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CÂMARA DOS DEPUTADOS

DEPUTADO FEDERAL TÚLIO GADÊLHA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA.

TÚLIO GADÊLHA SALES DE MELO, brasileiro, inscrito no CPF sob nº 060.162.984-


17, inscrito no RG nº 7.788.203 SDS/PE, Deputado Federal pelo PDT/PE, com domicílio
profissional no Gabinete 360 - Anexo IV - Câmara dos Deputados, Palácio do Congresso
Nacional, Praça dos Três Poderes, Brasília - DF, Brasil - CEP 70160-900 e com endereço
eletrônico em: contato@tuliogadelha.com, vem, diante de Vossa Excelência, com fundamento
especialmente nos artigos 127, caput, art. 129, II e III, todos da Constituição Federal, e no Art.
3º da Lei Complementar nº 40, de 14 de dezembro de 1981, ofertar a presente

REPRESENTAÇÃO

em face do Senhor MILTON RIBEIRO, Ministro da Educação, o que faz com espeque nos
pontos de fato e de Direito doravante articulados:

I– DOS FATOS

Já não é novidade que o modus operandi da política aparelhada pelo Governo Federal
é o de promover acintes diretos a todo o espectro de direitos sociais da população, que foram
conquistados de forma árdua e evolutiva no palmilhar dos anos. O direito à educação (art.
205, da Constituição Federal de 1988) tem sido, nos últimos anos, o que sofreu mais ataques
pela pasta que, em tese, teria a missão precípua de fazer valer esse direito sacrossanto, de
forma plena e satisfatória, nos altiplanos da vida em sociedade.

A política de desmonte se inicia com o Decreto nº 9.741/2019, que determinou o corte


do percentual de 30% (trinta) por cento no orçamento geral dos institutos e das universidades
federais, sob o argumento de que as instituições estariam a promover “balbúrdias” nos campi.
Não constitui demasia rememorar que o corte nas verbas destinadas aos institutos e às
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universidades federais feriu, a um só tempo, diversos direitos fundamentais albergados pela


Constituição Federal. Sob as vestes de paladinos da moralidade e dos bons costumes, atingiu-
se alicerces constitucionais imperiosos para a construção de uma sociedade mais justa, livre,
democrática, desenvolvida e igualitária.

Em paralelo a esse arquétipo arrefecedor do direito à educação, é indene de dúvidas


que o Ministério da Educação impõe balizas ideológicas e religiosas na condução das políticas
públicas inerentes à pasta, de modo a agredir os princípios dispostos no art. 206 da
Constituição Federal de 1988, dentre eles os seguintes: liberdade de aprender, ensinar,
pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de ideias e de concepções
pedagógicas; gestão democrática do ensino público; e a garantia de padrão de qualidade.

Para além de todo esse panorama caótico, os meios de comunicação divulgaram


conversa gravada, na qual o Ministro da Educação, o Senhor Milton Ribeiro, afirma que o
Governo Federal prioriza prefeituras cujos pedidos de liberação de verba foram negociados
por dois pastores que não têm cargo e atuam em um esquema informal de obtenção de verbas
do MEC. Eis o teor da gravação:

“Porque a minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em


segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar. Não tem nada com o
Arilton, é tudo com o Gilmar. Está entendendo, Gilmar? Sim, senhor. Ele também
escuta isso. Então, o Gilmar. Por que ele? Porque foi um pedido especial que o
presidente da República fez para mim sobre a questão do Gilmar. Apoio... Então o
apoio que a gente pede não é segredo, isso pode ser [inaudível] é apoio sobre
construção das igrejas...” 1

Os veículos informativos dão conta de que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura
têm, ao menos desde janeiro de 2021, negociado com prefeituras a liberação de recursos
federais para obras de creches, escolas, quadras ou para compras de equipamentos de
tecnologia. Todos esses recursos são geridos pelo FNDE (Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação), órgão do MEC.

1 Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/03/ministro-da-educacao-diz-priorizar-


amigos-de-pastor-a-pedido-de-bolsonaro-ouca-audio.shtml?origin=folha > . Acesso em 22 de março
de 2022.
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Contextualize-se que o excerto do áudio divulgado foi extraído de uma reunião no


MEC, onde o ora Representado falava sobre o orçamento da pasta, corte de recursos da
educação e a liberação de dinheiro para na presença de prefeitos, lideranças do FNDE e dos
pastores Gilmar e Arilton.

Ou seja, a liberação de verbas somente é feita em troca de apoio político das igrejas
e em benefício de pessoas específicas que têm ligação inquebrantável com o Presidente da
República e com o segmento evangélico. Promove-se diversos cortes nos recursos
destinados à educação, na forma estabelecida pela Carta Magna, para direcionar os aportes
financeiros para estruturas religiosas de predileção do Presidente da República e de seus
adeptos, como o Ministro da Educação, nesse recorte em específico.

Como se vê, o Ministro da Educação prioriza a liberação de verbas do FNDE para


pastores e amigos ligados ao Presidente da República, de modo que além de violar os
princípios da moralidade e da impessoalidade, cometeu, em tese, o delito capitulado no artigo
321 do Código Penal. Nesse contexto, faz-se imperioso que esta Procuradoria-Geral da
República, determine a instauração de inquérito policial para fins de investigar os fatos
narrados nesta petição (art. 102, inciso I, c, da CF/88)

II - DO DELITO SUPOSTAMENTE COMETIDO PELO SENHOR MILTON RIBEIRO


II.I- DOS CRIMES DE ADVOCACIA ADMINISTRATIVA (ART. 321 DO CP)

O crime de advocacia administrativa é crime praticado contra a Administração Pública


por funcionário público. Conforme art. 321 do Código Penal, consubstancia advocacia
administrativa o patrocínio, direto ou indireto, de interesse privado perante a Administração
Pública, valendo-se da qualidade de funcionário. Conforme a o escólio de Guilherme de
Souza Nucci, patrocinar “significa proteger, beneficiar ou defender. O objeto da benesse é o
interesse privado em conflito com o interesse da Administração Pública”.2 Tem-se, como
consectário lógico, que o funcionário público não pode utilizar-se dessa qualidade para
satisfazer interesse privado. 3

2
NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal. Vol. 3. Parte Especial. Rio de Janeiro:
Forense, 2017, p. 562.
3 JESUS, Damásio de. Direito Penal. Parte Especial. 17ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 227.
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Conforme Damásio de Jesus, o delito em espécie se consuma desde o momento de


realização do primeiro ato de patrocínio, independente de obter algum resultado ou não. 4 O
elemento nuclear do crime de advocacia administrativa é "patrocinar". Está atrelado ao
sentido de advogar, proteger, tutelar, favorecer, intermediar, pedir em favor de alguém. Em
tal delito, o funcionário público atua, em nome do interesse privado de terceiro, para que um
segundo funcionário público pratique o ato desejado pelo beneficiário.

É preciso, para que o crime reste caracterizado, que este patrocínio decorra da
facilidade de acesso que o cargo de servidor público outorga ao sujeito ativo da conduta. In
casu, resta nítido que o Senhor Milton Ribeiro vale-se dolosamente do seu cargo para
patrocinar interesses privados, quais sejam, os interesses dos pastores e do segmento
evangélico em troca de apoio político.

Não se pode permitir que o desfile transgressor perpetrado às claras pelo Senhor
Milton Ribeiro acabe sob os aplausos da impunidade, razão pela qual formula-se o presente
pedido para que esta Procuradoria-Geral da República investigue as condutas narradas nesta
petição, sobretudo diante da flagrante ocorrência do ilícito descrito no art. 321 do Código
Penal.

III - DOS PEDIDOS

Pelo fio do exposto, requer a Vossa Excelência a requisição de instauração de inquérito


policial (art. 5º, inciso II, do Código de Processo Penal), para fins de adoção de todas as medidas
necessárias à elucidação da ocorrência do crime narrado em linhas anteriores, sem prejuízo de
outros a serem apurados por esta Procuradoria-Geral da República.

Nestes termos, pede deferimento.

Brasília, 22 de março de 2022.

4 JESUS, Damásio de. Direito Penal. Parte Especial. 17ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p 229.

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