A Psicologia da Segurança no Trabalho A “Psicologia da Segurança no Trabalho” definida por Meliá (1999) como sendo “a parte da psicologia que

se ocupa do componente de segurança da conduta humana” é uma ciência que vem sendo desenvolvida desde a década de 70 e é também um conjunto de técnicas (metodologia de intervenção) que permitem compreender e agir sobre os elementos humanos da prevenção de acidentes de trabalho com profundidade e precisão. No Brasil seu desenvolvimento ainda é bastante discreto, sendo encontrada com maior incidência nos EUA e na Europa. A Psicologia da Segurança pode proporcionar conhecimentos que complementem as práticas dos demais profissionais que atuam em segurança no trabalho como médicos, engenheiros e técnicos, o que não significa que interferir sobre os fenômenos psicológicos em segurança seja algo que possa ser feito de forma efetiva por profissionais sem a devida capacitação. Referindo-se à utilização de conceitos e técnicas da Psicologia por profissionais de outros campos de atuação, Geller (2001) comenta que muitas das estratégias para promover crescimento e desenvolvimento, incluindo mudanças de atitudes e comportamentos, são acatadas com crença e otimismo por empresários e trabalhadores porque “soam bem” e não por que são estratégias embasadas em conhecimentos produzidos cientificamente”. Propostas sem critérios podem gerar frustrações, resistências e descrenças, pois muitas vezes, os resultados obtidos são parciais ou então são conquistados às custas de desgastes emocionais, relacionais e de saúde geral dos trabalhadores (principalmente aqueles colocados nos mais baixos níveis hierárquicos, o famoso “chão de fábrica”). Nestes casos, o que foi criado e implementado para promover a saúde utilizando como meio a “mudança de comportamento” passa a ser causa de sofrimento para os envolvidos. Sofrimento suportado em silêncio, muitas vezes, pela necessidade de preservação do emprego. Dejours (1999) e Geller (2001) consideram que expressões como fator humano, comportamento, atitudes, além de serem utilizadas muitas vezes como sinônimo de Psicologia (o que não é verdade), funcionam como um verdadeiro “condensado de psicologia do senso comum”. Exemplos destas distorções são alguns tipos de programas de incentivos (com brindes e sorteios), as “sessões de tragédias” (apresentações de vídeos e fotos de acidentes de forma sistemática como forma de conscientizar), treinamentos e cursos com alta carga horária e didática inadequada. Estratégias como estas acabam por promover aprendizagens inadequadas, fazendo com que o trabalhador fique mais interessado em ganhar num boné ou um sorteio de DVD do que se comprometer para garantir sua integridade na saída da fábrica. A saúde e a qualidade de vida é que são os verdadeiros ganhos no processo de prevenção. Considerando que a noção de comportamento tem sido amplamente utilizada em programas e ações de segurança em empresas brasileiras e estrangeiras, recebendo até o nome de “Segurança Comportamental”, é importante refletir sobre o que de fato tem sido tratado por essas estratégias. O conceito de Comportamento Seguro O que separa os equipamentos modernos, as orientações dadas nos treinamentos, as normas e procedimentos de trabalho, os sistemas de gestão, do comportamento cotidiano dos trabalhadores? Meliá (1999), ao examinar a contribuição da Análise do Comportamento para a prevenção de acidentes, afirma que sua aplicação à segurança já é conhecida (McAfee & Winn, 1989; Peters, 1991; Johnston, Hendricks & Fike, 1994, citados por Meliá, 1999). Ele relata que os modelos de análise funcional da conduta permitem identificar os elementos que sustentam as condutas inseguras e os que sustentam ou poderiam sustentar as condutas seguras. A análise do comportamento permite descobrir que, em muitas ocasiões, existe um desequilíbrio de contingências contrário à conduta segura e favorável às condutas inseguras. Com relação à prevenção de acidentes, os tipos de comportamentos destacados por profissionais da segurança são aqueles que podem ser divididos (ainda que didaticamente) em seguros e inseguros. O adjetivo “seguro” é utilizado para se referir àquilo que o trabalhador faz e que contribui para a não ocorrência de acidentes. São exemplos de comportamentos seguros comumente utilizados o uso de EPI’s, o cumprimento de normas de segurança e o uso

Ao trabalhador devem ser dadas condições (capacitação e abertura) para PENSAR. Coerência entre pensamento. Ele é muito mais do que isso. Não entre! Não deixe de ler a norma! Não suba sem cinto! Não use o celular na direção! Será que não estamos fazendo o processo inverso? Passamos mais tempo ensinando o trabalhador aquilo que ele não deve do que aquilo que ele DEVE fazer. ação e objetivo final é o que se chama popularmente de consciência. adequado ou inadequado) absolutizando suas concepções. utilizar ferramentas de maneira inadequada. os comportamentos relacionados com a segurança também considerados como determinados por múltiplas causas. para você. seguir ou não seguir. Tipos de concepções sobre comportamento seguro no trabalho Funcionários (n=20) Instrutores (n=5) Percentual sobre o total Funcionários Percentual sobre o total Instrutores Trabalhar com cuidado e atenção 10 0 18% - . como se o Comportamento Seguro pudesse ser reduzido simplesmente a um código de regras que dizem o que é permitido e o que é proibido. Comportamento Seguro e Educação para a Segurança Um estudo realizado por Bley (2004) para explorar o que caracteriza a aprendizagem de comportamentos seguros nas atividades de risco aponta necessidades e lacunas no processo de educação para a segurança (no aspecto comportamental). Da mesma forma. não seguir padrões de segurança. Alguns exemplos são não usar EPI’s. é definido por Bley (2004) como sendo a capacidade de identificar e controlar os riscos presentes numa atividade no presente de forma a reduzir a probabilidade de ocorrências indesejadas no futuro. É esta competência que deve ser desenvolvida e estimulada nos processos educativos para que os comportamentos seguros sejam mais freqüentes nas frentes de trabalho. Assim como o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado.adequado de ferramentas e equipamentos. sentimento. foram entrevistados instrutores de treinamentos de segurança (a maioria técnicos de segurança) e os funcionários participantes dos treinamentos ministrados pelos referidos instrutores. comportamento seguro?”. Um breve exame dos comportamentos comumente associados à segurança revela a criação de um tipo de dicotomia (seguro-inseguro) na qual as propriedades que o definem caracterizam-se pela oposição entre si (uso ou não-uso. Dentre os procedimentos adotados para a coleta dos dados. e a segunda entre todas as concepções e um conceito de científico de Comportamento Seguro. SENTIR e AGIR considerando os riscos aos quais está exposto e as melhores formas de controlá-los. Abaixo podem ser observados os resultados da análise de conteúdo das respostas a seguinte pergunta: “O que é. E é curioso observar o quanto as ações educativas em segurança falam no comportamento de risco. internas e externas ao indivíduo. O Comportamento Seguro de um trabalhador. A maior parte do tempo (para não dizer todo o tempo) dos treinamentos e campanhas de segurança é utilizado para apontar aquilo que NÃO deve ser feito. no ato inseguro. os comportamentos considerados como sendo “de risco” são aqueles que contribuem para que os acidentes aconteçam e são também chamados de “atos inseguros”. Foram pesquisados treinamentos e palestras de segurança que tinham como objetivo (principal ou como um deles) promover comportamentos seguros no trabalho realizados em duas indústrias metalúrgicas situadas no Paraná. para si e para os outros. O objetivo do questionamento foi realizar dois tipos de comparação: a primeira entre as concepções de “educadores” e “aprendizes” para identificar em que medida houve aprendizagem. Comparação das respostas de instrutores de treinamento de segurança de duas indústrias metalúrgicas e funcionários participantes dos mesmos treinamentos quando perguntados sobre o que entendem por “Comportamento Seguro”. de um grupo ou de uma organização.

palestras. Treinamentos. é improvável que os funcionários que participaram dos treinamentos passem se comportar de forma segura. quais os comportamentos seguros se deseja estimular. Um trabalhador pode “usar EPI” porque alguém mandou e não porque ele é capaz de identificar e controlar os riscos de sua atividade. o que faz com que as pessoas ajam desta forma. procedimentos e políticas são importantes estratégias para a promoção da mudança de “comportamentos de risco” para “comportamentos seguros”. capacidade de análise e de escolha ficam de lado nesta situação. há grande chance de não se obter o resultado esperado do treinamento. O que os instrutores e funcionários consideram como significado de “comportamentos seguros” é divergente entre si e também está distante do conceito. os dados confirmam o alto grau de generalidade dos termos utilizados tanto por instrutores quanto por funcionários para definir o conceito. Se os instrutores não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do tipo de comportamento que devem ensinar. o que é preciso fazer para tornar . O fatores consciência. considerando a análise do comportamento e os princípios do processo ensinoaprendizagem. é possível que na hora que aquele que mandou sair de cena.. Nos casos estudados. Ao comparar as categorias apresentadas e os pressupostos do conceito de Comportamento Seguro é possível perceber que boa parte delas não tem correspondência direta com uma conduta preventiva na realização de atividades. Desde que se tenha clareza de quais são os comportamentos de risco existentes. o que permite afirmar que há pouca clareza a sobre as propriedades que caracterizam o comportamento seguro e isso pode causar prejuízo ao processo capacitação das pessoas para prevenir acidentes de trabalho.” apresenta sozinha todas as características necessárias para compor a competência “comportar-se de forma segura”.Obedecer às normas de segurança 8 4 15% 40% Ter atitude consciente e agir com bom senso 7 2 14% 20% Trabalhar com foco na segurança 6 2 12% 20% Usar EPI e EPC 4 1 7% 10% Não cometer “atos inseguros” 4 0 7% Saber trabalhar sob pressão e receber críticas 3 0 5% Cuidar dos colegas 3 0 5% Conhecimento técnico do trabalho a ser realizado 3 0 5% Analisar os riscos das tarefas 2 0 4% Participar de reuniões e treinamentos de segurança 2 0 4% Preocupar-se com a própria segurança e aprender com exemplos 1 1 2% 10% Nunca achar que sabe tudo 1 0 2% Total de Ocorrências 54 10 100% 100% Os dados da tabela apontam divergências entre o que os funcionários e os instrutores entendem por comportamento seguro. cursos. Além disso. No caso do uso por obediência. Nenhuma das categorias acima. ao ser comparada com “identificar e controlar riscos da atividade. o sujeito retire o EPI pois não faz sentido pra ele utilizar o artefato.. Uma das evidências disto é que o tipo de definição do que se entende por comportamento seguro que mais ocorreu entre os funcionários (“trabalhar com cuidado e atenção”) não foi sequer indicado pelos instrutores em nenhuma proporção.

permitem que os problemas considerados ultrapassados voltem a ocorrer.. não só na sua atividade imediata. Não há dúvida de que consciência. quando lidamos com preservação da saúde. olfato. as ações pouco podem fazer frente à força que as “coisas como sempre estiveram” impõe no sentido contrário da mudança. abordagens de conscientização. A continuidade das ocorrências indica o inexpressivo resultado desse tipo de atuação. não só no contexto da segurança do trabalho. Diálogos de segurança. Mensagens como “use o cinto”. Olhar sempre para a freqüência e deixar a probabilidade de lado neste momento. pessoas queimadas. Afinal existem outras variáveis importantes que não estão sendo levadas em contas nesta análise.a mudança desejável pelas pessoas. Percepção de Risco Partindo do entendimento de que o Comportamento Seguro é definido por “identificar e controlar riscos. prevenir acidentes e doenças. treinamentos. Este conceito é tido como mais um elemento importante para a compreensão dos aspectos psicossociais relacionados à prevenção dos acidentes de trabalho. nas propagandas contra o abuso de drogas ou contra a transmissão do vírus da AIDS. estado emocional. mas após um período de tempo. O processo de receber e converter o estímulo externo é chamado de sensação. gustação. palestras. assim como imagens de olhos perfurados por pregos. responder esta questão não é tão simples como parece.”. Sem considerar isso. ele trabalha do lado de dentro dos portões de uma indústria diariamente. Essa trama complexa de relações (que é invisível aos olhos à primeira vista) pode ser a responsável pelo insucesso de ferramentas de conscientização em segurança que atingem seus objetivos num primeiro momento. “cumpra os procedimentos”. Para explorar o conceito de percepção de risco é preciso lembrar que o contato que o ser humano estabelece com o mundo externo é mediado pelos seus sentidos (tato. evitando danos à integridade física e psíquica dos indivíduos. audição. mas também em todo o contexto de trabalho. São coisas diferentes: “dar ordens” e “educar”. visto o pouco tempo que ele fica exposto ao risco – isso é probabilidade.. parecem ter sido concebidos para “dar ordens” ou “alertar”. “previna-se”. Já o processo de atribuição de sentido à informação recebida é chamado de percepção. Em muitos casos. conhecimento técnico e operacional de ambos. mantendo-se 95% do tempo no escritório. Em prevenção o processo perceptivo é fundamental uma vez que. cartazes e campanhas são amplamente apresentados como “ações educativas” aos trabalhadores. estamos vinculados à capacidade das pessoas de se relacionar com os perigos de forma cuidadosa. mas também no trânsito. isto é. mas nem sempre surtem o efeito desejado. A percepção de risco diz respeito à capacidade da pessoa em identificar a freqüência na qual está exposta a situações ou condições de trabalho que possam causar dano (perigos) e reconhecer os riscos que este oferece. Entretanto. possui uma justificativa importante como é possível perceber no exemplo que segue: Exemplo prático: um profissional que trabalha numa fábrica de explosivos e que. carros destruídos acompanhados por sangue no asfalto. por exemplo: nível de saúde. capacidade de reconhecer os riscos . no lugar de “educar” o seu público de interesse. conhecimento e trocas de experiências são meios que podem favorecer a aprendizagem para a prevenção. vai poucas vezes a área industrial. Pode-se afirmar que este trabalhador tem menor chance de sofrer um acidente de que outros que rotineiramente trabalham na área industrial? Logicamente. durante sua rotina. são algumas das estratégias utilizadas na tentativa de modificar a postura do trabalhador no que diz respeito a própria segurança. por meio dos quais os dados da realidade são recebidos e ganham significados. visão). Na prática há uma evidente lacuna por parte das organizações por não buscarem conhecer o nível em que se encontra a percepção de risco dos trabalhadores de seus quadros. É de praxe ele não acreditar que possa ocorrer algo negativo. informação. a Percepção de Risco tem um importante “status” nas recentes pesquisas em Psicologia da Segurança no Trabalho.

Algumas perspectivas de análise e aplicação permitem realizar o monitoramento do processo no que se refere ao comportamento seguro. Comportamento Seguro e sua aplicação nos Sistemas de Gestão de SST Atualmente existem casos de práticas bem sucedidas acontecendo em empresas (em diversas regiões do Brasil e em outros países) que podem demonstrar a efetividade desta modalidade técnica e científica de compreender e atuar sobre o comportamento humano e suas interfaces sobre os aspectos de segurança no trabalho. Na prática. sendo que os primeiros referem-se diretamente aqueles que buscam identificar os aspectos humanos antes do acontecimento de uma perda ou acidente de trabalho. muitas vezes. os conceitos relacionados com o chamado “Comportamento Seguro” podem ser aplicados no sentido de potencializar (e até viabilizar) um programa amplo de Gestão de Segurança e Saúde. O comportamento seguro é um resultado de fatores (internos ao indivíduo e do ambiente de trabalho) que permitem às pessoas agir de maneira preventiva no trabalho. em função de sua estrutura mental e do seu repertório adquirido. aumentando o risco de suas atividades e como conseqüência têm-se as ocorrências de acidentes. Em última análise. a nossa percepção. para que se preocupar com a Percepção de Risco dos trabalhadores? Muitas vezes. condições de trabalho precárias. Se existir pressão desmedida por produção. Mas vale deixar claro: percepção de riscos e comportamento seguro não são sinônimos! É possível que a pessoa perceba que pode se machucar e escolha fazer o serviço assim mesmo. Uma das ferramentas utilizadas pela Psicologia da Segurança no Trabalho para este mapeamento é um questionário com diversos tipos de perigos e riscos de acidentes. Sabe-se que um dos principais desafios na implantação de um Sistema de Gestão é o processo de comprometimento das pessoas envolvidas. isoladamente.existentes. Os Indicadores Humanos em segurança podem ser classificados em duas categorias básicas: os “Proativos” e os “Reativos”. o fato de perceber os riscos não levará. é a atividade do caldeireiro na metalurgia. Desta forma. olhar apenas a probabilidade decorrente do tempo de exposição distorce. Ou seja. Alguém que não identifica os riscos da sua tarefa tem alta probabilidade de agir de forma arriscada. ou quem sabe racional. em especial neste caso. o trabalhador comete comportamentos de risco por não conhecer de fato quais os perigos aos quais está exposto.Soma-se a isto a questão do monitoramento de resultados que aparece sob a forma de metas e indicadores para a medição do desenvolvimento do sistema como um todo e. do médico do trabalho que atua na indústria. pois ela é pré-requisito para um comportamento seguro consciente (escolhido e não “por acaso”). despreparo. do engenheiro que atua na petroquímica. a uma mudança de atitudes. Por meio do mapeamento da Percepção de Risco dos trabalhadores é possível mensurar a capacidade dos trabalhadores em identificar os perigos e riscos. do aspecto humano do processo. Sem esta informação (que em Análise do Comportamento recebe o nome de “estímulo discriminativo”) dificilmente ele consegue reconhecer os riscos da tarefa. heroísmo. mas fortemente influenciado por fatores diversos que variam de indivíduo para indivíduo. assim a probabilidade de se expor ao perigo fica aumentada e por conseqüência seus comportamentos tendem a ser inseguros. neste mapeamento é considerado não apenas a atividade-fim do profissional. Os . Assim. quem não percebe os riscos dificilmente tem condições de escolher o meio mais seguro de agir. Seu formato permite avaliar a percepção e a noção de risco dos trabalhadores. Mas afinal. Onde o trabalhador não percebe o risco é justamente onde ele mais se expõe aos perigos (desvios/incidentes). Numa perspectiva de Sistemas de Gestão. mas todo o entorno que compõe cenário no qual o trabalho ocorre. o processo de percepção do risco pelo homem nem sempre é objetivo. ele identifica as situações a que está exposto no seu dia-a-dia. Inicialmente o trabalhador constrói o seu cenário de trabalho e. em seguida. bem como a própria atitude deles neste ambiente.

dos objetivos que ela almeja em prevenção. Um indicador essencial de aspecto humano é o nível de compreensão que se tem destes procedimentos. que pressupõe que o comportamento seguro ganha status de hábito por meio da articulação entre três dimensões do funcionamento psicológico: a dimensão cognitiva (é nível de conhecimento e informações que o trabalhador tem a respeito das suas atividades e todas as suas interfaces numa frente de trabalho. Ao indentificar dificuldades neste aspecto. Empresas com alto nível de complexidade em seus processos e que tenham produtos e atividades que necessitem um alto nível de conhecimento. A empresa que realiza esta atividade tem como prática avaliar o grau de eficácia e de aprendizagem dos participantes do processo? Uma alternativa viável é aplicação de mecanismos de verificação de aprendizagem. e outros aspectos que referem-se ao elemento emocional dos trabalhadores) e por fim. As matrizes de treinamento devem estar alinhadas com as necessidades das pessoas para que possam ter validade como instrumentos de desenvolvimento e avaliação de comportamentos em segurança. em grande parte. necessitarão adaptar seus programas de informação e o instrumento de avaliação às necessidades especiais desta população. Conhecimento e prevenção são aspectos que devem caminhar em conjunto. é a prática). 2. e nem cumprido. é composta por aquilo que pode ser observado pelas outras pessoas. Na prática. Quantidade de horas de treinamento em segurança: não existe um nível ideal de horas de treinamento em segurança. estes fenômenos podem servir de subsídios para o desenvolvimento de práticas (e seus respectivos indicadores) quando observados de forma sistemática. o TFSA (Taxa de Freqüência de acidentes sem afastamento) ou o TFCA (Taxa de freqüência de acidentes com afastamento). Vale ressaltar que as empresas que possuem força de trabalho com alto nível de analfabetismo. 3. A identificação destes fenômenos psicossociais depende. recomenda-se não abrir mão deste tipo de estratégia. por exemplo). a empresa poderá atuar de forma preventiva na melhoria do nível de informação de suas frentes de trabalho. Retomamos. portanto a idéia de pensar. algumas empresas utilizam sistemáticas de Permissão de Trabalho e/ou Análise Preliminar de Risco. algumas maneiras de viabilizar este trabalho podem ser: Sobre os aspectos Cognitivos: 1. O ideal varia em função do nível de risco da empresa. Um destaque possível para este indicador é o resultado obtido ao final de um programa de integração ou treinamento. a dimensão da ação (que nada mais é do que a forma como individuo realiza o seu trabalho. É necessário que as ferramentas análise estejam alinhadas com as proposta preventivas da empresa. sentir e agir. a dimensão afetiva (que é composta pelos aspectos interiores do ser humano como suas razões pessoais para se prevenir. Para que de fato tenha efetividade é importante que pessoas treinadas para avaliar este processo estejam constantemente nas áreas de trabalho acompanhando as frentes e avaliando o entendimento acerca dos procedimentos. por exemplo. Nível de aprendizagem: melhoria do nível de conhecimento obtida após as atividades educativas. Procedimento lido não é sinônimo de procedimento entendido. Entretanto. Considerando a divisão abaixo somente didática.reativos integram-se aos indicadores organizacionais que medem situações que já ocorreram como. porém este é um indicador . entender e interpretar estas informações. da capacidade das pessoas da empresa em observar. mas também com alguns meses de intervalo. não só após o treinamento. Como referência para a análise de indicadores considerados mais “Proativos” será utilizado como base o conceito de “Atitude Preventiva”. Acompanhamento da aplicação de procedimentos: além dos procedimentos de segurança e operacionais. por exemplo. seus comportamentos encobertos como pensamentos e sentimentos. por se tratar de aspectos de difícil observação (principalmente os cognitivos e afetivos) é essencial levar em conta que os profissionais da organização estejam capacitados efetivamente para a identificação de tais fatores. da cultura de segurança que ela já possui. seu nível de motivação.

Pesquisas de Clima e Cultura de Segurança: são as formas pelas quais os hábitos. enfim. 2. Num país no qual seus cidadãos têm seu primeiro contato com noções básicas de segurança ao entrar em uma indústria. para toda a sociedade. as atitudes e os valores em segurança aparecem no cotidiano da empresa. a saúde pública. O excesso e a falta de informação sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho pode prejudicar sua efetividade. Este conjunto de variáveis deve ser avaliado com uma periodicidade constante e considerada no planejamento anual da área de segurança. 4. entre outros).necessário para averiguar o nível de investimento do sistema de gestão no desenvolvimento das pessoas em segurança no trabalho. Como é a freqüência e a qualidade da participação das pessoas (assiduidade. exploração dos assuntos e não só apresentação. Observação e registro de Comportamentos Seguros: este processo permite a empresa identificar o nível de impacto dos programas de prevenção na efetiva mudança de comportamento dos trabalhadores. São indicadores de acompanhamento contínuo e que permitem à empresa conhecer e a prática e a percepção dos trabalhadores em quatro importantes aspectos do processo de prevenção: a) Forma como os líderes atuam em relação a segurança. Quantidade e Nível de Compreensão das Sinalizações de Advertência: uma boa prática é averiguar constantemente se as pessoas têm informações “demais” ou “de menos” sobre segurança. mas de atuação coerente e alinhada de todos os componentes da organização. profissionais de diferentes setores da empresa (desde que adequadamente preparados) observam e registram comportamentos seguros e comportamentos de risco dos trabalhadores realizando orientações educativas que esclareçam o trabalhador sobre a maneira mais segura de realizar o serviço. mas também para áreas como a educação. Ele pode ser mensurado por meio de procedimentos e instrumentos de medida já desenvolvidos pela Psicologia da Segurança no Trabalho. Por meio de inspeções sistemáticas. Isso permite visualizar que estar sem acidentes não é uma obra do acaso. Trata-se de um desafio não só para os profissionais prevencionistas. Participação em Diálogos Diários de Segurança (DDS): o olhar para este indicador não deve ser somente o quantitativo. Sobre os aspectos Afetivos: 1. identificação de oportunidades de melhoria. Os indicadores são obtidos por meio da compilação e do tratamento das informações geradas pelos observadores. Checar a freqüência de consultas aos mapas de riscos é uma forma de atuar nesta direção. b) Forma como os companheiros de trabalho lidam com a segurança. em algumas empresas ele é “um quadro a mais” pendurado na parede. em cumprimento à legislação. Vale destacar que esta é . Outra fonte de dados para esta investigação é a própria pesquisa de clima organizacional (ou ambiência) realizada pela maior parte das empresas no Brasil. Monólogos de segurança tendem a servir somente ao preenchimento da folha de presenças. os sindicatos. aplicação prática dos conhecimentos. mas principalmente para o qualitativo. Sobre os aspectos da Ação: 1. d) Como a pessoa percebe as ações de prevenção realizadas pela empresa. Algumas empresas têm substituído ou acrescido em suas placas: “Estamos há XX dias sem acidentes e com XX horas de treinamento em prevenção”. Símbolos desconhecidos. lembrando que. construir uma “cultura de segurança” é uma tarefa que vai além dos muros fábrica. c) Como a pessoa reconhece seus cuidados com a segurança (grau de consciência). tipos de perguntas. espaço para apresentação de críticas. pouco trabalhados ou já “desgastados” com a força de trabalho podem prejudicar seu objetivo.

estamos falando “gente” e não de máquinas e equipamentos. a cultura de segurança é outra. relações de trabalho mais saudáveis para ambos os lados. Hoje vemos práticas ocorrendo em algumas empresas que contrariam os conhecimentos mais básicos da Psicologia do Trabalho. a tradicional ênfase ao “tecnicismo” que sempre foi dada na formação dos profissionais que atuam nos ambientes produtivos é um fator que certamente influencia na dificuldade de gerenciar as pessoas com foco em SST. Um conhecimento mais aprofundado e consistente sobre os conceitos que compõem esta forma de pensar o comportamento humano no trabalho certamente poderá esclarecer muitos destes “mitos”. avançadíssimo cientificamente e de origem datada do início do século XX (quase centenário). limites e potencialidades pessoais e. Outra consideração fundamental diz respeito a alguns tipos de críticas produzidas sobre os processos de gestão de pessoas com foco no comportamento. Para que seja possível gerenciar a segurança e a saúde das pessoas com consistência e ética é necessário desenvolver diferentes componentes deste universo como uma formação mais “humanista” dos profissionais (do presidente da empresa ao auxiliar de produção). Quando falamos de “gente” precisamos levar em conta realmente que “cada caso é um caso”. O que dá certo numa empresa provavelmente não gerará o mesmo resultado em outra. Bom senso e ciência não correspondem ao mesmo nível de conhecimento. Ações de Segurança Comportamental têm como fator de sucesso a competência avançada em identificar e analisar os fatores psicossociais de maneira adequada e tecnicamente embasada. competência. e tantos outros. A correta aplicação destes métodos e indicadores humanos em segurança. se “manipular” de forma indiscriminada e decisiva o comportamento de alguém fosse realmente possível.uma metodologia que depende diretamente da cultura da empresa. sob pena de incorrer em graves equívocos conceituais e até problemas éticos. principalmente. atitudes. Estudos do curso de ação ou análise do trabalho: este processo pode ser indicador da forma como o indivíduo realiza seu trabalho integrando os conhecimentos. o nível de desenvolvimento do Sistema de Gestão em SST é outro. tão exploradas neste artigo. e educar filhos seria algo fácil e trivial. E por fim. porque as pessoas são diferentes. Enfim. Bastaria aplicar tudo isso numa fábrica e nunca mais teríamos um só trabalhador acidentado em decorrência do trabalho. entre outros). quando falamos de comportamentos. Parece óbvio que. . de opressão dos trabalhadores sob a justificativa de “modificar aquilo que são”. para gerenciar comportamento humano é preciso verdadeiramente humanizar o contexto produtivo. o que significa que sua eficácia depende de avaliar se ela é a melhor estratégia para aquele tipo de cultura (não é recomendável para algumas empresas) e também de um processo de treinamento dos observadores cuidadoso e preciso. não precisaríamos mais de cadeias. 2. recursos. radares nas estradas. realmente podem remeter a este entendimento. como sendo um “meio de adestrar e dominar pessoas”. multas de trânsito. cognição. Elas normalmente acusam um caráter de manipulação de comportamentos. É preciso reconhecer que os efeitos de aplicações inadequadas deste conhecimento. Vale destacar que a simples existência destes elementos e ações não garante resultados positivos em prevenção de acidentes. quando aliados a todos os demais elementos existentes no Sistema de Gestão de Segurança. Grande parte destas críticas toma uma proposta de pesquisa e intervenção em Psicologia (comportamental). se a organização das tarefas e atividades é compatível com os cuidados de segurança necessários (tempo. normas e políticas públicas que considerem os aspectos mais subjetivos deste processo. permite uma compreensão aprimorada e consistente do componente humano no processo de prevenção dos acidentes de trabalho. Profissionais que se propõem a atuar sobre o comportamento humano devem ser devidamente capacitados para este fim. cultura. habilidades. Isto porque. carga física e mental. orientações recebidas.

& U. Editora FGV. O fator humano. C. I. D. Human safety and risk management. Boca Raton: Lewis publishers. 1991. Londres: Chapman & Hall. Feltes. 2004. J. Sobre a noção de comportamento. DEJOURS. 1999. Referências: BLEY. P. Zilles. Filosofia: diálogos e horizontes. L.Autores: Juliana Zilli Bley (Psicóloga CRP/08 08725) Mestre em Psicologia pela UFSC e Professora do Curso de Psicologia da PUCPR. Revista de Psicología del Trabajo y de las Organizaciones. MELIÁ. BLEY.C. E. BOTOMÉ. Acidentes de trabalho: fator humano. Julio Cezar Ferri Turbay (Psicólogo CRP/08 0669-3) Doutorando em Psicologia Social pela Universidad Complutense de Madrid – Espanha. São Paulo: Edgar Blucher. ZANELLI. GUÉRIN. Curitiba: ABRAMAN. La seguridad y la accidentabilidad en el modelo sociológico de Tom Dwyer.F. Psychology of Safety Handbook. R. Dissertação de Mestrado em Psicologia. J. Compreender o trabalho para transformá-lo: a prática da ergonomia. 29 (3). A. atividades de prevenção.J. E col. 2004. Anuario de Psicología. P. (2). Psicologia e trabalho. 2001. J. 2004. L. J. Odilon Cunha Jr. Z. McKENNA. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1999. D. GLENDON. contribuições da psicologia do trabalho. V. 2543. 2001.R. . 2002.F. Psicologia: organizações e trabalho no Brasil.C. Z. 1995. Rio de Janeiro. Competências para prevenir: ensino-aprendizagem de comportamentos seguros no trabalho. In: H. E. DAVIES. J. Porto Alegre: EDIPUCRS. UFSC.S. 15. S. Anais do 2O Congresso Mundial de Manutenção Industrial. São Paulo: Atlas. MELIÁ. J. Variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho. TURBAY.Un modelo causal psicosocial de los acidentes laborales. Porto Alegre: Artmed. GELLER. COLETA. 1998. (Psicólogo CRP/08 08863) Pós-graduando em Psicologia do Trabalho pela UFPR. SHACKLETON. Medición y métodos de intervención en psicología de la seguridad y prevención de accidentes. e col. 1977... J. M.

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