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Aula de 28/03/1989 – O corpo e o acontecimento

Posted By Editoria On 4 de fevereiro de 2010 @ 9:26 In Aulas Transcritas | No Comments

Parte 1
…Hoje – não sei se eu conseguirei alcançar isso; vou tentar! – eu vou começar a colocar vocês no que se
chama – TEORIA DO ACONTECIMENTO. Qualquer leitor, do Gilles Deleuze, por exemplo, verifica que a
obra dele toda se sustenta no que eu estou chamando de teoria do acontecimento. Agora, ao colocar vocês
dentro dessa teoria – para vocês compreenderem mesmo o que é isso – é uma batalha! Então… preparem-se
pra batalha!
É realmente um movimento de pensamento cruel! Pra vocês entenderem – exatamente - o que é a teoria do
acontecimento, [nós teremos] que passar pelos gregos, passar pelos modernos… e, se eu não obtiver êxito, [a
gente retoma na] próxima aula: tem que haver êxito! Então, nós começaremos a aplicar nas práticas… – e aí
vocês vão verificar o que vai acontecer. Eu não acredito que eu consiga passar a teoria do acontecimento
numa única aula – vamos ver se eu consigo, não é? Eu vou me esforçar pra isso!… Se eu não conseguir – eu
acredito que na aula que vem a gente feche.
O que eu pediria a vocês é muito simples: quando eu começar a minha explicação, se eu for obscuro, vocês
não deixem passar. Ninguém deixa!
É evidente que em determinados momentos da explicação pode aparecer uma obscuridade – eu posso
colocar mal! Aí, se vocês não entenderem bem, vocês coloquem – porque todo o movimento que eu estou
fazendo é pra passar uma teoria do acontecimento: é isso que eu estou visando nesta aula.
Então, vamos começar! Eu vou usar – indistintamente - seja o que for necessário pra vocês compreenderem:
um filósofo, outro filósofo… – qualquer coisa! – desde que, com isso, eu possa levar vocês à compreensão.
Então, nós vamos começar. Tá?
Essa aula vai ser uma aula realmente filosófica! Por isso, eu vou ser muito lento: lento e calmo!
*
Um filósofo do século XVII – chamado Leibniz – fez o que se chama uma teoria da proposição. (Não é
preciso já saber o que é proposição – daqui a pouco a gente vê isso; não tem problema!) Em todas as
proposições – onde quer que haja proposições – necessariamente aparece um sujeito da proposição, um
predicado da proposição, e – entre o sujeito e o predicado – o verbo ser na terceira pessoa do singular.
Então, uma proposição é – “Esta mesa é bonita” – “A casa é feia” – “Regininha é da USP” – (Certo?) Um
sujeito, um predicado e o verbo ser - necessariamente o verbo ser – na terceira pessoa do singular – ou seja:
é. (Certo?) O que mostra que o verbo ser não está nem no passado nem no futuro: ele está no presente.
Bom. O problema da proposição é lançado – em primeiro lugar - em cima do su-jei-to. A questão é:
- Quem pode ser o sujeito da proposição?
Notem que sujeito da proposição pode ser muitas coisas. Eu posso dizer: “O homem é bonito” – neste caso,
o sujeito é… O homem. Eu posso dizer: “O animal é um ser vivo” – neste caso, o sujeito é… O animal. Ou
eu posso dizer: “A Regininha é branca” – neste caso, o sujeito é… A Regininha.
Leibniz quer saber se pode haver um sujeito da proposição que – em momento nenhum – possa ser
predicado.
- O que quer dizer isso?
Na hora em que eu digo: “O homem é bonito”, o sujeito é homem. Mas eu posso dizer: O Robertinho é
homem. E, nesse momento, o sujeito da proposição que era homem - tornou-se um predicado. Entenderam
a questão?
- Qual é a questão do Leibniz?
A questão dele é verificar se há algum sujeito da proposição que, em momento nenhum, possa ser predicado.
(Certo?) E o sujeito da proposição, que em momento nenhum pode ser predicado, chama-se – singularidade.
Por exemplo – tudo aquilo que puder ser apontado com o dedo. Ou, de outra maneira, todos os indivíduos:
“Regininha é branca”, quer dizer que Regininha ou Cláudia, Robertinho, Luiz, esta mesa, este maço de
cigarros… só podem ser sujeitos, mas – em momento nenhum – podem ser predicados. Porque eu posso
dizer: “Luiz é homem” – mas não posso dizer: “Robertinho é Luiz”. Ou seja: esse sujeito não pode virar
predicado. (Vocês entenderam?) Isso se chama “o último sujeito”. O último sujeito é aquele que –
simultaneamente - é uma realidade existencial.
Vocês não fiquem me olhando com essa cara – [por gentileza]. Eu sei que muitos outros entenderam. O
último sujeito é uma realidade existencial. Porque “O homem é bonito”, vocês já aprenderam que “O
homem” pode ser transformado em predicado. E O homem não é uma realidade existencial. Realidade
existencial são os indivíduos. Então, o indivíduo - que é o último sujeito - é a única realidade existencial.
Eu não vou falar mais, eu vou esperar as perguntas!…
Alº.: —
Cl.: Mas é isso que eu estou dizendo!… O último sujeito é da ordem lingüística, mas recobre algo da ordem
existencial. Por isso, o último sujeito também é chamado de SUBSTÂNCIA PRIMEIRA. Porque o último
sujeito tem uma realidade existencial. (Deu para entender?)
(Não há pressa! Não adianta ninguém ficar com pressa… – nós vamos ter que entender, vai ter que ter
calma!)
Vamos, E–, qual é a dúvida que você teve?
Alª.: —–
Cl.: Realidade existencial? É a coisa mais simples!!! É aquilo que e-xis-te. Porque é evidente que “O
homem” não tem nenhuma realidade existencial!? Ou alguém já se encontrou “O homem” na rua? Não! Nós
só encontramos ” este homem”. Então, último sujeito é aquele que recobre a existência. Ou: o último sujeito
é aquele que aponta para o real. É uma designação na ordem da linguagem. Uma designação na ordem da
linguagem – [que] aponta para o real, entenderam?
Então, quando eu tiver falando em proposições, eu vou sempre colocar como sujeito das proposições, o
último sujeito, que é – simultaneamente - a SUBSTÂNCIA ONTOLÓGICA. Vejam se entenderam essa
palavra — substância ontológica. É muito simples! O último sujeito é aquele que tem realidade
independente do discurso. É o chamado – extra -discursivo: aquele que tem realidade extra-discursiva.
Então, o último sujeito é simultaneamente uma substância primeira. (Entenderam?)
(Meus filósofos da UERJ – todos entenderam? P–, R–, T–, L–, entenderam?)
Todo mundo entendeu, então, o que é o último sujeito, não é? Então, já sabemos o que é o último sujeito: o
último sujeito é – simultaneamente - uma realidade ontológica. (Certo?) Então, é o momento em que a
realidade existencial e a realidade do discurso fazem balé – se juntam! (Tá certo?)
Agora: na teoria das proposições há sempre um sujeito e um predicado. E o que liga o sujeito ao predicado é
o verbo ser na terceira pessoa do singular. Logo, o verbo ser - na teoria das proposições – tem função
copulativa. (Entenderam?) A função do verbo ser é apensa co-pu-la-ti-va - liga o sujeito ao predicado.
(Certo?)
(Entenderam? Todo mundo entendeu?)
Agora: na hora que eu faço uma proposição… Eu vou fazer uma proposição agora… Olhem a proposição
que eu vou fazer… Mauri – posso chamar Mauri de último sujeito? Posso, porque Mauri é uma realidade
ontológica. (Certo?) Eu vou dizer duas coisas sobre Mauri: “Mauri é homem” e “Mauri é branco”. (- Deixem
de lado!)
Agora, vejam bem: essa tese diz que – no uso do discurso – nós somos capazes de produzir o conceito. Nós,
os sujeitos humanos – na ordem do discurso – produzimos o CONCEITO.
- O que é um conceito?
Eu vou dar uma definição negativa do conceito. O conceito é – no discurso – tudo aquilo que não for o
último sujeito, o verbo ser, e as entidades de ligação. O conceito são, no discurso, as espécies e os gêneros -
O homem, O branco, O cachorro, O verde, O amarelo, O pesado… (Estão entendendo?)
- O último sujeito é um conceito? Não!
- O verbo ser é um conceito? Não!
O conceito são as ENTIDADES GERAIS. O homem – é uma entidade geral. O branco – é uma entidade
geral, A cadeira – é uma entidade geral. Então, o conceito são as entidades gerais discursivas. (Entenderam?)
Olha lá, P—. Pegou mesmo? T—? Certo? Atenção! “Mauri é homem”. Cadê o conceito? Homem, certo?
Entenderam?
Então, na hora que eu produzo um conceito – “O homem”, “A cadeira”, “O verde”, “O branco” – ele, o
conceito isolado, não é verdadeiro, nem falso. Um conceito isolado não é nem verdadeiro nem falso – é
apenas um conceito. Mas na hora que eu coloco o conceito na proposição. .. Logo: “Mauri é homem”- há
uma diferença entre dizer: “O homem” e “Mauri é homem” Na hora que eu digo: “O homem” – é o conceito
isolado; não é verdadeiro, nem falso. Na hora que eu [insiro] o conceito na proposição; pelo fato de ele estar
na proposição – ele é verdadeiro ou falso.
O conceito isolado chama-se CONCEITO. O conceito na proposição ( Atenção! Isso aqui é
importantíssimo!) chama-se ATRIBUTO.
Mauri - último sujeito; é - verbo ser, verbo copulativo; homem - atributo.
Então, a palavra homem pode ser conceito? Pode, quando estiver sozinha. Pode ser atributo? Pode, quando
estiver na proposição. (Entenderam?)
- Entenderam o que é o conceito?
O conceito se transforma em atributo, no momento em que o conceito está na… (Als.: Proposição!) E toda
proposição é verdadeira ou falsa.
- Posso dar por entendido?
Então, como é que se chama o conceito na proposição? Als.: Atributo.
Agora eu vou produzir duas proposições: “Mauri é homem” e “Mauri é branco”.
- Homem é o quê? Atributo!
- Branco é o quê? Um atributo!
Agora, vocês vão ver que, no reino do atributo, existem dois tipos – o atributo essencial e o atributo
acidental. Homem - é o atributo essencial do último sujeito “Mauri”. E branco - é um atributo acidental do
último sujeito “Mauri”. Logo, o campo do atributo se divide em essencial e acidental.
(Eu vou parar e esperar! Vejam se vocês entenderam!)
- Quantos atributos? Dois! Essencial e acidental. (Certo?)
O atributo essencial é aquele que dá a essência do último sujeito. .. ou a essência da substância primeira.
(Certo?) E o atributo acidental é aquele que dá os acidentes da substância primeira ou do último sujeito.
[São as chamadas] CATEGORIAS. Todo último sujeito possui a sua essência e vários acidentes.
Consegui! Consegui!!!
Lembrem-se da distinção de atributo para conceito, hein? O conceito isolado – ou – como se diz em filosofia
– o conceito “enlaçado”. E nlaçado é o conceito ligado ao verbo ser – vira atributo. Desenlaçado, quer dizer
que ele não está ligado ao verbo ser – é apenas um conceito.
- Onde há o verdadeiro ou falso?
Apenas na proposição. Só nela que o verdadeiro ou falso aparecem. (Certo?) Quando eu produzo uma
proposição em que o atributo é essencial – querem me dar um exemplo de atributo essencial, por favor?
“Mauri é homem”. Vou dar outro exemplo de atributo essencial: “Esta mesa é mesa”. Porque a segunda
mesa de “esta mesa é mesa” – que é o conceito enlaçado, logo o atributo – é a essência desta mesa. O
atributo essencial – na proposição – constitui o que se chama PROPOSIÇÃO ANALÍTICA. E o atributo
acidental, constitui a PROPOSIÇÃO SINTÉTICA – no sentido de que os acidentes ou atributos acidentais
podem variar, sem que se modifique o atributo essencial. Na verdade, desaparecido o atributo essencial –
desaparece o último sujeito.
( Olha - eu nunca ouvi uma explicação tão clara, em toda a minha existência filosófica! Só não compreende
quem não quiser!)
(Tá aberto pra perguntas – já vou abandonar! Vou abandonar! Não tenho mais o que dizer aqui…)
(Bom. Abandonei! Agora, atenção para o que eu vou dizer:)
Aparece uma escola de filosofia – não importa o nome dela – que chega à conclusão que as únicas coisas
que existem são os últimos sujeitos – não existe mais nada! (Certo?) Só existem os últimos sujeitos!
Então – para essa escola de filosofia – esta mesa existe? Este isqueiro? E la (aponta uma aluna) existe?
Todos os últimos sujeitos existem! Ele chama os “últimos sujeitos” de CORPOS. Então – para essa escola –
só existem os corpos, (certo?)
(Não sei se está claro!?)
Essa escola tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso. Se ela tem a preocupação de produzir o
verdadeiro e o falso – o que ela tem que fazer? Produzir… proposições!.. . Ela tem a preocupação de
produzir o verdadeiro e o falso… – o verdadeiro e o falso passam por onde? Pelas proposições!
Então, ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso. Mas essa escola – nós não sabemos nem
por que – não vai trabalhar com essências e acidentes. Logo – ela não vai querer trabalhar com atributos
essenciais e atributos acidentais.
- Por quê? Porque eles não gostam de essências e acidentes???
Não! Não!
Alguma coisa diferente está acontecendo aqui… Porque – surpreendentemente - essa escola vai dizer que
um corpo, durante toda a sua existência é – absolutamente igual a si próprio. (O que é uma maneira
incrível de se ver – e que eu vou ter que lançar e deixar pra explicar mais pra frente, pra vocês
entenderem…) Eles vão dizer que um corpo não recebe acidentes diferenciais – conforme a outra escola
havia colocado: aquele corpo é sempre a mesma coisa!
(Essa explicação não foi boa: foi inteiramente obscura… Logo, eu vou voltar à explicação dessa escola,
certo? Mas antes, vamos fazer uma revisão nos nossos saberes…)
Qual é o objetivo dessa escola? Produzir o verdadeiro e… (Als.:) o falso! E só se produz o verdadeiro e o
falso por… (Als.:) Proposições!
As proposições são sujeito, verbo ser e atributo, (certo?) Isso são as proposições. Essa escola então
estabelece que ela não vai trabalhar com o verbo ser. Ela não vai trabalhar com o verbo ser, e vai colocar
que – em vez de substantivos e adjetivos – os atributos serão os verbos.
Vou fazer um ponto – e explicar tudo outra vez! Olha, ninguém precisa sofrer - eu garanto que vocês vão
entender! Agora… – que é difícil, é.
- Qual é a questão dessa escola?
Produzir pro-po-si-ções, (certo?)
Segunda questão da escola:
Não trabalhar com o verbo ser: não trabalhar com o verbo copulativo.
Mas – ela tem uma preocupação de produzir atributos. E os atributos que ela irá produzir não serão com
substantivos e adjetivos.
- A primeira escola produz atributos com substantivos e adjetivos? Sim! A segunda produz atributos com o
verbo no infinitivo… ou na forma gerundial – sem o verbo ser.
(Vou parar um instante. Vou descansar dois minutos, que os rostos não estão bons… O que você achou, O–?
E você, P–?)
A única coisa que importa aqui, é que essa escola se preocupa em produzir proposições: logo, se preocupa
em produzir o verdadeiro e o falso… (certo?) Ela vai produzir proposições, logo: vai produzir atributos –
mas esses atributos não serão ligados pelo verbo ser.
- Quantos tipos de atributos a primeira escola tem?
Dois: essencial e acidental. Nessa segunda escola, os atributos não vão ser nem essenciais nem acidentais:
vão ser os acontecimentos – e o acontecimento é aquilo que não se diz nem pelo substantivo nem pelo
adjetivo; diz-se pelo verbo na forma gerundial. Então, nessa escola, vão acontecer coisas desse tipo: eles
nunca dirão “Esta árvore é verde”; eles dirão: Árvore verdejando. Eles nunca dirão “O homem é alto”; eles
dirão: “O homem altante. ” (Vejam se estão entendendo…)
O que eles estão fazendo? Eles estão querendo produzir um duplo rompimento. Rompimento com o verbo
ser e rompimento com os atributos essencial e acidental – gerando a idéia de ACONTECIMENTO.
(Eu acho que eu não fui bem, hein? O que você achou, P–? Aqui é muito simples! Ninguém precisa fazer
teoria muito difícil…)
- Neste momento da aula, quantos atributos existem?
TRÊS: essencial, acidental e acontecimento.. . (Certo?) São os três atributos possíveis! Se vocês procurarem
na história da filosofia outros tipos de atributo, vocês não vão encontrar! Só há esses três. Quais? Essencial –
que é a PROPOSIÇÃO ANALÍTICA. Acidental – que é a proposição sintética. E agora tem outro tipo de
atributo – que é o ACONTECIMENTO.
O acontecimento exclui da proposição o verbo ser. Exclui o verbo ser. Então, sempre que vocês encontrarem
teóricos do acontecimento, vocês não irão encontrar o verbo copulativo. (Certo?)
Agora vamos ver três proposições, com três atributos diferentes:
“Mauri é branco”; “Mauri é homem” e “Mauri sentado”. Sentado é o acontecimento. (Certo?) O atributo da
segunda escola se diz com o verbo na forma gerundial.
(Agora eu vou esperar um instante para as possíveis perguntas! Já dá pra colocar alguma… Já dá! Se não
der… – a explicação não está boa!)
Al.: — o acontecimento…
Cl.: Não, não! Se tiver que ir por aí, é numa fase muito posterior. Agora, não! Agora, o que se tem que fazer
é uma distinção de três atributos – essencial, acidental e acontecimento. (Eu vou trabalhar fundo, nisso daí,
com vocês! Fundo nisso! Vou começar J
- O que eles excluem?
Eles excluem o verbo… ser. (Mas vocês estão sem ênfase!)
Vejam bem: na hora em que eu estou na primeira filosofia o verbo ser está presente? Eu digo “Mauri é
homem” e digo “Mauri é branco”. O verbo ser significa que o ser pode ser a-ná-lo-go. O ser pode ser
acidental e pode ser essencial. A primeira tese diz que quando nós produzimos a proposição, produzimos o
verbo ser como essencial, e o verbo ser como acidental – isso se chama SER ANÁLOGO: o ser é ora
ACIDENTAL, ora ESSENCIAL.
(Muito bem! Vou tomar como mediamente entendido. Eu volto. á?)
Na outra teoria, na proposição tem o verbo ser? Não tem o verbo ser! Esses outros teóricos vão dizer que o
ser é o último sujeito. Atenção! Eles deslocaram: já não é mais o verbo. O ser é o último sujeito. Então, na
segunda teoria – vejam bem! Mauri é corpo? É… Mauri é corpo!… (fim de fita)

Parte 2
…Porque ser é apenas o último sujeito. (Não foi bem. Bambeou…)
- Na segunda teoria quem é o ser? Na segunda teoria esta mesa é ser? E, na primeira teoria, o atributo é ser?
Na segunda teoria, só o último sujeito é ser. O atributo passa agora a se intitular não- se r. O atributo passou
agora a se intitular não - ser. (Prestem atenção que nós vamos em frente!)
- Então, quando eu digo: “Maurício sentado”, o que é que eu fiz? Eu disse ser e não - ser. Porque o
acontecimento ou atributo, na segunda teoria, não é ser. Por um motivo muito simples: porque na segunda
teoria ser é apenas o corpo -e “sentado” não é corpo. Então, na segunda teoria, os atributos chamam-se não -
ser es. Se os atributos chamam-se não - ser es, o último sujeito chama-se ser. Se o último sujeito se chama
ser, o ser são os corpos e os atributos não são corpos. Logo – são INCORPORAIS. Está aparecendo a
famosa TEORIA DOS INCORPORAIS.
O atributo, na segunda teoria, não é um corpo -é um incorporal.
(Eu vou dar um ponto, pra descansar. Eu não sei se eu fui feliz… Vocês foram bem aqui?)
(Atenção - Atenção: )
- Na primeira teoria, quantos atributos existem?
Dois. Olhem que interessante!
- Quais são os dois atributos?
Essencial e acidental. O atributo essencial (olhem, que isso é fundamental, hein?) é um SER DE RAZÃO.
O atributo essencial só existe na razão. Homem não existe no real. Só na razão. E o atributo acidental é algo
que acontece no corpo da substância primeira. O atributo acidental também é um corpo. O atributo essencial
é um ser de razão… e o atributo acidental é um corpo no corpo da substância primeira. Agora, na segunda
teoria, o atributo não é nem um ser de razão nem um ser real – é um NÃO -SER, um irreal, um incorporal.
[Claudio fica em pé e pergunta:]
- Isso aqui é o quê?
Isso aqui é um corpo! Olhem “eu andando”. Eu estou andando. O corpo do Claudio andando. Se vocês
vierem e me tocarem, vocês vão tocar no meu corpo. Mas no “andando”, não. “Andando” é um incorporal.
(Entenderam?) Nessa teoria, os atributos são…? Incorporais! (Entenderam?)
- Qual é a diferença do atributo essencial para o atributo acidental?
Um é um SER DE RAZÃO, o outro é REAL. Corporal, real. Agora: a segunda teoria. O atributo da segunda
teoria não é um ser de razão. Ele é real. Mas é um real incorporal. Apareceram, nessa segunda teoria, dois
tipos de reais -o corpo e o incorporal.
(Olhem, eu vou explicar pra vocês num parêntesis: Isso gera uma nova física, uma nova metafísica, uma
nova biologia, uma nova teria das diferenças, uma nova história… Tudo isso eu quero que vocês entendam!
Não há pressa. Qualquer pergunta que vocês fizerem, eu estou aqui pra responder.)
Nós temos uma física, aqui. Temos uma física. O atributo essencial é um ser de razão. O atributo acidental é
um real corporal. E o atributo acontecimento é um real incorporal.
Nós descobrimos uma coisa fantástica! Na hora que nós nos libertamos do verbo ser copulativo, nós
descobrimos a existência de um novo tipo de real -o real incorporal. (Pra vocês ganharem uma força e
quererem fazer alguma coisa com isso… – é exatamente isso que é a obra do Lewis Carroll: Alice no país
das maravilhas! A dificuldade que nós temos de entender Alice no país das maravilhas. .. é que os atributos
– no país das maravilhas - não são essenciais, nem acidentais: são acontecimentos. Por isso que nós não
entendemos —–. São esses incorporais. (Então, vamos tentar trabalhar.)
(Agora, vocês tomem um café, enquanto eu descanso um pouquinho).
Al.: –? –
Na primeira parte, quando eu falei em último sujeito, lembrem-se que eu identifiquei o último sujeito a
existente. Isso que eu fiz! Então, último sujeito é – simultaneamente – aquilo que existe. “Mauri”, “esta
mesa”… (certo?) Então, esse último sujeito nos conduz para o PROJETO ONTOLÓGICO. Ontológico é
aquilo que existe: tem realidade existencial. Na segunda teoria, eu identifiquei a realidade existencial ao
corpo. Então, o que existe são os corpos. No momento em que eu disse que aquilo que existe são os corpos, e
eu me preocupo agora com esses corpos, significa que eu estou fazendo uma física – porque a física é aquilo
que cuida dos corpos. (Acho que ficou claro, não foi? Muito bem!)
Eu, agora, estou preocupado em fazer uma física. E uma física é a física dos corpos. Então eu vou fazer isso.
Então, eu pego os corpos que existem. Não importa qual! Este isqueiro – por exemplo – é o último sujeito da
proposição e uma existência ontológica. Logo, é um corpo que existe. Este corpo, que existe, tem
necessariamente um atributo essencial. O atributo essencial é o que difere – atenção para o que eu vou dizer
-é o que difere este isqueiro deste copo. Porque este copo e este isqueiro têm atributos essenciais diferentes.
Mas agora, se eu pegar este cigarro e este [outro] cigarro -estes dois cigarros têm o mesmo atributo
essencial. (Entenderam?) Eles vão ser diferentes pelos atributos acidentais. Este aqui [copo] difere deste
outro [isqueiro] por atributos essencias. Mas este [um cigarro] difere deste outro [cigarro] por atributos
acidentais. (Entenderam?) São os atributos acidentais que vão fazer a diferença de um para o outro. (Certo?
Muito bem!)
Aqui está “este isqueiro”. Este isqueiro é alguma coisa real. Ele tem uma realidade. Nítida. Existencial.
Plano Ontológico. Tem uma realidade! A segunda teoria diz que este isqueiro – enquanto ele existir -tem
com ele o seu atributo essencial. E a primeira teoria vai confirmar isso. Ou seja: todos os seres que existem
carregam consigo, durante toda a sua existência, o seu atributo essencial. (Certo?) Então, estes dois cigarros
carregariam com eles os seus atributos essenciais ao longo de sua existência. E a segunda teoria diz que um
corpo, que é o último sujeito, que é existência real, ele só tem o seu atributo essencial O que eles querem
dizer com isso? Que um corpo – ao longo da sua existência – não recebe em outro corpo o atributo essencial.
Que ele mantém – ao longo de sua existência – o seu atributo essencial – sem misturar o seu atributo
essencial com o atributo essencial de outro corpo. Seu atributo essencial não varia. Se você [quiser] variar o
atributo essencial de um corpo, você o destrói. (Certo?) E os atributos essenciais não se misturam. Este copo
mantém o seu atributo essencial; e este cigarro mantém o seu atributo essencial – ao longo da existência de
todos eles. (Entenderam?)
Então, prestem atenção:
Aqui está este cigarro, em cima da mesa. Ele tem com ele o seu atributo essencial? Tem. Eu passei para a
minha mão. Ele continua com o seu atributo essencial? Sim. Então, nós descobrimos alguma coisa. A
essência deste cigarro -não importa onde ele esteja -é sempre a mesma. (Vejam se entenderam) Ela é sempre
a mesma. Pouco importa aonde ele entrar. Pouco importa com que este cigarro se misturar. Ele mantém o
seu atributo essencial onde ele estiver: ele está aqui; ele está ali; ele está acolá – é sempre o mesmo atributo
essencial. (Posso dar por entendido? O que vocês acharam?)
Vamos ver outro exemplo:
Eu pego um cavalo. Aí levo o cavalo para o Jóquei Clube. Ele vai correr (ele não corre no JC?). Ou então eu
ponho esse cavalo pra puxar carroça. Num lugar ele corre; noutro, puxa carroça. Esse cavalo – enquanto
corre e enquanto puxa carroça -tem o mesmo atributo essencial? Sim, tem o mesmo atributo essencial: o
atributo essencial não muda. (Está certo?) Mas… – alguma coisa muda. O que muda é o acontecimento.
(Vejam se entenderam.) É o mesmo ser, o mesmo corpo, a mesma essência; mas o que está se modificando
nele – são os acontecimentos. Os acontecimentos são incorporais. Então, o que muda, o que é devenir, o que
é histórico, o que é temporal – é o incorporal.
QUESTÃO: O cavalo no Jóquei. O cavalo puxando a carroça. Ele é simultaneamente o mesmo e outro. Ele é
o mesmo no seu atributo essencial… Mas é outro, no acontecimento. Então, o acontecimento, o não -ser, o
incorporal, é que é a história do cavalo. (Entenderam?) Então, o que eu estou dizendo pra vocês, é que o
acontecimento é que faz as modificações. (Eu acho que ficou perfeitamente claro… mas se vocês
perguntassem, eu teria mais vias para explicar!)
É radical o que eu estou dizendo. Eu não estou dizendo de brincadeira. Isto é radical. Este copo. Se eu pegar
este copo e jogar no mar… ele mantém o mesmo atributo essencial que ele tinha? (Entenderam?) Ele
mantém o mesmo atributo essencial: é o mesmo copo! Mas aconteceu um negócio diferente. O diferente é o
acontecimento. (Certo?) As diferenças passam para o campo dos acontecimentos. Então, na hora em que
você falar do corpo – você está produzindo um discurso da identidade. O corpo é o mesmo. A diferença – é o
acontecimento!
(Vamos ver se vocês conseguem me ajudar nas perguntas? Ninguém pense que isso que eu estou explicando
agora é coisa simples. Olhem, dificilmente vocês encontrarão uma explicação dessas. Não é nenhum orgulho
meu, não. Não se encontra isso. Então, é realmente difícil o que eu estou dizendo.)
Eu estou dizendo pra vocês que há alguma coisa que é a mesma sempre -é o atributo essencial do corpo. Mas
há algo que é do plano da diferença -é o acontecimento. O que nos leva, então, a entender – que o corpo só
pode ser pensado pela diferença. Porque o corpo está sempre envolvido em um acontecimento.
Al.: –? –
Cl.: Não, não. A questão não está aí. A questão é muito simples! Você já vai matar!? Você tem todo o plano
pra matar!!! Você viu que o atributo essencial na primeira teoria é um ser de razão. O atributo essencial na
segunda teoria tá no corpo. Não é da razão: é do próprio corpo. Não sei se está claro!?… É o caminho que
você tem que fazer: você tem que tirar o atributo essencial da razão e colocar no corpo. Porque é o que eles
estão fazendo. O atributo essencial é o próprio corpo. O corpo nunca sai da sua essência. Mas ele não pára
de variar nas diferenças do acontecimento. (Certo?)
É exatamente o acontecimento que é o plano da história. Então, vocês vão ver. Nós teríamos em diferentes
encontros históricos, diferentes acontecimentos. Diferentes maneiras do corpo se conduzir… – embora seja o
mesmo corpo.
Tá começando a surgir, não é? O acontecimento é uma teoria de luta terrível pra nós. Muita luta mesmo, pra
nós a entendermos bem. Mas o que vocês têm que marcar agora – e isto é uma radicalidade muito difícil para
quem não estuda filosofia, porque são muito poucos os que estudam, são muito poucos…, é vocês aceitarem
o que eu estou dizendo:
O corpo é sempre o mesmo. A sua variação é o acontecimento – que é um incorporal. Então, o que vai
acontecer agora, é que todos os corpos estão envolvidos em acontecimentos. O acontecimento torna-se -o
que há de mais íntimo do corpo. O acontecimento é o que há de mais íntimo do corpo. Porque o corpo é
sempre o mesmo - mas com as flutuações do acontecimento; sem perder o seu atributo essencial.
(Eu gostaria que vocês falassem um pouco, viu?)
Al.: A essência é um invariante?
Cl.: A essência é um invariante. O problema… o que você perguntou é muito parecido com o que o Chico
colocou. É um deslocamento que eu ainda não fiz para vocês, apenas lancei, mas vocês já têm conhecimento
das questões.
É que, na primeira teoria, a essência é da razão. Na segunda teoria, a essência está no corpo. O corpo
conduz consigo próprio a sua própria essência -mas ele varia no acontecimento.
(Eu, agora, vou fazer uma redução pra vocês. Olhem que coisa interessante:)
Esse corpo que está sendo pensado – olhem se não é isso! – vejam se ele não se parece com uma semente
-que ora se torna árvore, ora se torna flor, ora se torna folha, sem deixar de ser coisa. É o mesmo ser -nas
suas múltiplas variações. Ou seja: é uma teoria do ser germinativo. O ser é um gérmen, que não pára de se
modificar pelos seus acontecimentos. Trazendo com ele a –?–.
(Eu acho que alguma coisa está se passando, não é?)
Então, lembrem-se que o que eu estou dizendo é essa idéia muito difícil de aceitar -que o Hegel (eu não vou
dar Hegel hoje), com a dialética dele, inclusive, não aceita -de que um corpo é absolutamente sempre a
mesma coisa. É isso que é difícil de entender. Porque nós não paramos de ver as modificações corporais. Por
exemplo, eu era pequeno, agora sou grande; eu não tinha cabelo branco, agora tenho cabelo branco… Vocês
não param de ver modificações nos corpos. Mas essas modificações -é essa que é a tese -são modificações
incorporais. Porque o corpo é sempre o mesmo. É isso que eu tenho que mostrar pra vocês.
(Acho que foi bem, não é? Está bem alinhado aqui.)
Vejam o que eu vou dizer: na minha vida, há momentos em que eu sou o avô dos meus netos. Outros
momentos em que eu sou irmão do meu irmão. Em outros, sou professor dos meus alunos. Noutros, sou
aluno dos meus professores. Cada elemento desses é um incorporal -pai, avô, aluno, professor, tudo isso são
os incorporais: os acontecimentos que ocorrem conosco. Os acontecimentos não são modificadores da
minha essência. A essência é a mesma -os acontecimentos variam.
(Posso continuar? Vocês acham que eu posso? Está ficando muito difícil?)
Na primeira teoria – das essências – a essência é um ser de razão? (Não foi isso que eu disse?) O ser de razão
é uma entidade lógica. Ser de razão e entidade lógica é a mesma coisa. Na outra teoria a essência está no
corpo? E esse corpo se modifica pelos acontecimentos? (Certo?) Na segunda teoria a essência é POTÊNCIA.
Na primeira é uma estrutura lógica, na segunda é uma potência. Todos os corpos têm potência. Isso
modifica a teoria do poder. O poder não é alguma coisa que uns têm -poucos têm (não é?), como se diz – e
muitos querem. Poder é aquilo que todos os corpos têm – porque a potência é a essência do corpo. A
essência do corpo é a potência de germinar. A essência do corpo é a potência de produzir acontecimentos.
Por isso, o corpo consegue efetuar a sua vida de uma maneira superior – a partir do instante em que ele
executa mais acontecimentos. Produzir experiências é o segredo do corpo. É o segredo da vida. O segredo da
vida é a experimentação. É a produção dos acontecimentos. (Não sei se vocês entenderam aqui. Certo?)
(É a coisa mais fácil de entender:)
Se um corpo é potência -não importa o acontecimento -é a mesma potência, a mesma essência, o mesmo
corpo. Esse corpo vai ser envolvido por acontecimentos o tempo inteiro. Não importa qual, certo? Aqui vai
passar uma ética: não acuse os acontecimentos: potencialize-os – porque nós não paramos de acusar os
acontecimentos. O acontecimento só se explica pela potência que você passa nele. O acontecimento se
explica pela potencialização que o corpo dá a ele. Você pode dar a um acontecimento mil potências
diferentes. Os estóicos -que são os responsáveis por essa teoria, Nietzsche também -não param de dizer: seja
digno do seu acontecimento! (Entenderam?) Não é uma resignação, não é nada disso! Não é resignação! Mas
é potencializar o seu acontecimento ao ponto de que qualquer acontecimento da sua vida permita a você ser
germinativo.
Vocês sabem que a religião, as forças retrógradas da religião, não pararam de acusar o acontecimento. Vou
dar um exemplo pra vocês. Quando vocês pegam as leituras das teogonias, por exemplo. Nós sabemos –
pelas teogonias – que os deuses trouxeram para o caos ordem e regularidade. Havia o caos. Os deuses
vieram e deram regularidade ao caos. Apareceram as quatro estações, apareceram o tempo das plantas, o
tempo das flores, a ordem na cidade, a saúde, etc. Mas junto a isso, vinham também os furacões, os
terremotos e as epidemias. E, como os deuses eram os responsáveis por organizar o caos, evidentemente que
os pensadores já diziam: quem produz os furacões os terremotos e as epidemias são também os deuses. E
concordaram com isso, mas depois disseram que os deuses produziram terremotos, furacões e epidemias
para punir e castigar a maldade dos homens. Nós começamos a jogar MORALIDADE em cima dos
acontecimentos. (Entenderam?) O que eu estou explicando para vocês é: tirem a moral dos acontecimentos e
coloquem uma ÉTICA. Ética é a potência.
Nessa tese que eu estou passado para vocês, não há crime quando uma aranha come uma mosca -porque a
aranha comer a mosca é germinativo pra ela. (Entenderam?) Tirar da Natureza o maior crime que se fez
contra ela, que foi jogar – em cima dela – a moral!
Aqui eu estou passando pra vocês uma teoria de que a essência é igual à potência e que a potência é
germinativa. E ser germinativa é efetuar os acontecimentos. PONTO.
(Foi bem, não é?)

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