contra a vieram da politica passada, possivel-
arbitrariedade do Poder Executivo. mente, até de orientação completamen-
te diferente.
O Sr. Ministro Pedro Cha.ves - Agra-
deço o aparte de V. Exa. e tenho a O Sr. Mm·istro Vitor NUR1.e8 - Sr.
honra de responder com as palavras do Ministro Pedro Chaves, essa politica
eminente Ministro Luis Gallotti: "V. tem sido praticada desde a Primeira Re-
Exa. pretente concluir meu voto antes pública; portanto, não é estranha ao
de mim". nosso sistema.
Como dizia, reiterando os argumen- O Sr. Mtmstro Padro C1iave8 - V.
tos que dava no sentido da administra- Exa. sabe, como eminente constitucio-
ção, que não é possivel dar um trata- nalista, que nos países de regime cons-
mento igual aos funcionários dos qua- titucionalista como o nosso, para evitar
dros normais da administração, vamos precisamente os conflitos sociais é que
dizer, que, tem caráter profissional de a jurisprudência precisa caminhar de
serviço público àqueles que são exe- acOrdo com a realidade da vida. E é
cutores da politica de uma administra- na interpretação dos Tribunais que ês-
ção governamental através dos órgãos ses entrechoques são amparados. E é
autárquicos, dos órgãos independentes precisamente para interpretar as ne-
destinados à politica econômica e social cessidades da Nação que os Tribunais
de um Govêrno. Nos têrmos da Cons- são chamados para prestar a inteligên-
tituição de 1946, compete ao Presiden- cia devida aos textos constitucionais
te da República o provimento dos car- rígidos.
-243 -
o Sr. JfiniBtTO Vitor N__ Mas elementos a cumprir ordens de acOrdo
SÓ agora é que se pretende f~-lo. com a sua filosofia, como se fÔ8sem pa-
trão e empregados.
O ST. Ministro Pedro C1wwe8 - Pre-
cisamente. Então, vamos mudar agora, Data venia, a insignificância dê8ses
porque só nesta oportunidade é que se argumentos é que traduzem, expreua.-
pode veIificar o que aconteceu na es- mente, aquilo que penso e sinto sObre o
pécie: esta quantidade enorme de fun- caso. Assim, acompanho o voto do emi-
cionários nomeados, diretores de autar- nente Sr. Ministro Relator.
quias e de associações de serviço social,
pelo Presidente Juscelino Kubitschek, VOTO
ao apagar das luzes do seu Govêrno, O Sr. Ministro Vilas-B0a8 - Sr. Pre-
para ensombrear o Govêrno que se ini- sidente, d.ata venta, acompanho os votos
ciaria após êle, que estaria com as dos eminentes Srs. Ministros Gonçalves
mãos atadas. E ninguém nega que o de Oliveira e Vitor Nunes. Eximo-me de
fenOmeno surgiu agora. fazer quaisquer outras considerações
O 8'r. M_istTO Ari Fmtnco - Houve lembrando, apenas, que a lei distingue:
uma época em que o art. 1.523 do Códi- tratando-se de Presidente, ela diz que é
go Civil funcionava em função das em- demissível ad rnutvm, e tratando-se de
prêsas de transporte; hoje, funciona de outros diretores, marca prazo certo. Não
maneira contrária. é uma estabilidade de caráter absoluto.
De maneira que o Govêmo, tendo ra-
O ST. Ministro Pedro ChatJe8 - De zões de ordem pública para exonerar,
modo que procuro, na minha opinião pode expedir ato motivado, para poste-
apagada, interpretar o texto constitu- rior contrOle judicial.
cional no sentido do voto do eminente
Sr. Ministro Relator. Eu acho que é um Não posso equiparar a situação do
poder implicito do Presidente da Repú- presidente, que é demissível ad nutvrn,
blica, a quem a Constituição confiou a com a dos diretores, que têm mandato
administração do país, de escolher os de quatro anos.
seus auxiliares como escolhia no presi- Nas democracias, o tempo é fato ju-
dencialismo os executores de sua poU- rídico da maior relevância, e quando Stl
tica. A lei não dispõe o contrário. marca prazo à investidura, o dispositi-
vo deve ser respeitado.
Concluo, portanto, com o eminente Sr.
Ministro Relator, qUe a prefixação de Assim, data venitl, acompanho os emi-
prazo não obriga ao sucessor do po- nentes Srs. Ministros Vitor Nunes e
der, que o nomeia, a cumpri-lo religio- Gonçalves de Oliveira.
samente, como se se tratasse de um
,"OTO
contrato particular de serviço. Essa
nomeação essa designação é para exer- O Sr. MWri8tro Cândtdo Mota F'UJw:J -
cer função pública, diante de uma orien_ Convenceu-me o magnifico voto do egré-
tação filosófica. E não se pode obrigar gio Relator. Devo fundamentar o meu,
o Presidente da República, constranger porque o assunto, como comprovam os
um funcionário designado pela adminis- ilustres votos divergentes, inclinou-se
tração anterior a mudar publicamente para aquela zona cinzenta de demarca-
esta orientação. Isto é que seria aten- ção incerta a que se referem alguns ju-
tar contra a liberdade individual. ristas.
Não é possível a um Govêmo conser- l!: que, no caso, se trata de apreciar
vador designar um elemento conserva- matéria que envolve, ao mesmo tempo,
dor de sua confiança para a assistência competência constitucional do Presidente
social, por exemplo, e amanhA vir um da República e uma lei que estrutura .0
Govêmo de esquerda e obrigar êsses nosso sistema de Previdência Social.
- 244-
Essa Lei, de nq 3.807, de 194,6, deu par- ciaI, Otto Meyers, em seu ;Direito
ticipação, no Conselho que criou, de Re- Admd.nistTativo alemão (tomo I, págs.
presentante do Govêrno, por êle nomea- 181 e segs.) assim o faz. Jellinek, ci-
dos, com mandato de quatro anos. tado por êle sustenta que o direito
administrativo permite a compreender
O impetrante, um dos nomeados, de- certas relações análogas às de direito
mitido, antes do término de seu mandato, civil.
-'- acha, carreando razões, que sua de-
missão foi arbitrária, ferindo-lhe direito
Essa é aliás a teoria francesa, como
líquido e certo.
se pode verificar em Duguit, Hauriou e
Para mim, data venta dos que pensam Michaud. :mste último, amiudadamente,
em contrário, o prazo de quatro anos é estuda a assemelhação. No direito es-
o lmite do mahZdato e não o minimo panhol, entre outros, Garcia Oviedo que
a.ssegu.rado de seu exercício. ~te de- diz que o Direito Administrativo nasceu
pende da confiança do Govêrno no de- como uma filial de Direito Civil, (Btuddi
signado, porque o mandato, como es- di Diritto Pubblioo, in <mOre 00 OTeste
clarece Duguit, tem, como base juri- RameUetti, págs. 59 e segs.). E a lite-
dica, uma interpendência, uma solida- ratura juridica italiana é abundante a
riedade entre "representés et represen- êsse propósito. Carlo Spirito, num mi-
tants" (Mam:uel de D.roi.t Canstitvtio- nucioso estudo sôbre La Repre8entwnza
tleJ, pág. 127). instituzionale mostra que, no Direito
Administrativo, a representação "no dif-
Não há dúvida que o conceito de re-
ferisco forrn.almlente daJ la txmIIIme re-
presentante, através do mandato, pode
presoo.tanza di aUra persona fisica por
ser civil ou politico. Pelo primeiro, te-
parte di altra p€7'roTIa fisicn". E o as-
mos uma situação em que o negócio
sunto é pôsto também em relêvo por
contratual se opera na confonnidade
Pacchini, ao estudar os limites e a re-
com o acôrdo de vontades e se torna,
vocabilidade do mandato (Le toorie mo-
desde logo, um mandato imperativo. E
derne sulla ~0InZa). Tão expres-
por ser o mandato um sistema de soli-
sivo ainda é o que acontece no Direito
dariedade, tem êle como caracteristica
Comercial, nas chamadas sociedades
a sua revogabilidade ad libitum.
corporativas. Sôbre elas podem existir
O mandato politico pode ser também divergências teóricas, mas as legisla-
imperativo. Chegou mesmo a ser tran- ções predominantemente, consagram a
sacionado ou transmitido. Na Idade Mé- revogação do mandato, antes de seu
dia, o habitante de um burgo inglês po- término. A lei argentina sôbre as so-
dia dar em dote, para uma filha, o seu ciedades por cotas, consagra a revoga-
direito eleitoral. Porém, no Estado de- ção. A lei alemã também. "No Brasil,
mocrático, de direito essas duas formas diz Carlos Fulgêncio da Cunha Peixoto,
não existem. A manifestação da vonta- em sua obra A 80Ciedade por cotas, de
de é fiocionis ;um. O Deputado sequer responsabilidade limitada (pág. 32), o
representa o colégio eleitoral onde foi gerente da sociedade por cotas de res-
mais votado porque é um representante ponsabilidade limitada é sempre demis-
do povo ou da Nação. Assim, o mandato sível ad nutum pela maioria das com-
para 'Servir a um processo de designa- ponentes da sociedade. Com efeito, nas
ção de deputado, usa de uma forma ana- limitadas, como vimos, a nomeação do
lógica ou metafórica. "Não é prôpria- gerente, é matéria estatutária, passível
mente um mandato, ensina Vitor Manuel portanto de alteração por ato delibera-
Orlando", "ben si ol:tra co.sa!'. (Diritto
tivo da maioria, nos têrmos do art. 15
Pubbli.co Generale, pág. 420).
do Decreto n Q 3.708. Ao gerente resta,
Não tem portanto aplicação ao caso. caso não se conforme, retirar-se da s<r
E se não tem aplicação ao caso, licito ciedade, o que lhe faculta o mesmo dis-
é apelar para o direito civil e comer- positivo invocado.
- 245.-
A orientação da lei brasileira, conti- do Presidente da República no caso de
nua, mereCe aplausos. Os sócios têm o demissão de seu representante, além de
direito de focalizar 06 atos do gerente contrariar um dogma da Constituição,
e, havendo r~ suficientes, seria ab- destrói tudo o que se vem ensinando
surdo que não pudessem agir. e praticando sôbre representação.
Mais precisa ainda é a matéria, quan- E essa representação, como agora a
do tratada na sociedade anônima, que aprecianlOs que não tem qualquer pru-
é, para Tullio Ascarelli "um instru- rido politico, é tão-só para compor um
mento típico da economia moderna" órgão colegiado da administração pa-
(ProbWma8 das B~ AnônimasJ restatal, órgão que, pela lei, vive de
pág. 362). ~se ilustre mestre italiano, uma ação social e de uma ação do po-
estudando o interêsse coletivo que presi- der público.
de o roteiro das sociedades anônimas,
mostra que os diretores podem ser des- O representante não sai pronto e ar-
tituIdos antes do mandato, "pelo princi- mado das coxas de Júpiter para fazer
pio de que os podêres da diretoria são o que der e vier. Tanto que está vin-
outorgados no interêsse de acionistas". culado, pelo art. 103 da lei, ao funcio-
nário público, precisando ainda o art.
Já o Código Comercial Italiano, em 128 que "o regime pessoal dos repre-
seu artigo 121, declarava revogáveis os sentantes de govêrno nos órgãos de de-
podêres dos administrados. O Código liberação coletiva da Previdência So~
Comercial Português, em seu art. 172, cial, será o que vigorar para os funcio-
permite a revogação antecipada de po- nários públicos civis da União, cabendo
dêres. ao Ministro do Trabalho as sanções dis-
A lei brasileira de sociedade anôni- ciplinares dêles decorrentes".
mas, Decreto-Iei n~ 262 de 27 de 26-9-
de 1940; diz verbis: "A sociedade anô- Sujeitos ao regime do funcionário,
nima ou companhia será administrada
mas não acobertados com as garantias
por um ou mais diretores, acionistas especiais que a êles se aplicam. Desne-
ou não, residentes no pais, escolhidos cessário evocar-se as Constituições an-
pela assembléia geral, que poderá des- teriores. E as ressalvas contidas na
titui-los a todo tempo." Constituição de 1946 referem-se aos
cargos estáveis e vitalicios, exceções
Carvalho de Mendança (Tratado d8 que não podem ser alargadas por lei
Inreito Comercial BrasUeiro voI. IV,
J ordinária.
pág. 52, n~ 1.187) diz a êsse respeito:
.. A revogação ou a destituição dos ad- Para que Os representantes não fi-
ministradores cabe sómente à assem- quem no limbo, como diz Temistocles
bléia geral. O Poder Judiciário não pode Cavalcânti, existe a regra geral. E como
intrometer-se JH!SSe ato." be·m acentua êsse ilustre jurista: "A
atribuição de privilégios e prerrogati-
Por sua vez escreve Achilles Bevila- vas especiais exige referência consti-
qua (SocWd.ades Anóntm.a.s e as OQ7IUl/It.- tucional expressa. A sua ampliação não
ditas por OL}OOJ pâg. 134): "Devia a lei deve ser admitida por lei ordinária." (A
ter resolvido, de modo expresso, a ques- Constituição Federal Oomentaáa voI.
J
tão de indenização por perdas e danos, lI! pág. 1€3).
no caso de destituição dos diretores" .
Os nossos escritores são acordes em ne- Corwin, em situação semelhante ou
gar êsse direito (Carvalho de Mendon- assemelhada, na Comissão Federal do
ça, TratIado IV, n" 1.186, Didimo -
J
Comércio Americana, diz que o funcio-
SoctedaI:/Ies AnófMm.a8 n· 243 - ; Vam-
J
nário "não pode ficar na mesma situa-
pre - Direito Oomercial li, § 64, li).
J
ção incômoda do entêrro de Mahomet.
Assim quando voltamos para a teo- entre o céu e a terra!" (The 1'I~
ria que sutenta a limitação dos podêres O flioe and pot.rer8).
-246 -
Nem no limbo, nem entre o céu e a namentais norte-americanas, quando se
terra deve ficar também, no caso, o re- operava a modificação administrativa
presentante. Sua posição não pode ofe- da Presidência da República. Mas, como
recer dúvidas. A titulo de esclarecimen- alguns casos foram invocados, vamos a
tos ter-se-á em conta que a Lei n~ 3.807, êles.
de 1960, tem uma finalidade e ela é a
de ministrar aos segurados as presta- O primeiro, foi o caso Meyers, sôbre
ções nela estabelecidas. Para isso, pos- o qual a Suprema Côrte concluiu que
sui órgãos de orientação e de direção, a demissão era legítima, por ser o fun-
dos quais, em benefício da previdência, cionário demitido, designado pelo Presi-
o Govêrno não pode estar ausente. A dente da República. O outro é o caso
lei, dês se Imodo oferece meios para Humphrey. ÊSte, nomeado para mem-
que o Govêrno possa cooperar, sem fa- bro da Comissão Federal do Comércio
zer política escusa, em benefício da efi- pelo período de sete anos, foi notifica-
cácia previdenciária. Mas jamais pode do pelo Presidente da República para
visar garantir funcionário em prejuizo deixar o cargo. Valeu-se do Judiciário
da eficácia do órgão, jamais pode re- e por êste o ato presidencial da de-
nunciar essa eficácia por preocupação missão foi considerado injusto. Convém
meramente burocrática. então relembrar como o considerou o
Juiz Sutherland, que assim se expres-
Quando a politica trabalhista con- sou, veroo: "Um diretor do Correio
quistou o poder na Inglaterra para fa- ( caso Meyers) é um funcionário exe-
zer uma reforma social, tomou-se por cutivo, limitado ao desempenho de fun-
uma ditadura da burocracia. A pretexto ções executivas. Não pratica dever al-
de atender-se as classes menos favo- gum relacionado com o Legislativo ou
recidas criava-se uma. nova classe pri- com o Judiciário. A decisão real do
vilegiada e dominadora. E daí o su- caso Meyers apóia-se na teoria de que
cesso do livro de Lord Hewart, O nÔ'VO tal caso é tão-só de uma das unidades
despotismo e a frase causticante de do Departamento Executivo e, em con-
Lord Brabason, na Câmara dos Lords, seqüência, se acha indiscutivelmente su-
em outubro de 1945, à maneira de Lin- jeito à faculdade de remoção exclusiva
coIn: "O govêrno dos funcionários, e ilimitada do primeiro Magistrado, de
pelos funcionários e para os funcioná- quem é subordinado e colaborador!"
rios" (Paul Vishcher: Les rnowvelles ten-
dence3 de la démOCTatie anglaise, pág. "Não vai mais além e, muito menos,
171). envolve funcionário que não ocupa car-
Não desejava traduzir para o portu- go no Departamento Executivo, confe-
guês essa ameaça que a democracia in- rido pela Constituição ao Presidente. A
glê'Sa soube repelir com tanta sabe- Comissão Federal do Comércio é um
doria ... corça administrativo criado pelo Con-
gresso para fazer planos legislativos,
E penso, ama vema, que devemos inclusive estatuto e que deve estar li-
repeli-la enquanto é tempo, máxime em vre do contrôle do Executivo. Opinamos
se tratando de uma forma de burocra- ser evidente que, segundo a Constitui-
tização da Previdência Social. Do con- ção, o Presidente não possui essas fa-
trário, teremos em nome de uma ga- culdades de remoção em relação a fun-
rantia imprudente a um funcionário pe-
cionários tais como os recém-nomeados
riódico, a liquidação da interferência para a Comissão de Comércio Interes-
do Govêrno e o prejuizo da previdência! tadual, da Comissão Federal do Comér-
Não queria também, por fim, insistir cio e da Côrle de Reclamações. l!l indu-
nós exemplos judiciários americanos. vidosa a autoridade do Congresso para
Acho-os, data t>enta, inaplicáveis ao criar organismos quase legislativos ou
caso. Surgem êsses exemplos, num mo- quase judiciais, para que com isso, no
mento de crise das instituições gover- desempenho de seus deveres, atuem in-
- 247
dependentemente do contrôle do Exe- li: que, desde 1931, vai-se procesaando,
cutivo" (R. Cuchman: LerJ4M.g COtl8ti- nos Estados Unidos, uma reação con-
tutional deciB<ms, pág. 217). tra os excesso de podêres atribuidos
às ComiS8ÕeS. Os encarregados eapeciais
Acentua Cuchman que o Departamen- de elaborar o projeto de reorganiZação
to Federal do Comércio não passa. de do Executivo, nesse ano, timbraram as-
um agente do Legislativo e do Judiciá- sinalar que "se estava criando um quar-
rio, o que não acontece com a organi- to ramo acéfalo do Govêrno, uma acumu-
zação prevista, entre nós, pela. Lei n 9 lação fortuita de organismos irrespon-
3.801. Esta cria órgãos de direção e de sáveis e faculdades discordantes, que
orientação. Não fêz dêsse órgão e nem fonnam uma obstrução constante para
podia fa.zê-lo agente do Legislativo e do o efetivo manejo da administração na-
Judiciário. E ao invés de afastar o ór- cional".
gão do Govêrno o aproximam dêle, dan-
do-lhe um representante. Poderia ir mais looge e relembrar o
estudo de Fritz Mortey, na Revista de
Além de que, o Departamento ameri- Direito A~, e precioso tra-
cano tem um suporte politico de tal balho de GIeden Syhubert Junior - T1ae
sorte, que nêle se chegou a. ver uma Pre.rlde:ncy '" the CotI.rts, e meamo o
expressão da vontade popular. 1:1e cria trabalho de H. Laski sôbre a Presidên-
uma. comissão de cinco membros, no- cia Americana.
meados pelo Presidente, com aprovação
do Senado. Estabelece que não mais de Cada leitura dessa nos vai mostrando
três dos comissionados serão membros que já em 1891 deveriam06 através da
de um mesmo partido politico. Constituição argentina, do roteiro ame-
ricano, desconhecendo a face congres-
Os debates em ambas as Casas do aional e êsse desvio aumentou em nos-
Congresso, informa Cuchman, demons- sos dias, COm a influência das novas
traram que a opinião predominante era Constituição Européias. Assim sendo só
de que a Comissão não devia subordi- me resta votar com o Relator, denegan-
nar-se ao Govêrn.o, senão ao Povo dos do a segurança.
Estados Unidos. E, ainda esclarece:
- "Fazendo investigações e infonnes VOTO
para o Congresso, indo em auxilio do
Legisla.tivo, atua carno agente legisla- o Sr. .M~ Ari Franco - Sr.
tivo. Confonne disposto no n 9 1, que Presidente, não trouxe voto escrito, não
autoriza a Comissão atuar carno Tri- vou fazer voto longo nem erudito; mas,
bunal de eqüidades, através de regras vou me permitir dizer umas coisas que
prescritas pela COrte, atua como agente serão como um desabafo.
do Judiciãrio." O desdobramento da administração
Não vejo como se polll58. fazer dêsse levou o Govêrno à adoção das autar-
caso cavalo de batalha! quias. O estado atual das autarquias
de previdência social e daqueles que
Corwin, em seu livro citado, depois justificam, no Brasil, uma revoluçi.o
de historiar a criação de várias comis- social.
s6es, traz à baila o caso Morgan, caso
Agora mesmo, eu dizia aos meus co-
a que já tive oportunidade de referir- legas: desconto para o IPASE uma im-
me em aparte. Morgan, destituido da
portância razoável, aenslvel; não sei se,
Presidência de "Tenessee Valey Autho- por minha morte, o meu beneficiãrio
rithy", em 1938, o que considerado como
terá direito ao beneficio por que estou
legal. "Negar, diz Corwin, ao Presiden-
pagando.
te, nesse caso, o direito de demitir, seria
o mesmo que impedi-lo de desempenhar O 8r. Ministro Luis GaUotti - Basta
8fIWI deveres constituciooaia." ver o seguinte: essas autarquias, que
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não podem dar moradia nem assistên- República achou pouco s o General foi
cia médica aos seus pobres contribuin- desnomeado. .
tes, fazem palácios em Brasília para
residência de ministros, senadores e O Sr. Mtnistro Ari Fratlco - O emi-
deputados! nente Ministro Pedro Chaves falava ain-
da agora em Govêrno conservador, com
O Sr. Mi.ni8tro Ari F'rcbnco - Sou funcionário de confiança, também con-
contribuinte de uma autarquia que tem servador. O funcionário aderiria logo!
um hospital pomposo, soberbo, para No Brasil, o funcionário em comissão
atender a todos aquêles que para ela serve a governos antagônicos. Sai um
contribuem. Se o pobre desgraçado pre- govêrno, êle pede demissão pró-forma
cisar internar-se no hospital, encontra e, por trás, vai trabalhar para ver se
dificuldades; mas, se quiser pagar re- fica no cargo. Os fatos são públicos.
giamente, tem logo à sua disposição o O que é preciso é mudar essa ambiên-
leito e todo o tratamento necessário. cia nacional em que vivemos!
O Sr. Mmiatro V'la8-B~ - V. Exa. O Sr. Mmistro VUas-Boo.s: - Então
sabe qual a causa disso? V. Exa., prestigie a lei!

O Sr. Mmi8tro Ari Fromoo - A o Sr. Mini8tro ATi Fratneo - Não


causa disso é o desmando da adminis- posso prestigiá-la, porque é uma lei
tração nas autarquias do Brasil, que feita adrede. Uma lei que tem os arts.
foram criadas e resultaram em cabides 99 e 103 me impede de acompanhar
de empregos; por isso é que veio a Lei V. Exas. Deu ao Presidente o cargo,
n 9 3.807, quando o ambiente era de gran- é o Govêrno; o funcionário é represen-
de ebulição; houV1! pressa em fazer tante do Govêrno. Diante dos arts. 99
esta lei, que é de 26 de agõsto de 1960, e 103, acompanhado, data venta, o voto
para que se estabelecesse isso que aí do eminente Relator.
está.
VOTO
O Sr. Mini8tro Vitor Nwnes - V.
Exa. está mal informàdo, quanto aos o Sr. Ministro Ltú8 Gallotti - Na
arts. 99 e 103, desta lei. sessão de 23 de agOsto último, em que
O Sr. Milniatro Ari Franco - V.
foi iniciado êste julgamento, ouvi com
a maior atenção o voto do eminente
Exa. está enganado. Estou muito bem
informado a respeito da realidade na- Relator, e, apesar de não existir quem,
cional. mais do que eu, lhe admire os atribu-
tos de magistrado, a envergadura mo-
O Sr. Mmi8tro ~is aanotti - Con- ral, as I"efiervas de civismo, fui anotan-
cedida, que fósse, estabilidade aos diri- do as dúvidas que, no meu espirito,
gentes de autarquia, o que só foi feito suscitava a fundamentação daquele bri-
por lei posterior à mudança da Capital, lhante voto, como sempre inspirado nos
talvez êles tivessem resistido ao Presi- melhores e mais altos propósitos, mas
dente da República, quando lhes orde- sem parecer, à primeira vista, apoiado
nou, antes da mudança, que aplicassem nas normas do nosso direito positivo.
em Brasilia os dinheiros das autarquias,
os quais já anulam finalidades fixadas Dessas dúvidas falei a S. Exa. ao fim.
em lei. O Senador Vitorino Corrêa, digno da sessão, sem especificá-las, acrescen-
General do nosso Exército, revelou, em tando que ainda me deteria num mais
discurso no Senado, que nomeado presi- aprofundado exame da questão.
dente do IP ASE, o então Presidente da l!lsse exame, data VeMa, me confirmou
República lhe perguntou quanto gasta- a Impressão inicial:
ria em Brasilia. Respondeu que gastaria
o máximo permitido pela situação fi- Tem o Supremo Tribunal jurisprudên-
nanceira do Instituto. O Presidente da cia, firmada- há tantos anos, no sentido
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de adrititir a estabilidade relativa conce- Em contrário à objeção existem jul-
dida por lei aos servidores públicos, gados dêste Tribunal mas, há poucos
quando lhes, estabelece mandado por meses, foi ela novamente submetida ao
certo p.."liodo. Tribunal Pleno e aguarda o seu pro-
nunciamento.
Assentado ficou que, dentro do peno-
do, sômente com justa causa poderá Entretanto, todos reconhecem que, no
ocorrer a demissão, salvo se esta fôr caso, não se trata de funcionário pú-
livremente facultada pela lei. blico propriamente dito.
Tudo está em saber se essa jurispru- E o então Procurador-Geral, em sua
dência deve alterar-se, em face da Cons_ brilhante defesa oral, reconheceu que a
tituição de 1946. lei. invocada pelo impetrante, não é in-
constitucional.
Mesmo na vigência desta, já proferi
votos, acolhidos pelo Tribunal, admi- Não digo que essa lei bem consulte
tindo aquela estabilidade relativa, por o interêsse público, mas, como já tenho
penodo certo. acentuado, citando Soler, uma coisa 6
Isso, é claro, não excluiria o reexame a lei e outra coisa é a nossa opinião;
do problema, mormente se levantado quando elas não coincidem. nada nos
agora com argumento nôvo que pro- impede de dizer o que pensamos; de-
cura base na Constituição atuaI. vemos, porém, saber distinguir o que
é a lei do que é apenas nosso entendi-
O que se diz é que ela, no art. 87 mento.
n9 V, dá competência privativa ao Pre-
sidente da República para prover na Se no caso das Caixas Econômicas.
fOImada lei os cargos públicos fede- por exemplo, a lei distingue entre Pre-
rais, competência que, como está no sidente e Diretor, o primeiro demlssi-
texto, só é limitada pelas ressalvas vel ad nutum e o segundo nomeado por
constantes da própria Constitu.tçã.o, en- penodo certo, como equiparar os dois
quanto as Constituições de 1934 e 1937 casos, quando a própria lei nitidamente
os distingue?
também admitiam exceções previstas
em leis ordinárias. Sustentou-se na informação oficial
que, a existir direito, êste só teria de
Ocorre, porém, que prover é rnomear. ser reconhecido. quanto aos efeitos pa-
Cogita-se de regx:a. de ~o, trimoniais, não no tocante ao exerci-
não das regras de demi88ibilidade. Des- cio da função.
tas cuidou a Constituição em outros O argwnento seria válido, na era an-
artigos (187 e seguintes). terior à Constituição de 1934.
Já acentuei, em votos reiterados, que Naquele tempo, o Poder Judiciário não
não se confundem as normas de provi- reintegrava o funcionário ilegalmente
mento com as relativas à dlemisBibili- demitido. Apenas lhe anulava, a demis-
dade, tanto que livre nomeação não são, assegurando-lhe as vantagens do
importa livre demissão, salvo quando cargo. Resultava então que, se o Poder
a leI declara o cargo de livre nomeação Executivo não fazia a reintegração, o
e demissão (é o que está expresso no Tesouro sofria o ônus de duplo paga-
parágrafo único do art. 188 da Carta mento por um só cargo: ao demitido
Magna). ilegalmente e ao nomeado para o seu
lugar.
Se se tratasse de funcionário públi-
co propriamente dito, a.iJ).da seria pos- E uma das grandes virtudes do man-
sivel objetar que não pode a lei ordi- dado de segurança, criado pela Cons-
nária criar casos de estabilidade além tituição de 1934, é libertar ràpidamente
doe previstos na Constituição. o Tesouro dê'Sse duplo Onus.
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Essa Constituição (art. 173), assim funcionários pelo prazo do mandato, de
como a de 1946 (art. 190), são expres- quatro anos, quando não lhe merecerem
sas no detenninar que, invalidada por mais a confiança.
sentença a demissão de qualquer fun-
cionário, será êIe reintegrado, e quem Assim, acompanho o eminente Minis-
lhe houver ocupado o lugar ficará des- tro Relator.
tituído de plano ou será reconduzido ao
cargo anterior mas sem direito a inde· DECISÃO
nização.
Como consta da ata, a decisão foi a
Pedindo vênia ao eminente Relator, seguinte: Denegaram a segurança, ven-
concedo a segurança. cidos os Srs. Ministros Vitor Nunes,
Gonçalves de Oliveira, Vilas-Boas e Luis
VOTO
Gallotti.
o Sr. MsnÍ8tro Ha.JiinmnaIlm Guinna- Relator: O Exmo. Sr. Ministro Ri-
rée8 - Sr. Presidente, estou de acôrdo beiro da Costa.
com o eminente Ministro Relator.
Presidência do Exmo. Sr. Ministro
o caso há de ser decidido em face das Barros Barreto.
disposições da Lei Orgânica da Previ-
dência Social. A Lei n 9 3.807, de 26- Tomaram parte no julgamento os
-8-1960, em disposições já lembradas Exmos. Srs. Ministros Pedro Chaves,
pelo Sr. Ministro Ari Franco em seu Vitor Nunes Leal, Gonçalves de Olivei-
voto, nos arts. 99 e 103, refere-se ex- ra, Vilas-Boas, Cândido Mota Filho, Ari
pressamente a representantes do Go- Franco, Luis Gallotti Hahnemann Gui-
vêrno, e não me parece possivel ficar marães, Ribeiro da Costa e Lafayette
o Govêrno impedido de exonerar êsses de Andrada.

CONSELHO DE PREVIDP.NCIA SOCIAL - EXONERAÇÃO DE RE-


PRESENTANTES DO GOVERNO FEDERAL - I. A. P. C.
- Podem ser exonerados, no curso do mandato, os represen-
tantes do Govêmo Federal no Conselho Fiscal do Instituto de Apo-
sentadoria e Pensões dos Comerciários.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Requerente: Miguel Mateus
Mandado de segurança n.o 8.815 - Relator: Sr. Ministro
PEDRO CHAVES

AcORDÃO Brasília, 22 de janeiro de 1962. -


Presidiu o juIgamento o Sr. Ministro B.
Vistos, relatados e discutidos êstes Barreto. - Peàro Chaoos, Relator.
autos de mandado de segurança número
8.815, do Distrito Federal, em que é RELATóRIO
requerente Miguel Mateus;
Acordam os Ministros do Supremo o Sr. MirriBm> P«lro Cha1ve6 - O
Tribunal Federal, em Sessão Plena, in- impetrante. nomeado para as funções
deferir a segurança, nos têrmos das de Representante do Govêrno no Con-
notas taguigráficas. selho Fiscal do Instituto de Aposenta-

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