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Tocantins: Cidades e Urbanismo em Três Modelos Históricos

Napoleão Araújo de Aquino – Universidade Federal do Tocantins (UFT)

Resumo
O texto conceitua urbanismo, a partir de visões de alguns estudiosos
do assunto para, em seguida, abordar aspectos do urbanismo no antigo
Norte de Goiás, atual estado do Tocantins, tendo por base três modelos
históricos distintos, a saber: o urbanismo da mineração aurífera
(século XVIII). Nesse modelo situam-se especialmente as denominadas
cidades históricas do Tocantins. O urbanismo modernizante da Belém-
Brasília (século XX). Refere-se ao modelo de cidades surgidas com a
abertura da rodovia Belém-Brasília (BR-153), representando uma
transição entre tradição e modernidade. E, finalmente, o moderno
urbanismo de Palmas (séculos XX-XXI). Este último representa ponto
extremo no que se refere aos aspectos da modernização urbana, o que
pode ser considerado síntese, ou antítese do urbanismo tocantinense.

Conceitos de Urbanismo
Qualquer estudo sobre urbanismo não deve perder de vista sua estreita
relação com a cidade. Isto fica bem claro na definição dada pelo
mestre Aurélio, que diz ser o urbanismo “o estudo sistematizado e
interdisciplinar da cidade e da questão urbana...”. 1
É nessa perspectiva que o tema será tratado aqui, buscando alguma
referência em autores que lidam com a questão. Também deve ser dito
logo de início tratar-se de um neologismo, conforme patente nos textos
analisados. Nesse sentido, Gaston Bardet (1990) afirma referir-se a
uma nova ciência de organização das massas sobre o solo, tendo sido
batizada na França de “urbanismo”, por volta de 1910, com o
significado de “ciência do planejamento das cidades”. Para Bardet,
embora tenha surgido em lugar da Arte Urbana, o Urbanismo resultou
de um contexto histórico de expansão da sociedade industrial
capitalista de grande complexidade, portanto, trazendo também a
necessidade de complexas resoluções. 2
No mesmo sentido se expressa Françoise Choay (1992), quando diz que
este neologismo corresponde ao surgimento de uma realidade nova
situada no início do século XIX. Nesse contexto, “a expansão da
sociedade industrial dá origem a uma disciplina que se diferencia das
artes urbanas anteriores por seu caráter reflexivo e crítico e por sua
pretensão científica”. 3
Ampliando mais esta idéia vale citar Harouel (1990) que afirma ser o
urbanismo um “neologismo inventado há pouco mais de um século”,
porém abrangendo uma noção “tão velha quanto a civilização urbana”.
Segundo sua análise, esta aparente contradição “provém da própria
ambigüidade que caracteriza atualmente a palavra ‘urbanismo’”.
Segundo afirma, “a palavra ‘urbanismo’ designa efetivamente uma
realidade muito antiga que se chama também arte urbana e que se
opõe a urbanismo no sentido estrito do termo”. 4
Harouel afirma de modo eloqüente a visão do sentido que passou a ter
essa nova ciência, inclusive do ponto de vista de sua estreita relação
com a cidade e o urbano em geral, conforme o raciocínio que
desenvolve na citação a seguir. Para este autor, o termo urbanismo
passou a englobar uma “grande parte do que diz respeito a cidade,
obras públicas, morfologia urbana, planos urbanos, práticas sociais e
pensamento urbano, legislação e direito relativo à cidade”. 5

O Urbanismo da Mineração Aurífera (Século XVIII)


Ao iniciar este texto enfocando o estado do Tocantins, deve-se ter em
mente tratar de um contexto cultural com raízes históricas já bastante
recuadas no tempo, conforme já chamamos atenção em trabalhos
anteriores, como por exemplo, Aquino (2002):
Cabe destacar que esta unidade da federação, embora tenha sido
criada muito recentemente (5 de outubro de 1988 com a promulgação
da Constituição Brasileira), ainda assim não é correto afirmar-se que
“aqui tudo está começando do zero”. Até porque antes de sua criação
na lei, o Tocantins já existia enquanto Norte de Goiás e, mais do que
isto, como parte da diversidade cultural brasileira.6
Norte de Goiás urbano? É uma pergunta necessária, quando se trata de
antigo Norte de Goiás. Por outro lado não se deve perder de vista a
complexidade desta temática, com múltiplas e diversificadas
possibilidades de abordagens, e, até mesmo, de critérios de
classificação, variando no tempo e no espaço, conforme Palacin (1990),
enfocando a antiga Boa Vista do Tocantins, atual Tocantinópolis,
quando escreve acerca dos parâmetros do IBGE para a classificação de
rural e de urbano:
A terminologia do censo, ao denominar como urbanos núcleos de
população de trinta casas, pode dar lugar a um erro de interpretação.
Obscurecer o peso esmagador da ruralidade. De fato, para estabelecer
uma divisória no continuum rural urbano, pode se aceitar um critério
quantitativo ou um critério qualitativo, o primeiro fixando um limiar
mínimo de número de habitantes – que varia de época para época e de
região para região – e o segundo através das funções desempenhadas
pela cidade (...). Devemos, contudo, notar que o núcleo urbano por
pequeno que seja, propicia um novo tipo de diferenciação social.
Nestas trezentas casas de terra e palha, na sua maior parte, é traçada
uma linha divisória invisível, mas inviolável, entre “a sociedade” e a
pobreza.7
De colonização tardia, o território correspondente ao atual estado do
Tocantins, teve seu efetivo processo de ocupação e povoamento
exatamente dois séculos após o início da ocupação efetiva do Brasil.
Para tanto, deve considerar- se que o processo no Brasil foi
desencadeado na década de 1530, sendo que no território do antigo
norte goiano isto só veio ocorrer na década de 1730. Isto se levarmos
em conta o surgimento do primeiro arraial desse território em 1734.
Trata- se do aglomerado urbano que deu origem à atual cidade de
Natividade, hoje considerada patrimônio cultural da União, tendo sido
tombada em 1987 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional - IPHAN.
Entretanto, a diferenciação entre o processo brasileiro e o
“tocantinense” não se deu somente no distanciamento cronológico,
mas também no caráter de ocupação e do povoamento em si. É que,
enquanto o caso brasileiro verificou-se com características
predominantemente agrárias, o processo tocantinense ocorreu com
características urbanas, em função da própria natureza da atividade
mineradora que ensejou essa ocupação. Recorde-se que o território
aqui chamado “tocantinense” àquela época representava a parte mais
setentrional da então Capitania de Goiás, cujas primeiras descobertas
ao Sul haviam ocorrido no ano de 1725, um pouco depois das minas do
Cuiabá (1718). Essas, por sua vez, foram descobertas um pouco depois
dos achados das Minas Gerais, que se verificaram ainda na década de
1690. 8
Exemplificando essa aludida diferenciação (polarização) entre o
caráter agrário presente no início do povoamento brasileiro e o urbano
tocantinense, vale trazer o ponto de vista de Canabrava (1973), que
escreve: “... foi por intermédio da grande lavoura, sobretudo, que se
processou a ocupação e o povoamento definitivo da maior parte do
território brasileiro (...). A grande lavoura representa os próprios
fundamentos da economia brasileira colonial”.9
Em contrapartida, cite-se Palacin (1979), ao discorrer sobre o caso
oposto: “A primeira característica – e a mais original – do povoamento
da mineração é seu caráter urbano – ou quase urbano (...). Outras
características inerentes ao povoamento minerador: a ocasionalidade,
e, em conseqüência, a instabilidade”. 10
Também em Palacin, Garcia e Amado (1995), há referência à
diferenciação dessas características de povoamento. Para esses
autores, durante os séculos XVI e XVII a população era eminentemente
rural “e os poucos centros urbanos (...) funcionavam como apêndices
do vasto interior atomisado”. Já com a mineração, segundo afirmam, “a
situação inverteu- se: os núcleos urbanos, surgidos da concentração
mineira, congregaram a maioria da população, marcando o ritmo da
vida e das mentalidades...”. 11
Após considerar o caráter urbano dos inícios da efetiva ocupação e
povoamento das terras do antigo norte goiano, vale agora uma
tentativa de breve caracterização desse urbanismo nascido nos
arraiais das minas auríferas. Nesse sentido é fundamental levar em
conta aspectos do estilo das cidades e do urbano no Brasil, então
colônia portuguesa, lembrando que Holanda (2004) estabelece algum
paralelo entre o urbanismo da América portuguesa e da espanhola, e
considera que nesse aspecto a Espanha demonstrou maior zelo. “Um
zelo minucioso e previdente dirigiu a fundação das cidades espanholas
na América”. 12
Assim, conforme anota esse autor, o próprio traçado dos centros
urbanos na América espanhola “denuncia o esforço determinado de
vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste” e,
completando essa menção àquele modelo de urbanismo, afirma que nas
cidades dessa parte espanhola da América. “As ruas não se deixam
modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo”. Até mesmo
porque, de acordo com o texto, existe uma legislação a prevenir de
antemão “qualquer fantasia e capricho na edificação dos núcleos
urbanos”. 13
Detendo-nos agora realmente aos casos regionais e locais, nessa área
do antigo Norte e Nordeste de Goiás, onde estão situadas as chamadas
cidades históricas do Tocantins, com origem nos arraiais mineradores,
como: Natividade (1734) 14, cidade já mencionada como patrimônio
cultural da União; Pontal (1738), arraial que está na origem do arraial
de Porto Real do Pontal, época do Reinado, depois Porto Imperial,
época do Brasil Monárquico e, finalmente, Porto Nacional, a partir da
proclamação da Republica no Brasil; Arraias (1730); Arraial do Carmo,
hoje cidade de Monte do Carmo (1746); e várias outras cidades
históricas tocantinenses.
Ao escrever sobre o urbanismo minerador, Coelho (2001) faz
importantes considerações que facilitam de certa forma, a
compreensão acerca desta temática. Por exemplo, registra que este
modelo de urbanismo seguiu a “forma tradicional mineradora” de
implantar uma capela
em um local mais alto e plano, com a mesma rusticidade das
habitações (...), dedicada à invocação do santo do dia da instalação do
assentamento (...). À medida em que o núcleo se consolidava, essas
capelas- ranchos eram substituídas por construções mais estáveis, com
a utilização de materiais de reconhecida durabilidade. 15
Em seu texto sobre cidades do ciclo do ouro no nordeste goiano,
Galvão (1993) apresenta aspectos do urbanismo minerador de cidades
tocantinenses como Aurora, Taguatinga e Natividade. No referido
estudo o autor apresenta alguns dados documentais demonstrando a
ocorrência de algum cuidado oficial com os traçados urbanísticos,
representando isso a exceção que confirma a regra apresentada por
Holanda no estudo já referido anteriormente, em que, segundo relata,
Portugal não impôs legislação que regulamentasse a construção de
cidades. Na própria Bahia, afirma Holanda, “o maior centro urbano da
colônia, um viajante do princípio do século XVIII notava que as casas
se achavam dispostas segundo o capricho dos moradores”. 16
Na verdade, tecendo um paralelo entre o texto de Holanda e de
Galvão, nota- se concordância, uma vez que este último afirma: “A
proximidade destes núcleos às jazidas de ouro descartam qualquer
possibilidade de planejamento”. E, citando Silva e Souza, afirma:
“Ainda que Silva e Souza afirme, no caso de Arraias, que o ...’ Sr. D.
Luís de Mascarenhas assistiu à sua repartição e alinhou suas ruas’,
com certeza restringiu-se o governador, a indicar os locais dos
principais edifícios públicos. Sua implantação em uma encosta não tão
suave, suas ruas nem tão alinhadas, nos dão esta certeza”. 17
De qualquer maneira, Galvão afirma transcrever trecho de um
documento
onde D. João indica ao Conde de Sarzedas D. Antônio Luís de Távora,
que “se assinale a área para o edifício da Igreja, capaz de receber
competente número de fregueses ainda que a população se aumente e,
que façais declinar por linhas retas a área para as casas a seus
quintais e se designe o lugar para se edificarem a caza da Câmara e
das Audiências e Cadeya e mais oficinas públicas que todas devem
ficar na área determinada para as cazas dos moradores as quais pelo
exterior sejão todas no mesmo perfil, ainda no interior as faça cada um
dos moradores á sua eleyção de sorte que em todo tempo se conserve a
mesma fermosura da terra e a mesma largura das ruas...” 18
Para Galvão, à luz da documentação poderia ter razão Manoel
Rodrigues Ferreira, porém acha pouco provável que D. Luís de
Mascarenhas fosse deslocar a vila para local distante das jazidas, à
procura de local “plano e adequado a um possível traçado xadrez”. O
certo é que, segundo Galvão, na prática sempre prevalecia o ajuste da
rigidez das leis às situações peculiares locais e aos aclives e declives
das beiras dos rios. “E assim, fatalmente, iriam entortando as ruas
direitas, moldando-se naturalmente ao relevo via de regra acidentado”.
19

O Urbanismo Modernizante da Belém-Brasília (Século XX)


Isolamento. Deserto humano. Abandono. Eram palavras que, entre
outras de igual peso, freqüentavam as primeiras linhas de qualquer
escrito acerca do antigo Norte de Goiás. Palavras ideologizadas, com
espaço nas crônicas, prosa e verso, letras e até nas melodias das
canções, nos discursos políticos inflamados a justificar candidaturas e
também ideologizadas na historiografia.
Aquelas palavras começaram a ser cunhadas já nos primeiros anos do
povoamento da região, ainda em pleno momento de enorme quantidade
de ouro que se extraía nas minas do Tocantins. Há registros na
historiografia dando conta que, com a argumentação de que essas
minas eram as mais abundantes da Capitania, adotou- se uma tributação
diferenciada para as minas do Norte, gerando o primeiro grande
descontentamento naquele território.
“Na dinâmica da economia de mineração, primeira metade do século
XVIII, assinale- se a manifestação inicial de oposição do Norte ao
Centro-Sul de Goiás. Esse fato aconteceu em razão de ser determinado
um imposto de capitação às minas do Norte mais elevado do que as
minas dos Goyazes”. 20
Tudo isso justificou o início das lutas ou do movimento separatista,
desencadeado ainda nas primeiras décadas do século XIX, que foi
retomado em vários momentos posteriores, mas que sempre caía no
vazio. Justificou também a eleição de pessoas do Norte por longo
tempo, pelo simples fato de levantar a bandeira de criação do Estado
do Tocantins. Justificou até mesmo os inícios de nossas próprias
pesquisas sobre a construção da rodovia Belém-Brasília (BR-153). É que
o grande empreendimento, contemplado no Plano de Metas do governo
JK, saiu do sonho à realidade rompendo o velho isolamento e
contribuindo também com a desconstrução do discurso sobre o
isolamento.
Nesse sentido, a abertura daquela estrada trás aos discursos
eleitoreiros uma nova possibilidade, passando a justificar a criação do
Estado em função do “grande progresso” 21, que ganhou novas e
progressistas cidades. É um pouco com esse sentido que está sendo
colocado este item no presente texto. E a partir de agora já é possível
arriscar uma colocação: as cidades, enfim, a nova malha urbana da
rodovia veio com fisionomia bem mais parecida com o futuro do que
com o passado. Explica- se: a nova paisagem urbana veio a se
identificar muitas vezes melhor com a futura cidade de Palmas, capital
planejada já beirando o século XXI, do que com tudo que veio antes.
Para comprovar essa aparência com o futuro, basta pegar as amplas
avenidas da cidade de Gurupi, comparar com as estreitas ruas e becos
da cidade de Natividade e com as amplíssimas avenidas de Palmas.
Esse aspecto visual, ao lado de muitas implicações sócio-culturais
colocaram-nos diante de algumas perguntas a nível mental. No aspecto
visual, a presença clara de certo planejamento na cidade de Gurupi ,
visível a olhos nus: traçado urbano, com largas avenidas todas no
sentido norte- sul, que é o sentido da rodovia, cruzadas por ruas no
sentido leste-oeste. 22
No aspecto sócio- cultural, percebeu-se o enorme volume de migrações
observando-se visível e rápida mudança de costumes e hábitos do
cotidiano, principalmente, com o considerável contingente oriundo das
regiões Sul e Sudeste do país.
Conforme Arbués,
Por onde andamos, certamente vamos nos deparar com grupos oriundos
do Nordeste, Sudeste ou Sul (...). O processo modernizador que atinge o
norte goiano, que após viver isolado passa a ser tocado de perto pelo
capital, favoreceu, principalmente, a faixa compreendida entre a BR-
153 e o Vale do Araguaia (...). Como se observa, a conjuntura do norte
goiano, nas ultimas décadas, foi marcada por mudanças estruturais
abrindo espaço para o processo dito modernizador, que teve como
ápice a migração sulista, especialmente da frente gaúcha. 23
Foram inegáveis os impactos de urbanização e modernização do antigo
Norte Goiano com o advento da rodovia BR-153 a partir do final da
década de 1950. Sem dúvida, entretanto, esses processos ocorreram de
modo desequilibrado. Basta ressaltar que a urbanização decorrente
daquele empreendimento se limitou a uma estreita malha urbana ao
longo da estrada. Assim, o novo urbanismo da Belém-Brasília trouxe,
em conseqüência, enorme impacto negativo no que se refere ao
conjunto de cidades que existiam às margens do rio Tocantins,
responsáveis pela dinâmica da vida urbana naquela região, através de
várias décadas.
Assim, com o advento das novas cidades que formaram a nova e
dinâmica malha urbana ao longo da estrada, as antigas e importantes
cidades que foram entrepostos do comércio fluvial (Tocantinópolis,
Pedro Afonso, Porto Nacional, Peixe e Paraná) isso perderam
importância, conforme Aquino (2004), que cita Heliane Prudente Nunes:
Localizados à margem direita do rio Tocantins, muitos dos centros
iriam desaparecer, em importância e função quando da abertura da BR-
153. Isto porque, em primeiro lugar, o transporte fluvial perdeu
importância e não pôde concorrer com o transporte rodoviário (...), em
segundo lugar, não tendo ainda sido construídas pontes sobre o rio, as
cidades ficaram isoladas (...) e parte das funções que exerciam
passaram a ser executadas pelos novos centros.24
Alguma mudança que se refere às influéncias sulista no estilo
urbanístico, mais precisamente do ponto de vista da estética e dos
modos de morar, é demonstrada por um engenheiro entrevistado por
Arbués (2004), cujo nome não ficou registrado pela autora:
houve uma mudança muito grande na mentalidade das pessoas aqui da
região, influenciada por nós mesmos (...). Não existia aqui por parte da
população local uma preocupação quanto ao conforto e segurança
externa da casa e também quanto à estética das construções (...). Elas
traziam a casa da fazenda para dentro da cidade. A cozinha tinha que
ser enorme, era o lugar onde reunia todas as pessoas da casa, às vezes
era até separada da casa. Hoje já não existe isto mais, há uma
preocupação até com projetos interiores, divisão dos setores da casa.
Procuram construir mais no estilo da gente, aproveitando melhor os
espaços.25
Sobre o aspecto dos (des) cuidados com o meio ambiente na abertura
daquela rodovia federal, veja-se aspectos do depoimento do engenheiro
Jefferson Bueno que trabalhou na obra, conforme entrevista concedida
a Aquino (2004): “Naquela época não se via assim – com a clareza que
se vê hoje – , não só o perigo da internacionalização da Amazônia,
como também não se via o perigo do meio ambiente ser profundamente
atingido”.26

O Moderno Urbanismo de Palmas (Séculos XX-XXI)


A cidade de Palmas iniciou sua construção, já em ritmo acelerado, a
partir do lançamento festivo de sua pedra fundamental, ocorrido na
manhã do dia 20 de maio de 1989, seguindo um projeto urbanístico
assemelhado ao de Brasília, guardadas as proporções. O fato é que a
esmagadora maioria dos escritos sobre a capital tocantinense costuma
fazer essa comparação. Muitas vezes ocorrem menções às cidades de
Belo Horizonte (final do século XIX), Goiânia, década de 1930 e
Brasília, final da década de 1950.
Em matéria publicada na Revista Veja, assinada por Ferraz (1993),
assim se refere a Palmas:
... a cidade é uma cópia modesta do plano piloto de Brasília. Seu
palácio, o centro de tudo, é um cover dos palácios do planalto e do
Itamaraty – não faltavam sequer rampa e sacada como parlatório.O
resto é um traçado viário sem grande imaginação, em que ruas de
pedestres e ruas de superquadras entrelaçam-se com os eixos
monumentais e em que os cruzamentos são evitados por rótulas. 27
Ao pesquisar Palmas, Barbosa (1999) busca no modelo de Brasília a
compreensão da capital tocantinense. Este autor percebe Brasília
como sendo a primeira grande cidade mundial nascida e
completamente edificada em plena era técnico-científica. Daí, segundo
Barbosa, as possibilidades construtivas apresentadas na capital de
Brasília, que, segundo este autor apresenta também “soluções
urbanísticas de deixar invejosos os arquitetos do passado”. 28
Segundo Barbosa, o projeto arquitetônico adotado na construção da
capital tocantinense segue mesmo uma “tendência do pós-
modernismo”, comparando com o traçado de Brasília, uma vez que em
ambos os casos “dois eixos principais se cruzam, formando uma cruz”.
No caso de Palmas, Barbosa refere- se ao palácio Araguaia, que situa-se
na confluência das duas avenidas, que receberam os nomes de
Juscelino Kubitschek e de Teotônio Segurado. Juscelino representaria
a imagem do desenvolvimento, enquanto Teotônio “se constituiria no
símbolo histórico” da luta pela criação do estado do Tocantins.
Ainda de acordo com Barbosa, nessa “simetria” de Palmas com
Brasília, a capital tocantinense “reproduz várias semelhanças”. E,
continuando esse raciocínio, apresenta o fato de Palmas ser “uma
cidade sem bairros, sem ruas, sem esquinas”. 29
Também em Aquino (2002), apesar do título “Palmas: na praça dos
símbolos uma esquina de tradição e modernidade”, a palavra “esquina”
tem apenas um sentido figurado, “simbólico”, uma vez que a praça
referida é a dos Girassóis, enorme praça onde está situado o Palácio
Araguaia, no “cruzamento” dos eixos JK / Teotônio Segurado. Segundo
o referido texto, esta praça representa uma “encruzilhada de épocas,
onde os símbolos que resgatam traços da história se cruzam com sinais
futuristas, onde as representações instigadoras da preservação da
ecologia e da cultura tradicionais convivem com destruição ambiental
e cultural”. 30

Notas
Cf. Buarque de Holanda Ferreira, 1995, (verbete urbanismo).
Bardet, 1990, p. 8-9.
Choay, 1992, p.2.
Harouel, 1990, p.7.
Idem, p. 8.
Cf. Aquino, 2002, p. 79.
Palacin, 1990, p. 28-9.
“É costume dizer que o descobridor de Goiás foi Anhangüera. Isto não
significa que ele fosse o primeiro a chegar a Goiás com intenção de se
fixar aqui”. Cf. Palacin e Moraes, 1994, p.7.
Canabrava, 1973, p.192.
Palacin, 1979, p. 83-4.
Cf. Palacin, Garcia e Amado, 1995, p. 33.
Holanda, 2004, p. 95-6.
Idem, p. 96.
Com o surgimento do primeiro arraial goiano às margens do Rio
Vermelho em 1727 (arraial este que teve os nomes de Santana, Vila Boa
e finalmente Cidade de Goiás, tornando capital do Estado até sua
transferência para Goiânia), logo em seguida multiplicam-se os
descobertos, espalhados inicialmente naquela região, avançando
posteriormente em direção ao norte, até serem descobertas as ricas
minas do Tocantins, no início dos anos 30 daquele século (cf. Palacin,
1976. Vê também: Coelho, 2001).
Coelho, 2001, p. 173.
Holanda, 2004, p. 109.
Galvão, 1993, p. 103- 4.
Idem, p. 104- 5. O documento aqui transcrito por Galvão foi apresentado
por Manoel Rodrigues Ferreira, que, segundo Galvão, “segue os passos
de Nestor Goulart e tenta contradizer a afirmação de Sérgio Buarque de
Holanda, de que, Portugal ‘cuidou menos de construir, planejar ou
plantar alicerces, do que feitorizar uma riqueza fácil e quase ao
alcance da mão’, ao contrário da Espanha, que ‘tinha uma legislação
rica sobre o assunto’” (cf. p. 104).
Idem, p. 105.
Cavalcante, 2003, p. 21. vê também: Palacin, 1990, p. 9 e demais obras
desse autor enfocando a mineração do ouro em Goiás.
“... a ocupação intensiva e o desenvolvimento econômico regional,
estimulado pela estrada, favoreceram o movimento separatista dos
nortenses que culminou com a criação do estado do Tocantins” (cf.
Borges, 1998, p. 169).
Cf. Aquino, 1996, p. 17-8.
Arbués, 2002, p. 415- 6.
Apud Aquino, 2004, p. 334.
Apud Arbués, 2004, p. 410.
Apud Aquino, 2004, p. 330.
Ferraz, 1993, p. 47.
Barbosa, 1999, p. 106.
Idem, p. 101- 2.
Aquino, 2003, p. 37.

Referências Bibliográficas
AQUINO, N. A. A construção da Belém-Brasília e suas implicações no
processo de urbanização do estado do Tocantins. In: GIRALDIN, O.
(org). A transformação histórica do Tocantins. 2 ed. Goiânia: Ed. UFG,
2004, p. 315-350.